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quarta-feira, 6 de maio de 2026

A História tem mau feitio? Duas greves gerais no mesmo ano!

Há coincidências que não são coincidências. São avisos.

Em 1982, Portugal viveu um ano politicamente áspero: duas greves gerais, num país ainda a aprender os modos, os limites e as tensões da democracia constitucional. O Governo era então da Aliança Democrática e o conflito social nascia de um ambiente de austeridade, reformas laborais, compressão salarial e desconfiança entre Governo, sindicatos e trabalhadores.
Quarenta e muitos anos depois, voltamos a ouvir a mesma expressão: duas greves gerais num só ano. 
E a pergunta impõe-se: mudámos assim tanto?

Mudaram os cenários, sem dúvida. Portugal entrou na Europa, a economia terciarizou-se, o emprego tornou-se mais fragmentado, os sindicatos perderam parte da força orgânica que tinham nos anos oitenta, e a contestação passou também para as redes sociais, esse novo terreiro onde todos gritam e poucos escutam.
Mas há coisas que permanecem. Quando uma sociedade chega ao ponto de convocar duas greves gerais no mesmo ano, não estamos perante um simples episódio de mau humor laboral. Estamos perante um sintoma. E, como todos os sintomas, pode ser ignorado — mas não desaparece por ser ignorado.

A greve geral é o grau máximo da contestação social. Não é uma moção de desagrado, nem uma birra sindical, nem uma liturgia revolucionária para entreter nostálgicos. É, ou deve ser, o sinal de que os canais normais de negociação falharam. Quando Governo, sindicatos, empregadores e trabalhadores deixam de encontrar uma linguagem comum, a rua substitui a mesa. E quando a rua substitui a mesa, a política já chegou tarde.

Em 1982, a repetição das greves reflectia uma tensão profunda entre políticas de contenção e direitos que muitos julgavam ameaçados. Hoje, a repetição do fenómeno aponta para algo semelhante: salários que não acompanham a vida real, precariedade, serviços públicos em fadiga, reformas laborais mal explicadas, negociações formais que muitas vezes parecem feitas apenas para cumprir calendário.
A História não se repete mecanicamente, mas tem o péssimo hábito de regressar quando os responsáveis políticos se convencem de que ela já passou de moda.
O problema não está apenas em haver greve. A greve é um direito. Em certos momentos, é também uma necessidade. O problema está em ser preciso chegar duas vezes, no mesmo ano, a essa forma extrema de pressão. Isso significa que alguma coisa correu mal antes: no diagnóstico, na negociação, na comunicação, ou na arrogância de quem governa.
E aqui há responsabilidades repartidas. O Governo deve perceber que governar não é apenas aprovar medidas e depois esperar que a sociedade as engula com resignação. Deve explicar, negociar, corrigir e assumir custos. A transparência não é uma gentileza: é uma condição de legitimidade.

Mas os sindicatos também não podem limitar-se a transformar a força da rua num ritual de contestação. Têm de apresentar propostas verificáveis, metas concretas, alternativas negociáveis. A greve pode abrir a porta; não pode ser a casa inteira.
Duas greves gerais num ano são, portanto, mais do que uma coincidência histórica. São um aviso político. Um sinal de que o país real voltou a desconfiar do país oficial. E quando o país real deixa de acreditar no país oficial, não há conferência de imprensa, comunicado ministerial ou comentário televisivo que resolva o problema.

Em 1982, Portugal ainda estava a testar a solidez da sua democracia. Hoje, devia estar a provar a maturidade dela. Mas talvez seja precisamente aí que a comparação incomoda: depois de tantos anos, tantos governos, tantas promessas e tantas reformas anunciadas, continuamos a descobrir que a distância entre quem decide e quem suporta as decisões continua demasiado grande.

A História, afinal, não é uma velha professora distraída. É antes uma testemunha implacável. E quando se repete, não é por falta de memória dela. É por excesso de esquecimento nosso.
Nota final: 
a greve geral é um direito constitucional e uma ferramenta legítima de pressão social. Mas quando o país precisa de a convocar duas vezes no mesmo ano, talvez seja prudente perguntar menos quem grita na rua e mais quem deixou de ouvir antes.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A “Greve Geral”: anatomia de uma grevinha ideológica!

Há palavras que sobrevivem por inércia. “Greve geral” é uma delas. Em Portugal, há muito que deixou de descrever um facto e passou a designar uma encenação. A de hoje não foi excepção — foi, aliás,
uma dupla falácia.
Primeiro, porque greves não se medem por manifestações, nem por planos fechados de televisão, nem por directos inflamados onde meia dúzia de bandeiras vermelhas fingem representar o país inteiro. Se assim fosse, a RTP — onde a greve “conta” sempre mais, por definição administrativa — seria o termómetro da economia nacional. Mesmo aí, o que houve foi mais fumo do que fogo.
Segundo, porque de “geral” não teve absolutamente nada. O país real — o dos serviços, do comércio, da restauração, da logística, das pequenas empresas, do trabalho privado — continuou, mal ou bem, a funcionar. Não parou. Não colapsou. Não tremeu. O que parou foi o país residual do velho neo-realismo político-sindical, esse que vive de uma memória gloriosa que já não corresponde a nada de existente.
Os tempos mudaram, mas alguns recusam-se a perceber.
Nos anos 80 ou 90, uma greve nos transportes pesava. Hoje pesa menos — não apenas porque houve municipalização, mas porque o mundo mudou. Houve autocarros onde não houve metro. Houve circulação onde antes tudo parava. Houve tele-trabalho, esse detalhe incómodo que baralha qualquer contabilidade militante. Eu próprio andei de autocarro. Um escândalo, para quem precisava de um país imobilizado para fingir força.
No essencial, foi uma greve quase exclusiva da administração pública: escolas públicas, hospitais públicos, alguns serviços de atendimento ao público. Exactamente aqueles sectores que nada têm a ver com a alteração da lei laboral privada, mas tudo têm a ver com a fidelidade ideológica a uma certa esquerda estatizada, corporativa e sindicalizada.
Ou seja: greve contra o quê?
Contra quem?
Com que legitimidade?
O paradoxo é delicioso: faz-se greve “geral” em nome de trabalhadores que não aderiram, contra leis que não os afectam directamente, liderada por estruturas sindicais que já não representam a maioria de ninguém.
E aqui convém dizer o que raramente se diz: os protagonistas desta grevezinha são, em larga medida, os mesmos sectores políticos e sindicais derrotados a 25 de Novembro de 1975 — derrotados então no plano histórico e derrotados agora no plano eleitoral. São os que perderam deputados, influência e centralidade nas duas últimas eleições legislativas, e que continuam a confundir rua com país e ruído com poder. 
O sindicalismo que sobrevive neste formato não é social: é ideológico. Não representa trabalhadores; representa causas. Não defende o trabalho; defende uma visão do Estado herdada do PREC e mal disfarçada desde então. Vive da administração pública porque fora dela deixou de ter base social.
Se o objectivo era fazer tremer o governo, lamento informar: o governo não tremeu, não tremelicou, nem sequer espirrou. 
Amanhã é outro dia. O país acordará com os mesmos problemas estruturais, mas também com a mesma evidência: esta esquerda sindical já não tem capacidade de bloqueio nacional.
Chamar “greve geral” a isto é como chamar “levantamento popular” a uma reunião de condomínio mal frequentada.
O país mudou.
Os trabalhadores mudaram.
A economia mudou.
Só o guião ficou velho.
E isso, convenhamos, não é motivo para greve. É motivo para revisão — da linguagem, da estratégia e, sobretudo, da relação com a realidade.
Aqui, no ReVisões, chamamos as coisas pelo nome: não foi uma greve geral. Foi uma grevinha.
E como todas as grevinhas ideológicas, terminou com o habitual comunicado triunfal… e com o país a seguir em frente.
Amanhã é outro dia.
Para eles, infelizmente, também.
Chamaram-lhe “greve geral”.
Foi, no máximo, uma grevinha ideológica.
O país privado trabalhou.
Os serviços continuaram.
Houve autocarros, houve tele-trabalho, houve vida real.
Parou apenas o costume: funcionários públicos sindicalizados, herdeiros políticos dos derrotados de 25 de Novembro, hoje reduzidos a ruído mediático depois de sucessivas derrotas eleitorais.