Mil vezes repetido, um spin passa a verdade?
É precisamente o que começa a acontecer no chamado caso Luís Neves.
A acreditar em certo jornalistado e comentariado, tudo teria começado quando o CHEGA resolveu, por capricho, apresentar uma moção de censura. André Ventura teria descoberto mais uma oportunidade para aparecer nas televisões, provocar o Governo e fabricar uma crise política onde nada de substancial existiria.
Só há um pequeno problema: os factos vieram antes do CHEGA.
Vieram das notícias. Vieram de jornalistas que fizeram aquilo que o jornalismo deve fazer: investigar, perguntar, contrariar versões oficiais e não pedir licença ao politicamente correcto.
E chegaram depois à própria Procuradoria-Geral da República.
Amadeu Guerra, o PGR, confirmou a existência de três inquéritos criminais relacionados com Luís Neves, aos quais acrescem processos de outra natureza. Dois dos inquéritos foram considerados suficientemente relevantes para continuarem a ser tramitados com urgência durante as férias judiciais.
Portanto, talvez seja conveniente acertar os relógios: não foi o CHEGA que inventou os inquéritos; foram os inquéritos e as notícias que criaram o problema político.
Quando a imprensa faz jornalismo
É por isso justo reconhecer o trabalho daquela parte da imprensa que recusou o silêncio confortável.
Sem essas notícias, provavelmente continuaríamos entre explicações administrativas, coincidências, informalidades, equívocos, atrelados, automóveis apreendidos, obras particulares e sucessivas versões tranquilizadoras.
Uma imprensa livre não existe para proteger governos. Nem ministros. Nem oposições.
Existe precisamente para incomodar todos eles.
E talvez seja essa imprensa divergente — tantas vezes desprezada porque não acompanha o consenso do comentariado televisivo — que ainda impede que determinados assuntos sejam enterrados debaixo da conveniente designação de “polémica política”.
O CHEGA não inventou o caso. Politizou as consequências
Pode discutir-se a proporcionalidade de uma moção de censura ao Governo por causa da permanência de um ministro. Isso é legítimo.
O que não é intelectualmente sério é fingir que a moção criou o problema.
O CHEGA confrontou-se com uma limitação institucional: o Parlamento português não dispõe de um instrumento equivalente a um “impeachment” parlamentar de um ministro, capaz de obrigar autonomamente à sua demissão.
Um ministro responde politicamente perante o primeiro-ministro. Se Luís Montenegro decide mantê-lo, é inevitavelmente a responsabilidade política do chefe do Governo que passa a estar em causa.
Daí a moção de censura.
Pode considerar-se excessiva. Pode votar-se contra. Mas não se pode simultaneamente proclamar que o caso Luís Neves é grave, exigir esclarecimentos, admitir comissões de inquérito — e depois tratar como extravagante o partido que resolveu levar essa responsabilidade política até às últimas consequências.
A estranha cegueira dos outros
André Ventura chamou-lhe uma espécie de “esquizofrenia de coragem”. A expressão é brutal, mas identifica uma contradição evidente.
Vários partidos reconhecem a gravidade do problema. Criticam Luís Neves. Querem explicações. Alguns admitem investigação parlamentar.
Mas quando chega o momento de assumir consequências políticas, recuam.
E então o problema passa subtilmente a ser… o CHEGA.
É um mecanismo já conhecido: primeiro ignoram-se as notícias; depois minimizam-se os factos; finalmente, quando já não é possível ignorá-los, transfere-se o centro da discussão para quem teve a ousadia de os transformar numa questão política.
Há que branquear as notícias e voltar a nomear os culpados do costume.
Desta vez, porém, existe um obstáculo difícil de apagar: os jornalistas investigaram, o Ministério Público abriu inquéritos e o Procurador-Geral confirmou-os publicamente.
O CHEGA veio depois.
E mil repetições de um spin não conseguem alterar essa cronologia.
Porque, em democracia, antes da conveniência partidária deveria existir uma coisa muito mais simples:
DECÊNCIA senhores: O CHEGA veio depois.
