quinta-feira, 14 de abril de 2016

Não gosto que me tomem por parvo I

O problema com Diogo Lacerda Machado não é apenas formal: é o de uma grave incompatibilidade. E o problema com aquilo que Costa diz e faz é pior: revela alguém que se vê como novo dono-disto-tudo.
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Por vezes agem como se nos tomassem a todos por burros, ignorantes, porventura analfabetos. E que por isso podem dizer não importa o quê, fazer não importa o quê e tratar o país como quem trata da sua quinta privativa, sem necessidade de dar explicações ou cumprir regras.
Um episódio destes dias – a discussão em torno do papel desempenhado por Diogo Lacerda Machado como “negociador especial” de António Costa – é bem revelador de como há hábitos que não se perdem, e um desses hábitos é o de pensar que o primeiro-ministro é uma espécie de dono-disto-tudo que põe e dispõe. É verdadeiramente extraordinária a resposta que o chefe do Governo deu na sua entrevista do DN e TSF quando lhe perguntaram como explicava a presença desse advogado nas negociações da TAP, dos lesados do BES e até nas do BPI. A primeira resposta foi a mais espontânea, porventura mais sentida e verdadeira:
“Vamos lá a ver, o Diogo Lacerda Machado é o meu melhor amigo há muitos anos, temos uma relação muito próxima”.
Como? O primeiro-ministro acha que uma relação de amizade é justificação para confiar a alguém a representação, mesmo que informal, do Estado? Ser o melhor amigo não devia até funcionar como um dissuasor, tal como funcionaria ser irmão ou primo e, por isso, ter também “uma relação muito próxima”?
Aparentemente António Costa entende que até pode estabelecer este tipo de relações informais sem que elas se submetam às regras da administração pública. “Olhe, acabámos por celebrar um contrato, porque as pessoas achavam que o facto de não haver nenhuma despesa do Estado…”, disse quando os entrevistadores lhe chamaram a atenção para a estranheza da situação. Ou seja, há alguém que em nome do primeiro-ministro negoceia com os donos da TAP e lhes dá contrapartidas (que desconhecemos) fazendo-o apenas na condição de “maior amigo”. Esse mesmo alguém também vai negociar com os lesados do BES, podendo forçar uma solução que nos venha a custar muitos milhões de euros (alguém pagará a factura, porque haverá sempre uma factura a pagar, e não creio que seja o dr. Salgado), e o PM acha que não é necessário um contrato por assim não se gasta dinheiro.
Mas há mais e mais grave.
Como se tudo isso não fosse bizarro, António Costa ainda trata com ar de enfado os que o questionam, como se esse não fosse o dever os jornalistas e a obrigação da oposição no Parlamento. Afinal, porque é que o enviado de Costa às negociações da TAP é alguém que, no passado, esteve envolvido com uma empresa, a Reditus de Miguel Paes do Amaral, interessada na privatização da companhia? E não é estranho que, no meio deste processo, tenham surgido uns accionistas chineses quando esse mesmo advogado é administrador de uma empresa, a Geocapital, que pertence, entre outros, a Stanley Ho e tem sede em Macau? Pior ainda: que pensar do facto de a mesma Geocapital e Stanley Ho aparecerem no mais nebuloso – e imensamente ruinoso – dos negócios da TAP, o da compra da operação de manutenção da Varig?
Se tudo isto não configura uma situação de grave incompatibilidade, então é porque andamos todos a fazer de anjinhos.
Na verdade, o que é que sabemos, todo este tempo passado, dos termos da “negociação” da TAP? Nada. Ou melhor, alguma coisa: sabemos que o sócio português, Humberto Pedrosa, ficou mais dois anos com a concessão do Metro do Porto por ajuste directo. Estranho, não é?

(por José Manuel Fernandes no Observador )

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