quarta-feira, 1 de julho de 2026

o enorme equívoco do PPD/PSD

Há dias em que a política deixa de ser gestão de expediente e passa a ser revelação. O chumbo do pacote laboral do Governo foi um desses dias. Jorge Fernandes [
https://observador.pt/opiniao/uma-enorme-vitoria-de-andre-ventura/ ]tem razão quando vê nesse episódio uma enorme vitória de André Ventura. Mas talvez a vitória seja ainda maior do que parece. Não foi apenas uma vitória parlamentar. Não foi apenas uma humilhação infligida ao PPD/PSD em pleno hemiciclo. Foi, sobretudo, a demonstração de que o CHEGA já não aceita ser tratado como reserva táctica da maioria, bengala ocasional do Governo ou simples instrumento de chantagem sobre o PS.
A ambiguidade estratégica de Luís Montenegro — primeiro para ser eleito - "não é não!" ao CHEGA - depois para navegar entre acordos pontuais com o PS e entendimentos ocasionais com o CHEGA — atingiu ali o seu limite. Durante demasiado tempo, o PPD/PSD imaginou que podia governar à direita quando precisava de votos e regressar ao centro quando precisava de alegada respeitabilidade mediática. Queria os votos do CHEGA sem pagar o preço político de reconhecer o CHEGA como parceiro. Queria a maioria sociológica de direita sem admitir a maioria política de direita. Queria usar André Ventura como porta dos fundos e, ao mesmo tempo, continuar a jantar à mesa do centro imobilista com o PS.
Ventura percebeu o jogo. E, mais importante ainda, percebeu que o jogo deixara de lhe interessar.

É aqui que Jorge Fernandes acerta em cheio: o episódio do Código Laboral marca um antes e um depois na relação entre o PPD/PSD e o CHEGA. A bancada do CHEGA, surpreendida em parte pela própria decisão, acabou por encenar involuntariamente a dimensão do golpe. Aqueles segundos de hesitação parlamentar foram, paradoxalmente, a melhor imagem do momento: o partido deixou de ser apenas soma de deputados e passou a ser instrumento de uma estratégia centralizada. Pode gostar-se ou não do método. Mas ninguém sério poderá dizer que não houve método.
A partir daí, é difícil imaginar que a liderança social-democrata volte a confiar tranquilamente em André Ventura para aprovar um Orçamento do Estado. Mas aqui começa a minha pequena discordância com Jorge Fernandes: também é difícil imaginar que André Ventura e o CHEGA voltem a confiar em Luís Montenegro e, sobretudo, no negociador Hugo Soares, depois de verem o PPD/PSD correr, na semana seguinte, para o PS a propósito da Prestação Social Única.

A rapidez com que o acordo com os socialistas se fez mostra que a famosa “centralidade” do PPD/PSD tem uma tradução simples: quando a direita incomoda, chama-se o PS. Quando o CHEGA exige contrapartidas, descobre-se o sentido de Estado socialista. Quando há risco de ruptura à direita, regressa-se ao Bloco Central, essa velha mobília política portuguesa, desenhada por Mário Soares, que muda de sala mas nunca sai de casa.
Por isso, a vitória de Ventura não está apenas em ter chumbado a Reforma Laboral. Está em ter obrigado o PPD/PSD a mostrar a sua verdadeira preferência estratégica. Entre uma negociação dura com o CHEGA e um acordo confortável com o PS, Montenegro escolheu o PS. Não por acidente. Por natureza política.
E é precisamente aqui que o assunto deixa de ser uma questão de táctica parlamentar e passa a ser uma questão de recomposição da direita portuguesa.
O CHEGA não está apenas a disputar votos ao PPD/PSD. Está a disputar a redefinição, quiçá, a reformulação da direita. É isto que muito jornalistado e comentariado ainda não percebeu, ou finge não perceber. O CHEGA não é somente um partido de protesto, nem apenas um veículo da indignação popular, nem apenas uma força anti-sistema alimentada pela irritação contra a corrupção, a imigração descontrolada, a insegurança ou a degradação dos serviços públicos. Tudo isso existe. Tudo isso conta. Mas já não chega para explicar o fenómeno.
O CHEGA é, cada vez mais, a expressão portuguesa da Nova Direita europeia.

E a Nova Direita europeia não é apenas uma direita mais zangada, mais ruidosa ou mais desagradável para as boas almas do comentariado. É uma direita que quer substituir a velha direita liberal, gestionária, economicista e complexada. Uma direita que percebe que a política não se resume ao défice, ao Excel, às agências de rating e às frases ocas de um consultor de comunicação. Uma Direita que entende que sem povo, sem fronteiras, sem identidade, sem segurança e sem questão social, não há nação governável — há apenas administração do declínio.
É aqui que Benedikt Kaiser se torna útil para compreender o que se passa. A Nova Direita não quer apenas ganhar eleições. Quer disputar hegemonia. Quer alterar a linguagem. Quer reconstruir o vínculo entre povo, nação e protecção social. Quer romper com a direita que fala de soberania em discursos patrióticos, mas aceita a dissolução da soberania pela globalização económica, pela imigração de substituição salarial, pelo capitalismo financeiro e pela fragmentação comunitária.
Durante décadas, a Direita submissa e moderada portuguesa abandonou a Questão Social à Esquerda. Ficou com os empresários, comentadores liberais, gestores de carreira, advogados de negócios, eurocratas de ocasião e os moralistas de redacção. Deixou trabalhadores, reformados, periferias, subúrbios urbanos, pequenos funcionários, polícias, militares, pequenos comerciantes e classes médias empobrecidas entregues ao ressentimento ou ao silêncio.
O CHEGA percebeu que esse silêncio podia ser politicamente organizado.

Por isso, o chumbo do "pacote laboral" não deve ser lido apenas como manobra oportunista. É também uma declaração ideológica: o CHEGA não quer ficar preso ao papel de muleta da Direita Liberal. Ventura percebeu que, para ultrapassar o PPD/PSD, tem de impedir que o partido de Montenegro se apresente como único representante da mudança. E percebeu outra coisa ainda mais importante:
- numa direita em recomposição, quem abandona a questão social perde o povo real.
Claro que há riscos. E aqui convém não transformar a inteligência táctica em catecismo. Uma política feita de golpes sucessivos pode criar desconfiança. Uma estratégia excessivamente centrada no chefe pode fragilizar o partido. Uma direita que queira ser poder não pode viver apenas da surpresa, do plenário inflamado e da humilhação do adversário. Tem de formar quadros, construir doutrina, preparar governação, criar uma direita-mosaico: partido, intelectuais, imprensa alternativa, associações, autarcas, técnicos, juventude, cultura e pensamento.
Mas esses riscos não anulam o facto essencial: Ventura percebeu antes de Montenegro que o sistema partidário mudou.

Portugal já não vive no velho bipartidarismo de alternância mansa entre PS e PPD/PSD. Vive num sistema tripartido, centrífugo, instável, onde a marca dos 30 por cento pode bastar para ficar em primeiro lugar. E se assim é, a distância entre o CHEGA e a vitória deixou de ser uma fantasia de militantes exaltados. Passou a ser uma hipótese política concreta.
Essa hipótese depende agora de uma pergunta simples:
quantos eleitores deram ao PPD/PSD uma última oportunidade e ficaram convencidos, depois deste episódio, de que Montenegro desperdiçou uma ocasião histórica para mudar o país à direita?
O PPD/PSD de Montenegro e Soares julga que se salvou ao negociar com o PS. Talvez se tenha apenas denunciado. Julga talvez que isolou o CHEGA. Talvez tenha apenas confirmado a tese de Ventura: a de que o PPD/PSD pertence ao mesmo centro imobilista que há décadas administra Portugal em regime de alternância sem alternativa.

A vitória do CHEGA foi obrigar Luís Montenegro a escolher (terá sido Hugo Soares?). E  Soares (terá sido Montenegro?) escolheu. Escolheu o PS.
O resto é apenas o barulho habitual dos que ainda não perceberam que a direita portuguesa deixou de caber dentro do PPD/PSD.
A Nova Direita não está à porta. Já entrou. E, como quase sempre acontece nestas coisas, os donos da casa foram os últimos a reparar.