quarta-feira, 20 de outubro de 2021

porque foi precisa a Ditadura Nacional (e posteriormente o Estado Novo?

Teoricamente este pedaço de história faz parte do programa do 9º ou do 12º anos de escolaridade mas quer os  "manuais/resumos escolares", quer o "guião para os professores do ensino secundário" do chamado Ministerio da Educação não lhe merece mais que meia dúzia de linhas...
Há 100 anos a I República vivia a “noite sangrenta” e a sua morte moral. Não é possível compreender o Estado Novo sem conhecer essa violência infame, mas nas nossas escolas pouco se fala desses dias. 
Se considerarmos que todos os assassinados eram antigos "sidonistas e opositores dos democráticos do Partido, com esse nome, do Afonso Costa podemos inferir quem foram os mandantes..
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terça-feira, 19 de outubro de 2021

Noite Sangrenta!

Na noite de 19 de Outubro de 1921, um grupo de marinheiros e guardas republicanos percorre as ruas de Lisboa naquela que viria a ser conhecida como a “camionnette fantasma”. Liderado pelo cabo Abel Olímpio, conhecido pela alcunha de “Dente de Ouro”, o bando assassina várias figuras políticas e militares. Incluindo os heróis da revolução de 1910, Machado Santos e Carlos da Maia. Os crimes chocam o país. Os jornais chamam-lhe a “Noite Sangrenta”.
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Os homens da camioneta são julgados e são condenados, mas nunca chegam a ser reveladas as identidades dos conspiradores que encomendaram as mortes. Berta Maia, a jovem viúva de Carlos da Maia, recusa-se a aceitar a passividade dos tribunais e decide investir contra tudo e contra todos em busca da verdade. Após várias tentativas consegue visitar Abel Olímpio na prisão e depois de uma sucessão de encontros, ganha a confiança do assassino do seu marido e fá-lo confessar.
Mas à verdade nem sempre corresponde a justiça.
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segunda-feira, 18 de outubro de 2021

José Manuel Fernandes e o OE2022 em Contra Corrente!

Libertos da censura imposta pelos 15M de euros à imprensa a que temos direito e longe da tenebrosa máquina de propaganda do minoritário partido nacional socialista nacional em Contra Corrente José Manuel Fernandes, Helena Matos, Jorge Fernando e Ouvintes com "bom senso" comentam a trapalhada que está a ser o OE2022
- A crise política pode estar mesmo à porta, depois de um fim-de-semana em que a temperatura política subiu.
- Todos querem o Orçamento aprovado, mas ninguém o quer aprovar, e a culpa é de António Costa.

Rebelo de Sousa e o OE2022 e o intocável Eduardo Cabrita

1 - Marcelo avisa que chumbo do Orçamento pode conduzir a eleições e "Colocou a estabilidade do país na mão dos partidos"?
[contra todos uma opinião do Rui Pedro Antunes que tem por hábito errar…]
2 - Quatro meses depois do acidente, António Cabrita continuar "intocável".
O acidente e impunidade do Eduardo Cabrita, quatro meses depois, na quase sempre acertada visão de Paulo Ferreira


sábado, 16 de outubro de 2021

A Bandeira Portuguesa em Timor


Timor-Leste ocupa meia ilha ao norte do Continente Australiano, com uma área aproximadamente de 16.00 km2, possui cerca de 20 dialectos e várias etnias. Portugal esteve em Timor de 1515 a 1975.
A pacificação e ocupação efectiva de Timor apenas se deu a partir dos finais do Sec.XIX. A diversidade linguística e de povos, o seu estado de desenvolvimento social, bem como as difíceis ou inexistentes vias de comunicação dificultaram sempre a pacificação dos aguerridos habitantes. E quando a paz, a muito custo era conseguida, logo era quebrada por violentos confrontos inter-reinos, ou entre estes e a administração portuguesa. Não movida por qualquer princípio de “luta de libertação” contra os malai (estrangeiros), mas tão-somente pela necessidade de se guerrearem. Esta acção bélica era de natureza cultural e económica, já que a tomada de gados, escravos e outros haveres aos reinos vizinhos foi sempre um modo ancestral de estar na sociedade timorense de então.
Alguns governadores tentaram formas de ampla pacificação, mas sem resultado. Somente o Major Celestino da Silva (1894-1908) iniciou com êxito tal tarefa. Homem que conheceu Timor e os timorenses como poucos, constatou a diversidade das nações que compunham o território e percebeu que só com a coesão dos timorenses se conseguiria a efectiva pacificação, condição essencial para o progresso da Colónia.
Para tanto, o Grande Celestino, ou o Rei de Timor – como ficou conhecido – implementou junto dos povos o culto ao simbólico: Bandeira, Pátria, Rei, que evoluíram para valores de mitos considerados lulic (sagrados). Fez explicar que esses símbolos identificavam todos aqueles que eram considerados portugueses. Se o rei em Portugal era considerado um símbolo vivo, estando distante, nunca foi visto pelos timorenses. A Pátria transmitida como o conjunto dos povos que reconheciam o mesmo soberano como seu, e que tinham a mesma bandeira. Bandeira essa que ali estava em Timor e podia ser vista por todos como também a SuaBandeira. Esta capacidade identificativa de um símbolo de coesão nacional é de primordial importância para os nacionais em qualquer canto do mundo, e muito mais o foi no longínquo Timor. Lá ganhou mais do que o normal respeito que o símbolo nacional merece. Teve foros de sagrado, de mito, quase dogmático, pois não é preciso explicá-lo no todo ou em parte: facilmente dele se apreende a identidade que representa e a emoção que nele sentimos.
A Bandeira Portuguesa foi em Timor, sem dúvida, um símbolo intocável!
…E não esqueço aquela noite em Aileu no longínquo Outubro de 1974, após visita de um malai boot liu como era o Ministro Almeida Santos. As bandeiras nacionais trazidas pelas povoações à recepção de tão ilustre visitante, repousavam respeitosamente de encontro a uma árvore de canela defronte ao posto dos correios, devidamente guardadas por dois guerreiros (assua’in) armados de espadas.
Um infeliz timorense, talvez sob efeito do álcool ingerido e pela euforia libertadora desses tempos revolucionários, ousou desafiadoramente tocar-lhes. O atrevido viu a sua mão decepada por golpe certeiro por uma das espadas de guerra (suric).
Para além dos poucos que tiveram conhecimento do caso, não houve grandes comentários ou sequer queixa apresentada às autoridades administrativas ou policiais…

Mais recente e que toca profundamente é o seguinte episódio que inseri no livro “Monumentos Portugueses em Timor-Leste”:
Carta recebida pelo adido militar na Embaixada de Portugal em Díli, Cor. Carlos Aguiar. (o português foi ligeiramente corrigido para melhor inteligibilidade do texto)

"EX. EXCELENCIA SENHOR CHEFE DE ACAIT QUE ESTÁ EM DILI TIMOR- LESTE
1. O meu Pai, Marcelino Babo, foi Soldado de Segunda Linha no Ano de 1973 até 1975, ou seja, trabalhou cerca de 3 anos como Soldado de Segunda Linha.
2. O meu Pai Marcelino Babo, em 1975, recebeu ordem de Estado Português no Posto de Lete-Foho para fazer Segurança na Fronteira em Maliana, no Quartel Segunda Linha de Tunu-Bibi.
3. Numa manhã cedinho, mais ou menos às 5 horas, eles fizeram patrulha na Fronteira. De repente apareceram os Tropas da Indonésia de arma na mão. Dali eles voltaram para quartel, arrumaram as coisas deles e fugiram, cada qual seguindo o seu rumo, menos o meu Pai Marcelino Babo que não fugiu ainda, por razão de a Bandeira Nacionalidade Portuguesa ainda esta no ar. Dali ele desceu a Bandeira Nacionalidade Portuguesa, embrulhou muito bem e fugiu para Posto Lete-Foho, e seguiu para casa onde ele morava.
4. Em 1978 os Tropas da Indonésia foram a nossa casa, a fazer inquérito ao meu Pai Marcelino Babo, sobre a sua arma bem como a bandeira, negou que tanto a arma como a Bandeira de Nacionalidade Portuguesa, não estava na mão dele. Por isso os Tropas de Indonésia ficaram furiosos e deram pancadas, coronhadas com arma até meu Pai Marcelino Babo ficar aleijado. O meu Pai Marcelino Babo, entregou então a arma para as Tropas da Indonésia, menos a Bandeira Nacionalidade Portuguesa é que ele não entrega. Com o sofrimento provocado pela agressão, ele veio a morrer no ano de 1982.
5. Antes de o meu Pai Marcelino Babo morrer, o meu Pai ainda me chamou e como eu sou a filha mais velha, o velhote disse para mim: "que essa Bandeira de Nacionalidade Portuguesa, e você como minha filha mais velha, você tem de guardar muito bem, e um dia mais tarde, quando chegar o Dono dessa Bandeira , você tem de entregar outra vez ao Dono. Porque eu sei muito bem que o Dono dessa Bandeira, cedo ou tarde há-de chegar, há-de voltar".

...e a Bandeira Nacional foi entregue na Embaixada de Portugal, pela filha do Marcelino Babo que não quis que a mesma fosse apoderada pelos invasores. Durante esse tempo, ficou escondida em vários locais, servindo de travesseira, colchão ou mesmo enterrada: - O pedido foi cumprido!

Exemplos destes felizmente para os Portugueses e Timorenses, não foram únicos. Em muitas casas lulics ainda se encontram bandeiras e artefactos dos Maiores de ambos os Povos, que um dia, numa prova de confiança, foram entregues aos Timorenses, pela sua proximidade, dedicação e respeito às Gentes Lusitanas, representadas num símbolo que entenderam sempre como um elemento de coesão nacional.
Foi assim o Timor Português.

Nota final: A bandeira encontra-se actualmente à guarda do Museu Militar em Lisboa.
Rui Brito da Fonseca
Oficial Miliciano em Timor 1973/75
Ex-Adido para a Cooperação na Embaixada de Portugal em Díli.
Autor do livro “Monumentos Portugueses em Timor-Leste”

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Lepanto

Foi a 7 de Outubro de 1571 que, na recortada costa sudoeste da península grega, à entrada do golfo de Lepanto e não longe da cidade que hoje se chama Nafpaktos, se travou uma batalha naval decisiva para o futuro da Europa e do mundo.
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A Europa do século XVI estava dividida por linhas religiosas e políticas, isto é, por convicções e interesses. Carlos de Habsburgo, Carlos I de Espanha e Carlos V da Áustria, reunia na sua pessoa as coroas de Espanha e do Sacro-Império. Tentara a hegemonia europeia e por isso tivera de enfrentar a França de Francisco I e os príncipes alemães protestantes em duelos sucessivos. O Imperador levara uma vida de guerras e negociações, da vitória de Pavia ao saque de Roma, da batalha de Mühlberg à paz de Augsburgo, em que se confirmara a divisão religiosa do Continente.
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O Império Otomano estava a sueste da Europa e desde que Maomé II, em 1453, tomara Constantinopla, começara a ofensiva para Ocidente, por terra e por mar. Solimão, o Magnífico, conquistara Belgrado em 1521 e a Hungria em 1526, depois da batalha de Mohacs. Quando pusera cerco a Viena, em 1529, a sensação de perigo subira entre os cristãos. O Inverno obrigara os turcos a retirar, mas, em 1566, Solimão, já septuagenário, voltaria a querer tomar Viena. Mas morreria antes de tentar o cerco.
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O sucessor, o seu filho Selim II – que teve os cognomes pouco magníficos e pouco vulgares para um príncipe muçulmano de Selim, o Bêbado, e Selim, o Louro ­ – decidiu prosseguir a marcha para Ocidente, sempre por mar e por terra.
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Selim era filho de Solimão e da sua esposa preferida, uma cristã da Ruténia, filha de um padre ortodoxo, chamada Anastasia Lisowska. Anastasia fora raptada e vendida como escrava para o Harém mas, graças à sua inteligência e à sua beleza, que Ticiano retrataria em “La Sultana Rossa”, tornou-se a primeira mulher da Corte de Istambul, conhecida pelo nome de Hurrém Sultana e Roxelana. Além de Selim, Roxelana deu outros cinco filhos a Solimão e conseguiu que os seus meios-irmãos fossem sendo afastados ou eliminados de modo a que fosse ele a suceder ao pai.
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Os turcos tomaram Rhodes por mar em 1522 e cercaram Malta em 1565. Em 1570 atacaram Chipre e em 1571 completaram a conquista, tomando Famagusta aos venezianos. Para conseguirem a rendição de Famagusta, prometeram ao governador da praça, Marco Antonio Bragadin, que o deixavam sair em paz com a guarnição e a população civil – mas depois acharam por bem cortar-lhe o nariz e as orelhas, passearem-no pelas ruas agrilhoado e humilhado e esfolarem-no vivo.
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O Papa Pio V (um papa austero, consciente dos abusos dos seus predecessores renascentistas, canonizado em 1712 por Clemente XI) quis enfrentar a ameaça turca através de uma aliança de poderes católicos. A Santa Liga foi formalmente estabelecida em 25 de Maio de 1571, ainda com o propósito de resgatar Chipre. O pacto era entre os Estados papais, a Espanha de Filipe II, as Repúblicas de Veneza e Génova, os ducados de Saboia, Urbino e Parma e os Cavaleiros da Soberana Ordem de Malta.
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Apesar de convidados, o Sacro Império, a França e Portugal não entraram na Aliança: o Sacro Império assinara recentemente um tratado de paz com os turcos; a França tinha por inimigo principal os Habsburgo, e até se aliava aos turcos; Portugal considerava-se já suficientemente empenhado no esforço contra o Islão em Marrocos e no Oriente. Mas uma das galés da Ordem de Malta foi capitaneada pelo português Luís Mendes de Vasconcelos.
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A armada cristã, chefiada por D. João da Áustria, filho bastardo de Carlos V, reuniu-se em Messina, na Sicília, e daí navegou até ao golfo de Patraikos, perto de Lepanto. Eram 210 barcos de guerra, equipados com canhões e levavam 30 000 soldados, na sua maioria venezianos e espanhóis. D. João da Áustria comandava o centro, o genovês Andrea Doria, ao serviço do Papa, a ala direita, e o veneziano Agostino Barbarigo, a ala esquerda. Na reserva, ficava D. Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz. As galés aliadas misturavam-se neste dispositivo, mas 90% das forças eram venezianas e espanholas.
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A frota turca, comandada por Ali Paxá, era ligeiramente superior à da Liga, com 230 galés. O confronto deu-se à boca do golfo, com o choque e a abordagem das galés, quase transformando a batalha naval numa batalha campal de infantaria, travada nos conveses dos barcos. A Sultana, de Ali Paxá, abordou o El Real de D. João da Áustria, mas Ali Paxá foi morto e a sua nau-almirante tomada. Apesar da reacção de almirantes muçulmanos, como o paxá de Argel, Uluch Ali – que comandava a ala esquerda turca, em frente a Doria, e penetrou a linha cristã, causando sérias perdas às galés da Ordem de Malta –, a reserva de Santa Cruz reequilibrou a situação e Ali teve de retirar para mar aberto, salvando umas 40 naves.
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Consta que, na indecisão da batalha, D. João da Áustria deu ordens para que os remadores das galés – cristãos condenados por delitos comuns – fossem libertados e armados, com a promessa de que, se vencessem, ficariam definitivamente livres. A ordem foi recebida com escândalo pelos oficiais espanhóis, entre todos por Santa Cruz, mas D. João, como filho do Imperador e irmão do Rei, impôs a sua vontade. E assim se terá arregimentado uma reserva estratégica decisiva.
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Um grande feito e uma Graça
Ao tempo, a vitória do Lepanto foi vista e saudada como um grande feito humano e guerreiro, mas também como uma graça de Deus, pela intervenção da Virgem Maria, Nossa Senhora do Rosário e das Vitórias. O vocativo “auxilium cristianorum” foi então introduzido na Ladainha da Virgem. O motor desta aliança fora o Papa.
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Pio V, Michele Ghislieri, dominicano, inquisidor feito papa em Janeiro de 1566, era um homem de grande fé. Defensor da ortodoxia, empreendeu uma campanha severa contra os abusos, luxos e pompas da cúria de Roma e procedeu a uma série de diligências contra a simonia, a blasfémia e a sodomia entre o clero. Em contraste com os seus predecessores imediatos, preocupou-se com o bem-estar do povo de Roma, despendendo grandes somas para acudir às fomes e carências na cidade. E combateu a ameaça protestante em toda a sua extensão, opondo-se ferverosamente aos huguenotes franceses e excomungando a rainha Isabel I de Inglaterra. Foi a firme aliança que estabeleceu com Filipe II de Espanha que esteve na base da Santa Liga.

A vitória de Lepanto foi exaltada por toda a Cristandade. A mensagem do sucesso chegou a Filipe II, que estava no Escorial (ainda por terminar), ao princípio da tarde de 31 de Outubro de 1571. Os portadores da boa nova percorreram 3.500 quilómetros a uma média, então sem precedentes, de 150 quilómetros por dia. Filipe II rejubilou com a vitória e encomendou a Ticiano um quadro comemorativo. A vitória foi celebrada por toda a Europa em mais de meia centena de pinturas de artistas contemporâneos, como Vasari, Veronese, El Vicentino, El Greco, Tintoreto e muitos outros.
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O remador cativo de Cervantes
A literatura também não esqueceu a batalha. Cervantes, que foi ferido em Lepanto, chamou-lhe, no “Prólogo al lector” das Novelas Ejemplares (1613), “la mas memorable y alta ocasión que vieron los passados siglos, ni esperan ver los venideros”. E, no seu livro de poemas, Viaje del Parnaso, põe Mercúrio a dizer-lhe, a ele, Cervantes, autor-protagonista: “Bien sé que en la naval dura palestra / perdiste el movimento de la mano / isquierda para gloria de la diestra”.
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Mas já no Quijote (1605), no “discurso verdadeiro” do cavaleiro Ruy Pérez de Viedma, Cervantes celebrara a batalha histórica. Na narrativa de Viedma, “aquele dia”, o dia de Lepanto, provara que os turcos não eram invencíveis. Ruy de Viedma não tivera a sorte dos cristãos vitoriosos: ficara prisioneiro dos turcos, servindo como remador forçado. É este o estratagema que permite a Cervantes passar para o “lado de lá”, contar a história a partir do campo do inimigo – e formular críticas à política imperial da Espanha dos Áustrias e à obstinação das celebrações retóricas. Para ele, os grandes feitos não precisavam de celebrações: quando eram verdadeiramente grandes, impunham-se.
Cervantes levava a batalha a peito, daí que a sua curta referência a Lepanto em Don Quijote surja como uma espécie de interlúdio sério no meio da sua sátira generalizada, caucionada por Sancho, aos livros “de caballerias”.

O Rei, o Bardo e a expedição vitoriosa
Em Inglaterra, uma das repercussões da vitória de Lepanto foi o poema “The Lepanto”, do futuro Jaime I, a saudar a vitória da Santa Liga. Jaime VI da Escócia, que, pela morte de Isabel I, em 1603, se tornaria também Jaime I de Inglaterra, era um pensador e escritor de talento, continuador da idade de ouro isabelina e impulsionador da tradução inglesa da Bíblia (a célebre King James Bible).
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Shakespeare era um génio prudente, atento aos riscos e às vantagens da relação com o poder; ou seja, atento às penas da censura isabelina e às vantagens de permanecer nas boas graças do seu sucessor. Ora, tendo o poema do rei Jaime sobre Lepanto sido republicado em 1603, Shakespeare, que conhecia a simpatia do novo Rei pela batalha, não quis deixar de trazer a guerra da Sereníssima contra os turcos para as suas peças. Much Ado About Nothing começa em Messina, depois de Lepanto; e, em Othelo, a expedição vitoriosa de que regressa o shakespeariano “mouro de Veneza”, experimentado capitão mercenário, pode bem ser a grande vitória contra os turcos.
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Os repetidos confinamentos causados pelas sucessivas pestes de Londres davam ao Bardo frequentes ocasiões de leitura e investigação, e Shakespeare terá tido conhecimento da descrição de Lepanto de Richard Knolles na sua História do Império Turco, publicada em Londres, em 1603, sob o copioso título The generall historie of the Turkes from the first beginning of that nation to the rising of the Othoman familie: with all the notable expeditions of the Christian princes against them. Together with the lives and conquests of the Othoman kings and emperours.
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Ali, Knolles sublinha os horrores da batalha, o mar tinto de sangue e o medo dos turcos, que descreve como inimigos jurados da civilização e da Cristandade, à espreita da guerra “como o leão bíblico”. Shakespeare também terá lido os contos de Giovanni Battista Giraldi, conhecido por Cinthio, Gli Hecatommithi. Dois desses contos – “Desdemona and the Moor” e “Egitia” – têm tudo para terem sido fontes importantes para Othelo.
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Ter-lhe-á vindo daí, por exemplo, a ideia de um casamento misto ou intercultural, como a união de Otelo e Desdémona. Com um profundo entendimento da natureza humana, na sua permanente oscilação entre Deus e o Demónio, Shakespeare recriou em Othelo a figura do vilão Iago (que na narrativa de Cinthio, menos subtil, age mais por ciúme e despeito do que por inveja), sob o pano de fundo da guerra pelo Mediterrâneo e da alegria dos cristãos com a vitória sobre os turcos.
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Os novos Lepantos
Não creio que valha muito a pena, na sua celebração, estabelecer retóricas paralelas com a Europa de hoje perante o Islão de hoje. Até porque, hoje, a grande ameaça à civilização não vem de fora, vem de dentro; não vem das armas, vem do irrealismo e do simplismo das ideias que alguns nos querem autocraticamente impor. E vem também da apatia dos que já não defendem nada nem ninguém e da desistência e da falta de comparência dos muitos que, discordando e dissidindo, se calam, se rendem, se conformam. São estes os novos Lepantos. Os nossos Lepantos. Os que nos devem convocar para o combate.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Cavaco Silva: Avisos

Desde 1995 que o país é governado pelo Partido Socialista, tirando apenas férias quando o país estava de " tanga" no pós Guterres ou na bancarrota de Sócrates. [...] Goste-se ou não de Cavaco, este seu último artigo publicado no Expresso é mais uma pedrada no pântano económico, politico e social em que o país se encontra. Infelizmente, por mais clarividente e assertivo que possa ser a sua argumentação encontrará sempre o grupo de (verdadeiros) negacionistas e relativistas do costume que, ao invés de se concentrarem na importância da mensagem, procuram matar o mensageiro. Uns, por sectarismo ideológico, outros - quais arautos da intelectualidade, procurarão atribuir a Cavaco a sua quota de responsabilidade para este estado de sítio, quando, em bom rigor, Portugal recebeu muito mais dinheiro oriundo dos fundos europeus no pós Cavaquismo.