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Como transformar abandono em lealdade, rejeição em consagração e oportunismo em glória partidária.
Há técnicas políticas que não envelhecem. Mudam os actores, mantêm-se os métodos. A escola associada a Joseph Stalin ensinou uma regra simples: quando a realidade não serve, reescreve-se. A derrota deixa de existir se for narrativamente convertida em vitória.
A operação é conhecida. Primeiro, marginaliza-se um candidato durante anos. Deixa-se cair, desvaloriza-se, ignora-se. Depois, quando esse mesmo candidato vence com apoios externos, inclusive com sectores da Direita que outrora eram tratados como ameaça existencial — activa-se a engrenagem simbólica: afinal, sempre foi “dos nossos”.
É aqui que a técnica estalinista revela a sua elegância brutal: não se nega o passado; apaga-se por sobreposição narrativa. A cronologia é irrelevante. O que conta é a repetição. E repetir é governar.
Mas a manobra não vive apenas do aparelho partidário. Entra então a pedagogia de Antonio Gramsci: quem domina o discurso público domina o significado dos factos. Se o jornalistado e o comentariado adoptam a moldura correcta, a realidade passa a ser aquela que é interpretada — não aquela que aconteceu.
Assim, uma candidatura sustentada por apoios heterogéneos transforma-se, como por milagre hermenêutico, numa “vitória inequívoca do Partido Socialista”. O partido que o renegou durante mais de uma década reaparece como herdeiro legítimo do triunfo.
E regressa, com notável sincronização, aquilo que um antigo Presidente da República designou como a “tenebrosa máquina de propaganda do Partido Socialista”. Não como metáfora literária, mas como descrição funcional: articulação entre partido, elites mediáticas e formadores de opinião.
O mecanismo é transparente:
- 1. Reclassifica-se o resultado.
- 2. Reescreve-se a genealogia política.
- 3. Declara-se vitória estratégica.
O que poderia ser sinal de fragilidade orgânica converte-se, por alquimia discursiva, em demonstração de hegemonia.
No fim, não é apenas a memória que se altera. É a percepção colectiva do poder. E quando a narrativa se instala como evidência, a propaganda deixa de parecer propaganda — passa a chamar-se “análise política”.
Agulhada final:
Não estamos perante um triunfo partidário. Estamos perante uma operação de apropriação simbólica. E se todos fingirem que não vêem, então a mentira deixa de precisar de convencer — basta-lhe ecoar.












