Os portugueses de hoje — esses felizes herdeiros das “alegrias da democracia” e do progresso que Abril, magnânimo, lhes ofereceu — têm, compreensivelmente, dificuldade em imaginar que este país já foi outra coisa. Não melhor, não pior; apenas outra coisa.
Afinal, habituados à liberalidade dos nossos representantes e à democraticidade exemplar que pauta a vida pública, quem poderia conceber que, no século XIV, um punhado de homens tão iliberais, tão pouco inclusivos e tão perigosamente assertivos como Nun’Álvares Pereira resistiu a Castela? Ou que, no século XVI, figuras ainda mais suspeitas — Afonso de Albuquerque à cabeça — ousaram conquistar um império no Oriente sem sequer submeter previamente o plano estratégico a consulta pública, debate parlamentar ou parecer da Comissão de Ética.
E porque hoje se fala tanto de Ormuz, talvez valha a pena recordar esses obscuros primórdios do século XVI, quando um Portugal oprimido pelo autoritarismo monárquico e católico decidiu, num gesto claramente populista, desviar atenções dos problemas internos através da opressão além fronteiras. Há quem, com uma nostalgia quase criminosa, insista em chamar a isso “epopeia”.
Mas não nos enganemos: só com o raiar de Abril raiou a Democracia, e só então Portugal pôde finalmente aspirar a grandes feitos — como a criação de comissões, grupos de trabalho e relatórios preliminares sobre feitos que nunca chegam a acontecer.
II. Camões, o profeta sisudo
Passado o necessário exorcismo irónico, entremos no terreno mais sólido — e mais sério — da história e da literatura.
A política imperial portuguesa do início do século XVI não se limitava ao comércio da pimenta ou ao controlo de rotas estratégicas. D. Manuel I e Afonso de Albuquerque pensavam, de facto, em termos que hoje chamaríamos de mudança de regime. A retórica cruzadística, longe de ser mero ornamento, estruturava a visão estratégica do império nascente.
Camões, sempre atento ao espírito do seu tempo, regista essa ambição em Os Lusíadas. Na estrofe 40 do Canto X, pela voz da ninfa Thétis, celebra os feitos de Albuquerque em Ormuz: «Esta luz é do fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque irá amansando
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes
Que refusam o jugo honroso e brando
Ali verão as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a fé da Madre Igreja.»
A exaltação épica, porém, não impede Camões de exercer crítica moral. A partir da estrofe 45, censura Albuquerque pela severidade com que pune um subordinado por um delito sexual menor — um episódio que revela a tensão entre virtude militar e humanidade, entre disciplina e desmesura.
Segue-se a enumeração dos governadores e capitães da Índia, num catálogo que funciona simultaneamente como celebração e advertência: o império constrói-se com grandeza, mas também com falhas humanas, excessos e ambiguidades.
III. A “máquina do mundo”: visão, poder e responsabilidade
O episódio culmina com a ascensão de Vasco da Gama ao cume da Ilha dos Amores, onde a ninfa lhe revela a “máquina do mundo”. A imagem é poderosa: uma visão totalizante da Terra, dos seus reinos, povos e mares, numa antecipação renascentista da globalização.
Camões oferece ao Gama — e, por extensão, a Portugal — uma perspectiva que transcende o imediato. A visão do mundo como totalidade implica responsabilidade, consciência histórica e capacidade de agir para além do interesse momentâneo.
É aqui que o contraste com o presente se torna inevitável. Não porque devamos replicar o passado, mas porque a memória histórica obriga a pensar o país para lá da espuma dos dias. Ormuz, ontem como hoje, é mais do que um estreito: é um ponto de fricção entre poderes, narrativas e ambições.
E talvez seja precisamente isso que falta ao debate contemporâneo — a capacidade de olhar para a “máquina do mundo” com a mesma amplitude que Camões atribuiu ao seu herói.
IV. Concluindo entre a ironia e a responsabilidade
Se começámos com sarcasmo, foi apenas para sublinhar o óbvio: a história portuguesa não cabe nos clichés fáceis, nem nos discursos que ora a demonizam, ora a santificam.
O passado não é um espelho onde procuramos validação moral; é um laboratório onde se estudam decisões, consequências e visões do mundo.
E revisitar Ormuz — seja o de Albuquerque, seja o das tensões contemporâneas — é recordar que Portugal já pensou estrategicamente, já agiu com ambição global e já se viu como parte de uma história maior.
Talvez não seja preciso regressar ao século XVI para recuperar essa lucidez. Mas ajuda.

