segunda-feira, 13 de julho de 2026

A Direita precisa de aprender com Gramsci — sem se tornar gramsciana

Há nomes que certas direitas pronunciam com devoção. Burke. Maistre. Tocqueville. Scruton. Hayek, quando se entra no departamento comercialLeão XIII, quando alguém se recorda que à direita também existem trabalhadores.

...e há nomes que a velha direita portuguesa prefere não tocar, receando talvez uma contaminação ideológica por contacto. Antonio Gramsci é um deles.

É compreensível para a velha direita Gramsci foi marxista, dirigente e secretário-geral do Partido Comunista Italiano. Não escreveu para salvar a Civilização Europeia, defender a Nação ou restaurar as comunidades históricas. Escreveu para compreender por que razão a revolução comunista não triunfara nas sociedades ocidentais e para descobrir como poderia vir a triunfar.

" Mas uma teoria não deixa de explicar correctamente determinados mecanismos sociais apenas porque o seu autor pretendia utilizá-la contra nós "

Foi isto que Alain de Benoist e a Nouvelle Droite francesa compreenderam há várias décadas. Foi isto que Marco Tarchi procurou adaptar à Nuova Destra italiana. É isto que Benedikt Kaiser vem aprofundando na Alemanha. E é também isto que Duarte Branquinho tem procurado introduzir no ainda modesto debate intelectual português: não uma conversão da Direita ao marxismo, mas uma apropriação crítica dos instrumentos de análise de Gramsci.

Duarte Branquinho publicou, em Junho de 2026, um texto intitulado «Para um gramscismo de direita», recordando que a proposta central do GRECE consistia num combate cultural necessariamente anterior à vitória política.[1]

A questão é simples: pode uma Direita aprender com Gramsci sem adoptar o gramscismo?

Pode. E deve.

O poder não começa no Parlamento

A velha direita imaginou durante demasiado tempo que a política se resumia a ganhar eleições, administrar ministérios, equilibrar orçamentos e comparecer em inaugurações. Quando conseguia governar, julgava ter conquistado o poder. Depois descobria, geralmente tarde, que apenas ocupara temporariamente alguns gabinetes.

As universidades continuavam dominadas pelos adversários.

A produção cultural continuava dominada pelos adversários.

O vocabulário aceitável continuava definido pelos adversários.

Os jornalistas, os comentadores, os artistas, os editores, os sindicatos, as associações profissionais e grande parte da burocracia continuavam a reproduzir a visão do mundo dos adversários.

A Direita ganhava o Governo, mas a Esquerda conservava a sociedade.

Gramsci percebeu que o domínio político duradouro não depende somente da polícia, das leis ou dos votos. Depende da capacidade de uma classe ou de uma corrente histórica apresentar os seus interesses particulares como se fossem o interesse geral — e transformar as suas opiniões em evidências, os seus preconceitos em virtudes e a sua linguagem em senso comum.

É a isso que se chama hegemonia cultural.

Quando a hegemonia está consolidada, já não é necessário proibir o pensamento adversário. Basta torná-lo socialmente indecoroso. Já não é preciso prender quem discorda. Basta fazê-lo parecer ignorante, atrasado, perigoso ou moralmente impuro.

A censura deixa de usar lápis azul. Passa a usar adjectivos.

A vitória da Esquerda começou antes das urnas

A Esquerda europeia não conquistou a sua influência apenas através dos partidos comunistas, socialistas ou sociais-democratas. Conquistou-a através de professores, jornalistas, cineastas, escritores, sociólogos, sindicalistas, funcionários, associações, fundações e movimentos culturais.

Antes de ocupar Governos, ocupou o imaginário.

Antes de escrever leis, definiu as palavras com que as leis seriam discutidas.

Antes de conquistar votos, ensinou várias gerações a considerar naturais as suas próprias premissas.

Família passou a ser suspeita de repressão.

Nação passou a ser suspeita de nacionalismo.

Autoridade passou a ser suspeita de autoritarismo.

Fronteira passou a ser suspeita de xenofobia.

Tradição passou a ser sinónimo de atraso.

A Direita, entretanto, entretinha-se a discutir taxas de imposto, concessões de auto-estradas e lugares nos conselhos de administração. Imaginava que bastava gerir melhor aquilo que a Esquerda tinha culturalmente definido.

Foi por isso que durante décadas existiu uma direita económica governando ocasionalmente dentro de uma sociedade culturalmente de esquerda.

De Benoist, Tarchi, Faye e o combate metapolítico

Alain de Benoist foi o nome central da Nouvelle Droite francesa e do GRECE. A partir dos anos 70, aquela corrente procurou reconstruir uma visão europeia alternativa simultaneamente ao marxismo, ao liberalismo económico e às direitas nostálgicas do passado.

Em 1981, o GRECE promoveu um colóquio programático dedicado a um possível «gramscismo de direita», cujos trabalhos seriam publicados no ano seguinte. A ideia era retirar a Gramsci a finalidade marxista, conservando a percepção de que o poder cultural prepara e condiciona o poder político.[2]

Guillaume Faye levaria esta concepção numa direcção mais militante, procurando ligar a produção intelectual à mobilização política. Daniel Friberg retomaria posteriormente a metapolítica como construção de uma infra-estrutura cultural própria: livros, revistas, redes, conferências, meios digitais, formação de quadros e circulação internacional de ideias.[3]

Jean-Yves Le Gallou acrescentou a noção de reinformação: não basta protestar contra o jornalis¬tado; é necessário criar meios capazes de investigar, seleccionar, enquadrar e difundir factos que os grandes aparelhos mediáticos ignoram ou apresentam segundo uma grelha ideológica predefinida.

A sua actividade combinou intervenção cultural, criação de redes, disputa da linguagem e tentativa de quebrar o cordão sanitário que separava determinadas ideias do espaço público legítimo.[4]

Em Itália, Marco Tarchi foi o principal representante da Nuova Destra. A corrente desenvolveu uma intensa actividade editorial, culturalmente ecléctica, procurando substituir a velha subcultura partidária por uma verdadeira estratégia metapolítica e por um «gramscismo de direita».[5]

Mais recentemente, Francesco Giubilei tem defendido que a Direita não pode limitar-se a denunciar a hegemonia cultural da Esquerda. Tem de construir uma política cultural, novas instituições, novos editores, novos intelectuais e novas elites.[6]

Até Frank Furedi, vindo originalmente da esquerda marxista, descreveu a sua intervenção actual como uma espécie de «Gramsci ao contrário»: uma tentativa de desafiar as normas culturais promovidas pelas instituições europeias e transformadas em ortodoxia continental.[7]

Benedikt Kaiser: da cultura à questão social

Benedikt Kaiser acrescenta a este debate uma dimensão especialmente importante: a Direita não pode limitar-se à guerra cultural, nem reduzir a metapolítica a uma fábrica de frases provocatórias para as redes sociais.

Kaiser procura recuperar conceitos como hegemonia, bloco histórico, crise de autoridade e formação de uma vontade colectiva, relacionando-os com a fragmentação social provocada pelo capitalismo globalizado.

Na obra Der Hegemonie entgegen — Gramsci, Metapolitik und Neue Rechte, analisa precisamente os conceitos gramscianos de hegemonia e bloco histórico e a sua possível utilização pela Nova Direita.[8]

Aqui encontramos uma diferença fundamental entre Kaiser e uma parte da direita liberal-conservadora.

Para esta última, a sociedade é frequentemente reduzida ao indivíduo consumidor, ao mercado e à soma das escolhas privadas. Para Kaiser, uma direita nacional precisa de reconstruir solidariedades, proteger o trabalho, recuperar a questão social e ligar trabalhadores, famílias, pequenas empresas, classes médias empobrecidas e comunidades locais.

Ou seja: precisa de formar um novo bloco social.

É precisamente neste ponto que o pensamento de Kaiser pode encontrar-se com a doutrina social de Leão XIII.

Gramsci oferece instrumentos para compreender a hegemonia.

Leão XIII oferece princípios para orientar a sociedade.

Um explica como o poder cultural se organiza. O outro recorda para que deve servir a ordem social: dignidade do trabalhador, justiça, propriedade, família, associações profissionais, cooperação entre classes e bem comum.

A Direita pode aprender com o diagnóstico de Gramsci sem aceitar a luta de classes. Pode compreender o conceito de bloco histórico sem adoptar o materialismo. Pode disputar a hegemonia sem desejar instaurar um novo totalitarismo cultural.

E Portugal?

Em Portugal, Duarte Branquinho é provavelmente o publicista que mais explicitamente tem procurado desenvolver esta discussão no interior da Direita. O seu trabalho sobre o chamado «gramscismo de direita», a Nouvelle Droite e figuras como Jean-Yves Le Gallou coloca-o numa posição ainda pouco comum entre nós.[9]

Há outros autores portugueses que participam, em graus diferentes, da crítica à hegemonia cultural da Esquerda. Jaime Nogueira Pinto há muito insiste na importância das ideias, da memória histórica e da formação de elites. Miguel Morgado tem sublinhado a necessidade de uma Direita intelectualmente articulada. Outros publicistas, revistas, editoras, blogues e círculos culturais trabalham hoje na reconstrução de uma linguagem política não subordinada à Esquerda.

Mas seria excessivo chamar-lhes, sem mais, «gramscianos de direita».

A afinidade está sobretudo no diagnóstico: a Direita portuguesa perdeu durante décadas o combate cultural porque nem sequer percebeu que ele estava a decorrer.

Enquanto a Esquerda ocupava departamentos universitários, redacções, sindicatos, fundações, associações culturais e aparelhos do Estado, a velha direita celebrava privatizações, escrevia editoriais sobre moderação e pedia licença para existir.

Quando alguém à sua direita aparecia sem pedir autorização, a direita respeitável corria a explicar à Esquerda que também estava muito preocupada.

O CHEGA e a intuição metapolítica

É neste contexto que o CHEGA deve ser observado.

Não creio que o partido possua já uma doutrina metapolítica perfeitamente organizada. Há demasiada improvisação, personalização, contradições internas e dependência do ciclo mediático para afirmá-lo.

Mas há uma intuição.

André Ventura percebeu que a política não se ganha apenas apresentando programas tecnicamente competentes. Ganha-se também contestando as categorias, recusando as palavras impostas e quebrando interditos culturais.

Ao recusar que a Direita aceite antecipadamente a linguagem do adversário, o CHEGA alterou o campo do possível.

Tem, porém, um problema: romper a hegemonia alheia não é o mesmo que construir uma hegemonia própria.

Uma força política não cria uma nova cultura apenas através de intervenções parlamentares, indignações televisivas ou publicações virais. Precisa de intelectuais, revistas, editoras, escolas de formação, associações, sindicatos, autarcas, empresários, trabalhadores, professores, juristas, artistas e produtores culturais.

Precisa de pensamento que sobreviva ao noticiário do dia.

Precisa de uma concepção do Homem, da sociedade, da economia, da Nação e da Europa.

Precisa, enfim, de passar do protesto à construção.

Não basta ganhar eleições

Uma Nova Direita portuguesa não poderá limitar-se a substituir ministros, directores-gerais ou comentadores. Terá de alterar a forma como os portugueses compreendem a Nação, o trabalho, a família, a autoridade, a soberania, a justiça e o bem comum.

Isso não se faz por decreto.

Faz-se publicando livros.

Criando jornais.

Formando professores.

Disputando sindicatos.

Apoiando associações.

Produzindo cinema, música e literatura.

Criando redes de solidariedade.

Prestigiando intelectuais próprios.

Levando ideias às periferias e aos grupos sociais concretos.

Transformando em senso comum aquilo que hoje ainda é apresentado como pensamento marginal.

A lição de Gramsci não é que a Direita deva tornar-se comunista. É que nenhuma corrente política governa duradouramente uma sociedade que continua a pensar segundo as categorias dos seus adversários.

A velha direita portuguesa queria ganhar eleições sem travar batalhas culturais.

A Nova Direita terá de compreender que as eleições são apenas uma parte da batalha.

Antes do voto vem a palavra.

Antes da lei vem a ideia.

Antes do Governo vem a cultura.

E antes da vitória política vem a coragem de deixar de pedir à Esquerda autorização para pensar.

Notas

[1] Duarte Branquinho, «Para um gramscismo de direita», Breviário, Junho de 2026: breviario.substack.com.

[2] Sobre a circulação do conceito de «gramscismo de direita» entre a Itália e a França e a recepção de Gramsci pelo GRECE, ver Le Monde, «Entre l’Italie et la France, itinéraire du “gramscisme de droite”».

[3] Karl Ekeman, análise sobre o «gramscianismo de direita», metapolítica e estratégia cultural, Columbia Center for Contemporary Critical Thought.

[4] Estudos sobre Jean-Yves Le Gallou enquanto mediador de ideias, promotor da reinformação e organizador de redes metapolíticas francesas.

[5] Estudos académicos sobre Marco Tarchi e a Nuova Destra italiana, incluindo a sua actividade editorial, metapolítica e apropriação crítica de conceitos gramscianos.

[6] Francesco Giubilei, «Cultural Hegemony and the Need for Conservatives to Build a Cultural Policy», Deliberatio.

[7] Frank Furedi, intervenções sobre hegemonia cultural, liberdade de expressão e contestação das ortodoxias institucionais europeias.

[8] Benedikt Kaiser, Der Hegemonie entgegen — Gramsci, Metapolitik und Neue Rechte, Jungeuropa Verlag.

[9] Duarte Branquinho tem desenvolvido, em textos, intervenções e publicações digitais, temas relacionados com a Nouvelle Droite, a metapolítica, Jean-Yves Le Gallou e a recepção não marxista de Gramsci.