quarta-feira, 28 de outubro de 2026

quando o microfone entra na acampada...

A crise da habitação exige respostas. A crise do jornalismo exige que se volte a fazer perguntas — também àqueles que uma parte das redacções parece ter escolhido como seus representantes na rua. 

Há momentos em que o microfone parece ter deixado de servir para fazer perguntas e passado a funcionar como credencial de pertença. Nas acampadas pela habitação, a fronteira entre relatar um protesto e participar na sua justificação tornou-se o verdadeiro assunto. Quando a reportagem adopta o vocabulário de uma das partes, dispensa os seus protagonistas de explicações e reserva a indignação para a polícia, o espectador recebe uma causa já embrulhada em papel de notícia.

O artigo de Dinis de Abreu, «A crise mediática e a crise da habitação», publicado no Observador em 28 de Outubro, reforça uma crítica que tenho vindo a desenvolver no ReVisões: o jornalismo perde a sua função quando troca o escrutínio pela identificação com os protagonistas que acompanha. Abreu denuncia a amplificação acrítica dos protestos e a insuficiência das perguntas. É nesse diagnóstico que encontro o ponto decisivo. [1]

A minha leitura é esta: parte deste jornalistado parece considerar que uma causa politicamente simpática traz consigo a dispensa de contraditório. O manifestante chega ao directo moralmente certificado; o polícia entra sob suspeita. Entre ambos, o repórter corre o risco de abandonar o lugar de quem investiga para ocupar o de quem distribui razão.
Quando o jornalista entra numa acampada, deve levar perguntas. Se leva apenas aplausos, já escolheu outra profissão.
Uma causa justa não é um salvo-conduto
A crise da habitação existe. A dificuldade de pagar uma renda, comprar casa ou constituir família merece respostas sérias, fiscalização das políticas públicas e persistência jornalística. Precisamente por isso, indigna-me que um problema desta dimensão possa ficar reduzido à dramaturgia de uma praça, à repetição de palavras de ordem e ao calendário das assembleias dos acampados.
Um protesto merece cobertura pela sua relevância. A sua relevância não torna verdadeiras todas as declarações dos participantes, sensatas todas as suas propostas ou legítimos todos os seus métodos. O sofrimento social exige investigação; não oferece imunidade política a quem se apresenta como seu porta-voz.
Quem organiza? Quem decide? Que propostas concretas apresenta? Que efeitos teriam? Quem fica de fora daquela representação? Que relação existe entre os organizadores e estruturas partidárias? São perguntas elementares. Apurá-las não constitui hostilidade à habitação: constitui respeito pelos cidadãos que precisam de soluções e não apenas de imagens comoventes.~

A liberdade de informar à porta da tenda
Há um episódio particularmente esclarecedor. Numa reportagem de 20 de Outubro, o Observador descreveu limitações à circulação de jornalistas e à captação de imagens na acampada de Lisboa, aprovadas em assembleia. Relatou também que uma fotojornalista foi impedida de fotografar numa zona das tendas. A organização invocou privacidade e protecção de pessoas vulneráveis. [2]
Essa justificação pode e deve ser examinada. A protecção de pessoas vulneráveis merece cuidado; uma deliberação de manifestantes não deve, porém, ser aceite como título bastante para administrar a liberdade de informação numa praça pública. A contradição merece destaque: reclamar visibilidade enquanto se pretende escolher o perímetro do olhar jornalístico.
Que reacção mereceria uma restrição semelhante se viesse de um movimento de Direita? A pergunta é um teste à coerência editorial. O direito de informar exige o mesmo empenho perante qualquer organizador. Uma redacção que se deixe domesticar pela simpatia perde autoridade para denunciar as tentativas de domesticação dos outros.
O próprio facto de este episódio ter sido investigado e publicado mostra que existe jornalismo a cumprir a sua função. É esse padrão de independência que deve ser exigido às restantes coberturas, incluindo às televisões.

A polícia não pode ser o culpado de serviço
No comunicado sobre a operação de 25 de Outubro, a PSP apresentou a sua fundamentação: remoção de estruturas de acampamento, tentativas de obter cumprimento voluntário e intervenção após o não acatamento das orientações. Reconheceu igualmente feridos, incluindo agentes. Trata-se da versão policial, que exige confronto com imagens, testemunhos e outros elementos. [3]
Mas exige também ser efectivamente ouvida. Uma reportagem que começa no instante do uso da força e omite a sequência anterior pode mostrar imagens verdadeiras e produzir uma compreensão incompleta. Importa saber o que aconteceu antes, que ordens foram transmitidas, como foram recebidas e se a força empregue foi necessária e proporcionada.
Defendo as forças da ordem no cumprimento da lei. Cabe-lhes garantir direitos, proteger pessoas e preservar o espaço comum. A sua intervenção não se transforma em repressão só porque desagrada aos manifestantes; qualquer eventual excesso deve, por sua vez, ser apurado com seriedade.
A Provedora de Justiça pediu esclarecimentos urgentes sobre as operações de 25 de Outubro, para analisar a sua compatibilidade com o direito de reunião e manifestação. Esse pedido é um acto de fiscalização institucional, não uma condenação antecipada da PSP. O mesmo cuidado deve reger o tratamento das denúncias dos manifestantes: investigar antes de sentenciar. [4]
É aqui que me parece falhar o jornalismo que toma partido: exige presunção de legitimidade para o protesto e parece recusá-la, à partida, à autoridade. O resultado aproxima a reportagem de um libelo político.

Novas gerações, velhas cartilhas
Não atribuo este problema a uma idade. Há jovens jornalistas rigorosos e veteranos rendidos à militância. Critico uma aprendizagem profissional em que a adesão às causas consideradas certas parece, por vezes, valer mais do que a capacidade de fazer perguntas incómodas aos respectivos promotores.
Quando essa cultura prevalece, a linguagem denuncia o alinhamento: a autoqualificação dos organizadores passa para a notícia sem distância; a acusação torna-se enquadramento; o contraditório surge como incómodo. O jornalista deixa de testar a narrativa e começa a protegê-la. É nesse comportamento que reconheço o jornalista-activista, independentemente da idade ou de qualquer filiação formal.
Ao lado dele instala-se o comentador que confunde convicção com conhecimento e familiaridade televisiva com autoridade. Comentar é legítimo. O público deve, contudo, conseguir distinguir a interpretação assumida da reportagem que reclama rigor factual. A mistura beneficia quem quer persuadir sem assumir inteiramente essa responsabilidade.
O Código Deontológico exige verificação, audição das partes e distinção clara entre notícia e opinião. Exige também resistência às limitações ao direito de informar. São critérios da própria profissão, anteriores às simpatias de cada redacção. Aplicá-los aos acampados é uma obrigação profissional. [5]

A praça não recebe um mandato da televisão
Uma assembleia pode decidir o rumo de um protesto entre os seus participantes. Não recebe, por isso, mandato para falar em nome de todos os jovens, de todos os inquilinos ou do país inteiro. A designação «popular» não resolve o problema da representatividade.
As câmaras podem ampliar uma mobilização; não multiplicam os cidadãos que nela participam nem substituem os mecanismos da democracia representativa. Quando o discurso de activistas da extrema-esquerda é apresentado como tradução evidente da vontade popular, o jornalismo ajuda uma facção a reclamar uma legitimidade que deveria interrogar.
É essa promoção que contesto: o salto entre dar voz e conferir mandato, entre acompanhar uma reivindicação e adoptar os seus intérpretes. Quem discorda também faz parte do povo, mesmo quando está a trabalhar, permanece em casa ou não leva uma bandeira para o directo.

Quem escrutina tem de aceitar escrutínio
A responsabilidade pertence igualmente às direcções editoriais. São elas que escolhem a duração dos directos, os títulos, os convidados e as perguntas que ficam por fazer. Se premiam a excitação e toleram a confusão entre informação e militância, ajudam a produzir a crise de confiança de que depois se queixam.
Quero um jornalismo capaz de incomodar o Governo, a polícia, os partidos e os organizadores de protestos com a mesma independência. Um jornalismo que investigue a habitação para além das tendas e examine as tendas para além da propaganda.
Quem quer militar tem toda a liberdade para o fazer. Aos cidadãos assiste o direito de saber quando estão perante militância. A carteira profissional exige mais do que transportar um microfone para dentro de uma causa.

Fontes