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segunda-feira, 30 de março de 2026

O que o PS ainda não percebeu — e talvez já não consiga perceber!

O artigo de José Manuel Fernandes que junto tem o mérito raro de enunciar, com clareza desarmante, aquilo que grande parte do sistema político português continua a recusar admitir: o regime mudou — não por vontade das elites, mas por imposição dos eleitores.
Durante décadas, o sistema assentou num equilíbrio confortável entre dois partidos centrais que, alternando no poder, garantiam não apenas a governação, mas também o controlo efectivo do regime. Esse modelo, herdeiro do consenso pós-1982, permitia ao PS oscilar entre a ambição de hegemonia e a função de charneira, sempre com a convicção implícita de que nada de estrutural poderia acontecer fora do seu perímetro de influência.
Esse mundo acabou.
O ponto de ruptura não é apenas eleitoral — é estrutural. 
A partir de 2015, com a opção do PS de António Costa por uma governação sustentada à esquerda, rompeu-se um conjunto de convenções não escritas que haviam garantido estabilidade ao sistema. Ao fazê-lo, o PS abriu a porta a uma lógica de polarização e de desgaste que, inevitavelmente, viria a produzir reacções fora do eixo tradicional.
O surgimento de um terceiro pólo político relevante — consolidado nas eleições de 2024 e 2025 — não é um acidente, mas o resultado previsível de um conjunto de factores acumulados: degradação dos serviços públicos, bloqueios estruturais à mobilidade social, afastamento crescente entre elites e cidadãos, perda de soberania efectiva em áreas críticas e pressão migratória sem precedentes recentes.
Portugal, afinal, não era excepção.
O que se observa é a tradução nacional de uma tendência europeia mais vasta: a fragmentação dos sistemas partidários tradicionais e a emergência de forças que capitalizam o descontentamento dos sectores que se sentem excluídos do progresso prometido. A ilusão de que o país estava imune a essa dinâmica revelou-se, como tantas outras, uma construção confortável — mas falsa.
Perante esta realidade, seria expectável um mínimo de adaptação estratégica.
Mas é precisamente aí que o PS falha.
O congresso socialista, longe de representar um momento de reflexão, confirmou antes a persistência de uma leitura desfasada do país. Insiste-se na narrativa de uma bipolarização artificial, tenta-se reduzir o novo quadro político a uma anomalia passageira e, sobretudo, evita-se qualquer confronto sério com os erros acumulados ao longo de anos de governação.
Mais grave ainda: mantém-se a tentação de preservar o controlo do aparelho de Estado — seja através de acordos tácitos, seja pela gestão das chamadas “quotas de regime” — como se essa arquitectura institucional pudesse sobreviver intacta a uma transformação tão profunda do eleitorado.

No fundo, o PS continua a comportar-se como partido dominante de um sistema que já não existe.
O episódio em torno do Tribunal Constitucional é, neste sentido, exemplar. 
A contradição entre o discurso de exclusão política e a prática de acomodação institucional revela não apenas oportunismo, mas uma incompreensão fundamental do momento político.

A incapacidade de fazer o luto
E talvez o problema maior resida precisamente aí. No luto pelas políticas falhadas, pelos erros de governação, pelas rupturas que ajudou a provocar e cujas consequências agora recusa assumir. Sem esse exercício de reconhecimento, não há aprendizagem — apenas repetição.
Ora, a história política raramente perdoa a quem insiste em interpretar um tempo novo com categorias antigas.
Porque quando um partido deixa de compreender a sociedade que pretende governar, não é apenas a sua estratégia que falha — é a sua própria razão de existir que começa a dissolver-se.
E, como tantas vezes acontece, o regime só percebe que mudou… quando já não manda nele.

domingo, 15 de março de 2026

a ilusão dos triunviratos

Quando três poderes tentam governar, a política acaba sempre por escolher um vencedor
A política portuguesa atravessa um momento curioso: perante um impasse entre forças partidárias de peso comparável, começa a insinuar-se a expectativa de que a solução virá da moderação, do diálogo e da boa vontade. Um Presidente sensato, dizem alguns, poderá juntar as pontas soltas e desbloquear as reformas necessárias.
A ideia é reconfortante — mas profundamente ingénua.
A história política mostra que sistemas dominados por três forças equivalentes raramente produzem estabilidade ou reformas profundas. Pelo contrário: tendem a gerar paralisia, negociação permanente e diluição de responsabilidades. E quando a situação se torna insustentável, a resolução surge quase sempre da mesma forma: um dos actores prevalece e os outros cedem ou desaparecem.
Não é uma particularidade portuguesa. É uma regularidade histórica.
A lição romana: os triunviratos nunca foram estáveis
O exemplo clássico encontra-se na própria origem do conceito de triunvirato.
No final da República Romana formou-se o chamado Primeiro Triunvirato, uma aliança informal entre três das figuras mais poderosas do seu tempo: Júlio César, Pompeu e Marco Licínio Crasso.
O acordo parecia perfeito. Cada um dos três líderes dispunha de recursos políticos diferentes: prestígio militar, influência no Senado ou poder financeiro. Juntos, dominavam Roma.
Mas o equilíbrio era ilusório.
A morte de Crasso na batalha de Carras, em 53 a.C., destruiu o frágil triângulo de poder. O sistema bipartiu-se imediatamente e o conflito entre César e Pompeu conduziu à guerra civil. O resultado é conhecido: César venceu e a República entrou numa fase irreversível de transformação.
Poucos anos depois surgiu um novo arranjo político — o Segundo Triunvirato, composto por Octaviano, Marco António e Lépido.
Também aqui o objectivo era governar em conjunto e estabilizar o sistema. Também aqui o equilíbrio não durou. Lépido foi rapidamente afastado e o conflito entre António e Octaviano terminou na batalha de Áccio, que abriu caminho ao Império Romano.
A lição romana é clara: os triunviratos não estabilizam o poder — apenas adiam a decisão sobre quem o exercerá sozinho.

A repetição do padrão na Europa moderna
A Europa contemporânea oferece inúmeros exemplos menos dramáticos, mas estruturalmente semelhantes.
Na França da IV República, após a Segunda Guerra Mundial, o sistema político fragmentou-se entre várias forças que procuravam governar através de coligações permanentes. O resultado foi uma instabilidade crónica, com governos efémeros e incapacidade de resolver crises estruturais.
A situação tornou-se tão insustentável que acabou por abrir caminho ao regresso de Charles de Gaulle e à criação da V República, um sistema institucional desenhado precisamente para evitar a paralisia dos equilíbrios partidários instáveis.
A Itália da chamada Primeira República oferece um caso semelhante. Durante décadas, a multiplicação de partidos e alianças produziu governos frágeis e negociações intermináveis. As reformas estruturais tornaram-se quase impossíveis, até que o sistema colapsou no início da década de 1990.
Mesmo em democracias consolidadas, a fragmentação partidária produz frequentemente governos minoritários dependentes de equilíbrios delicados. O resultado raramente é a estabilidade; é, antes, a gestão permanente do impasse.~

O erro recorrente: confundir consenso com governação
Existe uma ideia profundamente enraizada na cultura política europeia segundo a qual quanto maior for o consenso, melhor será a governação.
Mas esta crença ignora um facto fundamental: consensos são úteis para estabilizar decisões, mas raramente servem para produzi-las.
A política democrática vive de escolhas. Escolher implica preferir uma estratégia em detrimento de outra, assumir riscos e aceitar que nem todos os actores ficarão satisfeitos. Quando se tenta conciliar permanentemente posições incompatíveis, o resultado tende a ser um compromisso que neutraliza os efeitos de todas elas.
Nesse cenário, ninguém perde — mas também ninguém governa verdadeiramente.
Mais importante ainda: a responsabilidade política dilui-se. Se todas as decisões resultam de compromissos colectivos, torna-se difícil identificar quem deve ser responsabilizado pelos resultados. A política transforma-se então num exercício de negociação permanente, onde o mérito e o erro são igualmente distribuídos.
É precisamente esse o perigo dos sistemas tripolares.

Como terminam os sistemas tripolares
A experiência histórica mostra que os sistemas dominados por três forças comparáveis resolvem-se normalmente de três maneiras.
A primeira é o colapso de um dos actores, provocado por derrota eleitoral, crise interna ou perda de legitimidade.
A segunda é a absorção política, quando uma das forças se aproxima de outra até formar um bloco dominante.
A terceira — e mais frequente — é simplesmente a prevalência progressiva de um dos pólos, que acaba por impor a sua agenda enquanto os restantes perdem capacidade de influência.
Em todos os casos, o resultado final é semelhante: o sistema deixa de ser tripolar.

A política como decisão
A política moderna gosta de apresentar-se como um exercício de diálogo permanente. É uma imagem tranquilizadora e, em certa medida, necessária numa sociedade democrática.
Mas a história recorda-nos algo menos confortável: governar é decidir. E decidir implica, inevitavelmente, que uma visão prevaleça sobre outras.
Os triunviratos — formais ou informais — tendem a adiar essa decisão. Funcionam como mecanismos de gestão do impasse, não como instrumentos de governação efectiva.
Mais cedo ou mais tarde, porém, o impasse resolve-se. E resolve-se quase sempre da mesma maneira:
Um dos actores vence.
Os outros cedem.
Até lá, a política continua a representar o seu teatro habitual de consensos e boas intenções — enquanto o país permanece suspenso entre propostas incompatíveis.
A história de Roma recorda-nos que os triunviratos raramente governam durante muito tempo.
Limitam-se a preparar o momento em que alguém governará sozinho.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Um Partido de perder!

Durante décadas, o Partido Socialista foi, em Portugal, um partido dividido — mas não fragmentado. As suas grandes disputas foram quase sempre pessoais, geracionais ou circunstanciais, nunca verdadeiramente ideológicas. Mário Soares contra Salgado Zenha, Soares contra Manuel Alegre: combates duros, sim; mas travados dentro de uma mesma casa, com uma ideia comum de partido e de regime.
Hoje, isso acabou.
As eleições presidenciais tornaram-se o espelho cruel dessa mutação. O exercício de imaginar o voto dos antigos líderes do PS é mais do que uma curiosidade política: é um diagnóstico. Um partido em que os seus antigos secretários-gerais votam em quatro candidatos distintos não está “plural”; está desagregado.
O PS deixou de ser um partido com correntes. Tornou-se um arquipélago.

A origem do estilhaçamento: Sócrates, a bancarrota e a mentira fundadora
A fragmentação começa com José Sócrates — não apenas com a sua governação, mas sobretudo com a forma como ela terminou. A bancarrota de 2011 não foi apenas financeira; foi moral, estratégica e identitária.
Até aí, o PS conseguia oscilar entre o discurso social e a prática orçamental com relativa impunidade. A intervenção externa acabou com essa ambiguidade. Pela primeira vez, o partido foi obrigado a escolher entre a ilusão ideológica e a realidade contabilística.
António José Seguro fez essa escolha. Pagou por ela.
Ao aceitar o quadro imposto pela União Europeia e pelo FMI, Seguro assumiu a heresia máxima dentro de um PS ainda intoxicado por retórica soberanista e voluntarista. Foi atacado, sabotado e, por fim, derrubado. Pedro Nuno Santos — então jovem promessa — chegou ao ponto de defender que a dívida não devia ser paga. Não era apenas uma divergência táctica: era uma ruptura com a própria ideia de Estado responsável.
A partir daí, o PS nunca mais recompôs a sua coluna vertebral.
A geringonça: o poder como anestesia ideológica
Se Sócrates abriu a fenda, a geringonça alargou-a até à ruptura.
Em 2015, o PS fez algo que nunca tinha feito: aliou-se formalmente às extremas-esquerdas para governar. Muitos socialistas detestaram a solução. Mas calaram-se. O poder tem esse efeito: suspende a consciência crítica.
O problema é que a geringonça não foi apenas uma solução parlamentar. Foi uma mutação identitária. Ao aceitar governar dependente do Bloco, do PCP e - mais tarde, indirectamente -  do Livre, o PS deixou de ser o eixo do sistema para passar a ser apenas mais uma peça de uma frente ideológica.
A partir desse momento, o partido passou a viver dividido entre dois projectos incompatíveis:
  • · um PS centrista, europeu, social-democrata no sentido clássico; e
  • · um PS de frente popular, refém da agenda da esquerda radical.
Esses dois PS coexistem hoje — mas já não se reconhecem.
As presidenciais como sintoma, não como causa
É neste contexto que surge a candidatura de António José Seguro. E é por isso que ela está condenada — não por falha do candidato, mas pela doença do partido.
O PS que apoia Seguro não é o PS que governa câmaras com o Bloco. Não é o PS que flerta com greves políticas, nem o PS que tolera a captura do discurso social por sindicatos ideologizados. A recente “greve geral” apenas agravou o problema: empurrou votos socialistas para candidatos do Bloco e do PCP, fragmentando ainda mais o eleitorado que, teoricamente, deveria convergir.
O resultado pode ser histórico — e não no bom sentido: o pior desempenho de sempre de um candidato presidencial apoiado pelo PS.
Não é Seguro que falha. É o PS que já não existe como unidade política coerente.
O espelho europeu: quando os partidos socialistas se desfazem
O que se passa em Portugal não é excepção. É atraso.
Em França, o Partido Socialista colapsou após a presidência de Hollande, esmagado entre o macronismo centrista e a esquerda radical de Mélenchon. Restou um esqueleto eleitoral que acabou diluído em alianças artificiais.
Em Itália, o velho campo socialista dissolveu-se em fusões sucessivas, dando origem a partidos híbridos, sem identidade clara, permanentemente dependentes de coligações instáveis.
Em Espanha, o PSOE sobrevive — por agora — à custa de alianças com forças que minam a própria ideia de Estado nacional, pagando o preço de uma crescente perda de credibilidade institucional.
Na Alemanha, o SPD mantém-se apenas como gestor cansado de consensos, sem narrativa mobilizadora, eclipsado ora pelos Verdes, ora pela nova direita.
Em todos os casos, o padrão repete-se:
  • · perda de identidade ideológica;
  • · alianças tácticas transformadas em dependências estruturais;
  • · eleitorado tradicional desmobilizado; e
  • · emergência de partidos “homónimos” - uns mais radicais, outros mais tecnocráticos - que acabam por dividir, fundir ou substituir o original.
o PS português chegou tarde ao seu próprio declínio?
O PS português vive hoje aquilo que os seus congéneres europeus viveram há dez ou quinze anos. A diferença é que chega mais tarde — e, talvez por isso, com menos margem de manobra.
Já não se trata de escolher líderes. Trata-se de escolher o que o partido é — ou se ainda é alguma coisa.
Enquanto essa escolha não for feita, o PS continuará a fragmentar-se em eleições presidenciais, autárquicas e legislativas. Continuará a perder votos para a esquerda radical e credibilidade para o centro. Continuará, sobretudo, a ser um partido que fala a várias vozes — e já não convence ninguém.
O problema não é o candidato.
O problema é o partido.

domingo, 30 de novembro de 2025

“Portugal e Espanha: Duas Margens, Um Mesmo Pântano”

Há quem ainda acredite que Portugal e Espanha vivem em realidades políticas paralelas, distintas, incomparáveis. Mas basta olhar para o que hoje se passa em Madrid — e recordar o que vivemos em Lisboa na última década e meia — para perceber que não estamos perante realidades diferentes: estamos perante a mesma doença com sintomas apenas ligeiramente alternados.
A crise moral e política que envolve o PSOE e Pedro Sánchez seria, aos olhos de muitos portugueses, um choque… se não tivéssemos vivido Sócrates, os seus mandatos, os seus negócios, as suas anedotas amargas, e a constelação de “amigos” cujos nomes encheram o Processo que todos 
O Socialismo Ibérico e a Arte da Reunião Secreta
Em Espanha, fala-se hoje de reuniões clandestinas em caseríos do País Basco, onde se negociam votos, favores e futuros políticos com Otegi, Bildu e quem mais estiver disponível.
Em Portugal, chamámos a isto de outra maneira: reuniões na Covilhã, no Freeport, na casa de Paris, nas viagens do “amigo da Covilhã”, nos jantares discretos de São Bento, e nos corredores onde Sócrates garantia que tudo era “absolutamente falso”.
A semelhança é tão perfeita que até o léxico é familiar:
— “Não houve reunião nenhuma”, diz Sánchez.
— “É tudo mentira”, dizia Sócrates, com aquele ar de professor ofendido.
— “Não tenho nada a ver com isso”, repetia Costa sempre que os casos e casinhos dos seus camaradas começavam a subir de temperatura.
Do outro lado da fronteira, quem conduz políticos socialistas para negociações a três horas da madrugada chama-se Koldo García.
Entre nós chamou-se Armando Vara, Carlos Santos Silva, ou algum assessor que já ninguém lembra, mas de quem todos dependiam.
A Espanha não copiou Portugal: apenas seguiu o guião.
De Sócrates a Sánchez: a escolha do aliado “progressista”
Em Portugal, Costa transformou PCP e BE em parceiros de Governo numa geringonça que, apesar do romantismo mediático, foi apenas uma coligação para salvar o PS e satisfazer a gula ideológica da extrema-esquerda.
Em Espanha, Sánchez fez o mesmo — mas com uma diferença fundamental:
Costa precisou da extrema-esquerda; Sánchez precisou da extrema-esquerda, do independentismo e do separatismo.
Se em Portugal já era mau ver o PS entregar cadernos de encargos a Jerónimo e Catarina; em Espanha é patético ver o PSOE distribuir indulgências democráticas a Bildu, Junts e outras forças que, noutro contexto, seriam incompatíveis com a “saúde institucional” que tanto pregam.
Ambos vendem a mesma narrativa:
— “Para travar a direita, vale tudo.”
É o vale tudo progressista, uma espécie de indulgência moral que permite perdoar crimes, apagões judiciais, contradições e corrupções desde que a “direita” fique fora.
A Corrupção como Parente Próxima
O que hoje se investiga em Espanha — pagamentos em numerário, operações obscuras, telefonemas suspeitos, ministros em negação, secretários de Estado em pânico — é um mapa já conhecido dos portugueses.
Portugal teve o Processo Marquês, Vara, Santos Silva, as malas, a PT, o GES, o SIED, as assessorias milagrosas, as viagens providenciais, os cartões de crédito fraternais.
Espanha tem o “caso Koldo”, os pagamentos do PSOE, as transferências para Bildu e o aroma intenso de financiamento partidário “alternativo”.
Portugal teve a “culpa morreu solteira”.
Espanha tem o “não me lembro de nada”.
Ambos têm o PS.
O Método é o Mesmo: negar, negar, negar… confirmar sem querer
Se Sócrates transformou a negação num acto artístico (“não confirmo nem desminto, mas garanto que é falso”), Sánchez aperfeiçoou o estilo com uma leveza quase zen.
E se Costa era o maestro das “não-interferências”, Sánchez é o especialista das “reuniões que não existiram mas afinal existiram”.
A coreografia é sempre igual:
  1. Surge a denúncia.
  2. O Governo nega.
  3. Um assessor diz que não sabe.
  4. Alguém confirma sem querer.
  5. Outro nega outra vez.
  6. A imprensa amiga tenta abafar.
  7. O público assiste, incrédulo.
  8. O partido mantém-se firme - até ser impossível manter-se firme.
Já vimos este filme.
O título português foi “Sócrates: A Queda”.
O espanhol chama-se “Sánchez: A Tragédia em Actos”.
A Grande Semelhança Final
Tudo isto tem um ponto comum:
o socialismo ibérico acredita que o poder é um direito natural, não um mandato temporário.
- Quando perde maiorias, arranja arranjinhos.
- Quando não tem aliados, inventa alianças.
- Quando a lei incomoda, interpreta-se.
- Quando a investigação aperta, apela-se à “estabilidade”.
- Quando a democracia ameaça falar mais alto, grita-se “alerta antifascista”.
Em Portugal, chamámos-lhe geringonça.
Em Espanha, chamam-lhe progresso.
Na prática, é o mesmo: uma decadência institucional embrulhada em retórica moralista.
Dois países, Um mesmo aviso
 - Portugal passou por isto antes.
 - Espanha passa por isto agora.
Ambos os povos assistem a uma erosão progressiva da confiança, da transparência e da decência política.
Em Portugal, disfarçaram com slogans e optimismo vazio.
Em Espanha, disfarçam com discursos sobre “diálogo territorial” e “avanço democrático”.
Mas o essencial é igual:
quando o socialismo perde o pé, arrasta consigo tudo o que estiver por perto — do Estado à justiça, da economia à ética.
A lição é simples, e ibérica:
os povos toleram muito, mas não toleram tudo.
E quando chega a altura de acertar contas, a História tem sempre boa memória.
Por José Costa-Deitado (para o ReVisões)

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terça-feira, 14 de outubro de 2025

Quanto valerá a sede do Largo do Rato?

Não foi fácil para os socialistas venderem a ‘Solfé’, como carinhosamente era conhecida a sede do partido na rue de Solférino, ali tão pertinho do Museu D’Orsay e a dois passos da Assembleia Nacional, em Paris. Cultura e política; o elitismo puro e duro que os socialistas herdaram da vitória de François Mitterrand, fez 40 anos no passado dia 10 de Maio. O que os fez subir, fê-los cair.

Mitterrand foi, na Quinta República, o primeiro socialista a chegar ao Eliseu porque uniu o eleitorado que o apoiara na primeira volta (alguns operários, classe média e pensionistas) aos do Partido Comunista (maioritariamente operários). O povo, de acordo com a concepção marxista. Soares repetiu o feito cinco anos mais tarde. Em 1981, Jean-Marie Le Pen não conseguiu candidatar-se e a Frente Nacional nem sequer foi a votos. 40 anos passados, o PS francês vive na rua da amargura e a filha de Jean-Marie está praticamente garantida na segunda volta das presidenciais daqui a onze meses. 
O que é que aconteceu ao eleitorado do Partido Socialista francês?
A resposta é lapidar: vota na direita. Na agora denominada Reagrupamento Nacional.

Isto simplesmente sucedeu porque a esquerda francesa não evoluiu nem adaptou o discurso político à nova realidade. Não conciliou a até então defesa dos trabalhadores com a queda do comunismo e com o sucesso que foram os governos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. (É impressionante que ainda se sintam as ondas de choque provocadas por estes dois estadistas, mas é mesmo assim; talvez por isso tantos ainda menosprezem o seu legado reduzindo-o a um cariz meramente económico e esquecendo as alterações culturais que Thatcher e Reagan permitiram). Para se compensar, o PS francês refugiu-se na defesa dos jovens politicamente correctos, dos direitos adquiridos, das minorias (quaisquer que estas sejam), da cultura (o que quer que esta possa significar) e por aí em diante. Tornou-se elitista. Como resultado a sua base eleitoral fugiu para a extrema-direita.

Um exemplo claro deste fenómeno está espelhado na circunscrição de Aisne, a norte de Paris e uma região anteriormente com forte implantação da esquerda. Para termos uma ideia do desaire socialista na zona teremos de dar atenção à variação dos votos nas últimas décadas nesta circunscrição. Vejamos: nas presidenciais de 1965, Mitterrand alcançou o segundo lugar e foi à segunda volta contra Charles de Gaulle. Perdeu por menos de 20 mil votos. Já nas presidenciais de 1974, o mesmo Mitterrand venceu na primeira e na segunda voltas contra Valéry Giscard d’Estaing, feito que repetiu em 1981 na segunda volta (na primeira o candidato socialista viu parte da sua votação a ir para o comunista Georges Marchais que conseguiu mais de 20% dos votos expressos). Mas isto foi há muitos anos. No passado recente (2017) quem venceu na primeira volta já não foi o PS, mas a Frente Nacional com pouco mais de 35%; os socialistas ficaram-se pelos 4%. Quanto aos comunistas nem vê-los. Desapareceram do mapa. De salientar que nos anos 80 os comunistas também eram contra a imigração. O eleitorado, esse, continua no mesmo sítio só que vota na extrema-direita ao ponto de, nas eleições regionais deste Domingo, a luta eleitoral na região de Les Hauts-de-France, onde Aisne se situa, ser entre o presidenciável Xavier Bertrand (de direita) e Sébastien Chenu do partido de Marine Le Pen.

O que sucedeu aos socialistas e à esquerda francesa em geral devia ser um sério aviso à esquerda portuguesa. É certo que em Portugal o PS sobreviveu, apesar de incapaz de afastar um Primeiro-Ministro corrupto, como também se aguentou, apesar de responsável pela bancarrota do Estado português (que só a intervenção da troika e o governo de Passos Coelho evitaram). O sucesso do socialismo luso reside no dinheiro aparentemente grátis do BCE e na ausência de fracturas raciais como as que existem em França. Alicerça-se ainda numa boa parte do eleitorado que depende financeiramente do Estado e que vota na segurança e na estabilidade salarial.
Mas essa construção político-eleitoral que o PS montou não está isenta de riscos. Bastava que a inflação ressurja para que o BCE ponha termo à sua política monetária, ou simplesmente que a abrande; basta que uma pequena parte do eleitorado se farte da corrupção, do compadrio, das ligações familiares, das cercas sanitárias sem base constitucional mas feitas para pôr em xeque o presidente; basta que o PS deixe de garantir a maioria de governo e o eleitorado que quer ordem procure segurança noutras paragens; Nesse dia, não há volta a dar. Nesse dia os socialistas vão lamentar-se de Fernando Medina não ter assumido responsabilidades políticas por um acto administrativo que teve consequências políticas. Nesse dia, será tarde demais.

Até porque se tirarmos o pagamento de ordenados o PS tem pouco ou nada para oferecer. Salvar a TAP? Uma empresa falida que vamos ficar décadas a pagar. O SNS? Não será com certeza com as cativações, que são o preço dos aumentos salariais necessários para manter o eleitorado. Educação? O abandono em que o Estado deixou os mais desfavorecidos durante o confinamento não será a melhor folha de serviços. Cultura? A defesa de um feudo de beneficiários pode tornar-se num muro entre a população e o poder político. Investimento Público? O dinheiro que resta pouco mais serve que para pagar salários e pensões. Por alguma razão os socialistas encaram o Plano de Recuperação e Resiliência como um náufrago olha para uma bóia.
Não sei quem tomará o lugar do PS. Pode ser a extrema-direita? Pode. Uma de cariz lusitano, tão inculta e intelectualmente pobre quanto os actuais socialistas, também estes com características lusitanas. Digo actuais porque, a acontecer, alguns mudarão de campo. O mais certo é que as caras e as famílias sejam as mesmas. Se o eleitorado muda de ares, porque não também os políticos?

O ‘Solfé’ foi vendido por 45 milhões de euros em Outubro de 2018. Quanto é que valerá aquele edifício cor-de-rosa que fica no Largo do Rato?

sábado, 6 de setembro de 2025

a tenebrosa máquina de propaganda do Partido Socialista!

Em causa estava em causa uma controvérsia, aqui rebatida contra a vontade da pivot, vinda a público via jornal Expresso, com o reitor da UP, António Sousa Pereira, a denunciar supostas pressões para admitir candidatos sem nota mínima no concurso de acesso ao curso de Medicina por parte de pessoas já licenciadas.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

O fim da esquerda tradicional e o “efeito bumerangue” mediático

Estamos a assistir não apenas ao declínio da esquerda tradicional, mas também ao fim do sistema de bastidores que governou o país com alternância previsível entre dois partidos. O vazio que se abriu foi ocupado por uma nova força política que soube vestir a pele do antissistema.
O paradoxo é este: o que os média acreditaram ser o antídoto contra o CHEGA, pode muito bem ter-se tornado no seu principal aliado de crescimento.
As sondagens mais recentes, como a da Intercampus, confirmam duas realidades que se cruzam no presente político português:
O desgaste profundo do PS e a falta de uma alternativa clara no PSD.
O desaparecimento da esquerda radical como força eleitoral relevante.
O BE já não é novidade; o PCP perdeu bases sociais e influência sindical. A chamada extrema-esquerda sobrevive mais no tempo de antena mediático do que nas urnas. Essa deslocação do peso da política para os comentadores é, por si só, sinal de decadência.
O CHEGA e a revolta de duas gerações
Nesse vazio, emerge o CHEGA. É verdade que tem uma base sólida entre os mais velhos (acima dos 70 anos), mas também consegue atrair uma franja jovem, desiludida com a política tradicional e que encontra nas redes sociais um espaço de mobilização.
Para ambos, o denominador comum é a sensação de que o sistema faliu: a alternância previsível entre PS e PSD/CDS deixou de oferecer respostas.
O papel dos média: combate ou combustível?
Há uma ironia difícil de ignorar: a hostilidade militante dos chamados “média de referência” contra o CHEGA acabou por ser um combustível inesperado.
Nos mais velhos, provocou um reflexo de defesa: sentiram que o partido é alvo de uma perseguição injusta e, por isso, merece ser protegido.
Nos mais jovens, gerou uma atitude de desafio: se os jornalistas do regime o demonizam, então talvez seja precisamente essa a alternativa que quebra o conformismo.
Em ambos os casos, aquilo que pretendia ser confronto e exclusão transformou-se em legitimação e curiosidade.


quinta-feira, 7 de agosto de 2025

O PS português e o caminho francês: coligações à beira do abismo

As coligações autárquicas que o Partido Socialista português já começou a fechar (13 até ao momento, segundo o Diário de Notícias) são mais do que meras alianças tácticas — são um retrato da decadência de um partido outrora hegemónico que já não consegue andar sozinho. À semelhança do seu congénere francês, o Partido Socialista caminha para o abismo, tentando desesperadamente manter alguma influência através de parcerias com siglas menores como o Livre e o PAN.
Estes aliados preferenciais não são escolha ingénua, mas reflexo de um desespero político: o PS precisa do verniz urbano-progressista que o Livre e o PAN fornecem, mesmo à custa de coerência programática ou ligação às preocupações reais do povo português. Trata-se de uma esquerda cosmética, mais preocupada com linguagem inclusiva e activismo de sofá do que com o preço dos alimentos, o caos na saúde ou a insegurança nas ruas.

Entretanto, mantém a CDU à margem e rejeita o Bloco de Esquerda em diversos concelhos, considerando-o "radical". Como se o Livre ou o PAN não o fossem. Esta distinção selectiva revela mais sobre a estratégia de sobrevivência do PS do que sobre a realidade política dos parceiros: prefere coligações inócuas do ponto de vista eleitoral mas que lhe permitem manter alguma respeitabilidade no comentário mediático. 

O paralelismo com o Partido Socialista Francês impõe-se. Também em França, o PS tentou coligações para sobreviver — com os verdes, com a extrema-esquerda, com tudo o que se mexesse no campo "progressista" — acabando por perder a identidade, a confiança do eleitorado e a relevância nacional. Hoje, o PSF é uma sombra do que foi. Em Portugal, o risco é idêntico: um PS sem base social sólida, dependente de coligações artificiais, e cada vez mais longe da realidade concreta dos cidadãos comuns.
Estas coligações não são pontes para o futuro: são bóias de salvação mal amarradas a um navio que se afunda. E, tal como em França, o eleitorado acabará por procurar alternativas mais autênticas, mais firmes, mais coerentes. 
O tempo do tacticismo autárquico está a acabar.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

A Esquerda Que Se Afoga na Piscina da História

Ao lermos as análises de Rui Ramos e de João Marques de Almeida sobre a actual situação do Partido Socialista e da extrema-esquerda em Portugal, torna-se quase inevitável a metáfora que ambos sugerem — a de uma esquerda desesperada, lançada à água, debatendo-se para não afundar. Mas não porque a maré esteja especialmente forte. Afunda-se porque já não sabe nadar no tempo em que vive.
Rui Ramos, com a sua habitual precisão histórica, retrata o PS como um partido que, tendo perdido o rumo e a ligação ao país real, já só sabe fazer política de sobrevivência — não com ideias, mas com jogos parlamentares. Como um náufrago, tenta agarrar-se a qualquer bóia que encontre: ora ao Livre, ora ao Bloco de Esquerda, ora a uma suposta “defesa da democracia” contra os perigos que projecta no CHEGA. Mas quem observa de fora percebe o desespero: o PS de 2025 já não nada, apenas se debate. E quanto mais se agita, mais se afunda na irrelevância de um passado que não quer largar. Como nota Rui Ramos, se o país estivesse verdadeiramente nas mãos do PS, estaríamos de facto em piores lençóis. 
João Marques de Almeida, por sua vez, foca-se na extrema-esquerda — essa que já nem se lembra de sair da piscina. Insiste em slogans vazios, em causas que não mobilizam mais do que uma minoria ruidosa e urbana, e ignora o essencial: as pessoas comuns deixaram de a ouvir porque deixaram de a compreender. Ou melhor, porque perceberam que ela deixou de as representar. O autor descreve uma esquerda radical que fala sozinha, sem consciência de que a água lhe sobe até ao pescoço, sem perceber que o seu discurso é uma linguagem morta para quem procura segurança, trabalho e dignidade.

Ambas as análises convergem na constatação de que a esquerda portuguesa — tanto a dita moderada como a radical — está prisioneira de um tempo político ultrapassado. Incapaz de renovar ideias, alianças ou lideranças, mergulha cada vez mais fundo no vazio político e moral. Como um nadador que já não sabe qual a margem da piscina, debatem-se, agarram-se uns aos outros, e acabam por arrastar-se mutuamente.
Entretanto, cá fora, o país observa. Muitos já abandonaram as bancadas da velha piscina partidária. Alguns procuram novas margens. Outros, simplesmente, seguem em frente, conscientes de que não vale a pena tentar salvar quem insiste em não querer ser salvo — porque prefere a fidelidade a dogmas caducos à coragem de enfrentar o mundo como ele é.

O afogamento não é apenas uma metáfora do presente. É, cada vez mais, o destino inevitável de quem insiste em nadar contra o sentido da História.

terça-feira, 27 de maio de 2025

O pior cego!

O negacionismo político em Portugal continua, e é notável como jornalistas e comentadores persistem em ignorar que o cenário mudou profundamente após as eleições legislativas de 18 de Maio. O país político já não é o mesmo, mas há ainda quem continue agarrado à ilusão de que é possível excluir ou isolar um partido que foi democraticamente validado pelas urnas. A tentativa obstinada de marginalizar o CHEGA revela uma incapacidade preocupante em compreender e aceitar a nova realidade política.

O CHEGA, legitimado pelos votos, terá inevitavelmente direito a lugares institucionais importantes. Entre estes cargos estão a primeira vice-presidência da Assembleia da República e a liderança de Comissões Parlamentares fundamentais, como a Comissão das Finanças e do Orçamento. Além disso, será incontornável a presença deste partido em diversos órgãos essenciais ao funcionamento e supervisão democrática do Estado português. Refiro-me especificamente aos Conselhos Superiores de Segurança Interna, de Defesa Nacional, da Magistratura Judicial e do Ministério Público, bem como à fiscalização dos serviços secretos (SIS e SIRD).

Negar estas realidades não é apenas uma manifestação de incompreensão política, mas também um acto antidemocrático. Gostar ou não das opções políticas do CHEGA é uma questão pessoal e legítima; porém, negar-lhe o espaço institucional correspondente à sua representação democrática é negar o próprio princípio democrático. Os media e a classe política precisam rapidamente de ultrapassar o choque inicial e encarar o novo quadro político com seriedade e responsabilidade, deixando para trás um negacionismo que só alimenta tensões inúteis e fragiliza ainda mais a confiança nas instituições democráticas.

domingo, 25 de maio de 2025

PS e AD: a pressa do centrão que atropela o voto popular

A 18 de Maio, os eleitores portugueses enviaram um segundo recado claro às forças políticas. O veredicto das urnas foi severo para o Partido Socialista (PS), que sofreu uma das piores derrotas da sua história recente, e consagrou a coligação de centro-direita Aliança Democrática (AD) como vencedora, pela segunda vez embora minoritária . Num cenário político fragmentado — com o partido CHEGA a conseguir um resultado histórico ultrapassando  em deputados ao PS — esperava-se que os principais partidos fizessem uma pausa para reflectir. De facto, nas horas seguintes ao desaire, vários dirigentes socialistas falaram da necessidade de «reflexão profunda, lúcida e fria». Porém, na prática, essa reflexão ficou pelo caminho. O PS optou pela pressa, saltando «directo para os braços do primeiro candidato» disponível para a liderança, sem debate interno significativo. Assim, menos de uma semana após a derrota, o PS já tinha um novo líder oficioso e braços abertos à colaboração com a AD — um movimento que, na perspectiva de muitos, ignora a vontade popular expressa nas urnas.

Essa rapidez em alinhar com a força vencedora levanta suspeitas justificadas. Afinal, não terá o eleitorado votado por uma mudança de rumo? Em vez de autocrítica, o PS apressou-se a garantir status quo e manutenção de poder nos bastidores, indicando disponibilidade imediata para viabilizar o Governo alheio. Ao fugir à introspecção pós-eleitoral e concentrar-se em arranjos rápidos, o partido acaba por desrespeitar os eleitores — tanto os que o castigaram como os que nele confiaram esperando oposição firme às políticas de direita.

O «centrão» ressuscitado e a pluralidade ignorada

Por detrás desta aproximação expedita entre PS e AD está a velha tentação do centrão: um entendimento confortável entre os grandes partidos, à revelia da diversidade de escolhas feitas pelos eleitores. Francisco Assis, por exemplo, defendeu que «PS e AD têm de dialogar para garantir estabilidade. Fernando Medina insistiu que os socialistas devem viabilizar a entrada em funções do novo Executivo, impondo apenas condições mínimas. Instalou-se, pois, no Largo do Rato, a doutrina de privilegiar acordos de bastidores, apresentando-os como «sentido de responsabilidade».

O problema é que estes consensos artificiais no topo representam um pacto dos derrotados e vencedores para manterem o jogo entre si, ignorando a pluralidade do voto popular. Forçar agora um entendimento PS-AD — que não foi sufragado explicitamente — arrisca trair o espírito de protesto e mudança. A vontade popular torna-se secundária quando as cúpulas decretam que «o povo não sabe o que quer» e que o melhor é os do costume entenderem-se uns com os outros.

Importa lembrar que a democracia portuguesa vive hoje de uma crescente diversidade de opiniões. Ignorar essa diversidade pode ser perigoso. Ao reagrupar-se num centrão formal, PS e AD enviam o sinal de que pouco mudou. Não surpreende que André Ventura denuncie esse bloco central e colha dividendos do descontentamento anti-sistema  É exactamente este o risco: ao atropelar o voto popular e isolar vozes emergentes, PS e AD podem estar a alimentar o monstro que dizem querer conter. Miguel Prata Roque já classificou estes arranjos como «consensos balofos» — verdadeiras mordaças ao debate interno e externo.

Liderança entregue de bandeja: JLCarneiro e a sobrevivência do PS 

A forma como José Luís Carneiro foi guindado a líder do PS em tempo recorde ilustra a tentativa de sobrevivência política a todo o custo. Horas após a demissão de Pedro Nuno Santos, Carneiro fez saber estar disponível para assumir as rédeas socialistas. Em poucos dias, potenciais concorrentes — Mariana Vieira da Silva, Fernando Medina, Ana Catarina Mendes, Duarte Cordeiro — desistiram, deixando-o sozinho na corrida, em nome da tão apregoada «unidade». Resultado: um líder aclamado e não eleito, escolhido pelas elites em pânico.

Com Carneiro ungido pela máquina partidária, sem oposição interna, o PS sinaliza continuidade e não ruptura. Vozes críticas internas lembram que «falta de unidade não reconcilia o PS com os eleitores». Ao presumir que basta um verniz de união e alguns acenos ao centro para recuperar votos, a elite socialista arrisca desrespeitar novamente o eleitorado.

Logo nos primeiros dias, Carneiro declarou-se pronto a «contribuir para a estabilidade política do país», abrindo os braços à AD. Carlos César foi ainda mais longe: «O natural é que o Partido Socialista viabilize este Governo». Traduzindo: o PS adoptará uma oposição de fachada, garantindo que a AD não cai — desde que preserve influência nas grandes questões nacionais. É uma doutrina de sobrevivência que põe a conveniência política acima da renovação programática ou do respeito pela alternância ditada pelas urnas.

O preço de ignorar o eleitorado 

Em democracia, contornar o veredicto popular é sempre um jogo perigoso. Ao desvalorizar a vontade expressa em 18 de Maio, PS e AD aprofundam a frustração de largas faixas do eleitorado. Muitos portugueses sentem que votam, mas «eles» fazem sempre o que querem; se virem agora um bloco central a governar, crescerá a percepção de que o voto pouco importa — e isso só alimentará quem capitaliza o descrédito no sistema.

Uma governação equilibrada exige diálogos, mas não à custa da pluralidade. O PS tem o direito de se recentrar, mas deveria fazê-lo respeitando os seus processos democráticos internos e, sobretudo, o papel que os eleitores lhe destinaram: o de oposição. A AD, sem maioria absoluta, deve formar acordos que reflictam a mudança exigida pelos seus votantes, não apenas o medo partilhado do crescimento do Chega. Se PS e AD optarem pelo caminho fácil do conluio, estarão, na prática, a dizer aos cidadãos que as eleições de pouco serviram — traindo o voto popular e enfraquecendo a democracia.

O comportamento de PS e AD após 18 de Maio merece crítica dura. A democracia portuguesa prospera da saudável tensão entre governo e oposição, e da alternância quando assim o povo o decide — nunca de acordos de bastidores que silenciem essa vontade. No dia 18 de Maio, o povo falou; ignorá-lo, como fazem PS e AD, não é liderança esclarecida nem moderação responsável — é miopia política.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Deixem-os ser como o PS?

Não vou comentar as negociações do Orçamento. Não tentarei adivinhar o que querem o Governo e as oposições. Pareceu-me, porém, ter percebido o que queria o país quando votou a 10 de Março: libertar-se do governo do Partido Socialista. Mas nada neste mundo é sem equívoco. Esse voto podia ser interpretado de duas maneiras: uma abrangente, e outra restrita. Na interpretação abrangente, os portugueses votaram para ser governados de outra maneira. Na interpretação restrita, os portugueses votaram apenas para serem governados por outro partido, mas da mesma maneira. Creio não haver dúvidas sobre qual a interpretação preferida pelos actuais governantes.

Não falo de todos os ministros. Falo dos líderes políticos do governo. Se por acaso acreditam em alguma
coisa, é que os seus antecessores socialistas descobriram a maneira certa de exercer o poder. As regras são simples. Primeira: clientelizar pensionistas e funcionários – e temos assim aumentos salariais para quase metade da função pública. Segunda: dirigir os benefícios, não aos cidadãos em geral, mas a certos segmentos, de modo a fomentar identidades assentes na dependência do Estado – e temos assim o IRS jovem. Terceira: uma dose de wokismo para aplacar o comentário televisivo – e temos assim a relutância de definir “mulher” e o boicote a Israel. O fim do exercício é óbvio: fundar um bloco eleitoral grato ao governo, e por isso avesso a arriscar alternâncias. Foi assim que o PS saltou por cima de escândalos e fracassos para vencer eleições. Foi assim que “mudar”, um slogan recorrente no fim do século XX, desapareceu do linguajar político.

Dir-me-ão: a direção política do governo só mostra sabedoria. Trata de escalar o poder usando a escada mais segura. Mas há aqui um problema. No PS, isto não era apenas um expediente: era uma ideologia, de quem acreditava e propunha que a sociedade deve ser comandada pelo Estado. O PSD, ao longo de décadas, pareceu acreditar e propor outra coisa: um Estado apenas subsidiário de uma sociedade civil autónoma e empreendedora. Foi esse o projecto de Sá Carneiro em 1980, de Cavaco Silva em 1985 ou de Passos Coelho em 2011. Era um projecto “liberal” e patriótico, porque concebido como a via adequada para tornar a nação mais livre, próspera e coesa. Apelava, ao mesmo tempo, à aspiração de independência pessoal e ao brio colectivo. Mobilizou gerações que desejavam ter casa própria, mas também viver num país a subir nos rankings da UE. Esse projecto, apesar do que o PS fez crer, ainda vale votos, ou não se teria passado nada a 10 de Março.

A liderança do governo não pode renegá-lo: primeiro, porque nunca conseguirá desviar para si toda a clientela do PS, e precisa do eleitorado tradicional do PSD; segundo, porque existem agora à direita outros partidos para lhe disputar essa herança e esses votos. Por isso, o governo evoca Cavaco Silva, e o seu mítico “deixem-me trabalhar”. Mas em 1985, Cavaco Silva não trabalhava simplesmente para ganhar eleições. Queria ganhar eleições, claro. Mas rompendo com o socialismo herdado do PREC. Não se propunha exercer o poder como os outros, mas libertar a sociedade civil e deixar os cidadãos, no novo contexto europeu, procurar o crescimento económico e a mobilidade social. Mais tarde, fez até esta coisa que ia contra toda a ciência de eleger maiorias: liquidou o monopólio estatal da TV. Hoje, porém, o que o actual governo parece propor-se é ganhar eleições fazendo o mesmo que o PS. O seu “deixem-nos trabalhar” soa cada vez mais como “deixem-nos ser como o PS”. Talvez não seja o que o país quer, e não é certamente o que o país precisa.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

uma questão de higiene democrática

Infelizmente, parece que é provável que o PS ganhe as próximas eleições e, pior do que isso, não é impossível que haja maioria parlamentar de esquerda. Dividida em quatro partidos, ou em três que vão a votos, a direita não se entende num projeto alternativo ao PS, e aquela que sem conseguiu entender (AD) parece não estar a entusiasmar o eleitorado por aí além. Isto tem várias explicações, mas a fragilidade do pessoal dirigente desses partidos é uma delas e não será a menor. Hoje em dia vai para a política quem tem pouco que fazer, quem galgou desde pequenino o cursus honorum das jotas e quem lá está por vício. Dificilmente se encontram pessoas com experiência de vida própria e independente da política em cargos partidários e de governo do estado.


terça-feira, 5 de março de 2024

o PS virgem após a himenoplastia

... e, como não tivessem estado oito anos a brincar aos governos, feita a himenoplastia e com novo líder, avançam virgens para as eleições.
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Há que branquear Saúde, Educação, Habitação e a brutal Carga Fiscal e para isso os socialistas irão contar com o apoio da Imprensa subsidiada e com os avençados actores que dela vivem...

sexta-feira, 1 de março de 2024

domingo, 17 de dezembro de 2023

Partidos Socialista?

“O estado rosa: criador, legado e delfim”
aqui a ser escrutinado por uma imprensa livre e competente