Mostrar mensagens com a etiqueta Imigração. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Imigração. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 7 de julho de 2026

A Máquina Mediática e a Imigração: O Caso Observador (2014–2026) como exemplo

Há temas que regressam ciclicamente ao debate público, como ondas que insistem em bater na mesma rocha. A imigração é um deles. Ao longo dos últimos doze anos, observei com atenção como o jornal Observador que muitos consideram o bastião liberal‑conservador da imprensa portuguesa foi moldando a sua narrativa sobre este evento. Não apenas por curiosidade académica apenas, mas porque a forma como os mídia enquadram a realidade condiciona a própria realidade. Aprendi isso da pior maneira, nos meses em que fui preso político, em 1974–75, quando a narrativa oficial valia mais do que os factos.
Hoje, com a distância crítica que o tempo concede, olho para o Observador e vejo uma evolução nos mídia que merece ser registada.

1. O início: a fase tecnocrática (2014–2017)
Quando o Observador nasceu, a sua abordagem à imigração era quase clínica. Falava‑se de números, de demografia, de sustentabilidade da Segurança Social. Portugal envelhecia, e os imigrantes eram apresentados como uma espécie de “injeção de juventude” necessária para manter o país funcional.
Não havia entusiasmo, mas havia pragmatismo.
E, sobretudo, não havia medo.
2. A viragem crítica (2018–2020)
Com o aumento acelerado da imigração, o discurso mudou. O jornal começou a apontar falhas na gestão política do PS: atrasos na regularização, pressão sobre o SNS, falta de planeamento. Era uma crítica à máquina governativa, não aos imigrantes.
Mas, curiosamente, os artigos continuavam a sublinhar que os imigrantes contribuíam mais para a Segurança Social do que recebiam.
Era como se o jornal dissesse: “Precisamos deles, mas não assim.”

3. A ambivalência estruturada (2021–2024)
Este foi o período mais interessante. O Observador passou a ter dois discursos paralelos:
O discurso factual, que reconhecia que o crescimento populacional português dependia quase totalmente da imigração e
discurso crítico, que denunciava a incapacidade do Estado em gerir esse fluxo. 
A máquina mediática funcionava como um espelho partido: cada fragmento mostrava uma parte da verdade, mas nunca o conjunto.
4. A consolidação (2025–2026)
Com a publicação de novos relatórios oficiais, o jornal assumiu uma posição mais clara: Portugal é hoje um país de imigração, quer gostemos quer não. A imigração é estrutural, não conjuntural. E o problema não é a imigração em si, mas a ausência de política migratória coerente.
O Observador tornou‑se, assim, num jornal que reconhece a inevitabilidade da imigração, mas exige controlo, integração e planeamento.
Uma posição que, admito, é mais honesta do que muitas que se ouvem no espaço público.

5. O que isto revela sobre o papel dos media 
A imprensa não cria a realidade, mas molda a forma como a percebemos.
E, no caso da imigração, o Observador fez aquilo que muitos jornais evitam: reconheceu os benefícios económicos, mesmo quando criticava a gestão política.
Para quem viveu num tempo em que a imprensa era instrumento de propaganda - e eu vivi - esta ambivalência é saudável.
Não porque seja perfeita, mas porque é plural.

6. "comptes rendus"
A imigração continuará a ser tema central na política portuguesa. 
E o Observador continuará a ser um dos jornais que mais influencia a forma como o país pensa sobre ela.
O meu papel, aqui no ReVisões, é outro:
é desmontar narrativas
expor contradições, e 
lembrar que a verdade raramente cabe num título de jornal.

domingo, 21 de dezembro de 2025

imigração ucraniana: memória curta, lição longa!

As recentes declarações de Volodymyr Zelensky, apelando à participação de Portugal na reconstrução da Ucrânia, são um bom pretexto para recordar um capítulo que o País parece ter esquecido depressa: a imigração ucraniana dos anos 90 que deixou saudades e uma  terceira geração já portuguesa

Entre 1995 e 1999, começaram a chegar a Portugal milhares de ucranianos, integrando a
vaga pós-soviética do Leste europeu. Vieram para trabalhar — e trabalharam onde era preciso: construção civil, obras públicas e limpezas. Vieram também para aguentar o que muitos portugueses já não aceitavam: salários baixos, subempreitadas abusivas, precariedade e atrasos na regularização.
Portugal precisava de mão-de-obra e tinha então uma legislação mais permissiva do que outros países europeus. A combinação foi explosiva: os homens nos estaleiros, as mulheres nas limpezas, muitos em regime informal, quase todos invisíveis ao discurso público. Não houve indignações televisivas nem histerias identitárias. Houve, isso sim, trabalho duro e silêncio.
Convém lembrar um dado frequentemente omitido: o perfil educacional da comunidade ucraniana era elevado. Engenheiros, técnicos, médicos e professores aceitaram tarefas manuais como porta de entrada num país que lhes oferecia segurança e rendimento, ainda que à custa da desqualificação profissional. 
Apesar disso, começaram cedo a organizar-se: associações culturais, redes de apoio, ligação à Embaixada, frequência do ensino português e integração sem alarido.

Os números mais expressivos viriam já nos anos 2000 — em 2002, os ucranianos chegaram a ser a maior comunidade estrangeira em Portugal —, mas foi no final dos anos 90 que tudo começou. Foi aí que se testou, na prática, a capacidade de integração, a disciplina laboral e o contributo real de uma imigração que não pediu privilégios, apenas espaço para trabalhar.

Vale a pena recordar isto hoje, quando se fala de imigração de forma abstracta e moralista. A experiência ucraniana mostra que integração não se decreta, constrói-se: com trabalho, regras claras e exigência mútua. E lembra também que Portugal já beneficiou — e muito — de fluxos migratórios bem-sucedidos, sem propaganda nem romantizações.
Talvez, antes de grandes discursos sobre “Europa unida” e reconstruções futuras, fosse prudente reaprender as lições do passado recente. Porque a memória curta costuma ser péssima conselheira — sobretudo em política.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Um Tribunal distante de um povo cansado

A decisão do Tribunal Constitucional de rejeitar a nova Lei da Nacionalidade volta a expor uma fratura profunda entre o Estado e uma parte significativa do povo português. Não se trata apenas de um acórdão técnico ou jurídico: trata-se de mais um episódio em que os cidadãos sentem que a sua vontade, as suas preocupações e a sua identidade são tratadas como secundárias face a interpretações rígidas e abstratas da Constituição. A Constituição da República Portuguesa deveria ser um instrumento vivo, ao serviço do povo e da realidade do país, e não um escudo usado para bloquear qualquer tentativa de adaptação às transformações sociais, demográficas e culturais que Portugal enfrenta. Quando o Tribunal Constitucional se coloca sistematicamente como um travão à vontade democrática expressa através do Parlamento, a pergunta impõe-se: a quem serve, afinal, a Constituição? Muitos portugueses sentem que a nacionalidade deixou de ser encarada como um vínculo profundo de pertença, responsabilidade e compromisso com o país, passando a ser tratada como um mero procedimento administrativo. A tentativa de rever a lei não nasceu do ódio nem da exclusão, mas da necessidade legítima de proteger a coesão nacional, o valor da cidadania e o respeito por quem sempre cumpriu regras, deveres e sacrifícios. 

Ao rejeitar essa revisão, o Tribunal Constitucional ignora o sentimento crescente de injustiça e desconsideração vivido por milhares de cidadãos. Ignora o facto de que a soberania reside no povo e que a democracia não pode ser reduzida a um exercício jurídico distante da realidade concreta das pessoas. Uma Constituição que não escuta o povo arrisca-se a perder legitimidade moral, mesmo que conserve legitimidade formal. O povo português não é intolerante — é exigente. Exige respeito, exige equilíbrio e exige que as instituições deixem de falar apenas para si próprias. Defender fronteiras jurídicas claras e critérios justos de nacionalidade não é atacar a democracia; é, pelo contrário, tentar preservá-la. Se a Constituição serve para silenciar o descontentamento popular em vez de o canalizar, então é legítimo questionar se não chegou o momento de a repensar, de a rever e de a devolver àqueles a quem verdadeiramente pertence: os portugueses. A democracia não vive apenas nos tribunais. Vive, acima de tudo, no povo que sente, trabalha, contribui e ama este país — mesmo quando sente que o país já não o escuta. (Bernardino Oliveira in O Luso)

domingo, 31 de agosto de 2025

imigração desordenada e não integrável

Há um levantamento de base contra a condescendência moralista da elite.
. Rejeitar a narrativa de “guerra racial” e interpreta os protestos junto de hotéis para requerentes de asilo no Reino Unido como um conflito de classes: de um lado, contra-manifestações de uma esquerda de classe média, “plumy”, com kefiyyes e bandeiras da Palestina; do outro, gente comum — muitas “mães” — com a bandeira inglesa, a exigir soberania e controlo de fronteiras.
- Definir isto como um choque entre “crenças de luxo” (luxury beliefs) das elites — em particular a “neo-religião” das fronteiras abertas — e o senso comum popular que volta a afirmar que “as fronteiras importam” e “as comunidades importam”.
- Colocar estas tensões no mesmo continuum de outras “crenças de luxo” em recuo: refere a decisão do Supremo sobre sexo biológico e a alcunha “TERF Island” para o Reino Unido, como sinais de reacção à ideologia de género promovida por elites políticas e mediáticas.
- Apontar como ao regresso do tema dos “grooming gangs” ao debate político como prova de que a imposição do tabu “islamofobia” cedeu perante a indignação de comunidades trabalhadoras.
· a política migratória “de salvação económica” e a retórica “inclusiva” funcionam, na prática, como projectos de classe, pagos pelos mesmos de sempre — bairros periféricos, escolas pressionadas, saúde e habitação em rutura — enquanto os custos sociais são desvalorizados pelos que vivem longe deles.
· A categoria de “crenças de luxo” aplica-se com precisão a parte da elite portuguesa: editorialistas, comentadores e certos aparelhos partidários que apostam no prestígio moral de fronteiras porosas enquanto transferem riscos para quem não tem como se proteger.
· Em Portugal, depois do chumbo parcial das alterações à Lei dos Estrangeiros e do teatro institucional que se seguiu, a lição britânica é simples e útil para o nosso debate: “Fronteiras importam. Soberania importa. Comunidades importam.” A prioridade é restaurar capacidade de selecção e controlo, cortar incentivos à imigração desordenada e não integrável, e proteger serviços públicos — sem insultar quem o exige.
· O Reino Unido serve de espelho: quando comunidades locais vêem hotéis ocupados por centenas de homens não triados e recebem sermões de uma elite que os rotula de “racistas”, temos o mesmo padrão de estigmatização do eleitorado popular que cá observamos: quem exige lei, ordem e fronteiras é carimbado de “extrema-direita”. O rótulo substitui a argumentação — e esse truque está a perder eficácia.
Politicamente, o campo que melhor ler esta reconfiguração cultural — o refluxo das crenças de luxo e a afirmação popular do interesse nacional — ganhará terreno. O erro seria tentar criminalizar o dissenso em vez de o representar.

Brendan O’Neill, em “Migrant protests and the twilight of luxury beliefs” aponta a uma correcção de rumo impulsionada de baixo para cima. Para nós, isto valida a defesa de ordem, soberania e interesse nacional contra moralismos importados que pedem cheques em branco às comunidades.
(Fontes: artigo de Brendan O’Neill no The Spectator — edição UK e reedição australiana, 27.08.2025.) (The Spectator, The Spectator Australia)

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Imigração: Escola Austríaca vs. Jesús Fernández-Villaverde (UPenn)

Convergências, divergências e o que isto implica para Portugal
Resumo.
A Escola Austríaca parte de princípios (propriedade privada, livre associação, crítica ao Estado-Providência) e conclui que “fronteiras abertas” num regime de prestações universais criam integração forçada e socialização de custos; a alternativa coerente seria ou encolher o Estado-Providência ou seleccionar entradas por convite/contrato. J. Fernández-Villaverde (UPenn) chega a conclusões semelhantes por via empírica: com Estados-Providência europeus, imigração pouco qualificada tende a ter saldo fiscal líquido negativo, não “salva” pensões e pressiona salários e rendas; o foco deve ser produtividade, reforma institucional e selecção do fluxo migratório. 

1) Método: praxeologia vs. evidência
Austríacos (Mises/Hayek/Hoppe): o problema migratório nasce do domínio público (ruas, escolas, prestações) num quadro de impostos compulsórios; com propriedade privada plena, a entrada seria por convite e a exclusão também. Hoppe formaliza a crítica a “fronteiras abertas + welfare”. (Mises Institute, ontology.buffalo.edu)
Fernández-Villaverde: abordagem de equilíbrio geral + dados: composição por qualificações, conta fiscal ao longo da vida, pressões em habitação/serviços, e trade-offs entre gerações. (YouTube)
2) Mercado de trabalho: “há empregos que os nativos não querem”?
Ambos desmontam o slogan. O que há são preços e produtividade: se salários e mercados se ajustarem (incluindo habitação), os empregos existem para quem os aceita ao preço que o mercado sustenta; quando há distorções regulatórias e de prestações, surgem compressões salariais nos decis mais baixos e rendas mais caras nas zonas de acolhimento. (YouTube)
3) PIB bruto vs. bem-estar dos residentes
Austríacos: o critério é quem paga e quem decide; se os custos são socializados, entradas indiscriminadas podem reduzir o bem-estar dos contribuintes, mesmo que o PIB suba. (Mises Institute)
Fernández-Villaverde: distingue maximizar PIB de maximizar bem-estar dos residentes; com a arquitectura actual do Estado-Providência, grandes fluxos pouco qualificados não maximizam o segundo objectivo. (YouTube)
4) Estado-Providência e saldo fiscal
Austríacos: “abertura com welfare” = integração forçada; solução: reduzir prestações universais e/ou migrar para acesso contratual (patrocinadores, cauções, seguro privado), antes de liberalizar a mobilidade. (Mises Institute)
Fernández-Villaverde: composição é destino: se o fluxo se concentra em baixa qualificação, o saldo fiscal de ciclo de vida é fraco e a pressão em escolas, SNS e habitação é forte; por isso defende selecção por qualificações e controlo da irregularidade. (X , YouTube)
5) Demografia e pensões
Austríacos: o problema das pensões é institucional (pay-as-you-go). “Importar contribuintes” não repara a engenharia do sistema; a via é capitalização e idade efectiva de reforma.
Fernández-Villaverde: “A imigração não nos vai salvar” — para estabilizar rácios de dependência seriam precisos volumes politicamente indigeríveis; sem qualificação, o saldo fiscal não fecha. Prioridade: produtividade, reformas e selecção. (YouTube)
6) Cultura, instituições e capacidade de absorção
Austríacos: sublinham a dimensão institucional-cultural — regras, normas e preferências locais importam; sem propriedade privada a decidir convites e exclusões, o Estado impõe forçosamente convivências e custos. (ontology.buffalo.edu)
Fernández-Villaverde: menos “culturalista”, mais operacional: capacidade administrativa (habitação, escolas, saúde, segurança) e efeitos entre gerações (idosos podem beneficiar de cuidadores; jovens enfrentam salários comprimidos e rendas altas). (YouTube)
O que isto implica para Portugal
Não vender milagres demográficos. Reformar pensões (idade efectiva, incentivos ao trabalho sénior) e alavancar produtividade com reforma regulatória e fiscal. (YouTube)
Selecção e controlo. Se o Estado-Providência se mantém, seleccionar por qualificações, exigir patrocínio/garantias e combater a irregularidade (para não premiar o canal errado). (X)
Mercados a funcionar. Liberalizar construção e arrendamento para evitar que choques populacionais caiam sobre jovens e classes trabalhadoras via rendas.
Contas locais e transparência. Publicar, município a município, custos e receitas associadas a fluxos migratórios (educação, saúde, habitação, segurança), para que o debate saia do moralismo e entre nas contas.
Concluindo. 
A convergência entre uma tradição liberal exigente (Austríaca) e a análise empírica de Fernández-Villaverde é cristalina: sem reforma institucional, mais imigração pouco qualificada não é uma política socialmente benéfica; com mercados e Estado arrumados, a selecção e o contrato permitem colher ganhos sem socializar prejuízos.
Fontes:
[Hoppe, The Case for Free Trade and Restricted Immigration] (Mises Institute) ·
[Hoppe, On Free Immigration and Forced Integration] (ontology.buffalo.edu) ·
[Mises, Liberalism — “Freedom of Movement” (texto integral)] (Mises Institute) ·
[Roundtable Mises/Rothbard/Block/Hoppe (passagens sobre imigração)] (Mises Institute) ·
[Fernández-Villaverde — “España (y Europa) en apuros” (Fund. Rafael del Pino)] (YouTube) ·
[Clip: “La inmigración no va a salvarnos” (síntese de JFV)] (YouTube) ·
[
Fernández-Villaverde  em X/Twitter (saldo fiscal e legal vs. ilegal)] (X))

Falácias do Imigracionismo Económico

As narrativas que sustentam a pretensa “necessidade” de imigração para o funcionamento da economia são, na verdade, construções ideológicas ao serviço de lóbis empresariais. O Professor Jesús Fernández-Villaverde (Universidade da Pennsylvania) desmonta duas dessas falácias centrais, em termos que coincidem com os que já aqui temos defendido.
Primeira falácia: a ideia de que precisamos de imigrantes para os trabalhos que os nacionais não querem
.
Segundo Villaverde, esta tese ignora a lógica económica elementar: os salários são endógenos. Se há escassez de trabalhadores em certos sectores, os salários aumentam e a automatização substitui parte da mão-de-obra. O mercado ajusta-se. O que os empresários querem é manter salários baixos, mesmo que isso implique substituir trabalhadores locais por imigrantes dispostos a aceitar condições piores.
Segunda falácia: o argumento de que mais imigração traz crescimento económico.
Villaverde é claro: não lhe interessa maximizar o PIB, mas sim o bem-estar da população autóctone. Um PIB mais elevado, obtido à custa de mão-de-obra desqualificada, pode coexistir com salários mais baixos, maior desigualdade e degradação social. O suposto “crescimento” beneficia sobretudo dois grupos: os empregadores e os imigrantes, enquanto os custos recaem sobre a sociedade em geral.
A escolha que se coloca à Europa não é entre “crescimento” e “decadência”. É entre diferentes modelos sociais. Submeter as nações ao imigracionismo económico não é inevitável nem desejável — é apenas uma escolha política, que tem demonstrado consequências nefastas para a coesão social e para o bem-estar dos povos europeus.

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Portugal e a encruzilhada migratória: entre o realismo e a inércia

Portugal encontra-se hoje, tal como a generalidade da Europa, perante uma questão existencial: a definição do rumo da sua política migratória. Não se trata de um debate episódico ou de mera oportunidade política — é uma escolha de sobrevivência nacional. Continuar a responder a desafios novos com soluções antigas e desadequadas é receita certa para o desastre. A generosidade, por mais nobre que seja, tem limites físicos e económicos; ignorá-los é condenar o país a um colapso social, cultural e financeiro.

O quadro é claro: Portugal não tem condições para albergar, de forma digna e sustentável, milhões de migrantes, tal como antecipam projeções para as próximas décadas. Nem a Europa, com recursos e infraestruturas mais robustas, tem capacidade para tal. A preservação da nossa matriz cultural, o equilíbrio demográfico e a coesão social exigem uma ação decidida e um reordenamento democrático do nosso quadro jurídico. E, se a Constituição se revela desajustada face à realidade e produz efeitos perversos, o debate sobre a sua revisão torna-se inevitável.

A tentativa mais recente de ajustar esta política foi a nova Lei dos Estrangeiros, aprovada em julho de 2025 pela Assembleia da República, que endurecia os critérios de entrada e permanência no país. Entre as principais alterações, destacava-se a exigência de dois anos de residência legal para aceder ao reagrupamento familiar, a eliminação do regime especial para cidadãos da CPLP — obrigando à obtenção de visto no país de origem — e a priorização de trabalhadores qualificados, alinhando a imigração com as necessidades reais da economia.
O Governo de Luís Montenegro apresentou estas medidas como resposta a uma política migratória “desorganizada e insustentável”, apontando o congestionamento crónico da AIMA, a proliferação de situações de ilegalidade e a incapacidade do Estado em assegurar integração digna. Para os defensores da lei, como André Ventura, era tempo de travar a imagem de Portugal como “paraíso da imigração descontrolada” e devolver credibilidade ao sistema.
Contudo, o Presidente da República decidiu não promulgar o diploma, remetendo-o ao Tribunal Constitucional, que identificou disposições potencialmente incompatíveis com direitos fundamentais. O resultado foi o regresso ao quadro legislativo anterior — precisamente aquele que a maioria parlamentar considerava incapaz de responder à realidade atual.

A questão que fica é simples: podemos continuar a protelar decisões estruturantes, escondendo-nos atrás de formalismos constitucionais, enquanto o país enfrenta pressões migratórias inéditas e um sistema administrativo em rutura? A prudência humanista é necessária, mas o imobilismo é uma escolha — e, neste caso, uma escolha que poderá custar-nos a estabilidade social, a coesão nacional e a própria identidade de Portugal.

sábado, 9 de agosto de 2025

Lei dos Estrangeiros: o Tribunal Constitucional, o Presidente e o PS no jogo da hipocrisia política


A decisão do Tribunal Constitucional sobre a Lei dos Estrangeiros é mais um episódio deprimente da política portuguesa — e desta vez não só pela substância, mas também pela forma. Com uma votação fortemente dividida, a maioria dos juízes decidiu chumbar parte das alterações aprovadas a 16 de Junho pela Assembleia da República, mantendo, na prática, intacta a velha política de portas abertas que tem servido de bandeira ao socialismo nacional e ao actual Presidente da República.
Convém recordar que a inconstitucionalidade encontrada não atinge todo o pacote legislativo, mas apenas cinco normas de quatro artigos, num universo de mais de duzentos. Ou seja, a decisão foi tudo menos um veto total — mas o impacto político e mediático foi habilmente amplificado para parecer um golpe mortal às intenções do Governo. Não foi. O que houve aqui foi a consagração de uma escolha ideológica, como o próprio vice-presidente do Tribunal Constitucional, Gonçalo Almeida Ribeiro, deixou claro ao falar de “argumentos ideológicos” vencedores. E quando um juiz constitucional admite isto, o problema já deixou de ser jurídico e passou a ser político.

O Presidente da República, fiel à sua estratégia de “agradar a todos” enquanto vai enfraquecendo o executivo, não perdeu a oportunidade de devolver o diploma ao Parlamento, alegando dúvidas sobre disposições que o próprio Tribunal não considerou inconstitucionais. Marcelo Rebelo de Sousa, em fim de mandato, parece mais preocupado em manter a sua narrativa pessoal de “guardião da moderação” do que em enfrentar a crise real que é a imigração descontrolada. No fundo, mantém-se cúmplice da política que nos trouxe até aqui: um aumento de mais de um milhão de imigrantes em menos de uma década, sem capacidade de integração, habitação ou segurança.

Quanto ao Partido Socialista, a incoerência é quase arte. Depois de ter conduzido Portugal ao caos migratório com anos de laxismo e propaganda multiculturalista, aparece agora, num volte-face calculado, a oferecer-se para “ajudar” o Governo a refazer a lei — não por convicção, mas para tentar isolar o CHEGA. É a velha política do oportunismo: não interessa resolver o problema, interessa apenas redesenhar alianças e manter o jogo partidário. Quando falam em “responsabilidade e humanidade”, traduz-se na prática por: manter aberta a torneira da imigração, mas com um verniz legislativo que permita salvar a face.
O que está em causa é mais do que a constitucionalidade técnica de meia dúzia de artigos. É o choque frontal entre duas visões para o país: uma que reconhece os limites da nossa capacidade de acolhimento e quer regular de forma séria e restritiva a entrada de imigrantes; outra que prefere continuar a empilhar promessas e a fingir que Portugal pode ser um refúgio ilimitado, mesmo à custa da sua coesão social, segurança e identidade cultural. Infelizmente, o Tribunal Constitucional escolheu alinhar com a segunda, o Presidente alinhou com a indecisão e o PS alinhou com o cálculo eleitoral.

Assim, a decisão do Palácio Ratton não é um triunfo da Constituição — é mais um triunfo da política do faz-de-conta. E Portugal continuará a pagar a factura, não apenas em números, mas em degradação real das condições de vida, enquanto a classe política brinca aos equilíbrios partidários e os juízes, que deveriam ser guardiões da lei, se assumem como árbitros ideológicos de uma questão que deveria ser resolvida com coragem e realismo.



quinta-feira, 3 de julho de 2025

Imigração: Entre a Ideologia das “Portas Abertas” e a Defesa da Identidade Portuguesa

A imigração é hoje, talvez mais do que nunca, um dos grandes temas que definem o futuro de uma nação. Em Portugal, porém, o debate continua sequestrado por slogans, preconceitos ideológicos e medo de enfrentar o essencial: que tipo de país queremos ser? E, mais concretamente: quem queremos acolher, e em que termos?
Há, neste debate, duas visões em confronto. Uma delas é a da esquerda globalista e multiculturalista, que nos quer convencer de que todas as culturas são iguais, todas são compatíveis, e que a imigração em massa, desordenada e sem critério, é não só inevitável como desejável. A outra visão — a que defendo — parte da realidade concreta e da História: a imigração só é saudável se for compatível com os valores e a identidade cultural da sociedade que a recebe.

Os apóstolos das “portas abertas”
O coro das “portas abertas” é ruidoso. Compõe-se do Bloco de Esquerda, do Livre e de boa parte do Partido Socialista. Acompanha-os uma legião de ONG, com destaque para o SOS Racismo, a Amnistia Internacional e várias agências subsidiadas por fundações estrangeiras. Nos bastidores, a Open Society de George Soros é omnipresente, financiando o mesmo tipo de discurso em Lisboa, Bruxelas ou Nova Iorque.
Para este universo político e ideológico, a imigração é quase uma nova religião. Não importa se quem chega tem qualquer respeito pelos valores ocidentais, se aceita ou não a igualdade entre homens e mulheres, se quer ou não integrar-se. Basta chegar — e passa a ter direito a tudo: saúde gratuita, habitação, subsídios, nacionalidade. Tudo, menos o dever de se adaptar.
A quem serve esta imigração desordenada?
É preciso perguntar: quem beneficia com esta imigração de massas?
Seguramente não são os portugueses que vivem nos bairros periféricos das grandes cidades, onde os serviços públicos estão saturados e onde aumentam as tensões culturais. Não são os pequenos empresários portugueses, que vêem a concorrência desleal de trabalho informal. E muito menos são os trabalhadores nacionais, que sofrem com a pressão descendente nos salários provocada pela mão-de-obra vinda de fora sem qualquer exigência. Esta imigração desordenada interessa a uma elite política e económica que vê nas populações migrantes votos fáceis, massa de manobra e mão-de-obra barata. Interessa também à ideologia do “cidadão do mundo”, que abomina a noção de pátria e vê no “nacionalismo” um pecado capital.
Imigração sim, mas com critérios
Ao contrário da caricatura que a esquerda constrói, não defendo o “fecho de fronteiras”. Defendo sim uma política de imigração selectiva, inteligente e patriótica. E aqui, importa fazer uma distinção fundamental — que quase ninguém ousa fazer, mas que é decisiva.
Portugal tem uma longa História de ligação aos povos do antigo Ultramar. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste partilham connosco não apenas a língua, mas séculos de convivência cultural, religiosa, jurídica. Os portugueses que vieram desses territórios, ou os seus descendentes, fazem parte da nossa identidade alargada. São portugueses na alma e na cultura onde a nossa matriz europeia se junta com a das culturas africanas que adoptámos como nossas.
Bem diferente é a imigração oriunda de países com culturas totalmente alheias ou mesmo hostis à matriz europeia-cristã, como o Paquistão, o Bangladesh, a Argélia ou o Afeganistão. Não se trata de racismo — trata-se de realismo. Não se trata de preconceito — mas de experiência histórica. A integração de comunidades que praticam o separatismo cultural e religioso, que colocam a sharia acima da Constituição, e que vivem em enclaves, tem sido um fracasso em toda a Europa Ocidental.
O direito — e o dever — de escolher quem acolhe
Num tempo em que a Europa assiste à fragmentação das suas sociedades, à radicalização identitária e ao crescimento de zonas de “não-direito”, Portugal não pode seguir o mesmo caminho de olhos fechados. Não somos obrigados a repetir os erros da Suécia, da França ou da Bélgica.
É possível — e desejável — acolher quem venha trabalhar, respeitar a nossa cultura e contribuir para o país. Mas é essencial pôr fim à imigração desordenada, facilitada por vistos automáticos e burocracias politizadas. Não é um gesto de intolerância — é um acto de lucidez.
.
Como português, como europeu e como homem livre, defendo que a identidade cultural de um povo não se negoceia, não se desconstrói por decreto e não se dissolve por medo de ofender. Portugal é um país hospitaleiro, mas tem o direito de ser exigente e selectivo na hora de abrir as suas portas. Só assim continuará a ser Portugal.

 

quinta-feira, 19 de setembro de 2024

migrações

As respostas foram recolhidas através de 997 inquéritos online em julho de 2024 e os dados indicam um agravamento do sentimento dos portugueses em comparação com dados de 2017 do Eurobarómetro ou um relatório da Organização Internacional para as Migrações de 2015

sexta-feira, 20 de julho de 2018

imigração!

Abrir as portas para a imigração não é a solução,
é uma forma de tornar os países pobres mais pobres !
(será ?)

.