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quarta-feira, 22 de abril de 2026

a Terra de Santa Cruz!

A "Descrição de todo o marítimo da Terra de Santa Cruz chamado vulgarmente, o Brasil." É um altas colorido de João Teixeira Albernaz, de 1640. Original na Torre do Tombo, em Lisboa.
Este precioso documento histórico mostra muito do que se sabia sobre o Brasil no início do século 17. Foi publicado no ano da restauração da Coroa Portuguesa, quando a União Ibérica foi rompida unilateralmente por Portugal.
Sendo Albernaz um cartógrafo oficial, ficamos então sabendo o que Portugal reivindicava como sendo suas terras. Neste Atlas, o litoral do Brasil começa no estuário do Rio da Prata, incluindo o Uruguay, e termina na foz do Rio Amazonas.
Para Portugal o atual território do Uruguay fazia parte da América Lusitana, desde o início do século 16, e seus mapas oficiais traçavam Tordesilhas passando pelo Rio da Prata.
O Atlas possui 31 cartas com dimensões de 296 x 416 mm. Cada carta é precedida por um texto explicativo do próprio João Teixeira.

quarta-feira, 11 de março de 2026

A importação da novilíngua e a capitulação cultural

Há fenómenos ideológicos que se apresentam como simples actualizações de linguagem, como ligeiras correcções de sensibilidade ou como discretos progressos civilizacionais. Convém, porém, olhar para eles com mais rigor. O que hoje se dissemina em Portugal sob a aparência benigna da chamada “linguagem neutra” não é um acidente linguístico, nem uma espontânea mutação orgânica da língua: é um programa de reformatação simbólica da realidade, imposto por minorias activistas que procuram transformar a linguagem num instrumento de poder.
A questão, por isso, não é filológica apenas. É também cultural, política e até social.

Durante décadas, os portugueses habituaram-se a olhar para o Brasil como grande espaço de irradiação cultural no domínio da música, do entretenimento ou da expansão lexical própria de uma língua viva. Nada disso constitui, em si mesmo, problema. As línguas sempre circularam, absorveram, devolveram, reinventaram. O problema começa quando o que atravessa o Atlântico já não é a vitalidade natural de uma comunidade linguística, mas sim um pacote ideológico fabricado em meios universitários radicalizados, depois vulgarizado por activismos digitais e, finalmente, recodificado como imperativo moral.
É nesse quadro que a “linguagem neutra” surge não como expressão da língua, mas como agressão à língua.
Os seus promotores invocam a inclusão. Mas a inclusão, aqui, funciona como palavra-talismã: serve para impedir a crítica, bloquear o exame racional e atribuir superioridade moral automática a quem subscreve a nova ortodoxia. Ora, a estrutura gramatical do português não corresponde a uma conspiração patriarcal nem a um dispositivo histórico de opressão. O género gramatical não se confunde com sexo biológico, e só o empobrecimento intelectual contemporâneo permite fingir que uma categoria da gramática latina é idêntica a uma categoria da militância identitária.

A tentativa de impor formas artificiais — “todes”, “amigues”, “elu” e correlatas — não amplia a inteligibilidade comum: fragmenta-a. Não aproxima os falantes: separa-os. Não democratiza a língua: aristocratiza-a. Cria um dialecto de reconhecimento interno, uma senha de pertença, um pequeno catecismo verbal destinado a distinguir os iniciados dos restantes. Sob o pretexto de incluir os alegadamente excluídos, instaura-se uma exclusão nova: a dos que não frequentam os códigos da seita.

É aqui que a crítica deixa de ser meramente conservadora para passar a ser socialmente séria. A norma culta, com todos os seus limites e exigências, continua a ser um instrumento de unificação simbólica e de mobilidade social. Para o filho do operário, para o estudante de origem modesta, para quem depende da escola como meio de ascensão, a existência de uma norma comum é protecção, não opressão. Quem ridiculariza essa norma em nome da transgressão pseudo-emancipatória quase sempre o faz a partir de posições de conforto cultural. Como sucede tantas vezes, são os privilegiados que brincam à revolução sem pagar o preço da desordem que promovem.

A novilíngua identitária não nasce, pois, de uma necessidade popular. Nasce de elites académicas, de sectores editoriais, de activismos de rede e de aparelhos culturais que vivem da fabricação de causas. E esse aspecto merece especial atenção em Portugal. O País, sempre vulnerável a modas importadas e particularmente permeável ao prestígio exterior travestido de modernidade, começa a acolher como sinal de sofisticação aquilo que, noutros contextos, já revelou o seu carácter corrosivo.
Não se trata de hostilidade ao Brasil, nem de recusa da sua produção intelectual em bloco. Seria absurdo e injusto dizê-lo. Trata-se, sim, de notar que uma parte do Brasil universitário e editorial foi convertida em laboratório de tropicalização das piores abstracções ideológicas saídas dos campi norte-americanos. Depois de adaptadas ao contexto brasileiro, essas doutrinas regressam ao espaço lusófono com o selo enganador da modernidade, da diversidade e do progresso moral. E encontram em Portugal um terreno surpreendentemente receptivo: universidades desejosas de parecer avançadas, meios culturais dependentes do consenso progressista, juventudes à procura de causas substitutivas e um jornalistado incapaz — ou indisponível — para distinguir entre inovação cultural e colonização ideológica.

Neste ponto, a defesa da língua cruza-se com a defesa da civilização. Porque a língua não é apenas instrumento de comunicação; é forma de continuidade histórica, depósito de experiência colectiva, estrutura de inteligibilidade do mundo. Quando se adultera deliberadamente a gramática para a submeter a fantasias antropológicas, não se está a “actualizar” a língua: está-se a atacá-la como mediação entre realidade, tradição e comunidade.
É por isso que a pressão para adoptar certas fórmulas ditas inclusivas não deve ser lida como mero excesso de zelo ou excentricidade estudantil. Quem exige que todos usem determinada novilíngua não está a pedir tolerância: está a reclamar obediência simbólica. Está a exigir que a comunidade aceite, como obrigação pública, uma ficção ideológica sobre a natureza humana, sobre a história e sobre a própria função da linguagem.
No fundo, é sempre o mesmo impulso: primeiro altera-se o vocabulário; depois deslegitima-se a norma; em seguida moraliza-se a dissidência; por fim, transforma-se a recusa em prova de culpa. O resultado é conhecido: sociedades mais frágeis, ensino mais confuso, elites mais auto-referenciais e povos cada vez mais afastados da língua em que ainda poderiam reconhecer-se.

Portugal faria bem em resistir enquanto pode. Não por purismo estéril, nem por nostalgia folclórica, mas por elementar lucidez cultural. Uma comunidade que perde a confiança na sua língua comum perde também parte da sua capacidade de transmitir herança, estabelecer critérios e manter coesão. E quando a língua se torna campo de intimidação moral, já não estamos perante um debate gramatical: estamos perante uma disputa pela definição legítima do real.
No fim, o mais revelador neste processo é a sua impostura social. Fala-se em inclusão, mas fabrica-se exclusão. Invoca-se empatia, mas humilha-se quem não domina o novo código. Proclama-se liberdade, mas impõe-se conformidade. E chama-se progresso ao que não passa, afinal, de regressão mascarada.

A “revanche woke” não é apenas uma excentricidade semântica. É mais um capítulo da guerra cultural movida contra a objectividade, contra a tradição e contra a autoridade simbólica da civilização ocidental. E, como quase sempre sucede, começa por pedir apenas uma palavra. Até ao dia em que já exige a rendição inteira.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A Gulbenkian Descobriu o Woke – e Perdeu a Vergonha

(...em português vernáculo diz-se que é de fp!)

Há dias em que um cidadão comum entra na Fundação Calouste Gulbenkian com a confortável expectativa de encontrar cultura, conhecimento e aquela sobriedade civilizada que, durante décadas, fez da instituição um farol no deserto mental que tantas vezes atravessa Portugal. Pois bem: esse tempo acabou. A antiga vanguarda deu lugar ao novo catecismo, e o catecismo chama-se woke.
A exposição sobre o Brasil — essa pérola da imaginação revolucionária tardia — não é só um disparate histórico: é um insulto à inteligência e uma tentativa descarada de transformar a cultura numa arma para excitar ressentimentos e fabricar culpas colectivas.
O absurdo linguístico: agora o português do Brasil nasceu em África
Há limites para o ridículo. Ou havia. Aparentemente já não há.
Afirmar que o português falado no Brasil “não advém da cultura portuguesa, mas sim de África” não é apenas uma mentira descarada; é uma prova experimental de analfabetismo histórico, mais própria de quem copia slogans em cartazes do que de quem organiza exposições numa instituição cultural.
Sim, porque é bom recordar o que os curadores da moda preferem esquecer:
  • – Os escravos enviados para o Brasil não foram capturados por portugueses, mas comprados às tribos dominantes de Angola, que faziam da captura de rivais um negócio tão legítimo quanto qualquer outro da época.
  • – Esses escravos não falavam português, nem uma versão, nem um esboço, nem um eco.
Falavam as línguas das suas tribos.
  • – E as palavras portuguesas que se falavam em Angola eram... portuguesas, trazidas por portugueses.
Mas, como o objectivo não é explicar a História, mas sim “reinventá-la” ao gosto das novas modas, convém fingir que tudo isto não existiu. Vai bem com o pacote emocional do momento.
A nova religião das desculpas
A teoria woke, que parece ter agora escritório permanente na Gulbenkian, vive de uma convicção singela:
qualquer problema contemporâneo deve ser imputado ao passado, de preferência a um passado longínquo e impossível de corrigir.
Assim se apresenta uma narrativa infantil para justificar que o Brasil de hoje — corrompido até ao tutano, devastado pelo crime organizado e em transe permanente de desresponsabilização moral — deve tudo isto à escravatura de há séculos. Curioso. Tão curioso quanto útil para quem não quer enfrentar as realidades contemporâneas e, sobretudo, para quem não quer assumir responsabilidades.
A ideia de que nada se pode fazer para transformar aquela sociedade porque “a culpa é histórica” é, além de falsa, perniciosa. É a versão tropical do velho chavão soviético: a culpa é sempre de outrem, nunca de quem age, governa ou escolhe.
A integração invertida: esconder a diferença para fingir inclusão
Outra pérola do pensamento mágico woke — tão caro aos curadores da Gulbenkian — é esta:
integrar alguém significa esconder-lhe a diferença e acusar de vil racista todo aquele que, com seriedade, tenta justamente o contrário: reconhecer essa diferença, respeitá-la e integrá-la de forma verdadeira e leal.
É o velho processo psicológico do preguiçoso moral:
  • – dá demasiado trabalho melhorar;
  • – dá ainda mais trabalho assumir responsabilidades;
  • – é muito mais fácil culpar alguém, de preferência um morto, um país, ou um continente inteiro.
Portugal e Brasil: dois países que merecem melhor do que propaganda
A exposição que a Gulbenkian decidiu acolher — e promover — não aproxima povos coisa nenhuma.
Pelo contrário: cria animosidade onde antes havia amizade, substitui o estudo pelo panfleto, e troca a cultura pela propaganda moralista que alimenta agendas políticas e confirma a muito desejada sensação de superioridade moral dos novos discípulos do ressentimento.
Não serve o Brasil — que precisa de coragem, verdade e reforma, não de desculpas colectivas.
Não serve Portugal — que não merece ser retratado como um eterno réu histórico para justificar os falhanços alheios.
E não serve a Gulbenkian — que desce do patamar da excelência para o subsolo das modas ideológicas, onde tudo se perdoa excepto pensar.
A conclusão que ninguém ali quis ouvir
A verdade — essa palavra que hoje incomoda tanta gente — é simples: não há país que se transforme enquanto a culpa for sempre dos outros.
E não há instituição cultural que mantenha a dignidade enquanto abdicar da missão de esclarecer para se dedicar à missão de doutrinar.

A Gulbenkian foi outrora um farol de cultura. Hoje, ao transformar-se num púlpito woke, arrisca tornar-se apenas mais um eco de uma moda passageira — daquelas que o tempo tratará de esquecer, mas não sem antes causar danos.
E tudo isto em nome daquilo que, supostamente, se queria promover: o Bem Comum.
Pois bem. Nada do que ali está exposto o promove.
Apenas promove a ignorância virtuosa e a mentira reconfortante.
Mas há sempre esperança: algumas modas passam depressa.
Oxalá esta seja uma delas.

sábado, 22 de abril de 2023

Descoberta do Brasil: Uma nova visão!

1498 - DESCOBRIMENTO DO BRASIL
O primeiro português a vir às terras brasileiras não foi Pedro Álvares Cabral, ao contrário do que até hoje ensinam os manuais de história. O primeiro torrão de solo tupiniquim avistado pelos portugueses também não foi o Monte Pascoal, no sul da Bahia. O primeiro contacto dos europeus com a terra brasilis tampouco ocorreu em 22 de Abril de 1500.
Pesquisadores portugueses, espanhóis e franceses revelam uma história muito mais fascinante e épica sobre a chegada dos navegadores portugueses ao Novo Mundo.


“O primeiro português a chegar ao Brasil foi o navegador Duarte Pacheco Pereira, um génio da astronomia, navegação e geografia e homem da mais absoluta confiança do rei de Portugal, d. Manoel I. Duarte Pacheco descobriu o Brasil um ano e meio antes de Cabral, entre Novembro e Dezembro de 1498.
O primeiro português a confirmar que existiam terras para lá do Oceano Atlântico desembarcou aqui num ponto localizado nas proximidades da fronteira do Maranhão com o Pará. De lá, iniciou uma viagem pela costa norte, indo à ilha do Marajó e à foz do rio Amazonas. Quando regressou a Portugal, o rei ordenou-lhe que a expedição deveria ser mantida em sigilo. O motivo para que a descoberta fosse tratada como segredo de Estado era bastante simples: as terras encontravam-se em área espanhola, de acordo com a divisão estabelecida pelo famoso Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, quatro anos antes de Duarte Pacheco chegar à Amazónia”.
“A base da tese gira em torno de um manuscrito, o "Esmeraldo de situ orbis", produzido pelo próprio Duarte Pacheco entre 1505 e 1508 e que ficou desaparecido por quase quatro séculos. Até no título, o documento revela seu carácter cifrado. "Esmeraldo" é um anagrama que associa as iniciais, em latim, dos nomes de Manoel (Emmanuel), o rei, e Duarte (Eduardus), o descobridor.
"De situ orbis" significa "Dos sítios da Terra". "Esmeraldo de situ orbis", portanto, era "O tratado dos novos lugares da Terra, por Manoel e Duarte". Era um imenso relato das viagens de Duarte Pacheco Pereira não só ao Brasil, como à costa da África, principal fonte da riqueza comercial de Portugal no século XV. O rei d. Manoel I considerou tão valiosas as informações náuticas, geográficas e económicas do "Esmeraldo" que jamais permitiu que ele fosse tornado público. Foi montado em cinco partes, com 200 páginas no total. As melhores provas sobre o descobrimento do Brasil aparecem no capítulo segundo da primeira parte.
Resumidamente, o trecho diz o seguinte: "Como no terceiro ano de vosso reinado do ano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde nos vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do mar Oceano, onde é achada e navegada uma tam grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela e é grandemente povoada. Tanto se dilata sua grandeza e corre com muita longura, que de uma arte nem da outra não foi visto nem sabido o fim e cabo dela. É achado nela muito e fino brasil com outras muitas cousas de que os navios nestes Reinos vem grandemente povoados."
As novas pesquisas sobre a verdadeira história do descobrimento sepultam definitivamente a inocente versão ensinada nas escolas de que Cabral chegou ao Brasil por acaso, depois de ter-se desviado da sua rota em direcção às Índias. O trabalho dos historiadores, dos antropólogos e cartógrafos, dá cores e tons muito mais fortes à epopeia do descobrimento. Até consolidar sua presença nessa – até então – desconhecida parte do mundo, portugueses e espanhóis se envolveram num fascinante jogo de traição, espionagem, blefes e chantagens.
O mais recente trabalho a sustentar que Duarte Pacheco foi o verdadeiro responsável pelo descobrimento foi publicado no ano passado em Portugal. Intitulado “A construção do Brasil”, é de autoria do historiador português Jorge Couto, 46 anos, professor da Universidade de Lisboa e talvez o principal especialista em história do Brasil. 
Eduardo Franco Madeira no Facebook
Ilustração: "Esmeraldo de situ orbis", desenho do próprio Duarte Pacheco.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Brasil 2022

O discurso de Jair Bolsonaro nas entrelinhas
No discurso de Bolsonaro não há uma referência a Lula da Silva e a palavra derrota (ou equivalente) não tem espaço nos dois minutos de declaração, mas há uma promessa subentendida: não vai desaparecer
Lula da Silva tem dois meses e pode contratar uma equipa de 50 pessoas para trabalho político e técnico de preparação, um mecanismo para evitar transições bruscas. Bolsonaro vai facilitar-lhe a vida?
São dias de tempestade, política e não só, em Brasília. O silêncio do Presidente deixou o país mergulhado num mar de dúvidas, a que, nos bastidores da Alvorada, os jornalistas iam tentando responder.

 


segunda-feira, 31 de outubro de 2022

domingo, 22 de agosto de 2021

as escravos açorianos no Brasil: séculos XVIII a XX

Os escravos açorianos no Brasil: uma história quase desconhecida
O desejo de encontrar um futuro melhor nem sempre corria como se esperava e muitos emigrantes açorianos acabaram por ser escravos no Brasil.
Em Portugal, o fenómeno da emigração organizada dirigida para a colonização foi predominante nos séculos XVII e XVIII, impondo-se à emigração espontânea. Isto acontecia especialmente para o Brasil, que era visto como um destino cheio de novas oportunidades e de melhores condições de vida para os portugueses que para lá fossem. Mas nem tudo eram rosas

Ao longo destes séculos, a emigração de portugueses, especialmente de açorianos, aumentou e, a partir da década de 30 do século XIX, o fluxo aumentou de tal forma que autoridades e a opinião pública se aperceberam do fenómeno da chamada “escravatura branca” ou “escravatura açoriana”, com relação à emigração clandestina, e que afectava todo o território nacional.
Assim, num tempo em que se procurava abolir a escravatura, o foco da emigração eram mulheres açorianas que chegavam ao Rio de Janeiro e eram forçadas a trabalhar em prostíbulos, vítimas de contratos ilegais e abusivos. Getúlio Vargas estabeleceu uma lei que instituía cotas de migração para o Brasil, numa tentativa de conter a chegada de pessoas vindas de outras regiões, ajudando assim no combate ao fenómeno. No entanto, ainda era perceptível o fluxo de açorianos no Brasil em inícios do século XX.
Estas transacções foram denunciadas por várias vozes, mas a verdade é que em alturas de crise e de escassez, o único contorno para a falta de empregos e de meios de subsistência era a emigração, mesmo que ilegal. Como os açorianos tinham a fama de bons trabalhadores e se encaixavam no perfil de pessoas que as Companhias de Colonização queriam fazer chegar ao Brasil, as actividades nesta ilha foram muito marcantes e prolongadas, à revelia da lei.
Na maior parte das vezes, este tipo de escravatura dizia respeito a contratos de trabalho desvantajosos, ou mesmo à própria venda da mão-de-obra no Brasil. Para além das condições de trabalho desumanas no país de destino, o transporte destas pessoas era feito em navios sobrelotados e sem condições, o que levava a que muitos não chegassem ao seu destino, e que os sobreviventes ficassem em condições precárias de saúde.

Os emigrantes, na impressão de que iam para um destino melhor, empenhavam tudo o que tinham na partida. O seu contrato, no entanto, obrigava-os a descontar do futuro salário o pagamento da passagem, acabando estes por ficarem abertos a todo o tipo de situações abusivas. Como não sabiam contar e desconheciam a moeda, tornavam-se presas fáceis para os empregadores estrangeiros, dos quais se tornavam dependentes.
Como forma de desmistificar a ideia da terra de oportunidades que o Brasil poderia representar, os jornais dedicaram-se à consciencialização das autoridades locais, regionais e nacionais, publicando testemunhos de pessoas que tinham sido vítimas do fenómeno e lançando-se contra o negócio do aliciamento. Tornaram-se frequentes as listas de portugueses mortos no Brasil, e apelava-se até aos padres para que persuadissem os crentes a não embarcarem na viagem.
Na década de 30, surgiu a expressão “escravatura branca”, usada pela primeira vez pelo secretário de Estado José Maria Capelo, referindo-se ao tráfico de migrantes, vindos especialmente dos Açores, Madeira e norte de Portugal.
Em inícios de 1839, o deputado Almeida Garrett denunciava igualmente o fenómeno, dando particular relevo aos Açores, pela sua população estar sujeita a uma manifesta desigualdade em relação ao continente. Em 1840, o deputado Sá Nogueira alertava para a necessidade de manter uma comissão que propusesse meios de travar este fenómeno nocivo.
Em 1842, por intervenção do Ministério da Marinha e do Ultramar, o governo procurou restringir o tráfico da escravatura açoriana, o que se revelou difícil, já que nenhuma lei proibia a mudança de domicílio.
Mesmo assim, publicou-se uma portaria pelo Major General da Armada, os seus intendentes e outras autoridades que, entre outras medidas, obrigava à apresentação de passaporte, e ao transporte de passageiros em conformidade com as regras definidas (o que incluía um abastecimento de comestíveis e de água).
De pouco resultaram estas medidas, porque em 1859, os índices de emigração clandestina nos Açores chegaram a tal nível que o Primeiro-Tenente da Armada, Aires Pacheco Lamare, foi destacado para ir à ilha de S. Miguel, de forma a propor os meios adequados para pôr travão ao fenómeno.
Em 1863, o Regulamento Geral de Polícia voltava a incluir medidas relativas ao policiamento das embarcações, chegando a estipular as tipologias de navios destinados ao transporte de emigrantes. A questão ressurgiu em 1876, graças à falta de meios ou à inércia das autoridades.
Mas a verdade é que o aliciamento de emigrantes era um problema de difícil extinção, já que os agentes iam de aldeia em aldeia a anunciar ilusões de fortuna a quem os quisesse ouvir, levando a que os locais vendessem tudo o que tinham e assinassem uma escritura, pagando a passagem com o seu trabalho e, muitas vezes, com a sua vida.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Terra da Vera Cruz


A partida de Belém, como Vossa Alteza sabe, foi segunda-feira, 9 de Março. Sábado, 14 do dito mês, entre as oito e nove horas, nos achamos entre as Canárias, mais perto da Grã- Canária, e ali andamos todo aquele dia em calma, à vista delas, obra de três a quatro léguas. E domingo, 22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos, houvemos vista das ilhas de Cabo Verde, ou melhor, da ilha de S. Nicolau, segundo o dito de Pero Escolar, piloto.
[...]
E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de Abril, estando da dita Ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos.
Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome – o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Brasil

Aos meus familiares Brasileiros
Aos meus amigos Brasileiros que estão lá e aos que estão cá, p.f. :
Acreditem que a maioria dos portugueses não se revê nas posições colonialistas e paternalistas reproduzidas na informação que temos em especial a das tv’s.

Seremos, uns mais, outros menos literatos, mas todos concordamos que o Brasil é um País independente, livre e democrático e que os brasileiros não precisam dos conselhos da meia dúzia de pseudo intelectuais de pacotilha.

domingo, 28 de outubro de 2018



o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, enviou neste Domingo uma "mensagem de felicitações" ao Presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, na qual se referiu aos "laços de fraternidade" bilaterais e à "significativa comunidade" portuguesa neste país.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

parece estranho mas... é da imprensa a que temos direito!

Não é na rua que se decide uma eleição.
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Mas em matéria de propaganda, parece estranho ter-se dado tanto relevo às manifs anti-Bolsonaro por todo o mundo, e não às iguais ou maiores concentrações a favor do dito candidato (incluindo em Israel, pouco conhecida por comícios de líderes «nazi-fascistas»).
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Também parece estranho que, depois da alegada mobilização «global» de mulheres contra o mesmo político, tenha subido o apoio feminino a Bolsonaro, segundo as sondagens (mais 6%).
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Parece estranho, quer dizer...

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

foram-se mais de dois séculos de história...

De residência real ao museu nacional de história natural e antropologia, o Palácio de São Cristóvão conta com mais de dois séculos de história.

Com 11.417 metros quadrados de área construída, dos quais 3.500 eram área de exposição, o edifício recebia anualmente 150 mil visitantes. Fundado por decreto real de D. João VI em 1808, o museu é uma das marcas deixadas pela família real portuguesa aquando da sua estadia no Brasil. Inicialmente instalado no Campo d’Santana, o museu foi criado pelo rei para promover a “educação, a cultura e a difusão da ciência” na cidade que foi capital do império português.

Por esta altura, a família real estava instalada no Palácio de São Cristóvão, residência que tinha sido oferecida por um mercador à família. O palácio tinha sido construído por volta de 1803 e era à época considerada a mais luxuosa residência do Rio de Janeiro. Tinha três andares: o primeiro para serviços gerais, o segundo (mais ornamentado) para receber visitas e o terceiro destinado a dormitórios e à vida familiar.
Esta foi a residência oficial da família real portuguesa entre 1808 e o seu regresso a Portugal em 1821. Com a proclamação da independência do Brasil (1822), tornou-se na residência oficial do imperador, que aqui habitou até 1889, ano em que o país se tornou uma república. Foi também neste ano que o palácio recebeu a primeira Assembleia Constituinte do Brasil.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

a nova Presidenta...

Depois da vitória de domingo, Dilma Rousseff deu uma entrevista televisiva para prometer um virar de página na governação económica e ética do país. Dilma anunciou também um referendo para mudar o sistema político brasileiro.

Ontem, durante o dia, a Presidente perdeu noutra contagem, a dos mercados: 

mostrando que quem investe confia pouco numa recuperação. (por David Dinis no Observador)

quinta-feira, 18 de abril de 2013

juros a acrescentar à divida…

O Psi20 fechou a desvalorizar 0,48%, para 5673,76 pontos.
O Governo anunciou ter aprovado uma redução dos limites de todos os programas orçamentais, com efeitos nas despesas com pessoal, bens e serviços e outras despesas correntes.
A balança de pagamentos portuguesa registou um saldo positivo de 73 milhões de euros no final de Fevereiro.
O Governo quer poupar este ano mais 50 milhões de euros com a revisão de contratos de Parcerias Público-Privadas rodoviárias.
A dívida da administração pública em Fevereiro ascendeu a 209 mil milhões de euros o equivalente a 126,3% do PIB.
As famílias portuguesas fecharam o ano de 2012 com uma dívida acumulada de 166 mil milhões de euros, equivalente a 100,5% do PIB.
Os Funcionários públicos e pensionistas vão receber o subsídio de Natal em Novembro. O subsídio de férias será pago em duodécimos.
O parlamento alemão aprovou hoje o prolongamento dos prazos para o pagamento dos empréstimos de Portugal e da Irlanda, numa sessão em que foi ainda votada favoravelmente a ajuda financeira ao Chipre.
O Tesouro Público espanhol colocou hoje 4.714 milhões de euros de dívida a três prazos diferentes a taxas de juro inferiores às pagas nos leilões anteriores.
A taxa de desemprego na Holanda atingiu em Março o máximo histórico de 8,1%.
A inflação brasileira cresceu 6,59% nos doze meses encerrados em Março, ultrapassando a meta inflacionária de 4,5%, com uma tolerância até os 6,5%, estabelecida pelo Governo.
Os  Brent negociados em Londres caíram para US$ 96,76 por barril, uma baixa da sessão e o nível mais fraco desde 2 de julho.

terça-feira, 9 de abril de 2013

juros a acrescentar à divida…uma cópia de 2011

para quem está mais esquecido sugiro que verifique a informação dos mercados na semana anterior ao pedido de resgate pelo governo do agora comentador Sousa.

O PSI20 encerrou a valorizar 2,78% para 5.712,88 pontos.
A banca nacional está a comprar divida soberana portuguesa no mercado secundário para evitar a subida dos juros.
Portugal vai colocar mais de 5 mil milhões de euros em dívida pública com o primeiro leilão marcado para 17 de Abril.
O financiamento dos bancos portugueses junto do Banco Central Europeu caiu 1.715 milhões de euros em Março, mantendo a tendência de redução dos últimos meses.
O défice comercial de Portugal registou uma redução de 29% entre Dezembro de 2012 e Fevereiro de 2013 face ao mesmo período do ano anterior.
O Sistema de Informação Schengen de 2ª Geração entrou em vigor em Portugal que assim se torna o primeiro país membro da União Europeia a utilizar tecnologia de ponta aplicada na prevenção e na luta contra a criminalidade.
A Standard & Poor's afirma que a reprovação do Tribunal Constitucional a quatro normas orçamentais não terá efeitos imediatos no 'rating' português.
As empresas do Parque Industrial da Autoeuropa poderão eliminar 500 postos de trabalho até ao final do ano, se não houver uma melhoria no mercado automóvel
O crédito concedido às famílias e empresas caiu mais de 14 mil milhões de euros entre Fevereiro deste ano e o mesmo mês de 2012.
O crédito malparado na banca, a maior parte referente a empréstimos concedidos a empresas, continuou a subir em Fevereiro e ultrapassou os 16 mil milhões de euros.
As exportações de bens caíram 4,4% em Fevereiro, face ao mês anterior, devido sobretudo a uma queda nas vendas de Portugal para países da União Europeia.
Segundo a Reuters, a Troika e o FEEF recomendam que Portugal consiga uma extensão de sete anos para o prazo de pagamento do empréstimo cedido.
O Governo pretende avançar com a fusão operacional do grupo Transtejo com o Metro de Lisboa e Carris, que foram fundidas em 2012 e mantém o calendário para a concretização da privatização dos CTT para o final do ano.
Um despacho determina a partir de hoje a proibição de realização de despesas sem a sua prévia autorização do ministério das finanças. (o PS está contra)
As empresas públicas de transportes empregavam no final de Março menos 2.614 pessoas do que em Dezembro de 2010.
O Governo da região espanhola da Andaluzia aprovou hoje um decreto-lei que inclui sanções até 9.000 euros para bancos e imobiliárias que não aluguem casas cujos inquilinos foram despejados por não as conseguirem pagar.
A Comissão Europeia reafirmou hoje o seu apoio ao plano do Governo italiano para acelerar o pagamento de dívida acumulada pela administração pública.
A Eslovénia colocou hoje no mercado 56 milhões de euros em dívida de curto prazo, quando pretendia encaixar 100 milhões de euros, gerando receios de que o país seja o próximo a recorrer à assistência financeira da União Europeia.
O défice orçamental da Grécia atingiu 9,5% do PIB em 2012 e deverá aumentar para 15,2% este ano.
O Brasil tornou secretos os documentos relativos aos financiamentos aos Governos de Angola e Cuba, porque poderiam revelar "os reais interesses do Governo brasileiro nesses negócios”

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

juros a acrescentar à divida…em dia estranho!

O PSI20 fechou a perder 0,16% para 6 269,18 pontos.
O BCP e o BES e a CGD vão devolver hoje três mil milhões de euros ao Banco Central Europeu pelo financiamento a três anos que obtiveram em Dezembro de 2011.
Segundo a Dun & Bradstreet as empresas criadas em Portugal ascenderam a 31.400 em 2012, superando os encerramentos registados e situando-se em níveis de há dois anos, lê-se no Oje que também afirma que “o número de empresas insolventes em Portugal aumentou 41% em 2012, para 6.688, face a 2011, com o sector da construção a ser o mais atingido”.
As exportações de vinhos portugueses para os EUA, no valor de 22,782 milhões de euros, cresceram 15% entre Janeiro e Outubro de 2012 em relação ao período homólogo do ano anterior.
O volume de negócios do comércio a retalho caiu 9,7 % em Dezembro face ao mesmo mês de 2011.
O índice de produção industrial caiu 4,1% em Dezembro, face ao mês homólogo de 2011.
O clima económico e a confiança dos consumidores em Portugal recuperaram em Janeiro, depois de terem atingido mínimos da série em Dezembro.
Os novos regimes de subsídio de desemprego podem abranger 320 mil pessoas.
O mercado nacional, em 2013, poderá chegar perto de um milhão de portáteis vendidos, segundo as projecções do Observatório da Toshiba Portugal lê-se no Jornal de Negócios enquanto o Económico refere que “Crise motiva quebra nas vendas de computadores portáteis, que estão a perder espaço para os ‘tablets’”.
O défice do Estado espanhol alcançou os 7,3% do PIB em 2012, um ponto percentual acima do objectivo acordado com Bruxelas.
A Itália conseguiu colocar hoje o máximo de 6,5 mil milhões de euros em títulos a cinco e 10 anos, a um juro de 4,17%, ficando 0,31 pontos percentuais abaixo do anterior leilão realizado a 28 de Dezembro.
O Brasil terminou o ano de 2012 com uma dívida pública de dois mil milhões de reais (cerca de 745 mil milhões de euros), um aumento de 11,5% em relação a 2011.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

juros a acrescentar à divida…

O PSI 20 fechou a valorizar 1,06%, para 6337,59 pontos.
Portugal regressou assim hoje oficialmente aos mercados primários de dívida de médio e longo prazo, oito meses antes do previsto como um dos objectivos fundamentais do memorando da ‘тройка'. A última emissão sindicada a cinco anos acontecera em Fevereiro de 2011, no governo de Pinto de Sousa, no montante de 3,5 mil milhões a uma taxa de 6,4%, contra os 4,9% para os 2,5 mil milhões de emissão de hoje onde 93% da emissão foi absorvida por investidores estrangeiros e apenas 7% por portugueses.
O Núcleo de Estudos de Conjuntura sobre a Economia Portuguesa da Universidade Católica – NECEP-UC - estima uma quebra de 2,4% do Produto Interno Bruto em 2013.
Os bancos a operar em território nacional tinham, em Novembro do ano passado, 32.499 milhões de euros de títulos soberanos de Portugal.
O presidente do Banco Espírito Santo considera que a emissão de dívida portuguesa foi "uma vitória sobre as agências de rating", uma vez que Portugal não precisou de melhorias na notação atribuída para regressar ao mercado enquanto o porta-voz do CDS-PP defende que o regresso de Portugal aos mercados "tem que ter consequências", e que de nada terá valido, se não trouxer financiamento à economia, crescimento e emprego.
O sector de retalho da Sonae registou uma contracção de 2,2% nas vendas em 2012.
O investimento directo brasileiro em Portugal atingiu os 128 milhões de dólares (96 milhões de euros) em 2012, um aumento de 32% face ao ano anterior.