quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A Vitória que Não Era Deles — Manual Prático de Propaganda

ou
Como transformar abandono em lealdade, rejeição em consagração e oportunismo em glória partidária.
Há técnicas políticas que não envelhecem. Mudam os actores, mantêm-se os métodos. A escola associada a Joseph Stalin ensinou uma regra simples: quando a realidade não serve, reescreve-se. A derrota deixa de existir se for narrativamente convertida em vitória.
A operação é conhecida. Primeiro, marginaliza-se um candidato durante anos. Deixa-se cair, desvaloriza-se, ignora-se. Depois, quando esse mesmo candidato vence com apoios externos, inclusive com sectores da Direita que outrora eram tratados como ameaça existencial — activa-se a engrenagem simbólica: afinal, sempre foi “dos nossos”.
É aqui que a técnica estalinista revela a sua elegância brutal: não se nega o passado; apaga-se por sobreposição narrativa. A cronologia é irrelevante. O que conta é a repetição. E repetir é governar.
Mas a manobra não vive apenas do aparelho partidário. Entra então a pedagogia de Antonio Gramsci: quem domina o discurso público domina o significado dos factos. Se o jornalistado e o comentariado adoptam a moldura correcta, a realidade passa a ser aquela que é interpretada — não aquela que aconteceu.
Assim, uma candidatura sustentada por apoios heterogéneos transforma-se, como por milagre hermenêutico, numa “vitória inequívoca do Partido Socialista”. O partido que o renegou durante mais de uma década reaparece como herdeiro legítimo do triunfo.
E regressa, com notável sincronização, aquilo que um antigo Presidente da República designou como a “tenebrosa máquina de propaganda do Partido Socialista”. Não como metáfora literária, mas como descrição funcional: articulação entre partido, elites mediáticas e formadores de opinião.
O mecanismo é transparente:
  • 1. Reclassifica-se o resultado.
  • 2. Reescreve-se a genealogia política.
  • 3. Declara-se vitória estratégica.
O que poderia ser sinal de fragilidade orgânica converte-se, por alquimia discursiva, em demonstração de hegemonia.
No fim, não é apenas a memória que se altera. É a percepção colectiva do poder. E quando a narrativa se instala como evidência, a propaganda deixa de parecer propaganda — passa a chamar-se “análise política”.

Agulhada final: 
Não estamos perante um triunfo partidário. Estamos perante uma operação de apropriação simbólica. E se todos fingirem que não vêem, então a mentira deixa de precisar de convencer — basta-lhe ecoar.

Populismo e Estratégias Políticas em Portugal e França: um Ensaio Comparativo

Dois países, duas arquitecturas institucionais, dois mercados mediáticos — e uma mesma tentação: transformar “o povo” num instrumento retórico contra “as elites”.
Introdução: quando “o povo” vira arma política
O populismo, mais do que um rótulo preguiçoso, é um método. Um estilo. Uma gramática de combate. Em vez de se organizar em torno de um programa denso (como o socialismo, o liberalismo ou o conservadorismo clássicos), organiza-se em torno de uma oposição moral simples: de um lado, “o povo”; do outro, “as elites”. Esta simplificação tem a vantagem da eficácia: reduz o custo cognitivo da política e oferece um guião emocional pronto a consumir. Não exige que o eleitor compreenda a complexidade da economia ou do Estado; basta que identifique culpados e reconheça um porta-voz.

Portugal e França oferecem um contraste instrutivo: a França possui uma tradição longa de mobilizações populistas — tanto à direita como à esquerda — e uma arquitectura institucional (semi-presidencial, com eleição presidencial em duas voltas) que favorece a personalização e a dramaturgia política. Portugal, pelo contrário, viveu décadas de estabilidade partidária relativa, com um centro político robusto e uma memória histórica (a ditadura e a transição democrática) que funcionou, durante muito tempo, como travão cultural à normalização de certos discursos. Porém, a última década alterou o cenário: erosão da confiança, escândalos, estagnação salarial, crise da habitação, sensação de impunidade e um ecossistema mediático cada vez mais orientado para o conflito e para a moralização.

Este ensaio propõe uma comparação de estratégias populistas em Portugal e França, focando: (1) a definição e tipologia do populismo, (2) os contextos institucionais que o amplificam ou atenuam, (3) as tácticas centrais — anti-elitismo, personalização, identidade, imigração, securitização, e relação com a União Europeia — e (4) as consequências para a competição democrática. 
A tese é simples: em França, o populismo tornou-se uma dimensão estrutural da competição política; em Portugal, emergiu mais tarde e permanece mais dependente de um eixo personalista, mas cresce precisamente porque o sistema e o comentário mediático tendem a negar-lhe legitimidade plena — e a negação, paradoxalmente, alimenta a narrativa populista de exclusão.
O que é o populismo: ideologia “fina”, estratégia “grossa”
Uma forma útil de tratar o populismo é encará-lo como uma “ideologia fina”: uma ideologia com poucos conteúdos próprios, capaz de se colar a outras mais “espessas”. Pode vestir-se de nacionalismo, de socialismo, de liberalismo económico ou de estatismo; o seu núcleo não é o programa, é o antagonismo moral. A política deixa de ser um conflito entre interesses legítimos e passa a ser um conflito entre virtude e corrupção. Em termos de linguagem, isto traduz-se numa insistência em expressões como “o sistema”, “a casta”, “os de sempre”, “os privilegiados”, “os vendidos”, “os globalistas”, “os burocratas”, e outras variações locais do mesmo motivo.
Este mecanismo tem três efeitos estratégicos muito concretos. Primeiro, desloca o debate do campo da política pública (compromissos, custos, trade-offs) para o campo moral (traição, vergonha, decência). Segundo, concentra o poder simbólico num porta-voz: alguém que diz “eu” como se dissesse “nós”. Terceiro, cria um terreno fértil para a política do ressentimento: a ideia de que o cidadão comum é permanentemente humilhado por um conjunto de instituições que já não o representam.
Também convém distinguir tipos de populismo. Há o populismo nacionalista (tipicamente à direita), que tende a centrar-se em fronteiras, identidade, imigração, segurança e soberania; e há o populismo socio-económico (frequentemente à esquerda), que privilegia a denúncia da desigualdade, da “financeirização” e do poder das grandes empresas. Há ainda populismos híbridos, que misturam proteccionismo social com conservadorismo cultural, ou liberalismo económico com moralismo anticorrupção. França é particularmente rica nesta pluralidade; Portugal, até há pouco, era mais pobre — e talvez por isso o populismo português tenha crescido colando-se, com maior rapidez, a um eixo de indignação moral e anticorrupção.
Contexto institucional: por que razão a França “puxa” e Portugal “amassa”
        
França: semi-presidencialismo, duas voltas e o teatro do “duelo”
  • A eleição presidencial francesa, com duas voltas, cria uma dinâmica própria: empurra os actores para a polarização e para a construção de identidades fortes. A primeira volta funciona como mercado de nichos ideológicos; a segunda volta como plebiscito. Esta estrutura favorece candidatos que consigam: (a) monopolizar um campo emocional (medo, raiva, esperança), (b) simplificar o adversário num símbolo negativo, e (c) transformar o voto num acto de identidade. É um sistema que recompensa a performance. E o populismo, sendo uma gramática de performance moral, adapta-se como uma luva.
  • Além disso, a tradição política francesa admite, com mais naturalidade do que a portuguesa, a ideia de “grandes narrativas” de soberania e de conflito civilizacional — quer na linguagem republicana clássica, quer em versões contemporâneas (secularismo militante, identidade nacional, crítica da globalização, denúncia da tecnocracia europeia). O populismo em França não surge como um acidente; surge como uma continuação agressiva de temas já presentes na cultura política
  • Portugal: parlamentarismo, proporcionalidade e a cultura do “centrão”
  • Portugal, com um sistema parlamentar e representação proporcional, tende a diluir extremos e a favorecer compromissos. Durante décadas, a competição esteve concentrada num eixo PS–PSD, com partidos mais pequenos a servir de “satélites” ou de parceiros ocasionais. A lógica era a da governabilidade e da gestão. Mesmo quando houve radicalidade (à esquerda), ela foi frequentemente enquadrada por uma cultura institucional que valorizava o acordo, a estabilidade e a linguagem tecnocrática.
  • O populismo entra, neste quadro, como um corpo estranho: exige conflito moral onde o sistema prefere “moderação”; exige dramatização onde o sistema prefere “processo”. Porém, precisamente por isso, tem um trunfo: pode apresentar-se como a voz de quem foi excluído desse consenso. Em contextos de desconfiança, o “centrão” deixa de ser estabilidade e passa a ser conluio. E a política, em vez de ser vista como gestão, passa a ser vista como cartel.
Estratégias populistas: o que fazem, como fazem, e por que funciona
1) Anti-elitismo: construir o inimigo certo
O anti-elitismo é o motor. Mas não basta dizer “as elites”. É preciso definir quais elites, em que linguagem, e com que símbolos. Em França, o inimigo pode ser a classe política parisiense, a União Europeia, as “metrópoles” contra a “França periférica”, os tecnocratas, os jornalistas, as ONG, os juízes, ou “o sistema” em bloco. O populismo francês tem uma paleta ampla, porque o país tem conflitos sociais e territoriais historicamente marcados.
Em Portugal, o anti-elitismo cresceu sobretudo em torno de três temas: (a) corrupção e impunidade, (b) privilégio e distanciamento das elites políticas, e (c) incapacidade do Estado em garantir serviços básicos (saúde, justiça, segurança, habitação). O inimigo é muitas vezes descrito como um “bloco” de interesses: partidos, comentariado, administração pública superior e redes de influência. O populismo prospera quando estas acusações encontram exemplos mediáticos — e a última década foi generosa nesse combustível.
Uma diferença central: em França, o anti-elitismo é frequentemente articulado com uma visão de soberania nacional e conflito cultural; em Portugal, é mais frequentemente articulado com uma visão moral de limpeza e punição. Isto não é uma lei, mas uma tendência. E as tendências importam, porque definem que tipo de eleitor é mais mobilizável: o eleitor identitário ou o eleitor punitivo. Em França, os dois aparecem com força; em Portugal, o punitivo foi o primeiro a ganhar massa.
2) Personalização: o líder como atalho cognitivo
O populismo tende a concentrar-se em líderes, porque o seu discurso exige uma voz que fale “pelo povo”. A França institucionaliza este mecanismo: a presidência é, por natureza, uma figura de concentração simbólica. Não é por acaso que movimentos populistas franceses — à direita e à esquerda — investem na construção de personagens políticas: figuras com estilo retórico reconhecível, capacidade de polarização e domínio mediático. O líder não é apenas o porta-voz; é a marca.
Em Portugal, a personalização cresceu num terreno diferente: o parlamentarismo não exige um “rei eleito”, mas a comunicação contemporânea favorece a mesma lógica. A televisão, as redes sociais e o comentário permanente recompensam quem cria conflito e mantém presença. O populismo, aqui, usa o líder como mecanismo de ruptura: a pessoa torna-se o símbolo de uma recusa do consenso, e a rejeição que sofre torna-se prova de que “o sistema” se defende.
Este ponto é crucial: em sociedades mediáticas, a legitimidade passa a ser produzida tanto por instituições como por visibilidade. O líder populista, quando atacado em bloco, ganha um recurso precioso: pode dizer que está a ser combatido porque ameaça interesses instalados. E a narrativa fecha-se. A crítica, se for indiscriminada, funciona como propaganda involuntária.
3) Identidade e imigração: a agenda que desloca o centro
Em França, a imigração é um tema estruturante há décadas. Está associada a debates sobre identidade nacional, secularismo, integração, segurança, terrorismo, e transformação cultural. A direita populista capitaliza estes medos e traduz-os em propostas de controlo, restrição e soberania. A esquerda populista, por seu lado, pode deslocar o foco para desigualdade, precariedade e crítica das elites económicas, mas não consegue ignorar o tema — porque o tema organiza a agenda mediática e define clivagens eleitorais.
Portugal teve, durante muito tempo, uma relação diferente com a imigração: menos massiva, menos politizada, e frequentemente enquadrada num discurso de necessidade demográfica e económica. Porém, com mudanças recentes — pressões na habitação, sensação de concorrência em serviços públicos, percepções de insegurança (reais ou amplificadas) e circulação de imagens globais — o tema ganhou centralidade. Aqui, a estratégia populista é dupla: (1) transformar casos concretos em símbolos gerais, e (2) colocar os adversários numa posição defensiva, obrigando-os a escolher entre negar o problema (parecendo cegos) ou reconhecer o problema (legitimando a agenda).
Em ambos os países, a questão identitária funciona como um acelerador: reduz a política a pertença e ameaça. É um terreno propício ao populismo porque permite uma simplificação imediata: “nós” contra “eles”. Mas importa notar: a intensidade e os enquadramentos variam. Em França, o enquadramento é civilizacional e republicano; em Portugal, tende a ser mais pragmático e securitário, ainda que se observe uma crescente importação de narrativas externas.
4) A relação com a União Europeia: soberania como instrumento variável
A França tem uma tradição de debates fortes sobre soberania. A União Europeia surge, para muitos actores populistas, como símbolo de tecnocracia distante, imposição económica e erosão de identidade política. Porém, há uma evolução estratégica: certos populismos franceses moderaram o discurso de saída ou ruptura frontal e passaram a adoptar a linguagem da “reforma por dentro”, mantendo a soberania como tema, mas evitando assustar eleitorados moderados. Isto revela uma maturidade táctica: a radicalidade máxima mobiliza uma base, mas pode bloquear o acesso ao poder.
Portugal, em contraste, manteve um consenso europeu mais estável. A adesão e os fundos europeus foram associados a modernização e pertença. Mesmo durante crises, a crítica tende a focar-se mais nos governos nacionais do que na ideia europeia em si. Por isso, o populismo português tem menos incentivo para construir a União Europeia como inimigo principal; a energia estratégica é gasta noutras frentes: corrupção, justiça, segurança, e crítica do “sistema” interno.
A consequência é interessante: em França, o populismo pode estruturar-se como projecto de soberania; em Portugal, estrutura-se mais facilmente como projecto de moralização e punição. Não é que não haja soberania em Portugal; é que ela não é, ainda, o grande combustível eleitoral comparável ao caso francês.
5) O ecossistema mediático: conflito permanente e moralização
O populismo não vive apenas de instituições; vive de media. Em França, o debate televisivo e radiofónico é historicamente combativo, e a polarização encontra espaço. Em Portugal, houve durante muito tempo um certo ritual de comentário político com ar de “moderação” — mas essa moderação era, muitas vezes, apenas uma forma elegante de delimitar quem podia ou não podia entrar no campo da legitimidade.
Quando o comentário mediático passa a funcionar como tribunal moral — definindo, com insistência, quem é “decente”, “aceitável”, “presidenciável”, “republicano”, “perigoso” — cria-se um ambiente perfeito para a narrativa populista: “não nos combatem por ideias; combatem-nos porque não nos querem lá”. Se a crítica for selectiva, incoerente, ou claramente alinhada com interesses, então a máquina populista recebe munições diárias.
Em suma: o populismo cresce com exposição, mas cresce ainda mais com exclusão ostensiva. A linha entre “crítica democrática” e “cordão sanitário moralista” é delicada; e quando se ultrapassa essa linha, o resultado costuma ser o contrário do pretendido.
Resultados eleitorais e impacto institucional: normalização versus emergência
1) França: populismo como eixo estrutural de competição
Em França, o populismo deixou de ser periferia. A direita populista conseguiu, ao longo do tempo, normalizar-se em segmentos relevantes do eleitorado, beneficiando de (a) desindustrialização e ressentimento territorial, (b) crises migratórias e securitárias, (c) colapso ou enfraquecimento de partidos tradicionais, e (d) uma cultura política que aceita confrontos ideológicos fortes. A esquerda populista, por seu lado, ocupa o espaço do protesto social, mobilizando precariedade, indignação económica e rejeição do “neoliberalismo”. O efeito combinado é um sistema em que o centro é continuamente pressionado por narrativas antagonistas.
Este contexto conduz a uma “normalização do extremo” em termos de agenda: temas outrora marginais tornam-se centrais; a linguagem endurece; e os actores tradicionais, por vezes, imitam retóricas populistas para recuperar terreno. A política passa a ser um campeonato de enquadramentos morais e identitários, com menos espaço para a linguagem da administração.
2) Portugal: populismo como ruptura e como sintoma
Em Portugal, a ascensão populista é mais recente e mais dependente de um conjunto de factores cumulativos: desgaste do bipartidarismo informal, escândalos recorrentes, sensação de que a justiça é lenta e selectiva, incapacidade de resposta do Estado em sectores-chave, e um discurso mediático frequentemente paternalista. O populismo aparece, assim, como ruptura — mas também como sintoma: uma parte do eleitorado não acredita que o sistema se corrija a si próprio.
A sua influência é dupla. Por um lado, força o sistema a falar de temas que preferia adiar (corrupção, imigração, segurança, eficiência do Estado). Por outro, altera a geometria da direita e do centro, criando dilemas de coligação, legitimidade e estratégia eleitoral. O paradoxo é que, quanto mais o sistema tenta excluir o populismo por via moral, mais o populismo reforça a sua narrativa de exclusão. É um circuito fechado que só se quebra com debate substantivo e coerência institucional — duas coisas raras num ambiente de indignação permanente.
Por que diferem Portugal e França: quatro hipóteses explicativas
1) Memória histórica e cultura política
Portugal vive com a memória de uma ditadura recente e de uma transição que ainda organiza símbolos. Isso criou, durante muito tempo, um reflexo anti-extremos. França, pelo contrário, possui uma cultura republicana combativa em que o conflito ideológico não é, por si só, sinal de risco autoritário. Resultado: certas linguagens e temas circulam com mais facilidade em França do que em Portugal.
2) Arquitectura eleitoral e incentivos à polarização
O sistema francês (presidencial em duas voltas) recompensa a polarização e a personificação. O sistema português recompensa a construção de bases parlamentares e a negociação. Isto não impede populismos em Portugal, mas condiciona a forma: favorece o crescimento em torno de uma liderança forte e de temas moralmente mobilizadores, com menor capacidade de se traduzir, de imediato, em governação.
3) Estrutura territorial e “França periférica” versus “Portugal concentrado”
A França tem clivagens territoriais profundas entre metrópoles e regiões periféricas, alimentadas por décadas de reestruturação económica. Portugal, embora tenha desigualdades regionais, é mais pequeno e mais concentrado, com uma administração mais centralizada e uma escala mediática diferente. Isso altera o modo como o ressentimento territorial se organiza e se expressa politicamente.
4) Agenda mediática e legitimação do conflito
Em França, o conflito é parte do espectáculo político institucionalizado; em Portugal, o conflito foi, durante muito tempo, tratado como “má educação” — mas, paradoxalmente, essa moralização favorece a narrativa populista de que “o sistema” exige submissão e silêncio. Quando o comentário mediático pretende definir fronteiras morais em vez de discutir políticas, ajuda a construir mártires. E o populismo adora mártires.
Final: 
Populismo não é meteorologia — é engenharia
O populismo não cai do céu como chuva; é construído. É produzido por incentivos institucionais, por falhas de representação, por crises de confiança e por ecossistemas mediáticos que transformam a política num julgamento moral contínuo. França mostra como o populismo pode tornar-se estrutura — uma dimensão permanente da competição, tanto à direita como à esquerda. Portugal mostra como o populismo pode emergir como ruptura tardia, alimentada por uma mistura explosiva de impunidade percebida, ineficácia do Estado e exclusão simbólica.
A lição comparativa é desconfortável: combater o populismo apenas com insultos morais, cordões sanitários e catecismos de “decência” é, frequentemente, o método mais rápido de o fortalecer. A alternativa não é a complacência; é a substância. É discutir políticas com rigor, aplicar regras com coerência, punir corrupção com eficácia, e aceitar que pluralismo significa coexistência de discursos desagradáveis — desde que dentro da lei. França e Portugal diferem em história e instituições, mas partilham um problema comum: quando as elites confundem legitimidade com conformidade, e debate com catequese, abrem a porta ao político que promete, simplesmente, partir a porta.

Notas finais (para reflexão): Se o populismo é um estilo, então não desaparece com proibições; desloca-se, adapta-se e recruta. 
Se é um sintoma, então não se cura com indignação; cura-se com instituições que funcionam e com uma cultura pública que substitua moralismo por responsabilidade. 
E, sobretudo, se o populismo é uma técnica, então os seus adversários deviam parar de lhe oferecer, todos os dias, o melhor argumento: a prova viva de que há um “sistema” com medo de discutir a sério..

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Presidenciais: números, legitimidade e o medo de olhar para o espelho

Findo, ainda que apenas parcialmente, o acto eleitoral para a Presidência da República, ficam no ar mais perguntas do que certezas — e isso, por si só, deveria inquietar quem proclama vitórias “esmagadoras” com a ligeireza de quem comenta resultados desportivos.
Os números são conhecidos: cerca de 16% dos eleitores inscritos votaram em André Ventura; aproximadamente 32% votaram em António José Seguro; 1,6% votaram em branco; 0,9% em nulo; 49,5% abstiveram-se.
A aritmética é simples, ainda que muitos prefiram não a fazer: mais de 68% dos eleitores inscritos não votaram no Presidente eleito. Uns abstiveram-se. Outros votaram em branco ou nulo. Outros escolheram outro candidato.
Perante isto, impõe-se a pergunta — incómoda, mas inevitável: onde fica a democracia quando a retórica da “maioria dos portugueses” colide com a realidade dos números?
A ficção da “maioria dos portugueses”
Dizer que alguém foi “eleito pela maioria dos portugueses” é, no mínimo, impreciso. Foi eleito pela maioria dos votantes válidos. Não pela maioria dos inscritos. Não pela maioria dos portugueses.
O problema central não reside no acto eleitoral em si. O processo é formalmente democrático. O problema está nas regras que permitem conferir legitimidade política plena a quem representa apenas uma minoria activa do corpo eleitoral — minorias que governam como se fossem maiorias sociais consolidadas.
A democracia representativa funciona assim? Funciona.
Mas isso não a torna imune a crítica.
Se aceitamos que decisões estruturais possam ser tomadas por uma fracção minoritária do eleitorado, então a discussão sobre a obrigatoriedade do voto deixa de ser uma excentricidade académica e passa a ser uma questão de coerência democrática.
Se somos obrigados a aceitar as decisões tomadas por minorias activas, por que razão não haveríamos de discutir seriamente a obrigação cívica de votar? A representatividade reforçar-se-ia. A legitimidade seria menos vulnerável a esta tensão entre legalidade formal e representatividade real.
Não é uma proposta fechada. É uma pergunta legítima.
Dez contra um. Depois, nove contra um.
Na primeira volta, dez candidatos concorreram contra André Ventura.
Na segunda, nove candidaturas alinharam-se — explícita ou implicitamente — em torno de António José Seguro e contra Ventura.
Não apenas partidos. Não apenas dirigentes. Grande parte da comunicação social assumiu, de forma mais ou menos subtil, que estava em causa uma batalha existencial entre “democratas” e “não-democratas”.
O enquadramento foi claro: votar num era um acto de virtude; votar no outro, um risco civilizacional.
O resultado? Um candidato politicamente atacado, ostracizado, vilipendiado — não apenas pelos adversários directos, mas por um sistema político-mediático que se legitima a si próprio como guardião moral do regime.
E, ainda assim, 16% dos eleitores inscritos votaram nele.
Este dado deveria suscitar reflexão. Não euforia.
O alívio que impede pensar
Muitos respiram de alívio perante a vitória de António José Seguro. A leitura dominante é a do “perigo afastado”. As análises concentram-se nas metas que Ventura não atingiu, nas percentagens que ficaram aquém das expectativas, na matemática das derrotas.
Tudo isso é válido. Tudo isso merece leitura política.
Mas há um facto objectivo que não desaparece com o conforto das manchetes: André Ventura continua a crescer em influência política e a quebrar barreiras psicológicas. Continua a convencer mais eleitores.
A pergunta relevante não é se ganhou ou perdeu. É porquê continua a convencer.
A culpa é sempre dos outros
As explicações são conhecidas e repetem-se como um catecismo:
– A culpa é de Luís Montenegro.
– Da globalização.
– Dos “ares do tempo”.
– Das redes sociais.
– Dos jovens irreflectidos.
– Dos menos qualificados.
– Dos “deploráveis”.
– Dos “atrasados mentais”.
– Do vizinho reacionário, xenófobo e machista que todos teríamos ao lado.
A culpa é de todos — menos dos que se apresentam como iluminados, virtuosos, combatentes exclusivos da democracia.
Se esta eleição foi, como tantos quiseram fazer crer, uma luta entre democratas e não-democratas, então há uma conclusão incómoda: pelo menos um em cada três portugueses seria um não-democrata.
É essa a tese que desejam sustentar?
Ou será mais fácil admitir que existe um mal-estar político profundo que não se resolve com rótulos morais nem com excomunhões mediáticas?
Há ainda um problema estrutural que poucos querem enfrentar: a chamada “doutrina dos três blocos”, a que PSD, CDS e IL aderiram sob influência do discurso socialista.
Segundo essa lógica, o Chega é politicamente intocável. Resultado? Fragmentação à direita, inviabilização de maiorias claras e condenação do país a governos minoritários ou a entendimentos envergonhados.
No actual quadro parlamentar, as únicas maiorias possíveis são claras:
1. Uma maioria de direita entre a AD e o Chega — desejavelmente com a IL.
2. Um bloco central entre PSD e PS (com o CDS, provavelmente, remetido para a irrelevância).
Tudo o resto são exercícios de ilusionismo aritmético.
Ao manter-se a recusa de reconhecer esta realidade, perpetua-se um sistema que prefere a instabilidade controlada ao risco de uma alternância efectiva.
Leis que legitimam minorias activas
O que continua mal neste país não é a democracia enquanto princípio. São as regras e os tabus políticos que permitem que minorias activas governem como se fossem maiorias sociais indiscutíveis.
Quando quase metade do eleitorado se abstém, quando votos brancos e nulos se acumulam, quando uma parte significativa vota noutro candidato, não basta celebrar a vitória formal.
É preciso perguntar:
– O que falhou na mobilização cívica?
– O que explica a desconfiança?
– O que explica a persistência de um eleitorado que vota contra o consenso mediático?
Ignorar estas questões é confortável. Mas é politicamente imprudente.
A pergunta decisiva: porquê?
Porque é que André Ventura continua a convencer?
Não basta dizer que explora medos. Todos os partidos exploram medos e esperanças.
Não basta dizer que simplifica problemas. A política é, por natureza, simplificadora.
Não basta dizer que é populista. O termo perdeu densidade pelo uso excessivo.
Talvez a resposta esteja menos no líder e mais no sistema.
Num sistema que, demasiadas vezes, responde a críticas com superioridade moral.
Que transforma adversários em inimigos.
Que prefere interditos a debate.
Que confunde divergência com ameaça existencial.
Quando se fecha o espaço de contestação legítima, ela não desaparece — radicaliza-se.
Democracia ou conforto?
O alívio de muitos após esta eleição é compreensível. Mas o conforto é mau conselheiro político.
A democracia não se mede apenas pela regularidade das eleições. Mede-se pela capacidade de integrar o descontentamento, de representar maiorias reais, de dialogar com minorias sem as diabolizar.
Se continuarmos a insistir que tudo está bem porque “o perigo foi afastado”, estaremos apenas a adiar o confronto com as causas profundas do descontentamento.
E o descontentamento, como a história mos
Concluindo: números não são moralidade
Estas presidenciais deixaram três evidências:
1. Um Presidente eleito com legitimidade formal, mas sustentado por uma minoria do universo total de eleitores inscritos.
2. Um candidato derrotado que mantém uma base eleitoral robusta e resiliente.
3. Um sistema político-mediático que prefere enquadramentos morais a análises estruturais.
A democracia não se fragiliza por haver 16% que votam num candidato incómodo. Fragiliza-se quando se recusa compreender por que razão esses 16% existem — e crescem.
Talvez a verdadeira questão não seja “onde fica a democracia?”.
Talvez a questão seja: que democracia queremos?
Uma democracia confortável, que celebra maiorias formais e desqualifica dissidências?
Ou uma democracia exigente, que enfrenta os seus próprios limites e interroga as suas regras?
Os números estão à vista.
O espelho também.tra, não desaparece por decreto.

e dois terços dos eleitores tiveram um pulsão...

 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

De ao """Ventura: um teste psicológico, mais do que político"""

Quando  um sistema  inteiro se organiza em função de 
um homem, fingir que ele é secundário é negar o óbvio

Há fenómenos políticos que não se deixam compreender por simpatia ou repulsa. Exigem distância, método e alguma honestidade intelectual. André Ventura é um desses casos.
A esmagadora maioria das pessoas que afirma ter uma opinião formada sobre Ventura encontra-se exactamente na mesma posição: fala como se soubesse, mas não sabe. Constrói certezas a partir de reacções emocionais — adesão ou aversão — e não de observação sustentada. Confunde impressão com conhecimento, juízo moral com análise política.
O que é possível fazer com seriedade não é “conhecer a pessoa”. Isso pertence ao domínio da especulação, da psicologia de café ou da maledicência mediática. O que é possível — e necessário — é observar padrões públicos repetidos ao longo do tempo: sob pressão e fora dela, em debate e em crise, na vitória e na derrota. A partir desses padrões, inferir a estrutura do actor político, o seu estilo, os seus incentivos e o tipo de reacções que desencadeia.
Isto não é conhecer o homem.
É analisar o fenómeno.
E aquilo que sabemos com alguma segurança não diz respeito à sua vida privada, às suas intenções íntimas ou à sua moral pessoal. O que sabemos é outra coisa, bem mais relevante:

Ventura é o único actor político deste ciclo que obriga o sistema inteiro a reagir.
Ele é a causa.
Os outros são a resposta.

Este ponto é frequentemente obscurecido por uma neblina de adjectivos. Mas é simples observação empírica. Ventura alterou o campo. E quando alguém altera o campo político, não é apenas “mais um candidato”. Disrupção não é sinónimo de resposta correcta, nem garantia de bom governo. Mas é condição prévia para que algo deixe de ser meramente cosmético.
A prova está no tipo de reacção que ele gera. Os seus críticos raramente recorrem ao debate de ideias. Agarram-se à moralização, à rotulagem, à patologização. Em vez de um “discordo”, surge um “ele é”. Em vez de uma crítica argumentada, aparece o rótulo de “perigoso”.

Isto não é discussão política.
É um mecanismo defensivo.

Serve para evitar o confronto com aquilo que perturba, substituindo-o por julgamento moral. O que fica exposto não é superioridade ética, mas os incentivos psicológicos de autopreservação de uma classe instalada: confortável, habituada ao consenso morno, à linguagem vaga e à ausência de fricção. Gente que vive bem dentro do quadro e reage mal quando alguém lhe mexe na moldura.
Convém dizê-lo com clareza: esta leitura não santifica Ventura. Não o transforma num herói moral, nem prova que governaria melhor, nem desculpa excessos retóricos ou contradições programáticas. Identifica outra coisa — e é isso que verdadeiramente importa.

Ventura funciona como um detonador de posicionamento.
Num país habituado à alternância política sem ruptura e à mudança cosmética apresentada como virtude democrática, alguém que introduz fricção real não é tratado como um político normal. É tratado como uma ameaça existencial. E ameaças existenciais não se discutem. Tentam-se neutralizar.

É por isso que esta segunda volta é, na prática, sobre Ventura.
A figura que lhe faz frente poderia ter outro nome, outra biografia, outro passado partidário. Pouco importa. A sua função permaneceria a mesma: oferecer uma saída emocionalmente confortável, uma promessa de estabilidade, um regresso à política sem incómodo, sem tensão, sem perguntas difíceis.

Ventura faz o oposto. Obriga a escolher não apenas um candidato, mas um tipo de tensão, um tipo de conflito, um tipo de verdade.
Quem vota a favor de Ventura tende a preferir disrupção a anestesia.

Quem vota contra Ventura, em grande medida, não escolhe o outro por convicção profunda, mas contra a inquietação que Ventura provoca — e contra a necessidade de rever algo essencial.
No fundo, esta eleição não mede programas. Isso é visível na recusa sistemática em debater ideias e no à-vontade com que media e personagens públicas auto-proclamadas “democráticas” não denunciam essa recusa como aquilo que é: um bloqueio deliberado ao debate essencial numa democracia de facto.

Esta eleição mede outra coisa.
Mede a capacidade colectiva de suportar fricção.
É um teste psicológico, mais do que político.
E quando um sistema inteiro se organiza em função de um homem, fingir que ele é secundário não é prudência.
É negação do óbvio.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

De Belém como árbitro a Belém como porteiro...

Quem quer travar a democracia quando o voto não convém?
( o veto preventivo apresentado como “virtude republicana” )

Há perguntas que, quando feitas, revelam mais sobre quem responde do que sobre o tema em discussão. “Quem quer travar o PSD, o CHEGA e a IL no Governo?” é uma delas.
As respostas surgem com uma franqueza perturbadora — e com um à-vontade constitucional ainda mais inquietante. Pela primeira vez, figuras centrais do sistema admitem, sem pudor, que pretendem impedir soluções governativas antes mesmo de estas existirem, apenas porque não gostam dos protagonistas.
Comecemos por António José Seguro. Ex-líder do PS, hoje candidato presidencial, Seguro não se limita a manifestar preferências políticas. Vai mais longe: anuncia que usará os poderes de Belém para bloquear, preventivamente, qualquer maioria de direita que inclua PSD, CHEGA ou Iniciativa Liberal. Não é reacção a uma crise institucional concreta. É um programa: declarado, reiterado, exibido como prova de “responsabilidade”.
Ou seja: antes de haver Governo, já há veto. Antes de haver actos, já há punição. Antes do voto produzir efeitos, já há interdição. Isto não é moderação: é tutela política preventiva. É a democracia com rodinhas — para não fugir para onde o comentariado não quer.
O segundo caso, José Luís Carneiro, afina a mesma música noutro tom. Declarou que “não será por mim que o Chega chega ao poder” e admitiu viabilizar um Governo minoritário do PSD não por convicção, mas por contenção. Não para governar melhor — mas para impedir que outros governem. O PS a funcionar como tampão: não perde, “administra” a derrota.

O padrão é evidente. Quando o voto produz maiorias aceitáveis, chama-se “estabilidade democrática”. Quando produz maiorias incómodas, chama-se “perigo”, “ameaça” ou “excepção”. E assim se instala uma doutrina não escrita, mas já praticada: há votos legítimos e votos a neutralizar.
Convém dizê-lo sem eufemismos: um Presidente da República não é um comissário político do regime, nem um guarda de fronteira ideológica. A Constituição não lhe dá mandato para corrigir o eleitorado quando este vota “mal”. A ideia de Belém como última barreira contra certas escolhas democráticas é tudo menos democrática: é um reflexo saneador, agora embrulhado em linguagem institucional e boas maneiras.
Hoje trava-se o CHEGA. Amanhã será outro. O critério não é a legalidade — é a conveniência. E quando a conveniência passa a mandar no voto, o regime deixa de ser democracia e passa a ser um clube: entra quem o porteiro deixar.

Agulhadas finais 
1. Quando se promete bloquear Governos antes das eleições, já não se respeita a democracia — terceiriza-se o voto para Belém.
2. “Moderação” não é veto preventivo: é apenas o nome polido de uma velha pulsão — proibir, sanear e prender… agora com gravata e Constituição na mão.
3. O problema nunca foi “o populismo”. O problema é o sistema achar que o eleitor é um menor: vota, mas depois os adultos tratam do assunto.
4. Se a democracia só é “democracia” quando dá o resultado certo, então não é democracia: é um referendo permanente ao gosto do comentariado.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Verdadeira Ameaça à Democracia Não São os Eleitores — É o Jornalistado Militante

Somos diariamente avisados de que a polarização está a destruir a democracia portuguesa. O problema, dizem-nos, são os eleitores “radicalizados”, os populistas, as redes sociais, os “discursos perigosos”. Raramente se olha para o espelho. No entanto, a força mais corrosiva da política contemporânea não está no voto — está na comunicação social que trocou o cepticismo pela militância e o escrutínio pela cartilha.
O enviesamento mediático já não é um acidente ocasional. É um modelo de negócio, uma identidade editorial e, em demasiados casos, uma posição moral auto-atribuída.

Em Portugal, uma parte significativa do jornalistado e do comentariado deixou de tratar a política como matéria de interesse público para a tratar como missão cívica. Não informam: orientam. Não contextualizam: enquadram. Não descrevem a realidade: corrigem-na. O objectivo não é que o leitor compreenda — é que concorde.
A fronteira entre notícia e opinião esbateu-se ao ponto de desaparecer. Manchetes insinuam, textos “explicativos” instruem, editoriais disfarçam-se de reportagens. O leitor é conduzido pela mão como uma criança a quem se repete o que é aceitável pensar e o que deve ser repudiado.

Isto não é exclusivo de um título, mas há casos paradigmáticos. Em órgãos como o Observador, por exemplo, a diversidade de colunistas convive com uma curiosa homogeneidade moral: a mesma indignação selectiva, os mesmos alarmes democráticos, as mesmas personagens elevadas a ameaça existencial. A pluralidade é formal; o enquadramento é fechado.
O mesmo acontecimento, conforme o protagonista, muda de natureza. Uns merecem compreensão psicológica, contexto histórico e leitura benévola. Outros recebem rótulos, suspeições e alarmismo. Os factos até podem ser os mesmos — a narrativa nunca é.
Esta prática tem consequências graves. A confiança é a moeda da democracia. Quando os cidadãos percebem que estão a ser educados em vez de informados, afastam-se. Primeiro com cepticismo, depois com cinismo, finalmente com desprezo. E esse vazio é rapidamente ocupado por quem promete “dizer a verdade” — ainda que o faça de forma grosseira ou simplista.

Os defensores deste jornalismo militante respondem, com ar doutoral, que “a objectividade é um mito”. É uma meia-verdade usada como escudo. Nenhum jornalista é neutro, mas isso não dispensa a honestidade intelectual, a proporcionalidade, a dúvida metódica e a boa-fé. O problema não é a ausência de neutralidade — é a ausência de escrúpulos.
Perdeu-se, acima de tudo, a humildade. Uma imprensa saudável interroga-se a si própria. A actual recompensa a certeza, a pressa e o teatro moral. As correcções são discretas, a nuance é suspeita, a dissidência interna é punida. Quem sai do guião arrisca o rótulo, o silêncio ou o exílio profissional.

O ciclo fecha-se de forma perfeita: o público recompensa indignação, os media entregam indignação, os políticos aprendem a representar para as câmaras em vez de governar. A política transforma-se numa sucessão de reacções encenadas para consumo mediático.
E, no entanto, o público vê. Nota a cobertura selectiva. Nota as histórias que desaparecem quando se tornam incómodas. Nota a diferença de tom, de adjectivação, de severidade. Cada truque narrativo corrói mais um pouco a credibilidade. E a credibilidade, uma vez perdida, raramente regressa.
Uma imprensa livre é indispensável à democracia. Uma imprensa que confunde activismo com escrutínio é apenas mais um actor político — sem votos, mas com megafone.
A solução não está numa fantasia de neutralidade absoluta. Está num regresso à decência profissional: separar notícia de opinião, tratar adversários como cidadãos e não como hereges, e recordar que o papel do jornalismo não é ganhar batalhas morais, mas iluminar a realidade — mesmo quando ela contraria as convicções da redacção.

Agulhadas finais:
Quando todos os jornais parecem moralmente de acordo, desconfie: não é consenso, é conformismo.
Uma imprensa que escolhe inimigos em vez de factos acaba sempre a fabricar monstros — e a precisar deles.
O maior perigo para a democracia não é o eleitor que vota “mal”; é o jornalista que acha que deve votar por ele.

“Baste a quem basta o que lhe basta” ou "o mínimo elevado a virtude"

Fernando Pessoa escreveu-o em Mensagem, no poema "O das Quinas", o verso severo: “Baste a quem basta o que lhe basta.

É um aviso, não um elogio. Um diagnóstico de decadência moral e política: quando o mínimo passa a bastar, o máximo deixa de ser exigido e o País encolhe.
É exactamente aqui que estamos. Uma parte influente da Direita Caviar e da Esquerda Rasca decidiu que, para a Presidência da República, basta não ser Ventura. Não importa quem é o candidato, o que pensa, o que fez, o que fará. Basta-lhe não ser o outro. Não deveria bastar.
A campanha em torno de António José Seguro foi reduzida a isto: um exercício negativo, um anti-programa, um busto da República para pôr em Belém. Não se vota num homem real, com passado político, escolhas, responsabilidades; vota-se numa abstracção piedosa chamada “democracia”, “humanismo”, “decência”. É o vazio apresentado como virtude.

O artigo “Basta não ser Ventura” acerta no nervo do problema ao perguntar: o que significa votar num candidato presidencial? 
Dizem-nos que é possível votar em Seguro sem ser socialista, sem o apreciar, sem aderir ao partido que o sustenta, um voto “asséptico”, “higiénico”, sem consequências.
Mas, dizem os mesmos, não é possível votar em André Ventura sem “ingressar” no Chega, sem prestar culto à personalidade, sem assinar por baixo do estilo. Porquê? 
Porque razão o voto em Seguro é um voto “neutro”, enquanto o voto em Ventura é uma conversão ideológica?
A resposta é simples e cínica: porque convém aos oligarcas do comentariado e do jornalistado. Porque assim se bloqueia qualquer voto instrumental, qualquer voto de sinalização política, qualquer voto que queira marcar temas que só Ventura levou à campanha do caos migratório ao risco para a coesão social, do imobilismo sistémico ao perigo de uma restauração do domínio do PS.
O voto deixa de ser um instrumento do eleitor e passa a ser um teste moral imposto pelos mediadores do regime.

Histeria selectiva, memória curta
Os mesmos que hoje anunciam o apocalipse democrático se Ventura vencer, nunca se mostraram especialmente perturbados com o que o PS - e José Sócrates - fizeram efectivamente ao regime entre 2005 e 2011. A subversão, o endividamento, a captura institucional, o desprezo pelas regras: tudo isso passou. O escândalo, agora, são cartazes. A comoção, agora, é imaginária.
Esta histeria anti-fascista não protege a democracia: empobrece-a. Dispensa o escrutínio, desvaloriza o debate, sacraliza um candidato e demoniza o outro. O País é infantilizado; o eleitor, tratado como suspeito.

O precedente que assusta — e que se normaliza
Quando a lógica é “salvar a democracia suspendendo a democracia”, o fim aproxima-se rapidamente. No Reino Unido, o governo trabalhista já ensaiou a supressão de eleições locais onde o partido de Nigel Farage pode vencer. Eis a última estação da campanha virtuosa: cancelar eleições para defender eleições.
Quem acha isto exagero devia ler melhor os sinais. A pedagogia do medo prepara sempre a legitimação do interdito.

o mínimo que não basta
“Baste a quem basta o que lhe basta.” Pessoa escreveu-o como epitáfio de uma vontade cansada. Não como programa político. Eleger um Presidente porque não é outro é aceitar o mínimo como critério supremo. É desistir de perguntar quem é, o que pensa, o que representa. É transformar Belém num altar de boas intenções vagas.
A democracia não se defende com bustos. Defende-se com escolhas reais, com escrutínio duro, com eleitores livres — inclusive livres para votar sem pedir licença moral aos oligarcas do dia.
Se isto é demasiado para a Direita Caviar e para a Esquerda Rasca, o problema não é do eleitor. É do regime que se habituou a viver do mínimo — e a chamar-lhe virtude.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

a lição de Gramsci: A direita ajoelhada e o medo de existir

Há textos 
https://observador.pt/opiniao/a-submissao-da-direita-e-a-hegemonia-cultural-da-esquerda/ que não pedem resposta; pedem confirmação. O ensaio de Jérémy Silvares Jerónimo sobre a submissão da direita portuguesa e a hegemonia cultural da esquerda é um desses casos. Não por ser excessivo, mas por ser rigoroso. Não por exagerar, mas por nomear aquilo que muitos preferem continuar a fingir que não vêem: a direita portuguesa, nas suas versões moderada e institucional, não perdeu eleições — perdeu a coragem de existir fora do guião moral imposto pela esquerda.
Convém começar pelo óbvio, raramente dito com frontalidade. As figuras de direita têm todo o direito de não apoiar André Ventura. Podem discordar do seu estilo, das suas propostas, da sua linguagem, da sua estratégia. Podem criticar o Chega, apontar fragilidades programáticas, lacunas ideológicas ou insuficiências de quadros. Nada disso está em causa. O problema começa noutro ponto — mais fundo, mais grave e mais revelador.
A questão não é não apoiar Ventura. A questão é: por que razão sentiram tantos a necessidade de apoiar publicamente José Seguro? E, mais ainda, por que razão essa escolha foi exibida com um fervor quase litúrgico, como se se tratasse de um acto de purificação moral?
Aqui entra o primeiro traço da submissão: o medo. O medo ancestral, herdado e cultivado, de ser rotulado. O medo do epíteto fácil — “fascista”, “nazi”, “reaccionário”, “populista”. O medo de ser colocado fora do círculo dos “aceitáveis”. Não se trata de cálculo político; trata-se de reflexo condicionado. O chamado “circo antifascista” não funciona porque convence — funciona porque intimida.

Este mecanismo não é novo, nem português. É uma técnica política testada, afinada e reciclada ao longo do século XX. A acusação de fascismo foi usada sistematicamente para silenciar adversários, desviar atenções e impedir convergências à direita. Não para defender a democracia, mas para preservar hegemonias. A esquerda aprendeu cedo que não precisava ganhar o debate — bastava interditá-lo moralmente.
E foi aqui que a direita falhou de forma estrutural. Não perdeu a batalha das ideias por inferioridade intelectual; perdeu-a por deserção. Desde o pós-guerra — e em Portugal desde 1974 — a direita decidiu concentrar-se na gestão, na economia, na técnica, no “funcionamento do sistema”, abandonando à esquerda tudo o resto: a cultura, a educação, o vocabulário moral, o imaginário colectivo.
Intelectuais como Mathieu Bock-Côté têm insistido neste ponto com clareza implacável: a direita governou mercados enquanto a esquerda formava consciências. Uma cuidou de índices; a outra moldou almas. O resultado está à vista: quem controla o léxico controla o juízo moral; quem controla o juízo moral decide quem é legítimo e quem é indecente.
A ironia suprema — e talvez a mais trágica — é que esta direita ajoelhada acredita sinceramente que está a defender a democracia quando se submete. Não percebe que, ao aceitar a gramática moral da esquerda, já perdeu antes de começar. Não percebe que, ao alinhar no discurso da “estabilidade” contra o “extremismo”, apenas reforça a narrativa de que qualquer alternativa fora do centrão é patológica por definição.


É aqui que a lição de Gramsci se torna incontornável — e embaraçosa para a direita. O poder político é sempre precedido pelo poder cultural. Quem define o senso comum, os valores aceitáveis e os limites do discurso acaba, mais cedo ou mais tarde, por definir também os resultados eleitorais. A esquerda aprendeu essa lição. A direita, não.
O caso português é exemplar. A esquerda dita os temas, os tons e os interditos. Decide o que é virtude e o que é pecado cívico. E a direita, em vez de contestar esse monopólio moral, apressa-se a provar que também ela é “do bem”. O apoio público a um candidato socialista não foi um gesto estratégico; foi um gesto de submissão simbólica. Uma genuflexão preventiva.
Resta, então, a pergunta final, aquela que nunca obtém resposta honesta: 
quando falam de “estabilidade”, de que estabilidade falam? 
Da estabilidade do país real ou da estabilidade do sistema que se protege a si próprio? Da estabilidade das famílias, dos jovens, dos trabalhadores, ou da estabilidade das redes partidárias, dos aparelhos, dos comentadores e dos profissionais da política?
Enquanto esta pergunta não puder ser feita sem insulto, a hegemonia cultural da esquerda permanecerá intacta. E enquanto a direita continuar a pedir licença moral para existir, continuará condenada a perder — mesmo quando vence.

Agulhadas finais
— A direita portuguesa não é derrotada nas urnas: é derrotada no espelho.
— Quem aceita a gramática moral do adversário já assinou a sua rendição.
— O antifascismo ritual não protege a democracia — protege o sistema que vive dela.

Porque não racismo? Porque não xenofobia?

O único restaurante israelita existente em Lisboa fechou. Ameaças, insultos, graffitis… levaram os seus proprietários a fechar a porta. 


No pouco espaço mediático dedicado ao assunto fala-se de anti-sionismo e anti-semitismo para explicar o sucedido. Porque não racismo? Porque não xenofobia? Porque se falarmos de racismo o ónus recai sobre o racista e não sobre aquele que o sofre. Já quando dizemos anti-sionista o problema está no sionista e não tanto naquele que se lhe opõe. Um dia a poeira assentará e tudo isto parecerá que nunca aconteceu. Sobretudo aqueles que agora gritam Free Palestine olharão para outro lado como se nunca tivessem alinhado nestas campanhas. ( Helena Matos )