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terça-feira, 7 de julho de 2026

A Máquina Mediática e a Imigração: O Caso Observador (2014–2026) como exemplo

Há temas que regressam ciclicamente ao debate público, como ondas que insistem em bater na mesma rocha. A imigração é um deles. Ao longo dos últimos doze anos, observei com atenção como o jornal Observador que muitos consideram o bastião liberal‑conservador da imprensa portuguesa foi moldando a sua narrativa sobre este evento. Não apenas por curiosidade académica apenas, mas porque a forma como os mídia enquadram a realidade condiciona a própria realidade. Aprendi isso da pior maneira, nos meses em que fui preso político, em 1974–75, quando a narrativa oficial valia mais do que os factos.
Hoje, com a distância crítica que o tempo concede, olho para o Observador e vejo uma evolução nos mídia que merece ser registada.

1. O início: a fase tecnocrática (2014–2017)
Quando o Observador nasceu, a sua abordagem à imigração era quase clínica. Falava‑se de números, de demografia, de sustentabilidade da Segurança Social. Portugal envelhecia, e os imigrantes eram apresentados como uma espécie de “injeção de juventude” necessária para manter o país funcional.
Não havia entusiasmo, mas havia pragmatismo.
E, sobretudo, não havia medo.
2. A viragem crítica (2018–2020)
Com o aumento acelerado da imigração, o discurso mudou. O jornal começou a apontar falhas na gestão política do PS: atrasos na regularização, pressão sobre o SNS, falta de planeamento. Era uma crítica à máquina governativa, não aos imigrantes.
Mas, curiosamente, os artigos continuavam a sublinhar que os imigrantes contribuíam mais para a Segurança Social do que recebiam.
Era como se o jornal dissesse: “Precisamos deles, mas não assim.”

3. A ambivalência estruturada (2021–2024)
Este foi o período mais interessante. O Observador passou a ter dois discursos paralelos:
O discurso factual, que reconhecia que o crescimento populacional português dependia quase totalmente da imigração e
discurso crítico, que denunciava a incapacidade do Estado em gerir esse fluxo. 
A máquina mediática funcionava como um espelho partido: cada fragmento mostrava uma parte da verdade, mas nunca o conjunto.
4. A consolidação (2025–2026)
Com a publicação de novos relatórios oficiais, o jornal assumiu uma posição mais clara: Portugal é hoje um país de imigração, quer gostemos quer não. A imigração é estrutural, não conjuntural. E o problema não é a imigração em si, mas a ausência de política migratória coerente.
O Observador tornou‑se, assim, num jornal que reconhece a inevitabilidade da imigração, mas exige controlo, integração e planeamento.
Uma posição que, admito, é mais honesta do que muitas que se ouvem no espaço público.

5. O que isto revela sobre o papel dos media 
A imprensa não cria a realidade, mas molda a forma como a percebemos.
E, no caso da imigração, o Observador fez aquilo que muitos jornais evitam: reconheceu os benefícios económicos, mesmo quando criticava a gestão política.
Para quem viveu num tempo em que a imprensa era instrumento de propaganda - e eu vivi - esta ambivalência é saudável.
Não porque seja perfeita, mas porque é plural.

6. "comptes rendus"
A imigração continuará a ser tema central na política portuguesa. 
E o Observador continuará a ser um dos jornais que mais influencia a forma como o país pensa sobre ela.
O meu papel, aqui no ReVisões, é outro:
é desmontar narrativas
expor contradições, e 
lembrar que a verdade raramente cabe num título de jornal.

domingo, 10 de maio de 2026

Quando o povo vota mal, muda-se o povo

Notas sobre o desprezo mediático pelo eleitorado do CHEGA

Há uma forma muito antiga de fugir à realidade democrática: quando o povo vota de modo inconveniente, declara-se que o povo foi enganado, que votou com raiva, que votou por ignorância, que votou por ressentimento, que votou por falta de instrução, que votou porque não compreendeu a elevada ciência política dos que sabem, ou julgam saber, que o povo deveria querer.
A conclusão, embora raramente assumida com esta crueza, é simples: se o povo não vota como queremos, então o problema não está em nós, nem nas nossas análises, nem nos nossos preconceitos, nem na bolha social, cultural e mediática em que respiramos. O problema está no povo. Mude-se, pois, o povo.
É essa, no essencial, a impressão que fica de uma parte significativa do jornalistado e do comentariado que, nas últimas semanas, voltou a tratar André Ventura, o CHEGA e, por arrasto, os seus eleitores, não como actores legítimos de uma democracia representativa, mas como uma anomalia estatística, moral e civilizacional.
Convém começar pelos factos. Nas Legislativas de 2025, o CHEGA consolidou-se como segunda força política nacional. Na segunda volta das Presidenciais de 2026, André Ventura obteve 1.737.950 votos, isto é, 33,16% dos votos validamente expressos. Não ganhou, evidentemente. Mas quase 1,74 milhões de votos não são uma seita, não são uma claque, não são um acidente, não são uma febre passageira. São uma parte real, numerosa e politicamente decisiva do país. O Tribunal Constitucional proclamou António José Seguro vencedor com 3.502.613 votos, mas a existência eleitoral de Ventura ficou igualmente demonstrada pela escala do resultado.1
É aqui que começa o problema. Para certa opinião publicada, o voto em Ventura não é propriamente um voto; é um sintoma. Não é uma escolha; é uma patologia. Não é uma preferência política; é uma deficiência de formação, de cultura, de rendimento, de discernimento ou de higiene democrática.
Esta é a velha arrogância oligárquica mascarada de preocupação republicana.

I. A democracia condicional
A democracia liberal moderna assenta num princípio elementar: o povo pode votar mal, no sentido em que pode votar contra aquilo que eu, que o analista, que o editorialista, que o professor, que o jornalista ou que os comentadores julgam ser melhor. Mas o povo não vota ilegitimamente por votar contra nós. A democracia não é um regime em que o povo confirma a superior sabedoria das elites; é um regime em que as elites são obrigadas a conviver com a possibilidade de serem desmentidas pelo povo.
Ora, o tratamento mediático do CHEGA tem vindo, há muito, a deslocar-se da crítica política , legítima, necessária, por vezes até indispensável , para a desqualificação sociológica dos seus eleitores. Não se discute apenas a estratégia do partido; discute-se a sanidade moral de quem nele vota. Não se avalia apenas a consistência das propostas; insinua-se que o eleitorado é pouco instruído, manipulável, emocionalmente primário ou economicamente dependente. A crítica deixa de ser dirigida ao dirigente político e passa a incidir sobre a massa eleitoral que o acompanha.
E aqui reside a questão essencial: quando se atinge repetidamente o partido, o líder e a sua base eleitoral com categorias de desprezo, a fronteira entre crítica democrática e insulto social torna-se perigosamente fina.
O eleitor pode estar errado. O partido pode ser incoerente. O líder pode ser contraditório. A proposta pode ser má. Tudo isso é matéria legítima de debate. Mas quando a explicação dominante passa a ser que aquele eleitorado é “menos instruído”, “mais pobre”, “mais manipulável” ou “vindo da esquerda ressentida”, então o objecto da crítica já não é uma ideia política; é uma classe de cidadãos.
E, nesse momento, a opinião começa a cheirar demasiado a casta.

II. Rui Ramos e a excepção interpretativa
É por isso que o texto de Rui Ramos se distingue dos restantes. Ao perguntar se “é o povo que não quer reformas”, Rui Ramos desloca o problema do suposto atraso moral do eleitor para a arquitectura política do regime. A sua tese, no excerto indicado, é que num sistema onde “o poder político” se tornou a grande indústria nacional, os primeiros interessados em que nada mude são precisamente os que beneficiam da organização existente do poder.
A diferença é decisiva. Rui Ramos não precisa de infantilizar o povo para explicar a resistência às reformas. Não precisa de transformar o eleitorado em massa ignorante. Não precisa de sugerir que os portugueses são incapazes de compreender a racionalidade económica. A sua crítica incide sobre o sistema de incentivos que molda os partidos, o Estado, as corporações, os interesses instalados e a própria vida política.
É uma análise dura, mas não é uma análise socialmente insultuosa. Não faz do eleitor um menor de idade. Não transforma o voto num erro clínico. Não converte a opinião pública numa patologia.
É por isso que, sendo crítico, o texto de Rui Ramos é intelectualmente mais interessante: porque reconhece que a resistência à mudança pode nascer do próprio sistema político e não apenas da estupidez atribuída aos que votam fora da cartilha esperada.

III. José Manuel Fernandes e o Rubicão de Ventura
Fernandes, pelo contrário, vê na posição de André Ventura sobre a lei laboral uma travessia do Rubicão. A expressão é forte e, em si mesma, admissível. Em política, os símbolos contam. Quando se diz que alguém atravessou o Rubicão, diz-se que passou um ponto sem retorno, que deixou de poder fingir uma ambiguidade anterior, que revelou uma natureza até então disfarçada.
O problema não está apenas aí. Está no modo como se constrói a interpretação.
Segundo o excerto indicado, André Ventura estaria a “sabotar” qualquer hipótese de revisão da lei laboral, guiando-se não por uma linha política coerente, mas por “barómetros de popularidade”. A crítica é legítima enquanto crítica estratégica: pode dizer-se que Ventura joga tacticamente, que procura maximizar ganhos eleitorais, que não quer ficar prisioneiro de uma agenda liberal ou que pretende disputar eleitorado socialmente vulnerável. Tudo isso pertence ao combate político.
Mas a análise torna-se mais reveladora quando, na newsletter do Observador, se explicita que o CHEGA tem uma base “com menos poder de compra, menos instruída” e parcialmente proveniente de partidos “bem à esquerda”, nomeadamente antigos eleitores do PCP.
Aqui chegamos ao ponto nevrálgico.
A descrição sociológica não é, por si só, insultuosa. É legítimo estudar a composição social de um eleitorado. É legítimo notar transferências de voto. É legítimo comparar o CHEGA à Reunião Nacional francesa, ou estudar a passagem de eleitores de partidos comunistas para partidos nacional-populares. A ciência política vive disso.
Mas uma coisa é descrever sociologicamente; outra é insinuar normativamente. Uma coisa é dizer: “há indícios de que o eleitorado X tem estes traços sociais”. Outra coisa é usar esses traços como explicação depreciativa da suposta falta de fiabilidade, coerência ou racionalidade do partido e, por extensão, dos seus votantes.
Quando “menos instruído” aparece no meio de uma crítica política, não funciona apenas como variável estatística. Funciona como senha de distinção social. Quer dizer: nós, os instruídos, percebemos; eles, os outros, votam assim porque são aquilo que são.
É a democracia filtrada pelo diploma.
E a democracia filtrada pelo diploma deixa de ser democracia plena para se transformar em governo moral dos habilitados sobre os restantes.

IV. Paulo Ferreira e a sovietização caricatural
Mais grave, pelo tom, é o artigo de Paulo Ferreira, a começar pelo expediente retórico de transformar André Ventura em “Andrei Venturov”. A caricatura é evidente: não se pretende apenas dizer que Ventura assumiu uma posição económica estatista ou socialmente intervencionista. Pretende-se colá-lo, simbolicamente, ao imaginário soviético.
O autor chega, segundo os excertos indicados, a afirmar que o “camarada Andrei Venturov é comunista”, e “dos antigos”, “da velha escola soviética”. Noutra publicação associada ao mesmo artigo, Paulo Ferreira resume a ideia dizendo que Ventura “quer ultrapassar o socialismo pela esquerda”.2
Como sátira, é admissível. Como argumento, é curto. Como jornalismo de opinião, é uma manobra retórica eficaz, mas grosseira. Como análise política, é uma simplificação quase escolar.
A questão da idade da reforma, por exemplo, pode ser discutida de múltiplas formas. Pode discutir-se a sustentabilidade financeira. Pode discutir-se a esperança média de vida. Pode discutir-se a produtividade. Pode discutir-se a automação, a inteligência artificial, a distribuição dos ganhos tecnológicos, a justiça intergeracional e a desigualdade entre profissões de desgaste rápido e profissões de secretária climatizada. Pode discutir-se se uma direita popular deve ou não defender medidas sociais que não caibam no catecismo liberal.
Mas chamar “comunista soviético” a quem condiciona apoio parlamentar a uma baixa da idade da reforma é uma forma de evitar a discussão difícil. É substituir a análise por uma etiqueta. É dispensar o argumento pela caricatura.
Além disso, a acusação de “comunismo” vinda de sectores que, durante anos, aceitaram sem grande perturbação a conservação de estruturas profundamente estatistas no regime português tem um curioso sabor tardio. Portugal conviveu com sectores públicos hipertrofiados, empresas protegidas, rendas reguladas, corporações profissionais fechadas, constitucionalismo programático de matriz pós-PREC, planeamento democrático, economia mista, serviços capturados e oligarquias subsidiadas. Mas eis que o comunismo renasce, subitamente, quando Ventura fala na idade da reforma.
Curioso país este, onde a sombra soviética só aparece quando incomoda a direita instalada.

V. O eleitor do CHEGA como objecto de suspeita
O que une estes textos não é apenas a crítica a André Ventura. Essa crítica é normal. Une-os uma espécie de mal-estar perante o facto de tantos portugueses terem escolhido Ventura e o CHEGA como veículo de representação política.
Esse mal-estar é mais profundo do que a discordância. É uma incomodidade com a existência social daquele voto.
O eleitor do CHEGA raramente é tratado como cidadão que ponderou, escolheu, hierarquizou prioridades e votou. É tratado como alguém que reage, não como alguém que decide. Reage à imigração. Reage à insegurança. Reage à pobreza. Reage ao ressentimento. Reage à televisão. Reage às redes sociais. Reage ao populismo. Reage ao medo. Reage, enfim, a tudo , menos à possibilidade de ter pensado.
É aqui que a linguagem do comentariado revela o seu fundo aristocrático.
O eleitor do partido “certo” vota por consciência cívica. O eleitor do partido “errado” vota por pulsão.
O eleitor moderado é ponderado. O eleitor do CHEGA é zangado.
O eleitor liberal é informado. O eleitor do CHEGA é simplista.
O eleitor socialista é socialmente sensível. O eleitor do CHEGA é ressentido.
O eleitor conservador respeitável é institucional. O eleitor do CHEGA é perigoso.
E assim se constrói uma geografia moral do voto: uns votam com a cabeça; outros votam com o fígado. Uns exercem cidadania; outros exprimem patologia. Uns têm convicções; outros têm frustrações.
É uma forma elegante de desprezar milhões de pessoas sem dizer explicitamente que se desprezam milhões de pessoas.

VI. A velha tentação: dissolver o povo
A frase atribuída a Bertolt Brecht, tantas vezes citada, segundo a qual seria talvez conveniente ao governo dissolver o povo e eleger outro, é aqui irresistível. Não tanto pela autoria exacta ou pela fidelidade textual, mas pela força da imagem política.
A cada eleição em que o CHEGA cresce, parte do comentariado reage como se tivesse havido uma avaria no mecanismo democrático. Não pergunta primeiro: o que falhou no sistema? Que inseguranças cresceram? Que comunidades se sentiram abandonadas? Que promessas foram quebradas? Que políticas públicas falharam? Que sectores sociais deixaram de se rever no PS, no PSD, no PCP ou na direita tradicional?
Pergunta antes: como é possível que ainda votem neles?
A diferença é enorme.
A primeira pergunta é democrática. A segunda é inquisitorial.
A primeira pergunta procura compreender. A segunda procura diagnosticar.
A primeira pergunta reconhece o eleitor como sujeito. A segunda transforma-o em objecto.
É precisamente isto que torna certas análises tão pobres. Não por serem contra o CHEGA, mas por serem incapazes de perceber que o CHEGA não nasceu do nada. Nasceu da falência de equilíbrios antigos. Nasceu da incapacidade do regime em responder a inquietações populares. Nasceu da crise de confiança nas instituições. Nasceu da erosão do voto comunista em certas zonas, da crise do PS em sectores populares, da incapacidade do PSD em representar uma direita socialmente enraizada, da transformação da comunicação política e do ressentimento acumulado contra uma elite que parece sempre disposta a explicar ao povo porque é que o povo está enganado.
O CHEGA pode explorar tudo isto. Pode exagerar tudo isto. Pode instrumentalizar tudo isto. Mas não inventou tudo isto.
E quem não percebe esta diferença continuará a insultar o sintoma para não discutir a doença.

VII. O curioso caso da direita que só gosta do povo quando ele vota como deve
Há ainda uma ironia particular nesta polémica: parte da crítica mais feroz a Ventura surge de sectores que se consideram de direita, reformistas, liberais ou conservadores. Ora, uma direita que não compreende a dimensão popular da política está condenada a ser uma associação recreativa de gestores, fiscalistas e comentadores.
A direita portuguesa instalada nunca soube muito bem o que fazer com o povo que não cabe nos seus salões. Gosta do contribuinte, mas desconfia do trabalhador. Gosta do empresário, mas não sabe falar com o precário. Gosta da liberdade económica, mas esquece que há muitos portugueses para quem “liberdade económica” significa apenas pagar mais por serviços piores. Gosta da reforma do Estado, mas raramente explica quem protege quando o Estado falha. Gosta do mérito, mas muitas vezes confunde mérito com herança social embrulhada em PowerPoint.
Quando Ventura aparece a disputar a idade da reforma, a reacção é de pânico doutrinário. Como se uma direita popular não pudesse ter uma agenda social. Como se a única direita admissível fosse a direita tecnocrática, europeísta, bem-comportada, fiscalmente virtuosa, socialmente distante e eleitoralmente limitada.
Mas a política real é mais complexa. Muitos eleitores do CHEGA não votam em Ventura porque leram Hayek, Burke, Maurras, Friedman ou Carl Schmitt. Votam porque sentem que alguém fala de temas que os outros evitam. Votam porque desconfiam de uma justiça lenta, de um Estado caro, de uma imigração mal gerida, de serviços públicos degradados, de bairros abandonados, de reformas baixas, de salários comprimidos, de polícias desautorizadas, de impostos elevados e de uma comunicação social que os trata como suspeitos.
Pode discordar-se da resposta. Mas fingir que a pergunta é ilegítima é politicamente suicida.

VIII. A crítica legítima e a crítica insultuosa
Importa deixar claro: nada disto significa que André Ventura deva ser poupado à crítica. Pelo contrário. Um partido que ambiciona governar deve ser escrutinado com dureza. Deve explicar a sua política económica. Deve esclarecer se quer uma direita popular ou apenas uma máquina de protesto. Deve demonstrar se sabe negociar sem se contradizer. Deve mostrar se é capaz de transformar força eleitoral em responsabilidade institucional.
Também é legítimo perguntar se Ventura é fiável. É legítimo perguntar se o CHEGA tem coerência programática. É legítimo perguntar se a sua estratégia é apenas maximização táctica. É legítimo perguntar se uma direita que defende baixa da idade da reforma tem uma explicação financeira séria. É legítimo perguntar se o partido quer reformar o Estado ou apenas capturar o descontentamento contra ele.
Tudo isto é legítimo.
O que não é legítimo , ou, pelo menos, o que é intelectualmente pobre e democraticamente perigoso , é transformar essas perguntas numa desqualificação moral dos seus eleitores.
A crítica política diz: “a proposta é errada”.
A crítica insultuosa diz: “só gente pouco instruída vota nisto”.
A crítica política diz: “o líder é incoerente”.
A crítica insultuosa sugere: “os seus eleitores são demasiado primários para perceberem a incoerência”.
A crítica política diz: “há uma contradição entre conservadorismo cultural e estatismo económico”.
A crítica insultuosa diz: “isto é uma mistura populista para apanhar pobres, ex-comunistas e descontentes”.
A primeira discute ideias. A segunda classifica pessoas.
E classificar pessoas é sempre a tentação favorita de quem tem medo de discutir com elas.

IX. O Observador e o estatuto editorial do desconforto
A newsletter de Carlos Maria Bobone tem ainda o mérito involuntário de tornar explícito o ambiente editorial: A posição de Ventura foi “bastante mal recebida” entre os colunistas do Observador. 
Paulo Ferreira surge como exemplo da crítica mais sarcástica; 
Rui Ramos como contraponto moderador; 
José Manuel Fernandes como crítico da alegada pouca fiabilidade de Ventura.
Nada há de ilegítimo nisto. Um jornal tem linha editorial, mesmo quando não a proclama. Uma redacção tem cultura. Um espaço de opinião tem afinidades, alergias, preferências e fantasmas. O problema não é o Observador ter opinião. O problema é parte da opinião publicada confundir a sua irritação com superioridade analítica.
mas
Há, no caso do CHEGA, um curioso fenómeno: quanto mais o eleitorado do partido cresce, mais uma parte do comentariado parece sentir necessidade de explicar que esse eleitorado não devia contar muito. Ou conta numericamente, mas não conta moralmente. Conta nas urnas, mas não conta na legitimidade simbólica. Serve para assustar, mas não para ser ouvido. Serve para explicar a crise, mas não para participar na solução.
É o voto tolerado como problema, nunca reconhecido como mensagem.
Ora, em democracia, quando quase dois milhões de cidadãos se aproximam de uma candidatura presidencial , usando a expressão em sentido político, apesar de o número final ter ficado em 1,737 milhões , o mínimo que se exige aos analistas é que perguntem o que essa votação significa. Não apenas o que ela ameaça. Não apenas o que ela revela de “baixo”. Não apenas o que ela perturba nos salões. O que significa.
Porque um voto pode ser desagradável. Mas continua a ser um voto.

X. O povo não é figurante
Há nesta polémica uma questão mais vasta: a relação entre elites de comentário e soberania popular.
Durante décadas, o sistema político português viveu confortavelmente instalado numa alternância previsível. PS e PSD organizavam o essencial do regime. O CDS orbitava. O PCP resistia como reserva histórica. O Bloco ocupava a indignação moral da esquerda urbana. A comunicação social enquadrava, comentava, moralizava e distribuía certificados de respeitabilidade.
Depois, o mapa mudou.
O CHEGA não é apenas um partido. É um acontecimento sociológico. É o sinal de que uma parte do país deixou de aceitar o papel de figurante. Pode-se gostar ou não. Pode-se temer ou aplaudir. Pode-se combater ou integrar. Mas não se pode fingir que 1,4 milhões de votos legislativos e 1,7 milhões de votos presidenciais são uma alucinação colectiva.
O povo não é uma plateia convidada a aplaudir o guião das elites. O povo é o autor incómodo da peça.
E quando o autor muda o enredo, os críticos podem não gostar. Mas não têm o direito de chamar analfabetos dramáticos aos espectadores que compraram bilhete.

XI. uma conclusão possível
A crítica a Ventura pode ser dura. Deve ser dura. A crítica ao CHEGA pode ser severa. Deve ser severa. Mas a crítica aos seus eleitores deve ser cautelosa, porque aí já não se está apenas a discutir um partido. Está-se a discutir a própria matéria humana da democracia.
Quando se olha para quase dois milhões de votos e se vê apenas ignorância, ressentimento, falta de instrução ou manipulação, talvez o problema não esteja nos eleitores. Talvez esteja no observador.
É possível que muitos portugueses tenham votado CHEGA por protesto. É possível que alguns tenham votado por raiva. É possível que outros tenham votado por medo. É possível que muitos tenham votado por cálculo. É possível que alguns tenham votado por convicção. É possível que outros tenham votado porque já não acreditam em quem lhes passou décadas a explicar que tudo ia melhorar, desde que esperassem mais um bocadinho.
Mas isto também acontece com todos os partidos. Há votos socialistas por medo. Há votos sociais-democratas por interesse. Há votos liberais por moda. Há votos comunistas por memória. Há votos bloquistas por ressentimento moral. Há votos centristas por cálculo. Só que, nesses casos, o comentariado costuma chamar-lhes “sensibilidade social”, “moderação”, “responsabilidade”, “consciência democrática” ou “tradição”.

Quando se trata do CHEGA, o vocabulário muda. E a mudança do vocabulário revela a mudança do respeito.
No fundo, o que incomoda não é apenas André Ventura. O que incomoda é que tanta gente já não peça licença para votar fora do perímetro autorizado.
E talvez seja esse o verdadeiro Rubicão: não o que Ventura atravessou, mas o que o povo atravessou quando deixou de aceitar que a democracia fosse apenas a confirmação periódica da superioridade moral dos mesmos de sempre.
A partir daí, o jornalistado e o comentariado podem continuar a suspirar: “o povo não vota como queremos”.
Pois não.
Chama-se a isso democracia.
E, se ela ainda serve para alguma coisa, é precisamente para lembrar às elites que o povo não existe para obedecer aos editoriais.

Notas de referência
1. Segundo os resultados finais proclamados pelo Tribunal Constitucional e noticiados pela RTP/Lusa, António José Seguro obteve 3.502.613 votos e André Ventura 1.737.950 votos na segunda volta das Presidenciais de 2026. Ver: RTP/Lusa, “TC confirma vitória de Seguro com mais de 3,5 milhões de votos”, disponível em: https://www.rtp.pt/noticias/politica/tc-confirma-vitoria-de-seguro-com-mais-de-35-milhoes-de-votos_n1719596. Ver também os resultados das Legislativas de 2025 apresentados pela RTP, disponíveis em: https://www.rtp.pt/eleicoes/legislativas-resultados/2025.
2. Paulo Ferreira, “A honrosa missão do camarada Andrei Venturov”, Observador. Referência complementar à publicação do próprio autor no LinkedIn, onde resume a tese dizendo que Ventura “quer ultrapassar o socialismo pela esquerda”, disponível em: https://pt.linkedin.com/posts/paulo-ferreira-35218a18_a-honrosa-miss%C3%A3o-do-camarada-andrei-venturov-activity-7458432071846457346-pVTz.
3. José Manuel Fernandes, “O Chega, e André Ventura, atravessaram o seu Rubicão”, Observador, artigo referido pelo utilizador e analisado a partir dos excertos transcritos. Link indicado: https://observador.pt/opiniao/o-chega-e-andre-ventura-atravessaram-o-seu-rubicao/.
4. Rui Ramos, “É o povo que não quer reformas?”, Observador, artigo referido pelo utilizador. Link indicado: https://observador.pt/opiniao/e-o-povo-que-nao-quer-reformas/.
5. Carlos Maria Bobone, “Ventura e Costa: os nossos colunistas esclarecem”, newsletter Pontos de Vista, Observador, artigo referido pelo utilizador. Link indicado: https://observador.pt/newsletters/pontos-de-vista/ventura-e-costa-os-nossos-colunistas-esclarecem/.
6. A fórmula “mude-se o povo” remete para a conhecida imagem satírica associada a Bertolt Brecht, frequentemente evocada para criticar a tentação das elites de responsabilizar o povo quando este não confirma as expectativas do poder ou da opinião dominante.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

André Ventura, “o anti-sistema” | Presidenciais 2026

como é visto pelo comentariado e jornalistado do sistema!  
A história começa nas eleições autárquicas de 2017: André Ventura, candidato desconhecido do PSD à Câmara Municipal de Loures, dá uma entrevista onde faz declarações polémicas sobre a comunidade cigana. Perdeu essas eleições, mas daí nasceu o Chega, que é hoje a segunda maior força política do país. Omnipresente e inescapável, é um enviado de Deus para uns e fascista para outros. Que história conta o percurso político do candidato "anti-sistema" desta corrida presidencial?

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

no Observador a "luta continúa"

Seis meses depois
um bitaite para conferir 
Um dos seis detidos é chefe da PSP e nos grupos de Telegram em que se organizam abunda desinformação e mensagens antissemitas. PJ apreendeu pela primeira vez armas feitas com impressoras 3D.

Mil subscritores, antissemitismo e muitas ameaças. Dentro do canal de Telegram
O movimento descrevia-se como “um grupo de Lusitanos que enaltece Portugal e os Portugueses patriotas”, com membros referenciados em várias ocasiões por participarem em manifestações racistas. Nos últimos tempos, a atividade deslocou-se dos blogs para o Telegram, rede social e de troca de mensagens em que, através de dois canais diferentes, contam com mais de mil subscritores — que aumentaram consideravelmente durante a pandemia.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

O Seguidismo como substituto do espírito crítico

O seguidismo é uma forma de indigência intelectual: adesão a ideias sem filtro, sem debate, sem análise — apenas repetição, imitação, reflexo condicionado. É o que vemos hoje na engrenagem propagandística do PS, replicada fielmente por parte dos média que se reclamam independentes mas funcionam como caixa de ressonância.

Este caso é claro: 
Alexandra Leitão afirma que não pedirá a demissão de Carlos Moedas, mas sublinha que nunca faria uma conferência de imprensa sem direito a perguntas. 
O Observador, em vez de contextualizar ou questionar, passa a repetir em uníssono duas “ideias-força”:
- Moedas não se demite (conclusão já sabida).
- O erro maior de Carlos Moedas foi a conferência sem perguntas (tese oferecida pela própria Leitão).
E os programas “e o Vencedor é” e o “Explicador” alinharam-se sem pestanejar nesse guião. Não há interrogação, não há contraditório, não há investigação própria: apenas eco.
Isto é seguidismo: não é jornalismo, nem comentário. É pura imitação da narrativa oficial.

Uma democracia que se habitua a esta indigência crítica perde pluralismo e ganha propaganda disfarçada de informação.

terça-feira, 26 de agosto de 2025

Do pânico moral ao framing operacional: uma análise crítica do ecossistema editorial do Observador sobre André Ventura e os incêndios (Verão de 2025)

Resumo
Este artigo analisa, em registo académico, a coordenação discursiva do ecossistema editorial do Observador em torno de André Ventura e do partido CHEGA durante o pico de incêndios do Verão de 2025. O corpus reúne (i) um episódio do podcast E o vencedor é… cuja sinopse formula a acusação de “instrumentalização” e mede a seriedade programática por um “parágrafo-metro” sobre florestas; (ii) a crónica satírica de José Diogo Quintela, Líderes para o Canadair e vier; e (iii) a crónica de Rui Pedro Antunes, A culpa não é do La Féria, mas podia ser. A metodologia combina análise de discurso crítico e análise de framing, com atenção às técnicas retóricas (ad hominem, culpa por associação, hipérbole moral, recorte selectivo) e às implicações na janela de Overton. Conclui-se que o tripé podcast–sátira–crónica opera como máquina de propaganda: rotula primeiro, discute depois, substituindo métricas e custos por moralinas e teatralizações, em continuidade histórica com os padrões de pânico moral aplicados à Aliança Democrática (1979). Propõem-se critérios de boas práticas para um espaço público plural (transparência editorial, contraditório real, grelhas técnicas comparadas e ombudsman independente).
1. Introdução
Na cobertura mediática dos incêndios, a fronteira entre jornalismo analítico e activismo editorial adquire relevância democrática. A acusação de que um actor político “instrumentaliza” tragédias não é trivial: exige prova, contexto e comparação com alternativas políticas. Este trabalho investiga se, e como, um ecossistema mediático específico — o do Observador — consolidou um frame acusatório sobre André Ventura/CHEGA, reforçado por peças opinativas convergentes.
Perguntas de investigação:
. Que frame central estrutura a cobertura analisada?
. Quais as técnicas retóricas predominantes?
. Em que medida há coordenação temática entre formatos (podcast e crónicas)?
. Que efeitos potenciais se antecipam para a deliberação pública?
2. Corpus e método
Corpus:
Episódio do podcast "e o vencedor é...!" cujo título/interrogação formula a tese de “instrumentalização” e cuja sinopse moraliza a presença de Ventura em cenários de incêndio, contrapondo ainda a ideia de que o programa do CHEGA teria “apenas um parágrafo” sobre florestas.
Crónica de José Diogo Quintela, Líderes para o Canadair e vier, de natureza satírica, que associa lideranças a teatro de selfies e oportunismo em torno do fogo.
Crónica de Rui Pedro Antunes, A culpa não é do La Féria, mas podia ser, que teatraliza o comportamento político através de metáfora cénica.
Método:
Análise de Discurso Crítico (ADC) para identificação de rótulos, metáforas, campos semânticos e silêncios (o que é omitido).
Análise de framing (operacionalização livre a partir de Entman): diagnóstico do problema, atribuição causal, juízos morais, prescrição de remédios.
Triangulação entre formatos (áudio e texto) para aferir consistência de frame.
Teste de paridade: contraste entre moralina (moralidade inoportuna, superficial ou falsa) e métrica — verificar se há grelha técnica (meios, custos, metas, calendário, instrumentos legais) ou se o juízo repousa em critérios morais e contabilidade de “parágrafos”.
3. Resultados: cartografia do frame
3.1 Sentença prévia e “parágrafo-metro”
A sinopse do podcast formula um juízo normativo — “o que os políticos não devem fazer” — e introduz um indicador rudimentar (“um parágrafo sobre florestas”) que converte a avaliação de políticas complexas em contagem de linhas. Chamamos a este artifício parágrafo‑metro. O efeito é substituir métricas e custos por moralização comportamental.
3.2 Técnicas retóricas recorrentes
Ad hominem moralizante: o foco recai na “indecência” de estar presente no terreno, não na eficácia das medidas propostas.
Culpa por associação: colagem a arquétipos internacionais ou a estereótipos (“oportunismo”) que dispensam prova contextual.
Hipérbole moral: metáforas de ameaça sistémica (“algazarra”, “teatro”) sem correlato com indicadores de execução de política pública.
Recorte selectivo: ausência de grelha comparativa entre programas partidários quanto a prevenção, gestão de combustíveis, ordenamento, fiscalização e justiça penal ambiental.
3.3 Orquestração editorial: sátira + teatralização
As crónicas actuam como coro do podcast: A de Quintela reduz o problema a espectáculo e pose, dobrando o frame do oportunismo e a de Rui Pedro Antunes reforça a metáfora teatral (La Féria), deslocando o debate do plano das políticas para o da encenação.
O resultado é um tripé coerente: podcast (sentença e parágrafo‑metro) + sátira (ridicularização) + crónica (teatralização).
4. Discussão: da AD (1979) ao Verão de 2025
O padrão observado ecoa a diabolização mediática aplicada à Aliança Democrática (1979):
1) Pânico moral como gatilho; 2) caricatura do antagonista; 3) apagamento do contraditório substantivo; 4) normalização do rótulo como “verdade social”. 
Em 2025, mudam os altifalantes (podcasts, clips, feeds), persiste o método. A consequência previsível é o estreitamento da janela de Overton e a degradação da deliberação pública informada.
5. Implicações para a praça pública
Efeito substituição: o cidadão consome juízos morais em vez de análise de políticas (meios, metas, custos).
Efeito espiral: “teatro” e “algazarra” ganham tração algorítmica, empurrando o debate para performatividade.
Efeito assimetria: duas bitolas — indulgência para uns actores, punição retórica para outros — minam a confiança na independência editorial.
6. Proposta de boas práticas editoriais
Transparência forte: declaração visível de interesses e trajectos dos comentadores; separação gráfica entre notícia, opinião e verificação.
Contraditório real: debates simultâneos, com igualdade de tempo e moderação activa; evitar “direito de resposta” tardio.
Grelha técnica comparada: para cada tema (p. ex., florestas), apresentar instrumentos, orçamento estimado, metas anuais, calendário de execução e mecanismos de fiscalização — para todos os partidos.
Ombudsman independente: com relatórios públicos e capacidade de auditar painéis e critérios de convite.
Literacia mediática: explicação didáctica dos critérios de framing utilizados e das limitações metodológicas de cada formato.
7. Conclusão
A coordenação entre o episódio do podcast "w o Vencedor é...!" e as crónicas seleccionadas configura um dispositivo de framing cujo efeito é deslegitimar o adversário político por via de rótulos e sátiras, sem submeter as alternativas a escrutínio técnico comparável. A analogia histórica com 1979 não é mero recurso retórico: é continuidade estrutural de um modo de operar o pânico moral. A saúde do espaço público exige menos sermão e mais comparação de políticas.
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Referências (indicativas)
"e o vencedor é…" (episódio sobre “instrumentalização” e sinopse com referência ao “um parágrafo” sobre florestas).
José Diogo Quintela, “Líderes para o Canadair e vier” (posts oficiais). (crónica satírica). Facebook
Rui Pedro Antunes, “A culpa não é do La Féria, mas podia ser” (posts oficiais). (crónica de comentário político) Facebook
Registos públicos de difusão nas plataformas de áudio e em páginas sociais do Observador.

terça-feira, 17 de junho de 2025

Entre o Medo e o Desprezo: Como o “Observador” Fala do CHEGA… e dos seus Eleitores

O jornal Observador e a sua estação de rádio associada tornaram-se, nos últimos anos, referências incontornáveis da direita portuguesa. Mas não qualquer direita: é uma direita ordeira, urbana, liberal nos impostos, conservadora nos costumes, mas – acima de tudo – institucionalista. É a direita que teme a desordem, mas que despreza o povo que não vota “como deve ser”.

Esta tensão entre o desejo de mudança e o medo de ruptura revela-se com clareza nas análises e comentários que o Observador dedica ao partido CHEGA e, talvez ainda mais interessante, aos seus eleitores.
O que pensam os jornalistas e comentadores do “Observador” sobre o CHEGA?
Uma atitude predominante: crítica e desconfiança
O CHEGA é frequentemente descrito como populista, radical, ou antieuropeísta, embora esta última caracterização varie.
Há uma tentativa frequente de diferenciar o eleitorado do CHEGA da liderança de André Ventura, numa abordagem que sugere que os eleitores podem ser compreendidos, mas o líder é muitas vezes retratado como oportunista ou perigoso.
Comentadores como José Manuel Fernandes, Rui Ramos ou João Marques de Almeida já escreveram ou disseram publicamente que o crescimento do CHEGA é um sinal de falência da representação tradicional, mas recusam normalizar o partido ou incluí-lo numa eventual coligação governativa.
Editorialmente:
jornal recusa associar-se à tese de “cordão sanitário” à moda francesa, mas também recusa dar legitimidade institucional plena ao CHEGA, especialmente ao nível do governo nacional.
Mas em vários artigos de opinião, considera-se que o partido:
não apresenta um programa de governo consistente,
alimenta-se do ressentimento e de um discurso de rutura emocional,
beneficia da inépcia do sistema partidário tradicional e da impopularidade da esquerda.

O Partido que os Assusta e os eleitores que os Incomodam 
Na generalidade dos seus editoriais, artigos de opinião e espaços de comentário, o CHEGA é descrito como um partido populista, radical, perigoso para as instituições e para o prestígio do regime. Não se trata apenas de uma crítica ideológica, mas de um juízo moral: André Ventura é apresentado como manipulador, oportunista e calculista. Já o partido, por seu turno, é visto como um vazio programático preenchido por indignação e ressentimento.
Contudo, o Observador não comete o erro ingénuo de tratar todos os eleitores do CHEGA como fascistas, ignorantes ou xenófobos. Pelo contrário, alguns dos seus colunistas mais sérios – Rui Ramos ou João Marques de Almeida – reconhecem que muitos votos no CHEGA são respostas legítimas a uma representação política falhada, a um sistema que abandonou os seus cidadãos, e a uma classe política que vive num mundo paralelo.
A tensão é esta: compreendem-se os eleitores, mas recusa-se a sua escolha.
Compreendem os eleitores, mas desprezam o seu voto.
O Observador diz entender os portugueses que votam CHEGA… mas continua a tratar o partido como um acidente, um erro ou uma ameaça.
Talvez o que os incomoda não seja o radicalismo de Ventura, mas o facto de milhares de cidadãos terem deixado de pedir licença para protestar — e começado a votar contra o regime.
O Artigo Que Foge ao Roteiro
Curiosamente, é o próprio Observador a publicar (17Junho2025), um artigo intitulado “O que pensam os eleitores do CHEGA?”, que procurou, com alguma honestidade, contrariar a narrativa dominante. Nesse texto, os autores denunciam a visão condescendente com que muitos jornalistas tratam os apoiantes de Ventura: como se fossem analfabetos funcionais, desinformados, ou fanáticos racistas.
Nada disso resiste ao confronto com a realidade: o artigo retrata um eleitorado que, longe de ser irracional, revela consistência nos temas que elege como prioritários (corrupção, insegurança, imigração, justiça), e um profundo descrédito nas promessas recicladas pelos partidos do costume.
A ironia não deixa de ser amarga: o jornal que alberga colunistas que diabolizam Ventura, é o mesmo que reconhece que milhares de portugueses apenas querem ser ouvidos – e que, sendo ignorados, começaram a gritar.
O Limite da Compreensão
O Observador quer ser moderno, mas não disruptivo. Quer ser crítico do regime, mas sem romper com ele. Quer dar espaço à crítica popular, mas teme a força do povo quando este se organiza politicamente fora das fronteiras convencionais.
Talvez por isso o CHEGA seja simultaneamente o partido mais escrutinado e o mais mal interpretado pelas direitas institucionais. Porque representa não uma alternativa intelectual, mas uma insurreição emocional e social – o grito de quem já percebeu que este sistema não muda com bons modos.
E é exactamente por isso que, mesmo quando os jornalistas do Observador escrevem que compreendem os eleitores do CHEGA, continuam a escrever como se esses eleitores tivessem votado mal.

sábado, 5 de abril de 2025

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

[O Primeiro Presidente do Século XXI e a paz na Ucrânia]

O século XXI trouxe consigo uma série de mudanças tectónicas no cenário global, refletidas em parte pela ascensão de figuras políticas controversas e polarizadoras. Um nome que inevitavelmente surge nas discussões é Donald Trump, o 45º Presidente dos Estados Unidos. No entanto, como bem apontado por Rui Ramos, a figura de Trump é menos um agente de mudança e mais um reflexo de um mundo que já vinha mudando há algum tempo.
A eleição de Donald Trump em 2016 foi, para muitos, um choque no status quo da política mundial. Caracterizado por seu estilo inconvencional e políticas nacionalistas, Trump parecia introduzir uma nova era de incerteza e imprevisibilidade. Contudo, como Ramos sugere, o impacto de Trump não reside tanto nas suas ações individuais, mas sim na forma como ele tentou moldar o poder dos EUA para se alinhar com um mundo já em transformação. Este mundo se caracteriza por uma redistribuição de poder, onde a hegemonia ocidental enfrenta desafios crescentes de potências emergentes como a China e a Rússia.
Rui Ramos destaca que o problema não se limita a um único homem, mas sim à trajetória histórica que nos trouxe até aqui. A globalização, a revolução digital e as crises econômicas contribuíram para um cenário onde o papel tradicional dos EUA como superpotência é frequentemente questionado. As políticas de Trump, portanto, podem ser vistas como uma tentativa de resposta a essas mudanças, buscando reestabelecer a influência americana em um mundo cada vez mais multipolar.
Um ponto crucial levantado por João Marques de Almeida é que Trump não foi o único líder
ocidental a tentar dialogar com figuras controversas como Vladimir Putin. Antes dele, Emmanuel Macron, Presidente da França, viajou a Moscovo, e Olaf Scholz, Chanceler da Alemanha, conversou com Putin por telefone.
A guerra na Ucrânia tem sido um dos maiores focos de instabilidade na última década. Marques de Almeida menciona que o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky não deseja perpetuar o conflito. Essa posição ressalta a complexidade da situação, onde os líderes buscam soluções que evitem uma escalada maior, mas enfrentam obstáculos significativos tanto interna como externamente.
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O primeiro presidente do século XXI a causar um impacto profundo no cenário global pode ser visto como mais um produto das circunstâncias históricas do que como um criador delas. Trump, com todas as suas controvérsias, tentou moldar o poder dos EUA para um mundo em mudança, mas não foi o único a reconhecer a necessidade do diálogo em tempos de conflito. O cenário global atual é um reflexo de complexas dinâmicas históricas e políticas que continuarão a evoluir nos próximos anos.

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Contra a Corrente

contra a corrente que está a tornar o Observador cada vez mais Público


segunda-feira, 10 de junho de 2024

Radialista da Radio OBSERVADOR, a nova tenebrosa máquina de propaganda!

Como já é habitual, apesar de o Partido CHEGA ter aumentado a votação em 1 milhão de votos e de ter passado de 12 para 50 deputados, alguns dos radialistas do Radio Observador continuaram a veneranda tarefa de se substituírem à defunta "tenebrosa máquina de propaganda do Partido Socialista".
O que é que um milhão e meio de eleitores pensarão da decisão editorial deste actor da chamada comunicação social que, um dia, lhes pediu e deles obteve, os meios necessários para continuar...

sábado, 30 de dezembro de 2023

para memória futura!

quando o OBSERVADOR virou TSF (ou similar) com
Anselmo Crespo, Mafalda Pratas Fernandes e André Maia

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

Onde é que estavas no 25 de Novembro?

 

Semanas antes do 25 de Novembro Álvaro Cunhal ainda garantia que não existe em Portugal a menor possibilidade de uma democracia como as da Europa Ocidental e hoje sabemos quem e a que horas deu ordens para os militares comunistas avançarem.
Vale a pena recordar isso e muito mais quando tantos recusam comemorar o dia em que se resgatou o 25 de Abril.



Houve um tempo em que a pergunta “Onde é que estavas no 25 de Abril?” chegou a ser tema de rábulas humorísticas, mas hoje interessa-me fazer outra pergunta, a pergunta que quase nunca ouvi a alguém: “Onde é que estavas no 25 de Novembro?” E interessa-me fazê-lo porque, havendo respostas sinceras, percebem-se melhor algumas incoerências dos nossos dias. E uma delas é tratarmos o 25 de Abril como sendo património da esquerda e o 25 de Novembro como património da direita. Ora isso não faz sentido historicamente e, do ponto de vista político, tem consequências muito negativas.

A questão chave para entendermos a relevância dessa data é perceber o que estava em causa naqueles dias – e o que esteve em causa no período que antecedeu o golpe e contra-golpe de 25 de Novembro de 1975 foi saber se Portugal seria ou não uma democracia como hoje a conhecemos e vivemos. Naquele Verão o que aconteceu em Portugal não foram apenas alguns “excessos” mais ou menos juvenis, o que aconteceu em Portugal reflectiu o desejo da facção radical do MFA, do Partido Comunista e de uma galáxia de grupos de extrema-esquerda transformarem a revolução portuguesa numa versão ibérica da revolução cubana, ou algo de semelhante. Antigamente o PS, o PS de Mário Soares e da Fonte Luminosa, sabia bem o que estivera em jogo. Hoje parece que nem alguns dos principais protagonistas querem recordar quem foi que derrotaram naquelas horas tensas e incertas.

Não digo isto por acaso – digo porque ao ler o que o Expresso publicou esta semana sobre o 25 de Novembro encontro quem simultaneamente revele o grau de envolvimento do PCP no golpe e, ao mesmo tempo, acrescente que quem foi derrotado naquele dia foi a extrema-direita. Na verdade o artigo abre com o que julgo ser uma revelação feita por Vasco Lourenço: “o nome do militante comunista que ao telefone deu a ordem de avanço e, depois, recuo para as forças comunistas”. Os dois protagonistas destes momentos são Jaime Serra, um dirigente histórico do PCP e nessa época responsável por fazer a ligação com os militares comunistas, e um desses militares, o tenente miliciano Luís Pessoa. Infelizmente já morreram os dois, mas o presidente da Associação 25 de Abril garante que a história do que então se passou lhe foi contada pessoalmente pelo próprio Luís Pessoa. Mesmo assim, já no final do artigo, onde há testemunhos de outros protagonistas desses dias, Vasco Lourenço consegue concluir que “a maior vitória no 25 de Novembro nem é sobre a hipótese de um regime comunista ou popular. Antes sobre a extrema-direita, perigosa, que estava no terreno com a cobertura dos Nove e que tentou um novo 28 de Maio.”

Há cambalhotas de raciocínio que são difíceis de seguir, mas neste caso há uma explicação para este malabarismo lógico e essa explicação passa pela forma sectária como em Portugal se procurou sempre associar o 25 de Abril e um projecto político e não àquilo que ele foi: um golpe de Estado destinado a derrubar um regime caduco e a devolver aos portugueses o direito de escolherem livremente o seu destino. No entanto, em Portugal, como recentemente notou o Rui Ramos, a esquerda declara-se “autora e portanto dona da democracia em Portugal, numa tentativa patética de menorizar e de excluir quem pensa de outra maneira”. É por isso que o 25 de Novembro tende a ser menorizado, ou mesmo vilipendiado, é por isso que se consegue chegar a leituras históricas tão bizarras como essa da “vitória sobre a extrema-direita”.

Muito para ajudar a perceber o que estava em causa nesse período dediquei nesta sexta-feira o meu Contra-corrente precisamente à ideia de que “Há que recuperar o 25 de Novembro para a História”. Para o fazer realizei um exercício de “onde é que estavas nesse dia” e comecei por contar a minha própria experiência de imberbe revolucionário — tinha 18 anos — que passou esses dias na sede da organização, um local por onde passavam armas e se procurava, da forma o mais improvisada possível, ensinar aos mais novos como eu alguns rudimentos de como usar uma espingarda automática G3 ou uma metralhadora FPB. Também recordei como, enquanto as coisas não se definiram, esteve sempre parado em frente dessa sede um automóvel que, olhando para ele e vendo como tinha a traseira a roçar o chão, percebia-se estar carregado de armas.

Mais importante e mais significativa foi no entanto a experiência de Zita Seabra, que na altura era dirigente do PCP e controlava os estudantes comunistas. Nessa noite os militantes estavam distribuídos por células e por casas onde aguardavam que os chamassem para “defender a revolução” e, naturalmente, lhes entregassem as armas por que ansiavam. Acontece porém que o PCP, tal como mobilizou, desmobilizou, um decisão vinda do próprio Álvaro Cunhal que logo reuniria com principais funcionários do partido, dando nessa altura uma explicação que Zita Seabra nunca esqueceu e por isso contou no seu livro de memórias “Foi assim”: Cunhal disse “que teve garantias de Melo Antunes de que não ia ser preso e que o PCP não ia ser ilegalizado. E recordou a obra de Lenine, Um passo atrás, dois passos à frente, escrita nas vésperas da revolução de 1905. Íamos dar um passo atrás para no futuro podermos dar dois passos à frente”.

É bom não ter ilusões sobre o que é que Cunhal realmente pretendia, e sobre o que o PCP continua a pretender hoje. Os comunistas sempre foram mestres na arte do disfarce, mas nesse Verão de 1975 o líder histórico do PCP teve, digamos assim, liberalidades de linguagem pouco comuns numa entrevista que deu à jornalista italiana Oriana Fallaci. Foi aí que ele disse que “não existe hoje em Portugal a menor possibilidade de uma democracia como as da Europa Ocidental”, isto porque considerou que “o processo democrático burguês quer confinar a revolução aos velhos conceitos do eleitoralismo”. Disse até mais: “Nós, os comunistas, não aceitamos o jogo das eleições (…) Se pensa que o Partido Socialista com os seus 40 por cento de votos, o PPD, com os seus 27 por cento, constituem a maioria, comete um erro. Eles não têm a maioria” (um apanhado das principais frases dessa entrevista pode ser lido aqui, a reprodução na íntegra das páginas do jornal que a editou em Portugal, como o título “Cunhal a nu”, estão disponíveis aqui).

Não deve pois haver dúvidas: o programa do PCP e da esquerda radical de que o hoje o Bloco é herdeiro não era o da Constituição de 1976, era o de instalar em Portugal aquilo a que chamavam ora “democracia avançada”, ora “democracia popular”, e que seria sempre uma ditadura como tantas que conhecemos. De resto o PCP ainda hoje não esconde a sua repulsa pelo 25 de Novembro, uma data sobre a qual ainda recentemente se escrevia no Avante que é “uma irrelevância que se exibe coxa e a cheirar a naftalina, com as mãos sujas de sangue, atrelada à ignomínia dos dias do terror; vive de mentiras urdidas sem honra nem pudor.”

É por isto tudo que faz sentido a minha pergunta retórica, como faz sentido comemorar o 25 de Novembro, como sobretudo é necessário que tornemos esta data património comum da nossa democracia, começando por a ensinar nas escolas (depois desse meu programa na Rádio Observador recebi um mail de ouvinte que dizia apenas isto: “Tenho 35 anos. Era aluno de 5 a História. Não me recordo de ter ouvido falar do 25 de novembro nas aulas. E tanto pormenor e detalhes só hoje mesmo! Algo está errado…”)

Politicamente os danos causados pela visão sectária da história que reivindica o 25 de Abril para a esquerda e associa o 25 de Novembro à direita traduzem-se numa bipolarização que, se extremada, e já esteve mais longe disso, pode sempre causar danos à nossa democracia pluralista, tão corajosamente defendida nesses dias de exaltação e inquietude. O partido que melhor devia entender isto era o Partido Socialista, mas não procura sequer fazê-lo pois convém-lhe a narrativa da “ameaça da extrema-direita” em contraposição à “queda do muro” que teria representado a experiência da geringonça. Para além disso há cada vez menos gente que possa contar o que realmente fez a 25 de Novembro de 1975.
(José Manuel Fernandes in Onde é que estavas no 25 de Novembro?)

quarta-feira, 26 de julho de 2023

Faz um ano que o Observador com este texto lançou os "alegados abusos" na IGREJA CATÓLICA PORTUGUESA


O actual cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, teve conhecimento de uma denúncia de abusos sexuais de menores relativa a um sacerdote do Patriarcado e chegou mesmo a encontrar-se pessoalmente com a vítima, mas optou por não comunicar o caso às autoridades civis e por manter o padre no ativo com funções de capelania. Além disso, o sacerdote continuou a gerir uma associação privada onde acolhe famílias, jovens e crianças, com o conhecimento de D. Manuel Clemente. Tudo, porque, justifica o próprio Patriarcado ao Observador, a vítima, que alega ter sofrido os abusos na década de 1990, não quis que o seu caso fosse público e queria apenas que os abusos não se repetissem.

A actuação do Patriarca de Lisboa contraria tanto as actuais normas internas da Igreja Católica para este tipo de situações, que determinam a comunicação às autoridades civis de todos os casos, como os apelos repetidos feitos quer pela comissão independente liderada pelo psiquiatra Pedro Strecht quer pela Polícia Judiciária para que todos os casos, até aqueles que já se encontrem prescritos no plano judicial, sejam comunicados às autoridades, uma vez que a probabilidade de repetição deste tipo de crimes ao longo do tempo é consideravelmente elevada.
De acordo com informações recolhidas pelo Observador, os dados sobre este caso em concreto contam-se entre as mais de 300 denúncias já recebidas pela Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa — e o nome deste sacerdote é também um dos sete que já se encontram nas mãos da Polícia Judiciária para serem investigados.
Porém, foi preciso que passassem mais de duas décadas para que os eventuais crimes, que foram comunicados à hierarquia da Igreja Católica ainda durante a década de 1990 (e, por duas vezes, ocultados da polícia também pelo anterior patriarca, D. José Policarpo), chegassem às autoridades civis.
Um padre “alternativo”
O caso em questão remonta à década de 1990, altura em que o então jovem sacerdote, recém-ordenado, cumpria serviço em duas paróquias da zona norte do distrito de Lisboa.
Nessa altura, de acordo com relatos recolhidos pelo Observador, o padre tornou-se amplamente conhecido na região onde trabalhava, extravasando os limites das suas duas paróquias. Descrito como “uma pessoa que sempre gostou muito do que era alternativo” por um sacerdote que o conhece, o padre atraía às suas celebrações muitas pessoas, sobretudo jovens, das paróquias vizinhas.
“Era muito expansivo e atraiu muita gente pelo seu carisma diferente”, diz a mesma fonte ao Observador, sublinhando que o sacerdote presidia a “missas de quatro horas”, com muitos cânticos, muita guitarra e muito desrespeito pelas regras formais das celebrações. Eram também frequentes os convívios do sacerdote com as crianças e jovens da região, que conheciam o seu estilo alternativo.
Nos primeiros anos, a fama de padre rebelde não manchou a sua imagem. Pelo contrário, renovou a igreja e fez um bom trabalho na paróquia, o que lhe valeu uma muito boa impressão entre os fiéis, tanto da sua paróquia como das paróquias vizinhas.
Foi neste contexto de grande popularidade que surgiram, ainda no início da década de 1990, as primeiras suspeitas relativas a comportamentos estranhos do sacerdote relativamente a crianças. Segundo dados obtidos pelo Observador, foi a mãe de uma criança, à época com 11 anos, que habitualmente convivia com o padre quem reparou, pela primeira vez, nesses comportamentos suspeitos, nomeadamente a excessiva proximidade física, os convívios tardios e até o facto de o padre ir buscar algumas crianças directamente à escola — em alguns casos, sem o consentimento dos pais.
Alguns anos mais tarde, essa mesma mãe, que já desconfiava dos comportamentos suspeitos do padre, ouviu da boca do seu filho (já no final da adolescência) a confirmação daquilo de que desconfiava: o sacerdote teria cometido abusos sexuais contra menores e o filho tinha sido uma das vítimas.
As reuniões com o patriarca
Quando ouviu o filho relatar-lhe o que tinha sofrido às mãos do padre, a mãe decidiu contactar a hierarquia da Igreja e, através do seu pároco, pediu uma reunião com o então patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, durante a qual a família do menor comunicou ao bispo aquilo que havia acontecido à criança.
Segundo o relato recolhido pelo Observador, esta primeira reunião foi infrutífera, uma vez que a família saiu do encontro com D. José Policarpo com a ideia de que a hierarquia da Igreja Católica não acreditava na denúncia. Seguiram-se vários contactos entre a família e a hierarquia do Patriarcado de Lisboa, que incluíram conselhos para que a mãe da criança tivesse acompanhamento clínico. Já depois, em 2002, o sacerdote saiu das paróquias onde trabalhava.
O Observador questionou extensamente o Patriarcado de Lisboa sobre este caso para obter explicações sobre o modo como a hierarquia da Igreja Católica lidou com a denúncia. Inicialmente, D. Manuel Clemente informou o Observador, através do seu gabinete de imprensa, de que não estaria disponível para uma entrevista presencial, mas mostrando-se disponível para responder por escrito às perguntas formuladas pelo jornal. O Observador enviou um conjunto de 11 perguntas detalhadas sobre o caso ao Patriarcado de Lisboa — mas a maioria delas ficou sem resposta. Ainda assim, o gabinete de D. Manuel Clemente confirmou a existência do caso.
“O Patriarcado de Lisboa confirma que recebeu, no final da década de 1990, uma queixa contra o padre […] por alegados abusos sexuais. Na altura, foram tomadas decisões tendo em conta as recomendações civis e canónicas vigentes”, confirma a instituição. O Observador voltou a questionar o Patriarcado de Lisboa para perceber quais as decisões tomadas na época, mas foi informado telefonicamente pelo gabinete de imprensa do Patriarcado que D. Manuel Clemente não pretendia dar mais respostas ao jornal.
Sem respostas por parte da hierarquia, restam os anuários da Conferência Episcopal Portuguesa, consultados pelo Observador na Biblioteca Nacional de Portugal, para ajudar a traçar o percurso do sacerdote em questão. Segundo esses anuários, o padre trabalhou naquelas duas paróquias até ao ano 2001. No anuário de 2002 já surge com novas funções de capelania, sem paróquia atribuída. O padre manteve-se apenas com essas funções durante duas décadas, e ainda é essa a informação que consta do anuário católico mais recente.
Durante as últimas duas décadas, o sacerdote não teve qualquer serviço paroquial, mantendo-se apenas como capelão. Fica por esclarecer se o afastamento do trabalho paroquial e a atribuição de uma capelania são as tais “decisões” tomadas pelo Patriarcado de Lisboa na década de 1990.
Por outro lado, de acordo com uma fonte ouvida pelo Observador numa das paróquias que o padre abandonou em 2002, a ideia que prevaleceu entre a população quando o sacerdote foi afastado foi a de que o padre estaria a ser punido pela sua rebeldia, que atraía às suas missas os paroquianos das paróquias vizinhas — onde os outros párocos estariam descontentes com a influência exercida por aquele sacerdote na região. Terá, inclusivamente, circulado em 2002 entre a população um abaixo-assinado para que o padre não abandonasse as paróquias.
Depois da saída do sacerdote das paróquias, a mãe que havia denunciado o caso ao Patriarcado voltou a reunir-se com D. José Policarpo. Nessa nova reunião, o cardeal-patriarca terá confirmado à mãe a denúncia dos abusos e revelado que o sacerdote estaria a ser submetido a um tratamento. O Observador também questionou o Patriarcado de Lisboa sobre este assunto, mas o gabinete de D. Manuel Clemente recusou responder.
A associação à margem da igreja, mas que é quase uma paróquia
Quando deixou o trabalho paroquial, o sacerdote não largou definitivamente o trabalho de proximidade com as populações, uma vez que não se limitou a cumprir o seu trabalho nas funções mais discretas em que o Patriarcado o colocou. Pouco depois de abandonar as paróquias, o sacerdote criou uma associação privada que tem como objetivo acolher famílias, crianças, jovens e idosos num grupo cristão.
Como explicou ao Observador uma fonte que testemunhou o processo de criação da associação, o sacerdote instalou-a num terreno na zona norte do distrito de Lisboa. A organização desenvolve actividades que podem ser comparáveis, na prática, às de uma paróquia, incluindo celebrações semanais e actividades de formação. Porém, embora seja uma organização legal, não é uma instituição católica no sentido estrito, na medida em que não foi fundada segundo as regras do Direito Canónico — não há rasto da associação no anuário da Igreja Católica.
Isto significa, em termos práticos, que aquela associação não está sob a jurisdição da Igreja Católica. Nenhum bispo tem autoridade sobre a organização e também não se aplicam as regras eclesiásticas que se aplicam a todas as outras instituições da Igreja. Ainda assim, a Igreja conhece bem a organização.
“O Patriarcado de Lisboa tem conhecimento” da existência da associação, que é “uma organização não canónica”, disse o Patriarcado de Lisboa em resposta ao Observador. Por responder ficaram várias perguntas relevantes sobre a situação desta organização, incluindo: o patriarca tem algum tipo de jurisdição sobre as atividades que ali ocorrem? Se sim, tudo opera normalmente como noutra paróquia? Se não — e sendo a organização do conhecimento público —, já foi feita alguma intervenção no sentido de regularizar o funcionamento da instituição? Tendo em conta que se trata de uma instituição com contacto com crianças, jovens e famílias liderada por um padre do patriarcado, as disposições relativas à protecção de menores e adultos vulneráveis em vigor no patriarcado aplicam-se? De que modo são fiscalizadas?
O encontro com D. Manuel Clemente
Depois da saída do padre das paróquias em que trabalhava, o caso ficou adormecido debaixo do tapete durante cerca de duas décadas. Na altura em que o sacerdote abandonou as paróquias, o actual patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, era bispo auxiliar de Lisboa (cargo que ocupou entre 1999 e 2007), mas não é claro qual o nível de conhecimento que tinha do caso.
De qualquer modo, não pode dizer-se que a história tenha ficado definitivamente enterrada no passado.
Em 2019, o Papa Francisco chamou os bispos de todo o mundo para uma cimeira em Roma para debater o assunto dos abusos de menores na Igreja e, na sequência dessa reunião decisiva, foi determinado que todas as dioceses do mundo teriam de criar, até ao Verão de 2020, uma comissão de protecção de menores — e o Patriarcado de Lisboa foi o primeiro a avançar com uma comissão desse género em Portugal, em Abril de 2019, ainda antes de a obrigatoriedade ser imposta a todas as dioceses. Nessa altura, mais de duas décadas depois de o caso ter sido denunciado a D. José Policarpo, a mãe da vítima convenceu o seu filho a reunir-se com o novo patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, para partilhar o seu caso.
A reunião aconteceu já depois de 2019, numa altura em que a Igreja estava a mudar os seus procedimentos internos para lidar com denúncias de abusos de menores — com D. Manuel Clemente a afirmar reiteradamente em público o seu apoio a uma maior transparência da Igreja em relação às denúncias de abusos.
Em resposta ao Observador, o Patriarcado de Lisboa confirmou que a reunião aconteceu, embora não tenha esclarecido a data do encontro, e explicou porque não fez nada em relação ao caso. “O actual Patriarca encontrou-se com a vítima, que não quis divulgar o caso, mas sim que não se voltasse a repetir. Até este momento, o Patriarcado de Lisboa desconhece qualquer outra queixa ou observação de desapreço sobre este sacerdote”, explicou o gabinete de D. Manuel Clemente em resposta ao Observador.
Assim, o padre manteve-se nas funções que tinha e continuou a trabalhar na sua associação, com conhecimento do Patriarcado de Lisboa. Em todos estes contextos, o sacerdote continuou a contactar com crianças e pessoas fragilizadas — e por vezes até regressou às paróquias onde trabalhou há duas décadas, para visitar os antigos paroquianos e até para celebrar missas quando os atuais párocos não tinham disponibilidade.
Ao mesmo tempo, durante todos estes anos, o sacerdote cultivou alguma presença mediática, reforçando o carisma que já lhe era conhecido — e frequentemente invejado — nas paróquias onde trabalhou na década de 1990.
Regras da Igreja mandam denunciar todos os casos à polícia

Os detalhes desta história levantam sérias dúvidas quanto à actuação do Patriarcado de Lisboa em diferentes momentos.
Em primeiro lugar, logo na década de 1990, D. José Policarpo recebeu a denúncia e nada fez em relação a ela, à excepção das tais “decisões” não esclarecidas pelo Patriarcado de Lisboa — e que, a julgar pelos arquivos do anuário católico, parecem ter-se limitado a uma mudança de funções do sacerdote. Na época, contudo, as disposições canónicas e civis em relação aos crimes sexuais contra crianças eram diferentes. No plano canónico, ainda não tinham acontecido os escândalos de Boston, da Irlanda, da Austrália e do Chile (entre vários outros), que determinaram uma mudança radical de atitude da Igreja Católica em relação à crise dos abusos sexuais. Até então, era comum que as denúncias de abusos fossem desvalorizadas internamente e resolvidas com transferências geográficas.
Por outro lado, também no plano da lei civil, os crimes sexuais contra crianças eram na década de 1990 interpretados de modo muito mais permissivo. Como tem explicado várias vezes em público o juiz conselheiro jubilado Álvaro Laborinho Lúcio, que foi ministro da Justiça entre 1990 e 1995 e hoje integra a comissão independente que está a investigar os abusos de menores na Igreja portuguesa ao longo da história, foi só na reforma do Código Penal de 1995 que os crimes sexuais passaram a ser crimes contra as pessoas e deixaram de ser considerados sob os conceitos de respeito pela moralidade sexual.
Este contexto, até certo ponto relevante para enquadrar a inacção de D. José Policarpo na década de 1990, não se aplica nos dias de hoje a D. Manuel Clemente.
No plano canónico, a Igreja Católica já tem regras muito claras sobre como os bispos devem lidar com denúncias de abuso sexual. Na sequência da cimeira de Fevereiro de 2019 (de onde surgiu a ideia das comissões diocesanas), o Vaticano publicou um detalhado manual para os bispos que se vejam confrontados com relatos de abuso. Uma das grandes novidades desse novo manual foi a obrigatoriedade de comunicação à polícia de todos os casos que cheguem ao conhecimento do bispo, mesmo nos países em que não exista uma obrigação legal de denúncia de crimes, como em Portugal. Aliás, apesar de a lei não impor a queixa, recentemente o Ministério Público acusou um padre de Samora Correia precisamente pela omissão de denúncia. Ainda assim, o documento do Vaticano é claro: “Mesmo na ausência de uma explícita obrigação normativa, a autoridade eclesiástica apresenta denúncia às autoridades civis competentes, sempre que o considere indispensável para tutelar a pessoa ofendida ou outros menores do perigo de novos actos delituosos”.
Neste caso, a comunicação à polícia seria necessária para proteger eventuais outros delitos, uma vez que o sacerdote continuava em funções em contextos onde tinha contacto com crianças e jovens. Mesmo nos casos em que o crime já prescreveu, as situações de abuso devem ser comunicadas à polícia, segundo têm defendido a Polícia Judiciária e a comissão independente.
Como o Observador já noticiou antes, logo no início deste ano, quando a comissão começou o seu trabalho, a PJ alertou os membros do grupo de trabalho de que deveriam ser remetidos para as autoridades não apenas os casos que ainda pudessem ser investigados pela justiça civil, mas também os mais antigos, eventualmente prescritos, já que os suspeitos podiam continuar a praticar crimes. Raramente um predador sexual comete apenas um crime ao longo da sua vida, terão dito os elementos da PJ a Pedro Strecht numa reunião de trabalho.
Mais recentemente, numa entrevista ao jornal Público, o pedopsiquiatra que dirige a comissão independente reiterou a preocupação e explicou que até já entregou alguns nomes de padres à Polícia Judiciária. “Há um facto que preocupa a Comissão e que é o seguinte: nós podemos ter o testemunho que revela um alegado abusador num crime que aconteceu há mais de 20 anos, mas, a ser verdade, há um alto risco de prossecução do mesmo crime porque os abusadores, uma vez abusando, têm grande probabilidade de o continuar a fazer”, disse Pedro Strecht.
O Observador sabe que o nome deste padre é um dos sete que já chegaram às mãos da Polícia Judiciária apesar de o crime denunciado já ter prescrito, mas sem nomes de vítimas ou sem outros casos conhecidos, a PJ dificilmente poderá avançar com uma investigação. O Observador sabe, porém, que até à data nunca foi feita uma queixa contra este padre e que ele nunca foi investigado por qualquer crime.
Em Abril deste ano, numa altura em que a comissão independente já tinha recebido 290 testemunhos de abusos de menores, D. Manuel Clemente garantiu que os membros do clero estavam “muito especialmente atentos” à questão da protecção de menores na Igreja. “Aqui estamos, com plena consciência e compromisso, para reconhecer e corrigir erros passados, pedir perdão por eles e prevenir convenientemente o futuro”, disse o cardeal na Sé de Lisboa.
Ainda assim, quando confrontado com a história que lhe foi apresentada pessoalmente pela vítima, D. Manuel Clemente optou por manter o silêncio que durante mais de duas décadas se abateu sobre o caso, mantendo o sacerdote em funções apesar de conhecer a denúncia.
Agora, de acordo com o Patriarcado de Lisboa, o padre está “hospitalizado e cessou funções”. O Observador tentou sem sucesso contactar o padre visado, dado o estado de saúde em que se encontra. O jornal contactou também a comissão independente, mas o seu coordenador, o pedopsiquiatra Pedro Strecht, disse que a comissão não comenta casos concretos devido ao respeito pelo anonimato dos denunciantes.