Crise estrutural, crise de representação — ou crise de mediação interessada?
Neste texto analiso a tese, hoje recorrente, segundo a qual o crescimento das direitas nacional-populistas na Europa se explica por um “caldo” composto por crise económica pós-2008, austeridade, desigualdades, crise migratória de 2015 e radicalização promovida pelas redes sociais.
Tal explicação, embora parcialmente verdadeira, é insuficiente e, em certos pontos, convenientemente míope. Argumenta-se que o fenómeno exprime sobretudo uma crise de representação política e um esgotamento das elites partidárias tradicionais, frequentemente protegidas por uma leitura mediática padronizada — aqui designada por jornalistado e comentariado — cuja função, não raras vezes, é menos compreender do que domesticar o debate público.
1. A tese dominante: crise económica, ansiedade cultural e carisma
A interpretação dominante nos meios de opinião associa o crescimento de forças lideradas por Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Santiago Abascal, Geert Wilders, Viktor Orbán e dirigentes da AfD a um conjunto de factores: estagnação económica, austeridade, precariedade e “working poors”, crise dos refugiados de 2015, envelhecimento das democracias e, finalmente, impacto polarizador das redes sociais. No caso português, a subida eleitoral de André Ventura é apresentada como versão tardia e local desse padrão europeu.
A leitura contém elementos factuais, mas padece de um vício de origem: coloca o eleitor sob suspeita e o sistema sob protecção. A explicação nasce, muitas vezes, menos de um esforço analítico do que da necessidade de enquadrar a dissidência como patologia: o povo “ansioso”, a rede “tóxica”, o líder “salvador”, e — detalhe revelador — as elites como vítimas inocentes do próprio falhanço.
2. Economia não explica tudo: o eixo perdido é o controlo político
Uma parte da literatura sugere relação entre choques económicos e voto de protesto.1 Porém, a ascensão das direitas nacionais não coincide sempre com colapsos económicos comparáveis, nem se limita a contextos de privação material extrema. Há países com desempenho económico aceitável onde o voto nacional-populista cresce, e países com alternâncias sucessivas onde a “onda” não se dissolve. Em Portugal, o crescimento do Chega não é mera continuação mecânica do período troika; é, antes, a expressão de que a alternância tradicional deixou de convencer.
O elemento transversal é a percepção de perda de controlo político: sobre prioridades orçamentais, sobre a eficácia do sistema judicial, sobre políticas migratórias, sobre segurança e sobre a própria capacidade de escolha eleitoral. Quando o eleitor conclui que “muda o Governo, fica o regime”, o voto procura saída — e não licença moral do painel de comentadores
3. Migração: facto político, não “ansiedade” de manual
A crise migratória de 2015 trouxe para a Europa mais de um milhão de refugiados nesse ano.2 A alteração demográfica rápida é um facto político, não um fantasma. Chamar a preocupações identitárias “ansiedade cultural” é um modo elegante de despolitizar o debate: desloca-se a discussão do plano das escolhas públicas para o plano das emoções privadas, como se o eleitor fosse um paciente e não um cidadão.
Políticas migratórias são decisões soberanas — e discutí-las não é, por definição, radicalismo. Radicais, quando muito, são os que pretendem interditar o tema, e depois se espantam com o voto que nasce exactamente dessa interdição.
4. Redes sociais: amplificação, sim — mas também fim do monopólio
É inegável o efeito amplificador das plataformas digitais na circulação de conteúdos emotivos e polarizadores.3 Mas a tese mediática habitual inclui uma nostalgia interessada: quando “a informação era mediada por profissionais”, o espaço público seria virtuoso; agora, com telemóveis e algoritmos, tornou-se bárbaro.
O que esta nostalgia omite é simples: durante décadas, a mediação profissional funcionou, muitas vezes, como filtragem ideológica e como disciplina de agenda. As redes sociais não criaram o descontentamento; tornaram-no visível fora do filtro. E isso é, para certas redacções e para certas bancadas de comentário, mais do que um incómodo: é uma perda de poder simbólico.
5. O jornalistado e o comentariado: a fábrica do enquadramento único
A ascensão das direitas nacionais é frequentemente narrada como fenómeno quase patológico: emocional, ressentido, irracional. Esta narrativa cumpre funções muito concretas. Primeiro, preserva a legitimidade das elites tradicionais, transformando o seu falhanço em fatalidade histórica; segundo, desloca a causa da crise para os eleitores, convertendo cidadãos em suspeitos; terceiro, moraliza a dissidência, reduzindo alternativa política a desvio ético.
Aqui, jornalistado designa o conjunto de actores mediáticos que repetem o mesmo enquadramento como leitura padrão; comentariado designa o coro interpretativo que o reforça, frequentemente com o mesmo léxico, os mesmos alarmes e a mesma conclusão: “o problema não é o sistema — é o eleitor”.
O resultado é perverso: quanto mais o eleitor é infantilizado e moralmente admoestado, mais se consolida uma identidade de resistência. A demonização não dissolve o fenómeno; organiza-o. E a pedagogia televisiva não substitui representação política.
6. Liderança carismática: menos causa do que sintoma
A figura do “salvador” é apresentada como manipulação populista. Mas a tradição sociológica distingue entre carisma arbitrário e carisma emergente.4 Este último surge quando as instituições perdem capacidade de mobilização, quando a alternância se torna previsível e quando a linguagem do poder se separa da experiência dos governados.
Em suma: o líder carismático prospera onde há vazio de representação. O carisma não cria a falha; ocupa-a. E a insistência em tratar o carisma como doença é, muitas vezes, um modo de não discutir a insuficiência do sistema que o tornou possível.
7. Democracias envelhecidas e alternância automática: a raiz do problema
Dizer que “os partidos tradicionais se habituaram a chegar ao poder por desgaste dos adversários” é, sem querer, tocar no nervo da questão. Quando a alternância se torna automática, o eleitor deixa de escolher projectos e limita-se a sancionar incumbentes. A política passa a ser rotação de quadros e não disputa substantiva de rumos.
A emergência de forças exteriores ao centro rompe essa previsibilidade. Isso pode ser ruído — mas pode ser também reactivação competitiva. Chamar a isso “radicalização” é, por vezes, apenas a forma elegante de dizer: “perdemos o exclusivo da legitimidade”.
O crescimento das direitas nacionais na Europa não é monocausal. Economia, migração e redes sociais contam. Porém, a variável decisiva é a crise de representação, agravada por uma mediação que se tornou, demasiadas vezes, militância de enquadramento: não analisa o real, corrige-o; não descreve o eleitor, educa-o; não debate alternativas, administra interditos.
Se a democracia envelheceu, não foi por excesso de participação popular, mas por excesso de previsibilidade institucional — e por uma classe mediática que, temendo a imprevisibilidade, prefere confundir controlo com virtude.
O que incomoda verdadeiramente o comentariado não é o radicalismo — é a perda de centralidade. Durante décadas, interpretaram o país para o país. Hoje, o país interpreta-se a si próprio, muitas vezes sem pedir licença. E isso é imperdoável para quem confundiu mediação com tutela.
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Agulhadas finais
- 1) Quando o jornalistado explica o voto como patologia e a alternativa como desvio, não está a interpretar a política: está a guardar o portão do regime.
- 2) A expressão “ansiedade identitária” funciona, demasiadas vezes, como anestesia retórica: evita dizer “há escolhas erradas”, trocando o erro por uma emoção do eleitor.
- 3) Se as redes sociais “destruíram a mediação”, talvez o problema não seja a ausência de mediadores — talvez seja a fragilidade dos mediadores quando deixaram de mandar.
Notas
1 Mudde, Cas. Populist Radical Right Parties in Europe. Cambridge University Press, 2007.
2 ACNUR (UNHCR). Relatórios estatísticos e sínteses públicas sobre deslocação forçada, com destaque para 2015.
3 Sunstein, Cass. #Republic: Divided Democracy in the Age of Social Media. Princeton University Press, 2017.
4 Weber, Max. Economia e Sociedade. Secções sobre dominação carismática.










