Há casos em que o escândalo não está apenas no facto. Está no silêncio que o antecede. Ou, pior ainda, no modo como certas redacções, certos comentadores e certos sacerdotes do regime escolhem o momento exacto em que deixam de fingir que não viram.
O caso de Luís Neves é exemplar. Não apenas pelo que revela sobre um ministro. Mas, sobretudo, pelo que expõe sobre o jornalistado e comentariado que o protegeu, embalou, desculpou ou simplesmente deixou passar entre os pingos da chuva.
Para Luís Montenegro, Luís Neves tinha uma utilidade política evidente. Era um ministro da Administração Interna com uma aura de “homem forte”, mas suficientemente confortável para sectores da oposição socialista. Um ministro que, por percurso, contactos e cumplicidades institucionais, podia ser visto por parte do sistema como “um dos seus”. E num Governo frágil, qualquer figura com aparência de autoridade vale ouro. Mesmo quando essa autoridade começa a cheirar a dissolução.
O problema é que havia sinais. Havia episódios. Havia matéria política. Havia perguntas que qualquer jornalismo digno desse nome deveria ter feito.
Mas não fez.
Quando surgiram referências às ameaças que Luís Neves terá dirigido, no Parlamento, a André Ventura — ameaças sobre as quais o líder do CHEGA disse ter sido alertado por elementos do Governo e por deputados próximos do próprio ministro — o país jornalístico entrou naquela modalidade olímpica em que é campeão absoluto: a indiferença selectiva.
Se o protagonista fosse outro, teríamos tido escândalo nacional. Teríamos fact-checks em série. Teríamos especialistas em comunicação não-verbal. Teríamos comentadores de cenho franzido, juristas de serviço, psicólogos políticos, painéis de emergência, sondagens sobre “a degradação da democracia” e talvez até especialistas em leitura de lábios a analisarem o vídeo frame a frame.
Mas era Luís Neves.
E quando é alguém do circuito certo, com as relações certas, com o odor certo a Estado profundo, tudo muda. O que noutros seria ameaça, nele passou a “contexto”. O que noutros seria abuso, nele tornou-se ruído. O que noutros seria escândalo, nele foi tratado como uma nota de rodapé que nem sequer merecia rodapé.
Depois vieram as irregularidades da chamada construção do tanque-piscina. Também aí, o jornalismo que gosta tanto de farejar barracões alheios, licenças antigas e fotografias de satélite quando convém ao combate político, descobriu subitamente uma prudência franciscana. As palavras foram usadas com pinça. A indignação ficou em quarentena. O zelo investigativo meteu baixa médica.
Havia qualquer coisa de quase comovente naquele cuidado. Comovente, se não fosse obsceno.
Porque o mesmo jornalistado e comentariado que não hesita em carregar no adjectivo quando fala da Nova Direita parlamentar, que não se cansa de moralizar quando o alvo é André Ventura, que vê “ameaças à democracia” em cada frase que não cabe na catequese progressista, revelou, perante Luís Neves, uma contenção de relojoeiro suíço.
Conta, peso e medida para os amigos do sistema. Martelo, labéu e pelourinho para os adversários do sistema.
Até que apareceu o atrelado.
E depois os bidões.
Foi preciso que a narrativa se tornasse demasiado material, demasiado visual, demasiado ridícula, demasiado impossível de varrer para debaixo do tapete. Um atrelado apreendido pela justiça na Operação Pacoba e a notícia de que os bidões teriam estado dentro dele fizeram aquilo que meses de sinais políticos, irregularidades urbanísticas e episódios parlamentares não conseguiram fazer: obrigaram a máquina mediática a mexer-se.
Não porque tivesse acordado a consciência jornalística. Não exageremos. Apenas porque o cadáver narrativo começou a cheirar demasiado.
O caso Luís Neves mostra, mais uma vez, que em Portugal não há apenas jornalismo. Há administração política da percepção pública. Há temas que sobem porque convém. Há temas que descem porque incomodam. Há protagonistas que são abatidos à primeira suspeita. E há outros que são acompanhados com luvas brancas até ao ponto em que as luvas já não escondem a nódoa.
O jornalistado português não falhou por falta de informação. Falhou por excesso de alinhamento. Não falhou por prudência. Falhou por servilismo. Não falhou por respeito pelo contraditório. Falhou porque sabe perfeitamente onde deve ser feroz e onde deve ser doméstico.
Durante demasiado tempo, Luís Neves beneficiou dessa domesticidade. O ministro “forte” de um Governo frágil foi tratado como peça útil de um equilíbrio de regime. E, enquanto assim foi, as perguntas ficaram mansas, as suspeitas ficaram discretas, as ameaças ficaram invisíveis, e as irregularidades ficaram numa espécie de limbo moral onde só entram os protegidos da casa.
Depois, o atrelado e os bidões estragaram o arranjo.
Não foram os jornalistas que descobriram a gravidade política do caso. Foi a gravidade política do caso que se tornou impossível de ocultar. E isso faz toda a diferença.
Porque um jornalismo que só acorda quando já não pode dormir não é jornalismo. É encobrimento com atraso. É comentário de joelhos. É servidão com carteira profissional.
E no fim fica a pergunta que verdadeiramente interessa: quantos outros casos, quantas outras cumplicidades, quantas outras “personalidades fortes” continuam a ser protegidas não pela inexistência de factos, mas pela disciplina cobarde de quem decide o que o país pode saber - e, sobretudo, quando pode saber?
O atrelado trouxe os bidões.
Mas trouxe também outra coisa: a confirmação de que há muito lixo político que só aparece quando a tampa já não fecha.
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