sexta-feira, 17 de abril de 2026

não virou à esquerda, mudou de direita ...e o jornalistado fingiu não perceber!

Há derrotas eleitorais que a imprensa noticia. E há derrotas eleitorais que a imprensa aproveita para fantasiar. 
O caso húngaro pertence claramente à segunda categoria.

Quem tenha passado os últimos dias a ouvir o costumeiro coro do jornalistado televisivo e o interminável rosário de comentadeiros profissionais terá talvez ficado com a impressão de que a Hungria, finalmente, se teria libertado de uma recaída conservadora, regressando ao trilho luminoso do progressismo europeu. Em certos estúdios, quase faltou apenas abrir champanhe em honra da alegada conversão democrática de Budapeste à religião civil de Bruxelas.
Só que a realidade, esse incómodo objecto que raramente cabe nos guiões ideológicos das redacções, diz outra coisa.
Viktor Orbán perdeu. Isso é verdade. E perdeu de forma clara. O TISZA, de Péter Magyar, obteve uma maioria esmagadora, enquanto o Fidesz sofreu a sua mais dura derrota em muitos anos e terceiro partido com representação parlamentar foi o Mi Hazánk. 
E é precisamente aqui que começa o embaraço do comentariado: os três partidos com assento parlamentar situam-se todos no espaço da direita, ainda que em variantes, estilos e orientações distintas. A esquerda, os liberais e os verdes foram simplesmente varridos do hemiciclo.

A Hungria não virou à esquerda. Nem sequer fez aquilo que tantos sonhadores de redação esperavam — uma espécie de reconciliação sentimental com o catecismo liberal-progressista dominante na Europa Ocidental. O que aconteceu foi outra coisa, bem mais interessante e, para muitos, bem mais inquietante: o eleitorado húngaro quis mudança sem entregar o país à esquerda.
Isto é o que custa admitir, porque, para a maioria do jornalistado europeu, existe um esquema mental preguiçoso e quase litúrgico: se cai um líder nacional-conservador, então a História terá necessariamente retomado o seu rumo natural, isto é, o rumo da esquerda, do centrismo domesticado ou do liberalismo de painel. Ora, a Hungria acaba de mostrar precisamente o contrário. Orbán caiu, sim. Mas não foi substituído por socialistas, nem por verdes, nem por uma coligação arco-íris de causas fracturantes, minorias performativas e tecnocracia transnacional. Foi substituído por uma força nascida de uma cisão interna no próprio campo conservador, e não de uma ressuscitação da esquerda húngara.
Isto merece ser pensado com mais seriedade do que permite o ruído habitual dos painéis televisivos.

O eleitorado húngaro não disse: “queremos a esquerda”. Disse algo mais subtil e politicamente mais relevante: “queremos outro tipo de direita, outra forma de poder, outra composição do campo nacional”. Entre Orbán e a esquerda, escolheu uma terceira hipótese que, apesar de romper com o "orbanismo", não rompeu com os reflexos profundos de uma sociedade conservadora, nacionalmente consciente e pouco disponível para experiências progressistas importadas.
É precisamente isso que o jornalistado não sabe ler — ou não quer ler.

A imprensa europeia habituou-se a classificar a política por reflexos condicionados. Se um partido não cabe confortavelmente no espaço moral do liberalismo dominante, é logo “populista”, “iliberal”, “radical” ou, nos dias mais histéricos, “extrema-direita”. Se, pelo contrário, se apresenta como alternativa a um líder maldito por Bruxelas, tenta-se imediatamente recobri-lo com verniz centrista, como se isso bastasse para o purificar perante os círculos respeitáveis. No caso do TISZA, o desconforto resulta precisamente daí: não sendo Orbán, também não é a esquerda; não sendo o Fidesz, também não é a rendição à gramática progressista; e, sobretudo, não permite contar a história querida pelas redacções, segundo a qual toda a derrota da direita soberanista seria, por definição, uma vitória da esquerda civilizacional.
Não foi. Foi uma reorganização do espaço da direita. E isso torna a eleição húngara ainda mais incómoda para as consciências mediáticas. Porque mostra que o descontentamento com um poder conservador não beneficia automaticamente a esquerda. Em certos países, pelo contrário, a esquerda desaparece mesmo do mapa, incapaz de se afirmar como alternativa credível, reduzida a um rodapé moralista sem densidade nacional, sem enraizamento social e sem autoridade cultural.

A Hungria oferece, por isso, uma lição europeia de primeiro plano.
Durante décadas, a aliança informal entre socialistas, liberais, verdes e tecnocratas de integração foi apresentada como o destino inevitável das democracias europeias. O caso húngaro mostra que esse modelo pode não apenas ser recusado por via governativa, como pode até ser excluído do próprio espaço parlamentar relevante. Num momento em que quase toda a Europa vive sob variantes da mesma coligação liberal-socialista — umas mais burocráticas, outras mais activistas, outras ainda mascaradas de centrão prudente —, Budapeste produziu um Parlamento sem esquerda representativa e sem os ornamentos costumeiros do progressismo ocidental.

Convém, ainda assim, não cair no simplismo simétrico. O TISZA não é o Fidesz com outro nome. Péter Magyar prometeu restaurar relações com a União Europeia, atacar a corrupção e recentrar a Hungria no eixo ocidental, embora sem deixar de marcar reservas nalguns dossiers, incluindo a adesão acelerada da Ucrânia à União Europeia. Isso significa que a mudança existiu, e existiu de forma substancial. Mas essa mudança ocorreu dentro do campo da direita, não pela vitória do adversário histórico desse campo.

É esta nuance que separa a análise da propaganda.
O comentariado, porém, prefere quase sempre a propaganda. Dá-lhe menos trabalho, confirma preconceitos e evita o exercício, por vezes penoso, de compreender países reais em vez de projectar sobre eles os fantasmas ideológicos das redacções metropolitanas. Daí o silêncio constrangido sobre um dado central: depois de anos de demonização de Orbán, a alternativa encontrada pelos húngaros não foi a esquerda, mas outra direita.

Isto devia fazer pensar muita gente em Portugal.
Também por cá o jornalistado tende a imaginar que todo o desgaste de uma direita mais afirmativa desemboca fatalmente numa regeneração moderada, domesticada, higienizada e finalmente aceitável aos olhos do sistema. Só que os eleitorados, quando se cansam, nem sempre regressam ao ponto de partida. Muitas vezes procuram outra formulação do mesmo impulso de fundo: identidade, autoridade, soberania, segurança, contenção migratória, defesa nacional dos interesses, rejeição da engenharia moral de cima para baixo.
A Hungria acaba de mostrar isso com clareza brutal.
Orbán caiu. Mas o universo ideológico que o tornou possível não desapareceu. Fragmentou-se, reordenou-se, mudou de comando, mas não cedeu à esquerda. E esta talvez seja a notícia que mais custou engolir aos sacerdotes do costume.

No fundo, o que aconteceu em Budapeste não foi uma conversão progressista. Foi algo muito mais perturbador para o jornalistado europeu: a confirmação de que, mesmo quando a direita perde, a esquerda pode continuar a não contar para nada. Eis a parte que eles omitiram.

E isso, para muito comentariado, é quase uma tragédia profissional.