reVISÕES
sexta-feira, 17 de julho de 2026
quinta-feira, 16 de julho de 2026
A Metapolítica como Nova Frente de Combate Cultural na Europa
- · Domínio Cultural: Focada na conquista da hegemonia cultural (popularizada por pensadores como Antonio Gramsci), busca moldar a linguagem, a moral e o imaginário coletivo.
- · Dimensão Filosófica: Dedicada ao estudo dos fundamentos atemporais e das grandes categorias que condicionam o agir humano.
- · Correntes Radicais: A actuação que visa superar as próprias bases da política institucional tradicional.
- - A política é cultural antes de ser eleitoral.
- - A identidade é o eixo central da mobilização.
- - O universalismo liberal é visto como ideologia dominante a contestar.
- - A guerra cultural é método e não apenas retórica.
- - A influência da Nouvelle Droite é directa ou indirecta.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
A Direita precisa de aprender com Gramsci — sem se tornar gramsciana
- Gramsci oferece instrumentos para compreender a hegemonia.
- Leão XIII oferece princípios para orientar a sociedade.
Notas
[1] Duarte Branquinho, «Para um gramscismo de direita», Breviário, Junho de 2026: breviario.substack.com.
[2] Sobre a circulação do conceito de «gramscismo de direita» entre a Itália e a França e a recepção de Gramsci pelo GRECE, ver Le Monde, «Entre l’Italie et la France, itinéraire du “gramscisme de droite”».
[3] Karl Ekeman, análise sobre o «gramscianismo de direita», metapolítica e estratégia cultural, Columbia Center for Contemporary Critical Thought.
[4] Estudos sobre Jean-Yves Le Gallou enquanto mediador de ideias, promotor da reinformação e organizador de redes metapolíticas francesas.
[5] Estudos académicos sobre Marco Tarchi e a Nuova Destra italiana, incluindo a sua actividade editorial, metapolítica e apropriação crítica de conceitos gramscianos.
[6] Francesco Giubilei, «Cultural Hegemony and the Need for Conservatives to Build a Cultural Policy», Deliberatio.
[7] Frank Furedi, intervenções sobre hegemonia cultural, liberdade de expressão e contestação das ortodoxias institucionais europeias.
[8] Benedikt Kaiser, Der Hegemonie entgegen — Gramsci, Metapolitik und Neue Rechte, Jungeuropa Verlag.
[9] Duarte Branquinho tem desenvolvido, em textos, intervenções e publicações digitais, temas relacionados com a Nouvelle Droite, a metapolítica, Jean-Yves Le Gallou e a recepção não marxista de Gramsci.
domingo, 12 de julho de 2026
Da Velha à Nova Direita: uma mudança de paradigma na política europeia
Durante décadas, a direita europeia habituou-se a definir-se sobretudo por oposição à esquerda. Defendia a economia de mercado, a propriedade privada, a autoridade do Estado e a estabilidade institucional, mas raramente produzia uma reflexão própria sobre a cultura, a identidade ou a formação das ideias dominantes. Limitava-se, muitas vezes, a gerir a realidade construída pelos seus adversários.
É precisamente contra esta insuficiência intelectual que surge aquilo a que hoje chamamos Nova Direita. Importa, porém, distinguir dois significados frequentemente confundidos.O primeiro refere-se à Nouvelle Droite francesa, nascida no final da década de 1960 em torno do GRECE e de autores como Alain de Benoist, Dominique Venner ou, em sentido mais amplo, Julien Freund. Não se trata de um partido político, mas de uma escola de pensamento que pretende reconstruir a cultura política europeia através da filosofia, da história, da antropologia e da reflexão sobre a civilização.
O segundo significado diz respeito ao conjunto de partidos nacional-conservadores, soberanistas e identitários que cresceram em praticamente toda a Europa nas últimas duas décadas. Embora muitos deles revelem afinidades intelectuais com algumas ideias da Nouvelle Droite, não constituem uma tradução automática desse pensamento nem possuem entre si a mesma coerência doutrinária.
É precisamente esta distinção que Duarte Branquinho tem procurado estabelecer. Nos seus textos, a Nova Direita aparece antes de tudo como uma renovação intelectual da direita europeia e não apenas como uma sucessão de partidos eleitorais.
Essa renovação parte de uma crítica comum às grandes ideologias do século XX. Recusa o marxismo por reduzir a sociedade à luta de classes e ao igualitarismo abstracto. Recusa igualmente o liberalismo absoluto quando este dissolve todas as comunidades históricas em nome do indivíduo isolado e do mercado global.
A questão central deixa então de ser exclusivamente económica para se tornar essencialmente civilizacional.
É neste ponto que Alain de Benoist desempenha um papel decisivo. Em Vu de droite — publicado em Portugal sob o título Nova Direita, Nova Cultura — defende que a verdadeira batalha política é, antes de tudo, uma batalha cultural. As sociedades vivem de valores, símbolos, memórias e identidades antes de viverem de programas eleitorais.
Curiosamente, esta ideia aproxima-se de uma das maiores intuições de Antonio Gramsci. Embora separados por universos ideológicos completamente distintos, ambos reconhecem que quem conquista a hegemonia cultural prepara inevitavelmente a hegemonia política.
Gramsci via essa hegemonia como instrumento da transformação socialista. A Nova Direita procura utilizar o mesmo método para fins diferentes: recuperar a continuidade histórica das nações, reforçar a identidade europeia e reconstruir o espaço cultural perdido pela direita tradicional.
É precisamente esta recuperação da leitura gramsciana que Benedikt Kaiser desenvolveu de forma particularmente sistemática. Kaiser considera que a direita deixou durante demasiado tempo a cultura, a universidade, a comunicação social e as organizações intermédias entregues à esquerda. Daí defender uma verdadeira metapolítica, entendida não como propaganda, mas como construção paciente de um novo consenso cultural capaz de anteceder qualquer vitória eleitoral.
Nesta perspectiva, a política começa muito antes das eleições. Começa nas escolas, nas universidades, nas associações, nos sindicatos, nas redes sociais, nas editoras, nos jornais, nas famílias e nas comunidades concretas.
A influência de Julien Freund introduz uma dimensão complementar. Freund recorda que o político possui autonomia própria e que nenhuma sociedade pode eliminar definitivamente o conflito. A distinção entre amigo e adversário, a necessidade da autoridade e a permanência das comunidades políticas pertencem à própria condição humana. A política não desaparece através da moralização do discurso público nem mediante a simples gestão técnica dos problemas.
Dominique Venner acrescenta outra preocupação: a continuidade histórica da civilização europeia. A identidade não resulta apenas da cidadania jurídica; constrói-se através da memória, da tradição, da cultura e da transmissão entre gerações.
Neste aspecto, a Nova Direita distancia-se simultaneamente do nacionalismo puramente estatista e do cosmopolitismo globalista. A comunidade nacional deixa de ser apenas uma realidade administrativa para voltar a ser entendida como uma comunidade histórica.
Mas talvez exista um elemento frequentemente esquecido neste debate. Muito antes da Nouvelle Droite, Leão XIII havia procurado responder à questão social através da encíclica Rerum Novarum.
Contra o socialismo revolucionário, defendeu a propriedade privada, a família e a liberdade. Contra o capitalismo desumanizado, defendeu o salário justo, a dignidade do trabalho, o descanso, a associação profissional e a responsabilidade social dos empregadores.
A Doutrina Social da Igreja ofereceu, assim, uma terceira via que recusava tanto o collectivismo como o individualismo económico absoluto.Sob este prisma, não deixa de ser significativo que alguns sectores da direita europeia contemporânea tenham voltado a colocar a questão social no centro do seu discurso. A defesa do trabalho, da família, da natalidade, da subsidiariedade e da coesão nacional aproxima-se, em diversos aspectos, da tradição inaugurada por Leão XIII, ainda que cada partido a interprete de forma distinta.
É neste enquadramento que Duarte Branquinho situa o fenómeno português. Na sua leitura, Portugal deixou de constituir a antiga “excepção portuguesa”, caracterizada durante décadas pela ausência de uma direita nacional-popular comparável à existente em França, Itália, Áustria ou Países Baixos.
Todavia, Branquinho distingue cuidadosamente entre uma família intelectual e um partido concreto. Reconhece que o CHEGA participa de várias das preocupações presentes na Nova Direita europeia — soberania, identidade, imigração, crítica do multiculturalismo ou da burocracia europeia — mas considera igualmente que determinadas opções tácticas e eleitorais podem comprometer a coerência doutrinária de um projecto político.
A sua crítica ao chamado “chegalismo” deve ser entendida precisamente nesse contexto: como advertência contra o risco de substituir uma arquitectura intelectual consistente por uma sucessão de respostas conjunturais às expectativas eleitorais.
Esta distinção merece ser preservada. Nenhuma escola de pensamento se esgota num partido. Nenhum partido representa integralmente uma tradição intelectual. As ideias possuem normalmente um tempo muito mais longo do que os ciclos eleitorais.
Talvez seja precisamente aqui que resida a principal novidade da Nova Direita. Ela procura deixar de ser apenas uma direita parlamentar para voltar a ser uma direita cultural.
Pretende disputar universidades, editoras, centros de investigação, meios de comunicação, fundações, associações cívicas e espaços de produção simbólica. Noutras palavras, procura construir aquilo que Gramsci chamaria uma nova hegemonia cultural, mas colocando essa hegemonia ao serviço de valores radicalmente diferentes.
A velha direita acreditava que bastava ganhar eleições. A Nova Direita parte de um pressuposto distinto: antes das urnas existe a cultura; antes dos governos existe a visão do mundo; antes das maiorias existe aquilo que uma sociedade considera naturalmente verdadeiro.
É por isso que a verdadeira mudança talvez não consista apenas no aparecimento de novos partidos, mas no reaparecimento de uma tradição intelectual que durante décadas permaneceu dispersa, marginalizada ou esquecida.
Se esse processo conduzirá a uma verdadeira renovação da direita europeia permanece uma questão em aberto. Mas uma coisa parece hoje evidente: a discussão deixou de ser apenas sobre governos.
Passou a ser, sobretudo, sobre civilização.
sexta-feira, 10 de julho de 2026
O CHEGA entre Gramsci, Benedikt Kaiser e Leão XIII
O jornalismo (num país livre e democrático) não existe para confirmar convicções; existe para investigar factos, contextualizá-los e permitir que os cidadãos formem a sua própria opinião.
A política portuguesa atravessa uma fase de transformação conceptual. As categorias que dominaram o debate público desde os anos 1990 tornaram-se insuficientes para explicar fenómenos híbridos que combinam crítica social, retórica nacional, combate cultural e contestação institucional. O CHEGA é o caso mais evidente desta mutação.Este texto procura investigar factos, contextualizar discursos e situar o fenómeno numa genealogia intelectual mais ampla, sem confirmar convicções prévias.2. O CHEGA, Gramsci e a despesa “de esquerda”A teoria gramsciana da hegemonia cultural oferece uma chave de leitura útil: disputar o senso comum implica disputar os temas que estruturam a vida quotidiana. O CHEGA tem vindo a ocupar um espaço discursivo tradicionalmente associado à esquerda — despesa social, protecção dos vulneráveis, crítica à desigualdade — mas reinterpretando-o através de uma gramática moral, nacional e securitária.Esta inversão estratégica procura construir um “povo” politicamente mobilizado através da questão social, sem adoptar o enquadramento igualitário da esquerda clássica.3. Gramsci, Benedikt Kaiser e Leão XIII na questão socialA leitura gramsciana, porém, é insuficiente para explicar a totalidade do fenómeno. Surge aqui Benedikt Kaiser, publicista político da Nova Direita alemã, que defende uma crítica de direita ao capitalismo como parte de uma estratégia transversal. Kaiser argumenta que a direita deve disputar a questão social, não abandoná-la às forças progressistas.A isto soma-se Leão XIII e a doutrina social da Igreja, que articulam justiça social, dignidade humana e preocupação com os trabalhadores dentro de uma visão moral e comunitária.O CHEGA opera, assim, num cruzamento inesperado: crítica cultural (Gramsci), crítica de direita ao capitalismo (Kaiser) e intuições de justiça social (Leão XIII).Há evidências que sustentam esta hipótese:- . reforço da linguagem sobre salários, habitação, pobreza e serviços públicos;
- . disputa do eleitorado popular urbano e periurbano;
- . centralidade crescente da questão social nos discursos parlamentares.
Contudo, permanece uma ambiguidade entre retórica social e propostas concretas. 5. Uma direita metapolítica, social, nacional e pró-europeia?Esta hipótese é mais exigente, mas também mais explicativa:- .Metapolítica: deslocar o combate para o plano cultural e civilizacional;
- .Social: apropriação da questão social como instrumento de disputa hegemónica;
- .Nacional: reforço da identidade, soberania e comunidade moral;
- .Pró-europeia (civilizacional): defesa da Europa como espaço histórico e cultural, acompanhada de crítica às instituições europeias enquanto estruturas tecnocráticas.
Se esta síntese estiver a emergir, Portugal poderá estar a assistir ao nascimento de uma direita inédita no seu sistema político. 6. Concluindo: Interpretar politicamente sem confirmar convicçõesA epígrafe que abre este texto é metodológica: a análise política séria exige investigação, não militância; exige contexto, não slogans; exige categorias novas, não reciclagem das antigas.Este ReVisões continuará a trabalhar neste sentido!
- . reforço da linguagem sobre salários, habitação, pobreza e serviços públicos;
- . disputa do eleitorado popular urbano e periurbano;
- . centralidade crescente da questão social nos discursos parlamentares.
- .Metapolítica: deslocar o combate para o plano cultural e civilizacional;
- .Social: apropriação da questão social como instrumento de disputa hegemónica;
- .Nacional: reforço da identidade, soberania e comunidade moral;
- .Pró-europeia (civilizacional): defesa da Europa como espaço histórico e cultural, acompanhada de crítica às instituições europeias enquanto estruturas tecnocráticas.
quinta-feira, 9 de julho de 2026
A Construção Mediática do Chega: Lições de França e o Caso Português
A relação entre os Órgãos de Comunicação Social e os partidos classificados como “anti‑sistema” tornou‑se, na última década, um dos temas centrais da sociologia política europeia. Não se trata apenas de medir simpatias ou antipatias: trata‑se de compreender como se constrói, quotidianamente, a percepção pública de actores políticos que desafiam o consenso dominante. França foi pioneira neste campo ao estudar, com rigor metodológico, o enquadramento mediático do Rassemblement National. O que se descobriu não foi uma conspiração, mas sim um conjunto de incentivos internos, alinhamentos institucionais e pressões culturais que produziam, de forma sistemática, uma narrativa desfavorável.
Portugal encontra‑se hoje num ponto semelhante. O
crescimento do Chega e a centralidade mediática de André Ventura tornaram o
partido num objecto permanente de escrutínio. A percepção pública — amplificada
por redes sociais, comentadores e militâncias adversárias — é a de que existe
uma “hostilidade estrutural” dos OCS. Contudo, quando se analisam casos
concretos, como os artigos de 2026 da jornalista Inês André Figueiredo,
verifica‑se que a percepção não coincide com a realidade factual: as peças são neutras, factuais e sem enquadramento adversarial. Este contraste entre sensação e facto é, por si
só, revelador.
A discrepância não deve ser ignorada. Pelo contrário: deve
ser estudada. Portugal apresenta características que tornam plausível a
existência de fenómenos semelhantes aos franceses — concentração
elevada da propriedade dos media, dependência de publicidade estatal,
homogeneidade sociológica das redacções e crescente polarização política. Estes factores não
produzem, por si, censura formal; produzem algo mais subtil: ambientes editoriais
onde certos enquadramentos se tornam mais prováveis do que outros.
O precedente francês ensina que a análise mediática não pode
assentar em impressões, indignações momentâneas ou leituras partidárias. Exige método, comparação
internacional, análise linguística, estudo institucional e distinção
rigorosa entre narrativa e facto. Só assim se poderá determinar se
existe, em Portugal, um padrão estrutural de negatividade ou se a percepção
pública resulta de outros factores — como a polarização, a amplificação digital
ou a própria estratégia comunicacional dos actores políticos.
Num país em transformação, compreender a relação entre OCS e
política não é apenas um exercício académico: é uma necessidade democrática. E
o primeiro passo é este: separar a percepção da
realidade factual. O segundo será estudar, com seriedade, o que
ainda ninguém estudou.
quarta-feira, 8 de julho de 2026
Quando o Jornalismo troca as Perguntas pelas Convicções
terça-feira, 7 de julho de 2026
A Máquina Mediática e a Imigração: O Caso Observador (2014–2026) como exemplo
O CHEGA, Gramsci e a despesa “de esquerda”
A mesma lógica apareceu no voto ao lado do PS no projecto que obriga o Estado a pagar o prémio salarial de devolução de propinas aos recém-formados, acumulável com o IRS Jovem. Para os liberais de cartilha, isto é horror orçamental. Para a direita antiga, é pecado ideológico. Para André Ventura, é simplesmente política: falar aos jovens, aos trabalhadores, aos reformados, aos antigos eleitores socialistas e comunistas, cansados de décadas de promessas, impostos, moralismo e patranhas.
É aqui que entra Benedikt Kaiser. Em Der Hegemonie entgegen, já traduzido em França como Vers l’hégémonie, Kaiser recupera Gramsci para a Nova Direita: a política não se ganha apenas no Parlamento, mas na cultura, nos valores, nas redes sociais, nos compromissos com grupos concretos e na capacidade de criar uma nova ideia de senso comum.
Há aqui risco, evidentemente. A fronteira entre política social e irresponsabilidade orçamental pode ser estreita. Mas há também uma intuição certeira: se a esquerda ocupou durante décadas o monopólio da “justiça social”, a direita ou disputa esse território ou resigna-se a ser a guarda-livros do regime.
No fundo, André Ventura não está a dizer que o CHEGA é de esquerda. Está a dizer coisa mais perigosa para o sistema: que há causas sociais que não pertencem à esquerda. Pertencem aos portugueses.
Uma história MALcontada…
Há uma regra não escrita na vida pública portuguesa: a violência política só começa a existir quando pode ser atribuída à direita. Antes disso é contexto, excesso, precipitação, juventude, radicalismo generoso, antifascismo exaltado, ou simples nota de rodapé. Depois, quando aparece um caso à direita, real ou alegado, grave ou grotesco, perigoso ou caricatural, o país mediático acorda em sobressalto moral e descobre, enfim, que há extremismo.
Não se trata, evidentemente, de branquear o MAL. Se houve recolha de dados sobre alvos, se houve armamento, se houve planos, se houve preparação de atentados, se houve delírio neonazi, se houve vontade de subverter a ordem democrática, então investigue-se, acuse-se, julgue-se e condene-se. Sem hesitações. Uma democracia que se respeita não deve tratar a violência política como folclore, nem a conspiração armada como brincadeira de miúdos crescidos a brincar aos soldados.
Mas uma democracia que se respeita também não deve ter uma memória selectiva. E é aqui que começa a história MALcontada.
Porque em Portugal há uma violência que parece nascer com cadastro moral perpétuo e outra que nasce logo absolvida pela intenção. A primeira é a violência atribuída à direita. Nunca é caso isolado. Nunca é desvio. Nunca é patologia de meia dúzia. É sempre sintoma de uma família inteira, prova de uma conspiração vasta, confirmação de uma maldade hereditária. A segunda é a violência de esquerda. Essa quase nunca tem genealogia, quase nunca tem cúmplices intelectuais, quase nunca tem ambiente político. Surge, acontece, desaparece e, se possível, é arquivada com uma nota sentimental: eram tempos difíceis.
A Primeira República é um bom começo para esta pedagogia do esquecimento. A narrativa escolar e jornalística apresenta-a, quase sempre, como uma aurora progressista interrompida pela reacção. Mas a aurora, convém recordá-lo, nasceu com pólvora, perseguição e sectarismo. O regicídio de 1908 não foi um acidente meteorológico. Foi violência política. Teve executores, teve ambiente, teve cumplicidades e teve consequências. João Franco, que tentara organizar uma direita nacional moderna, foi neutralizado pelo tiro que matou o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. A Monarquia ficou mortalmente ferida. A República aproximou-se.
Depois veio a República propriamente dita, esse regime que muitos ainda tratam como se tivesse sido uma associação de professores primários, poetas cívicos e liberais de cartola. Na realidade, a Primeira República perseguiu católicos, monárquicos, conservadores e também sindicalistas quando estes se tornaram incómodos. Afonso Costa, grande santo laico do republicanismo radical, representou como poucos essa mistura portuguesa de iluminismo de café, anticlericalismo de seita e pulsão persecutória.
A Lei da Separação do Estado das Igrejas, de 1911, não foi apenas a afirmação institucional da laicidade. Foi também, na prática, um instrumento de agressão política contra a Igreja num país profundamente católico. Ordens religiosas expulsas, bens confiscados, culto fiscalizado, bispos pressionados, jornais católicos atacados, padres humilhados, religiosos proibidos de usar em público as vestes da sua condição. A República que se dizia libertadora começou por libertar os portugueses da sua própria tradição, à força de decreto, polícia e jacobinismo.Quando Pio X denunciou, na encíclica Iamdudum, a ofensiva contra a Igreja em Portugal, não estava a comentar uma pequena fricção administrativa entre o Estado e o altar. Estava a responder a um regime que confundira separação com hostilidade, neutralidade com perseguição e liberdade com vingança ideológica.
Mas disto não se fala muito. Ou fala-se com o sorriso superior de quem acha que os católicos da época, os monárquicos perseguidos e os conservadores esmagados eram apenas restos de um país velho que a História tinha o dever de varrer. Na memória oficial, a violência republicana aparece muitas vezes como preço do progresso. Já a violência da direita, mesmo quando apenas imaginada ou planeada, aparece sempre como prova de barbárie.
Sidónio Pais, com todos os seus equívocos e ambiguidades, tentou pacificar parte do país real, reabrindo pontes com a Igreja e suspendendo a fúria persecutória. Foi assassinado. Também aqui a explicação costuma vir adoçada: um fanático, um perturbado, um acto isolado. Como se os perturbados políticos nascessem no vazio e não fossem frequentemente cultivados por ambientes de ódio, propaganda e demonização.
Em 1921, na Noite Sangrenta, a própria República devorou republicanos. Machado Santos, fundador do regime, foi assassinado. Outros homens ligados ao sidonismo foram abatidos. A rua armada, a guarda republicana indisciplinada, os marinheiros sem comando e a violência política entraram em cena. Mas a esquerda revolucionária tem sempre esta vantagem: quando mata os seus adversários, a culpa é da História; quando se mata a si própria, a culpa é da instabilidade.
O 28 de Maio de 1926 não caiu do céu. Nasceu também do cansaço de um país farto de governos de quatro meses, desordem crónica, violência facciosa e incapacidade de Estado. Isto não desculpa tudo o que veio depois. Mas ajuda a compreender por que razão tantos portugueses aceitaram, apoiaram ou toleraram a solução militar. A História não começa no ponto em que convém à propaganda.
Depois veio o Estado Novo, com a sua própria repressão, censura e polícia política. E também aí houve tentativas de assassinar Salazar, como houve resistência, conspiração, oposição legítima e oposição revolucionária. A violência política atravessou regimes, cores e mitologias. Só não atravessa, pelos vistos, a memória selectiva dos que hoje distribuem certificados de virtude democrática.
Abril de 1974 trouxe liberdade, mas também trouxe o PREC, prisões arbitrárias, saneamentos, cercos, ameaças, sequestros morais, fuzilamentos simulados e uma atmosfera em que chamar “fascista” a alguém podia ser o primeiro passo para lhe retirar emprego, honra, segurança e direitos. A extrema-esquerda revolucionária não era uma metáfora. Tinha sedes, jornais, milícias, armas, linguagem de guerra civil e uma concepção totalitária do futuro.
Mais tarde, já longe do calor inicial da revolução, vieram as FP-25. Não foram um clube de leitura marxista. Não foram uma tertúlia de antifascistas melancólicos. Foram uma organização armada de extrema-esquerda, responsável por atentados, assaltos, execuções e mortes. Morreram agentes de autoridade, adversários políticos, civis e até uma criança. Porém, a memória pública tratou tudo isso com uma indulgência que nunca seria concedida a qualquer violência vinda da direita. No fim, houve amnistias, relativizações, reabilitações sentimentais e até tratamento cultural com direito a fita e nostalgia.
Aí está o ponto essencial: em Portugal, a violência de extrema-esquerda é quase sempre explicada; a de extrema-direita é sempre explorada. A primeira é contextualizada até desaparecer. A segunda é amplificada até engolir tudo à sua volta. A primeira tem “razões históricas”. A segunda tem “raízes profundas”. A primeira erra por excesso de generosidade. A segunda revela a alma negra de toda a Direita.O jornalistado e o comentariado vivem confortavelmente instalados nesta assimetria. Quando surge um grupo neonazi, e deve ser investigado sem complacência, todos descobrem a urgência da democracia. Quando a extrema-esquerda ameaça, intimida, agride, incendeia, boicota ou legitima a violência como método político, surgem logo os tradutores oficiais da indulgência: foi um protesto, foi tensão social, foi provocação, foi juventude, foi antifascismo, foi uma resposta à opressão, foi qualquer coisa menos aquilo que foi.
A extrema-esquerda portuguesa beneficia há décadas de uma espécie de licença poética revolucionária. Pode falar em “combate”, “resistência”, “antifascismo”, “rua”, “acção directa”, “ruptura”, “ocupação” e “luta”, que a intelligentsia mediática logo lhe arranja uma moldura romântica. Se a direita usar um décimo desse vocabulário, temos editoriais sobre o regresso dos anos trinta.
Não é a existência do MAL que deve ser minimizada. Pelo contrário. O que deve ser denunciado é o uso do MAL como absolvição retrospectiva de toda a violência que não convém recordar. Sim, há extrema-direita violenta. Sim, há delírios neonazis. Sim, há grupos perigosos. Sim, o Estado deve agir antes que o disparate armado se transforme em tragédia. Mas também há extrema-esquerda violenta, houve terrorismo de extrema-esquerda, houve crimes cometidos em nome da revolução, houve perseguição anticatólica, houve assassinatos políticos republicanos, houve intimidação revolucionária, houve e há uma cultura de desculpabilização da violência quando ela vem embrulhada na bandeira do antifascismo.
A democracia não se defende com amnésia selectiva. Defende-se com memória inteira. E a memória inteira obriga a dizer que Portugal não tem apenas uma tradição de violência política à direita. Tem também, e de forma longa, persistente e sangrenta, uma tradição de violência política à esquerda. Da Carbonária ao jacobinismo republicano, da Noite Sangrenta às tentações revolucionárias do PREC, das FP-25 aos actuais pequenos profissionais da intimidação antifascista, há uma linha que o comentariado prefere não ver. Não por falta de olhos. Por falta de vontade.
O MAL, se for provado em tribunal tudo o que lhe é imputado, merece condenação sem adjectivos atenuantes. Mas o mal português é outro e mais antigo: é a mentira confortável segundo a qual a violência só se torna ameaça à democracia quando vem da direita. Tudo o resto, por cá, acaba sempre convertido em nota histórica, explicação sociológica ou rebeldia juvenil.E assim se escreve a história oficial: a direita tem crimes; a esquerda tem contextos. A direita tem ódio; a esquerda tem causas. A direita conspira; a esquerda resiste. A direita mata; a esquerda, quando mata, estava enganada, cansada ou historicamente impaciente.
É uma história MALcontada. E, como quase tudo o que é MALcontado em Portugal, serve menos para compreender o passado do que para manipular o presente.















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