terça-feira, 25 de agosto de 2026

Quando a Direita recupera a Questão Social — e rompe o monopólio da Esquerda

A esquerda europeia nasceu para representar trabalhadores. Falava de salário, renda da casa, serviços públicos, emprego, estabilidade e dignidade material. Hoje fala sobretudo de identidades, linguagem, representação simbólica e minorias.

…hoje as Novas Direitas falam de

- Lei Laboral / idade da reforma Critica reformas que prolongam a vida activa; defende reforma aos 65 anos ou com 40 anos de descontos, apresentando‑se como defensor dos trabalhadores.

- Pensões e subvenções políticas Propõe fim de subvenções vitalícias e acesso à pensão em moldes mais favoráveis ao trabalhador; retórica anti elite política.

- Luta de classes Assume papel de “partido de protesto” contra “sistema” e “casta”; usando linguagem próxima da luta de classes, embora articulada com nacionalismo e securitarismo.

- Direitos sociais e Estado Combinação de defesa de políticas sociais (pensões, energia, trabalho) com um discurso de ordem, e controlo; aceitando intervenção estatal selectiva.

- Globalização e proteccionismo Discurso crítico da globalização e das elites tecnocráticas; apelo ao operariado “abandonado pela esquerda”. 

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É aqui que regressamos a Antonio Gramsci.

Uma força política não conquista hegemonia apenas quando vence eleições. Conquista-a quando consegue retirar ao adversário as palavras com que este legitimava o seu poder.

Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» e «privilégio».

A velha direita liberal-conservadora aceitou essa divisão do trabalho político.

Depois admirou-se por ter perdido culturalmente os sectores popular (in Revisões)

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É neste ponto que a experiência do CHEGA e das Novas Direitas se torna particularmente interessante.

O partido procura reunir sectores que a análise política tradicional considerava incompatíveis: trabalhadores oriundos da esquerda, pequenos empresários sufocados por impostos e burocracias, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e eleitores culturalmente conservadores.

O cimento desta coligação não é a consciência de classe.

É a percepção de abandono.

Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, pelas elites económicas, pelas instituições europeias, pelos grandes meios de comunicação e por uma classe dirigente que parece viver protegida das consequências das decisões que toma.

A mensagem é simples: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade está a ser sacrificado por quem governa, especula, parasita ou beneficia de privilégios.

Esta mensagem pode ser excessivamente simplificadora. Pode ser usada demagogicamente. Mas possui uma força emocional que o discurso tecnocrático da velha direita e o moralismo identitário da nova esquerda deixaram de ter. (in ReVisões)

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A Direita não está a tornar-se de esquerda porque o fenómeno que estamos a observar não corresponde necessariamente a uma esquerdização do CHEGA e das Novas Direitas e pode corresponder ao regresso da Direita à questão social.

A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os trabalhadores à Esquerda, a cultura aos progressistas; os sindicatos aos comunistas e a solidariedade ao Estado burocrático e contentou-se em “defender o mercado”, esquecendo-se de “defender a comunidade”.

As Novas Direitas terão de compreender que a Nação não é apenas território, bandeira, fronteira e memória. É também protecção entre gerações, dignidade do trabalho, justiça nas contribuições, segurança económica e reconhecimento daqueles que sustentam a comunidade.

Gramsci ajuda a compreender como se disputa a hegemonia. Leão XIII recorda que a sociedade não pode ser reduzida nem à luta de classes nem à luta de todos contra todos e Benedikt Kaiser e Duarte Branquinho mostram que uma direita nacional que abandone a questão social acabará por abandonar o próprio povo. (in ReVisões)

 

Uma coisa já parece evidente: a Esquerda deixou de possuir o monopólio da linguagem da justiça social porque confundiu durante demasiado tempo “uma conquista cultural” com um “direito de propriedade”.

E agora começa a perder aquilo que julgava possuir por herança.

A tese central fica, assim, mais forte do que no texto inicial: não se trata apenas de o CHEGA e as Novas Direitas reciclarem temas da Esquerda para capturar eleitores; trata-se de retirar esses temas à interpretação marxista e integrá-los numa visão nacional, social e comunitária da Direita.