sexta-feira, 9 de outubro de 2026

MARCO RUBIO EM ATENAS: O OCIDENTE PRECISA DE VOLTAR A ACREDITAR EM SI PRÓPRIO

A excelência, o mérito, a identidade e a soberania dos povos não são relíquias do passado. São condições indispensáveis à sobrevivência de uma civilização que parece ter aprendido a envergonhar-se da sua própria História.

No dia 7 de Outubro, Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano, pronunciou em Atenas um discurso que merece ser lido e discutido muito para além das habituais simpatias ou antipatias pela Administração dos Estados Unidos. Mais do que uma intervenção diplomática, apresentou uma reflexão sobre a identidade, a grandeza e o possível declínio das civilizações, construída em torno de uma pergunta que muitas elites políticas e culturais europeias parecem evitar: como pode uma civilização sobreviver quando começa a perder o orgulho naquilo que construiu e a confiança naquilo que ainda é capaz de realizar?

O local escolhido foi particularmente simbólico. Na colina de Pnyx, onde se reunia a assembleia dos cidadãos da antiga Atenas, com a Acrópole como cenário, Rubio evocou uma tradição intelectual que nasceu na Grécia, atravessou Roma, encontrou novas expressões no cristianismo europeu e influenciou a formação política e cultural dos Estados Unidos. Não se tratou apenas de recordar glórias antigas; foi uma advertência dirigida ao presente, sobretudo a uma Europa onde a defesa da identidade histórica e cultural se tornou, em certos ambientes, quase uma atitude suspeita.

A CIVILIZAÇÃO QUE SOUBE RECONSTRUIR-SE

Rubio começou por recordar a invasão persa de Xerxes, há cerca de 2500 anos, quando templos de Atenas foram incendiados e a Acrópole sofreu uma devastação profunda. A derrota, porém, não representou o fim daquela civilização. Décadas depois, os atenienses ergueram o Parténon, cuja presença atravessaria guerras, invasões, impérios e extraordinárias transformações culturais. A lição não reside apenas na capacidade de reconstruir o que fora destruído, mas na ambição de criar algo maior. Onde outros poderiam ter encontrado razões para desistir, os atenienses encontraram motivos para se superarem.

Uma sociedade pode resistir a dificuldades económicas, derrotas militares ou crises institucionais, mas torna-se muito mais vulnerável quando perde a convicção de que a sua herança merece ser conservada e aperfeiçoada. Não é apenas a quantidade de recursos de que dispõe que determina a sua continuidade; são também os princípios e as ambições que transmite às gerações seguintes.

A EXCELÊNCIA COMO VIRTUDE E A MEDIOCRIDADE COMO PROGRAMA

Um dos pontos mais pertinentes do discurso é a recuperação da aretê 1, a excelência procurada através do esforço, da disciplina e da superação. Na Grécia antiga competia-se nos jogos, na poesia, no teatro, na filosofia, na oratória e na política. O reconhecimento de feitos extraordinários fazia parte da vida da comunidade. Claro que a sociedade ateniense tinha profundas injustiças, entre elas a escravatura e a exclusão política de muitos habitantes; isso, porém, não anula o valor da sua produção artística e intelectual nem a importância do ideal de aperfeiçoamento que legou ao Ocidente.

Rubio contrapõe esse ideal a tendências contemporâneas que parecem olhar para a competição, o risco e a possibilidade do fracasso como males dos quais todos devem ser protegidos. Em nome de uma igualdade por vezes mal compreendida, reduz-se a exigência, relativiza-se o mérito e transforma-se a distinção pelo desempenho em motivo de embaraço. A preocupação legítima de proporcionar oportunidades a todos não deve confundir-se com a pretensão de garantir resultados idênticos independentemente do esforço e da competência. Uma sociedade justa deve combater desigualdades injustificadas nas oportunidades, não eliminar o reconhecimento da excelência.

É sobretudo nos sistemas de ensino, na cultura institucional e na administração pública que esta confusão se torna perniciosa: quando exigir rigor passa a ser suspeito, quando premiar quem trabalha melhor parece uma afronta e quando a palavra «meritocracia» se transforma quase num insulto ideológico, a consequência pode ser a banalização do desempenho medíocre. Reconhecer mérito não dispensa corrigir os obstáculos sociais que impedem muitos de desenvolver as suas capacidades; exige, pelo contrário, que essas oportunidades sejam realmente abertas.

A IGUALDADE DE OPORTUNIDADES DEVE PERMITIR QUE TODOS POSSAM SUBIR;
NUNCA SERVIR DE PRETEXTO PARA OBRIGAR TODOS A DESCER.

O THYMOS: A FORÇA INTERIOR DAS CIVILIZAÇÕES

Outro momento importante foi a recuperação do thymos 2, conceito grego relacionado com a coragem, o orgulho, a dignidade e a disposição para enfrentar a adversidade. Em Platão, corresponde à dimensão combativa da alma, capaz de reagir à injustiça e de defender aquilo que considera digno. Na leitura política de Rubio, ganha também sentido colectivo: a confiança de uma comunidade nas suas capacidades e a vontade de conservar a sua liberdade. O poder material não substitui a confiança cultural, tal como a prosperidade económica não garante, por si só, a sobrevivência de uma civilização.

Durante décadas, muitas elites europeias acreditaram que o crescimento económico, a integração supranacional e a interdependência internacional tornariam secundárias as questões da identidade, das fronteiras e da soberania. Mas os conflitos contemporâneos, a competição entre grandes potências e as fragilidades das cadeias industriais e energéticas mostraram os limites dessa expectativa. As instituições internacionais são úteis, mas não eliminam os interesses nacionais; e a cooperação, para ser robusta, exige sociedades que saibam o que pretendem preservar.

A CULTURA DA CULPA E A VERGONHA DE PERTENCER AO OCIDENTE

A crítica mais incómoda de Rubio incide sobre a forma como sectores da cultura ocidental passaram a interpretar a própria História. Escravatura, colonialismo, perseguições religiosas e guerras de conquista são realidades incontornáveis. Conhecê-las e analisá-las criticamente não diminui a nossa civilização; honra, antes, a tradição de exame racional que ela ajudou a desenvolver. Há, contudo, uma diferença decisiva entre examinar os erros do passado e transformar a História numa acusação permanente contra a própria civilização.

O problema surge quando as novas gerações recebem uma narrativa em que o Ocidente aparece quase exclusivamente associado à opressão e à intolerância, enquanto as suas contribuições para a ciência, a filosofia, o direito, a liberdade de consciência, o constitucionalismo e os direitos humanos são minimizadas ou omitidas. Não é preciso considerar a História europeia imaculada para reconhecer as suas realizações. Pelo contrário: uma das suas conquistas foi ter produzido instrumentos intelectuais, jurídicos e políticos para questionar e corrigir muitas das próprias injustiças.

Uma coisa é reconhecer os erros de uma civilização; outra, muito diferente, é ensinar aos seus herdeiros que a herança recebida constitui sobretudo um inventário de vergonhas. Quem é educado para desprezar aquilo que recebeu dificilmente sentirá responsabilidade por o conservar, transformar e transmitir.

DA PERDA DA IDENTIDADE À PERDA DA SOBERANIA

Rubio relaciona esta crise cultural com escolhas económicas e estratégicas: a deslocação de capacidades industriais, a dependência tecnológica e energética, a insuficiência de investimento na defesa e a transferência de decisões para instâncias cada vez mais distantes dos cidadãos. Esta interpretação não explica isoladamente todos os problemas do Ocidente, mas contém uma advertência oportuna: um país pode ver reduzida a sua liberdade de decisão sem perder formalmente a independência, bastando-lhe deixar de controlar recursos e competências indispensáveis à segurança e à prosperidade.

Cooperar não é abdicar de decidir; pertencer a organizações internacionais não deve significar renunciar à responsabilidade política perante os cidadãos. É aqui que se identificam pontos de contacto com diferentes correntes das Novas Direitas europeias: soberania, identidade cultural, defesa da comunidade nacional e resistência à ideia de que a democracia se esgota em mecanismos técnicos de governação supranacional. Estes paralelos não obrigam a adoptar sem crítica todas as propostas de Washington nem a esquecer as diferenças entre países e tradições políticas.

AS NOVAS DIREITAS E A RECUPERAÇÃO DA CONFIANÇA CIVILIZACIONAL

Este é precisamente o ponto em que o discurso de Marco Rubio encontra a reflexão que tenho vindo a desenvolver sobre as Novas Direitas. Durante demasiado tempo, parte da direita europeia aceitou disputar a administração do poder enquanto deixava a outros a definição do vocabulário moral e dos pressupostos culturais do debate. Ocupou-se de orçamentos e indicadores económicos, mas mostrou-se frequentemente incapaz de defender a própria tradição intelectual sem começar por pedir desculpa por ela. A reacção hoje observável não é apenas eleitoral: também é metapolítica, porque procura discutir os fundamentos culturais da vida colectiva.

A reinterpretação de ideias de Gramsci, presente em autores associados à chamada Nova Direita europeia, ajuda a perceber que transformações políticas duradouras são precedidas por alterações na forma como uma comunidade pensa e transmite valores. Quem perde a capacidade de explicar a sua História, de educar as novas gerações e de defender culturalmente as suas convicções começa a perder o futuro, mesmo que continue a ganhar eleições. Ainda assim, recuperar a identidade não pode equivaler a idealizar o passado nem a rejeitar indiscriminadamente a modernidade.

Uma Nova Direita intelectualmente consistente terá de conciliar continuidade histórica e inovação, soberania e cooperação, mérito e solidariedade, pertença nacional e direitos individuais. E, acima de tudo, não poderá abandonar a questão social. Não basta pedir às pessoas orgulho numa civilização se lhes faltam trabalho digno, habitação, segurança e perspectivas de futuro. A comunidade nacional não é apenas uma herança simbólica: deve ser também um espaço de solidariedade entre trabalhadores, famílias e gerações.

PORTUGAL: UMA HISTÓRIA QUE NÃO PRECISA DE PEDIR DESCULPA POR EXISTIR

O discurso de Rubio tem uma ressonância especial em Portugal. A nossa História projectou a língua e a cultura portuguesas muito para além da dimensão do território nacional. A expansão marítima, a navegação e a criação de redes de contacto entre continentes foram realizações de enorme importância histórica, acompanhadas também por violência, exploração e injustiça. Estudar estas realidades com rigor não exige apagar umas para dar relevo exclusivo às outras; exige compreender a complexidade dos acontecimentos e recusar tanto a glorificação acrítica como a culpabilização hereditária.

Podemos reconhecer os erros dos nossos antepassados sem renunciar ao orgulho pelas suas realizações; respeitar outras culturas sem deixar de valorizar a nossa; participar na construção europeia sem aceitar que a identidade nacional se reduza a uma curiosidade folclórica. Num país onde as velhas divisões partidárias mostram crescente dificuldade em explicar a mudança social e eleitoral, vale a pena perguntar se a renovação da direita não depende também desta capacidade de propor uma visão cultural e histórica positiva, em vez de se limitar a gerir os consensos estabelecidos.

O VERDADEIRO SIGNIFICADO DO DISCURSO DE ATENAS

Seria redutor interpretar a intervenção de Rubio apenas como propaganda da Administração Trump ou como uma defesa circunstancial da estratégia «America First». O discurso inscreve-se naturalmente na política externa norte-americana e deve ser lido com espírito crítico; porém, a sua questão central transcende a conjuntura americana. Que acontece a uma sociedade quando confunde igualdade com nivelamento, trata a excelência como suspeita, encara o patriotismo como intolerância e ensina aos seus filhos que pertencem a uma civilização cuja História constitui sobretudo um catálogo de culpas?

Não é necessário regressar ao mundo antigo nem negar as suas exclusões para valorizar a ambição que inspirou as suas maiores realizações. A excelência não é inimiga da justiça. O mérito não é incompatível com a solidariedade. O patriotismo não exige hostilidade perante outros povos. E defender a identidade ocidental não implica negar o valor das restantes civilizações. Uma sociedade confiante na sua tradição encontra-se, aliás, em melhores condições para dialogar com outras culturas e corrigir os seus próprios erros.

Considero, por isso, o discurso de Marco Rubio uma intervenção de grande importância sobre a crise de confiança do Ocidente: não porque dê respostas definitivas para tudo, mas porque volta a colocar no centro do debate questões que muitos preferem evitar. Os atenienses reconstruíram a Acrópole porque, apesar da devastação, não perderam a vontade de criar algo digno de sobreviver ao seu tempo. Vinte e cinco séculos depois, devemos perguntar se ainda somos capazes de transmitir aos nossos descendentes uma herança que eles queiram conservar e aperfeiçoar.

Porque as civilizações não começam a morrer quando os seus monumentos são destruídos. Começam a morrer quando os seus próprios herdeiros deixam de encontrar razões para os reconstruir.

Fonte principal: Discurso de Marco Rubio, Atenas, 7 de Outubro de 2026 — Departamento de Estado dos EUA (tradução em português). Texto original em inglês reproduzido em Forth / Departamento de Estado. Nota: os destaques e as interpretações políticas pertencem ao autor deste artigo.

notas:
1 do grego antigo aretḗ a mesma raiz de aristos, que quer dizer "o melhor" ou "o mais excelente".
2 Thymos (ou Thumos) conceito da Grécia Antiga ligado à coragem, à vontade, ao espírito combativo e ao impulso vital do ser humano