A esquerda europeia nasceu para representar trabalhadores. Falava de salário, renda da casa, serviços públicos, emprego, estabilidade e dignidade material. Hoje fala sobretudo de identidades, linguagem, representação simbólica e minorias.
…hoje as Novas Direitas falam de
- Lei Laboral / idade da reforma Critica reformas que prolongam a vida
activa; defende reforma aos 65 anos ou com 40 anos de descontos, apresentando‑se
como defensor dos trabalhadores.
- Pensões e subvenções políticas Propõe fim de subvenções vitalícias e
acesso à pensão em moldes mais favoráveis ao trabalhador; retórica anti elite
política.
- Luta de classes Assume papel de “partido de protesto” contra “sistema”
e “casta”; usando linguagem próxima da luta de classes, embora articulada com
nacionalismo e securitarismo.
- Direitos sociais e Estado Combinação de defesa de políticas sociais
(pensões, energia, trabalho) com um discurso de ordem, e controlo; aceitando
intervenção estatal selectiva.
- Globalização e proteccionismo Discurso crítico da globalização e das
elites tecnocráticas; apelo ao operariado “abandonado pela esquerda”.
.
É aqui que regressamos a Antonio Gramsci.
Uma força política não conquista hegemonia apenas quando vence eleições.
Conquista-a quando consegue retirar ao adversário as palavras com que este
legitimava o seu poder.
Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como
«trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade»,
«pobreza» e «privilégio».
A velha direita liberal-conservadora aceitou essa divisão do trabalho
político.
Depois admirou-se por ter perdido culturalmente os sectores popular (in
Revisões)
.
É neste ponto que a experiência do CHEGA e das Novas Direitas se torna
particularmente interessante.
O partido procura reunir sectores que a análise política tradicional
considerava incompatíveis: trabalhadores oriundos da esquerda, pequenos
empresários sufocados por impostos e burocracias, reformados, agentes das
forças de segurança, populações das periferias urbanas e eleitores
culturalmente conservadores.
O cimento desta coligação não é a consciência de classe.
É a percepção de abandono.
Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, pelas elites
económicas, pelas instituições europeias, pelos grandes meios de comunicação e
por uma classe dirigente que parece viver protegida das consequências das
decisões que toma.
A mensagem é simples: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a
comunidade está a ser sacrificado por quem governa, especula, parasita ou
beneficia de privilégios.
Esta mensagem pode ser excessivamente simplificadora. Pode ser usada
demagogicamente. Mas possui uma força emocional que o discurso tecnocrático da
velha direita e o moralismo identitário da nova esquerda deixaram de ter. (in
ReVisões)
.
A Direita não está a tornar-se de esquerda porque o fenómeno que estamos
a observar não corresponde necessariamente a uma esquerdização do CHEGA e das
Novas Direitas e pode corresponder ao regresso da Direita à questão social.
A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os
trabalhadores à Esquerda, a cultura aos progressistas; os sindicatos aos
comunistas e a solidariedade ao Estado burocrático e contentou-se em “defender
o mercado”, esquecendo-se de “defender a comunidade”.
As Novas Direitas terão de compreender que a Nação não é apenas
território, bandeira, fronteira e memória. É também protecção entre gerações,
dignidade do trabalho, justiça nas contribuições, segurança económica e
reconhecimento daqueles que sustentam a comunidade.
Gramsci ajuda a compreender como se disputa a hegemonia. Leão XIII
recorda que a sociedade não pode ser reduzida nem à luta de classes nem à luta
de todos contra todos e Benedikt Kaiser e Duarte Branquinho mostram que uma
direita nacional que abandone a questão social acabará por abandonar o próprio
povo. (in ReVisões)
Uma coisa já parece evidente: a Esquerda deixou de possuir o monopólio
da linguagem da justiça social porque confundiu durante demasiado tempo “uma
conquista cultural” com um “direito de propriedade”.
E agora começa a perder aquilo que julgava possuir por herança.
A tese central fica, assim, mais forte do que no texto inicial: não se
trata apenas de o CHEGA e as Novas Direitas reciclarem temas da Esquerda para
capturar eleitores; trata-se de retirar esses temas à interpretação marxista e
integrá-los numa visão nacional, social e comunitária da Direita.
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