Mostrar mensagens com a etiqueta eleiçoes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eleiçoes. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A Grã-Bretanha depois do bipartidarismo

Ou como o velho sistema descobriu que o povo também vota fora do guião

Há noites eleitorais que mudam governos. E há noites eleitorais que mudam regimes de leitura. A de Maio de 2026, no Reino Unido, parece pertencer à segunda categoria. Não porque Westminster tenha caído, nem porque a monarquia parlamentar britânica tenha deixado de existir, nem sequer porque o sistema político se tenha formalmente transformado. Mas porque o velho teatro bipartidário — Trabalhistas contra Conservadores, esquerda de governo contra direita de governo, alternância respeitável contra alternância respeitável — sofreu uma daquelas humilhações que não se resolvem com uma conferência de imprensa e duas frases sobre “ouvir melhor os eleitores”.

O que aconteceu na Grã-Bretanha foi, antes de tudo, uma recusa. Uma recusa do Partido Trabalhista, uma recusa dos Conservadores, uma recusa da liturgia política que durante décadas vendeu ao povo britânico a ilusão de que havia escolha porque se podia alternar entre duas máquinas que, no essencial, se habituaram a governar o mesmo cansaço.

Em Inglaterra, o Labour foi castigado nos seus próprios redutos. Perdeu vereadores, perdeu câmaras, perdeu terreno simbólico e viu o Reform UK entrar em zonas onde, durante décadas, a esquerda trabalhista julgava possuir uma espécie de direito feudal sobre o voto popular. Hartlepool, Tameside, Sunderland, Gateshead, Redditch, Birmingham: nomes que já não são apenas pontos no mapa eleitoral. São sinais. São avisos. São pequenas placas funerárias do velho Partido Trabalhista industrial, operário e comunitário que ainda existe na mitologia partidária, mas cada vez menos na urna.
Os Conservadores, por sua vez, também não escaparam. Levaram igualmente a sua dose de pancada, embora alguns tenham tentado vender a derrota como se fosse uma convalescença promissora. O problema é simples: quando um partido que governou o Reino Unido durante tantos anos começa a celebrar porque perdeu menos do que o adversário, já não está propriamente a fazer política; está a fazer cuidados paliativos.
O Reform UK tornou-se, em Inglaterra, a grande expressão eleitoral desta revolta. Ganhou vereadores, conquistou câmaras, entrou em velhos bastiões trabalhistas e ultrapassou os Conservadores em zonas onde estes ainda se julgavam a casa natural da direita. O velho eleitorado popular, que o Labour tratava como clientela histórica, e o eleitorado conservador cansado de uma direita sem nervo, encontraram no Reform UK uma forma de dizer não. Não apenas a Starmer. Não apenas aos Tories. Não ao sistema que os dois administraram.
No País de Gales, a pancada teve outra dimensão: foi histórica. O Plaid Cymru tornou-se o maior partido no Senedd, com 43 lugares em 96, enquanto o Reform UK surgiu como segunda força, com 34. O Labour, durante décadas dono político do País de Gales, ficou reduzido a uma posição humilhante. Eluned Morgan perdeu o lugar e anunciou a saída da liderança trabalhista galesa. Há derrotas que são conjunturais. Esta parece mais funda: é o fim da ideia de que o Labour tinha o País de Gales por herança.
Na Escócia, o SNP voltou a ser o maior partido e conquistou a maioria dos círculos eleitorais, mas sem maioria absoluta. O detalhe interessante está na ironia política: o Reform UK, sendo unionista, ajudou a baralhar o tabuleiro da direita unionista, retirando espaço aos Conservadores e perturbando a velha leitura segundo a qual a política escocesa se organizava apenas em torno de SNP contra Labour ou SNP contra Tories. Até a defesa da União se fragmentou.

É aqui que a velha leitura britânica deixa de funcionar. Durante décadas, o Reino Unido foi apresentado como a grande escola da estabilidade parlamentar: dois grandes partidos, uma oposição institucional, um governo alternativo e o povo a escolher ordeiramente entre as duas prateleiras autorizadas. Agora, há uma Inglaterra onde o Reform UK, os Verdes e os Liberais Democratas mordem o eleitorado tradicional; há uma Escócia com SNP, Labour, Reform, Verdes, Conservadores e Liberais Democratas num xadrez próprio; há um País de Gales onde Plaid Cymru e Reform UK ocupam os dois primeiros lugares, deixando o Labour reduzido a escombros.

Chamar a isto “fragmentação” é pouco. Isto é a continentalização da política britânica. 
O Reino Unido, que gostava de olhar para a Europa continental como quem observa uma feira ideológica demasiado barulhenta, descobriu finalmente que também pode ter múltiplos partidos relevantes, eleitores móveis, identidades nacionais concorrentes, partidos anti-sistema e centros políticos incapazes de segurar a casa.
O bipartidarismo não acabou por decreto. Acabou por erosão. Acabou porque os Trabalhistas deixaram de ser a voz natural das classes trabalhadoras. Acabou porque os Conservadores deixaram de ser a garantia natural da ordem, da competência e da nação. Acabou porque as periferias sociais, territoriais e culturais deixaram de aceitar que Westminster lhes explicasse, de quatro em quatro anos, que tinham de escolher entre o vermelho gasto e o azul cansado.

O Reform UK é o grande beneficiário desta ruptura, mas não é a única expressão dela. Em Inglaterra, canaliza o voto da revolta contra a imigração descontrolada, o custo de vida, o abandono regional, as elites administrativas e o desprezo cultural. No País de Gales, cresce como partido unionista de protesto e torna-se a segunda força parlamentar. Na Escócia, instala-se como nova força da direita unionista, obrigando os Conservadores a olharem para o espelho e a perceberem que talvez já não sejam a casa natural de ninguém.

Mas há outro vencedor menos evidente: o nacionalismo periférico. O SNP mantém a Escócia como problema político permanente. O Plaid Cymru conquista o País de Gales. E quando os dois partidos tradicionais britânicos entram em colapso simultâneo, a própria União começa a parecer menos uma evidência histórica e mais uma conveniência administrativa com fissuras à vista.

Não quer isto dizer que a independência escocesa ou galesa esteja ao virar da esquina. Seria uma conclusão apressada. Mas a política raramente muda primeiro nos programas. Muda primeiro no imaginário. E o imaginário britânico de 2026 já não é o de 1997, nem o de 2010, nem sequer o de 2016. A União deixou de ser uma certeza tranquila para passar a ser uma construção que tem de se defender politicamente.

A pergunta decisiva é esta: quem representa hoje o país real?
O Labour? Difícil. Keir Starmer chegou ao poder prometendo mudança e rapidamente parece ter conseguido alienar a esquerda, o operariado, os eleitores periféricos, os jovens desiludidos e parte do seu próprio aparelho. Quando o Partido Trabalhista perde em zonas onde antes parecia sociologicamente imbatível, não se trata apenas de uma má campanha. Trata-se de divórcio político.
Os Conservadores? Ainda mais difícil. Depois de anos de governo, crises internas, Brexit mal digerido, promessas nacionais por cumprir e erosão social, aparecem agora como um partido entre duas inutilidades: demasiado responsável pelo passado para ser alternativa credível, demasiado fraco no presente para ser oposição eficaz.
Os Liberais Democratas? Crescem aqui e ali, como partido confortável de quem gosta de protestar sem sujar muito as mãos. Os Verdes? Avançam sobretudo onde o Labour perde à esquerda. Mas o grande movimento estrutural é outro: de um lado, partidos nacionais ou identitários; do outro, partidos de revolta contra a ordem instalada. No meio, os velhos partidos do regime tentam perceber porque é que o povo se fartou de os ouvir.

A hipótese, cada vez menos absurda, de uma futura recomposição em blocos: 
Reform UK e Conservadores de um lado; Labour, Liberais Democratas e Verdes do outro; SNP e Plaid Cymru a condicionarem, cada um à sua maneira, a arquitectura territorial do Estado. A política britânica poderá continuar a ter Westminster, a Coroa, a pompa e o cerimonial. Mas já não terá a antiga simplicidade.
E talvez seja isso que mais incomoda as elites: o povo complicou-lhes o esquema.
Durante anos, a pedagogia oficial britânica explicou que o populismo era uma doença continental, que a instabilidade partidária era coisa de franceses, italianos, espanhóis ou portugueses, que o Reino Unido possuía uma maturidade institucional superior. Pois bem: a maturidade institucional não impede a fadiga social. A tradição parlamentar não substitui a representação política. E nenhum sistema eleitoral consegue eternamente esconder o divórcio entre governantes e governados.

A lição britânica é vasta
Quando os partidos tradicionais deixam de ouvir, os eleitores deixam de obedecer. Quando as elites confundem estabilidade com resignação, o voto transforma-se em vingança. Quando a imprensa e o comentariado tratam a revolta social como ignorância, acabam surpreendidos pela matemática da urna.
A Grã-Bretanha não virou simplesmente à direita. Nem virou simplesmente à esquerda nacionalista. Virou contra o monopólio político dos partidos instalados. Virou contra a arrogância do centro. Virou contra a ilusão de que o povo deve votar eternamente dentro das fronteiras mentais desenhadas pelos mesmos de sempre.
O bipartidarismo britânico talvez não esteja apenas ferido. Talvez esteja já no estado em que tantos sistemas políticos ficam antes de admitirem a própria morte: ainda fala, ainda gesticula, ainda dá entrevistas, ainda promete “ouvir os eleitores”.
Mas os eleitores, pelos vistos, já começaram a ouvir outros.
E, como sempre acontece quando o povo vota fora do guião, a primeira reacção dos derrotados não será perguntar o que fizeram de errado. Será perguntar o que se passa de errado com o povo.
A velha doença democrática das elites: quando perdem, nunca é por falta de razão. É sempre por excesso de eleitores.

Notas de referência
The Guardian, “2026 elections mapped: how Labour lost ground in different directions”, 8 de Maio de 2026.
The Guardian, “Labour losses pile up in England local elections as Reform UK makes gains”, 8 de Maio de 2026.
The Guardian, “Plaid Cymru leader plans minority Welsh government built on cooperation”, 10 de Maio de 2026.
ITV News Wales, “Plaid Cymru secures historic first as largest party in Senedd Election with 43 seats”, 8 de Maio de 2026.
STV News, cobertura dos resultados das eleições escocesas de 2026.
Le Monde, “Reform UK records historic breakthrough in local elections that mark Labour's collapse and the end of two-party politics”, 8 de Maio de 2026.

sábado, 11 de abril de 2026

Péter Magyar: o órfão de Orbán que Bruxelas gostaria de adoptar... mas sem confiar nele por inteiro!

As eleições legislativas húngaras deste domingo podem pôr termo a dezasseis anos de poder quase sem interrupção de Viktor Orbán. As sondagens mais recentes dão vantagem ao Tisza, o partido de Péter Magyar, antigo homem do sistema, ex-beneficiário da máquina do Fidesz e hoje convertido em rosto da fadiga nacional com a corrupção, a estagnação económica e o estilo cada vez mais bloqueador de Budapeste dentro da União Europeia.
Mas convém não confundir a eventual derrota de Orbán com uma conversão súbita da Hungria ao catecismo progressista de Bruxelas. Péter Magyar não é um revolucionário liberal nem um missionário federalista. É, antes de mais, um produto tardio do próprio orbanismo: um dissidente saído de dentro, um conservador que percebeu que o regime apodreceu, e que tenta agora salvar a direita húngara de Orbán sem destruir a base sociológica que a sustentou.

A personagem política de Péter Magyar define-se, por isso, menos pela ruptura doutrinária do que pela substituição de estilo, método e alianças. Orbán transformou a soberania num sistema de bloqueio, chantagem e centralização oligárquica; Magyar apresenta-se como uma direita de recomposição: menos tribal, menos moscovita, menos ruidosa, mais compatível com os corredores de Bruxelas, mas ainda assim nacional, securitária e desconfiada da engenharia moral do europeísmo oficial.
Promete restabelecer cooperação com a União Europeia, desbloquear fundos congelados, reduzir a dependência energética da Rússia e restaurar alguns mecanismos de controlo democrático entretanto degradados. Porém, conserva uma linha dura na imigração e não embarca no entusiasmo automático de certas capitais europeias sobre a Ucrânia.
É aqui que a leitura simplista falha. Em Bruxelas, muita gente gostaria de ver em Péter Magyar um simples “anti-Orbán”, um expediente elegante para remover um importuno e normalizar a Hungria. Só que Magyar não cabe inteiramente nessa moldura. O Tisza integra a família do Partido Popular Europeu, o que lhe dá uma âncora institucional no centro-direita europeu; mas essa integração não apagou as dúvidas sobre a sua autonomia real.

Em matéria ucraniana, a ambiguidade é ainda mais reveladora. Se Orbán vencer, a União Europeia já sabe o que a espera: mais bloqueios, mais vetos, mais aproveitamento das regras da unanimidade para travar apoio a Kiev e torpedear a coerência estratégica europeia. Contudo, isso não faz de Péter Magyar um entusiasta da causa ucraniana. Ele já disse que não enviará armas para Kiev e tem reservas quanto ao ritmo e às condições da adesão ucraniana à União Europeia.
Essa prudência não é mero cálculo eleitoral ocasional: reflecte a existência de uma sensibilidade húngara persistente, agravada pela velha tensão com Kiev em torno da minoria magiar na Transcarpátia e pela relutância de parte significativa do eleitorado em se deixar arrastar para uma guerra que não sente como sua.
Daí que a personalidade política de Péter Magyar possa resumir-se assim: é um homem de centro-direita pós-orbanista, mas não pós-nacional. Um conservador táctico, um comunicador hábil,  que usa as bandeiras consensuais da anticorrupção e da recuperação económica para federar descontentes, sem se alienar dos eleitores de direita, das zonas rurais e dos sectores patrióticos que rejeitam tanto a Esquerda Cultural como a submissão à Rússia.

Magyar não quer destruir a Hungria de Orbán; quer herdá-la sem os seus excessos, sem a sua crueza e, sobretudo, sem a sua capacidade de isolar o país dos fluxos de dinheiro e influência europeus.
Péter Magyar não é o anti-Orbán no sentido moral em que a imprensa europeia gostaria de o vender. É algo mais interessante — e talvez mais inquietante para os ingénuos de Bruxelas: um Orbán depurado, um nacional-conservador reciclado para tempos de cansaço estratégico, menos brutal no tom, mais aceitável na forma, mas ainda preso à ideia de que a Hungria não existe para cumprir reflexamente os desejos da Comissão. Bruxelas poderá preferi-lo a Orbán. Mas fará mal se imaginar que ele vem para obedecer. Vem, quando muito, para negociar melhor.

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

Será que Trump ganha ...e a gajada anda a enganar a gentes?

    De acordo com as sondagens, Donald Trump e Kamala Harris têm 50% de hipóteses de ganhar. Muitos europeus não conseguem compreender: como é que os americanos podem eleger Donald Trump, um homem que mente descaradamente, que foi condenado por múltiplos crimes, que, como empresário, faliu várias vezes, que rejeita a democracia americana ao continuar a afirmar que ganhou as eleições de 2020. Como é que os americanos podem ignorar tão graves defeitos de carácter e elegê-lo presidente? Os americanos não são ingénuos em relação a Trump, reconhecem os seus traços de personalidade, mas muitos votarão nele de qualquer forma, pelas razões que a seguir se descrevem e que reforçam a convicção de que ele ganhará as eleições.

  • Donald Trump é o candidato do Partido Republicano, a maioria dos americanos identifica-se visceralmente com um partido político, seja ele Republicano ou Democrata. Votarão no candidato desse partido, independentemente de gostarem dele ou não. 32% de todos os eleitores identificam-se como republicanos, outros 16% são tendencialmente republicanos e a maioria destas pessoas não consegue imaginar-se a votar num candidato democrata. Seria contra a sua própria identidade. Ambos os partidos nos EUA têm uma base de eleitores com que podem contar.
  • Muitos eleitores tradicionalmente republicanos não gostam de Trump, mas odeiam ainda mais a candidata democrata, estão convencidos de que a sua eleição representa uma grande ameaça aos seus pontos de vista e esperança para o país. O partidarismo negativo é talvez o fator mais forte que une os americanos a um partido e os leva a ultrapassar qualquer relutância que possam ter em votar no candidato do seu próprio partido;
  • O estado da economia e das finanças pessoais de cada um é a questão mais importante que determina a decisão de voto dos americanos, e a maioria deles pensa: “as coisas estavam melhores com Trump”. Os dados indicam que essa avaliação está correta, se não tivermos em conta o impacto da COVID. Devido à inflação, o rendimento médio das famílias americanas diminuiu cerca de 0,7% durante a Administração Biden-Harris, ao passo que durante os quatro anos da Administração Trump, antes da COVID, o rendimento médio das famílias aumentou cerca de 10%. Embora a taxa de inflação tenha diminuído, os preços não ficaram inferiores ao que eram antes do aumento significativo registado nos últimos quatro anos. Mais de dois terços das famílias americanas têm rendimentos que mal cobrem as suas despesas mensais. Muitos destes eleitores culpam a administração Biden-Harris pelas suas dificuldades financeiras;
  • A classe média abandonada. Desde que a agenda da globalização se tornou a política de todas as administrações dos EUA, a partir de 1980, o crescimento da economia dos EUA beneficiou os muito pobres e, mais ainda, os muito ricos, enquanto a classe média assistiu a décadas de estagnação, cuja culpa atribui aos seus governos. Apesar de a Administração Biden-Harris ter procurado implementar políticas que favorecem a classe média, estas ainda não entraram plenamente em ação, e Trump conseguiu magistralmente posicionar-se como o réu daqueles que foram ignorados pelos sucessivos governos, o único líder não convencional que pode mudar as coisas para melhor;
  • A América e grande parte do mundo ocidental estão no meio de uma onda populista, o descontentamento com o establishment e com quem quer que esteja no poder é elevado. Como Vice-Presidente, Harris está claramente identificada com a administração em exercício, assumindo a responsabilidade pelas causas do descontentamento, enquanto Trump se posiciona como o outsider que pode mudar as coisas;
  • Política de identidade. O Partido Democrata é visto por muitos americanos como tendo uma agenda elitista e “woke”. Trump conseguiu representar uma agenda anti-woke e anti-elitista com a qual muitos eleitores americanos se identificam;
  • Muitos americanos brancos e do sexo masculino, em especial os que não têm formação universitária, estão a passar por uma crise de identidade, com receio de que, à medida que o país se vai diversificando, estejam a perder o seu papel dominante. Trump, refinou uma mensagem racista e misógina, respondendo exatamente às necessidades desta parte da população, assegurando-lhes que fará regressar o país a um nostálgico “antes”, tornando a “América grande de novo”;
  • Os americanos conhecem melhor Trump. Harris teve tão pouco tempo para ser vista como uma candidata presidencial, que muitos americanos ainda não se sentem confortáveis com a sua capacidade de assumir este papel de liderança, enquanto Trump tem sido a figura política dominante na política dos EUA nos últimos dez anos:
  • Harris é uma mulher não branca, estarão os americanos preparados para a eleger como Presidente? Embora a América tenha progredido enormemente em termos de preconceitos contra os negros e mulheres, estes factores podem ainda desempenhar um papel importante numa eleição renhida;
  • Trump beneficiou de uma corrente de simpatia após duas tentativas de assassinato contra ele, o que reflecte uma possível mudança na dinâmica desta eleição;
  • Por último, quem duvidar da capacidade de Donald Trump para ganhar as eleições presidenciais nos EUA deve lembrar-se de que ele venceu Hilary Clinton por uma diferença bastante decisiva de 304 contra 227 votos no Colégio Eleitoral e que em 2020, recebeu 74,2 milhões de votos e perdeu por muito pouco a eleição, apenas algumas dezenas de milhares de votos em alguns dos estados decisivos.

Biden anunciou que se retiraria da corrida presidencial de 2024 em 21 de junho, após o seu desempenho desastroso no debate e das sondagens subsequentes que favoreceram maciçamente a eleição de Trump. Desde essa data, Harris fez um trabalho notável ao assumir o manto de sucessora de Biden, unificando o Partido Democrata, muitas vezes fraturante, gerando uma enorme energia positiva, em especial entre os jovens, angariando quantias recordes de dinheiro e vencendo de forma dominante o único debate contra Trump. O resultado do percurso político magistral de Harris nestas curtas semanas levou-a a uma subida dramática nas sondagens, atingindo o ponto de equilíbrio contra Trump nos estados decisivos, com algumas sondagens a preverem que ela o possa vencer. Mas nas últimas semanas, apesar de ter gasto muito mais do que o seu adversário, os resultados das sondagens estagnaram, ela já não está a ganhar terreno e, na verdade, pode estar a perder algum.

Todos os especialistas preveem que esta será uma eleição extremamente renhida, decidida por uma pequena quantidade de votos em alguns dos estados decisivos. De facto, alguns analistas afirmam que tudo será decidido pelos resultados de um único estado, a Pensilvânia, e que a eleição do vencedor de todos será decidida apenas por alguns condados mais críticos.

Apenas dois terços dos eleitores registados nos EUA votam efetivamente. Há republicanos ou democratas suficientes para ganhar facilmente uma eleição se estiverem suficientemente motivados para votar. Por isso, uma das caraterísticas das eleições americanas é que cada partido faz um esforço considerável para mobilizar as suas próprias tropas em vez de se concentrar nos eleitores indecisos ou de tentar convencer os eleitores do outro partido a mudar de lado.

A maioria dos eleitores democratas simpatiza com a causa dos palestinianos e culpa os Biden-Harris pela falta de sucesso em pressionar Israel a proteger melhor os civis no conflito em Gaza. Este grupo, que inclui um grande número de jovens democratas na Pensilvânia, pode muito bem decidir não votar no dia 5 de novembro, aumentando as hipóteses de Trump ganhar o estado.

Os meios de comunicação social e muitos institutos de sondagens têm subestimado sistematicamente a capacidade política de Donald Trump, concentrando-se nas suas fraquezas óbvias e gritantes, sem reconhecer plenamente como ele se tornou, de forma notável e hábil, tão atraente para grande parte do eleitorado americano. As eleições presidenciais nos EUA podem ser ganhas ou perdidas por acontecimentos inesperados de última hora que levam a mudanças de rumo e, nesta eleição já de si muito invulgar, não sabemos o que pode acontecer antes de 5 de novembro. Receio que os meios de comunicação social e as sondagens tenham, mais uma vez, subestimado o candidato republicano. Numa eleição muito renhida, a partir de hoje, é possível argumentar que o vencedor das eleições presidenciais de 2024 será provavelmente Donald Trump.

Patrick Siegler-Lathrop é um empresário franco-americano a viver em Portugal há 15 anos, autor de “Rendez-Vous with America, an Explanation of the US Political System” e atual presidente do American Club of Lisbon. As opiniões expressas neste artigo são da exclusiva responsabilidade do autor, não sendo de forma alguma atribuíveis ao American Club of Lisbon. Pode ser contactado através de PSL64@icloud.com.


sábado, 26 de outubro de 2024

EUA: …a escolha para os cristãos!

Al Smith (1873-1944) foi um político e governador de Nova Iorque, filho de mãe americana de origem irlandesa e de pai italo-americano, um dos primeiros católicos com uma carreira política significativa nos Estados Unidos, pelo Partido Democrata.

Na História da América, os católicos começaram por ser uma ínfima minoria; só a partir da segunda metade do século XIX, com as migrações para o Novo Mundo, primeiro de irlandeses e alemães e, para o fim do século, de italianos e polacos, aumentaram de cerca de milhão e meio, antes da guerra civil, para doze milhões no princípio do século XX.
Por muitos anos o voto dos católicos foi maioritariamente no Partido Democrata. Os católicos tiveram, de resto, um papel relevante na coligação do New Deal que apoiou Franklin Roosevelt quando James Farley, o primeiro católico em funções governamentais, se tornou o Post Master General. Al Smith, governador de Nova Iorque, é desse tempo; o tempo da Lei Seca, aprovada logo a seguir à Grande Guerra, sob o nome de Prohibition. Ao ilegalizar um hábito enraizado, o consumo de álcool, a Prohibition, teve como efeito perverso o desenvolvimento do crime organizado. Al Smith era contra a Lei Seca e pela igualdade racial. Em 1932 concorreu contra F. D. Roosevelt à nomeação democrática, mas perdeu. Depois apoiou Roosevelt na campanha, mas foi crítico do New Deal.
A partir daí, embora mantendo algumas actividades políticas, Smith dedicou-se sobretudo aos negócios imobiliários, nomeadamente à sociedade construtora e proprietária do Empire State Building. Morreu em 1944.
É este Al Smith o patrono da Alfred E. Smith Memorial Foundation, uma instituição de beneficência de Nova Iorque, muito activa no apoio a crianças pobres. E desde 1960 é da praxe os candidatos presidenciais – democratas e republicanos – marcarem presença no jantar de gala da instituição católica. É um acontecimento social, de smoking, a que vai “toda a gente”, ou seja, a elite da cidade – os ricos, os políticos, os ex-políticos, as celebridades.
Um ritual americano
John Kennedy e Richard Nixon estiveram no jantar em 1960, bem como quase todos os outros candidatos presidenciais em ano de eleições; Jimmy Carter e Ronald Reagan estiveram lá em 1980, George H. Bush e Michael Dukakis em 1988, Al Gore e George W. Bush em 2000, Barak Obama e John McCain em 2008, Hillary Clinton e Donald Trump em 2016, Trump e Biden em 2020.
É um ritual, uma espécie de trégua sagrada, em que as piadas e provocações de parte a parte fazem parte da tradição.
Este ano, Kamala Harris resolveu não comparecer e mandar uma mensagem filmada – dizem que a conselho da sua directora de campanha, Julie Chavez, para acautelar os votos LGBT.
A provocação que escolheu foi intercalar a sua mensagem solene com uma rábula protagonizada pela própria e por uma actriz cuja personagem mais conhecida, Mary Catherine, é uma caricatural aluna de colégio católico que junta o uniforme com mini-saia à Lolita ao ar freirático, o cérebro desprovido de neurónios à fé fervorosa, e o feminismo gesticulante de cheer leader à falta de graça. Enfim, uma católica fervorosa, mas uma indefectível apoiante de Kamala e uma frenética feminista. É ver para crer.
Ao dar-se conta das possíveis repercussões da sua ausência, Kamala terá ficado incomodada a ponto de ter maltratado a sua directora de campanha.
Donald Trump esteve lá, perante uma assembleia dividida, dizia ele, entre os que o adoravam e o odiavam, quase todos seus velhos parceiros da elite liberal de Nova Iorque. Falou cerca de 25 minutos no seu registo de entertainer, bombardeando presentes e ausentes com graças quase sempre excessivas e corrosivas, mas a arrancarem muitas gargalhadas. A tradição, dizia Trump, pedia-lhe uns momentos de humor auto-depreciativo, mas talvez fosse melhor não se pôr ali a disparar sobre si próprio quando já outros o faziam.
Quanto à ausência de Harris, lembrava que, em 1984, Walter Mondale, o candidato democrata que também faltara ao jantar, fora castigado “from above”, perdendo nos 49 Estados da União e proporcionando a Ronald Reagan uma gigantesca maioria; pedia também aos presentes para não se sentirem demasiadamente insultados pela ausência de Kamala Harris: afinal se os Democratas quisessem mesmo brindá-los com uma ausência que se visse, teriam mandado Joe Biden – “if Democrats really wanted someone not being with us this eavening they would have sent Joe Biden”.

A evolução política dos católicos
Até aos anos 60 do século XX, manteve-se a tendência do voto católico nos Democratas. Kennedy beneficiou disso. Depois houve mudanças profundas, quer nos programas e nas posições dos partidos, quer no comportamento eleitoral dos católicos. É preciso lembrar que, com os protestantes divididos em várias igrejas, os católicos são hoje a primeira confissão religiosa na América.
Embora os protestantes Evangélicos continuem a ser um “núcleo duro” dos Republicanos, a verdade é que a posição dos Democratas em matérias da vida e da sua defesa tem contado muito para a mudança de muitos eleitores católicos para o campo republicano.
Em 2020, a percepção de Joe Biden como um democrata “middle of the road”, católico e com raízes na classe trabalhadora foi importante em alguns swing states para vencer Donald Trump. Mas as posições de compromisso que Biden – e Nancy Pelosi, outra católica – com o abortismo militante e o wokismo levaram muitos bispos a pronunciarem-se sobre a incompatibilidade com a fé católica de semelhantes transigências; e em Abril deste ano, ainda com Biden como candidato a um segundo mandato, um inquérito da Pew Research dava 55% do voto católico para Trump e 43% para Biden.
No entanto, se em relação a Joe Biden ainda chegou a haver dúvidas, em relação a Kamala Harris e ao seu segundo, Tim Walz, só restam certezas, ainda que os candidatos democratas tenham vindo a procurar fazer passar o seu radical progressismo pelo buraco da agulha – com Kamala Harris a confessar-se uma “capitalista pragmática” e uma detentora de armas de longa data e a decalcar os programas de nacionalismo económico e de reindustrialização dos Republicanos. Já quanto ao aborto, a orwelliana designação de “liberdade reprodutiva” com que agora foi rebaptizado tem ajudado na cruzada. Cruzada em que Kamala se mantém de pedra e cal, secundada pelo seu igualmente motivado segundo, outro americano de classe média, bem-disposto e disposto a fantasiar pela causa sobre o seu serviço na Guarda Nacional e as suas aventuras na China em Tianamen.
Bem sabemos que o anti-trumpismo, que entre nós atingiu casos extremos de verdadeira obsessão e recusa de contraditório, pode e poderá explicar e influenciar muita coisa; mas a eleição para Presidente dos Estados Unidos é nos Estados Unidos, e não aqui, e vai-se decidir por poucos votos e em poucos Estados.
As sondagens são mais que muitas e servem várias teorias, mas, de um modo geral, Harris mantinha-se à frente na votação geral popular e Trump com uma ligeira vantagem nos Swing States. Entretanto, ontem, sexta-feira 25 de Outubro, uma sondagem do New York Times/Sienna College dava-os, pela primeira vez, empatados no voto nacional. Quanto ao voto católico nos Swing States parece ir maioritariamente para Trump e para o seu segundo, Vance, um católico convertido, e pode ser decisivo em Estados como o Wisconsin e o Michigan. De qualquer forma, enquanto a divisão entre os católicos é de 52% para Trump e 47% para Harris, entre os protestantes é de 61% para Trump e 37% para Harris.
Como notou a propósito o Santo Padre a escolha para os cristãos e para os católicos nas eleições americanas é entre dois males, ou entre dois candidatos anti-vida: “seja aquele que expulsa os migrantes, seja aquela que mata crianças”.
Entre estes dois males, não tenho dúvidas de qual é o pior e o mais Kamaleónico. Mas há quem tenha.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

o Fenómeno Kamala

Candidata tem mensagem "curta", mesmo com élan da Convenção Democrata. 
Com desistência de Kennedy, "eleição vai ser disputada em pequenos nichos".
(Vasco Rato, ex-presidente da FLAD)

segunda-feira, 11 de março de 2024

resultados eleições Março 2024

 https://observador.pt/interativo/acompanhe-aqui-a-contagem-dos-votos-ao-minuto/#/






sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

sondagens




Ataque a André Ventura Setúbal

 PARA MEMÓRIA FUTURA

O candidato presidencial do Chega foi apedrejado a saída de um comício no Cinema Charlot em Setúbal por algumas dezenas de manifestantes, na sua maioria cidadãos de etnia cigana.
JN 21 Jan 21

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

votar em Professor Marcelo ?

 

Alguns portugueses, entre eles jornalistas e alegados jornalistas, comentadores e alegados comentadores, eleitores e absentistas ouviram, em directo, Sua Excelência, o Venerando Chefe de Estado, retirar a confiança politica ao Eduardo Cabrita e à Marta Temido que estão ministros do Governo Minoritário do António Santos da Costa. 
A continuidade do Cabrita e da Temido no Executivo leva-me a perguntar: 
- Para que é que serve um Presidente da República desrespeitado pelo primeiro-ministro e seu governo? 
- Que razões nos poderão levar a votar (e eleger) o desrespeitado Presidente Prof. Marcelo Duarte Nuno Rebelo de Sousa?

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Quatro vias para o golpe nos EUA....


A cada novo tweet, Trump levanta um pouco o véu sobre o golpe que está em cima da mesa da sala oval. Vencer a pugna eleitoral respeitando as regras democrático-burguesas está, para já, fora dos planos dos republicanos. Podem resumir-se a quatro as linhas de ataque, possivelmente cruzadas, com que o partido republicano conjura o roubo das eleições.
Ir a votos e não aceitar o resultado
Trump avisou que a contagem dos votos poderá demorar «anos». Há meses que o presidente procura descredibilizar o acto eleitoral de Novembro lançando suspeitas sobre alegados planos democratas para cometer uma fraude através do voto por correspondência. O hiato entre a contagem e a publicação dos resultados pode permitir-lhe uma jogada para se perpetuar no poder.
Incriminar Biden na véspera das eleições
O procurador-geral, William Barr, antecipa a divulgação dos resultados da investigação Durham para a véspera das eleições, uma «surpresa de Outubro», que pode comprometer o candidato democrata, Joe Biden, envolvendo-o directamente numa teia de complexas acusações criminais.
Adiar ou suspender o escrutínio
Trump já o pediu publicamente: adiar as eleições por não estarem reunidas as condições de segurança. Para fazê-lo, contudo, não basta ao presidente declarar o estado de emergência porque os serviços postais não conseguem lidar com o voto por correspondência: Trump precisaria de justificar esta decisão com um clima de caos, terror e excepção. Concorre para esta via a recente decisão de reduzir o número de testes à COVID-19, uma opção eleita depois de se concluir que a pandemia está a afectar principalmente os Estados governados pelo Partido Democrata. Outra solução seria um conflito internacional ou mesmo um ataque terrorista, real ou de falsa bandeira.
Fraude no dia 3 de Novembro
O magnata-em-chefe anunciou a criação de uma milícia com 50 mil «vigilantes eleitorais» para policiar, intimidar e intervir nas mesas de voto que lhe são desfavoráveis. Esta «vigilância» poderá ser a antecâmara de uma intervenção paramilitar semelhante à que vimos nas semanas anteriores. Nos Estados governados por republicanos, milhares de assembleias de voto estão a ser encerradas nas zonas com mais imigrantes e negros, dificultando o exercício do voto também através da exigência de mais documentação.
Biden débil, em todos os sentidos
Perante a perspectiva real de um golpe, a impotência do Partido Democrata reflecte-se na debilidade política e cognitiva do seu candidato. Joe Biden não é apenas fraco, confuso e lento quando fala. Também o é política e moralmente, no seu percurso tão colado às mesmíssimas opções da administração Trump no favorecimento dos privilégios e das desigualdades, na guerra imperialista e na recusa de conceder ao povo estado-unidense direitos básicos de saúde, educação e habitação. O único mérito facilmente reconhecível em Biden é não ser Trump. E só isso não basta para impedir um golpe. (por António Santos no “Avante”)

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

o ultimo momento do Sanders!

Sanders afirmou que as eleições deste ano “serão um momento decisivo” na história dos Estados Unidos da América. “Temos de lutar por uma agenda que beneficie os trabalhadores”,
.
Bernie Sanders, de 76 anos, disputou em 2016 as eleições primárias do Partido Democrata para a presidência do país, tendo perdido para Hillary Clinton, que por sua vez acabou derrotada pelo republicano Donald Trump. Desde então, o senador do Vermont — que procura chegar a um terceiro mandato — tem sido recorrentemente apontado como possível candidato à presidência do país nas eleições de 2020, ano em que termina o primeiro mandato de “The Donald”
.
Suponho que por “The Donald” o jornalista - Gonçalo Correia - se refira a Donald Trump e esqueça os 79 anos do Sanders em 2020...) (in Observador)