domingo, 15 de março de 2026
a ilusão dos triunviratos
quarta-feira, 17 de setembro de 2025
e se este alegado jornalista nos enganou?
O plano começa a dar frutos. A tendência de crescimento eleitoral da Aliança Democrática parece estar a consolidar-se nos sucessivos estudos de opinião que vão sendo publicados. Os inquiridos nestas sondagens vão fazendo uma avaliação aparentemente positiva dos quase 10 meses de Governo e a popularidade de Luís Montenegro vai resistindo mesmo depois de o Executivo ter somado a sua dose de casos e casinhos. Em sentido inverso, Pedro Nuno Santos e André Ventura vão mostrando os primeiros sinais de algum desgaste, um dado que não passa despercebido a quem aconselha o primeiro-ministro.
(Miguel Santos Carrapatoso no Observador em 17 jan. 2025, 23:0515)
No núcleo mais próximo de Luís Montenegro, ninguém quer entrar em grandes euforias ou dar especial importância a sondagens. Mas a verdade é que havia alguma frustração latente com os estudos de opinião. Ainda que confirmassem a popularidade de Montenegro, estes inquéritos iam apontando para um empate técnico entre a AD e o PS (ou até para uma ligeira vantagem dos socialistas) e para uma estabilização do Chega nas intenções de voto mesmo depois de o Governo ter feito aprovar uma série de medidas teoricamente populares de redistribuição de rendimentos e apesar da preocupação declarada da coligação de direita em recuperar bandeiras como a segurança e a imigração.
Paulatinamente, e na perspetiva dos homens do
primeiro-ministro, claro, a tenaz que encurtava o espaço
político da AD parece estar a perder força. As contas públicas mantêm-se em
ordem (e o centro gosta disso), os mais jovens (bastião
eleitoral da AD) estão a conseguir comprar mais casas (cerca de 17 mil já o
fizeram com as novas regras fiscais e o IRS Jovem vai começar a produzir
resultados este ano) e os mais velhos (o suporte político do
PS) começam agora a perceber que o fantasma da troika e do
corte das pensões está definitivamente exorcizado.
Não menos importante, o binómio segurança/imigração tornou-se
tema dominante de todos os debates, o que tem permitido ao Governo falar
diretamente para o eleitorado do Chega e ensaiar uma separação
das águas à direita. “Foi como sopa no mel. E André Ventura está a ficar sem
chão e sem narrativa”, argumenta um elemento do Governo. “O nosso discurso cria
um embaraço a André Ventura. Ocupámos um espaço que ele estava
a tentar ocupar”, concorda um destacado dirigente social-democrata.
A partir do Governo a ordem é para dramatizar e tentar provar
que Pedro Nuno Santos (pela inação e pela omissão) está tão errado como André
Ventura (pela agenda radical). Nem o "oito" do PS, nem o
"oitenta"do Chega, vai dizendo Montenegro
Nem o “oito” do PS, nem o “oitenta”do Chega
É quase uma questão de aritmética eleitoral: nas últimas
eleições legislativas, houve 1 milhão de votos à direita da
Aliança Democrática; o Chega terá uma base de fiéis na ordem dos 10%, que
dificilmente será recuperável, mas existem ainda muitos eleitores por convencer
nesse espaço político. “Fechámos o campo de batalha ao centro. Temos de crescer
à direita“, antecipa um influente social-democrata.
No último debate quinzenal, aliás, Montenegro e o líder do
Chega chocaram precisamente
nessa frente, com os dois a tentarem levar a água ao seu moinho: Ventura a
sugerir que o Governo é frouxo no combate à insegurança e à
imigração ilegal; e o social-democrata a tentar colocar-se rigorosamente
ao centro nesta discussão. Nem o “oito” do PS, nem o
“oitenta” do Chega, disse Montenegro. “Os dois partidos da oposição estão
a apanhar bonés“, rematou Hugo Soares, líder parlamentar do PSD e
braço direito do primeiro-ministro, no mesmo debate.
Os sociais-democratas estão convencidos de que estão a
conseguir ganhar este debate. Por um lado, acreditam que Pedro Nuno Santos não
tem conseguido encontrar um discurso coerente e que as posições
relativamente recuadas dos socialistas (ambíguas e
contraditórias em alguns casos) estão a prejudicar o próprio partido. O PSD
entende que só precisa de continuar a colar o PS ao
radicalismo e a uma alegada agenda anti-ordem e anti-polícia para manter a
pressão sobre Pedro Nuno.
Aliás, o mesmo debate quinzenal ficou marcado pelo momento
de indignação de Montenegro (amplamente partilhado nas redes
sociais dos apoiantes da AD). Pedro Nuno Santos teve uma evidente preocupação
de ignorar por completo a operação do Martim Moniz ou a
questão da imigração para não ser arrastado para o campo de batalha onde a AD
parece sentir-se mais confortável. Mas uma referência quase lateral às
alterações às regras de acesso de cidadãos estrangeiros ao SNS foi o suficiente
para que o primeiro-ministro acusasse, aos gritos, o líder socialista de
querer “pactuar e promover redes criminosas na Saúde”.
Ao mesmo tempo, acredita-se no quartel-general do PSD, um
discurso assertivo sobre os dois temas, com medidas e ações concretas no
terreno, pode fazer recuperar parte do eleitorado que fugiu
para o Chega — partido que durante muito tempo esteve sozinho a falar sobre as
questões da criminalidade e da imigração — e que agora se pode sentir incomodado com
os exageros retóricos e programáticos de André Ventura. A ordem, portanto, é
para dramatizar e tentar provar que o secretário-geral do PS (pela inação)
está tão errado como André Ventura (pela agenda radical).
O barómetro da Fundação Francisco Manuel dos Santos teve
conclusões: 75% dos respondentes acham que seria positivo para Portugal que
houvesse uma política de imigração mais regulada; 68% defendem que os
imigrantes contribuem para o aumento da criminalidade; 54% acham que os
imigrantes prejudicam os portugueses no mercado de trabalho; e 61% dos
inquiridos consideram que o número de imigrantes do subcontinente indiano
deve diminuir
AD com um sinal verdadeiramente animador
Claro que nada disto se faz sem erros e dores de crescimento.
A conferência de imprensa das oito da noite que tanta tinta fez correr, a
operação policial no Martim Moniz que tantas críticas provocou, a equiparação
que Luís Montenegro fez entre a manifestação “Não nos encostem à parede”, que
juntou dezenas de milhares de pessoas, e a vigília organizada pelo Chega (que
reuniu umas centenas de pessoas e uns quantos elementos do partido nacionalista
Ergue-te), tudo foi aproveitado pela oposição para acusar o Governo de ter
mergulhado numa deriva autoritária. Para o PSD/CDS, importa garantir que o
centro moderado não se assusta e, para isso, é preciso equilíbrio e alguma
contenção. É Montenegro a andar no arame.
O último inquérito da Pitagórica para a TVI, CNN, TSF e JN
trouxe indicadores positivos para a Aliança Democrática, reforçaram os estudos
internos do Governo e mostraram Montenegro finalmente a descolar do
PS (ligeiramente, mas a descolar). Além de subir cerca de quatro pontos
percentuais nas intenções de voto em relação às últimas legislativas, 62% dos
inquiridos disseram aprovar a atuação do Governo e 53% das
pessoas que participaram na sondagem fizeram uma avaliação positiva do
desempenho do primeiro-ministro, num estudo conduzido entre os dias 28 de
dezembro de 2024 e 5 de janeiro de 2025, já depois da controversa operação
policial no Martim Moniz.
Em sentido inverso, nesta mesma sondagem, o PS e o
Chega descem 1 e 2 pontos percentuais em relação às últimas
eleições legislativas. Não é exatamente um trambolhão, mas Pedro Nuno Santos e
André Ventura também recolheram avaliações maioritariamente negativas (59
e 69%, respetivamente) e, no caso do socialista, existe um dado particularmente
relevante: 37% dos inquiridos que dizem ter votado no PS fazem
uma avaliação má ou muito má de Pedro Nuno Santos, o que indicia algum desencanto das
bases do partido com o líder eleito em dezembro de 2023.
Todas as sondagens devem ser lidas com especial cautela.
Esta, por maioria de razões, também: qualquer estudo deste género é apenas a
fotografia do momento; mesmo que sejam antecipadas, falta muito tempo para
haver eleições legislativas; a margem de erro do inquérito não é irrelevante; e
a amostra desta sondagem é relativamente curta (400 pessoas).
Todavia, parece consolidar uma tendência verificada noutras
sondagens — e isso não deve ser politicamente desprezado.
Em cima disto, existe outro indicador que é relevante para as
pretensões de Luís Montenegro. A Aliança Democrática tem vantagem sobre o PS em
quase todo o território (falha o Sul do país e as ilhas) e em todos os
segmentos eleitorais à exceção de dois, os mais pobres e
os mais velhos, que continuam a preferir os socialistas. Mas aqui
há uma variação importante: a distância entre a Aliança Democrática e o PS
junto dos eleitores que têm mais de 55 é praticamente residual, o
que pode indiciar uma mudança de comportamento deste eleitorado.
A reconciliação com os eleitores mais velhos
foi uma necessidade assumida por Luís Montenegro. Nas últimas legislativas, e
mesmo tendo vencido as eleições — à tangente, mas venceu —, a Aliança
Democrática foi copiosamente derrotada pelo PS neste segmento eleitoral,
confirmando um divórcio entre os eleitores mais velhos e o
espaço de centro-direita que se arrasta desde o tempo da troika.
Daí para cá, o Governo tem feito um esforço concertado para “desmistificar”
a ideia de que a direita penaliza os reformados quando chega ao poder, seja
através do aumento das pensões, seja através do reforçou do Complemento
Solidário para Idosos ou, por exemplo, da gratuitidade dos medicamentos para os
beneficiários deste apoio social.
Entre os dirigentes sociais-democratas ouvidos pelo
Observador há quem entenda que recuperar o discurso e a agenda sobre segurança
e imigração também pode ser determinante para merecer a confiança dos
eleitores mais velhos — aqueles que, por norma, mais temem o
aumento da criminalidade e que mais dificuldades têm em interagir com uma
comunidade que vai sofrendo a pressão da imigração. Ora, se o PS falhar em ter
um discurso para estas pessoas, também isso será uma oportunidade para
a AD disputar a grande base eleitoral dos socialistas.
O binómio segurança/imigração tornou-se tema dominante de
todos os debates, o que tem permitido ao Governo falar diretamente para o
eleitorado do Chega e ensaiar uma separação das águas à direita. "André
Ventura está a ficar sem chão e sem narrativa", argumenta um elemento do
Governo. "O nosso discurso cria um embaraço a André Ventura. Ocupámos um
espaço que ele estava a tentar ocupar", concorda um destacado dirigente
social-democrata
Segurança e imigração: sondagens reforçam caminho do Governo
Esta sondagem da Pitagórica mediu ainda outras duas questões
relevantes para o debate atual. Os inquiridos foram desafiados a dizer se
concordavam ou não com a operação policial conduzida no Martim Moniz e se
consideravam terem ou não existido motivações racistas naquela rusga. As
conclusões foram cristalinas: 57% das pessoas disseram
concordar ou concordar totalmente com aquela operação (contra apenas 27% que
disseram discordar ou discordar totalmente); e 65% rejeitaram
retirar qualquer leitura racista daquela operação contra apenas 20% dos
que disseram ver motivações raciais na rusga.
Uma leitura mais fina dos dados permite retirar outras
conclusões complementares. Por exemplo, os inquiridos que dizem ter votado
no PS nas últimas eleições legislativas estão
rigorosamente divididos nas duas questões. Metade afirmou
discordar da operação policial e considerou-a racista; outra metade defendeu-a
e afastou qualquer tipo de motivação racial. É mais um indício, um indício
objetivo neste caso, de que os socialistas continuam com dificuldades em
encontrar uma posição fechada sobre estas duas matérias.
Por comparação, esta divisão não existe de
todo entre os eleitores da Aliança Democrática e do Chega, que aprovam por
larga maioria a operação no Martim Moniz e discordam radicalmente da ideia de
que tenha sido racista. À esquerda, um fenómeno igualmente interessante:
o PCP, que tem um eleitorado tipicamente mais conservador e mais
envelhecido, está igualmente dividido nestas duas questões; já aqueles que
dizem ter votado no Bloco de Esquerda nas últimas legislativas
são, de longe, os que mais condenam esta operação e aqueles
que mais vincadamente afirmam considerá-la racista.
Se os critérios forem o género, a idade e a classe social
também é possível encontrar algumas chaves de leitura. São os homens, os mais
pobres e os que estão em plena idade ativa (34 a 55 anos) que mais
aprovam esta operação policial. E são também os homens desta faixa
etária que mais rejeitam a ideia de que esta operação tenha
sido racista — não há grandes variações nesta matéria em função da classe
social dos inquiridos.
Não é um sinal irrelevante. Instalou-se a perceção de que a
força de André Ventura residia no eleitorado mais jovem e com baixas
qualificações, mas não é exatamente assim. Como explicaram os investigadores
João Cancela e Pedro Magalhães a partir de uma sondagem conduzida à boca das urnas pelo
ICS/ULisboa, o Iscte e a GfK Metris, “este grupo representa apenas 7% do
total de votantes, tornando este resultado insuficiente para explicar o
crescimento do partido”. A força do Chega reside noutro segmento eleitoral.
Na verdade, nas últimas eleições legislativas, que resultaram
numa eleição histórica de 50 deputados, o Chega foi particularmente forte precisamente
junto dos homens nesta faixa etária e com menos qualificações — os mesmos que,
na sondagem da Pitagórica, mais validaram a operação policial no Martim Moniz e
refutaram com maior veemência a classificação de racismo. É uma interseção praticamente
perfeita.
Voltando à sondagem da Pitagórica: 33% dos inquiridos que
dizem ter votado no Chega fazem uma avaliação positiva da prestação de Luís
Montenegro. André Ventura tem 21% de avaliações negativas ou muito negativas
mesmo entre os seus eleitores.
Ao mesmo tempo foi divulgado um barómetro da Fundação
Francisco Manuel dos Santos que reforça e amplia todos estes indicadores — com
uma amostra bem mais expressiva, de mais de mil inquiridos. As conclusões são
igualmente reveladoras: 75% dos respondentes acham que seria positivo para
Portugal que houvesse uma política de imigração mais regulada; 68%
defendem que os imigrantes contribuem para o aumento da criminalidade;
54% acham que os imigrantes prejudicam os portugueses no mercado de
trabalho; e 61% dos inquiridos consideram que o número de imigrantes do
subcontinente indiano deve diminuir.
Este estudo trouxe ainda uma outra conclusão muito relevante:
“Existe entre os inquiridos um forte enviesamento (por excesso) na
perceção do número de imigrantes em Portugal. Tal resultado revela-se
particularmente relevante, uma vez que essa falsa perceção é
também um forte preditor de atitudes mais desfavoráveis à imigração”. Ou seja,
os portugueses sobrestimam o número de imigrantes existentes
em Portugal e, consequentemente, o impacto dessa imigração e os seus eventuais
riscos no e para o país.
Com base nas repostas dos inquiridos, o mesmo barómetro
concluiu que, para os portugueses, o problema mais significativo que país tem
enfrentado é precisamente a imigração. Só depois entram as questões
relacionadas com o acesso à Saúde e à Habitação e, em quarto lugar, a
“criminalidade, a violência e a segurança”. Mas os números não são lidos da
mesma forma. A equipa de Luís Montenegro vai argumentando que está a governar
para responder às reais preocupações dos portugueses. A
oposição vai acusando o Governo de estar a agravar perceções e
a definir políticas públicas com base em pressupostos errados.
Factualmente, a imigração aumentou de forma expressiva nos
últimos anos, a criminalidade violenta e grupal aumentou 5,6% e 14,6%,
respetivamente. Mas os relatórios oficiais não fazem qualquer correlação entre
o aumento do número de imigrantes e o número de crimes, e a proporção de
reclusos estrangeiros mantém-se estável.
Ao contrário de Ventura, Montenegro tem dito repetidamente
que não existe uma relação direta entre o aumento do crime e o
número de imigrantes, mas a falta de dados mais finos tem sido utilizada para
acusar as autoridades oficiais de querem esconder a realidade
do país — o líder do Chega disse isso mesmo esta semana, em entrevista à CNN.
No Parlamento, Luís Montenegro admitiu seguir a recomendação
da Iniciativa Liberal e, ouvido o Conselho Superior de Segurança, passar a
incluir a nacionalidade dos autores dos crimes nos Relatórios
Anuais de Segurança Interna (RASI). “Pode ser útil à definição
de políticas e condições operacionais das forças de segurança. Podemos e
devemos ter essa discussão”, justificou o primeiro-ministro. A ideia foi
rapidamente contestada pelos partidos mais à esquerda, mas tem tudo para fazer
o seu caminho e marcar uma nova fase do debate político.
terça-feira, 16 de setembro de 2025
domingo, 25 de maio de 2025
PS e AD: a pressa do centrão que atropela o voto popular
A 18 de Maio, os eleitores portugueses enviaram um segundo recado claro às forças políticas. O veredicto das urnas foi severo para o Partido Socialista (PS), que sofreu uma das piores derrotas da sua história recente, e consagrou a coligação de centro-direita Aliança Democrática (AD) como vencedora, pela segunda vez embora minoritária . Num cenário político fragmentado — com o partido CHEGA a conseguir um resultado histórico ultrapassando em deputados ao PS — esperava-se que os principais partidos fizessem uma pausa para reflectir. De facto, nas horas seguintes ao desaire, vários dirigentes socialistas falaram da necessidade de «reflexão profunda, lúcida e fria». Porém, na prática, essa reflexão ficou pelo caminho. O PS optou pela pressa, saltando «directo para os braços do primeiro candidato» disponível para a liderança, sem debate interno significativo. Assim, menos de uma semana após a derrota, o PS já tinha um novo líder oficioso e braços abertos à colaboração com a AD — um movimento que, na perspectiva de muitos, ignora a vontade popular expressa nas urnas.
Essa rapidez em alinhar com a força vencedora levanta
suspeitas justificadas. Afinal, não terá o eleitorado votado por uma mudança
de rumo? Em vez de autocrítica, o PS apressou-se a garantir status quo
e manutenção de poder nos bastidores, indicando disponibilidade imediata
para viabilizar o Governo alheio. Ao fugir à introspecção pós-eleitoral
e concentrar-se em arranjos rápidos, o partido acaba por desrespeitar os
eleitores — tanto os que o castigaram como os que nele confiaram esperando
oposição firme às políticas de direita.
O «centrão» ressuscitado e a pluralidade ignorada
Por detrás desta aproximação expedita entre PS e AD está a velha tentação do centrão: um entendimento confortável entre os grandes partidos, à revelia da diversidade de escolhas feitas pelos eleitores. Francisco Assis, por exemplo, defendeu que «PS e AD têm de dialogar para garantir estabilidade. Fernando Medina insistiu que os socialistas devem viabilizar a entrada em funções do novo Executivo, impondo apenas condições mínimas. Instalou-se, pois, no Largo do Rato, a doutrina de privilegiar acordos de bastidores, apresentando-os como «sentido de responsabilidade».
O problema é que estes consensos artificiais no topo
representam um pacto dos derrotados e vencedores para manterem o jogo entre si,
ignorando a pluralidade do voto popular. Forçar agora um entendimento
PS-AD — que não foi sufragado explicitamente — arrisca trair o espírito de
protesto e mudança. A vontade popular torna-se secundária quando as
cúpulas decretam que «o povo não sabe o que quer» e que o melhor é os do
costume entenderem-se uns com os outros.
Importa lembrar que a democracia portuguesa vive hoje de uma
crescente diversidade de opiniões. Ignorar essa diversidade pode ser
perigoso. Ao reagrupar-se num centrão formal, PS e AD enviam o sinal
de que pouco mudou. Não surpreende que André Ventura denuncie esse bloco
central e colha dividendos do descontentamento anti-sistema É exactamente este o risco: ao
atropelar o voto popular e isolar vozes emergentes, PS e AD podem estar a
alimentar o monstro que dizem querer conter. Miguel Prata Roque já classificou
estes arranjos como «consensos balofos» — verdadeiras mordaças ao
debate interno e externo.
Liderança entregue de bandeja: JLCarneiro e a sobrevivência do PS
A forma como José Luís Carneiro foi guindado a líder do PS
em tempo recorde ilustra a tentativa de sobrevivência política a todo o
custo. Horas após a demissão de Pedro Nuno Santos, Carneiro fez saber estar
disponível para assumir as rédeas socialistas. Em poucos dias, potenciais
concorrentes — Mariana Vieira da Silva, Fernando Medina, Ana Catarina Mendes,
Duarte Cordeiro — desistiram, deixando-o sozinho na corrida, em nome da
tão apregoada «unidade». Resultado: um líder aclamado e não eleito,
escolhido pelas elites em pânico.
Com Carneiro ungido pela máquina partidária, sem oposição
interna, o PS sinaliza continuidade e não ruptura. Vozes críticas internas
lembram que «falta de unidade não reconcilia o PS com os eleitores». Ao
presumir que basta um verniz de união e alguns acenos ao centro para recuperar
votos, a elite socialista arrisca desrespeitar novamente o eleitorado.
Logo nos primeiros dias, Carneiro declarou-se pronto a «contribuir
para a estabilidade política do país», abrindo os braços à AD. Carlos César
foi ainda mais longe: «O natural é que o Partido Socialista viabilize este
Governo». Traduzindo: o PS adoptará uma oposição de fachada, garantindo que a
AD não cai — desde que preserve influência nas grandes questões nacionais. É
uma doutrina de sobrevivência que põe a conveniência política acima da
renovação programática ou do respeito pela alternância ditada pelas urnas.
O preço de ignorar o eleitorado
Em democracia, contornar o veredicto popular é sempre um
jogo perigoso. Ao desvalorizar a vontade expressa em 18 de Maio, PS
e AD aprofundam a frustração de largas faixas do eleitorado. Muitos portugueses
sentem que votam, mas «eles» fazem sempre o que querem; se virem agora um bloco
central a governar, crescerá a percepção de que o voto pouco importa — e
isso só alimentará quem capitaliza o descrédito no sistema.
Uma governação equilibrada exige diálogos, mas não à
custa da pluralidade. O PS tem o direito de se recentrar, mas deveria
fazê-lo respeitando os seus processos democráticos internos e, sobretudo, o
papel que os eleitores lhe destinaram: o de oposição. A AD, sem maioria
absoluta, deve formar acordos que reflictam a mudança exigida pelos seus
votantes, não apenas o medo partilhado do crescimento do Chega. Se PS e AD
optarem pelo caminho fácil do conluio, estarão, na prática, a dizer aos
cidadãos que as eleições de pouco serviram — traindo o voto popular e
enfraquecendo a democracia.
O comportamento de PS e AD após 18 de Maio merece crítica
dura. A democracia portuguesa prospera da saudável tensão entre governo e
oposição, e da alternância quando assim o povo o decide — nunca de acordos
de bastidores que silenciem essa vontade. No dia 18 de Maio, o povo falou;
ignorá-lo, como fazem PS e AD, não é liderança esclarecida nem moderação
responsável — é miopia política.


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