sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A velhice do PCP

Era a última campanha do velho Cunhal e, por isso, pedi ao Paulo Portas para ir ver. E lá fui na “caravana” (um método de propaganda hoje felizmente em desuso) pelo arquipélago comunista no Alentejo e margem sul. Tudo se passou na melhor ordem e nos jantares, que as militantes faziam, até se comia bem. Durante os comícios, a assistência conversava sobre a única questão que verdadeiramente a levara ali: o Álvaro. Estava o Álvaro mais magro? mais gordo? mais cansado? mais fresco? com um ar mais velho? com um ar mais novo? A missa que o dito Álvaro recitava no palanque não a interessava nada. Aquilo parecia uma família que vinha visitar o avô, ninguém queria saber de política ou do partido que putativamente a representava. No Seixal, se não me engano, houve um convívio. As senhoras puseram as mesas e trouxeram as bebidas e os bolos. Por acaso uma delas resolveu falar comigo, depois de um naco de doce de ovos. Perguntou qual seria o resultado do PC: 11 por cento, 15 por cento? Respondi que 8 ou 9 por cento. Ela choramingou: “Ai que desgosto que isso vai dar ao Álvaro!”.
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Muita gente se intriga com a durabilidade dos Comunistas. Não os percebem. 
Primeiro são poucos (pela última contagem, 50 000) — num país pequeno, em terras pequenas, nos bairros em que nasceram e cresceram. 
Segundo, vivem entre si: o partido não gosta que os militantes tenham amigos fora de casa.
Terceiro, o grau de endogamia é muito alto. Entre os mais velhos (que são quase todos) a família chega de facto a ser uma família. E com isto, claro, vem uma grande dose de nepotismo, de compadrio, de protecção e de complacência. 
Os comunistas não deixam o Partido (com maiúscula). 
Não admira. Quando saiu do PCF, por causa da invasão da Hungria, Claude Roy disse: “Fiquei sozinho”, ou coisa equivalente. Vinte anos mais tarde François Furet diria a mesma coisa. 
Em Portugal, podem ficar só três, sentados numa pedra, que, para eles, tudo continua.  (por Vasco Pulido Valente em “11 de Dezembro, 2016

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