domingo, 26 de abril de 2026

Va Lou "O homem que cabia sempre em todas as salas"

Há homens que participaram na História. Há outros que passaram a vida a tentar convencer-nos de que a História participou neles. Va Lou pertence a esta segunda categoria: a do protagonista que se recusa a ser personagem secundária em qualquer episódio, mesmo quando não estava lá; a do actor que transforma ausência em autoridade; a do memorialista que, depois de uma certa idade, já não recorda o passado — administra-o.

Va Lou não esteve no 16 de Março. Não esteve no 25 de Abril. Não esteve no 25 de Novembro. Mas, por artes de uma autobiografia em permanente estado de mobilização geral, conseguiu instalar a impressão de que todos esses acontecimentos lhe passaram pela secretária, lhe pediram licença e aguardaram deferimento. A Revolução, segundo esta escola narrativa, não se fez com capitães, coronéis, generais, partidos, povo, sindicatos, militares moderados, militares radicais, civis assustados e ambições em choque. Fez-se, sobretudo, com Va Lou ao centro, como se o país inteiro tivesse sido apenas uma extensão do seu ego.

Há uma figura da banda desenhada que ajuda a compreender o fenómeno: Tulius Detritus, o romano de Astérix que espalhava intriga onde punha o pé. A comparação não é gratuita; é funcional. Va Lou parece ter feito da intriga uma vocação, da suspeita uma técnica e da bastardia política uma forma de presença. Não é o estratega que a sua lenda pretende vender; é antes o agitador de corredores, o capitão que preferia a manobra à operação, o bastidor ao terreno, o enredo à clareza.

A versão que o próprio alimentou e que alguns sectores do MFA mais próximos da esquerda militar ajudaram a santificar, apresenta-o como cérebro político, consciência vigilante, peça indispensável do processo revolucionário. Mas há outras leituras. E são precisamente essas leituras que mais incomodam os proprietários morais da memória de Abril: Man Mon, Jai Nev e Cos Mar não veem nele o grande operacional, mas um actor político ideologicamente empenhado, alinhado com a ala radical do Movimento dos Capitães e situado, no 25 de Novembro, não no campo da lucidez vencedora, mas no campo derrotado.

Jai Nev descreve-o como um dos capitães mais intrigantes do MFA, alguém que alimentava conflitos internos e se mostrava mais interessado na política e na influência do que no comando. Man Mon vê nele o capitão permanentemente metido em intrigas políticas, movendo-se nos bastidores, com ambições superiores ao posto. Cos Mar, que conheceu bem o ambiente do Movimento, aponta-lhe a politização excessiva, a inclinação para manobras internas e uma certa vocação para agitador político. Não é preciso usar a palavra “mexerico” para se perceber a substância: havia ali menos comando do que enredo, menos estratégia do que vaidade em movimento.

O problema de Va Lou não é ter uma versão da História. Todos os protagonistas a têm. O problema é querer que a sua versão seja a História. Mais: que seja a única História admissível, financiável, musealizável e ensinável. Daí a fúria recente com o museu que não avança ao ritmo desejado pela Associação 25 de Abril. Segundo se percebe, teria ficado combinado, nos últimos meses do governo de António Costa, um arranjo simpático: o Estado entraria com dinheiro, cederia imóvel, e a associação de Va Lou receberia os meios e, provavelmente, a chave moral da narrativa. Um museu da Revolução, sim — mas com porteiro ideológico à entrada.

O espanto de Va Lou é compreensível. Passou tantos anos a confundir-se com Abril que deve achar estranho que Abril não venha já com a sua fotografia em marca de água. A mim, confesso, espanta-me outra coisa: que alguém tenha pensado ser boa ideia entregar a memória pública do 25 de Abril a uma associação dirigida por quem passa a vida a tratar a História como propriedade horizontal com fracção autónoma em seu nome.

Um museu sobre o 25 de Abril não pode ser uma capela. Muito menos uma capela administrada pelo sumo-sacerdote de uma das versões do PREC. Deve ouvir Va Lou, certamente. Mas deve ouvir também Man Mon, Jai Nev, Cos Mar, Ram Ean e todos os que foram apagados, diminuídos, caricaturados ou excomungados pela narrativa dominante. Um museu sério não serve para confirmar a autobiografia de ninguém. Serve para confrontar versões, documentos, memórias e responsabilidades.

A certa altura, Cos Mar escreveu, a propósito das memórias de Va Lou, que este parecia julgar-se dotado do “dom da ubiquidade”, como se tivesse estado em todas as reuniões do MFA. A frase é cruel, mas justa. Há, em Va Lou, uma incapacidade antiga de admitir que o mundo ultrapassa os limites do seu umbigo. Quando a realidade não encaixa, corrige-se a realidade. Quando os factos atrapalham, reinterpretam-se. Quando as responsabilidades incomodam, deslocam-se. Quando outros tiveram papel decisivo, passam a figurantes.

Veja-se o caso de Ram Ean. Va Lou escreveu que se considerou “enganado” por ele. Na sua cabeça, o 25 de Novembro devia-lhe obediência. Ram Ean, esse ingrato, teria respondido perante Va Lou e depois cometido o pecado imperdoável: autonomizou-se, tomou iniciativas, exerceu comando, saiu da sombra. Para quem confunde cadeia de comando com cadeia de vaidade, isto foi uma traição. Para a História, foi talvez apenas o momento em que a História decidiu não pedir autorização ao seu mais persistente proprietário.

O retrato torna-se então mais claro. Va Lou não é o fundador solitário da liberdade, nem o estratega omnipresente do processo revolucionário, nem o curador natural da memória nacional. É uma personagem importante, sim; mas uma personagem entre outras. Um actor político de 1974-75, alinhado com uma determinada ala, derrotado numa determinada conjuntura, e depois convertido em administrador vitalício de uma narrativa que pretende salvar o seu lugar no panteão.

Nada disto lhe retira importância. Retira-lhe apenas o monopólio. E é precisamente isso que ele parece não suportar. Va Lou aceita a memória desde que seja a sua. Aceita o pluralismo desde que os outros confirmem a sua versão. Aceita o museu desde que o museu não ouse perguntar se, afinal, o grande estratega não terá sido apenas o grande intrigante.

A História tem destas crueldades: quanto mais alguém tenta mandar nela, mais ela se vinga. E quando um homem passa cinquenta anos a dizer que esteve em todo o lado, talvez chegue o momento de lhe fazer a pergunta mais simples: esteve mesmo — ou apenas chegou depois, com a acta já escrita e a caneta na mão?