(Os avós fizeram Abril, os filhos herdaram o catecismo e os netos reclamam a liberdade)
Se aceitarmos, apenas como instrumento de análise, que uma geração corresponde aproximadamente a um ciclo de 25 anos, Portugal atravessou desde 1974 três gerações politicamente muito diferentes.
Não se trata de dividir portugueses pelo bilhete de identidade. Trata-se de perceber como cada geração se relacionou com o 25 de Abril, com a Democracia que dele resultou e, sobretudo, com a interpretação ideológica que posteriormente foi construída em seu nome.
E aqui importa começar por desfazer um equívoco: a actual geração jovem não está contra o 25 de Abril.
Os poucos portugueses que poderiam ter sentido verdadeira nostalgia pelo Estado Novo encontravam-se, naturalmente, na geração que o viveu: Na Zero.
Os jovens de hoje não têm saudades de um regime em que nunca viveram. O seu conflito é outro.
A Geração Zero — os que viveram os dois regimes
Chamemos Geração Zero àquela que viveu simultaneamente o Estado Novo e a ruptura de 1974.
É nela que encontramos tudo: democratas, revolucionários, comunistas, socialistas, conservadores, liberais e, naturalmente, também alguns saudosistas do regime anterior.
Foi uma geração marcada por uma extraordinária violência ideológica.
Revolução, PREC, nacionalizações, saneamentos, prisões políticas, ocupações, 11 de Março, Verão Quente, 25 de Novembro: tudo isto aconteceu num espaço de pouco mais de ano e meio.
Mas uma parte dessa geração conseguiu algo politicamente muito mais duradouro do que vencer uma eleição: construiu a interpretação dominante do próprio 25 de Abril e progressivamente estabeleceu uma ideia curiosa a que chamou de “pluralismo” onde não cabia “a Direita”.
À esquerda podia existir quase tudo: comunistas, marxistas, socialistas revolucionários, trotskistas, maoistas, social-democratas ou socialistas moderados.
À direita, porém, a respeitabilidade democrática passou durante décadas por uma espécie de exame permanente: Era necessário demonstrar moderação, pedir licença cultural e, sobretudo, provar repetidamente que se estava suficientemente afastado do passado.
Criou-se assim uma poderosa hegemoniana político-cultural, reproduzida no Ensino básico, na Universidade, na Administração Publica, na Produção Cultural e em larga parte da Comunicação Social.
- Não chamaria a isso simplesmente “social-fascismo”, porque seria historicamente impreciso, mas existiu, em sectores desse universo, uma curiosa matriz social-estatista e culturalmente autoritária:
- - o Estado como grande organizador social e, simultaneamente, uma progressiva dificuldade em reconhecer legitimidade cultural às ideias que ultrapassassem determinado limite à direita - criaram-se as Linhas Vermelhas que tendem a persistir em especial na imprensa televisiva.
E então o problema começou quando essa Geração Zero confundiu duas coisas muito diferentes:
- a defesa da Democracia e
- a defesa da sua própria interpretação da Democracia.
A Segunda Geração — os filhos do catecismo A geração seguinte nasceu já no pós-Abril. Não conheceu verdadeiramente o Estado Novo. Aprendeu-o na imprensa, nas escolas, nas universidades e através da visão, às vezes pouco correcta, daqueles que tinham participado na construção do novo regime.
Também recebeu uma promessa:
Portugal seria progressivamente mais desenvolvido, mais rico, socialmente mais justo, quiçá, mais europeu, oferecendo aos filhos melhores condições de vida do que aos pais.
A Segunda Geração durante muito tempo acreditou e reproduziu, em grande medida, o quadro mental que recebera.
Foi desta geração que saiu uma parte substancial dos políticos, professores, jornalistas, magistrados, altos funcionários, académicos e comentadores que chegaram depois aos lugares de influência.
Só que aconteceu algo que nenhuma hegemonia cultural consegue impedir:
- O tempo passou e chegou o momento de comparar promessas com resultados.
- Os salários continuaram baixos.
- A habitação tornou-se inacessível para muitos.
- Os serviços públicos revelaram fragilidades.
- A mobilidade social prometida deixou demasiadas pessoas para trás.
…e sucessivas vagas de portugueses qualificados emigraram.
Esta emigração teve uma consequência política que raramente é suficientemente valorizada: permitiu comparar Portugal com outras democracias e foi assim que muitos portugueses descobriram no estrangeiro que era possível ser-se democrata e conservador; patriota e pluralista e defender a soberania, a autoridade, a identidade nacional e os limites à imigração sem desejar restaurar qualquer ditadura.
Os “antolhos” e “tapa-olhos” que a propaganda, via sistema de educação, lhe tinham instilado começou a cair. Mas, não foi desta, que a Segunda Geração se tornou de Direita. Fez algo mais perigoso para o velho sistema:
- -começou a duvidar do catecismo.
A Terceira Geração — os netos que já não pedem licença Chegámos agora à geração próxima dos vinte anos de idade.
È uma geração é profundamente diferente das duas anteriores.
- O Estado Novo para ela é História.
- O PREC é História.
- O 25 de Novembro é História.
- Eanes, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Sá Carneiro ou Freitas do Amaral são História.
E isto tem uma consequência política gigantesca:
- a Terceira Geração não sente qualquer obrigação de continuar as guerras dos avós e
- muito menos aceita que lhe sejam impostos os respectivos limites ideológicos.
Não está contra “Abril”.
Pelo contrário: nasceu em liberdade e considera essa liberdade tão natural que pretende utilizá-la inteiramente.
- Inclusive para pensar aquilo que durante décadas lhe disseram que não deveria pensar.
Os sinais eleitorais dessa ruptura existem. Na análise aos votantes das legislativas de 2025, o Iniciativa Liberal e o CHEGA foram a força mais votada nos grupos dos 25-34 e 35-44 anos e a segunda entre os 18-24. Estes dado não demonstram que os jovens se tenham tornado colectivamente “de direita”. Demonstram algo mais importante:
- o velho domínio dos partidos tradicionais deixou de ser automático nas gerações mais novas.
Esta geração dispõe de uma arma que as anteriores não possuíam.
- A Internet destruiu o monopólio dos intermediários culturais.
Um jovem já não depende do professor, do editorialista, do telejornal ou do comentador televisivo para descobrir uma ideia.
Pode chegar directamente a autores, movimentos e debates existentes em França, Itália, Alemanha, Espanha ou Estados Unidos.
E descobriu, entre muitas outras coisas, que também existe pensamento político à direita.
Também descobriu Gramsci e aqui aparece uma das maiores ironias políticas do nosso tempo: Antonio Gramsci era comunista.
Mas algumas das suas intuições sobre hegemonia cultural foram estudadas e apropriadas, à actualidade, por sectores intelectuais da Nova Direita europeia.
Também começaram a adoptar a estratégia metapolítica associada à Nouvelle Droite francesa — particularmente em torno de Alain de Benoist — que atribui enorme importância à disputa das ideias, da linguagem, dos valores e da cultura antes da própria conquista eleitoral. Essa influência e a circulação do chamado “gramscismo de direita” encontram-se amplamente documentadas na literatura sobre a Nova Direita francesa e italiana.
Isto é, existe um território cultural comum onde reaparecem conceitos durante décadas desprezados pela velha direita parlamentar:
Nação. Soberania. Identidade. Comunidade. Tradição. Autoridade. Questão Social. Hegemonia cultural.
O que se torna mais difícil é sustentar que a simples existência de uma nova direita parlamentar representa, por definição, uma rejeição do 25 de Abril.
Mas afinal, quem está a ser fiel a Abril?
E chegamos ao paradoxo.
A Terceira Geração não quer regressar ao antes de Abril.
Quer ultrapassar o monopólio ideológico construído depois de Abril.
Talvez estejamos perante a
derradeira ironia destes cinquenta anos.
A Geração Zero fez uma revolução em nome
da liberdade.
Uma parte dela transformou depois a sua
própria leitura dessa revolução numa espécie de ortodoxia.
A Segunda Geração recebeu-a, acreditou
nela e começou lentamente a duvidar.
E a Terceira Geração resolveu
simplesmente exercer a liberdade recebida.
Não quer destruir Abril. Quer libertar
Abril dos seus proprietários.
Porque a Democracia só estará
verdadeiramente consolidada quando ser de esquerda, de centro ou de direita
deixar de determinar a qualidade democrática de um cidadão.
Os avós fizeram Abril. Os filhos
aprenderam o catecismo de Abril .E os netos decidiram finalmente usar a
liberdade de Abril para pensar pela própria cabeça.
E talvez seja precisamente isso — e não
a perpetuação de uma determinada ideologia — a mais completa vitória do 25 de
Abril.