domingo, 12 de julho de 2026

Da Velha à Nova Direita: uma mudança de paradigma na política europeia

A Nova Direita não é apenas uma vaga de novos partidos. É, antes disso, uma renovação intelectual que coloca a cultura, a identidade, a soberania e a continuidade histórica no centro da política europeia.
De Alain de Benoist a Gramsci, de Julien Freund a Benedikt Kaiser, de Dominique Venner a Leão XIII, há uma pergunta que atravessa todo este debate: pode a Direita continuar a ser apenas gestão, moderação e medo de existir?
No ReVisões, procuro distinguir a Nova Direita como escola de pensamento da Nova Direita como família política contemporânea, passando pela leitura de Duarte Branquinho e pelo fim da velha direita conservadora tradicional.
Porque antes das urnas há cultura.
E antes dos governos há uma visão do mundo.

A Nova Direita não se reduz a novos partidos: é, antes de tudo, uma renovação intelectual que pretende reconquistar a cultura, a identidade e a soberania das nações europeias.

Durante décadas, a direita europeia habituou-se a definir-se sobretudo por oposição à esquerda. Defendia a economia de mercado, a propriedade privada, a autoridade do Estado e a estabilidade institucional, mas raramente produzia uma reflexão própria sobre a cultura, a identidade ou a formação das ideias dominantes. Limitava-se, muitas vezes, a gerir a realidade construída pelos seus adversários.

É precisamente contra esta insuficiência intelectual que surge aquilo a que hoje chamamos Nova Direita. Importa, porém, distinguir dois significados frequentemente confundidos.

O primeiro refere-se à Nouvelle Droite francesa, nascida no final da década de 1960 em torno do GRECE e de autores como Alain de Benoist, Dominique Venner ou, em sentido mais amplo, Julien Freund. Não se trata de um partido político, mas de uma escola de pensamento que pretende reconstruir a cultura política europeia através da filosofia, da história, da antropologia e da reflexão sobre a civilização.

O segundo significado diz respeito ao conjunto de partidos nacional-conservadores, soberanistas e identitários que cresceram em praticamente toda a Europa nas últimas duas décadas. Embora muitos deles revelem afinidades intelectuais com algumas ideias da Nouvelle Droite, não constituem uma tradução automática desse pensamento nem possuem entre si a mesma coerência doutrinária.

É precisamente esta distinção que Duarte Branquinho tem procurado estabelecer. Nos seus textos, a Nova Direita aparece antes de tudo como uma renovação intelectual da direita europeia e não apenas como uma sucessão de partidos eleitorais.

Essa renovação parte de uma crítica comum às grandes ideologias do século XX. Recusa o marxismo por reduzir a sociedade à luta de classes e ao igualitarismo abstracto. Recusa igualmente o liberalismo absoluto quando este dissolve todas as comunidades históricas em nome do indivíduo isolado e do mercado global.

A questão central deixa então de ser exclusivamente económica para se tornar essencialmente civilizacional.

É neste ponto que Alain de Benoist desempenha um papel decisivo. Em Vu de droite — publicado em Portugal sob o título Nova Direita, Nova Cultura — defende que a verdadeira batalha política é, antes de tudo, uma batalha cultural. As sociedades vivem de valores, símbolos, memórias e identidades antes de viverem de programas eleitorais.

Curiosamente, esta ideia aproxima-se de uma das maiores intuições de Antonio Gramsci. Embora separados por universos ideológicos completamente distintos, ambos reconhecem que quem conquista a hegemonia cultural prepara inevitavelmente a hegemonia política.

Gramsci via essa hegemonia como instrumento da transformação socialista. A Nova Direita procura utilizar o mesmo método para fins diferentes: recuperar a continuidade histórica das nações, reforçar a identidade europeia e reconstruir o espaço cultural perdido pela direita tradicional.

É precisamente esta recuperação da leitura gramsciana que Benedikt Kaiser desenvolveu de forma particularmente sistemática. Kaiser considera que a direita deixou durante demasiado tempo a cultura, a universidade, a comunicação social e as organizações intermédias entregues à esquerda. Daí defender uma verdadeira metapolítica, entendida não como propaganda, mas como construção paciente de um novo consenso cultural capaz de anteceder qualquer vitória eleitoral.

Nesta perspectiva, a política começa muito antes das eleições. Começa nas escolas, nas universidades, nas associações, nos sindicatos, nas redes sociais, nas editoras, nos jornais, nas famílias e nas comunidades concretas.

A influência de Julien Freund introduz uma dimensão complementar. Freund recorda que o político possui autonomia própria e que nenhuma sociedade pode eliminar definitivamente o conflito. A distinção entre amigo e adversário, a necessidade da autoridade e a permanência das comunidades políticas pertencem à própria condição humana. A política não desaparece através da moralização do discurso público nem mediante a simples gestão técnica dos problemas.

Dominique Venner acrescenta outra preocupação: a continuidade histórica da civilização europeia. A identidade não resulta apenas da cidadania jurídica; constrói-se através da memória, da tradição, da cultura e da transmissão entre gerações.

Neste aspecto, a Nova Direita distancia-se simultaneamente do nacionalismo puramente estatista e do cosmopolitismo globalista. A comunidade nacional deixa de ser apenas uma realidade administrativa para voltar a ser entendida como uma comunidade histórica.

Mas talvez exista um elemento frequentemente esquecido neste debate. Muito antes da Nouvelle Droite, Leão XIII havia procurado responder à questão social através da encíclica Rerum Novarum.

Contra o socialismo revolucionário, defendeu a propriedade privada, a família e a liberdade. Contra o capitalismo desumanizado, defendeu o salário justo, a dignidade do trabalho, o descanso, a associação profissional e a responsabilidade social dos empregadores.

A Doutrina Social da Igreja ofereceu, assim, uma terceira via que recusava tanto o collectivismo como o individualismo económico absoluto.

Sob este prisma, não deixa de ser significativo que alguns sectores da direita europeia contemporânea tenham voltado a colocar a questão social no centro do seu discurso. A defesa do trabalho, da família, da natalidade, da subsidiariedade e da coesão nacional aproxima-se, em diversos aspectos, da tradição inaugurada por Leão XIII, ainda que cada partido a interprete de forma distinta.

É neste enquadramento que Duarte Branquinho situa o fenómeno português. Na sua leitura, Portugal deixou de constituir a antiga “excepção portuguesa”, caracterizada durante décadas pela ausência de uma direita nacional-popular comparável à existente em França, Itália, Áustria ou Países Baixos.

Todavia, Branquinho distingue cuidadosamente entre uma família intelectual e um partido concreto. Reconhece que o CHEGA participa de várias das preocupações presentes na Nova Direita europeia — soberania, identidade, imigração, crítica do multiculturalismo ou da burocracia europeia — mas considera igualmente que determinadas opções tácticas e eleitorais podem comprometer a coerência doutrinária de um projecto político.

A sua crítica ao chamado “chegalismo” deve ser entendida precisamente nesse contexto: como advertência contra o risco de substituir uma arquitectura intelectual consistente por uma sucessão de respostas conjunturais às expectativas eleitorais.

Esta distinção merece ser preservada. Nenhuma escola de pensamento se esgota num partido. Nenhum partido representa integralmente uma tradição intelectual. As ideias possuem normalmente um tempo muito mais longo do que os ciclos eleitorais.

Talvez seja precisamente aqui que resida a principal novidade da Nova Direita. Ela procura deixar de ser apenas uma direita parlamentar para voltar a ser uma direita cultural.

Pretende disputar universidades, editoras, centros de investigação, meios de comunicação, fundações, associações cívicas e espaços de produção simbólica. Noutras palavras, procura construir aquilo que Gramsci chamaria uma nova hegemonia cultural, mas colocando essa hegemonia ao serviço de valores radicalmente diferentes.

A velha direita acreditava que bastava ganhar eleições. A Nova Direita parte de um pressuposto distinto: antes das urnas existe a cultura; antes dos governos existe a visão do mundo; antes das maiorias existe aquilo que uma sociedade considera naturalmente verdadeiro.

É por isso que a verdadeira mudança talvez não consista apenas no aparecimento de novos partidos, mas no reaparecimento de uma tradição intelectual que durante décadas permaneceu dispersa, marginalizada ou esquecida.

Se esse processo conduzirá a uma verdadeira renovação da direita europeia permanece uma questão em aberto. Mas uma coisa parece hoje evidente: a discussão deixou de ser apenas sobre governos.

Passou a ser, sobretudo, sobre civilização.