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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

QUANDO A EXTREMA-ESQUERDA TROCA AS URNAS PELAS RUAS

A França de Mélenchon, a violência política e o aparecimento das Novas Direitas como resposta à crise das velhas ideologias europeias

A França como laboratório de uma nova confrontação política

No seu artigo «A intifada em França», publicado no Observador em 9 de Outubro de 2026, Rui Ramos apresenta uma interpretação inquietante dos acontecimentos que têm marcado as manifestações estudantis francesas. O que começou por reivindicações relacionadas com as condições de ensino, a falta de professores e a insuficiência dos recursos disponíveis transformou-se, em diversos locais, numa sucessão de confrontos violentos, destruição de estabelecimentos escolares, agressões a agentes policiais e intervenções de organizações políticas que procuram influenciar o movimento. A questão colocada pelo historiador ultrapassa, por isso, a discussão sobre o financiamento da Educação: estaremos perante uma mobilização social que determinados sectores da extrema-esquerda procuram converter num instrumento de pressão política, capaz de condicionar o funcionamento das instituições democráticas?

A pergunta merece uma resposta cuidadosa, porque seria tão errado negar a violência efectivamente ocorrida como atribuir automaticamente a todos os estudantes ou manifestantes a responsabilidade pelos actos praticados por grupos violentos. As reivindicações educativas podem ser legítimas, independentemente do comportamento de quem procura instrumentalizá-las. O que está em discussão é a eventual transformação de um conflito social numa oportunidade de confrontação política permanente, especialmente quando os protagonistas dessa estratégia encontram dificuldades em alcançar, pelas vias eleitorais, a influência institucional que ambicionam.

O direito à manifestação é uma conquista da democracia; o recurso à intimidação e à violência para impor decisões políticas constitui a sua negação. Esta distinção deveria ser elementar, mas parece tornar-se cada vez mais difícil quando os acontecimentos são avaliados através de critérios ideológicos diferentes consoante a identidade política dos intervenientes.

O Princípio da Flutuabilidade Política

PRINCÍPIO DA FLUTUABILIDADE POLÍTICA
Quanto menor for o poder institucional de uma força política, maior tende a ser o valor estratégico que atribui à mobilização extra-institucional — se dispuser de organização, causas mobilizadoras e capacidade para transformar queixas concretas em injustiças colectivas.

Existe uma ideia particularmente útil para compreender esta situação, que tenho designado por Princípio da Flutuabilidade Política: quanto menor for a capacidade de uma força política para exercer influência através das instituições, maior poderá tornar-se o valor estratégico que atribui à mobilização extra-institucional, desde que disponha de organizações, causas mobilizadoras e capacidade para transformar queixas concretas em sentimentos de injustiça colectiva.

Não se trata de uma lei universal, nem de um fenómeno exclusivo da esquerda. Ao longo da História, movimentos de diferentes orientações ideológicas recorreram à pressão das ruas quando consideraram insuficientes os instrumentos da representação parlamentar. A questão decisiva está em saber se essa mobilização respeita as regras democráticas ou se procura substituí-las por relações de força.

É nesta perspectiva que a análise de Rui Ramos adquire especial interesse. Jean-Luc Mélenchon e La France Insoumise representam uma corrente da esquerda francesa que combina a intervenção parlamentar com uma intensa actividade de mobilização social, recorrendo frequentemente a uma linguagem de confrontação com as instituições estabelecidas. Isso não demonstra, por si só, responsabilidade pela violência, mas torna legítimo investigar as relações entre organizações partidárias, movimentos estudantis, activistas radicais e grupos que participam nos confrontos.

Quando a rua deixa de ser um espaço de reivindicação e passa a ser apresentada como fonte de legitimidade superior à vontade eleitoral, a democracia representativa enfrenta um problema fundamental: quem tem o direito de decidir em nome da comunidade política?

A nova composição cultural da extrema-esquerda

Rui Ramos identifica uma transformação ideológica que considera particularmente relevante: a aproximação entre sectores da esquerda radical, movimentos estudantis, organizações ligadas às causas pós-coloniais e determinados ambientes político-religiosos mobilizados em torno dos conflitos do Médio Oriente. Esta aproximação pode observar-se em manifestações, alianças locais e campanhas políticas, mas importa distinguir a solidariedade com os palestinianos, que constitui uma posição política legítima, do fundamentalismo religioso ou do apoio à violência terrorista, que são realidades diferentes.

O fenómeno interessante está na capacidade de determinadas organizações para reunir causas que, à primeira vista, parecem pertencer a universos ideológicos distintos. O activismo universitário, o discurso anticapitalista, as reivindicações identitárias, a denúncia do colonialismo e a oposição às políticas migratórias restritivas podem encontrar pontos de convergência numa narrativa comum de contestação à ordem política, económica e cultural ocidental.

Essa convergência não constitui necessariamente uma organização unitária, muito menos uma prova de cumplicidade entre todos os participantes. Mas revela a importância crescente daquilo que poderemos chamar coligações culturais, nas quais organizações e movimentos diferentes colaboram em torno de adversários e objectivos comuns, mesmo mantendo profundas divergências doutrinárias.

Em França, La France Insoumise tornou-se um dos principais protagonistas dessa estratégia de mobilização; na Alemanha, sectores de Die Linke participam em movimentos de contestação social; e, no Reino Unido, organizações da esquerda radical procuram estabelecer pontes entre reivindicações económicas, ambientais e identitárias. As diferenças entre estes movimentos são significativas, mas a utilização de causas transversais para ampliar a respectiva influência constitui um elemento que merece estudo.

O problema democrático não está na existência dessas alianças, perfeitamente legítimas enquanto respeitarem a lei, mas na eventual tolerância perante práticas de intimidação, agressão ou destruição, justificadas através de uma alegada superioridade moral da causa defendida.

Nenhuma reivindicação política, por mais justa que os seus promotores a considerem, concede o direito de incendiar escolas, agredir professores ou transformar as forças policiais em alvos de violência.

Mélenchon e o problema presidencial de 2027

Uma das partes mais interessantes do artigo de Rui Ramos é a interpretação das consequências que esta mobilização poderá ter para as eleições presidenciais francesas de 2027. O historiador constrói um cenário hipotético no qual uma vitória presidencial de uma candidatura das direitas nacionais poderia ser acompanhada por uma intensificação da contestação de rua, colocando o novo poder perante um dilema: responder através dos instrumentos legais de manutenção da ordem pública e enfrentar acusações de autoritarismo, ou demonstrar incapacidade para controlar a violência, arriscando-se a perder autoridade política.

Trata-se de uma hipótese, não de um plano comprovadamente concebido por Mélenchon. A sua relevância está em identificar um mecanismo conhecido da História política: a possibilidade de um movimento organizado procurar obter através da pressão social uma capacidade de condicionamento das instituições superior à sua representação eleitoral.

O perigo torna-se particularmente evidente quando a legitimidade de um Governo deixa de depender apenas do voto dos cidadãos e do respeito pela Constituição, passando também a depender da aceitação de organizações capazes de produzir perturbação social significativa.

É nesta circunstância que o conceito de flutuabilidade política encontra uma aplicação esclarecedora. A força de um movimento não se mede exclusivamente pelo número de deputados que elege, mas também pela capacidade de mobilização, pela influência cultural, pela presença em organizações sociais e pela possibilidade de colocar questões na agenda pública.

Esta constatação não implica equiparar manifestação e violência. Pelo contrário, obriga a distinguir cuidadosamente entre o exercício legítimo dos direitos democráticos e as tentativas de substituir a deliberação institucional pela coerção.

O paradoxo das velhas esquerdas europeias

A transformação da esquerda radical deve igualmente ser relacionada com a crise das correntes políticas que, durante décadas, dominaram a vida europeia. A social-democracia, o comunismo tradicional e as organizações sindicais formadas em torno da sociedade industrial enfrentam dificuldades para interpretar as novas divisões sociais, culturais e identitárias.

O trabalhador industrial, que durante grande parte do século XX constituiu uma referência central do discurso socialista e comunista, já não ocupa necessariamente a mesma posição nas estratégias eleitorais e culturais de numerosos partidos de esquerda. Em seu lugar, ou ao seu lado, surgem movimentos ambientalistas, reivindicações identitárias, organizações estudantis, causas migratórias e diferentes formas de activismo cultural.

Este processo não representa o desaparecimento da questão social, mas a sua integração num quadro político mais fragmentado, no qual as preocupações económicas concorrem frequentemente com questões de identidade, reconhecimento cultural e pertença comunitária.

É também neste contexto que se torna interessante analisar a emergência das Novas Direitas europeias, algumas das quais procuram recuperar precisamente temas que as esquerdas tradicionais afirmavam representar: a protecção dos trabalhadores, a defesa da comunidade, a segurança económica, a habitação, a dignidade das condições de vida e a soberania democrática.

O resultado é uma reconfiguração das fronteiras ideológicas. A velha oposição entre uma esquerda exclusivamente social e uma direita predominantemente económica já não explica adequadamente o conjunto das propostas políticas contemporâneas.

As Novas Direitas e a disputa pela hegemonia cultural

A reflexão que tenho vindo a desenvolver sobre as Novas Direitas assenta numa distinção fundamental: estas correntes não devem ser compreendidas apenas como manifestações de descontentamento eleitoral, mas também como tentativas de reconstrução intelectual, cultural e política de tradições que consideram insuficientemente representadas pelos partidos conservadores, liberais e democratas-cristãos do pós-guerra.

Em algumas dessas correntes, a influência da reflexão metapolítica, particularmente da interpretação do conceito gramsciano de hegemonia cultural, conduziu à conclusão de que a conquista de maiorias eleitorais não basta para produzir transformações duradouras. Importa também disputar as ideias, os valores e as referências culturais que orientam o funcionamento das instituições e a formação da opinião pública.

Existe aqui uma interessante simetria histórica. Enquanto sectores da extrema-esquerda investem na construção de alianças culturais e movimentos de mobilização social, diferentes correntes das Novas Direitas procuram desenvolver redes intelectuais, meios de comunicação alternativos e novos instrumentos de intervenção cultural.

O que distingue democraticamente estas estratégias não é a intensidade das convicções, mas o respeito pelos limites constitucionais, pela liberdade dos adversários e pela legitimidade dos resultados eleitorais.

A defesa da identidade nacional, da continuidade cultural ou da soberania política pode integrar plenamente o debate democrático, tal como a defesa da igualdade social, do internacionalismo ou de transformações económicas profundas. Nenhuma destas posições deve ser automaticamente excluída do espaço público por classificações ideológicas simplificadoras.

Mas nenhuma pode reclamar para si uma autorização especial para recorrer à violência ou negar aos adversários direitos que exige para os próprios apoiantes.

Portugal e a memória da pressão revolucionária

Para quem conhece a História portuguesa do período revolucionário de 1974-1975, esta discussão suscita inevitavelmente algumas recordações. A experiência do PREC demonstrou como a legitimidade política podia ser reivindicada simultaneamente através das eleições, das organizações partidárias, das estruturas militares, das comissões de trabalhadores e das mobilizações de rua, originando conflitos profundos acerca de quem detinha o direito de determinar o futuro do País.

As diferenças históricas entre Portugal em 1975 e a França contemporânea são evidentes, mas permanece pertinente a questão fundamental: numa democracia constitucional, a força política deve resultar da vontade dos cidadãos expressa através de instituições legítimas, e não da capacidade de determinados grupos para paralisar ou intimidar a sociedade.

Essa preocupação deve aplicar-se a todas as correntes políticas, sem excepção. As experiências de violência e intimidação política não se tornam aceitáveis por serem praticadas em nome da revolução, do antifascismo, do nacionalismo ou de qualquer outra causa.

Também em Portugal importa analisar de que modo os partidos e movimentos contemporâneos procuram construir alianças culturais, mobilizar sectores sociais e influenciar o debate público. A comparação com França pode ser esclarecedora, desde que não se transforme numa identificação automática de realidades nacionais distintas nem numa imputação colectiva de responsabilidades sem demonstração factual.

O verdadeiro desafio das democracias europeias

O artigo de Rui Ramos coloca uma questão que merece ser discutida muito para além das simpatias e antipatias partidárias: como devem as democracias europeias responder quando movimentos de contestação legítimos são acompanhados por organizações ou indivíduos que recorrem à violência?

Uma resposta exclusivamente policial seria insuficiente, porque não resolveria os problemas sociais que podem estar na origem dos protestos. Mas uma resposta exclusivamente política, que evitasse responsabilizar os autores de agressões e destruição, acabaria por enfraquecer os direitos daqueles que se manifestam pacificamente e dos cidadãos que não participam nas manifestações.

A exigência fundamental deve ser dupla: ouvir as reivindicações legítimas e aplicar a lei aos comportamentos violentos, independentemente da orientação ideológica dos responsáveis.

É também necessário abandonar a tendência para avaliar os movimentos políticos através de padrões diferentes. Se a violência deve ser condenada quando surge associada à extrema-direita, não pode ser relativizada quando envolve grupos ligados à extrema-esquerda. A coerência democrática exige exactamente os mesmos critérios de liberdade, responsabilidade e legalidade para todos.

A consolidação das Novas Direitas, a transformação das esquerdas tradicionais e a emergência de novas coligações culturais tornam ainda mais importante esta distinção. O pluralismo político pressupõe a possibilidade de contestar profundamente as políticas existentes, mas exige igualmente que nenhuma força pretenda substituir o consentimento democrático pela intimidação.

Rui Ramos termina perguntando se as elites europeias compreenderão a dimensão do fenómeno que descreve e se estarão dispostas a resistir às suas manifestações violentas. A resposta institucional deveria ser inequívoca: investigar responsabilidades, garantir a liberdade de manifestação, proteger os cidadãos e assegurar que o exercício do poder continua subordinado à Constituição e à vontade eleitoral.

Porque uma democracia que aceita que a violência determine aquilo que os votos não decidiram deixa de ser governada pelos cidadãos e começa a ser condicionada por quem consegue impor o medo nas ruas.

José Costa-Deitado
ReVisões — Outubro de 2026

Referência: Rui Ramos, «A intifada em França», Observador, 9 de Outubro de 2026. As hipóteses acerca da estratégia eleitoral de Mélenchon são interpretações do articulista e não factos demonstrados.

domingo, 16 de agosto de 2026

Ao fim de décadas, a máscara caiu...

Há uma ideia que se instalou em Portugal durante quase meio século e que começa, finalmente, a desfazer-se: a de que a liberdade política nasceu à esquerda, pertence à esquerda e apenas pode ser legitimamente administrada pela esquerda — tolerando-se uma direita desde que suficientemente moderada, envergonhada e obediente aos limites culturais que aquela lhe fixou.
Talvez por isso haja hoje quem diga que Portugal vive tempos de menor liberdade. Creio precisamente o contrário. 
Hoje respira-se mais liberdade em Portugal porque, finalmente, existem, além das esquerdas e das extremas-esquerdas, novas direitas políticas que se assumem como tal, sem vergonha, sem complexos e sem pedirem previamente licença ao tribunal moral do progressismo.
E isso altera profundamente o sistema.

Eu vivi o PREC. Não o estudei apenas nos livros
Convém dizê-lo porque há acontecimentos históricos que uma geração conhece através dos arquivos e outros que alguns de nós conheceram na própria pele.
Eu vivi aquele tempo.
Vi alguns — sublinho: alguns — dos chamados Capitães de Abril demonstrarem que o seu projecto ultrapassava largamente a simples substituição do Estado Novo por uma democracia parlamentar ocidental.
Vi o período posterior ao 11 de Março de 1975, os saneamentos, as prisões políticas, o clima de intimidação e a progressiva transformação do adversário político em “reaccionário”, “fascista” ou inimigo da Revolução.
E vivi pessoalmente o medo daqueles meses, incluindo a chamada e nunca definitivamente esclarecida “Matança da Páscoa”, em cuja alegada lista constava o meu nome.
Por isso, não aceito a cómoda reconstrução segundo a qual de um lado estavam sempre os democratas e do outro os fascistas.
A realidade foi muito mais incómoda.

"Abril" derrubou uma ditadura. Não garantiu automaticamente a democracia .
É historicamente errado afirmar que todos os militares de Abril pretendiam instaurar uma ditadura comunista. Não pretendiam.
Mas é igualmente errado fingir que nenhum sector relevante do movimento revolucionário quis ultrapassar a democracia representativa e conduzir Portugal para um regime socialista revolucionário.
O próprio Otelo Saraiva de Carvalho, símbolo máximo do 25 de Abril, viria, no Verão de 1975 e após uma visita a Cuba, a admitir publicamente a possibilidade de uma repressão muito dura dos chamados contra-revolucionários e a dificuldade de realizar uma revolução socialista integralmente por meios pacíficos.
Estas palavras existiram.
Como existiram o COPCON, os saneamentos, as ocupações, as nacionalizações revolucionárias, as prisões sem culpa formada, a disputa pelo controlo da informação, a radicalização de sectores militares e civis e a ideia de que a legitimidade revolucionária poderia prevalecer sobre a legitimidade eleitoral.
Nada disto significa negar "Abril".
Significa precisamente recuperá-lo da mitologia. 

O 25 de Novembro não foi um acidente
Portugal teve eleições livres em 25 de Abril de 1975. Isso é incontornável.
Mas também é incontornável que a realização de eleições não encerrou imediatamente a disputa sobre o regime.
Durante meses continuou em aberto uma pergunta essencial: Portugal seria uma democracia parlamentar europeia ou uma experiência revolucionária tutelada por militares e vanguardas políticas?
É neste quadro que o 25 de Novembro de 1975 ganha o seu verdadeiro significado.
Não apagou Abril. .
Impediu que Abril fosse apropriado por quem desejava transformar uma revolução contra uma ditadura numa revolução para construir outra forma de autoritarismo. 

Para mim, que vivi esse tempo, a fórmula é simples:
Abril derrubou a velha ditadura; Novembro tornou possível a consolidação da democracia pluralista.
A máscara começou depois a ser reconstruída
Com a estabilização democrática surgiu, porém, uma extraordinária vitória cultural da esquerda.
A História foi sendo progressivamente simplificada.
Os revolucionários passaram a ser apresentados como libertadores quase por definição. As suas intenções receberam permanentemente o benefício da dúvida. Os seus adversários permaneceram, durante décadas, debaixo de suspeita.
Até figuras posteriores ligadas à violência política beneficiaram durante demasiado tempo de uma indulgência cultural dificilmente imaginável para personagens oriundas da extrema-direita.
O caso de Otelo e o debate em torno das FP-25 são talvez a demonstração mais evidente dessa estranha separação entre memória revolucionária e responsabilidade política.

Foi necessário que uma nova geração de historiadores, investigadores, jornalistas e autores voltasse aos documentos, aos testemunhos e aos factos para que certos santos começassem a regressar à condição humana.
E é saudável que assim seja.
Uma democracia não necessita de santos fundadores.
Necessita de verdade histórica. 

O segundo monopólio também está a acabar
Mas a mudança mais importante talvez esteja a acontecer agora.
Durante décadas, a extrema-esquerda podia declarar-se comunista, marxista, revolucionária ou anticapitalista sem que a sua própria existência fosse considerada uma ameaça à democracia.
À direita, pelo contrário, o espaço admissível era estreitíssimo.
Havia uma direita aceitável: parlamentar, liberal, europeísta, culturalmente defensiva e quase sempre receosa de ser confundida com aquilo que existira antes de 1974.
E depois havia “os outros”.
A esses distribuíam-se etiquetas.
Reaccionários. Radicais. Populistas. Extremistas. Fascistas.

a Era do pluralismo com porteiro. 
Mas esse tempo está a terminar.
Há hoje uma nova direita portuguesa que já não aceita que seja a esquerda — ou sequer a velha direita tradicional — a determinar previamente aquilo que pode pensar, aquilo que pode dizer e os temas que pode colocar na praça pública.
Pode errar. Pode exagerar. Pode ser contraditória. Pode e deve ser criticada.
Mas existe.
E a sua simples existência alarga a democracia. 

Pela primeira vez, após as eleições de 2024, todo o espectro está à nossa disposição 
É talvez esta a verdadeira novidade histórica.
As actuais novas gerações são as primeiras da nossa História milenar que têm verdadeiramente à sua disposição, no espaço público e eleitoral, praticamente todo o espectro político.
Podem escolher entre comunistas e socialistas, sociais-democratas e liberais, conservadores e nacional-conservadores, esquerdas radicais e novas direitas.

Podem ouvir uns e outros. Podem rejeitar uns e escolher outros.
Isto não é menos democracia.
É mais democracia.

E não deixa de ter significado que, quando esta amplitude ganha protagonismo, são precisamente a esquerda e a direita tradicional que perdem terreno — e, por vezes, parecem também perder-se a si próprias.
Talvez porque durante demasiados anos confundiram hegemonia com normalidade.
Talvez porque confundiram privilégio cultural com consenso.
E talvez porque quem sempre decidiu onde terminava o “arco democrático” esteja a descobrir que já não possui o exclusivo da régua. 

Ao fim de décadas, a máscara caiu.
e Portugal não é menos livre porque uma nova direita passou a ter voz.
Mas 
Portugal é mais livre porque nenhuma esquerda, nenhuma direita tradicional e nenhum guardião autoproclamado da democracia pode continuar a decidir sozinho quem tem autorização para participar nela.

A liberdade não diminui quando o espectro político se alarga. Diminui quando alguém pretende voltar a estreitá-lo.

sábado, 23 de maio de 2026

O que é que o PS nos quer esconder?

 

José Diogo «O homicídio que acabou num tribunal popular em plena revolução»

"José Diogo" ou José Diogo Luís (Castro Verde, 14 de Julho de 1938 – Castro Verde a 12 de Agosto de 2015) foi um trabalhador agrícola, tratorista, responsável pelo assassinato de Columbano Líbano Monteiro em consequência de ferimentos de um ataque à navalha, a 30 de Setembro de 1974, em Casével, Castro Verde.

O julgamento de José Diogo tornou-se um caso mediático e político muito alimentado por sectores da extrema-esquerda radical nomeadamente, pela
UDP
. Neste julgamento popular, que em nada tinha a ver com os órgãos judiciais, realizado em Tomar, a 25 de Julho de 1975, resultou na condenação da vítima Columbano Líbano Monteiro e ilibou José Diogo de todos os crimes.

O assassinato de Columbano Líbano Monteiro
Columbano Líbano Monteiro, nascido em Mangualde em 1896, veterinário de profissão e ex-presidente da Câmara Municipal de Castro Verde entre 1944 e 1959.
Jose Diogo era um trabalhador rural, de 36 anos desempenhando a função de tratorista trabalhando na herdade de Líbano Monteiro
A mudança de regime, ocorrida a 25 de Abril e a penetração do PCP no Alentejo deram maior força às reivindicações dos trabalhadores agrícolas (o salário mínimo rural só seria aprovado mais tarde) que reclamavam melhores salários e pagamento de horas extraordinárias.
Por se ter recusado a fazer horas extraordinárias, ainda por cima não pagas, José Diogo foi despedido. A 30 de Setembro, ao final de uma semana, voltou a casa de Líbano Monteiro para lhe pedir novamente emprego.[1]
Rapidamente se envolvem os dois numa discussão. José Diogo espeta uma faca no peito do seu antigo patrão, atingindo-lhe os intestinos. Transportado para o centro de saúde de Castro Verde, onde não se encontrava nenhum médico, foi levado de imediato para o hospital de Beja. A 2 de Outubro acabaria transferido para a Casa de Saúde das Amoreiras, em Lisboa, onde morreria, a 12 daquele mês. Causa de morte: “Peritonite, ferida por arma branca e insuficiência cardíaca esquerda”. [2]
Nessa altura já José Diogo tinha sido preso, a 30 de Setembro e entregue ao Tribunal de Ourique que decretaria pena de prisão preventiva até ao julgamento. O juiz de instrução, acusou José Diogo de ter tido a intenção de matar Columbano Líbano Monteiro tendo lhe desferido uma facada que que causou a morte, através de “a lesão traumática do intestino, a que sobreveio como complicação uma peritonite, resultou na morte do ofendido”.[3]

O julgamento popular
Em Maio de 1975, no auge do PREC, José Diogo se encontrava em prisão preventiva quando a UDP partilha uma carta de José Diogo dirigida à Associação de Ex-Presos Políticos Anti-Fascistas (AEPPA). O PCP, de que Zé Diogo era militante, não quis tomar posição em cima de um crime de sangue e deixou campo aberto. A AEPPA, o GAC – Grupo de Acção Cultural e outros sectores da extrema-esquerda começaram a fabricar um mártir. O GAC, grupo cançonetista de que fez parte José Mário Branco, chegou mesmo a dedicar-lhe um tema, enaltecendo a virtude da acção de Zé Diogo contra a opressão do fascista Columbano Monteiro [4]
Nesta carta, José Diogo declara-se marxista-leninista, critica a justiça burguesa e condena a vítima Líbano Monteiro como um fascista opressor. O julgamento inicialmente previsto para Ourique, foi transferido para Lisboa e posteriormente para Tomar, o que não chegou a acontecer devido à falta de comparência de réu Zé Diogo, entretanto transferido, por razões de segurança para a Cadeia de Leiria e do advogado de acusação Daniel Proença de Carvalho. O réu era defendido por Amadeu Lopes Sabino, José Augusto Rocha e Luís Filipe Sabino. José Diogo conseguiria, no Tribunal Criminal, apenas a liberdade condicional mediante o pagamento de fiança de 50 mil escudos, que lhe tinha sido recusada inicialmente, uma vez que o tipo de crime em causa não a previa.[5]
Foi então que a
UDP organizou o julgamento popular de José Diogo se constitui nas escadarias do tribunal, a pedido do juiz, para que não houvesse perigo de destruição das instalações pela assistência,[1] um júri composto por 20 elementos: oito representando comissões de trabalhadores da Setenave, Sorefame, Mocar, Fábrica de Fiação e Tecidos de Torres Novas, Termoeléctrica, Metalúrgica Duarte Ferreira e Hospital de Cascais), dez representantes do povo de Castro Verde e dois membros da AEPPA. Na assistência vários militantes do PCP e UDP e ainda muitos populares. Ao fim de algumas horas, a deliberação do júri do tribunal popular: José Diogo foi absolvido do crime, enquanto a vítima mortal da facada, Columbano Líbano Monteiro era condenada, a título póstumo, por ter explorado os trabalhadores durante tantos anos a fio. "...José Diogo não cometeu nenhum crime, embora seja seu juízo que o acto de José Diogo foi um acto individual......." [2]
A absolvição pelo tribunal popular não chegou para libertar José Diogo – que acabou, mais tarde, por ser julgado no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa. Os juízes condenaram-no a seis anos de cadeia, apesar da moldura pena ser de 10 a 15 anos. José Diogo, contado o tempo de esteve preso à espera de julgamento, saiu em liberdade condicional meses depois.[2]
José Diogo viria a falecer a 15 de Agosto de 2013, em Caséve, Castro Verde.[6] O caso do seu julgamento viria a ser retratado num documentário realizado por Luis Galvão Teles[7] e um livro ambos com o titulo “Liberdade Para José Diogo", com assinatura da Associação de Ex-Presos Políticos Anti-Fascistas (AEPPA)” de Fernando Ribeiro de Mello e editado pelas edições Afrodite.[8]

Referências
Poças, Nuno Gonçalo (24 de julho de 2022). «O homicídio que acabou num tribunal popular em plena revolução». Observador
«"Liberdade para José Diogo" | Memórias da Revolução | RTP». Memórias da Revolução. Consultado em 23 de julho de 2022
Grupo de Acção Cultural, GAC. «Zé Diogo». GAC - Vozes da Luta
«Julgamento popular de José Diogo». www.cmjornal.pt. 24 de julho de 2022
«Morreu o José Diogo, o tratorista de Columbano Monteiro». alvitrando.blogs.sapo.pt. 13 de agosto de 2015. Consultado em 23 de julho de 2022
«Liberdade para José Diogo». ICA. Consultado em 23 de julho de 2022
«Memórias da Revolução - 28 de Julho | "Liberdade para José Diogo"». memoriasdarevolucao.pt. Consultado em 23 de julho de 2022

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

a primeira grande derrota do PCP, ou o princípio do fim do PREC. II

O PRINCíPIO DO FIM - Há 50 anos, a 5 de Setembro de 1975, acontecia a primeira grande derrota do PCP, o princípio do fim do PREC. Tratou se da Assembleia do MFA ou também conhecida, entre os derrotados como o pronunciamento de Tancos. 

Em Setembro, o governo comunista de Vasco Gonçalves estava moribundo, sem qualquer força política. Costa Gomes quando o nomeou alertou que seria um governo a prazo. Ainda com a legitimidade revolucionária a sobrepor-se à legitimidade democrática, o governo, mesmo que provisório, não possuia qualquer representatividade política, ao invés era um governo de um único partido, o PCP.
Infelizmente isso não significou, no imediato, uma travagem nas nacionalizações, ocupações de terras, saneamentos ou prisões sem validação de um juiz e na maioria dos casos com mandados de captura em branco. Desde que o PS e PSD tinham saído do Governo, o PCP sentia que teria pouco tempo para transformar Portugal no país dos Sovietes. Costa Gomes foi claramente o seu maior cúmplice e ainda hoje não sabemos o propósito, se para permitir a entrega de Angola aos comunistas do MPLA, se para garantir que todo o Alentejo se tornava numa enorme Unidade Cooperativa de Produção: em Julho, Agosto e Setembro ocuparam-se mais de 200 mil hectares ou para terminarem o processo de nacionalizações: a CUF, a Petroquímica, as Pirites Alentejanas, a Companhia das Lezírias ou a Covina ( Ind Vidreira), a Setenave ou os Estaleiros de Viana do Castelo foram nacionalizados no mês de Agosto ou principio de Setembro de 1975.
Foi a maior tragédia económica que atingiu Portugal desde o início da sua história moderna. O Portugal teve uma quebra real do PIB per capita de 6,7% em 1975, depois de já ter caído mais de 1,3% em 1974.
E assim foi
No início de setembro de 1975, o Presidente da República Costa Gomes propõe aos três ramos das forças armada nomear Vasco Gonçalves, então primeiro-ministro, como Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), retirando-lhe desta forma a chefia do governo.
A proposta teve a oposição do Exército e da Força Aérea, já que a Marinha mantinha o seu espírito revolucionário e estava indefetível ao lado de Vasco Gonçalves.
Face à falta de consenso, foi sugerido que a proposta viesse a ser apresentada numa Assembleia do MFA. Para isso seria necessário fazer Assembleias preparatórias para cada um dos ramos das Forças Armadas,
As reuniões preparatórias decorreram em cada ramo das Forças Armadas. A do Exército, foi a mais tumultuosa e com muitos detalhes, já que foram precisas duas Assembleias para se chegar ao resultado final.

Vasco Gonçalves, embora lutando energicamente, de forma estridente até ao fim, sentiu a ausência de apoio e saiu derrotado. Proferiu um discurso longo, cerca de 40 minutos, resignado, e renunciou ao cargo de CEMGFA. Assim, depois de altos e baixos, ganhou a linha próxima dos moderados.
O Grupo dos Nove tinha organizado cuidadosamente os encontros, com o objetivo de bloquear a nomeação de Vasco Gonçalves na chefia das Forças Armadas, aprovar a recomposição da Assembleia que lhes daria maioria e por fim impôs o afastamento de alguns membros comunistas do Conselho da Revolução, contrariando a hegemonia do PCP. Foram também votados nomes para o Conselho da Revolução, sendo excluídos Vasco Gonçalves, Corvacho, Miguel Judas, Costa Martins e outros oficiais próximos dos comunistas, numa proporção de 9 para um. Otelo foi curiosamente um aliado dos moderados no combate ao PCP. Nem sabia ele, que para o Pais recuperar o caminho da Democracia seria o COPCON o próximo alvo a neutralizar.
No dia seguinte, reuniram-se também as assembleias da Armada e da Força Aérea. Enquanto a segunda estava alinhada com o Exército e o Grupo dos Nove, a da Armada manteve-se, como sempre, fiel a Vasco Gonçalves.

Na Assembleia do MFA, já reunindo os três ramos, Os Nove afastaram definitivamente Vasco Gonçalves da liderança das Forças Armadas, recompuseram o Conselho da Revolução e consolidaram a sua influência, marcando a derrota definitiva dos "gonçalvistas" e reduzindo em muito o peso do PCP no Conselho da Revolução.
Os moderados vencem a batalha de Tancos. Recompõem o Conselho da Revolução, que passa a contar com apenas três elementos ligados ao PCP, entre eles Rosa Coutinho, militar de má memória quer para os Portugueses quer para os Angolanos. Os mais ativos oficiais gonçalvistas caem no meio da refrega. Otelo inebriado com a vitória e inoportuno como sempre, reclama:
“Agora é preciso que aprendamos todos, que nos esforcemos por aprender aquilo tudo que não nos quiseram ensinar, ao longo dos anos. É preciso que os tipos do 25 de Abril saibam qual é o caminho.

Como descrito mais tarde pelo historiador José Freire Antunes “Expansivo e inábil, Otelo continua a saber exprimir, como ninguém, toda a fragilidade dos militares atirados para a fogueira da política.”
Em Tancos morre o gonçalvismo, mas não o PCP, mesmo que tenha saído fortemente abalado. O PPD reclamou o fim do Conselho da Revolução, ao mesmo tempo que reclamava ir armar 50 mil homens, mas a luta transferiu-se para outra arena - a rua, e é cada vez mais radical. A norte, ardiam sedes do PCP, atacadas por populares com algum apoio da Igreja, principalmente na zona de Braga. Por cada tentativa de assalto, os militantes comunistas reagiam ao tiro, o que demonstrava que o PCP já estava armado. Dois meses depois o País assistiu ao cerco da Assembleia da República por parte de forças afetas ao PCP, talvez a maior intimidação coletiva exercida sobre um órgão de soberania. Cerca de 90 dias depois assistiria a uma tentativa de golpe de Estado liderada pelo PCP e com a participação inequívoca de Otelo, com intervenção direta, precisamente sobre as tropas que estavam estacionadas na base de Tancos. Mas isso é outra história e iremos lá mais tarde.
(Manuel Castelo Branco)


 


quinta-feira, 10 de julho de 2025

e a imprensa passou a ser "comunicação social"! Ainda é!

Junho a Setembro de 1975 são os meses da pluralidade de imprensa e a forma como o PCP directamente ou através dos sindicados por si controlados ou outros partidos e movimentos ainda mais radicais, acabou com a liberdade de imprensa. Este será o primeiro de 3 posts dedicados à ocupação da RR, do República e os saneamentos no Diário de Notícias. Foi uma estratégia de controle da informação e tentativa de tomar o poder por parte do PCP, ainda que no processo da RR, tenha sido ultrapassado por forças ainda mais radicais à sua esquerda.
Logo a 18 de Março, Correia Jesuíno, Ministro da Comunicação Social, antigo membro da comissão governativa de Angola, nomeia José Emílio da Silva, também ele um homem de confiança de Rosa Coutinho, militar do PCP, auto-apelidado de progressista e que mais tarde foi Ministro da Educação e Cultura nos IV e V Governos Provisórios de Vasco Gonçalves, talvez os mais terríveis que o País já conheceu.
Já em fevereiro, o “Radio Clube Português” e a maioria dos jornais diários tinham sido nacionalizados. Com a nacionalização da banca e dos seguros em 14 de março de 1975, grande parte dos jornais portugueses, que eram propriedade de bancos, também passaram para o setor público. Isso incluiu "O Século", "Diário Popular", "Jornal do Comércio", "O Comércio do Porto", "Diário de Lisboa", "Diário de Notícias" e o "Jornal de Notícias.
Nesta altura, apenas o “República”, ligado ao PS e o semanário “Expresso”, ambos em Lisboa, e o “Primeiro de Janeiro”, no Porto, e permaneciam privados. A estes vir-se iam a juntar os semanários “O Jornal”, assumidamente de esquerda não comunista e “O Tempo” de centro-direita. Mas nenhum deles tinha ainda a dimensão para ser considerado uma ameaça. Quer “O Diabo” e “O Dia” só apareceriam mais tarde, já depois do 25 de Novembro, tal como “O Diário” propriedade do PCP. Nas rádios, apenas a “Radio Renascença” se mantinha privada, mas nem por isso livre já que era controlada e manietada pelo PCP.
Na RR, segundo algumas fontes, a tensão terá começado logo a seguir ao 25 de Abril, quando alguns trabalhadores, não ficaram satisfeitos com a cobertura dada à chegada a Portugal de Mário Soares e Álvaro Cunhal, vindos de França.
A 19 de fevereiro a comissão de trabalhadores convoca uma greve que contou logo com o apoio do COPCON que enviou uma chaimite a alguns soldados que estacionaram em frente à sede na Rua Capelo. A emissão foi encerrada com a canção "Grândola, Vila Morena", logo após a leitura de um "manifesto ao povo português" onde os trabalhadores afirmavam sua determinação em continuar a luta contra os proprietários da estação.
Contudo, a greve não teve apoio unânime. Os funcionários da Renascença no Porto e os administrativos em Lisboa, acabaram por se distanciar das reivindicações dos grevistas do setor radiofónico. Essa cisão entre os trabalhadores, somada à saída dos sacerdotes que atuavam como garante dos valores cristãos na estação, fez com que a situação rapidamente se transformasse em uma luta ideológica pelo controle da emissora.
Depois de várias greves, vários saneamentos e de inúmeras discussões sobre se o modelo deveria ser autogestão, preferido pela Comissão de trabalhadores ou cogestão entre a Comissão de trabalhadores e o Patriarcado, que era o proprietário. Desde Março que o MFA tinha nomeado uma comissão mista para gerir a RR cujo objectivo era assegurar o cumprimento de uma orientação ideológica, compatível com a revolução socialista sem preocupações com a orientação católica da emissora.
Às 19h do dia 27 de Maio de 1975, 19 trabalhadores ocupam as instalações da RR, na Rua Capelo e na Buraca, com medo de que o governo devolvesse a gestão ao seu dono – o Patriarcado. Os restantes 80 trabalhadores que se recusam a apoiar o gesto, são saneados, expulsos das instalações e impedidos de entrar. A partir dai a emissora, perde a designação de Emissora Católica Portuguesa e apenas utilizando os emissores do sul e o estúdio de Lisboa, foca-se no apoio aos ideais revolucionários e da luta de classes. Os emissores do Norte e Centro, cuja ligação aos estúdios de Lisboa tinha sido cortada por funcionários afectos ao Patriarcado, esses, continuam a emissão normal gerida através do Porto, mantendo o espírito e programação da Emissora Católica Portuguesa. Esses funcionários viriam a ser presos pelo COPCON com uma acusação estapafúrdia de terem participado no 11 de Março.
Os noticiários da RR sulista e revolucionária eram agora centrados nas actividades do COPCON e no Otelo. É alias aos microfones desta emissora, que o mais tarde fundador das FP25 afirma: "Eu, às vezes, chego a pensar que a nossa inexperiência revolucionária, enfim, teria sido melhor se, em 25 de Abril de 1974 encostássemos à parede ou mandássemos para o Campo Pequeno umas centenas ou uns milhares de contra-revolucionários, eliminando-os à nascença. Tenho a impressão de que neste momento a contra-revolução já não existia, pelo menos por medo. Nós quisemos fazer uma revolução humanista, uma revolução de cravos, uma revolução muito bonita, e estamos agora com um esforço tremendo para a conseguir levar a cabo." 
A 18 de junho, os partidos de extrema-esquerda que lideravam a ocupação convocam uma manifestação em frente ao Patriarcado, no Campo de Santana em apoio e solidariedade aos trabalhadores ocupadores. A UDP, o MES, a OCMLP, o PRP-BR, LUAR, a FSP e uma organização chamada Cristão pelo Socialismo (CPS). Esta última era mais uma bizarria nacional, inspirada no modelo Chileno nascido com Allende e liderada, por Luis e Conceição Moita também membros das Brigadas Revolucionárias, afirmavam que "...não é a fé em Jesus Cristo que pode separar o trabalhador cristão dos seus irmãos e companheiros no esmagamento e na exploração, já que o Evangelho convergente com a prática política de construir uma sociedade sem classes...". Sobre eles até D. António Ferreira Gomes dizia serem um grupo fora da Igreja. Como em quase todas as tentativas de controle de poder, o PCP não participava, para que se corresse mal não poder ser acusado de afrontar a Igreja Católica. Mas suficientemente próximo, através de alguns elementos do MDP/CDE para saltar para a liderança no caso de vitória. Como seria de esperar PS, PSD, CDS e PDC manifestam-se publicamente em apoio ao Patriarcado e à Igreja.
A esta manifestação, segue-se outra contramanifestação, convocada pelos padres nas suas paroquias e resulta em confrontos com mais de 38 feridos e mais de 1000 pessoas que tiveram de se refugiar dentro do Patriarcado. D. António Ribeiro, Cardeal-Patriarca de Lisboa que, liderou a evacuação, negociando extensivamente com o COPCON para que os católicos pudessem ser retirados em veículos cobertos, sem que fossem previamente identificados pelas forças militares. Curiosamente D. António Ribeiro, talvez imbuído do espírito de perdão, viria mais tarde a defender uma amnistia para Otelo Saraiva de Carvalho quando da sua prisão por liderar as FP25, mesmo que nunca se tenha preocupado com a dor e sofrimento das suas vítimas. Já antes o tinha feito quando demonstrou grande preocupação com a greve da fome dos membros do PRP-BR detidos, Isabel do Carmo e Carlos Antunes.
Como consequência da manifestação, o governo termina com a comissão de gestão conjunta, mas nem assim consegue acabar com a desocupação da RR sulista e revolucionária.
Entretanto de Roma vêm noticias que o Papa reza por Portugal " reza ao Altissimo para que a solidariedade fraterna possa encontrar uma solução rápida e justa para os problemas que se deparam à Igreja Católica em Portugal".
A 2 de Julho, o governo comunista decide entregar a RR de volta ao Patriarcado, no entanto a comissão de trabalhadores rejeita a decisão e diz colocar nas mãos da classe operária a decisão final. Em contradição, o Conselho da Revolução nomeia uma comissão administrativa até "nacionalização das frequências de radio e das empresas emissoras". A ocupação contínua na Rádio Renascença o que gerou grande desconforto nos sucessivos governos provisórios de Vasco Gonçalves. Mas em 19 de Setembro, Pinheiro de Azevedo é nomeado Primeiro Ministro de um governo onde apenas um dos ministros era assumidamente comunista. Ainda assim, a 30 de Setembro, o governo era incapaz de desocupar os estúdios devido à desobediência do COPCON, e por isso ordenou a destruição do emissor da Buraca através da colocação de uma bomba que o destruiu. Diante da dificuldade em manter forças militares no local, os emissores foram selados em 15 de Outubro. Contudo, a incapacidade de fazer cumprir as ordens levou o Conselho de Ministros e o Conselho da Revolução a uma reunião em 6 de novembro, onde decidiram por uma medida extrema para silenciar a estação: a colocação de explosivos nos emissores da Buraca, que ocorreu no dia seguinte. Foram precisas 2 bombas e 60 tropas paraquedistas. Este bombardeamento dos emissores resultou na desocupação posterior dos estúdios de Lisboa, pondo fim ao caso da Rádio Renascença. No entanto, esta só viria a ser entregue ao Patriarcado en Dezembro de 1976. Desde essa altura voltou a existir apenas uma RR - a Emissora Católica Portuguesa.
Durante mais de 15 anos a RR foi a única radio privada em Portugal, num panorama onde todas as emissoras eram controladas pelo estado. Mais que o António Sala e a Olga Cardoso, “A Vida Também Se Diz” do Padre Dâmaso ou a Bola Branca (2º edição), a RR foi um farol de qualidade e liberdade de informação, sem manipulações ou interferências governativas. Isso foi a obra de todos, mas o esforço de um homem – Magalhães Crespo que geriu a emissora na crise de 1975 com enorme coragem e sensatez e a recuperou e levou à liderança nacional nos anos seguintes. 
 

sexta-feira, 24 de novembro de 2023

o Dia de Antes!

Resumo dos tempos conturbados em Portugal, entre 1974 e 1976:
- A 25 de Abril de 1974, o MFA (Movimento das Forças Armadas) coordenado pelo Otelo
Saraiva de Carvalho, apoiado pelo CCP (Movimento dos Capitães), derrubaram o antigo regime, forçando o exílio no Brasil de Marcelo Caetano e Américo Tomaz.
- António Sebastião Ribeiro de Spínola é nomeado Presidente da Junta Militar.
- Abolição da Direcção Geral de Segurança (DGS) antes Policia Internaciona de Defesa do Estado (PIDE).
- A 16 de Maio de 1974, Adelino da Palma Carlos é nomeado Primeiro Ministro de 1º Governo Provisório.
- Otelo Saraiva de Carvalho, lidera a COPCON (Força militar de elite com 5.000 homens) que funciona como polícia política.
- 18 de Julho de 1974, Vasco dos Santos Gonçalves é nomeado Primeiro Ministro do 2º Governo Provisório. Vasco Gonçalves é renomeado Primeiro Ministro para os 3º e 4º Governos Provisórios em que a Extrema Esquerda vai tendo cada vez mais força.
- Em Setembro de 1974 António Sebastião Ribeiro de Spínola demite-se de Presidente da República e é substituido por Francisco da Costa Gomes.
- Em Outubro de 1974, o Partido Comunista consolida a sua força no MFA, controlando as repartições administrativas, os sindicatos e os comités de trabalhadores.
- Em Janeiro de 1975, começam as ocupações de terras pelos trabalhadores rurais no Alentejo.
- A 11 de Março de 1975, dá-se uma alegada tentativa falhada de golpe de estado para dar um fim aos excessos revolucionários, liderada pelo General António de Spínola que se refugia para o Brasil.
- As prisões voltam-se a encher com presos políticos.
- No dia que se seguiu ao 11 de Março, o Sindicato dos Bancários de Lisboa encerra todas as dependências para forçar a decisão das nacionalizações que começaram pelo sector bancário e segurador. Com o correr dos meses foram sendo tomados pelo Estado a grande indústria, os transportes públicos, a comunicação social, o sector agrário e, quase sempre por via indirecta, o imobiliário, o turismo e alguns serviços.
- A 3 de unho de 1975, todos os serviços de informação passam para o controlo do Concelho da Revolução.
- A 8 de Agosto de 1975, José Pinheiro de Azevedo é nomeado Primeiro Ministro do 5º Governo Provisório.
- Começam as nacionalizações das principais indústrias e serviços.
- Em Agosto de 1975, dá-se o processo a que chamaram dos retornados – refugiados vindos das colónias portuguesas principalmente de Angola.
- Aumenta o desemprego e aparece a primeira crise económica.
- A 19 de Setembro de 1975, José Pinheiro de Azevedo é nomeado Primeiro Ministro do 6º Governo Provisório.
- Os confrontos entre populares e as ocupações agonizam-se, estando Portugal perto da guerra civil.
- A 25 de Novembro de 1975 dá-se uma nova tentativa de golpe militar que foi contrariadapela força militar liderada pelo Coronel António dos Santos Ramalho Eanes que declarou de imediato o Estado de Emergência, tomando o controlo do MFA, COPCON e Comandos.
- A 26 de Novembro de 1975, o COPCON é extinto e Otelo Saraiva de Carvalho é despromovido e preso.
- Em Abril de 1976 é proclamada a nova Constituição
- Em Julho de 1976 são realizadas as primeiras eleições livres para o parlamento em 50 anos.
- A 23 de Julho de 1976 Mário Soares é eleito Primeiro Ministro numa coligação entre o Partido Socialista e o PPD/PSD (1976-1978).
- Ramalho Eanes é eleito Presidente da República (1976-1980).

domingo, 4 de janeiro de 2015

O país dos anos quentes

Foi um verão quente e longo. Discutia-se política como hoje se discute futebol. Em vez de turistas, os hotéis estavam cheios de retornados. Era outro país: imaginem o PCP no governo, ou as forças armadas à disposição de Otelo. O PREC foi o equivalente, com trinta anos de atraso, das “libertações” de 1944-1945 em Itália ou em França, com um partido comunista à conquista do Estado e o Estado à conquista da sociedade. Mais um pouco, e não teria acontecido: a última revolução socialista da Europa coincidiu com a crise do petróleo e o início da viragem liberal no Ocidente: quatro anos depois, Thatcher e Reagan estavam no poder.
O ambiente de esquerdismo facilitou a retirada de África, a maior prioridade das autoridades militares. O PREC acabou por naufragar no pluralismo do país. As eleições de 25 de abril geraram o atual leque partidário, com comunistas e esquerdistas em minoria. As manifestações do verão opuseram ao “povo” da esquerda, a sul, o “povo” da direita, a norte. Portugal não era o país homogéneo da propaganda. Muita coisa aconteceu na rua e nas assembleias do MFA, mas muito mais coisas aconteceram no segredo dos gabinetes e das embaixadas. Uma vez era Vasco Gonçalves que estava no poder; de repente, era Pinheiro de Azevedo.

As revoluções nunca são transparentes. No fim, todos acabaram frustrados: os revolucionários não meteram os “fascistas” no Campo Pequeno; os contra-revolucionários não limparam os “comunas”. Portugal não foi Cuba, nem o Chile: melhor assim. Dez anos depois, começámos a parecer um país europeu. (Ramos, Rui in http://Observador)

quinta-feira, 11 de março de 2010