quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A “vecchia signora”: o irrealizável como virtude moral

Aos 50 anos, a Constituição da República já pode começar a ser tratada como aquilo que é: uma vecchia signora. Não por respeito solene — mas por reconhecimento do óbvio. Um texto escrito por homens de um tempo que já não existe, em plena ressaca de uma revolução que confundiu a liberdade com a engenharia social, e que acreditou que bastava decretar a virtude para que o País a praticasse.

A Constituição de 1976
nasceu com uma ambição rara: não queria apenas organizar o poder; queria formar o povo. Não queria só dizer “como se governa”; queria dizer “como se deve viver”. E a partir daí fez-se o milagre moderno: o irrealizável foi elevado à condição de superioridade moral.
Porque é isso que não mudou em meio século: a velha tentação portuguesa de tratar a política como catecismo e a realidade como pecado.

A Constituição promete muito. Promete tanto que, quando falha, o problema nunca é da promessa. O problema é da vida, do mundo, do “neoliberalismo”, do “mercado”, da “Europa”, do clima, da conjuntura, do “populismo”, do país profundo, do eleitorado ignorante, do cidadão mal-agradecido. A promessa fica intacta — e quem a questiona é automaticamente suspeito.

Este é o segredo mais bem guardado da vecchia signora: 
o seu maior escudo não é jurídico; é moral. 
O texto constitucional transformou-se, para uma minoria cada vez mais minoria, num talismã. Um documento onde o impossível é apresentado como mandato ético. E, portanto, onde qualquer revisão é tratada como profanação.

Ora, o que se passou nestes 50 anos? Mudou quase tudo.
Mudou a demografia. Mudou a composição social. Mudou o mapa eleitoral. Mudou a economia, o trabalho, a tecnologia, a comunicação, a escola, a justiça, a segurança, a imigração, a relação com o Estado e — coisa decisiva — mudou a confiança.
Mudou também o modo como as sociedades vivem: já não é a aldeia disciplinada do século XX; é o mosaico fragmentado do século XXI. A Constituição, porém, continua a falar com a serenidade de quem escreve para um país homogéneo, com um Estado omnipotente e com uma política sem fricção.

E como se mantém uma senhora antiga, entre o arcaico e o irrealizável, em pleno mundo real?
Mantém-se por um mecanismo muito simples: o irrealizável funciona como arma política. Quando se promete o que não se pode cumprir, abre-se o caminho para a chantagem moral permanente: “se não foi feito, é porque alguém não quis”. E assim a política deixa de ser avaliação de resultados para passar a ser julgamento de intenções.
E aqui entra a peça que torna tudo mais saboroso: os guardiões da virtude.
Há quem queira a Constituição como ela está não por amor ao texto, mas por amor à sua utilidade. Um texto maximalista dá sempre para tudo: dá para impedir, dá para travar, dá para moralizar, dá para declarar “inconstitucional” o que é apenas “inconveniente”. Dá para transformar decisões políticas em litígios, e litígios em sentenças, e sentenças em substitutos do voto.
Quando a Constituição se torna bandeira moral, o debate político deixa de ser disputa sobre o possível e passa a ser disputa sobre quem é “bom” e quem é “mau”. E, curiosamente, os “bons” são quase sempre os mesmos: os que perderam influência nas urnas mas ganharam vocação para arbitrar a política por outros meios.

Daí a pergunta crucial: por que razão uma minoria, de eleição para eleição cada vez mais minoria, quer manter a vecchia signora?
Porque ela é uma fortaleza. Uma fortaleza simbólica e institucional. Uma fortaleza onde o irrealizável é proclamado como ideal e onde o ideal serve para acusar a realidade — e, sobretudo, para acusar quem ousa dizer que a realidade existe.
No fundo, esta é a fórmula: quanto mais impossível a promessa, mais fácil a pureza. Se é irrealizável, nunca se mede. Se nunca se mede, nunca se falha. E se nunca se falha, fica-se com o monopólio da virtude.
Mas um país não se governa com virtude proclamada. Governa-se com escolhas, prioridades, compromissos, consequências. Uma Constituição adulta deve servir para permitir que a democracia funcione, não para a aprisionar numa liturgia. Deve organizar o conflito político, não substituí-lo por tutela.

A vecchia signora merece respeito histórico — mas não merece ser mantida como relíquia intocável. 
Reformar, aqui, não é destruir: é trazer a Constituição ao País real, em vez de continuar a exigir que o País real se ajoelhe perante o País imaginado.
Talvez o maior sinal de maturidade democrática seja este: admitir que o irrealizável não é virtude moral. É apenas… irrealizável.

O Emigrante de Luxo que Fugiu da Obra-Prima que Deixou Cá

António Costa, para memória futura!
Há quem emigre por necessidade. Há quem emigre por desespero. E depois há António Costa, que emigrou porque… pôde. Fugiu. Evaporou-se. Escapou pela porta da frente como quem se esgueira por uma janela traseira — só que com mala diplomática, motorista e voo pago a partir de Bruxelas. O verdadeiro “self-made man”: fez mal, correu mal, deixou tudo mal… e ainda assim arranjou uma promoção.
Portugal é, de facto, um país extraordinário.
Depois de oito anos a transformar o país num experimento socialista digno de um manual de advertências, Costa conseguiu a proeza final: abandonar o palco antes que a plateia começasse a exigir o reembolso dos bilhetes. Poder-se-á dizer que é um emigrante de sucesso — embora o sucesso, neste caso, seja exclusivamente dele. O país, coitado, ficou com a ressaca.
O Emigrante Mais Bem Pago da História Nacional
A narrativa oficial apresenta António Costa como mais um português que teve de procurar melhores condições de vida no estrangeiro. Pobrezinho. Um “brain drain” tardio. Uma fuga de talento — embora o talento, ao contrário da fuga, seja discutível.
Mas é verdade: Costa não foi trabalhar para uma cozinha belga a descascar batatas. Foi para Presidente do Conselho Europeu, esse campo de estágio dourado onde políticos reciclados vão aprender a falar de “resiliência”, “transição digital” e “solidariedade europeia”, enquanto fazem o oposto daquilo que pregaram durante décadas.
Foi um salto que só surpreende quem acha que na política ainda existe mérito. Na prática, foi mais simples: uma investigação judicial abriu uma tampa, saiu de lá um cheiro esquisito, houve menção a lítio e a vinhos perdidos em gabinetes improváveis, e Bruxelas decidiu que, afinal, era boa altura para recolher Costa — antes que o país se lembrasse de fazer o mesmo que fez a Sócrates, mas com mais eficácia.
O Homem que Destruiu o SNS e Foi para Bruxelas Tratar-se
Costa partiu e connosco deixou a ruína exemplar do seu governo: um SNS estoirado, médicos exaustos, enfermarias ao abandono e famílias a pagar cada vez mais ao sector privado — aquele mesmo sector que Costa alimentou involuntariamente enquanto garantia que o estava a “proteger”.
E, claro, abandonou com requinte português: sem ter de esperar oito horas numa urgência com infiltrações, sem ter de ouvir um funcionário do Estado dizer “volte amanhã”, sem ter de atravessar bairros onde o multiculturalismo ganhou vida própria. Ganhou mais em três dias em Bruxelas do que um português médio em três meses — e sem ter de lidar com as políticas que ele próprio impôs durante oito anos.
Há simbolismos que são demasiado perfeitos para serem coincidência.
O Pai da Imigração Descontrolada Descobre Subitamente que é Preciso Controlar a Imigração
A Europa tem destas ironias: ao chegar a Bruxelas, Costa descobriu uma novidade fascinante — que afinal é preciso controlar fronteiras. Precisou de sair do país que inundou de imigração caótica para, só então, perceber que talvez aquilo tivesse consequências. Milagres da altitude diplomática: quanto mais se sobe, mais longe fica a realidade.
Costa foi para a Europa mudar de discurso como quem muda de gravata. Defendeu fronteiras fortes. Exigiu rigor na imigração ilegal. Falou de “ordem”. Sim, o homem que fez de Portugal uma sala de espera para meio mundo que fugia da miséria — agora é um falcão de fronteiras.
Não é incoerência; é camaleonismo profissional.
A Grande Fuga: Como Evitar o Epílogo da Própria Tragédia
Costa fez aquilo que tantos desejam: saiu antes de ter de colher os frutos da sementeira. Não irá assistir à implosão do SNS, ao colapso dos serviços públicos, ao aumento da criminalidade, à justiça que não julga, nem à saga infinita da Operação Influencer — uma história que continua tão perdida quanto as tais caixas de vinho que ninguém reclamou.
Abandonou tudo com a elegância calculada de quem sempre soube que o país é muito bom para governar… mas péssimo para viver como um dos governados.
Exportámos um Produto Nacional: o Político Socialista
Portugal é um país pobre, mas generoso. Exporta cerejas, cortiça, azeite de qualidade — e políticos socialistas de segunda mão. Bruxelas recebe-os sempre de braços abertos. São dóceis, obedientes, obedecem à cartilha europeia e, sobretudo, nunca fazem ondas. São perfeitos para aquela máquina burocrática onde ninguém responde por nada, desde que todos sorriam para a fotografia.
Costa foi para lá. E nós ficámos com o resto — as dívidas, os problemas, os hospitais a cair, as escolas sem professores, os processos judiciais em banho-maria, a segurança a degradar-se e uma população que continua a pagar impostos escandinavos para viver serviços africanos.
O Emigrante Perfeito — Que Deixou o País Imperfeito
António Costa conseguiu o sonho socialista supremo: governar sem consequências. Deixou o país pior do que o encontrou e foi recompensado com o melhor emprego da sua vida. Não há moral nesta história — apenas constatação.
Costa não fugiu de Portugal.
Fugiu a Portugal.

E isso, meu caro leitor, resume a sua personalidade política: um homem a quem tudo correu mal, mas que sempre conseguiu cair para cima. Não há maior talento do que esse.

PS:
António Costa é o emigrante de luxo que Portugal exportou sem aviso prévio.
Deixou cá o SNS em frangalhos, serviços públicos decrépitos, justiça parada e uma política de imigração feita à base do improviso — e partiu para Bruxelas como se tivesse sido promovido por mérito.
Agora fala em “controlar fronteiras” e “ordenar migrações”, ele que abriu todas as portas como quem abre janelas num incêndio.
Nós ficamos com os destroços; ele ficou com o conforto europeu.
O verdadeiro milagre socialista continua: errar sempre… e cair sempre para cima.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Resumo do encontro entre Zelenskyy e Trump

segundo Volodymyr Zelenskyy:
- Tivemos uma conversa substancial.
- O plano de paz de 20 pontos tem 90% de concordância.
- As garantias de segurança para a Ucrânia têm 100% de concordância.
- As concessões territoriais são dolorosas e podem ser decididas através de um referendo.
- Os ucranianos no estrangeiro também participarão no referendo.
- Se seguirão reuniões com líderes europeus.
- "Espero que as decisões sejam tomadas já em Janeiro."

domingo, 28 de dezembro de 2025

Não é o jornalismo que está a ser atacado: É o mau jornalismo que está a ser identificado.

O Director do Correio da Mnaha decidiu vir a público, em tom queixoso e corporativo, avisar-nos de um perigo supremo: “Diabolizar o jornalismo é a mais perigosa tentação totalitária.”
A frase é solene, alarmista e profundamente reveladora. Não do perigo que denuncia, mas da confusão — deliberada — que a sustém.
Porque o que hoje está a ser criticado não é o jornalismo enquanto pilar da democracia. É uma certa prática jornalística que se tornou militante, previsível, moralista e, sobretudo, incapaz de aceitar escrutínio. Confundir essa crítica com “totalitarismo” não é apenas um erro intelectual: é uma manobra de autodefesa corporativa.
O truque é simples e já velho. Sempre que o jornalismo é confrontado com as suas falhas — enviesamento, falta de contraditório, activismo disfarçado de notícia — responde com o espantalho da censura. Quem critica quer “calar”. Quem discorda quer “controlar”. Quem protesta é “populista”. E quem deixa de comprar jornais é, claro, ignorante ou manipulado pelas redes sociais.
Ora, convém dizer isto sem rodeios: nenhum poder numa democracia está acima da crítica. Nem o político, nem o judicial, nem o mediático. Quando directores de jornais passam a tratar qualquer questionamento como uma ameaça à liberdade, não estão a defender a democracia — estão a proteger um estatuto.

Carlos Rodrigues fala de “jornalismo livre e independente” como se fosse uma evidência auto-proclamada. Mas a pergunta que se impõe é elementar: livre de quê? Independente de quem?
Livre do poder político? Talvez, em alguns casos.
Livre do consenso ideológico dominante? Raramente.
Livre das agendas morais em voga, das narrativas importadas e do alinhamento automático com certas causas? Manifestamente não.
O resultado está à vista. Entrevistas que não são entrevistas, mas julgamentos. Perguntas que não procuram esclarecer, mas encurralar. Interrupções constantes quando o discurso sai do guião esperado. O contraditório transformado em ruído e o entrevistado tratado como réu. O exemplo é recorrente e visível para qualquer espectador minimamente atento: as entrevistas a André Ventura raramente são exercícios de jornalismo rigoroso; são, demasiadas vezes, exercícios de silenciamento activo, embrulhados na retórica do “escrutínio”.
Perante isto, Rodrigues invoca outro argumento de cartilha: o “reflexo trumpiano” de atacar jornalistas. É a importação preguiçosa de Donald Trump para o debate português, como se toda a crítica ao jornalismo fosse uma imitação tropical do antigo presidente americano. Serve para evitar discutir o essencial: apontar falhas concretas não é atacar a liberdade de imprensa. É exigir que ela esteja à altura da função que reclama para si.
A ironia maior está na inversão de responsabilidades. Segundo esta narrativa, a crise da comunicação social deve-se à fuga da publicidade, às plataformas digitais, à distribuição, às multinacionais, aos políticos ingratos e aos leitores ingratos. A tudo, menos a quem escreve, edita e comenta.
Mas a verdade é bem mais incómoda: os leitores não abandonaram os jornais por acaso. Foram sendo afastados por um jornalismo que trocou a informação pela catequese, o pluralismo pelo sermão e a curiosidade pelo activismo.
Quando um jornal fala sempre para o mesmo público, confirma sempre as mesmas certezas e demoniza sistematicamente quem pensa fora do seu quadro moral, não está a informar: está a disciplinar. E nenhum leitor gosta de pagar para ser tratado como aluno preguiçoso numa sala de aula ideológica.
Rodrigues escreve que “sem escrutínio jornalístico não há democracia”. Tem razão. Mas esquece a metade decisiva da equação: sem escrutínio do jornalismo, há propaganda. O jornalismo não é um sacerdócio, nem um oráculo moral. É um serviço público exercido por profissionais falíveis, sujeitos — como todos os outros — ao julgamento crítico dos cidadãos.

Chamar “tentação totalitária” ao julgamento crítico dos cidadãos é abusar da linguagem e banalizar conceitos que deveriam ser usados com parcimónia. Totalitário não é quem critica o jornalismo. Totalitário é quem não admite ser criticado. Totalitário é quem se arroga o direito de definir os limites do debate público sem prestar contas a ninguém.
O jornalismo português não está a ser diabolizado. Está, finalmente, a ser confrontado com o seu próprio espelho. E para alguns directores, isso é mais perturbador do que qualquer ameaça externa. Porque obriga a reconhecer que a crise não vem apenas de fora das redacções. Vem, sobretudo, de dentro.

sábado, 27 de dezembro de 2025

André Ventura e a Lição Francesa

Do Cordão Republicano ao Cerco Mediático
Há fenómenos políticos que as nossas elites recusam aprender — mesmo quando lhes batem à porta com a subtileza de um elefante dançante.
Um desses fenómenos é o chamado “cordão sanitário”, invenção francesa que, como todas as invenções francesas pós-1958, tem um ar importante, muito perfume intelectual, mas uma eficácia prática próxima do nada.
E, tal como Paris exportou Maio de 68 para o mundo, parece ter agora exportado para Lisboa a sua histeria moralista de “frente republicana” contra o candidato que não devia existir, que não devia falar, e que sobretudo não devia ter votos: André Ventura.
Só que, ao contrário de França, onde a sucessão de Presidentes amparados pelo sistema produziu um país cansado mas obediente, Portugal já não está nesse ponto de docilidade patriótica.
O meteorito Ventura e o erro sistemático das sondagens
Comecemos pelo óbvio: as sondagens continuam a mostrar Ventura abaixo dos outros candidatos — ora 14 %, ora 15 %, ora 16 %, com a promessa tácita de que, se todos os entrevistados forem muito bem comportados, talvez ele desapareça espontaneamente.
É comovente.
E totalmente falso.
Desde 2019 que o Chega é sistematicamente subestimado, não porque os institutos sejam incompetentes (embora alguns sejam), mas porque:
  • . o eleitor do Chega responde pouco,
  • . confia menos ainda,
  • . e não está disponível para ser julgado moralmente por um inquérito telefónico.
Resultado: Ventura vale sempre mais do que as sondagens dizem.
É um facto empírico, um padrão estatístico, e — pior ainda para quem muito se indigna nas televisões — um padrão consistente
O núcleo duro: o que os outros candidatos não têm
Nesta corrida presidencial, Gouveia e Melo tem prestígio militar, Mendes tem prestígio televisivo, Seguro tem prestígio partidário.
André Ventura tem outra coisa: um eleitorado fiel, resistente e emocionalmente ligado à sua candidatura.
É o único candidato que tem aquilo que a ciência política americana chama base — não simpatizantes ocasionais, mas gente que vota, volta a votar e ainda convence dois vizinhos.
Para um sistema partidário fragmentado, isto vale metade do caminho até à segunda volta.
O mito do “cordão republicano” português (dito da “abrilada”)
A ideia francesa foi simples:
  • . Qualquer pessoa contra Marine Le Pen unia-se;
  • . O povo obedecia;
  • . A esquerda e a direita fingiam que ainda existia uma fronteira nítida entre ambas.
Mas Portugal não é França, e os nossos eleitores não seguem instruções como um batalhão napoleónico.
Se Ventura chegar à segunda volta (e tudo indica que sim), o tal cordão republicano terá vários problemas:
  • A direita moderada não vê Ventura como ameaça existencial, ao contrário da narrativa moralizante dos comentadores.
  • O eleitorado português é menos ideológico e mais pragmático — votar “contra alguém” tem pouco apelo cívico.
  • Há um desgaste crescente das instituições, que só torna o discurso anti-sistema mais apelativo.
  • E, sobretudo, não existe em Portugal um consenso moral anti-Ventura comparável ao anti-Le Pen francês.
Portanto, o cordão tenderá a transformar-se num "chocalho" - muito barulho, pouca contenção.

O que assusta o "Sistema" não é Ventura: é a aritmética

A verdade é esta:

Ventura não se tornará candidato forte porque “a extrema-direita está a crescer”, como os jornais repetem por hábito; tornar-se-á forte porque os outros candidatos dividem o espaço político entre si, enquanto ele concentra sozinho todo o voto protesto.


Num país fatigado de:
  • .relatórios que ninguém cumpre,
  • .comissões parlamentares que não servem senão para teatro,
  • .comentadores que acham que o povo existe para lhes dar audiências,
- André Ventura surge como a única ruptura perceptível.
Para as classes políticas tradicionais, isto é insuportável — não porque ameaça a democracia, mas porque ameaça a sua centralidade.
A fronteira real não é esquerda/direita - é sistema/anti-sistema
Se Ventura chegar à segunda volta, Portugal não replicará o modelo francês: não há Macron, não há gaullistas, não há socialistas com peso moral para liderar cruzadas republicanas.
Haverá, isso sim:
  • o candidato do sistema, seja Mendes, seja Gouveia e Melo, seja Seguro e 
  • o candidato anti-sistema, André Ventura.
Isto é: A escolha será entre duas percepções de país.
E nessa escolha, a velha moralização ideológica terá pouco peso...
Se a elite portuguesa insistir no erro francês - demonizar o eleitor, em vez de compreender as razões do seu voto - então, tal como em França, acabará a perguntar-se como foi possível que “isto” lhes tivesse acontecido.
A resposta é simples: não ouviram quando ainda havia quem falasse.

 

 

 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

A Possibilidade de os Novos Sistemas de Inteligência Artificial Fazerem Interpretação Jurídica...

O que o episódio dos “cartazes” me revelou não foi uma decisão jurídica isolada, mas um padrão. Um padrão de velocidades diferentes, de prioridades assimétricas, de urgências que surgem apenas quando o alvo é politicamente sensível e ideologicamente inconveniente.
É aqui que a judicialização da política deixa de ser um conceito académico e se torna experiência quotidiana. Os tribunais, ao intervirem de forma expedita em matérias politicamente inflamadas, não se limitam a aplicar a lei: moldam o debate público, delimitam o campo do dizível, e acabam por estabelecer fronteiras morais que não foram sufragadas em eleições.

Foi a propósito da decisão judicial relativa aos cartazes do CHEGA — e, em particular, da fundamentação adoptada — que comecei a pensar numa hipótese que, até há pouco tempo, teria parecido extravagante: poderá a Inteligência Artificial generativa ajudar a entender uma fundamentação diferente, não por “ter opinião”, mas por conseguir comparar, com rigor e escala, casos semelhantes e decisões divergentes?
Assistimos, de facto, a uma nova revolução tecnológica, decorrente da massificação de sistemas de Inteligência Artificial generativa. Estes sistemas vão para além das técnicas clássicas de Machine Learning, avançando para o Deep Learning e para redes neuronais capazes de produzir texto, síntese e inferência estatística a partir de grandes corpora — incluindo corpora jurídicos. E já se vem experimentando o seu uso no domínio da interpretação e do apoio à decisão jurídica.

Mas é precisamente aqui que surge a objecção “clássica”: a interpretação jurídica pareceria estar conceptualmente vedada à intervenção da IA, por consistir numa actividade mental — e, portanto, por a IA não poder fazer mais do que imitar processos mentais, sem compreender verdadeiramente. Será isto verdade?
Mesmo admitindo que o processo interno de uma IA não é idêntico — nem sequer proximamente semelhante — ao processo mental pelo qual um jurista interpreta normas, pondera princípios e escolhe uma via argumentativa, fica em aberto um ponto decisivo: o resultado pode ser (ou não) efectivamente idêntico, sobretudo quando a tarefa em causa é comparar padrões, detectar inconsistências e mapear soluções jurisprudenciais em casos equivalentes.
Ou seja: a questão deixa de ser “a IA interpreta como um juiz” e passa a ser “a IA consegue, a partir de decisões anteriores, reconstruir uma fundamentação alternativa plausível, mostrando como casos semelhantes foram decididos de modo diferente, e em que premissas se apoiaram?”. Se conseguir, então a IA não substitui a decisão humana — mas pode expor o que muitas vezes fica submerso: a selecção das prioridades, a elasticidade dos critérios, e o modo como certas urgências aparecem, com zelo súbito, quando a política entra pela porta do tribunal.

 

 

 

quando a toga começa a subir ao palanque!

Neste texto recuso o desvio cómodo. Não discuto cartazes, não discuto sensibilidades seleccionadas, não discuto a eterna cortina de fumo identitária. Discuto o sistema judicial enquanto actor político de facto, ainda que negado.
Durante anos repetiu-se o refrão: o problema é o CHEGA. Depois foram os cartazes. 
Depois o tom. 
Depois o eleitorado. 
Agora já nem se disfarça: o problema passou a ser a existência de um partido que não respeita o guião informal do regime. E quando o guião falha, entra em cena a toga.

O que o episódio dos "cartazes" revelou não foi uma decisão isolada, mas um padrão. Um padrão de velocidades diferentes, de prioridades assimétricas, de urgências que surgem apenas quando o alvo é politicamente sensível e ideologicamente inconveniente.
Vivemos num país onde processos de corrupção atravessam décadas como se fossem património histórico; onde investigações se eternizam até à prescrição, essa forma elegante de absolvição sem inocência; onde crimes económicos se dissolvem no tempo com a naturalidade de quem sabe que o relógio trabalha a seu favor.
Mas basta um cartaz, uma frase, um incómodo simbólico — e eis que a justiça se transforma num atleta olímpico da celeridade.
É aqui que a pergunta deixa de ser jurídica e passa a ser política — ainda que formulada em voz baixa, para não ferir susceptibilidades institucionais: porquê esta rapidez? porquê aqui? porquê agora?
Invoca-se a Constituição, como sempre. Dignidade humana, protecção de minorias, prevenção do discurso discriminatório. Tudo conceitos respeitáveis — e ninguém de boa-fé os contesta. O problema não está nos princípios; está na sua aplicação selectiva.
Quando a Constituição é brandida como espada apenas contra uns e como escudo protector contra outros, deixa de ser Lei Fundamental e passa a ser instrumento táctico.

É neste ponto que a judicialização da política deixa de ser um conceito académico e se torna experiência quotidiana. Os tribunais, ao intervirem de forma expedita em matérias politicamente inflamadas, não se limitam a aplicar a lei: moldam o debate público, delimitam o campo do dizível, estabelecem fronteiras morais que não foram sufragadas em eleições.

E quando a toga se aproxima do palanque, não é a política que sobe de nível — é a justiça que desce.
Convém dizê-lo sem rodeios: a neutralidade ideológica não é uma condição automática de nenhuma instituição humana. Magistraturas não vivem numa redoma asséptica; respiram o mesmo ar cultural, mediático e universitário que o resto do país. Ignorar isso não é prudência - é ingenuidade ou conveniência.
Por isso, quando decisões rápidas recaem quase sempre sobre os mesmos actores, enquanto dossiês estruturalmente graves permanecem enterrados em gavetas durante anos, a percepção de parcialidade deixa de ser teoria conspirativa. Passa a ser um problema institucional sério, corrosivo, cumulativo.
A justiça não pode limitar-se a ser imparcial. Tem de parecer imparcial. E hoje, para uma parte crescente da sociedade portuguesa, já não parece.
A rapidez selectiva, o silêncio prolongado noutros casos, a escolha cirúrgica dos alvos — tudo isto mina a confiança pública muito mais eficazmente do que qualquer cartaz alguma vez poderia fazer.
No fim, sobra a pergunta simples, brutal, impossível de ignorar:
Temos tribunais que aplicam a lei ou tribunais que, consciente ou inconscientemente, participam no jogo político?
Enquanto a resposta for ambígua, enquanto a dúvida persistir, enquanto a balança pender sempre para o mesmo lado, o problema continuará a não ser o CHEGA, nem os cartazes, nem os pretextos do costume.
O problema QED é o próprio sistema judicial.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

a igualdade de todos perante a lei ?

O tribunal determinou esta segunda-feira que os cartazes presidenciais de André Ventura, presidente do CHEGA, sejam removidos de imediato da via pública e proibiu a sua reposição futura com teor idêntico ou equivalente. A sentença fixa ainda uma sanção de 2.500 euros por dia, por cartaz, em caso de incumprimento do prazo estabelecido.
Para André Ventura, a decisão representa um precedente preocupante: “Não é possível que um tribunal ache que os ciganos não devem cumprir a lei.” O líder do segundo maior partido sustenta que a mensagem não visa qualquer comunidade, mas reafirma um princípio constitucional básico — a igualdade de todos perante a lei — e considera que a sentença limita a liberdade de intervenção política em período eleitoral.

O candidato presidencial critica o que classifica como “judicialização do discurso político”, defendendo que a Justiça não pode substituir-se ao debate democrático nem impor leituras restritivas a frases de campanha.

para conferir o que "eles" bitaitam!!!

“Estamos a enfrentar mudanças muito grandes, passaremos da era da guerra para a era da pz”, disse Orbán na sua tradicional conferência de imprensa de final do ano, ao falar sobre as recentes eleições nos Estados Unidos da América.

Segundo o primeiro-ministro da Hungria, se o novo presidente dos EUA, que tomará posse em 20 de janeiro, “fizer apenas parte do que prometeu o mundo enfrentará mudanças tremendas”.
Orbán mencionou, entre outros, que a nova realidade mudará a forma de pensar a família, as políticas de género, a guerra ou a economia.

Sobre estas questões, Orbán e Trump defendem valores muito semelhantes, centrados na importância da visão tradicional da família e na crítica às políticas de género. Ambos apelam a um cessar-fogo imediato na Ucrânia.

Pitonisas Rascas!

a desinformação a que temos direito
há 5 meses as putanisas na XIC anunciavam que



Em Portugal, a pergunta já não é se a mudança vem - é quando!

Em Espanha uma mudança de ciclo está no ar e vem a toda velocidade!
Há noites eleitorais em que os comentadores pedem sais de cheiro; e há outras em que, subitamente, vêem tudo com uma nitidez comovente. Desta vez, em Espanha, a clarividência chegou cedo. A era de Pedro Sánchez não terminou por causa de algoritmos malévolos nem por um súbito ataque de “raiva popular”. Terminou porque a realidade tem o mau hábito de bater à porta quando a propaganda já só fala sozinha.
O essencial não é a dimensão da vitória do Partido Popular; é a dimensão da derrota do PSOE no seu antigo reduto. A Extremadura, durante décadas moldada à imagem do socialismo espanhol, resolveu lembrar que hegemonias não são direitos adquiridos. O mapa político virou, e virou sem pedir licença aos analistas de sofá.
Durante anos, explicou-se tudo com a cartilha habitual: país cansado, polarização tóxica, eleitores manipulados. Tudo menos admitir que governar é decidir — e decidir tem custos. A polarização, cuidadosamente encenada para enfraquecer o PP e empurrar votos para o Vox, acabou por produzir um efeito bumerangue: o colapso histórico do PSOE numa região que julgava cativa. Quando a política se reduz a demonizar o voto alheio, o eleitor aprende depressa a responder no único idioma que conta.

Há, claro, problemas à direita. O PP enfrenta o dilema clássico de quem vence mas nãodomina todo o seu flanco; e decisões como as de María Guardiola mostram como um passo em falso pode custar capital político. Ainda assim, a fotografia geral é inequívoca: a Espanha de amanhã está a formar-se apesar de quem a detesta — e apesar dos que insistem em dizer às pessoas que estão erradas.

E em Portugal? Convém não fingir distração. Também por cá se confundiu governo com moralização permanente, divergência com extremismo, voto popular com erro a corrigir. Também por cá se apostou na pedagogia do insulto e na esperança de que o tempo resolvesse o que a política evitou resolver. Espanha mostra que não resolve.
A lição não é importar receitas, mas reconhecer padrões. Quando partidos se fecham numa bolha de certeza moral, quando tratam antigos bastiões como propriedade privada, quando substituem resultados por narrativas, o ciclo muda — rápido e sem sentimentalismos. A Extremadura não “radicalizou”; respondeu. E respostas assim atravessam fronteiras.

O aviso está dado: quem preferir explicar o eleitor em vez de o ouvir, acabará explicado por ele. Em Espanha, o relógio acelerou. 
Em Portugal, a pergunta já não é se a mudança vem - é quando.

domingo, 21 de dezembro de 2025

I N V E R N O !

 

imigração ucraniana: memória curta, lição longa!

As recentes declarações de Volodymyr Zelensky, apelando à participação de Portugal na reconstrução da Ucrânia, são um bom pretexto para recordar um capítulo que o País parece ter esquecido depressa: a imigração ucraniana dos anos 90 que deixou saudades e uma  terceira geração já portuguesa

Entre 1995 e 1999, começaram a chegar a Portugal milhares de ucranianos, integrando a
vaga pós-soviética do Leste europeu. Vieram para trabalhar — e trabalharam onde era preciso: construção civil, obras públicas e limpezas. Vieram também para aguentar o que muitos portugueses já não aceitavam: salários baixos, subempreitadas abusivas, precariedade e atrasos na regularização.
Portugal precisava de mão-de-obra e tinha então uma legislação mais permissiva do que outros países europeus. A combinação foi explosiva: os homens nos estaleiros, as mulheres nas limpezas, muitos em regime informal, quase todos invisíveis ao discurso público. Não houve indignações televisivas nem histerias identitárias. Houve, isso sim, trabalho duro e silêncio.
Convém lembrar um dado frequentemente omitido: o perfil educacional da comunidade ucraniana era elevado. Engenheiros, técnicos, médicos e professores aceitaram tarefas manuais como porta de entrada num país que lhes oferecia segurança e rendimento, ainda que à custa da desqualificação profissional. 
Apesar disso, começaram cedo a organizar-se: associações culturais, redes de apoio, ligação à Embaixada, frequência do ensino português e integração sem alarido.

Os números mais expressivos viriam já nos anos 2000 — em 2002, os ucranianos chegaram a ser a maior comunidade estrangeira em Portugal —, mas foi no final dos anos 90 que tudo começou. Foi aí que se testou, na prática, a capacidade de integração, a disciplina laboral e o contributo real de uma imigração que não pediu privilégios, apenas espaço para trabalhar.

Vale a pena recordar isto hoje, quando se fala de imigração de forma abstracta e moralista. A experiência ucraniana mostra que integração não se decreta, constrói-se: com trabalho, regras claras e exigência mútua. E lembra também que Portugal já beneficiou — e muito — de fluxos migratórios bem-sucedidos, sem propaganda nem romantizações.
Talvez, antes de grandes discursos sobre “Europa unida” e reconstruções futuras, fosse prudente reaprender as lições do passado recente. Porque a memória curta costuma ser péssima conselheira — sobretudo em política.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Um Tribunal distante de um povo cansado

A decisão do Tribunal Constitucional de rejeitar a nova Lei da Nacionalidade volta a expor uma fratura profunda entre o Estado e uma parte significativa do povo português. Não se trata apenas de um acórdão técnico ou jurídico: trata-se de mais um episódio em que os cidadãos sentem que a sua vontade, as suas preocupações e a sua identidade são tratadas como secundárias face a interpretações rígidas e abstratas da Constituição. A Constituição da República Portuguesa deveria ser um instrumento vivo, ao serviço do povo e da realidade do país, e não um escudo usado para bloquear qualquer tentativa de adaptação às transformações sociais, demográficas e culturais que Portugal enfrenta. Quando o Tribunal Constitucional se coloca sistematicamente como um travão à vontade democrática expressa através do Parlamento, a pergunta impõe-se: a quem serve, afinal, a Constituição? Muitos portugueses sentem que a nacionalidade deixou de ser encarada como um vínculo profundo de pertença, responsabilidade e compromisso com o país, passando a ser tratada como um mero procedimento administrativo. A tentativa de rever a lei não nasceu do ódio nem da exclusão, mas da necessidade legítima de proteger a coesão nacional, o valor da cidadania e o respeito por quem sempre cumpriu regras, deveres e sacrifícios. 

Ao rejeitar essa revisão, o Tribunal Constitucional ignora o sentimento crescente de injustiça e desconsideração vivido por milhares de cidadãos. Ignora o facto de que a soberania reside no povo e que a democracia não pode ser reduzida a um exercício jurídico distante da realidade concreta das pessoas. Uma Constituição que não escuta o povo arrisca-se a perder legitimidade moral, mesmo que conserve legitimidade formal. O povo português não é intolerante — é exigente. Exige respeito, exige equilíbrio e exige que as instituições deixem de falar apenas para si próprias. Defender fronteiras jurídicas claras e critérios justos de nacionalidade não é atacar a democracia; é, pelo contrário, tentar preservá-la. Se a Constituição serve para silenciar o descontentamento popular em vez de o canalizar, então é legítimo questionar se não chegou o momento de a repensar, de a rever e de a devolver àqueles a quem verdadeiramente pertence: os portugueses. A democracia não vive apenas nos tribunais. Vive, acima de tudo, no povo que sente, trabalha, contribui e ama este país — mesmo quando sente que o país já não o escuta. (Bernardino Oliveira in O Luso)

De um lado, o candidato do Príncipe Real. Do outro, o candidato do País Real.

Há debates que, mesmo quando fingem discutir ideias, acabam por revelar algo muito mais cru: quem fala para quem. Não por aquilo que dizem, mas por aquilo que pressupõem. Não pelo tom, mas pelo destinatário implícito. O debate entre João Cotrim Figueiredo e André Ventura foi um desses momentos raros de clarificação social — quase sociológica — da política portuguesa contemporânea.
De um lado, o candidato do Príncipe Real. Do outro, o candidato do País Real.

Cotrim Figueiredo falou, como sempre, para uma fracção muito específica do País: aquela que vive confortavelmente instalada na convicção de que o Estado é um estorvo, os impostos um roubo e a “sensibilidade social” uma excentricidade cara. Um discurso afinado para os 5% que confundem privilégio herdado com virtude adquirida e baptizam de meritocracia aquilo que, na prática, é a transmissão silenciosa da vantagem por redes familiares, contactos certos e portas que nunca estiveram verdadeiramente fechadas.
É um liberalismo de salão, bem-educado, urbano, perfumado de cosmopolitismo e convicto de que o mundo começa nas Avenidas Novas, passa pela Foz e termina num brunch tardio ao domingo. Tudo o resto é folclore, custo social ou “externalidade”.

André Ventura, pelo contrário, falou para quem não tem tempo para essas subtilezas. Falou para quem depende do Estado não por ideologia, mas por necessidade. Para quem sabe que igualdade de direitos não é um slogan constitucional decorativo, mas uma linha de defesa mínima contra a arbitrariedade económica e social. Falou para o País que trabalha, paga, espera, e quase nunca é ouvido.
Não se trata aqui de santificar Ventura ou de absolver excessos retóricos. Trata-se de reconhecer um facto simples e incómodo: um falou para o povo; o outro falou para a elite. Um representou, conscientemente ou não, o partido popular; o outro defendeu, com elegância e bons modos, a elite de facto — essa mesma que se julga “naturalmente” superior, embora raramente o seja por mérito próprio.
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O mais curioso — e talvez o mais trágico — é assistir ao entusiasmo juvenil por este liberalismo importado, sobretudo entre uma geração que ainda não trabalhou, não pagou impostos, não enfrentou a precariedade e sonha enriquecer sem perceber de onde vem, historicamente, a riqueza em Portugal. Votam contra os seus próprios interesses com o fervor típico da alienação bem-embalada.
O debate não foi entre direita e direita, nem entre modelos económicos. Foi entre dois Países. Um pequeno, seguro de si, convencido de que governa por direito natural. Outro vasto, real, imperfeito, mas vivo. E quando esses dois Países se olham de frente, percebe-se porque tantos se sentem incomodados.
Não é populismo. É aritmética social.
Cinco por cento não são o País.
E nunca o foram.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

no Observador a "luta continúa"

Seis meses depois
um bitaite para conferir 
Um dos seis detidos é chefe da PSP e nos grupos de Telegram em que se organizam abunda desinformação e mensagens antissemitas. PJ apreendeu pela primeira vez armas feitas com impressoras 3D.

Mil subscritores, antissemitismo e muitas ameaças. Dentro do canal de Telegram
O movimento descrevia-se como “um grupo de Lusitanos que enaltece Portugal e os Portugueses patriotas”, com membros referenciados em várias ocasiões por participarem em manifestações racistas. Nos últimos tempos, a atividade deslocou-se dos blogs para o Telegram, rede social e de troca de mensagens em que, através de dois canais diferentes, contam com mais de mil subscritores — que aumentaram consideravelmente durante a pandemia.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Um Partido de perder!

Durante décadas, o Partido Socialista foi, em Portugal, um partido dividido — mas não fragmentado. As suas grandes disputas foram quase sempre pessoais, geracionais ou circunstanciais, nunca verdadeiramente ideológicas. Mário Soares contra Salgado Zenha, Soares contra Manuel Alegre: combates duros, sim; mas travados dentro de uma mesma casa, com uma ideia comum de partido e de regime.
Hoje, isso acabou.
As eleições presidenciais tornaram-se o espelho cruel dessa mutação. O exercício de imaginar o voto dos antigos líderes do PS é mais do que uma curiosidade política: é um diagnóstico. Um partido em que os seus antigos secretários-gerais votam em quatro candidatos distintos não está “plural”; está desagregado.
O PS deixou de ser um partido com correntes. Tornou-se um arquipélago.

A origem do estilhaçamento: Sócrates, a bancarrota e a mentira fundadora
A fragmentação começa com José Sócrates — não apenas com a sua governação, mas sobretudo com a forma como ela terminou. A bancarrota de 2011 não foi apenas financeira; foi moral, estratégica e identitária.
Até aí, o PS conseguia oscilar entre o discurso social e a prática orçamental com relativa impunidade. A intervenção externa acabou com essa ambiguidade. Pela primeira vez, o partido foi obrigado a escolher entre a ilusão ideológica e a realidade contabilística.
António José Seguro fez essa escolha. Pagou por ela.
Ao aceitar o quadro imposto pela União Europeia e pelo FMI, Seguro assumiu a heresia máxima dentro de um PS ainda intoxicado por retórica soberanista e voluntarista. Foi atacado, sabotado e, por fim, derrubado. Pedro Nuno Santos — então jovem promessa — chegou ao ponto de defender que a dívida não devia ser paga. Não era apenas uma divergência táctica: era uma ruptura com a própria ideia de Estado responsável.
A partir daí, o PS nunca mais recompôs a sua coluna vertebral.
A geringonça: o poder como anestesia ideológica
Se Sócrates abriu a fenda, a geringonça alargou-a até à ruptura.
Em 2015, o PS fez algo que nunca tinha feito: aliou-se formalmente às extremas-esquerdas para governar. Muitos socialistas detestaram a solução. Mas calaram-se. O poder tem esse efeito: suspende a consciência crítica.
O problema é que a geringonça não foi apenas uma solução parlamentar. Foi uma mutação identitária. Ao aceitar governar dependente do Bloco, do PCP e - mais tarde, indirectamente -  do Livre, o PS deixou de ser o eixo do sistema para passar a ser apenas mais uma peça de uma frente ideológica.
A partir desse momento, o partido passou a viver dividido entre dois projectos incompatíveis:
  • · um PS centrista, europeu, social-democrata no sentido clássico; e
  • · um PS de frente popular, refém da agenda da esquerda radical.
Esses dois PS coexistem hoje — mas já não se reconhecem.
As presidenciais como sintoma, não como causa
É neste contexto que surge a candidatura de António José Seguro. E é por isso que ela está condenada — não por falha do candidato, mas pela doença do partido.
O PS que apoia Seguro não é o PS que governa câmaras com o Bloco. Não é o PS que flerta com greves políticas, nem o PS que tolera a captura do discurso social por sindicatos ideologizados. A recente “greve geral” apenas agravou o problema: empurrou votos socialistas para candidatos do Bloco e do PCP, fragmentando ainda mais o eleitorado que, teoricamente, deveria convergir.
O resultado pode ser histórico — e não no bom sentido: o pior desempenho de sempre de um candidato presidencial apoiado pelo PS.
Não é Seguro que falha. É o PS que já não existe como unidade política coerente.
O espelho europeu: quando os partidos socialistas se desfazem
O que se passa em Portugal não é excepção. É atraso.
Em França, o Partido Socialista colapsou após a presidência de Hollande, esmagado entre o macronismo centrista e a esquerda radical de Mélenchon. Restou um esqueleto eleitoral que acabou diluído em alianças artificiais.
Em Itália, o velho campo socialista dissolveu-se em fusões sucessivas, dando origem a partidos híbridos, sem identidade clara, permanentemente dependentes de coligações instáveis.
Em Espanha, o PSOE sobrevive — por agora — à custa de alianças com forças que minam a própria ideia de Estado nacional, pagando o preço de uma crescente perda de credibilidade institucional.
Na Alemanha, o SPD mantém-se apenas como gestor cansado de consensos, sem narrativa mobilizadora, eclipsado ora pelos Verdes, ora pela nova direita.
Em todos os casos, o padrão repete-se:
  • · perda de identidade ideológica;
  • · alianças tácticas transformadas em dependências estruturais;
  • · eleitorado tradicional desmobilizado; e
  • · emergência de partidos “homónimos” - uns mais radicais, outros mais tecnocráticos - que acabam por dividir, fundir ou substituir o original.
o PS português chegou tarde ao seu próprio declínio?
O PS português vive hoje aquilo que os seus congéneres europeus viveram há dez ou quinze anos. A diferença é que chega mais tarde — e, talvez por isso, com menos margem de manobra.
Já não se trata de escolher líderes. Trata-se de escolher o que o partido é — ou se ainda é alguma coisa.
Enquanto essa escolha não for feita, o PS continuará a fragmentar-se em eleições presidenciais, autárquicas e legislativas. Continuará a perder votos para a esquerda radical e credibilidade para o centro. Continuará, sobretudo, a ser um partido que fala a várias vozes — e já não convence ninguém.
O problema não é o candidato.
O problema é o partido.

domingo, 14 de dezembro de 2025

um Pais dual...

“Despe o colete ‘jaune ou rouge’ e lê, com olhos de ler e cabeça de ver!”

Portugal é um país curioso. Não tanto pela sua história — que é rica — mas pela sua capacidade quase artística de fingir que não vê o que está mesmo à frente dos olhos. E um dos exemplos mais acabados dessa cegueira voluntária é o chamado “país dual” em que vivemos.
A cada greve, o ritual repete-se com a precisão de um relógio suíço: o sector público faz greve contra legislação que… não se lhe aplica. O sector privado, esse, continua a trabalhar, a adaptar-se, a contornar a paralisação e, quando pode, a pagar a factura. Complicado? Não. Hipócrita? Bastante.
A narrativa oficial chama-lhe “defesa dos trabalhadores”. Na realidade, trata-se sobretudo da defesa dos trabalhadores certos — os que já estão dentro. Os outros, os que ainda não entraram, que esperem. Ou que emigrem. Ou que se calem.
O exemplo da saúde é particularmente elucidativo, quase pedagógico. O sector privado da saúde sobrevive, em boa medida, graças a trabalhadores do sector público que beneficiam do melhor seguro de saúde existente em Portugal: a ADSE. Um privilégio silencioso, raramente mencionado nos protestos, mas muito usado na prática.
Curiosamente, sempre que algum governo ousa pensar em parcerias público-privadas que permitam aos trabalhadores do sector privado aceder a hospitais privados em condições semelhantes, ergue-se imediatamente o coro da indignação. Fala-se do “nosso SNS”, da “ameaça dos privados”, do “desmantelamento do Estado social”.
O “nosso”, note-se, nunca é exactamente o deles.
Este padrão repete-se noutros domínios: trabalho, habitação, pensões. Aquilo que em Portugal se apresenta como defesa dos direitos é, demasiadas vezes, a defesa de leis, regulamentos e procedimentos que blindam quem já chegou e penalizam quem ainda vem a caminho. Uma espécie de sindicalismo de condomínio fechado, com porteiro ideológico incluído.
O resultado é um país onde a injustiça não é acidental, mas estrutural. Onde o discurso da solidariedade serve para manter privilégios adquiridos. Onde o colete — seja ele amarelo ou vermelho — substitui o pensamento. E onde ler com atenção se tornou um acto quase revolucionário.
Por isso, o convite é simples: despe o colete. Lê. Observa. Compara. E talvez descubras que o verdadeiro fosso social não está entre esquerda e direita, mas entre quem já está protegido e quem nunca chega a estar.
E isso, por muito que incomode, explica mais sobre Portugal do que mil greves televisionadas.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A “Greve Geral”: anatomia de uma grevinha ideológica!

Há palavras que sobrevivem por inércia. “Greve geral” é uma delas. Em Portugal, há muito que deixou de descrever um facto e passou a designar uma encenação. A de hoje não foi excepção — foi, aliás,
uma dupla falácia.
Primeiro, porque greves não se medem por manifestações, nem por planos fechados de televisão, nem por directos inflamados onde meia dúzia de bandeiras vermelhas fingem representar o país inteiro. Se assim fosse, a RTP — onde a greve “conta” sempre mais, por definição administrativa — seria o termómetro da economia nacional. Mesmo aí, o que houve foi mais fumo do que fogo.
Segundo, porque de “geral” não teve absolutamente nada. O país real — o dos serviços, do comércio, da restauração, da logística, das pequenas empresas, do trabalho privado — continuou, mal ou bem, a funcionar. Não parou. Não colapsou. Não tremeu. O que parou foi o país residual do velho neo-realismo político-sindical, esse que vive de uma memória gloriosa que já não corresponde a nada de existente.
Os tempos mudaram, mas alguns recusam-se a perceber.
Nos anos 80 ou 90, uma greve nos transportes pesava. Hoje pesa menos — não apenas porque houve municipalização, mas porque o mundo mudou. Houve autocarros onde não houve metro. Houve circulação onde antes tudo parava. Houve tele-trabalho, esse detalhe incómodo que baralha qualquer contabilidade militante. Eu próprio andei de autocarro. Um escândalo, para quem precisava de um país imobilizado para fingir força.
No essencial, foi uma greve quase exclusiva da administração pública: escolas públicas, hospitais públicos, alguns serviços de atendimento ao público. Exactamente aqueles sectores que nada têm a ver com a alteração da lei laboral privada, mas tudo têm a ver com a fidelidade ideológica a uma certa esquerda estatizada, corporativa e sindicalizada.
Ou seja: greve contra o quê?
Contra quem?
Com que legitimidade?
O paradoxo é delicioso: faz-se greve “geral” em nome de trabalhadores que não aderiram, contra leis que não os afectam directamente, liderada por estruturas sindicais que já não representam a maioria de ninguém.
E aqui convém dizer o que raramente se diz: os protagonistas desta grevezinha são, em larga medida, os mesmos sectores políticos e sindicais derrotados a 25 de Novembro de 1975 — derrotados então no plano histórico e derrotados agora no plano eleitoral. São os que perderam deputados, influência e centralidade nas duas últimas eleições legislativas, e que continuam a confundir rua com país e ruído com poder. 
O sindicalismo que sobrevive neste formato não é social: é ideológico. Não representa trabalhadores; representa causas. Não defende o trabalho; defende uma visão do Estado herdada do PREC e mal disfarçada desde então. Vive da administração pública porque fora dela deixou de ter base social.
Se o objectivo era fazer tremer o governo, lamento informar: o governo não tremeu, não tremelicou, nem sequer espirrou
Amanhã é outro dia. O país acordará com os mesmos problemas estruturais, mas também com a mesma evidência: esta esquerda sindical já não tem capacidade de bloqueio nacional.
Chamar “greve geral” a isto é como chamar “levantamento popular” a uma reunião de condomínio mal frequentada.
O país mudou.
Os trabalhadores mudaram.
A economia mudou.
Só o guião ficou velho.
E isso, convenhamos, não é motivo para greve. É motivo para revisão — da linguagem, da estratégia e, sobretudo, da relação com a realidade.
Aqui, no ReVisões, chamamos as coisas pelo nome: não foi uma greve geral. Foi uma grevinha.
E como todas as grevinhas ideológicas, terminou com o habitual comunicado triunfal… e com o país a seguir em frente.
Amanhã é outro dia.
Para eles, infelizmente, também.
Chamaram-lhe “greve geral”.
Foi, no máximo, uma grevinha ideológica.
O país privado trabalhou.
Os serviços continuaram.
Houve autocarros, houve tele-trabalho, houve vida real.
Parou apenas o costume: funcionários públicos sindicalizados, herdeiros políticos dos derrotados de 25 de Novembro, hoje reduzidos a ruído mediático depois de sucessivas derrotas eleitorais.