sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Populismo: O novo bicho-papão

Na sequência das eleições de Donald Trump, de Jair Bolsonaro e do Brexit, bem como o crescimento de vários partidos de direita radical na Europa, assistimos a uma crescente vaga de intelectuais e figuras públicas a anunciar o “fim da democracia liberal”, ou pelo menos a sua deterioração. O populismo tornou-se a palavra do momento. Este termo passou a ser utilizado abundantemente por cronistas e comentadores que pretendem explicar o mundo, pelos actores políticos que tencionam atacar os adversários, e mesmo pelos cidadãos “normais” em conversas sobre política com familiares e amigos. O populismo tornou-se a grande explicação do mundo.

Pessoalmente, seria a favor de uma moratória à utilização do termo “populista”. No entanto, dada a ubiquidade do termo, sinto-me na obrigação de escrever esta crónica sobre populismo e apresentar uma série de estudos cujas conclusões deveriam colocar em causa a confiança que depositamos nesse conceito como explicador de tanta coisa no mundo de hoje.

No discurso público, comentadores, políticos e cidadãos frequentemente utilizam o termo “populismo” como eufemismo para radical ou extremo. Quando querem classificar uma pessoa ou um partido como sendo de direita radical, esquerda radical, extrema-esquerda e extrema-direita dizem que este é “populista”. É menos incomodativo chamar alguém “um populista” do que “um radical”. Mas é perfeitamente possível um partido (ou uma pessoa) ter uma ideologia radical e não ser populista. Da mesma forma, um partido pode perfeitamente ser altamente populista no discurso e ter uma ideologia centrista ou mesmo não ter nenhuma ideologia coerente. O populismo é, portanto, habitualmente tratado na literatura académica como sendo uma “thin ideology” (uma ideologia de espessura muito fina) que poderá ser combinado com uma qualquer ideologia política mais substancial, da esquerda à direita. Estas ideologias mais substanciais costumam denominar-se de “hosting ideologies” (ideologias anfitriãs), porque são o prato principal que é apenas adornado pela camada fina do “populismo”. Ainda assim, a maioria dos cientistas políticos considera que o populismo é uma ideologia, composta por alguns elementos ortogonais à tradicional divisão esquerda-direita: ideias anti-elitistas, anti-pluralistas e centradas num “povo bom” amaldiçoado por elites ou minorias corruptas. Embora esta definição de populismo como “thin ideology” tenha ganho força alguns académicos consideram até que o populismo não chega a ser uma ideologia, mas apenas um estilo discursivo, um modo de falar e fazer política, ortogonal a qualquer pensamento ou posicionamento. Talvez me situe entre as duas posições, porém o mais importante é que, em ambos os casos, é possível separar o grau de populismo de um partido das suas posições substantivas.


Tudo isto pode parecer uma discussão meramente académica e semântica sem qualquer interesse prático e político para a maioria das pessoas. Mas não é. A distinção entre o que é populismo e o que é a ideologia substantiva é absolutamente essencial se queremos perceber o eleitorado, a evolução das várias famílias partidárias, e encontrar potenciais soluções para reduzir o descontentamento da população e a diminuição do peso dos extremos na vida política.

Se as pessoas escolhem determinados partidos por causa da sua dimensão populista, isto significa que não concordam com as ideias e propostas políticas substantivas avançadas por esses partidos. Se for esse o caso, uma fatia considerável do eleitorado vota em determinado partido porque se sente descontente e impotente e utiliza o seu voto num partido anti-establishment para expressar esse descontentamento. No entanto, nesta versão dos factos, o estilo “populista” é uma espécie de feitiço mágico que seduz os eleitores menos instruídos e informados. O feitiço populista poderia, assim, levar os descontentes a votar “contra o seu próprio interesses”, isto é, em partidos com objectivos ideológicos, económicos e sociais diferentes dos objectivos dos descontentes que neles votam. Desta forma, os eleitores são “enganados”: votam em partidos achando que estes poderão resolver a sua má situação ou a má situação do país, mas esse voto não se traduz na melhoria das suas vidas. Frequentemente, os partidos anti-establishment acabam por não resolver nenhum dos problemas dos descontentes.

Uma outra opção é admitir que os eleitores não são parvos. É perfeitamente possível que eleitores que discordam de muitas das propostas políticas substantivas de partidos radicais e anti-establishment tenham a perfeita noção que não concordam totalmente com as propostas avançadas por esses partidos. Ainda assim, escolhem votar neles. Porquê? Porque decidem utilizar o seu voto de forma expressiva. Neste caso, como forma de expressar o seu descontentamento, mesmo que não acreditem que o seu voto terá qualquer consequência positiva ou instrumental. Ainda assim, na maioria destes casos, os eleitores estão geralmente minimamente informados sobre as posições ideológicas do partido no qual estão a votar e, apesar de poderem não concordar totalmente com elas, também não se sentem muito desconfortáveis com as propostas políticas subjacentes.

Claro que há ainda uma terceira opção. Muitos dos eleitores que votam em partidos de extrema-esquerda e extrema-direita podem realmente concordar, total ou parcialmente, com as propostas substantivas que esses partidos defendem. Com toda a conversa sobre o enorme poder do “populismo”, será que afinal de contas os eleitores não votam num partido por causa das suas mensagens populistas? É isso que nos tem dito a investigação mais recente sobre o assunto, realizada nos contextos partidários norte-americano e alemão. Os artigos tentam discernir o efeito da utilização de um estilo e linguagem populista do efeito da “ideologia anfitriã” (hosting ideology), qualquer que esta seja – da esquerda à direita. Os resultados são muito interessantes. Em geral, a investigação, realizada de forma totalmente separada por autores diferentes, encontra os mesmos resultados. Os eleitores não são sistematicamente afectados por mensagens populistas e escolhem o seu partido preferido baseado na ideologia e políticas públicas que esses partidos defendem e não por causa da utilização de uma retórica mais ou menos populista. Note-se que, em geral, os eleitores alemães são menos populistas que os americanos nas suas atitudes, mas ainda assim o efeito de um populismo “soft” é relativamente reduzido. O efeito da ideologia é muito superior ao do “populismo”, suposta causa explicativa de todos os males políticos da actualidade.

Naturalmente, o contexto português é marcadamente diferente dos contextos americano e alemão. Desde logo, enquanto nestes dois países os principais temas dos partidos mais populistas de direita tendem a centrar-se na questão da imigração, em Portugal esse discurso ainda não está consolidado. Apesar de algumas sugestões e tentativas, o Chega não parece ter como tema principal a imigração, mas sim uma mescla de vários temas. Penso que, actualmente, ainda não temos dados para saber por que razão os eleitores escolhem votar no Chega nem quais as suas posições políticas mais populares.

Pessoalmente, creio que a maioria dos eleitores não são estúpidos e não é possível manipular sistematicamente uma porção significativa do eleitorado, contra os seus próprios interesses. Pelo contrário, penso que aqueles que votam em partidos denominados “populistas” se dividem em dois grupos: aqueles que votam neles pela sua proximidade ideológica e aqueles que votam neles como forma expressiva de descontentamento, sem esperar que estes partidos resolvam grande coisa.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Marcelo negativo pela primeira vez

Presidente está em queda desde outubro. Já só lhe sobram os eleitores do PSD .

Adivinhava-se que poderia acontecer e o barómetro de dezembro da Aximage para o DN, JN e TSF confirma: Marcelo Rebelo de Sousa regista, pela primeira vez, um saldo negativo na avaliação dos portugueses (mais notas negativas do que positivas). O único segmento da amostra em que o Presidente se mantém acima da linha de água é entre os eleitores do PSD.
Depois de um pico de popularidade, em julho passado, na sequência do conflito com António Costa e do "deplorável" episódio que envolveu João Galamba, o Presidente começou a acusar o desgaste. Perdeu fôlego na avaliação de outubro e, em novembro, depois de decidir dissolver a Assembleia da República e antecipar as eleições, só conseguiu quatro pontos de saldo positivo. Em dezembro, com o caso das gémeas luso-brasileiras a marcar a agenda mediática, passa para um saldo negativo de 17 pontos.
Quando se analisam os segmentos geográficos, Marcelo está no vermelho em todas as regiões: o Centro continua a ser o terreno mais favorável (saldo negativo de dois pontos) e o Porto o mais cáustico (saldo negativo de 34 pontos). A tendência para uma menor tolerância entre os homens volta a confirmar-se (saldo negativo de 26 pontos), mas a novidade deste barómetro é que também as mulheres fazem agora uma avaliação negativa do Presidente da República (saldo negativo de 10 pontos).
Se se tiver em conta as preferências partidárias dos eleitores, Marcelo só se mantém à tona entre os sociais-democratas (embora com uma erosão significativa, de 37 para 7 pontos de saldo positivo). Os eleitores socialistas, que foram o principal pilar da popularidade do Presidente, abandonaram-no definitivamente (de 46 pontos de saldo positivo em outubro, para 20 pontos de saldo negativo em dezembro).[Rafael Barbosa 30 Dezembro 2023)

Diário de Noticias: Avaliação aos oito anos de Governo de Costa é positiva

António Costa chega ao fim do seu tempo como primeiro-ministro com saldo positivo entre os portugueses. De acordo com uma sondagem da Aximage para o DN, JN e TSF, são mais os que dão boa nota (41%) aos seus oito anos de Governo, do que os que fazem uma avaliação negativa (36%). São também em maior número (39%) os que acreditam que o seu desempenho terá um efeito positivo nos resultados do PS, mesmo que a maioria (48%) entenda que não deve participar na campanha.
O país foi abalado por uma inédita crise política a 7 de novembro. Na sequência de uma investigação do Ministério Público, o primeiro-ministro apresentou a sua demissão, prontamente aceite pelo Presidente da República, que haveria de optar, poucos dias depois, pela dissolução da Assembleia da República e a marcação de eleições antecipadas para 10 de março. Tudo apontava, então, para o fim da longa carreira política de António Costa. Uma morte que talvez tenha sido prematuramente anunciada. De então para cá, o ainda primeiro-ministro desdobrou-se em entrevistas, proclamações oficiais e intervenções avulsas. E parece ter virado a maré a seu favor.
Da última vez que o barómetro da Aximage para o DN, JN e TSF mediu o desempenho do então primeiro-ministro, em outubro passado, o saldo era de 22 pontos negativos (mais avaliações negativas do que positivas). António Costa esteve no vermelho desde julho de 2022 (escassos seis meses depois de ter conseguido uma maioria absoluta nas urnas) e a avaliação agravou-se ao longo do último ano. Mas, quando se pergunta, agora, que balanço fazem, já não dos últimos 30 dias, mas do conjunto dos oito anos de Governo, o saldo é positivo.

Quando se analisam os diferentes segmentos da amostra, percebe-se, no entanto, que não há unanimidade. A avaliação ao consulado de Costa é mais generosa nos dois escalões mais velhos, em particular entre os que têm 65 ou mais anos (saldo positivo de 23 pontos); e mais cáustica nos dois escalões mais novos, em particular nos que têm 18 a 34 anos (saldo negativo de 14 pontos). Ao nível regional, o saldo é negativo na Área Metropolitana do Porto e no Centro (dois pontos) e o melhor resultado é o do Sul e Ilhas (saldo positivo de 20 pontos). Quando a análise incide nos segmentos partidários, não há surpresas: os mais satisfeitos são os que votam à esquerda (sobretudo os socialistas), enquanto os eleitores à direita fazem uma avaliação bastante negativa.
Positivo para o PS
Tanto António Costa, quanto o seu sucessor, Pedro Nuno Santos, já deixaram claro que, nas eleições de 10 de março, também é o legado destes oito anos que vai a votos. E são mais (39%) os que acham que isso terá uma influência positiva no resultado eleitoral do PS, do que os que acham que terá repercussões negativas (30%). Entre o primeiro grupo destacam-se os que vivem a Sul, os homens, os mais velhos e os eleitores socialistas; no segundo avultam os mais jovens e os que votam nos três principais partidos à direita.
Finalmente, são também 39% os que querem ver António Costa ao lado de Pedro Nuno Santos na campanha eleitoral dos socialistas. Um desejo que o primeiro-ministro já expressou mais do que uma vez, e que o novo líder do PS acolheu. Mas são mais ainda os que pensam que não é uma boa ideia (48%), em particular os que vivem no Porto, os mais jovens e as mulheres (53%). (Rafael Barbosa 30 Dezembro 2023 — 09:00)

para memória futura!

quando o OBSERVADOR virou TSF (ou similar) com
Anselmo Crespo, Mafalda Pratas Fernandes e André Maia

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Era o Paquete RITA MARIA. Levou-me à GUINÉ !

Era o dia 26 de Dezembro de 1968 quando partimos do Cais da Rocha Conde de Óbidos em Lisboa. A chegada foi a 9 de Janeiro de 1969 ao Cais do Pigiguiti em Bissau.

o RITA MARIA
No âmbito da renovação da frota mercante nacional a seguir à segunda guerra mundial, seguindo as directrizes do Despacho 100 do Ministro da Marinha Cte. Américo Thomaz, a Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes mandou construir nos estaleiros da CUF, em Lisboa, quatro navios mistos de passageiros e carga destinados principalmente à carreira de Cabo Verde e Guiné, o maior dos quais foi o RITA MARIA, de que apresentamos duas fotografias, na fase final da sua existência, com as cores da Companhia Nacional de Navegação.
O RITA MARIA foi lançado à água no estaleiro da Rocha em Outubro de 1952 e entregue à Sociedade Geral um ano depois, a 6 de Outubro de 1953.
Em 1959 foi alongado, com a inserção de uma nova secção no casco, por vante do casario. Em 1972 foi um dos navios da S.G. transferidos para a CNN.

O RITA MARIA completou a última viagem em 1977 e foi vendido no ano seguinte, sendo desmantelado parcialmente e transformado em batelão. Como tal operou no Tejo muitos anos ao serviço da empresa SOCARMAR.
O RITA MARIA transportava 70 passageiros
Texto de L. M. Correia. Fotos de LMC (PB) e da colecção L. M. Correia - 19 Fevereiro 2007