Durante anos discutiu-se como chamar-lhes. Talvez esteja na altura de perguntar porque é que os eleitores lhes chamam.
Podemos continuar a chamar-lhes populistas, radicais, extremistas, fascistas, extrema-direita ou escolher qualquer outra palavra suficientemente assustadora para evitar a pergunta desagradável.
Quer à esquerda, quer à direita, estarão os velhos partidos - e, sobretudo, as ideologias políticas do pós-guerra que os sustentaram - a começar a desaparecer?
Talvez o fenómeno político europeu mais importante deste nosso tempo já não seja o crescimento dos chamados partidos “populistas”. Talvez seja a progressiva retirada do consentimento popular às respostas que os partidos tradicionais deram, durante décadas, às grandes questões europeias.
A Alemanha deixou ontem um aviso difícil de ignorar
Na Saxónia-Anhalt, a AfD venceu as eleições regionais de 6 de Setembro com 43,8% dos votos. Mais do dobro do resultado obtido em 2021. A CDU ficou reduzida a 17,2%.
Não estamos perante 8%, 12% ou mesmo 20% de voto de protesto. Estamos perante uma força política que se tornou, naquele Estado alemão, claramente maioritária em relação a qualquer dos partidos tradicionais.
E a evolução programática da AfD é igualmente instrutiva. A sua corrente na Saxónia-Anhalt já não se limita a exigir a expulsão de quem permanece ilegalmente no país. Questiona a dependência estrutural da Alemanha de trabalhadores estrangeiros, contesta a imigração como resposta permanente ao declínio demográfico e pretende reverter parte da liberalização das regras de nacionalidade.
O que está em causa já não é apenas controlar fronteiras. É discutir que sociedade deverá existir dentro delas.
França: já não se fala apenas de “controlar”
Em França, o Rassemblement National de Marine Le Pen e Jordan Bardella há muito ultrapassou a velha fórmula da simples “regulação” dos fluxos migratórios.
Defende o fim do reagrupamento familiar enquanto mecanismo automático, a supressão do direito do solo, o tratamento de pedidos de asilo fora do território francês e uma redução muito profunda da imigração legal. Marine Le Pen chegou a defender um saldo anual de imigração de apenas 10 mil pessoas.
Pode concordar-se ou discordar-se. O que já não parece sério é fingir que estas propostas constituem apenas uma excentricidade marginal de alguns eleitores zangados.
Áustria: a palavra que deixou de poder ser pronunciada
Na Áustria, o FPÖ de Herbert Kickl foi ainda mais longe e transformou a palavra remigração em conceito político assumido.
O partido defende uma inversão profunda da política migratória, mais expulsões, fortes limitações ao reagrupamento familiar, redução dos incentivos económicos associados ao acolhimento e uma política que deixe de considerar a imigração crescente como inevitabilidade histórica.
Há poucos anos, pronunciar algumas destas ideias bastaria para colocar imediatamente alguém fora do perímetro do debate aceitável.
Hoje dão votos. Muitos votos.
E depois há a Dinamarca (o caso que lhes estraga a narrativa...)
A Alemanha, França e Áustria ainda permitem ao nosso jornalistado e comentariado resolver o problema recorrendo ao vocabulário habitual: “extrema-direita” mas Mette Frederiksen não é de extrema-direita.
É social-democrata.
E foram os Social-Democratas dinamarqueses que endureceram fortemente a política de asilo, reduziram entradas e reagrupamentos familiares, intensificaram os retornos de requerentes recusados e defenderam centros de recepção e processamento fora da Europa.
Em 2026, o próprio partido pergunta publicamente se a Dinamarca não estará a repetir os “erros dos anos 70” ao receber continuamente grandes contingentes de trabalhadores provenientes de países terceiros.
E aqui começa o verdadeiro problema para a classificação tradicional.
Quando uma política que ontem era denunciada como exclusiva da “extrema-direita” passa a ser praticada por um dos mais antigos partidos social-democratas da Europa, talvez não estejamos apenas perante uma deslocação da direita.
Talvez estejamos perante uma deslocação do próprio centro político.
A imigração é apenas o sintoma mais visível
Seria um erro reduzir esta transformação à imigração.
A mesma ruptura começa a aparecer na discussão sobre soberania nacional, globalização, política industrial, proteccionismo, natalidade, família, prioridade dos nacionais no Estado social, segurança, identidade cultural e relação entre os Estados e a União Europeia.
Até a velha separação económica entre direita liberal e esquerda social começa a desfazer-se. Algumas das chamadas novas direitas recuperam temas laborais, sociais e proteccionistas que a velha direita abandonara e que uma esquerda progressivamente cultural e identitária deixou de monopolizar.
O mapa político está, portanto, a ser redesenhado diante dos nossos olhos.
Os partidos podem sobreviver. O mundo que representavam é que pode não sobreviver com eles.
A CDU continuará a chamar-se CDU. Os Socialistas franceses continuarão a existir. Os partidos Social-Democratas europeus conservarão sedes, símbolos e aparelhos. Os partidos Liberais e Democrata-Cristãos também.
Mas isso não significa que sobreviva o consenso político em que todos eles viveram durante décadas.
É esse, provavelmente, o verdadeiro significado do que está a acontecer.
Podemos continuar a discutir se a AfD é radical, se o RN é populista, se Kickl é extremista ou se determinados conceitos são aceitáveis no salão respeitável do comentário televisivo.
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Enquanto discutimos os rótulos, os eleitores estão a mudar o conteúdo.
E talvez, daqui a alguns anos, percebamos que o fenómeno decisivo não foi a chegada dos chamados “extremos”.
Foi o desaparecimento do mundo político que lhes abriu a porta.
