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terça-feira, 14 de outubro de 2025

Quanto valerá a sede do Largo do Rato?

Não foi fácil para os socialistas venderem a ‘Solfé’, como carinhosamente era conhecida a sede do partido na rue de Solférino, ali tão pertinho do Museu D’Orsay e a dois passos da Assembleia Nacional, em Paris. Cultura e política; o elitismo puro e duro que os socialistas herdaram da vitória de François Mitterrand, fez 40 anos no passado dia 10 de Maio. O que os fez subir, fê-los cair.

Mitterrand foi, na Quinta República, o primeiro socialista a chegar ao Eliseu porque uniu o eleitorado que o apoiara na primeira volta (alguns operários, classe média e pensionistas) aos do Partido Comunista (maioritariamente operários). O povo, de acordo com a concepção marxista. Soares repetiu o feito cinco anos mais tarde. Em 1981, Jean-Marie Le Pen não conseguiu candidatar-se e a Frente Nacional nem sequer foi a votos. 40 anos passados, o PS francês vive na rua da amargura e a filha de Jean-Marie está praticamente garantida na segunda volta das presidenciais daqui a onze meses. 
O que é que aconteceu ao eleitorado do Partido Socialista francês?
A resposta é lapidar: vota na direita. Na agora denominada Reagrupamento Nacional.

Isto simplesmente sucedeu porque a esquerda francesa não evoluiu nem adaptou o discurso político à nova realidade. Não conciliou a até então defesa dos trabalhadores com a queda do comunismo e com o sucesso que foram os governos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan. (É impressionante que ainda se sintam as ondas de choque provocadas por estes dois estadistas, mas é mesmo assim; talvez por isso tantos ainda menosprezem o seu legado reduzindo-o a um cariz meramente económico e esquecendo as alterações culturais que Thatcher e Reagan permitiram). Para se compensar, o PS francês refugiu-se na defesa dos jovens politicamente correctos, dos direitos adquiridos, das minorias (quaisquer que estas sejam), da cultura (o que quer que esta possa significar) e por aí em diante. Tornou-se elitista. Como resultado a sua base eleitoral fugiu para a extrema-direita.

Um exemplo claro deste fenómeno está espelhado na circunscrição de Aisne, a norte de Paris e uma região anteriormente com forte implantação da esquerda. Para termos uma ideia do desaire socialista na zona teremos de dar atenção à variação dos votos nas últimas décadas nesta circunscrição. Vejamos: nas presidenciais de 1965, Mitterrand alcançou o segundo lugar e foi à segunda volta contra Charles de Gaulle. Perdeu por menos de 20 mil votos. Já nas presidenciais de 1974, o mesmo Mitterrand venceu na primeira e na segunda voltas contra Valéry Giscard d’Estaing, feito que repetiu em 1981 na segunda volta (na primeira o candidato socialista viu parte da sua votação a ir para o comunista Georges Marchais que conseguiu mais de 20% dos votos expressos). Mas isto foi há muitos anos. No passado recente (2017) quem venceu na primeira volta já não foi o PS, mas a Frente Nacional com pouco mais de 35%; os socialistas ficaram-se pelos 4%. Quanto aos comunistas nem vê-los. Desapareceram do mapa. De salientar que nos anos 80 os comunistas também eram contra a imigração. O eleitorado, esse, continua no mesmo sítio só que vota na extrema-direita ao ponto de, nas eleições regionais deste Domingo, a luta eleitoral na região de Les Hauts-de-France, onde Aisne se situa, ser entre o presidenciável Xavier Bertrand (de direita) e Sébastien Chenu do partido de Marine Le Pen.

O que sucedeu aos socialistas e à esquerda francesa em geral devia ser um sério aviso à esquerda portuguesa. É certo que em Portugal o PS sobreviveu, apesar de incapaz de afastar um Primeiro-Ministro corrupto, como também se aguentou, apesar de responsável pela bancarrota do Estado português (que só a intervenção da troika e o governo de Passos Coelho evitaram). O sucesso do socialismo luso reside no dinheiro aparentemente grátis do BCE e na ausência de fracturas raciais como as que existem em França. Alicerça-se ainda numa boa parte do eleitorado que depende financeiramente do Estado e que vota na segurança e na estabilidade salarial.
Mas essa construção político-eleitoral que o PS montou não está isenta de riscos. Bastava que a inflação ressurja para que o BCE ponha termo à sua política monetária, ou simplesmente que a abrande; basta que uma pequena parte do eleitorado se farte da corrupção, do compadrio, das ligações familiares, das cercas sanitárias sem base constitucional mas feitas para pôr em xeque o presidente; basta que o PS deixe de garantir a maioria de governo e o eleitorado que quer ordem procure segurança noutras paragens; Nesse dia, não há volta a dar. Nesse dia os socialistas vão lamentar-se de Fernando Medina não ter assumido responsabilidades políticas por um acto administrativo que teve consequências políticas. Nesse dia, será tarde demais.

Até porque se tirarmos o pagamento de ordenados o PS tem pouco ou nada para oferecer. Salvar a TAP? Uma empresa falida que vamos ficar décadas a pagar. O SNS? Não será com certeza com as cativações, que são o preço dos aumentos salariais necessários para manter o eleitorado. Educação? O abandono em que o Estado deixou os mais desfavorecidos durante o confinamento não será a melhor folha de serviços. Cultura? A defesa de um feudo de beneficiários pode tornar-se num muro entre a população e o poder político. Investimento Público? O dinheiro que resta pouco mais serve que para pagar salários e pensões. Por alguma razão os socialistas encaram o Plano de Recuperação e Resiliência como um náufrago olha para uma bóia.
Não sei quem tomará o lugar do PS. Pode ser a extrema-direita? Pode. Uma de cariz lusitano, tão inculta e intelectualmente pobre quanto os actuais socialistas, também estes com características lusitanas. Digo actuais porque, a acontecer, alguns mudarão de campo. O mais certo é que as caras e as famílias sejam as mesmas. Se o eleitorado muda de ares, porque não também os políticos?

O ‘Solfé’ foi vendido por 45 milhões de euros em Outubro de 2018. Quanto é que valerá aquele edifício cor-de-rosa que fica no Largo do Rato?

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

O PS português e o caminho francês: coligações à beira do abismo

As coligações autárquicas que o Partido Socialista português já começou a fechar (13 até ao momento, segundo o Diário de Notícias) são mais do que meras alianças tácticas — são um retrato da decadência de um partido outrora hegemónico que já não consegue andar sozinho. À semelhança do seu congénere francês, o Partido Socialista caminha para o abismo, tentando desesperadamente manter alguma influência através de parcerias com siglas menores como o Livre e o PAN.
Estes aliados preferenciais não são escolha ingénua, mas reflexo de um desespero político: o PS precisa do verniz urbano-progressista que o Livre e o PAN fornecem, mesmo à custa de coerência programática ou ligação às preocupações reais do povo português. Trata-se de uma esquerda cosmética, mais preocupada com linguagem inclusiva e activismo de sofá do que com o preço dos alimentos, o caos na saúde ou a insegurança nas ruas.

Entretanto, mantém a CDU à margem e rejeita o Bloco de Esquerda em diversos concelhos, considerando-o "radical". Como se o Livre ou o PAN não o fossem. Esta distinção selectiva revela mais sobre a estratégia de sobrevivência do PS do que sobre a realidade política dos parceiros: prefere coligações inócuas do ponto de vista eleitoral mas que lhe permitem manter alguma respeitabilidade no comentário mediático. 

O paralelismo com o Partido Socialista Francês impõe-se. Também em França, o PS tentou coligações para sobreviver — com os verdes, com a extrema-esquerda, com tudo o que se mexesse no campo "progressista" — acabando por perder a identidade, a confiança do eleitorado e a relevância nacional. Hoje, o PSF é uma sombra do que foi. Em Portugal, o risco é idêntico: um PS sem base social sólida, dependente de coligações artificiais, e cada vez mais longe da realidade concreta dos cidadãos comuns.
Estas coligações não são pontes para o futuro: são bóias de salvação mal amarradas a um navio que se afunda. E, tal como em França, o eleitorado acabará por procurar alternativas mais autênticas, mais firmes, mais coerentes. 
O tempo do tacticismo autárquico está a acabar.

segunda-feira, 7 de julho de 2025

O Velho Partido que Já Ninguém Quer Liderar

Durante décadas, o Partido Socialista Francês (PSF) foi o rosto do poder na França republicana. De François Mitterrand a Lionel Jospin, o PSF encarnou o ideal social-democrata europeu, reformista e institucional. Mas hoje, o partido não passa de uma sombra do que foi. Reduzido a um papel secundário, vive entre a nostalgia do passado e a ambição de se reinventar. A questão impõe-se: estamos a assistir ao restauro do PSF ou ao seu funeral político?
uma geringonça chamado NUPES 
A aliança com a extrema-esquerda, a NUPES (Nova União Popular Ecológica e Social), formada liderada por Jean-Luc Mélenchon, foi o ponto de viragem – ou melhor, de ruptura – para o PSF. Ao aceitar submeter-se à liderança da France Insoumise (LFI), o PSF abdicou da sua matriz europeísta e reformista, trocando-a por slogans revolucionários, posições antiocidentais e ecos marxistas reciclados.
A curto prazo, a NUPES permitiu eleger alguns deputados. A médio prazo, comprometeu a identidade do PSF e agravou as divisões internas. A longo prazo, revelou-se um suicídio estratégico.
Tentativas de reinvenção
Hoje, o PSF tenta sacudir a poeira ideológica da NUPES e apresentar-se como alternativa de centro-esquerda moderada, num espaço deixado vazio pelo colapso do macronismo. Apostou em Raphaël Glucksmann, cabeça de lista às Europeias de 2024, que obteve um resultado surpreendente ao recuperar parte do eleitorado social-democrata, urbano e educado.
Com este sinal de esperança, os socialistas ensaiam uma “segunda vida” política, sem radicalismos, mas também sem brilho. Recusam agora novas alianças submissas com a LFI, mas não conseguem ainda propor um projecto mobilizador e claro. Falta ambição, falta estrutura, falta narrativa.
Restauro ou morte?
Se conseguir consolidar um discurso próprio, realista e moderno, o PSF poderá regressar como força relevante no espaço progressista europeu. Mas o mais provável, a julgar pelas dinâmicas actuais, é que permaneça como um partido residual, útil apenas como força auxiliar em coligações ou como referência simbólica do passado.
A esquerda francesa está dominada pelos extremos. E o PSF parece, por ora, condenado a não liderar nem inspirar. Apenas a resistir. Por quanto tempo?

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Quanto valerá a sede do Largo do Rato?

O que sucedeu aos socialistas e à esquerda francesa em geral devia ser um sério aviso à esquerda portuguesa. É certo que em Portugal o PS sobreviveu, apesar de incapaz de afastar um Primeiro-Ministro corrupto, como também se aguentou, apesar de responsável pela bancarrota do Estado português (que só a intervenção da troika e o governo de Passos Coelho evitaram). O sucesso do socialismo luso reside no dinheiro aparentemente grátis do BCE e na ausência de fracturas raciais como as que existem em França. Alicerça-se ainda numa boa parte do eleitorado que depende financeiramente do Estado e que vota na segurança e na estabilidade salarial.
Mas essa construção político-eleitoral que o PS montou não está isenta de riscos. Como tive oportunidade de referir há duas semanas neste espaço [O objectivo do PS é governar um país de funcionários estatais pagos pelos alemães. Ganhar eleições assim não implica muita inteligência; basta malícia. Já os riscos são incomensuráveis. ], basta que a inflação ressurja para que o BCE ponha termo à sua política monetária, ou simplesmente que a abrande; basta que uma pequena parte do eleitorado se farte da corrupção, do compadrio, das ligações familiares, das cercas sanitárias sem base constitucional mas feitas para pôr em xeque o presidente; basta que o PS deixe de garantir a maioria de governo e o eleitorado que quer ordem procure segurança noutras paragens; Nesse dia, não há volta a dar. Nesse dia os socialistas vão lamentar-se de Fernando Medina não ter assumido responsabilidades políticas por um acto administrativo que teve consequências políticas. Nesse dia, será tarde demais. (in “Quanto valerá a sede do Largo do Rato?” por André Abrantes Amaral)
O sentimento de impunidade do PS não nasce do nada, mas da falta de escrutínio. A 
situação não difere muito da que sucedia no Estado Novo (sendo que não temos os índices de crescimento económico conseguidos na década de 60 e que duraram até 1973). Casam-se uns com os outros, distribuem lugares uns aos outros, elogiam-se uns aos outros e a propaganda profissionalizou-se de tal modo que começa no Primeiro-Ministro e acaba nos jornais de freguesia que (pagos com os impostos) são deixados nas caixas de correio, como se fossem gratuitos. Eduardo Cabrita não se demite, António Costa não o demite, Pedro Nuno Santos é a prepotência em pessoa que usa o nosso dinheiro, Mariana Vieira da Silva fala de um modo pretensioso para jornalistas que não a questionam. A táctica está na mentira camuflada de verdade formal que, tecnicamente, não tem nada a apontar, mas que é totalmente falsa. 
(in “O objectivo do PS)

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

divórcio entre "irmãos"?

e assim fiquei a perceber porque desapareceu da Praça do Brasil aquele estranho veiculo de três rodas...