a Social-democracia, a Democracia-Cristã e o espaço já ocupado pelas Novas Direitas
Abrantes do Amaral assinala uma evolução particularmente interessante: o CHEGA começou por ocupar parte do espaço de protesto anteriormente monopolizado pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, avançou depois sobre sectores que durante décadas constituíram importantes reservas eleitorais do Partido Socialista — pensionistas, funcionários públicos e grupos socialmente descontentes — e pode estar agora a penetrar no espaço eleitoral que o PSD considerava seu. Não significa isto que todos esses eleitorados tenham simplesmente mudado de partido, nem que sejam sociologicamente homogéneos; significa algo politicamente mais importante: as antigas fronteiras entre esquerda social e direita económica deixaram de explicar suficientemente o comportamento eleitoral.
É aqui que começa, provavelmente, a mudança que uma parte importante do comentariado continua a não compreender. Durante décadas, a arquitectura política europeia assentou essencialmente em duas grandes famílias moderadas: de um lado a social-democracia, progressivamente afastada do socialismo revolucionário e integrada na economia de mercado; do outro, a Democracia-Cristã e o Conservadorismo Liberal, defensores da propriedade, da iniciativa privada, da integração europeia e de uma concepção social temperada pelo princípio da subsidiariedade. Entre ambas existiam diferenças, naturalmente, mas também um enorme território comum. Foi esse consenso que construiu boa parte da Europa do pós-guerra.
O problema é que as sociedades que produziram aquele consenso praticamente já não existem. Mudou a economia, mudou o trabalho, mudou a composição demográfica, mudou a comunicação, mudou a relação com a autoridade, mudaram as identidades colectivas e mudou até a percepção das fronteiras nacionais. Entretanto, os partidos conservaram em grande medida as mesmas etiquetas, os mesmos reflexos e frequentemente o mesmo vocabulário. Continuam a discutir a política como se o eleitor de hoje fosse apenas uma versão mais nova do eleitor de 1985. Não é.
Há uma dimensão geracional que raramente entra nas análises eleitorais. O eleitorado não é uma fotografia; é uma corrente. Em cada eleição desaparecem eleitores formados politicamente no século XX e entram outros que não viveram a Guerra Fria, não conheceram o PREC, não guardam memória política do cavaquismo, nunca sentiram o peso eleitoral do PCP e dificilmente entendem por que razão PSD e CDS deveriam possuir eternamente o monopólio da representação da direita portuguesa. Um jovem que hoje tenha quinze anos poderá votar dentro de poucos anos; quem votou pela primeira vez nas últimas eleições rapidamente chegará aos vinte e cinco, tendo vivido a sua formação política num universo de redes sociais, imigração massiva, precariedade habitacional, transformação tecnológica e profunda desconfiança em relação às instituições tradicionais. É um eleitor sem fidelidades herdadas. E talvez seja precisamente aí que se encontra o problema existencial da velha direita.
Durante muitos anos, PSD e CDS puderam apresentar-se como os representantes naturais de praticamente tudo o que se encontrava à direita do Partido Socialista. Não precisavam sequer de definir muito rigorosamente o que significava ser de direita: bastava não ser socialista nem comunista. O sistema eleitoral, a memória histórica e a bipolarização faziam o resto. Mas o aparecimento de novas forças acabou com esse conforto e obrigou a responder a uma pergunta que durante demasiado tempo ficou adiada: para que serve uma direita que apenas promete gerir um pouco melhor aquilo que a esquerda construiu?É neste ponto que as chamadas Novas Direitas introduzem uma ruptura muito mais profunda do que aquela que o simples rótulo de “populismo” consegue explicar. Elas começaram a perceber que não basta falar de impostos, empresas, défice e crescimento económico. Recuperaram temas que a esquerda considerou durante décadas propriedade sua: salários, pensões, habitação, segurança no emprego, idade da reforma, abandono do interior, serviços públicos, dignidade do trabalho e protecção dos grupos socialmente vulneráveis. Ao mesmo tempo, ligaram essas matérias a questões que a esquerda contemporânea frequentemente trata com desconforto: imigração, identidade, soberania, segurança, fronteiras e pertença nacional.
É precisamente aquilo a que tenho chamado a recuperação da Questão Social pela Direita. Não significa transformar a direita em esquerda nem regressar ao estatismo económico. Significa compreender algo que a velha direita liberal esqueceu: uma comunidade política não é apenas um mercado e um cidadão não é simplesmente um contribuinte. Uma direita que não tenha nada a dizer ao trabalhador, ao pensionista, ao jovem incapaz de comprar casa ou à família esmagada pelo custo de vida entrega inevitavelmente esses cidadãos aos adversários — ou, pior ainda, à abstenção.
Aqui reside uma das ironias políticas do nosso tempo. As Novas Direitas estão a ocupar parte do espaço deixado vazio por uma esquerda que prometeu representar as classes populares mas que, em muitos países, passou a dedicar crescente energia política a questões culturais, identitárias e simbólicas. Não desapareceram da esquerda as preocupações materiais, evidentemente, mas a percepção de abandono entre parcelas do antigo eleitorado operário tornou-se eleitoralmente relevante em numerosos países europeus.
Ao mesmo tempo, a Democracia Cristã perdeu uma parte importante da sua identidade. Quando abandona a doutrina social da Igreja Cristã, relativiza a dimensão comunitária, aceita praticamente todo o enquadramento cultural progressista e conserva sobretudo uma política económica liberal, torna-se difícil explicar ao eleitor mais novo aquilo que verdadeiramente a distingue.
Se já não é suficientemente cristã, suficientemente social nem suficientemente conservadora, sobra-lhe apenas a administração.
E ninguém constrói uma geração política em torno de uma folha de Excel.
A Social-Democracia enfrenta um problema semelhante. Depois de aceitar grande parte da economia liberal, procurou diferenciar-se através das políticas sociais e, progressivamente, das questões culturais. Mas também aí surgem concorrentes.
Quando uma Nova Direita começa a defender melhores pensões, protecção dos trabalhadores, reforma mais cedo, habitação acessível ou serviços públicos eficazes, mantendo simultaneamente posições muito diferentes sobre imigração, soberania e identidade, a antiga divisão esquerda/direita deixa de coincidir com a divisão social do eleitorado.
É isto que torna o artigo de André Abrantes do Amaral particularmente interessante. O eventual terceiro lugar da AD vale menos pelo número momentâneo do que pelo que poderá significar estruturalmente. Uma sondagem não faz uma revolução partidária e seria absurdo decretar antecipadamente o desaparecimento do PSD. Mas também seria imprudente ignorar a possibilidade de estarmos perante um processo mais profundo de realinhamento eleitoral. Amanhã os números poderão ser diferentes; a pergunta permanecerá exactamente a mesma.
Que espaço político continuará a existir para os partidos tradicionais se outros conseguirem combinar aquilo que eles separaram durante décadas?
Uma direita social sem ser socialista, nacional sem ser isolacionista, defensora da economia privada sem transformar o mercado numa religião, conservadora em matéria cultural e simultaneamente capaz de disputar à esquerda a representação dos trabalhadores pode alterar profundamente o velho mapa partidário europeu. Essa síntese ainda está em construção, contém contradições e produzirá certamente conflitos internos, mas é precisamente por isso que merece ser estudada em vez de simplesmente etiquetada.
O futuro não está determinado e nenhuma sondagem permite decretá-lo. Mas uma coisa parece cada vez mais difícil de ignorar: o país político que produziu a Social-Democracia e a Democracia-Cristã como dominantes durante meio século está a desaparecer lentamente, porque também desaparece a sociedade que lhes dava sustentação automática.
Nas próximas eleições entrarão novos eleitores que não possuem memória sentimental dos velhos partidos nem obrigação alguma de respeitar as fronteiras políticas construídas pelos seus pais e avós. Outros, que ontem eram jovens eleitores, estarão já a formar famílias, pagar casas, criar filhos e descobrir a distância entre determinadas promessas políticas e a realidade quotidiana.
Pode ainda não ter desaparecido nenhum partido. Mas já desapareceu o eleitorado que lhes garantia o futuro por herança.

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