terça-feira, 11 de novembro de 2014

o dia em que fui detido como “espião” ocidental…

Por razões académicas, embora bolseiro da Fundação Konrad Adenauer, nos anos de 85 a 87, estive com frequência e em Berlim Ocidental e recordo os Guardas que atrás do Muro, acompanhavam em especial, os percursos pedestres do lado ocidental, uns com binóculos, outros com armas apontadas aos transeuntes. Mesmo sabendo que não iriam disparar nunca me sentia seguro!
A curiosidade de “tuga” - e os espectáculos de Ópera - levaram-me a fazer várias deslocações à Berlim Comunista. Ali as “óperas” mudavam quase que quinzenalmente, enquanto na Berlim Livre estavam meses em cartaz, o que me permitiu ver em duas épocas o que no ocidente levaria mais de uma dezena de anos.
A sequência das viagens à Berlim Oriental era sempre a mesma: “Checkpoint Charlie”, passaporte, troca de, no mínimo, 25 marcos Ocidentais por 25 Orientais, adaptação nasal ao cheiro do “combustível” dos Trabant, alugar um “táxi ilegal” porque era mais barato, etc….
Um dia quis conhecer as estações “fantasmas” do metropolitano onde, em “terra de ninguém”, viviam aqueles a que por cá chamaríamos de “sem abrigo”. Nunca percebi como é que sobreviviam!
Para tal troquei o “Checkpoint C” e tomei o Metro para a Estação de Alexanderplatz. Saí, apresentei o passaporte, troquei os marcos, etc….
(Interessante e estranha era a troca de condutores do metro: As composições paravam nas estações do lado comunista, entrava um condutor da Alemanha Oriental, conduzia a composição uma ou duas estações, parava o comboio e, esperado por militares armados, saia dando lugar ao condutor da Alemanha Federal que fazia o trajecto em mais umas estações “ocidentais”, parava na próxima “comunista”, e o processo ia-se repetindo…

Mas vamos ao que interessa:
Na Praça de Alexandre havia uma interessante Feira de Brinquedos, na sua maioria de madeira ou de lata, como os do meu tempo de menino no Portugal dos anos 50.
Perdi algum tempo a visitar a Feira, comprei um brinquedo e seguí…
No regresso, ao fim da tarde, ia tomar o Metro na mesma estação quando, quando fui detido. Os guardas da fronteira, soube-o mais tarde, apenas falavam alemão, língua em que não era, nem sou, fluente. Fui revistado e despojado dos meus haveres e encerrado num cubículo minúsculo. Ali passei uma noite.
A meio da manhã, cheio de fome, fui levado a um Oficial Soviético que falava inglês e, face a minha explicação, acabámos a tomar um péssimo café e a rir com a situação:
A minha detenção fora devida a ser considerado “espião industrial”. Isto porque na Feira de Brinquedos tinha adquirido para oferecer à minha filha um tear de madeira, em miniatura, o que para os almorávidas era uma inovação tecnológica! Além disso acharam estranho o elevado número de “visitas” registadas no passaporte…
Não refiro, por vergonha, os “nomes feios” com que, em altos gritos, o Oficial Soviético brindou, os seus lacaios, Guardas Alemães Orientais. Alguns gritados em bom inglês para que eu os entendesse…
…e lá vim directo à Residência para um reparador banho capitalista!


O tear foi entregue à destinatária, ainda existe, e, sempre que o olho, lembro-me de que já fui “espião” e desviei “tecnologia de ponta” da Alemanha comunista… 

1 comentário:

Gaivota Maria disse...

Obrigada por esta interessante descrição de um episódio em Berlim ainda murado. Exigem-se mais histórias destas. Será uma maneira de conhecermos uma realidade por nós suposta mas desconhecida da maioria.