sábado, 21 de fevereiro de 2026

Direita Caviar uma Reacção Conservadora

Uma Série no ReVisões:
Entre o medo do povo e a obsessão pela respeitabilidade
Há uma direita em Portugal que se apresenta como conservadora mas que reage como aristocracia política ameaçada. Não enfrenta os problemas estruturais que inquietam o eleitorado; prefere discutir o tom. Não constrói alternativa; vigia a etiqueta.

Esta minha série pretende analisar, sem complacência, essa mutação: do conservadorismo prudente para a reacção defensiva; da reflexão estratégica para o moralismo performativo; da liderança política para a conservação de estatuto.
Não se trata de defender pessoas, mas de examinar comportamentos. Não se trata de polémica circunstancial, mas de compreender uma tendência estrutural: a direita que prefere ser aceite pelo sistema a desafiá-lo.
Os próximos textos abordarão:
I — O medo do povo (hoje)
II — A decência como programa.
III — O paternalismo eleitoral.
IV — Conservadores sem conservadorismo.
V — A derrota “elegante” ?.
Porque, se há algo que a história recente ensina, é que os votos não desaparecem por decreto opinativo. E que ignorar uma fractura política não a cura — apenas a adia.

A Direita Caviar e o Medo do Povo

Quando o conservadorismo deixa de ser prudência e passa a ser reacção defensiva contra quem lhe recorda a realidade

Há uma direita em Portugal que se reclama conservadora mas que, examinada com atenção, revela traços profundamente reaccionários. Não no sentido clássico do termo — o de quem deseja restaurar um regime caído — mas no sentido psicológico e político de quem reage, com sobressalto e ressentimento, a qualquer perturbação do seu conforto moral e institucional.
É a direita que se indigna com o tom antes de discutir o conteúdo. Que cita Arendt e Burke, mas apenas para ornamentar a recusa de enfrentar os problemas concretos que mobilizam centenas de milhares de eleitores. Que fala de “decência” como categoria política suprema, como se a virtude performativa substituísse a coragem estratégica.
Esta direita não combate o socialismo; convive com ele. Não enfrenta o progressismo cultural; adapta-se a ele. Não desafia o consenso mediático; aspira a ser aceite por ele. E, sobretudo, não suporta que alguém rompa o pacto tácito de respeitabilidade que mantém intacta a sua posição no espaço público.

O medo disfarçado de superioridade
O traço mais revelador desta direita é o medo. Medo de perder a aprovação dos comentadores. Medo de ser confundida com o “populismo”. Medo de romper o cordão sanitário simbólico que lhe permite frequentar os salões do poder sem embaraço.
Por isso reage com particular violência retórica quando surge alguém que mobiliza eleitorado fora do circuito tradicional. Não porque discorde apenas do estilo — o estilo é o pretexto. O que verdadeiramente a inquieta é a deslocação do centro de gravidade político.
Quando centenas de milhares de portugueses votam fora do guião estabelecido, essa direita não pergunta “porque o fazem?”. Pergunta antes “como ousam?”.
E então recorre ao léxico da moralização: indecência, falta de pensamento, ausência de preparação. Não é uma crítica programática; é um julgamento de carácter. Substitui-se a análise pelo diagnóstico psicológico. É mais confortável.

Conservadorismo ou conservação?
O conservadorismo clássico — de Burke a Tocqueville — assentava numa prudência activa: preservar o que merece ser preservado, reformar o que precisa de ser reformado, evitar rupturas destrutivas sem ignorar tensões reais.
O que hoje se apresenta como conservadorismo, em certos sectores, é mera conservação de estatuto. Não há reflexão sobre imigração descontrolada, crise de representação, esgotamento institucional. Há apenas a defesa da imagem de respeitabilidade.
Quando essa direita afirma que “os votos voltam atrás”, revela mais desejo do que análise. Parte do princípio de que o eleitor que ousou sair do redil regressará, contrito, à casa comum da moderação. É um paternalismo político disfarçado de ciência eleitoral.
Mas a história recente europeia mostra precisamente o contrário: votos que emergem de frustração acumulada não desaparecem porque são desqualificados em artigos de opinião.

A obsessão com a “decência
Nada revela melhor o carácter reaccionário desta direita do que a obsessão com a “decência”. A política transforma-se num concurso de boas maneiras. A Presidência num exame de etiqueta.
A democracia, porém, não é uma escola de diplomacia. É um campo de confronto legítimo entre projectos. Reduzi-la a critérios estéticos é esvaziá-la.
Curiosamente, esta mesma direita não aplica o mesmo rigor moral quando o desrespeito institucional provém de sectores progressistas. A indignação é selectiva. A exigência de “decência” varia conforme a conveniência.
O resultado é uma direita que se diz alternativa, mas que age como garante do statu quo.

...reagindo ao espelho
Talvez o que mais incomode esta direita seja o espelho. Quando alguém lhe recorda que uma parte significativa do eleitorado não se sente representada pela moderação consensual, isso obriga a uma pergunta incómoda: que falhámos nós?
Mas é mais simples declarar que esses votos são “negativos”, “emocionais” ou “temporários”. Assim evita-se a autocrítica.
Há aqui uma ironia profunda: acusa-se o “populismo” de simplificação, mas responde-se com simplificações sociológicas ainda mais pobres. O eleitor é ora sábio, ora ignorante, conforme o sentido do voto.
Se vota na solução respeitável, é expressão da maturidade democrática.
Se vota na disrupção, é vítima de ressentimento ou manipulação.
Esta oscilação revela não convicção, mas conveniência.
A direita cafona que prefere perder desalinhada
No fundo, esta direita parece preferir perder com incúria a ganhar com ruptura. A vitória é aceitável desde que não comprometa a imagem. A derrota é tolerável desde que preserve a respeitabilidade.
É uma lógica aristocrática num regime democrático.
Mas a democracia não vive de salões; vive de votos. E votos não se conquistam com sermões morais.
Quem se limita a atacar o mensageiro, ignorando a mensagem que mobiliza uma parte significativa do país, está a abdicar da liderança. E depois surpreende-se quando o eleitorado procura alternativas.

Concluindo-me
Chamar reaccionária a esta direita não é insulto; é descrição. Reage a cada abalo com retraimento moral. Reage ao descontentamento popular com pedagogia condescendente. Reage à mudança com apelos à normalidade.
Mas a normalidade que defende é precisamente aquela que produziu o desconforto que agora condena.
Os votos não “voltam atrás” por decreto opinativo. Voltam — ou não — conforme a realidade política responda às causas que os geraram.
Ignorar isso pode ser elegante.
Mas não é inteligente.
E muito menos é conservador.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A Direita que se Exclui a Si Própria

ou quando o medo vale mais do que a Reforma

As presidenciais terminaram como o regime precisava que terminassem: com longas dissertações estatísticas destinadas a provar que André Ventura, não sendo Presidente da República, também não era “o líder da direita”.
Foram serões desperdiçados em aritmética política, como se a política fosse uma "folha de Excel" e não um problema de poder, direcção e estratégia.
O artigo de Rui Ramos no Observador (https://observador.pt/opiniao/quem-e-o-lider-da-direita/) desmonta essa fraude conceptual: liderança não se mede apenas por percentagens. Mede-se pela capacidade de resolver o problema central do seu campo político.
E o problema central da direita portuguesa não é Ventura. É a incapacidade estrutural de construir uma maioria reformista.
A fraude aritmética
V
entura não ter passado dos 33,2% pode ser um problema para Ventura. Mas ter chegado aos 33,2% é um problema para todos os que apostaram no seu desaparecimento.
O Chega não desapareceu. Enraizou-se.
O erro histórico
PSD, CDS e IL decidiram alinhar na narrativa antifascista fabricada pela esquerda. Julgaram que, banindo o Chega, herdariam os seus votos. Foi uma estratégia suicida.
Ao excluir o Chega, excluíram a única possibilidade de maioria reformista alargada. E ao excluírem essa maioria, excluíram-se a si próprios da sua missão histórica.
O duplo cadeado
A
eleição de António José Seguro fecha o ciclo: um cadeado parlamentar e um cadeado presidencial.
Em nome da responsabilidade, escolheu-se a impotência. Em nome da moderação, escolheu-se a irrelevância.
...e o lider?
A direita socialmente instalada prefere perder poder a perder respeitabilidade. Agora insulta de “cheganos” aqueles que perceberam que a direita conservadora tradicional já provou não ser solução.
O líder da direita será o que resolver o bloqueio reformista. A questão é política, não aritmética.
O Chega pode não ser ainda solução de governo. Mas a direita que o exclui já provou ser solução de nada.
O País quis mudar. A direita respondeu que não podia. A esquerda agradeceu.

A sociologia do eleitorado: entre clivagens clássicas, recomposição contemporânea e a variável esquecida da diáspora

1. Das velhas clivagens à recomposição pós-industrial
Lipset e Rokkan defenderam, em 1967, que os sistemas partidários europeus reflectiam ainda as clivagens sociais formadas nas primeiras décadas do século XX: classe, religião, centro-periferia, urbano-rural.[1]
Hoje, tal fórmula dificilmente resiste ao teste empírico. A volatilidade eleitoral aumentou, os partidos tradicionais fragmentaram-se, e o mapa social tornou-se mais complexo. Contudo, daí não decorre que o voto seja acaso, capricho ou mero reflexo de estados de alma: o que mudou foi a natureza dos condicionamentos sociais do voto, não a sua existência.

A análise de Mafalda Pratas (na linha da literatura recente) convoca com acerto uma intuição decisiva: rendimento e escolaridade devem ser cruzados, não isolados. O rendimento permanece ligado ao interesse material; a educação superior, além de marcador socioeconómico, tornou-se também marcador cultural — e é aqui que a política contemporânea se complica, porque as duas forças nem sempre apontam na mesma direcção.[2]
2. O equívoco da “esquerda Brahmin”
Piketty popularizou a tese da transformação da esquerda numa “esquerda Brahmin”: dominada por uma elite escolarizada e desligada das classes populares.[3] Há dois factos reais: a esquerda cresceu entre os mais escolarizados e perdeu hegemonia relativa entre os menos escolarizados e de baixo rendimento. Mas a interpretação exige prudência.
A massificação do ensino superior alterou a composição do grupo “licenciado”. Uma enfermeira, uma assistente social ou uma educadora de infância não pertencem, por definição, a uma elite cultural ou económica: muitas integram o grupo de alta escolaridade e baixo rendimento, hoje com peso estrutural no eleitorado.
O erro adicional consiste em confundir perda de monopólio com desaparecimento de presença. As classes populares não “abandonaram” a esquerda como bloco homogéneo: repartem-se hoje com maior equilíbrio entre esquerda e direita. A grande mutação não é a substituição de uma classe por outra; é a fragmentação interna das antigas bases sociais — e a disputa permanente por um eleitorado com preferências cruzadas.
3. Não há “maioria sociológica” automática
Outra ideia repetida — a existência de uma maioria sociológica de direita — exige uma distinção conceptual: pode haver maioria parlamentar; não decorre daí, automaticamente, a existência de maioria social coerente. O que a aritmética soma, a sociologia nem sempre compõe.
Os eleitorados da AD, IL e Chega são heterogéneos em educação, rendimento e preferências culturais e económicas. O Chega agrega baixa escolaridade e insegurança económica com agenda cultural conservadora; a AD integra sectores mais confortáveis financeiramente; a IL concentra maior proporção de eleitores com ensino superior. A “soma” pode existir; a síntese, não.
Em linguagem nua: não existe um bloco reformista homogéneo. Há soma aritmética; não há unidade social e programática. A governação, se quiser durar, dependerá de compatibilizações difíceis — salvo se alguém decidir trair o seu próprio eleitorado.
4. O mapa em quatro quadrantes
O modelo de Kitschelt e Rehm permite distinguir quatro grupos, cruzando rendimento e educação superior:[2]
(i) Baixa escolaridade / baixo rendimento: trabalhadores de serviços pouco qualificados (logística, restauração, limpeza, cuidados, comércio). Tendem a preferir redistribuição e protecção social, mas inclinam-se culturalmente para posições mais conservadoras. Resultado: eleitorado disputado e instável.
(ii) Baixa escolaridade / alto rendimento: pequenos empresários e ofícios rentáveis sem credenciais universitárias. Combinam conservadorismo cultural com visão económica pró-mercado; em média, inclinam-se mais para partidos de direita.
(iii) Alta escolaridade / baixo rendimento: profissionais qualificados com rendimentos modestos (saúde, educação, sector público, terceiro sector). Tendem a ser progressistas na cultura e redistributivos na economia; constituem um núcleo relativamente estável da esquerda contemporânea.
(iv) Alta escolaridade / alto rendimento: quadros superiores e profissões altamente qualificadas. Culturalmente cosmopolitas, economicamente liberais. O voto depende do peso relativo que cada eleitor dá à dimensão económica versus cultural e da forma como os partidos combinam essas dimensões no discurso.
5. A variável esquecida: a diáspora portuguesa
Há, porém, um ponto decisivo que falta com frequência quando se fala do “eleitorado português”: a diáspora. Existem círculos eleitorais próprios para a emigração e um universo numeroso de portugueses no estrangeiro com experiências sociais distintas — e, portanto, com predisposições políticas próprias.[4]
Não se trata de detalhe técnico, mas de substância sociológica: inserção em mercados de trabalho diferentes, contacto com regimes fiscais distintos, exposição a realidades migratórias mais intensas, comparação quotidiana entre serviços públicos, segurança e mobilidade social. Tudo isto molda atitudes e prioridades. Ignorar a diáspora é amputar o retrato: o eleitorado português não termina na fronteira territorial do Estado.
6. Portugal entre atraso estrutural e convergência europeia
Portugal teve durante décadas duas especificidades: baixa escolarização média e fraca ancoragem classista da divisão esquerda/direita. Mas, à medida que o ensino superior se expandiu e a economia se terciarizou, as tendências transnacionais começaram a aparecer: fragmentação do voto popular, crescente peso da clivagem cultural e polarização em torno de imigração, identidade e redistribuição.
A política material não desapareceu; deixou, isso sim, de ser exclusiva — e passou a competir com uma política cultural que reorganiza lealdades, medos e expectativas.
7. Concluindo-me
A política contemporânea não pode ser compreendida por caricaturas: “elite contra povo”, “Brahmins contra trabalhadores”, “maioria sociológica” como fatalidade automática. A recomposição é real, mas não linear.
Rendimento continua a importar. Educação importa de forma cultural. A diáspora acrescenta complexidade adicional. Quem quiser governar terá de compreender esta geometria variável; quem insistir em mitologias sociológicas continuará a falar para fantasmas — ora o operário fabril dos anos 1950, ora a elite universitária de um país que já não existe.
E talvez fosse prudente — antes de proclamar maiorias imaginárias — começar por ler os dados.

Notas
  • S. M. Lipset & S. Rokkan, “Cleavage Structures, Party Systems, and Voter Alignments”, em Party Systems and Voter Alignments, 1967.
  • H. P. Kitschelt & P. Rehm, trabalhos sobre realinhamentos em sociedades pós-industriais e o cruzamento “educação/rendimento” como chave analítica do voto contemporâneo.
  • T. Piketty, “Political Cleavages and Social Inequalities” (tese da “esquerda Brahmin” e recomposição do eleitorado).
  • Enquadramento institucional dos círculos eleitorais da emigração e representação parlamentar da diáspora portuguesa (legislação eleitoral e prática constitucional).

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A violência como axioma da Extrema Esquerda

da virtude revolucionária ao linchamento de Lyon..
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O homicídio de um jovem estudante identificado com a direita política, Quentin, em Lyon, na sequência de agressões perpetradas por militantes de extrema-esquerda, não pode ser lido como um mero episódio de desordem urbana. O contexto — à margem de uma conferência de Rima Hassan, eurodeputada de extrema-esquerda da La France Insoumise (LFI), e com a presença entre os agressores de um assessor parlamentar ligado a estruturas ditas “anti-fascistas” — obriga a uma interrogação mais funda: estaremos perante um desvio ou perante uma consequência lógica de uma tradição política que concebe a violência como virtude?

O berço revolucionário: terror e virtude
Na Revolução Francesa, o Comité de Salut Public, sob a égide de Robespierre, estabeleceu a fusão entre “terror” e “virtude”. A violência não era um mal necessário, mas uma condição de possibilidade da nova ordem. “On ne peut point régner innocemment” — não se pode governar inocentemente. O axioma é devastador: a pureza política exige sangue.
Aqui nasce uma mutação conceptual decisiva. Na tradição liberal, a violência é vício a conter; no paradigma revolucionário, é instrumento moralmente legitimado. A política deixa de ser arte da mediação para se tornar liturgia da expiação. O adversário não é opositor; é obstáculo ontológico à redenção histórica.

Marx e Engels: a literalidade da luta
Com Marx e Engels, a violência adquire formulação teórica sistemática. No Manifesto do Partido Comunista, a declaração final é inequívoca: os fins comunistas só podem ser alcançados pelo derrube violento da ordem social existente. A “luta” não é metáfora espiritual; é confronto material.
Importa sublinhar: o marxismo não introduz a violência como excepção táctica; inscreve-a na própria dinâmica histórica. A luta de classes é motor da História, e o seu desfecho supõe ruptura violenta. A conquista da democracia é conquista pela força.
Trotsky: a nudez moral do terror
Com Trotsky, no Terrorismo e Comunismo, a argumentação abandona qualquer disfarce humanista. O terror não é lamentável necessidade; é instrumento legítimo e indispensável. Sem terror, não há socialismo. O título não contrapõe termos; identifica-os.
A consequência é cristalina: fuzilamentos, campos de concentração, censura e ditadura não são traições ao ideal — são meios virtuosos para o realizar. A moral revolucionária emancipa-se da moral comum.
Estaline: a realização integral
Com Estaline, o princípio atinge a sua forma estatal acabada. O terror deixa de ser momento transitório e torna-se sistema permanente. O Estado converte-se em máquina de purificação. 

A sociedade transforma-se num laboratório de suspeita.
A imagem — regimes que começam em gritos e terminam em sussurros — sintetiza o percurso. O totalitarismo não surge como degeneração; emerge como coerência interna. Quando a violência é axioma, o desfecho é previsível.
A herança contemporânea
Que relação pode estabelecer-se entre esta genealogia e o linchamento de Lyon? Evidentemente, não se trata de equiparar mecanicamente um partido contemporâneo às experiências totalitárias do século XX. A análise deve ser mais fina.
Contudo, há um fio condutor: a persistência de uma cultura política que relativiza a violência quando exercida em nome de uma causa tida por moralmente superior. A retórica “anti-fascista” constrói um universo moral binário: quem discorda é ameaça existencial. Se o adversário é encarnação do mal, a agressão adquire tonalidade expiatória.
É neste ponto que o silogismo ganha força: 
(1) todos os adversários são obstáculos intoleráveis; 
(2) X é adversário; 
(3) logo, X deve ser eliminado. 
A violência deixa de ser excesso; torna-se consequência lógica.
Democracia e contenção
A democracia liberal funda-se na distinção radical entre adversário e inimigo. O pluralismo implica reconhecer legitimidade ao outro. Quando esta distinção se dissolve, abre-se a porta à legitimação da força.
O caso de Lyon revela algo inquietante: a naturalização do linchamento como extensão de militância ideológica. Não é irrelevante que tal acto ocorra à margem de um evento político; a atmosfera simbólica importa. A violência brota de um caldo cultural onde o adversário é desumanizado.
Entre o mito e a responsabilidade
Importa evitar dois erros simétricos: o da generalização indiscriminada e o da negação complacente. Nem toda a esquerda é revolucionária no sentido jacobino; mas tampouco se pode ignorar que uma parte da sua tradição intelectual legitimou explicitamente a violência como virtude histórica.
A maturidade democrática exige ruptura clara com essa herança. Não basta proclamar antifascismo; é preciso afirmar inequivocamente que a violência política é sempre derrota moral.
Agulhadas finais
Há quem insista em tratar cada episódio de violência política à esquerda como uma excepção, um “desvio”, uma infiltração inoportuna. É sempre o mesmo expediente: quando a violência serve a causa, é compreensível; quando a compromete, é “lamentável”. Mas a História não é ingénua. Quando uma tradição intelectual ensina que o adversário é obstáculo ontológico à redenção, o passo seguinte não é o debate — é a eliminação.
A esquerda revolucionária gosta de citar as vítimas do fascismo; raramente enumera as suas próprias. E, todavia, o século XX está repleto de cadáveres produzidos em nome da virtude histórica. O problema não é apenas o punho que agride; é a doutrina que o absolve.
Quem hoje se escandaliza com o “clima de ódio” deveria começar por perguntar se não ajudou a criar um ambiente onde a agressão ao dissidente é vista como acto moralmente meritório. Porque quando o “anti” se torna identidade absoluta, tudo o que não se conforma passa a ser inimigo a abater.
Concluindo
O homicídio de Quentin, em Lyon, não deve ser instrumentalizado, mas também não pode ser relativizado. Ele convoca uma reflexão sobre a persistência de matrizes ideológicas que, desde Robespierre a Estaline, conceberam a violência como condição redentora.
Se a política é concebida como guerra moral absoluta, o linchamento deixa de ser anomalia e passa a epifenómeno. A democracia, porém, não sobrevive a axiomas sangrentos. Sobrevive à contenção, ao debate e ao reconhecimento da legitimidade do adversário.
Quando a virtude se confunde com o terror, a História já ensinou o desfecho. E a lição permanece actual.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Direita Europeia, o “Caldo Populista” e a Narrativa do Jornalistado (em sete pontos e uma conclusão)

Crise estrutural, crise de representação — ou crise de mediação interessada?

Resumo
Neste texto analiso a tese, hoje recorrente, segundo a qual o crescimento das direitas nacional-populistas na Europa se explica por um “caldo” composto por crise económica pós-2008, austeridade, desigualdades, crise migratória de 2015 e radicalização promovida pelas redes sociais.
Tal explicação, embora parcialmente verdadeira, é insuficiente e, em certos pontos, convenientemente míope. Argumenta-se que o fenómeno exprime sobretudo uma crise de representação política e um esgotamento das elites partidárias tradicionais, frequentemente protegidas por uma leitura mediática padronizada — aqui designada por jornalistado e comentariado — cuja função, não raras vezes, é menos compreender do que domesticar o debate público.

1. A tese dominante: crise económica, ansiedade cultural e carisma
A interpretação dominante nos meios de opinião associa o crescimento de forças lideradas por Giorgia Meloni, Marine Le Pen, Santiago Abascal, Geert Wilders, Viktor Orbán e dirigentes da AfD a um conjunto de factores: estagnação económica, austeridade, precariedade e “working poors”, crise dos refugiados de 2015, envelhecimento das democracias e, finalmente, impacto polarizador das redes sociais. No caso português, a subida eleitoral de André Ventura é apresentada como versão tardia e local desse padrão europeu.
A leitura contém elementos factuais, mas padece de um vício de origem: coloca o eleitor sob suspeita e o sistema sob protecção. A explicação nasce, muitas vezes, menos de um esforço analítico do que da necessidade de enquadrar a dissidência como patologia: o povo “ansioso”, a rede “tóxica”, o líder “salvador”, e — detalhe revelador — as elites como vítimas inocentes do próprio falhanço.
2. Economia não explica tudo: o eixo perdido é o controlo político
Uma parte da literatura sugere relação entre choques económicos e voto de protesto.1 Porém, a ascensão das direitas nacionais não coincide sempre com colapsos económicos comparáveis, nem se limita a contextos de privação material extrema. Há países com desempenho económico aceitável onde o voto nacional-populista cresce, e países com alternâncias sucessivas onde a “onda” não se dissolve. Em Portugal, o crescimento do Chega não é mera continuação mecânica do período troika; é, antes, a expressão de que a alternância tradicional deixou de convencer.
O elemento transversal é a percepção de perda de controlo político: sobre prioridades orçamentais, sobre a eficácia do sistema judicial, sobre políticas migratórias, sobre segurança e sobre a própria capacidade de escolha eleitoral. Quando o eleitor conclui que “muda o Governo, fica o regime”, o voto procura saída — e não licença moral do painel de comentadores
3. Migração: facto político, não “ansiedade” de manual
A crise migratória de 2015 trouxe para a Europa mais de um milhão de refugiados nesse ano.2 A alteração demográfica rápida é um facto político, não um fantasma. Chamar a preocupações identitárias “ansiedade cultural” é um modo elegante de despolitizar o debate: desloca-se a discussão do plano das escolhas públicas para o plano das emoções privadas, como se o eleitor fosse um paciente e não um cidadão.
Políticas migratórias são decisões soberanas — e discutí-las não é, por definição, radicalismo. Radicais, quando muito, são os que pretendem interditar o tema, e depois se espantam com o voto que nasce exactamente dessa interdição.
4. Redes sociais: amplificação, sim — mas também fim do monopólio
É inegável o efeito amplificador das plataformas digitais na circulação de conteúdos emotivos e polarizadores.3 Mas a tese mediática habitual inclui uma nostalgia interessada: quando “a informação era mediada por profissionais”, o espaço público seria virtuoso; agora, com telemóveis e algoritmos, tornou-se bárbaro.
O que esta nostalgia omite é simples: durante décadas, a mediação profissional funcionou, muitas vezes, como filtragem ideológica e como disciplina de agenda. As redes sociais não criaram o descontentamento; tornaram-no visível fora do filtro. E isso é, para certas redacções e para certas bancadas de comentário, mais do que um incómodo: é uma perda de poder simbólico.
5. O jornalistado e o comentariado: a fábrica do enquadramento único
A ascensão das direitas nacionais é frequentemente narrada como fenómeno quase patológico: emocional, ressentido, irracional. Esta narrativa cumpre funções muito concretas. Primeiro, preserva a legitimidade das elites tradicionais, transformando o seu falhanço em fatalidade histórica; segundo, desloca a causa da crise para os eleitores, convertendo cidadãos em suspeitos; terceiro, moraliza a dissidência, reduzindo alternativa política a desvio ético.
Aqui, jornalistado designa o conjunto de actores mediáticos que repetem o mesmo enquadramento como leitura padrão; comentariado designa o coro interpretativo que o reforça, frequentemente com o mesmo léxico, os mesmos alarmes e a mesma conclusão: “o problema não é o sistema — é o eleitor”.
O resultado é perverso: quanto mais o eleitor é infantilizado e moralmente admoestado, mais se consolida uma identidade de resistência. A demonização não dissolve o fenómeno; organiza-o. E a pedagogia televisiva não substitui representação política.
6. Liderança carismática: menos causa do que sintoma
A figura do “salvador” é apresentada como manipulação populista. Mas a tradição sociológica distingue entre carisma arbitrário e carisma emergente.4 Este último surge quando as instituições perdem capacidade de mobilização, quando a alternância se torna previsível e quando a linguagem do poder se separa da experiência dos governados.
Em suma: o líder carismático prospera onde há vazio de representação. O carisma não cria a falha; ocupa-a. E a insistência em tratar o carisma como doença é, muitas vezes, um modo de não discutir a insuficiência do sistema que o tornou possível.
7. Democracias envelhecidas e alternância automática: a raiz do problema
Dizer que “os partidos tradicionais se habituaram a chegar ao poder por desgaste dos adversários” é, sem querer, tocar no nervo da questão. Quando a alternância se torna automática, o eleitor deixa de escolher projectos e limita-se a sancionar incumbentes. A política passa a ser rotação de quadros e não disputa substantiva de rumos.
A emergência de forças exteriores ao centro rompe essa previsibilidade. Isso pode ser ruído — mas pode ser também reactivação competitiva. Chamar a isso “radicalização” é, por vezes, apenas a forma elegante de dizer: “perdemos o exclusivo da legitimidade”.
Conclusão
O crescimento das direitas nacionais na Europa não é monocausal. Economia, migração e redes sociais contam. Porém, a variável decisiva é a crise de representação, agravada por uma mediação que se tornou, demasiadas vezes, militância de enquadramento: não analisa o real, corrige-o; não descreve o eleitor, educa-o; não debate alternativas, administra interditos.
Se a democracia envelheceu, não foi por excesso de participação popular, mas por excesso de previsibilidade institucional — e por uma classe mediática que, temendo a imprevisibilidade, prefere confundir controlo com virtude.
O que incomoda verdadeiramente o comentariado não é o radicalismo — é a perda de centralidade. Durante décadas, interpretaram o país para o país. Hoje, o país interpreta-se a si próprio, muitas vezes sem pedir licença. E isso é imperdoável para quem confundiu mediação com tutela.
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Agulhadas finais
  • 1) Quando o jornalistado explica o voto como patologia e a alternativa como desvio, não está a interpretar a política: está a guardar o portão do regime.
  • 2) A expressão “ansiedade identitária” funciona, demasiadas vezes, como anestesia retórica: evita dizer “há escolhas erradas”, trocando o erro por uma emoção do eleitor.
  • 3) Se as redes sociais “destruíram a mediação”, talvez o problema não seja a ausência de mediadores — talvez seja a fragilidade dos mediadores quando deixaram de mandar.
Notas
1 Mudde, Cas. Populist Radical Right Parties in Europe. Cambridge University Press, 2007.
2 ACNUR (UNHCR). Relatórios estatísticos e sínteses públicas sobre deslocação forçada, com destaque para 2015.
3 Sunstein, Cass. #Republic: Divided Democracy in the Age of Social Media. Princeton University Press, 2017.
4 Weber, Max. Economia e Sociedade. Secções sobre dominação carismática.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

já não é proibido proibir!

Proibir para proteger? Ou proteger para proibir?
A Assembleia da República aprovou o diploma que proíbe o acesso às redes sociais a menores de 13 anos e condiciona, entre os 13 e os 16, a autorização parental. Votaram a favor PSD, PS, PAN e JPP. Absteve-se um bloco curioso de prudências: CDS-PP, PCP, Livre, BE e um deputado do PS. Votaram contra o IL e o Chega.

O país estava debaixo de água — literalmente. Mas, em Lisboa, chovia virtude.
  • “Regular para proteger, não proibir”, disse o PSD.
  • “Actualizar a legislação face à evolução tecnológica”, concordou o PS.
O PAN e o JPP alinharam, como quem cumpre uma obrigação moral inadiável.

À primeira vista, tudo soa razoável. Quem não quer proteger crianças? Quem ousa opor-se à segurança dos menores? Eis o truque antigo da política pedagógica: envolver a expansão do poder estatal numa capa de preocupação parental.
Mas a pergunta é outra: quem educa quem?
o regresso do educador (que já foi do proletariado?)
O diploma parte de um pressuposto silencioso: os pais não chegam. São inseguros, distraídos, incompetentes ou simplesmente ausentes. Logo, o Estado assume o papel de tutor universal.
A direita “responsável” explica que não se trata de censura. A esquerda “progressista” fala em actualização tecnológica. Ambos convergem no mesmo ponto: a família deve ser auxiliada — isto é, condicionada — por um mecanismo de verificação imposto por lei.
É curioso observar esta convergência entre as direitas e esquerdas caviar. Uns falam em ordem, outros em protecção. Mas todos parecem confortáveis com a ideia de que o Estado deve dizer aos pais o que devem proibir.
Sinal dos tempos: há pais que respiram de alívio quando o legislador lhes resolve a angústia educativa.
O argumento liberal
A Iniciativa Liberal votou contra. Falou em vigilância generalizada. Recordou que, para proteger alguns, se cria um mecanismo aplicável a todos. Defendeu literacia digital, responsabilização das plataformas, uso das ferramentas já existentes.
A crítica é pertinente: qualquer sistema de verificação de idade implica recolha e tratamento de dados. E toda a arquitectura de controlo criada para proteger pode ser, amanhã, usada para condicionar.
Não é uma fantasia distópica. É uma observação histórica.
O argumento conservador
O Chega votou contra com uma linha clara: o Estado não substitui a família. Falou em censura, levantou dúvidas de constitucionalidade e questionou a eficácia da medida.
Independentemente das simpatias ou antipatias que o partido desperte, a questão colocada é legítima: até onde pode ir o Estado na definição dos limites da vida privada?
Quando o legislador assume que deve decidir o que um jovem pode ou não ver online, está a proteger ou a padronizar?
As abstenções "prudentes"
O CDS-PP absteve-se, lembrando que deve ser a família — e não o Estado — a decidir os limites. PCP, Livre e BE também optaram pela abstenção, ainda que com silêncios estratégicos.
Há aqui uma ironia: partidos que tantas vezes reclamam contra o “Estado opressor” revelam prudência quando a expansão regulatória se apresenta sob a bandeira da infância.
Porque ninguém quer parecer contra as crianças.
A "pedagogia" da proibição
O lema de 68 dizia: “É proibido proibir”. Meio século depois, a consigna inverteu-se: é virtuoso proibir — desde que a proibição venha com selo institucional.
O problema não está na preocupação com os riscos digitais. Esses riscos existem. O problema está na tendência para resolver todas as fragilidades sociais com legislação expansiva.
A lógica é sempre a mesma:
  • Detecta-se um risco real.
  • Amplifica-se o perigo.
  • Apresenta-se a regulação como única resposta responsável.
  • Quem discorda é acusado de indiferença moral.
E assim se consolida a ideia de que a autoridade parental é uma variável dependente da autorização estatal.
Para os que votaram a favor
não se trata de caricaturar intenções. Muitos deputados que votaram favoravelmente acreditam sinceramente estar a proteger menores. O impulso é compreensível.
Mas convém perguntar: quantas vezes o Estado prometeu proteger sem aumentar a sua presença permanente na esfera privada?
A história das regulações mostra que raramente há recuos. Há sempre aperfeiçoamentos, extensões, novos dispositivos de controlo.
Hoje são as redes sociais. Amanhã será o quê?
Para os que votaram contra
A oposição não pode limitar-se à denúncia retórica. Se o argumento é que a família deve decidir, então é preciso propor alternativas robustas: educação digital séria, responsabilização efectiva das plataformas, reforço das competências parentais.
Defender a liberdade implica assumir a responsabilidade que ela exige.
O padrão que se repete
Este diploma não é um caso isolado. É mais um capítulo na narrativa do Estado pedagogo. Um Estado que educa, orienta, sinaliza virtudes, corrige desvios.
Um Estado que, em nome da protecção, normaliza a supervisão.
Há sempre uma emergência moral disponível para justificar a expansão regulatória. E há sempre uma direita disponível para aplaudir se a embalagem for suficientemente prudente — e uma esquerda disponível para aplaudir se a linguagem for suficientemente protectora.
Chamam-lhe consenso democrático. Outros chamar-lhe-ão conformismo legislativo.
Quando é que irá rebentar
Um dia isto rebenta como os açudes ou desaba como uma encosta…
A metáfora é excessiva? Talvez. Mas as sociedades que acumulam camadas de controlo em nome do bem acabam por gerar reacções bruscas.
Quando os cidadãos percebem que cada problema é resolvido com mais tutela, cresce a desconfiança. E quando a desconfiança cresce, a estabilidade diminui.
A questão não é tecnológica. É política.
  • Queremos um Estado árbitro ou um Estado tutor?
  • Queremos pais responsáveis ou pais assistidos?
  • Queremos cidadãos livres ou utilizadores regulados?
A defesa da infância é nobre. Mas a substituição progressiva da autoridade familiar por mecanismos legais é uma escolha política — não uma inevitabilidade técnica.
O diploma foi aprovado. A virtude foi proclamada. As consciências ficaram tranquilas.
Resta saber se, ao proteger as crianças do mundo digital, não estaremos a habituá-las desde cedo a um mundo onde a liberdade depende sempre de validação administrativa.
E quando o Estado aprender que pode proibir para educar, dificilmente deixará de educar para proibir.

...pro-diario da Aldeia Rica: The Real Threat to Democracy Isn’t Partisan Voters...

...pro-diario da Aldeia Rica: The Real Threat to Democracy Isn’t Partisan Voters...
Americans are constantly warned that polarization is tearing the country apart. We’re told the problem is angry voters, radical activists, ...

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Do “Alívio” de 1926 ao “Alívio” de 2026

Painel comparativo das primeiras páginas e o tom das elites quando o sistema suspira
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Há cem anos, a 28 de Maio de 1926, a I República caiu. O que surpreende não é o golpe militar. O que surpreende é o tom da imprensa no dia seguinte.
Não houve, na generalidade, pânico democrático. Houve alívio.
Falou-se em “estado de fadiga política”, em “correcção necessária”, em “renovação moral e administrativa”. O “movimento” era descrito como resposta a um impasse. A desordem justificava a intervenção. O sistema suspirava.
Sabemos o que veio depois.
Painel 1 — Maio de 1926
Exemplos de primeiras páginas da época (Hemeroteca Digital e arquivos públicos):
  • - Títulos normalizadores do “movimento” militar.
  • - Linguagem de “ordem”, “correcção” e “restauração”.
  • - Ênfase no fim da instabilidade da I República.
Em vez de lamento institucional, predominou o enquadramento administrativo: a República estava exausta, a intervenção surgia como inevitável. A imprensa não liderou resistência; acompanhou o sentimento dominante nas elites políticas e sociais.
O país mediático respirava.
Painel 2 — Fevereiro de 2026
Primeiras páginas após a eleição presidencial:
  • - “Seguríssimo” (66,8% / 33,2%).
  • - “Presidente Seguro”.
  • - “Estrondosa derrota de Ventura”.
A narrativa estava pronta antes da abertura das urnas: 70% contra 30%, “campo democrático” contra “ameaça”. Quando o resultado confirma quase exactamente as projecções, o tom dominante não é de análise fria — é de alívio moral.
O sistema suspira outra vez. 

O paralelismo incómodo
Não se trata de equiparar regimes ou contextos históricos distintos. Trata-se de observar um padrão: quando uma força política é percepcionada como ameaça à ordem estabelecida, a imprensa tende a enquadrar o desfecho favorável ao sistema como “correcção”, “normalização” ou “derrota necessária”.
  • Em 1926, a palavra era “renovação”.
  • Em 2026, a palavra é “defesa do campo democrático”.
O tom é diferente. A música é a mesma.
Em ambos os casos, o foco desloca-se da causa do descontentamento para a celebração do seu bloqueio.

Derrota ou consolidação?
Um partido que em sete anos passa de 70 mil votos para mais de 1.700.000 e conquista um terço dos votantes pode ser derrotado numa eleição. Mas não pode ser descrito como irrelevante.
A “estrondosa derrota” serve mais a tranquilização do comentariado do que a compreensão do fenómeno.
Tal como em 1926, o sistema interpreta o resultado como restauração da ordem. A diferença é que hoje a ordem se chama estabilidade democrática e legitimidade institucional.
...mas os números permanecem.
Um terço dos votantes não desaparece com um título de jornal.

O que a imprensa revela — e o que esconde
A imprensa de 1926 revelava fadiga política e medo do caos. A de 2026 revela ansiedade perante uma transformação do espaço político que muitos prefeririam inexistente.
Ambas revelam algo essencial: quando as elites se sentem ameaçadas, a linguagem suaviza o poder estabelecido e dramatiza o opositor.
O que muda são os adjectivos. O mecanismo permanece.
  • Em 1926, falava-se em “ordem”.
  • Em 2026, fala-se em “defesa da democracia”.
Mas o suspiro é o mesmo.

Concluindo
A História não se repete em linha recta. Mas rima.
  • Em 1926, o alívio abriu caminho a décadas de regime.
  • Em 2026, o alívio não elimina o fenómeno político que pretende conter.
Pode atrasar.
Pode estigmatizar.
Pode celebrar.
Mas não apaga 1.700.000 votos.
E talvez a verdadeira surpresa não esteja nos resultados eleitorais.
Esteja na persistência em não querer ler o que eles significam.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

A Vitória que Não Era Deles — Manual Prático de Propaganda

ou
Como transformar abandono em lealdade, rejeição em consagração e oportunismo em glória partidária.
Há técnicas políticas que não envelhecem. Mudam os actores, mantêm-se os métodos. A escola associada a Joseph Stalin ensinou uma regra simples: quando a realidade não serve, reescreve-se. A derrota deixa de existir se for narrativamente convertida em vitória.
A operação é conhecida. Primeiro, marginaliza-se um candidato durante anos. Deixa-se cair, desvaloriza-se, ignora-se. Depois, quando esse mesmo candidato vence com apoios externos, inclusive com sectores da Direita que outrora eram tratados como ameaça existencial — activa-se a engrenagem simbólica: afinal, sempre foi “dos nossos”.
É aqui que a técnica estalinista revela a sua elegância brutal: não se nega o passado; apaga-se por sobreposição narrativa. A cronologia é irrelevante. O que conta é a repetição. E repetir é governar.
Mas a manobra não vive apenas do aparelho partidário. Entra então a pedagogia de Antonio Gramsci: quem domina o discurso público domina o significado dos factos. Se o jornalistado e o comentariado adoptam a moldura correcta, a realidade passa a ser aquela que é interpretada — não aquela que aconteceu.
Assim, uma candidatura sustentada por apoios heterogéneos transforma-se, como por milagre hermenêutico, numa “vitória inequívoca do Partido Socialista”. O partido que o renegou durante mais de uma década reaparece como herdeiro legítimo do triunfo.
E regressa, com notável sincronização, aquilo que um antigo Presidente da República designou como a “tenebrosa máquina de propaganda do Partido Socialista”. Não como metáfora literária, mas como descrição funcional: articulação entre partido, elites mediáticas e formadores de opinião.
O mecanismo é transparente:
  • 1. Reclassifica-se o resultado.
  • 2. Reescreve-se a genealogia política.
  • 3. Declara-se vitória estratégica.
O que poderia ser sinal de fragilidade orgânica converte-se, por alquimia discursiva, em demonstração de hegemonia.
No fim, não é apenas a memória que se altera. É a percepção colectiva do poder. E quando a narrativa se instala como evidência, a propaganda deixa de parecer propaganda — passa a chamar-se “análise política”.

Agulhada final: 
Não estamos perante um triunfo partidário. Estamos perante uma operação de apropriação simbólica. E se todos fingirem que não vêem, então a mentira deixa de precisar de convencer — basta-lhe ecoar.