segunda-feira, 4 de maio de 2015

...da imprensa a que temos direito!

“Senhor João Vieira Pereira. Saberá que, em tempos, o jornalismo foi uma profissão de gente séria, informada, que informava, culta, que comentava. Hoje, a coberto da confusão entre liberdade de opinar e a imunidade de insultar, essa profissão respeitável é degradada por desqualificados, incapazes de terem uma opinião e discutirem as dos outros, que têm de recorrer ao insulto reles e cobarde para preencher as colunas que lhes estão reservadas. Quem se julga para se arrogar a legitimidade de julgar o carácter de quem nem conhece? Como não vale a pena processá-lo, envio-lhe este SMS para que não tenha a ilusão que lhe admito julgamentos de carácter, nem tenha dúvidas sobre o que penso a seu respeito. António Costa”

Num país com uma real cultura de liberdade,os insultos via SMS que António Costa dirigiu ao jornalista João Vieira Pereira, director-adjunto do jornal Expresso, teriam merecido reprovação generalizada e embaraçado o líder socialista. Mas, como estamos em Portugal e como se trata de António Costa, foi apenas nota de rodapé durante um feriado. Imagine o que seria se o mesmo tivesse acontecido nos EUA, no Reino Unido ou em França. Ou, tão simplesmente, o que se diria caso o autor do SMS fosse Passos Coelho ou Miguel Relvas, em vez de António Costa. Quando a nossa disponibilidade para condenar ataques à liberdade de imprensa é selectiva, algo está mal. E é por isso que não é fácil desempatar e decidir o que é mais grave neste episódio: se o próprio SMS de António Costa ou se o facto de ninguém se ter realmente importado.

É, no entanto, inquietante que quase toda a gente tenha preferido olhar para o lado, enterrando o episódio no baú dos fait-divers. Na comunicação social, por exemplo, o caso despertou apenas breves referências, o que é difícil de compreender num sector como o jornalístico, que sempre interpretou intimidações a um dos seus como um ataque generalizado ao jornalismo e à liberdade de imprensa – nomeadamente quando os ataques vêm de figuras políticas. Mais incompreensível ainda é a ausência de reacção oficial do Expresso, que optou por deixar ao seu director-adjunto o ónus de denunciar o caso na sua coluna de opinião, sem o apoio institucional de uma tomada de posição do jornal. (artigo de Opinião de Alexandre Homem Cristo no Observador.pt )

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