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terça-feira, 18 de novembro de 2025

Obrigado, “retornados”!

Cinquenta anos depois, se calhar já podemos dizer o óbvio: a esquerda tratou meio milhão de portugueses com mais desumanidade do que agora acusa a direita, toda ela, de lidar com os estrangeiros.
(Nuno Gonçalo Poças)

Chamaram-lhe “Ponte Aérea”, mas foi uma espécie de “aterragem forçada” de vidas inteiras. Há cinquenta anos terminava a maior operação de evacuação aérea da história portuguesa, com cerca de meio milhão de portugueses, caídos literalmente do céu, a chegar à capital de um império que então se extinguia.
Vieram essencialmente de Angola e Moçambique com pouco, e muitos com quase nada. Um cartão de embarque, uma pasta com documentos, caixotes com os seus bens que nunca mais viram, filhos ao colo e vidas às costas. Tinham nomes, histórias, profissões, raízes, cultura e vistas largas. Perderam quase tudo. Ganharam um nome: retornados.

Portugal, então recém-saído da ditadura e mergulhado na anarquia revolucionária de um PREC sem bússola, olhou para este meio milhão de concidadãos com desconfiança e hostilidade. Tinham sido colonos, diziam. Eram ricos, exploradores, “os do Ultramar”. Fascistas, naturalmente. Foram um dos inimigos fáceis da sede revolucionária, com a agravante de não terem sequer mecanismos para reagir.

Mas o mais notável em toda a história do regresso dos nacionais a Lisboa não foi a hostilidade com que foram recebidos, mas o que os próprios fizeram com a ostracização a que foram sujeitos. Não se tornaram reféns da vitimização, deitaram mãos à obra. Os portugueses que vinham das colónias sabiam que o mundo acaba num horizonte largo, e não ao fundo do Chiado. Trouxeram hábitos, capacidade de trabalho, cultura de gestão, formas de estar, até palavras novas. Abriram cafés, empresas, oficinas, fábricas. Reconstruíram-se contra a cultura hegemónica, sempre marxista, e fizeram-no sem pedir favores; sem subsídios, sem planos estratégicos. Fizeram o que faz quem não tem alternativa, que é sempre a maior das forças motoras, num país que estava habituado a não fazer nada ou a fazer muito pouco.
Os “retornados” continuam a ser uma ferida mal contada da nossa memória colectiva. Nunca houve um esforço sério para integrar a sua história na narrativa do regime. Continuam, talvez, a ser estranhos num país de gente amorfa. Talvez porque nos expõem as fraquezas, e exibem, sem contemplações, a desumanidade do progressismo revolucionário.
Cinquenta anos depois, se calhar já podemos dizer o óbvio: a esquerda tratou meio milhão de portugueses com mais desumanidade do que agora acusa a direita, toda ela, de lidar com os estrangeiros. Em Portugal, onde toda a gente aprecia apregoar a sua bondade e gosta de se compadecer de tudo, subsiste um manto de silêncio oficial e oficioso para quem perdeu tudo e recomeçou tudo. Talvez porque não aceitaram o rótulo de vítimas, a única categoria que um país injectado de vulgata marxista aprecia.

O 50.º aniversário da Ponte Aérea devia ser um marco nacional. Não para reabrir feridas, mas para agradecer. Para dizer obrigado a quem chegou com medo e ainda assim teve coragem. Obrigado a quem foi insultado e não desistiu. Obrigado a quem transformou a sua desgraça pessoal numa força colectiva.
Num tempo em que se debate tanto a identidade, o acolhimento e os direitos, talvez seja boa ideia começar por fazer justiça a quem sempre foi da casa e nunca teve direito a entrar pela porta da frente.

 

sábado, 27 de julho de 2024

o fim do ultimo império!

A 27 de Julho de 1974, António de Spínola declarou que os territórios ultramarinos tinham direito à independência e à autodeterminação.
Foi o início da descolonização


quinta-feira, 25 de abril de 2019

25 de Abril: Guiné, Bambadinca, Paúnca,

16 de Agosto de 1974.
Estão sequestrados há quarenta horas e ou Fabião consegue resolver a situação com os sequestradores, ou a situação agravar-se-á necessariamente, mesmo que a ameaça de fuzilamento que paira no ar não seja passada à prática.
Finalmente chega o helicóptero com o Comandante-Chefe das Forças Armadas da Guiné. Carlos Fabião, que é também Encarregado do Governo, desce do helicóptero.
Aos homens que estão dentro do quartel o ruído do helicóptero não passa de modo algum desapercebido. Sabem que a partir daquele momento o desfecho está para breve.
Mas tudo correrá bem: com Fabião vêm duas malas. Rapidamente elas são abertas e o seu conteúdo distribuído pela Companhia de Caçadores 21. Assim que recebem o dinheiro os homens da Companhia de Caçadores 21 cumprem a sua palavra e libertam os militares que há quarenta horas ameaçam fuzilar caso não lhes fosse pago um resgate.
O que acabara de acontecer em Bambadinca explica-se em poucas palavras – militares portugueses de origem guineense ao saberem que iam ser desarmados e desmobilizados, o que os colocaria nas mãos do PAIGC, fizeram reféns alguns colegas de armas idos da metrópole.
Pedem um resgate – 300 contos por cada homem, valor que terá baixado para 60 – caso contrário começariam a fuzilar os reféns. Os oficiais seriam os primeiros. Dão 48 horas ao Comando Territorial para responder.
Em Bambadinca, o dinheiro, “patacão”, resolveu a situação.
mas
Em Paúnca, no início de Agosto de 1974, os militares fulas da Companhia de Caçadores 11, ao saberem que vão ser desmobilizados, expulsam do quartel os militares brancos. Estes, desarmados, dirigem-se a um acampamento do PAIGC que rapidamente recupera o quartel.
Sair rapidamente da Guiné tornava-se imperioso pois, desfeita a hierarquia de comando, multiplicavam-se situações comprometedoras como as de Bambadinca e Paúnca além de casos patéticos como os protagonizados pelo tenente-coronel Luís Ataíde Banazol que, não satisfeito com o dramático desfecho da operação em que entabulou por conta própria contactos com o PAIGC – a companhia caiu numa emboscada da qual resultaram dois mortos e dezoito feridos, dois dos quais ficaram mutilados –,

Banazol achou por bem enviar uma circular para todas as unidades da Guiné propondo que o Brasil assumisse o poder naquele território. Quem estivesse de acordo deveria enviar uma mensagem de resposta apenas com uma palavra: “Chapéu”

25 de Abril: Angola, Cabinda,

Novembro de 1974
O brigadeiro Silva Cardoso, membro da Junta Governativa de Angola, entra no Comando do Sector de Cabinda. Vários militares do MPLA devidamente armados fazem a segurança do edifício. Alguns soldados portugueses permanecem sentados.
A situação que levara Silva Cardoso  a Cabinda é, no mínimo, surreal: em território sob administração portuguesa, um movimento, o MPLA, mantinha sequestrados vários militares portugueses, dentro de uma unidade militar portuguesa e com a conivência de militares portugueses.
No primeiro andar do Comando do Sector, Silva Cardoso cruza-se finalmente com um capitão das Forças Armadas Portuguesas. Diz-lhe ao que vai. O capitão indica-lhe a porta de uma sala guardada por um militar das FAPLA. Quando a porta é aberta avista-se uma sala onde eram mantidos presos os oficiais do Comando de Cabinda, entre os quais o próprio comandante, brigadeiro Themudo Barata. O óbvio remetia para uma palavra que entre os militares tem um peso próprio: traição.
Com a cumplicidade de vários militares portugueses, o MPLA não só tomara o Comando do Sector de Cabinda, como fizera prisioneiros os militares do respectivo comando.

A razão era simples: o MPLA precisava aceder ao material de guerra proveniente da URSS. Mas para isso o MPLA tinha de controlar as zonas portuárias e precisava de circular livremente dentro de Cabinda. Ora Themudo Barata não aceitara pactuar com essa manobra. Logo criar uma situação que obrigasse ao seu afastamento foi a solução. https://observador.pt/especiais/descolonizacao-o-terror-do-batalhao-em-cuecas/?fbclid=IwAR2IaaWuf_SWnZ3Q_2C7Vll3u331zqHUkt797P6-57-T-8Nc3rK9HEvfUX0