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sábado, 18 de novembro de 2023

a táctica do salame

Imediatamente a seguir ao 25 de Abril, como seria de esperar, começaram a pipocar partidos por todo o lado. Mas deu-se um facto surpreendente, tendo em conta que o país tinha acabado de sair de uma longa ditadura de direita: logo em agosto, a SEDES divulgou um estudo onde, para tentar pôr alguma ordem na confusão, classificava 48 partidos e concluía que 29 se situavam na esquerda e na extrema-esquerda e 19 iam do centro à extrema-direita. Ou seja: espantosamente, quase 40% dos partidos analisados escassos meses depois do fim do Estado Novo apresentavam-se como não sendo de esquerda.
Perante isto, os revolucionários começaram imediatamente a aplicar a “tática do salame”. A expressão é do político húngaro Matyos Rakosi, que, logo depois da Segunda Guerra Mundial, explicou como os partidos comunistas eliminavam, um a um, os poderes que os enfrentavam, cortando o “salame” de forma gradual, começando à direita e avançando depois para a esquerda. Seguindo essa receita infalível, em Portugal os partidos à direita foram sendo progressivamente ilegalizados. Muito rapidamente, o CDS de Diogo Freitas do Amaral sentiu que a faca estava próxima. Procurando ajuda, implorou por uma adesão urgentíssima à União Europeia das Democracias Cristãs. Acompanhado por Adelino Amaro da Costa, correu para Paris e apelou: “Acham que podemos ser admitidos na UEDC já nesta reunião? Para nós, é absolutamente indispensável obter uma proteção internacional, pois está em marcha um processo de salamização que já destruiu três partidos, e nós seremos a próxima vítima”. Na avaliação posterior do próprio Freitas do Amaral, só a presença de uma delegação da UEDC no primeiro congresso do partido, no Palácio de Cristal, no Porto, impediu que uma tentativa de invasão acabasse com o esmagamento do CDS.
A diabolização de qualquer político que não seja de esquerda não foi apenas uma caraterística passageira do processo revolucionário — na verdade, transformou-se numa marca do regime. Poucos anos depois, Francisco Sá Carneiro também foi repetidamente descrito como um radical que pretendia o regresso da ditadura, especialmente quando se atreveu a apresentar o general Soares Carneiro como candidato presidencial contra o sacrossanto (e também general) Ramalho Eanes.
Quando Mário Soares se candidatou nas presidenciais de 1986, pegou na faca sem contemplações. Depois de Diogo Freitas do Amaral ter ficado à frente na primeira volta, o fundador do PS precisava de fazer tudo para ganhar na votação final. Anos mais tarde, Mário Soares reconheceu tranquilamente ter usado um método implacável. Retrospectivamente, reconheceu: “Faço a justiça ao professor Freitas do Amaral de pensar que acredita sinceramente na democracia”. Mas isso não o impediu de seguir a tática de sempre: “É simples: num confronto esquerda-direita, como o que ocorria, era fácil enfatizar os perigos que correria o país, de regresso ao passado, se a direita ganhasse. Foi um apelo subliminar à memória histórica do país, que resultou em cheio. Talvez fosse um pouco injusto em relação, precisamente, a Freitas do Amaral — reconheço —, mas à la guerre comme à la guerre
Pois é: à la guerre comme à la guerre… 
As guerras, naturalmente, continuaram na democracia portuguesa. Por isso, bem mais tarde, em 2010, colunistas respeitados em jornais respeitáveis apresentavam o CDS como “a nova extrema-direita”. O seu líder, Paulo Portas, era descrito como “um novo tipo de populista”, naturalmente, com “a agenda da extrema-direita”. Ele era, aliás, pior do que o pior fascista: “Por ser mais sofisticada e ‘liberal’, esta nova extrema-direita é mais perigosa”. Dois anos antes, uma tese de mestrado apresentada no ISCTE defendia que, “sob a direcção do líder Paulo Portas”, a estratégia eleitoral do CDS “se vai aproximar eficazmente aos novos partidos da extrema-direita pós-industrial europeia”. E nem valerá a pena lembrar que, em 2013, Pedro Passos Coelho, líder do PSD, era recebido repetidamente em eventos públicos com gritos de “fascismo nunca mais”.
Chegados a novembro de 2023, a “tática do salame” continua a ser utilizada pela esquerda com zelo e gozo. Na primeira entrevista como candidato a líder do PS, Pedro Nuno Santos proclamou que “o projeto do PSD mais Iniciativa Liberal já é suficientemente radical para nos preocupar sem a muleta do Chega”. Acrescentou, ominoso e soturno: “A IL tem um projeto radicalmente liberal. Eu diria que um eventual Governo do PSD com a IL seria um Governo mais à direita do que o de Passos Coelho. Passos Coelho, apesar de tudo, não dependeu da IL”.
A estratégia da esquerda segue há quase 50 anos um método repetidamente disciplinado: quando um líder da direita está no ativo, é um prócere do fascismo; quando um líder da direita deixa o ativo, passa a ser um exemplo de moderação. Hoje, Freitas do Amaral, que entretanto se tornou ministro do PS, é elogiado pela esquerda como um exemplo admirável do centrismo que faz falta ao país. Sá Carneiro, que morreu logo em 1980, é enaltecido como uma grande figura histórica. Paulo Portas, que se transformou num comentador televisivo, é estimado como um analista equilibrado. E, ouvindo Pedro Nuno Santos, percebemos agora que Pedro Passos Coelho, recolhido em casa, é um governante que, “apesar de tudo, não dependeu da IL”.
Já Luís Montenegro e Rui Rocha, que disputam eleições à frente do PSD e da IL, são políticos que tentam ocultar à nação a sua inescapável condição de fascistas à espera de marcharem sobre Roma ou de invadirem a Polónia.
Em certo sentido, eu percebo. Se a “tática do salame” tem resultado desde 1974, porque é que Pedro Nuno Santos havia de prescindir dela? Afinal, para a esquerda sempre foi muito fácil chegar ao poder: basta pegar na faca e cortar.
Nota:
as conclusões do estudo da SEDES podem ser consultadas no livro “À Direita da Revolução”, de Riccardo Marchi; para mais detalhes, pode ler o primeiro volume das memórias políticas de Diogo Freitas do Amaral e o segundo volume do livro-entrevista a Mário Soares de Maria João Avillez.

sábado, 23 de setembro de 2023

uma frase que ilumine aquilo que orgulhosamente fizeram

Um político de sucesso é aquele que consegue resumir a sua passagem pelo poder numa única frase. Não é preciso uma dissertação em dez volumes, nem um livro de 800 páginas, nem um discurso de duas horas — isso fica para aqueles políticos que têm necessidade de se justificar ou de se desculpar. Para os que realmente sabiam o que se esperava deles, basta uma frase que ilumine aquilo que orgulhosamente fizeram ou aquilo que evitaram que tragicamente fosse feito.
Depois da revolução, tivemos três Presidentes que, concordemos entusiasticamente com eles ou discordemos furiosamente deles, passam o teste da frase única.

A frase que define Ramalho Eanes é esta: “Devolveu as Forças Armadas aos quartéis sem golpes de Estado nem pronunciamentos militares”. Ao contrário do que nos parece hoje em dia, em que nos habituámos a viver numa reconfortante normalidade democrática, não foi fácil e não foi simples. Depois do processo revolucionário e depois das primeiras eleições livres, alguns militares de ego inchado acharam que a Pátria não podia sobreviver sem a sua orientação e o seu conselho. Por isso, berravam e esperneavam sempre que algum político sugeria que a sua influência política tinha passado a fronteira que separa a virtude do vício. Em algumas alturas, Ramalho Eanes defendeu estes personagens que se julgavam tutores do regime, cedendo ao corporativismo e às fidelidades pessoais. Mas, nos momentos decisivos, usou a sua indiscutível autoridade nos quartéis para colocar os tanques na garagem.

A frase que define Mário Soares é esta: “Estabeleceu a elasticidade e as fronteiras dos poderes de um Presidente da República”. O fundador do PS não foi apenas o primeiro Presidente civil da democracia — o que, só por si, já seria um feito. Foi, acima de tudo, o primeiro Presidente com uma ideia de missão e de destino. Mário Soares sabia o que queria e, detalhe igualmente importante, sabia o que não queria. Tentou alargar ao máximo constitucional os poderes presidenciais: dissolveu, vetou, pressionou e, com gozo e perfídia, conspirou. Mas soube parar antes de atingir os limites do regime: conviveu com um primeiro-ministro que odiava, assistiu à impotência do partido que fundou e reconheceu as fronteiras do cargo que ocupava. A dada altura, Mário Soares deixou-se consumir pela noção de uma derrota histórica perante o cavaquismo, mas, inegavelmente, terminou o seu mandato com dignidade.

A frase que define Cavaco Silva é esta: “Permitiu que o governo que foi forçado a aplicar o programa da troika para evitar a bancarrota cumprisse a sua missão até ao fim”. Muitos Presidentes entram para a História por causa daquilo que fazem. Mas, muitas vezes, mais importante do que isso é aquilo que os Presidentes não fazem. E Cavaco Silva não despediu o governo de Passos Coelho, mesmo em momentos em que isso pareceria popular ou pareceu inevitável. Se, em 2011, Cavaco tivesse sido derrotado nas eleições presidenciais por Manuel Alegre, dificilmente o país teria terminado o programa da troika — hoje seríamos, talvez, uma Argentina europeia, submersos num populismo nacionalista trágico para nós e cómico para os outros. É verdade que Cavaco Silva não travou a tempo José Sócrates como, retrospetivamente, pareceria obrigatório. Mas por uma boa razão: o institucionalismo levou-o a suportar o insuportável.

Da lista de Presidentes democraticamente eleitos, sobram dois que não se descrevem numa frase única. Jorge Sampaio foi uma figura etérea, embrulhada numa retórica vazia, sem foco nem propósito. Entra para a História por um terrível erro de cálculo: despediu Santana Lopes, mas logo a seguir deu posse a José Sócrates. Como diria alguém, quando julgava que se estava a benzer, estava afinal a partir o nariz. O dele e o nosso.

E há, finalmente, Marcelo Rebelo de Sousa. Quis ser o “Presidente do consenso”, o “Presidente da pacificação” e o “Presidente dos afetos”. Mas acabou por ser, acima de tudo, o valet de chambre de um primeiro-ministro que o forçou a encolher os poderes presidenciais que Mário Soares tinha ampliado.

Não há uma frase única que defina a passagem pelo poder de Marcelo Rebelo de Sousa. A não ser, talvez, aquela que ele próprio usou há dias num comício para emigrantes no Canadá: “We are bacalhau”.

Como se costuma dizer, as coisas são como são.

domingo, 12 de setembro de 2021

um outro Jorge Sampaio!


Da militância associativa de estudantes no início da década de 1960, à oposição política e jurídica ao regime, ao MES leninista dos intelectuais (de que se afastou), à transição da Intervenção Socialista, à fação esquerda do Partido Socialista conspirando contra Mário Soares, à liderança do partido, à aliança perene com o PC que o levou à Câmara Municipal de Lisboa e à Presidência da República foi um longo percurso de um político ateu, de matriz judaico-britânica, excecionalmente honesto nos dinheiros num partido de corrupção genética marcado pela doença infantil do socialismo. Secretário-geral do PS, de 1989 a 1991, juntou os cacos das lutas internas num cântaro de asa esquerda, enquanto Cavaco governava e Soares tutelava o seu partido. Até que António Guterres conseguiu a bênção profana em 1991 e o substituiu no partido, alcançando o Governo em 1995, até fugir do “pântano” em 2001, evitando lidar com as repercussões políticas da pedofilia da Casa Pia de que certamente terá sido informado pelos relatórios do SIS. Na Câmara Municipal de Lisboa (de 1989 a 1995) foi inconsequente, embrenhando-se num planeamento estratégico com o fruto oco do conceito de Lisboa como cidade atlântica. Mas a câmara era um trampolim para a presidência da República, que exerceu, a partir de 1995, em dois mandatos insossos e sonsos. A maior evidência da sua carreira, foi a gestão política do processo do caso de abuso sexual de crianças da Casa Pia, que tentou resolver sem abandonar os seus amigos entalados Paulo Pedroso e Ferro Rodrigues, além de outros passarões como Rui Cunha e Jaime Gama e as referências ao velho irreprimível Soares. Nesse caso, sem respeitar a separação constitucional de poderes – tal como o anterior ministro da Justiça António Costa… – que não lhe permitia nada conhecer do processo quanto mais influenciar o seu curso, pressionou – até publicamente!… – o procurador-geral José Souto de Moura e outras instâncias judiciais. Conseguiu, com a ajuda da Maçonaria e dos média de confiança, a imunidade dos amigos, proteger o PS da explosão que se adivinhava no dia em que, no auge da crise, reuniu a Comissão Nacional e o povo na paragem dos autocarros do largo do Rato assobiou e apupou quem entrava e se temia perante a Marcha Branca contra a Pedofilia, em que Ana Gomes foi defender os socialistas. Porém, em julho de 2004, tomou a decisão salomónica de não convocar eleições legislativas quando Durão Barroso se livrou desse imbroglio e partiu para presidente da Comissão Europeia, em julho de 1994, nomeando Pedro Santana Lopes como primeiro-ministro em vez de convocar eleições, levando Ferro Rodrigues à demissão. Passados quatro meses (!…), demitiu o Governo, invocando ao magno problema da demissão do ministro do Desporto, justificada por Santana Lopes como eventual ciúme em entrevista a Ricardo Costa, enquanto lhe piscava o olho, sorrindo. Procurou, deste modo, fazer regressar o PS ao Governo, suavizando a amargura socialista da demissão de Ferro. E assim chegou José Sócrates: a obra-prima final de Jorge Sampaio. O PS deve a Jorge Sampaio a sobrevivência aquando do escândalo do caso de abuso sexual de crianças da Casa Pia e na reconquista do poder. Portugal não lhe deve nada. António Balbino Caldeira Director