domingo, 22 de março de 2026

Ormuz: memória do Império, geoestratégia e cegueira contemporânea

Preste João e Camões
Há temas que regressam à actualidade como se fossem novidade, quando na verdade apenas regressam ao lugar onde a história nunca deixou de os conservar: o lugar das permanências. O Estreito de Ormuz é um deles. A espuma mediática trata-o como ponto de crise conjuntural, mera nervura energética do presente, cenário de ameaças, bloqueios e demonstrações de força. Mas Ormuz é mais do que um estreito, mais do que uma linha de passagem marítima, mais do que um nome repetido por analistas apressados. Ormuz é uma chave. E Portugal, muito antes de os tecnocratas da geopolítica descobrirem os “chokepoints”, já percebera o que significava controlar as KPls (chaves indicadoras de desempenho), as "Gates" e os "gargalos do mundo".[1]

Convém, por isso, começar pela história — sobretudo para os mais novos, isto é, para os que foram educados a confundir a história nacional com um catálogo de culpas, simplificações e prudências retroactivas. D. Manuel I herdou de D. João II não apenas um trono, mas uma visão. Essa visão consistia em projectar Portugal no Índico através do domínio das suas chaves fundamentais: Ormuz, Ádem, Goa e Malaca.[2] Não se tratava de capricho aventureirista, nem de mera avidez mercantil. Tratava-se de compreender que o poder marítimo só existe verdadeiramente quando sabe onde apertar a circulação do comércio, das peregrinações, das alianças e das guerras. Foi essa a lógica da expedição de 1506, da conquista de Ormuz por Afonso de Albuquerque em 1507, da posterior tomada de Goa em 1510 e de Malaca em 1511, numa sequência que daria a Portugal posições terrestres a partir das quais o império marítimo passaria a ser mais do que um sonho náutico: passaria a ser uma arquitectura de poder.[2]

É aqui que a história deixa de ser apenas evocação e passa a ser geoestratégia. Robert D. Kaplan insiste em que o século XXI obrigará os Estados Unidos — e, por arrastamento, o Ocidente — a deslocarem o olhar do Atlântico para o Índico, para essa “Ásia das Monções” onde se cruzam energia, demografia, radicalismo, comércio marítimo e disputa entre grandes potências.[3] A região que vai do Corno de África ao arquipélago indonésio, passando por Omã, Índia, Paquistão, Bangladesh, Sri Lanka e Sudeste Asiático, não é uma periferia exótica: é um centro em formação. O que impressiona, visto a partir de Portugal, é que este diagnóstico, hoje apresentado como renovação analítica, reencontra uma intuição antiga da nossa experiência imperial.
Afonso de Albuquerque percebeu, com a dureza prática dos homens de acção, aquilo que muitos estrategas contemporâneos esquecem no conforto dos mapas digitais: o mar não se controla apenas no mar. Controla-se a partir de bases em terra, preferencialmente em ilhas, promontórios, penínsulas e fortalezas que permitam vigiar, abastecer, intimidar e negociar. A grande estratégia portuguesa no Índico entre 1507 e 1515 assentou precisamente nisso: não numa fantasia de omnipotência oceânica, mas na articulação entre mobilidade naval e fixação terrestre. O império das feitorias só sobrevivia se fosse, também, um império de fortalezas.[4]

Foi isso, aliás, que Portugal tentou fazer quando procurou entender-se com a Pérsia Safávida contra o inimigo otomano, separando o tabuleiro naval do tabuleiro continental.[4] A lição é de uma actualidade desconfortável. Uma potência marítima pode dispor de marinhas poderosas, tecnologia superior e capacidade de projecção; mas sem rede política em terra, sem acordos sólidos, sem inteligência cultural e sem prudência estratégica, o domínio do mar degrada-se em exibição temporária. Ormuz, ontem como hoje, não se segura apenas com navios; segura-se com arquitectura de influência.
Mas a história do Império portuguesa não se esgota no cálculo estratégico. Seria empobrecê-la, e talvez não a compreender de todo, separá-la da dimensão imaginária que a alimentava. É aqui que surge o mito do Preste João, figura lendária e persistentemente mobilizadora no imaginário europeu. Durante séculos, a Europa projectou nessa figura a esperança de encontrar, algures em África ou no Oriente, um rei cristão poderoso que permitisse cercar o Islão, restaurar equilíbrios perdidos e reconectar a Cristandade a uma dimensão universal que julgava sua por direito providencial.[5] O Preste João não foi apenas uma fantasia piedosa. Foi um instrumento mental de orientação geopolítica. A sua força residia justamente no facto de combinar escatologia, diplomacia e estratégia numa só imagem.
Essa força simbólica ajuda a compreender melhor a expansão portuguesa. A busca do Preste João não funcionava apenas como curiosidade medieval ou impulso evangelizador. Funcionava também como legitimidade narrativa para a presença portuguesa em África e no Oriente. O mito oferecia uma moldura espiritual àquilo que era, simultaneamente, um projecto de comércio, guerra, reconhecimento geográfico e afirmação civilizacional.[5] E, como sucede com todos os mitos geopolíticos, a realidade acabaria por resistir à fantasia. A Etiópia cristã existia, sim, mas não correspondia ao molde idealizado pelo imaginário europeu. O desfasamento entre mito e realidade não anulou, porém, a utilidade política do mito. Mostrou apenas que as civilizações actuam não só pelo que sabem, mas também pelo que esperam encontrar.

Chegados aqui, Camões impõe-se. Não como ornamento literário, mas como intérprete maior de uma ambição histórica. Em Os Lusíadas, Camões regista e glorifica a empresa oriental portuguesa, incluindo os feitos de Albuquerque em Ormuz, mas fá-lo com uma espessura moral e política que a leitura escolar frequentemente banaliza.[1][6] Camões aparece aqui como profeta sisudo: alguém que canta a grandeza, mas não abdica da advertência; que celebra a expansão, mas recusa reduzir o império à simples embriaguez de vitória; que oferece a visão da “máquina do mundo” não como licença para a megalomania, mas como imposição de responsabilidade.
Talvez seja precisamente esse o ponto onde mais falha o nosso presente. Perdemos a linguagem da responsabilidade estratégica e conservámos apenas o reflexo moralista, burocrático ou sentimental. Falamos de rotas energéticas sem cultura histórica; falamos de alianças sem memória civilizacional; falamos de guerra e paz como se o mundo fosse administrável a partir de relatórios, comunicados e conferências multilaterais. O contraste com o século XVI não serve para alimentar nostalgias infantis nem projectos de reconstituição impossível. Serve para recordar que um pequeno reino periférico foi capaz de pensar o mundo em termos globais, de identificar centros de gravidade, de transformar geografia em poder e de ligar mito, fé, comércio e força numa só visão operativa.[1][2]

Ormuz, por isso, não deve ser lido apenas como problema petrolífero, ponto de tensão entre o Irão e o Ocidente, ou mera artéria do comércio mundial. Deve ser lido como símbolo. Símbolo daquilo que a Europa foi capaz de compreender quando ainda se sabia civilizacionalmente viva. Símbolo de uma política externa que não se confundia com gestão de danos. Símbolo, também, da diferença entre povos que entram na história para a moldar e povos que se limitam a comentá-la depois de feita por outros.
Revisitar Ormuz é, portanto, mais do que revisitar um episódio imperial. É testar a nossa própria indigência contemporânea. E talvez a pergunta mais incómoda não seja se Portugal poderia hoje voltar a pensar estrategicamente o mundo. A pergunta verdadeiramente incómoda é outra: quererá sequer voltar a pensar-se a si mesmo como alguma coisa que mereça ser situada no mundo?

Fontes
[1] José Costa-Deitado, O Estreito de Ormuz: Revisitar Impérios, Rever Abril, Cdeitado, Março de 2026.
[2] Jaime Nogueira Pinto, O estreito de Ormuz: dos capitães da Índia aos capitães de Abril, Observador.
[3] Robert D. Kaplan, Monsoon: The Indian Ocean and the Future of American Power, Random House, 2010.
[4] Bruno Cardoso Reis, Regressar a Ormuz e outras lições aprendidas da guerra com o Irão, Observador.
[5] Roger Crowley, referências ao mito do Preste João no quadro do imaginário europeu da expansão portuguesa e da procura de alianças cristãs no Oriente e no Nordeste de África.
[6] Luís de Camões, Os Lusíadas, em especial a tradição épica relativa à expansão portuguesa no Oriente e à figura de Afonso de Albuquerque.