sábado, 27 de junho de 2026

Benedikt Kaiser e André Ventura: a montante das ideias e a jusante da política

Metapolítica, soberania e a recomposição da direita europeia

O problema de grande parte do comentariado português é continuar a tentar explicar fenómenos novos com manuais velhos, categorias gastas e reflexos pavlovianos. Onde existem deslocações sociais profundas, vê apenas “populismo”. Onde há recomposição ideológica, vê apenas “extrema-direita”. Onde se manifesta uma crise séria de representação, vê apenas ressentimento, manipulação ou ignorância eleitoral.
Ora, talvez a questão seja simultaneamente mais simples e mais incómoda: uma parte crescente dos eleitores europeus deixou de acreditar que a direita existe apenas para gerir mercados, baixar impostos e repetir o catecismo económico do liberalismo, tal como deixou de aceitar que a esquerda exista apenas para distribuir direitos sem deveres, identidades sem pertença e solidariedades sem reciprocidade.
É neste contexto que se torna intelectualmente interessante aproximar Benedikt Kaiser, autor alemão associado à chamada Nova Direita e ao pensamento metapolítico, de André Ventura e do CHEGA. A comparação deve ser feita com prudência. Não se trata de apresentar Ventura como discípulo português de Kaiser, nem de transformar o CHEGA numa tradução partidária directa das suas teses. Trata-se, antes, de perceber a circulação das ideias, a transformação dos vocabulários políticos e o modo como certas intuições doutrinárias passam do plano cultural para o terreno eleitoral.

Há comparações que servem apenas para colar rótulos. Esta, se for feita com seriedade, serve para compreender uma deslocação mais ampla no espaço da direita europeia.
Kaiser pertence ao universo das ideias, da metapolítica e da disputa cultural a montante da política institucional. 
Ventura pertence ao universo da acção política directa, da mobilização eleitoral, da intervenção parlamentar e da disputa imediata pelo poder. Um trabalha sobre as condições culturais da hegemonia; o outro trabalha sobre a correlação de forças dentro do sistema político. Um formula conceitos; o outro transforma conflitos em linguagem pública, palavra de ordem e combate parlamentar.
A distinção é decisiva. Kaiser é, antes de mais, um arquitecto de ideias. Ventura é, antes de mais, um actor político.

O primeiro ponto de convergência está na crítica ao neoliberalismo globalizado. Tanto Kaiser como Ventura identificam nesse modelo um factor de erosão da soberania, de fragilização das economias nacionais e de desagregação comunitária. Ambos rejeitam a ideia de que o mercado deva ser o árbitro supremo da vida social. A economia, nesta perspectiva, não pode ser concebida como uma máquina abstracta, indiferente à nação, à cultura, ao território, à memória histórica e à coesão social.
Mas a coincidência do diagnóstico não implica identidade de fundamentos. A crítica de Kaiser é essencialmente teórica. Move-se no terreno da metapolítica, dialoga com leituras de Gramsci, com a crítica do desenraizamento económico, com autores como Polanyi e com tradições intelectuais ligadas à Revolução Conservadora alemã. O que está em causa, para Kaiser, é a crítica sistémica ao capitalismo financeiro, à globalização desenraizada e à submissão das comunidades nacionais a uma ordem económica que dissolve fronteiras, pertenças e solidariedades.
A crítica de André Ventura é mais pragmática e mais situada. Nasce menos de uma construção doutrinária sistemática e mais da percepção política de uma fragilidade portuguesa concreta: dependência externa, perda de controlo sobre sectores estratégicos, empobrecimento relativo, pressão migratória, desigualdade no acesso aos apoios públicos, degradação dos serviços do Estado e sensação de abandono das classes médias e populares nacionais.
Kaiser pensa o problema a partir de uma matriz metapolítica. Ventura transforma-o em proposta, conflito e mobilização política.

O segundo ponto de aproximação encontra-se nas políticas sociais orientadas para a comunidade nacional. Ambos partem da ideia de que a solidariedade não é um mecanismo abstracto, ilimitado e indiferenciado. A solidariedade pressupõe pertença. Pressupõe reciprocidade. Pressupõe uma comunidade histórica, cultural e política capaz de reconhecer quem contribui, quem pertence, quem partilha deveres e quem pode legitimamente reclamar direitos.
É neste ponto que surge uma das noções mais interessantes de Kaiser: o chamado “patriotismo solidário”. A expressão procura conciliar identidade nacional, coesão social, protecção económica e solidariedade interna. Representa uma tentativa de ultrapassar a velha divisão entre uma direita culturalmente conservadora mas economicamente liberal, e uma esquerda socialmente intervencionista mas culturalmente universalista.

O “patriotismo solidário” pretende unir direita cultural e sensibilidade social, recusando simultaneamente o cosmopolitismo progressista e o neoliberalismo sem raízes. A sua ideia central é clara: não há verdadeira solidariedade sem comunidade; e não há comunidade sem continuidade cultural, memória histórica e fronteiras políticas reconhecíveis.

André Ventura não utiliza, em regra, esta terminologia. Mas a estrutura conceptual aparece em várias das suas propostas e formulações políticas: prioridade nacional nas prestações sociais, defesa dos “portugueses primeiro”, crítica à distribuição universalista de recursos públicos, exigência de maior controlo da imigração, protecção de sectores estratégicos e recusa de uma economia entregue apenas às forças impessoais do mercado global.
A diferença está no registo. Kaiser formula isto como doutrina. Ventura formula isto como combate político.

O terceiro ponto de convergência está na ideia de economia enraizada. Ambos valorizam a soberania energética, a relocalização produtiva, a protecção de infra-estruturas críticas e a necessidade de impedir que sectores decisivos da vida nacional fiquem dependentes de centros de decisão externos. Em Kaiser, esta questão inscreve-se numa crítica mais ampla ao capitalismo financeiro e ao desenraizamento económico. Em Ventura, surge sobretudo como crítica à fragilidade portuguesa, à dependência externa e à incapacidade do regime para defender interesses nacionais elementares.

Também aqui a diferença é reveladora. Kaiser quer desmontar a lógica cultural e económica do globalismo. Ventura quer disputar, dentro das instituições existentes, políticas concretas que devolvam margem de decisão ao Estado nacional.
Há ainda uma dimensão estratégica que merece atenção: a possibilidade de alianças temáticas transversais, por vezes designadas, no vocabulário alemão, por Querfront. A ideia não é necessariamente a criação de uma frente política orgânica entre direita e esquerda, mas a constatação de que certas críticas ao sistema liberal-globalista podem atravessar fronteiras ideológicas convencionais. Defesa da soberania, crítica ao capital financeiro, protecção do trabalho nacional, combate ao desenraizamento e oposição à imigração massiva podem surgir em espaços políticos distintos, ainda que por razões diferentes.

Kaiser pensa esta transversalidade como instrumento metapolítico. Ventura pratica-a, quando lhe convém, como táctica política. Pode aproximar-se de reivindicações sociais que a direita tradicional abandonou, sem por isso deixar de manter uma gramática política nacional, securitária e identitária.
É isso que confunde a direita liberal clássica e irrita a esquerda. A direita liberal gostaria que Ventura falasse apenas de autoridade, segurança, impostos e criminalidade. A esquerda gostaria que qualquer discurso social vindo da direita fosse imediatamente declarado suspeito, ilegítimo ou “populista”. O problema é que a política real tem o desagradável hábito de escapar às gavetas ideológicas dos comentadores.

Por isso, a aproximação entre Kaiser e Ventura deve ser feita com cuidado. Existem paralelos reais, mas as equivalências são perigosas. Kaiser é um intelectual metapolítico, preocupado com a construção de uma hegemonia cultural alternativa. Ventura é um político institucional, preocupado com resultados eleitorais, disputa parlamentar, visibilidade mediática e capacidade de influência no sistema político português.

K
aiser trabalha a montante. Ventura trabalha a jusante.
Kaiser pergunta: que ideias devem preparar o futuro?
Ventura pergunta: que conflitos podem alterar o presente?
Kaiser quer transformar o clima cultural. Ventura quer transformar a correlação de forças políticas.
Esta distinção impede duas leituras simplistas. 
A primeira seria afirmar que Ventura apenas aplica Kaiser em Portugal. Não parece correcto. Ventura move-se num contexto político, mediático e social muito específico, marcado pela crise do regime português, pela degradação dos serviços públicos, pela pressão migratória, pela insegurança, pela desconfiança nas instituições e pelo esgotamento da alternância entre PS e PSD. O seu discurso nasce desse terreno concreto.
A segunda leitura simplista seria negar qualquer parentesco intelectual ou temático. Também não parece sério. O CHEGA, mesmo sem se apresentar como partido doutrinário no sentido clássico, participa claramente de uma tendência europeia mais vasta: a reconstrução de uma direita nacional, socialmente sensível, culturalmente identitária e crítica do neoliberalismo globalizado.

É nessa tendência que a comparação com Kaiser ganha interesse. Não para reduzir Ventura a Kaiser, nem para transformar Kaiser em ideólogo secreto do CHEGA, mas para perceber que há uma deslocação em curso no espaço da direita europeia. A velha direita liberal, economicista, urbana, tecnocrática e obediente à linguagem dos mercados já não esgota o campo da direita. Está a nascer, ou a regressar, uma direita que quer falar de nação, fronteiras, trabalho, pertença, soberania e solidariedade.
A expressão “patriotismo solidário” ajuda a compreender essa deslocação. Ela mostra que a questão social deixou de pertencer exclusivamente à esquerda e que a questão nacional deixou de poder ser tratada como sobrevivência folclórica. Numa época de globalização desregulada, migrações massivas, desindustrialização, precariedade, dissolução cultural e fragilidade do Estado social, a pergunta decisiva volta a ser a mais antiga de todas: quem somos nós, e que deveres temos uns para com os outros?

Kaiser responde a partir da metapolítica. Ventura responde a partir da política.
Um escreve para preparar um horizonte. O outro fala para disputar o poder.
A convergência existe. A equivalência, não.
E talvez seja precisamente isso que torna a comparação interessante. Porque mostra que o CHEGA não é apenas um fenómeno de protesto, como repetem preguiçosamente os seus adversários. É também a expressão portuguesa, tumultuosa, imperfeita e eleitoralmente eficaz, de uma reorganização ideológica mais vasta da direita europeia.
Pode gostar-se ou não. Pode temer-se ou saudar-se. Mas convém percebê-la antes de a insultar.

O problema do comentariado português é que prefere quase sempre o insulto à análise. Chama “populismo” àquilo que não compreende, “extrema-direita” àquilo que não quer discutir e “ressentimento” àquilo que não sabe explicar. Mas uma sociedade política não muda apenas porque alguém grita mais alto. Muda quando antigas categorias deixam de organizar a experiência colectiva e quando novas perguntas começam a impor-se.
A pergunta que hoje atravessa a direita europeia é esta: pode haver soberania sem protecção económica? Pode haver solidariedade sem comunidade? Pode haver Estado social sem fronteiras? Pode haver democracia nacional se as grandes decisões forem transferidas para mercados, tribunais, burocracias internacionais, organizações supranacionais e elites mediáticas sem mandato popular?

Kaiser procura responder a estas perguntas no plano das ideias.
Ventura responde-lhes no plano do conflito político português.
Entre ambos haverá, portanto, menos uma relação de mestre e discípulo do que uma afinidade de época. Um dá linguagem teórica a uma inquietação europeia. O outro dá tradução política portuguesa a parte dessa inquietação.
E isso, para quem ainda pensa, é muito mais interessante do que mais uma etiqueta pronta a colar.