domingo, 23 de agosto de 2026

Quando uma Nova Direita rompe o monopólio moral da Esquerda

Num artigo anterior — A Direita precisa de aprender com Gramsci, sem se tornar gramsciana — procurei mostrar que a grande lição do pensador comunista italiano Antonio Gramsci não reside na adopção do marxismo, mas na compreensão dos mecanismos da hegemonia cultural.

Antes de conquistar o Governo, uma corrente política precisa de conquistar palavras, conceitos, valores e representações. Precisa de transformar a sua visão do mundo em senso comum. Precisa, sobretudo, de impedir que o adversário conserve o monopólio moral das causas socialmente respeitáveis.

A evolução do CHEGA permite observar este processo no terreno.

Uma direita nacional e social

Talvez estejamos perante uma tentativa, ainda incompleta, por vezes improvisada e doutrinariamente pouco consolidada, de construir uma nova direita nacional e social.

A presença do CHEGA no sistema político português tem revelado uma realidade que o jornalistado e o comentariado raramente analisam com rigor: a coexistência de um discurso nacional, conservador e securitário com propostas sociais e laborais que, durante décadas, foram identificadas quase exclusivamente com a Esquerda.

A comunicação social chama-lhe «contradição», «oportunismo» ou «populismo». Mas talvez essas classificações revelem mais sobre os preconceitos de quem observa do que sobre o fenómeno observado.

Veja-se a questão laboral. O CHEGA critica reformas que prolonguem a vida activa e defende que quem tenha 40 anos de descontos possa reformar-se aos 65 anos sem penalizações. Apresenta-se, assim, como defensor do trabalhador perante um sistema que lhe exige cada vez mais anos de trabalho para receber, muitas vezes, uma pensão insuficiente. A posição foi expressamente reafirmada pelo partido durante a discussão da reforma laboral de 2026.[1]

No domínio energético, propôs a aplicação da taxa reduzida de IVA à electricidade e ao gás, tratando a energia como bem essencial e o seu preço como uma questão de justiça social.[2]

Nas pensões, nos salários e nas condições laborais, combina a denúncia dos privilégios políticos com a defesa de uma intervenção selectiva do Estado. E, perante a globalização, apresenta-se como voz dos trabalhadores, das classes médias empobrecidas e das comunidades abandonadas pelas elites económicas e tecnocráticas.

É verdade que esta orientação representa uma evolução assinalável relativamente ao programa liberalizante de 2019. Mas é precisamente essa evolução que interessa compreender. Um partido não está condenado a permanecer eternamente encerrado no documento da sua fundação. Pode aprender, adaptar-se e reconstruir a sua base social.

As classificações do passado

Talvez, portanto, a palavra correcta não seja «tensão». E muito menos «contradição».

O que existe é uma força política que deixou de caber nas classificações confortáveis do século passado.

A análise convencional continua a presumir que a defesa dos trabalhadores pertence à Esquerda; que a defesa da ordem pertence à Direita; que a intervenção estatal é socialista; e que uma política nacional só pode ser economicamente liberal.

Mas a Nova Direita começa precisamente onde essas divisões terminam.

Ela pode defender simultaneamente autoridade e protecção social, soberania e dignidade laboral, controlo das fronteiras e intervenção económica, propriedade privada e limites ao capitalismo globalizado.

As coisas são o que são. E surpreende que os partidos tradicionais ainda não tenham percebido quanto o país mudou desde 2019, quando muitos portugueses tinham vergonha — ou receio — de dizer que votavam no CHEGA.

Hoje, começa a haver mais vergonha em confessar que ainda se vota no PS.

Há um certo desprezo na forma como os partidos tradicionais lidam com o CHEGA e com André Ventura. No caso do PS, a situação é particularmente gritante. Permanece ali uma aura de superioridade moral, como se o partido ainda pudesse distribuir certificados de respeitabilidade democrática e decidir quem tem autorização para representar os portugueses.

O problema é que os eleitores deixaram de pedir licença.

Gramsci e a disputa das palavras

É aqui que regressamos a Gramsci.

Uma força política não conquista hegemonia apenas quando vence eleições. Conquista-a quando consegue retirar ao adversário as palavras com que este legitimava o seu poder.

Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» e «privilégio».

A velha direita liberal-conservadora aceitou essa divisão do trabalho político.

A Esquerda falava de justiça. A Direita falava do défice.

A Esquerda falava dos trabalhadores. A Direita falava dos mercados.

A Esquerda organizava sindicatos, associações, movimentos culturais e redes de solidariedade. A Direita organizava conferências sobre competitividade, almoços empresariais e privatizações.

Depois, admirou-se por ter perdido cultural e eleitoralmente os sectores populares.


O CHEGA percebeu — talvez por intuição mais do que por elaboração doutrinária — que uma direita condenada a falar apenas de impostos, empresas e crescimento económico nunca conseguiria constituir uma maioria social duradoura.

Por isso, começou a disputar as palavras abandonadas pela velha direita.

Trabalho. Protecção. Reforma. Salário. Descanso. Justiça. Privilégio. Abandono. Povo.

Isto é metapolítica aplicada.

Não se trata apenas de apresentar propostas. Trata-se de alterar o significado político dessas propostas e de retirar à Esquerda o monopólio da indignação social.

Um novo bloco social

A Nova Direita não pode limitar-se à guerra cultural, ao combate à imigração descontrolada ou à denúncia das ideologias progressistas. Precisa de recuperar a questão social, criticar os efeitos desagregadores do capitalismo globalizado e construir uma aliança entre trabalhadores, famílias, pequenos empresários, classes médias empobrecidas e comunidades locais.

Precisa, utilizando uma expressão de origem gramsciana, de formar um novo bloco social.

É neste ponto que a experiência do CHEGA se torna particularmente interessante. O partido procura reunir sectores que a análise política tradicional considerava incompatíveis: antigos eleitores da esquerda, pequenos empresários sufocados por impostos e burocracias, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e cidadãos culturalmente conservadores.

O cimento desta coligação não é a consciência de classe.

É a percepção de abandono.

Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, pelas elites económicas, pelas instituições europeias, pelos grandes meios de comunicação e por uma classe dirigente protegida das consequências das decisões que toma.

A mensagem é simples: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade sente-se sacrificado perante quem governa, especula, parasita ou beneficia de privilégios.

Pode ser uma mensagem simplificadora. Pode ser explorada demagogicamente. Mas possui uma força emocional e política que o discurso tecnocrático da velha direita e o moralismo identitário da nova esquerda já perderam.

Eis o verdadeiro perigo que o comentariado pressente, embora raramente consiga explicá-lo: o CHEGA não está apenas a disputar votos à Esquerda.

Está a disputar-lhe as palavras, as causas, os trabalhadores e o direito de falar em nome dos abandonados.

Quando uma Nova Direita consegue fazer isso, não rompe apenas um cordão sanitário eleitoral.

Rompe o monopólio moral da Esquerda.

Notas:

[1] CHEGA, «Declaração Política sobre a Reforma Laboral na Assembleia da República», 3 de Junho de 2026.

[2] CHEGA, projecto de lei para aplicação da taxa reduzida de IVA ao gás e à electricidade, 4 de Setembro de 2022.