quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Dez anos depois: já podemos julgar António Costa e a geringonça?

Uma década é tempo suficiente para deixar de discutir intenções e começar a contabilizar consequências?

Em 2015 disseram-nos que estava a nascer uma extraordinária inovação democrática. António Costa perdera as eleições, a coligação PSD/CDS vencera-as, mas uma nova maioria parlamentar formada pelo PS, BE e PCP permitiria afastar o Governo de Passos Coelho. Era constitucionalmente possível. Nunca esteve aí a questão. A questão era outra: rompia-se uma prática política que, com diferentes equilíbrios e protagonistas, ajudara a estruturar o funcionamento do regime português desde a Constituição de 1976. E essa ruptura foi apresentada não como excepcional, mas como progresso.

Dez anos depois, talvez possamos finalmente perguntar: progresso para onde?

A geringonça não mudou apenas um Governo

Como escrevi recentemente no ReVisões, António Costa não acabou com a democracia nem suspendeu a Constituição. Fez algo politicamente mais subtil: alterou as regras não escritas através das quais funcionara o semi-presidencialismo português. Até então, eleições legislativas, Presidência da República e formação do Governo relacionavam-se através de convenções políticas destinadas a preservar um mínimo de cooperação institucional.

Em 2015 essas convenções foram ultrapassadas. Costa percebeu que, dispondo primeiro de uma maioria parlamentar negativa contra Passos Coelho e depois de uma maioria positiva capaz de sustentar um Governo socialista, podia governar apesar de ter perdido as eleições. Foi uma jogada politicamente brilhante, mas as jogadas brilhantes também podem produzir consequências duradouras que os seus autores não controlam.

Abriu-se uma porta que nunca mais se fechou. Num sistema partidário entretanto muito mais fragmentado, governar passou a depender crescentemente da combinação parlamentar possível em cada momento. O resultado foi uma maior instabilidade, governos mais frágeis e uma Presidência da República repetidamente empurrada para a utilização da dissolução parlamentar.

O “Príncipe Perfeito”

É aqui que o excelente texto de Nuno Poças acrescenta outra dimensão ao problema. Durante anos, António Costa foi tratado por grande parte do jornalistado e comentariado como uma espécie de “Príncipe Perfeito” da política portuguesa: o homem que descobrira a quadratura do círculo, acabando com a austeridade sem abandonar o equilíbrio orçamental, aumentando rendimentos sem comprometer as contas e conseguindo governar ao centro enquanto mantinha comunistas e bloquistas como sustentáculo parlamentar.

E quem ousasse recordar Passos Coelho, a bancarrota de 2011, a intervenção externa ou o esforço de recuperação subsequente era rapidamente remetido para o inferno dos “austeritários”. Passos deixou progressivamente de ser tratado como um adversário político com ideias diferentes e foi transformado numa categoria moral: era o homem mau; Costa, o homem bom. Durante demasiado tempo, uma parte importante da imprensa confundiu análise política com distribuição de certificados de bondade.

A austeridade não desapareceu. Mudou de nome

A grande habilidade política de Costa foi convencer o país de que acabara com a austeridade. Mas reduzir investimento, adiar obras, deixar degradar equipamentos, comprimir serviços ou administrar o Estado tendo como prioridade os resultados contabilísticos também tem um preço. A factura não desaparece: é transferida para o futuro.

E o futuro chegou. Está hoje visível na Saúde, na Educação, na Justiça, nos Registos e em múltiplos sectores da Administração Pública. Seria simplista atribuir todos os problemas actuais exclusivamente a António Costa: houve uma pandemia, crises internacionais, alterações demográficas, problemas herdados e erros dos governos que se seguiram. Mas seria igualmente intelectualmente desonesto fingir que oito anos de governação socialista não deixaram uma marca profunda nas estruturas que hoje apresentam sinais de exaustão.

Durante demasiado tempo confundiram-se “contas certas” com boa governação. Não são a mesma coisa. Um Estado pode apresentar resultados contabilísticos aceitáveis e simultaneamente estar a consumir lentamente o seu capital material, humano e institucional.

Saúde, Educação e Estado

Na Saúde acumularam-se problemas de recursos humanos, urgências condicionadas, dificuldades de resposta e uma dependência crescente do sector privado por parte de quem o pode pagar. Na Educação, a falta de professores tornou-se estrutural, o corpo docente envelheceu e a substituição geracional não foi suficientemente preparada. Na Administração Pública, o cidadão conhece demasiado bem atrasos, serviços congestionados, estruturas envelhecidas e uma digitalização que, em demasiados casos, se limita a transferir para o utente tarefas anteriormente executadas pelo próprio serviço.

Nada disto nasceu num único Conselho de Ministros e seria intelectualmente pobre fingir o contrário. Mas a política também se julga pelo que um Governo antecipa — e, sobretudo, pelo que não quis antecipar quando dispunha de estabilidade parlamentar, dinheiro europeu e condições políticas para reformar.

E onde estava o jornalistado?

Talvez esta seja a parte mais incómoda desta história. Costa não governou num vazio mediático. Governou beneficiando durante largos períodos de um ambiente político e jornalístico extraordinariamente favorável. Muitos dos jornalistas e comentadores que hoje ocupam posições centrais nas redacções iniciaram ou consolidaram as suas carreiras precisamente durante os anos da geringonça. Para essa geração, 2015 tornou-se quase um ponto zero da política portuguesa: Costa representava a moderação e Passos o radicalismo; BE e PCP eram parceiros legítimos da governação, enquanto uma direita que contestasse o novo consenso era facilmente apresentada como suspeita ou extremada.

Não é preciso imaginar conspirações para perceber o fenómeno. As hegemonias culturais raramente precisam de ordens. Funcionam quando determinadas ideias passam a ser consideradas naturais e outras deixam sequer de ser interrogadas. Durante anos tornou-se natural considerar Costa um extraordinário estratega; muito menos natural foi perguntar qual seria o preço futuro daquela estratégia.

Agora conhecemos pelo menos parte da resposta.

Dez anos depois

É também por isso que a simples reaparição de Passos Coelho no debate público continua a provocar reacções tão intensas. Não é necessário transformá-lo num salvador, nem sequer desejar o seu regresso à liderança política. Basta perceber o que representa: uma memória incómoda para a narrativa construída depois de 2015.

Recorda que Portugal esteve próximo da bancarrota, que houve um programa externo de assistência, que existiu um esforço de recuperação e que António Costa recebeu em 2015 um país que já saía dessa emergência. A partir daí inaugurou um novo ciclo político que pode hoje ser analisado não pelas promessas feitas, mas pela herança deixada.

Dez anos depois, já não estamos obrigados a acreditar na propaganda de 2015. Podemos olhar para o estado da Saúde, da Educação, da Justiça e da Administração Pública; podemos observar a fragmentação partidária, a instabilidade governativa e a transformação das regras políticas não escritas; e podemos também perguntar até que ponto uma comunicação social demasiadamente fascinada pelo engenho político de Costa cumpriu plenamente a sua obrigação de escrutinar o poder.

António Costa venceu muitas batalhas. Dominou o PS, neutralizou eleitoralmente os seus parceiros à esquerda, governou durante anos e chegou às instituições europeias. Foi, nesse sentido, um político extraordinariamente eficaz. Mas eficácia na conquista e conservação do poder não é necessariamente sinónimo de eficácia na transformação de um país.

E é essa a pergunta que, dez anos depois, interessa realmente colocar: que Portugal deixou António Costa?

A resposta não deve ser procurada nos elogios de 2015, nem nas memórias selectivas do jornalistado e comentariado. Deve procurar-se nos hospitais, nas escolas, nos tribunais, nos serviços públicos e no próprio funcionamento do sistema político.

Talvez seja precisamente por isso que alguns não gostam de regressar a 2015: não porque o passado possa regressar, mas porque chegou finalmente o momento de fazer a conta.

domingo, 13 de setembro de 2026

Resposta do Claude Anthropic à pergunta O CHEGA não está apenas a protestar?

pedi ao Claude Anthropic uma analise ao texto do Observador

Miguel Pinheiro, no Observador, escreveu aquilo que grande parte do jornalistado, do comentariado e da classe política portuguesa continua a recusar-se sequer a admitir: André Ventura pode chegar ao Governo.
Não amanhã. Talvez nem depois de amanhã. Mas a hipótese deixou há muito de pertencer ao domínio da fantasia política.
O erro das elites portuguesas consiste em analisar o CHEGA como se continuássemos em 2019. Não continuamos!

Há duas maneiras de chegar ao poder
Miguel Pinheiro estabelece uma distinção particularmente feliz: há quem chegue rapidamente ao poder entrando nos partidos existentes e há quem escolha o caminho mais demorado - substituir esses partidos.
André Ventura poderia ter permanecido no PSD.
Não ficou.
Criou um partido que começou com um deputado e que, em poucos anos, se tornou uma das principais forças políticas portuguesas.

Este pormenor é essencial porque ajuda a compreender aquilo que venho defendendo: o CHEGA não pretende simplesmente deslocar a velha direita alguns graus para a direita. Pretende ocupar o espaço político que essa direita deixou vazio.
E esse processo exige tempo.
Da revolta à adesão
Durante anos, a explicação confortável foi esta: as pessoas votam no CHEGA para protestar.
É parcialmente verdade.
Mas a palavra decisiva é “parcialmente”.

Todos os movimentos políticos que desafiam um sistema estabelecido começam por absorver descontentamento. O que interessa perceber é o momento em que os eleitores deixam de votar apenas contra os outros e começam a votar a favor deles.
Foi exactamente isso que aconteceu com o Rassemblement National francês.
Estudos sobre as legislativas francesas de 2024 concluíram que 48% dos eleitores do RN diziam votar por adesão e apenas 7% por oposição. Entre esses eleitores existia também uma forte convicção de que o partido poderia efectivamente aplicar o seu programa se chegasse ao poder.
A transformação é politicamente decisiva. O pária deixa de ser apenas o instrumento utilizado para castigar o sistema. Passa a ser considerado uma alternativa ao sistema.
E agora a Alemanha
O mesmo fenómeno está a tornar-se visível na Alemanha.
Nas eleições de 6 de Setembro de 2026 na Saxónia-Anhalt, a AfD alcançou 43,8% dos votos, mais do dobro do resultado de 2021.

Mais interessante ainda do que o número é a mudança psicológica do eleitorado.
Segundo a análise da Chatham House, 44% dos eleitores preferiam um governo liderado pela AfD e 36% consideravam-na o partido mais capaz de resolver os problemas do Estado.
A campanha também mudou de linguagem.
Do negativo “Já chega” passou-se para “Tudo é possível”.
Isto é muito mais do que publicidade eleitoral.
É a passagem da indignação à esperança política; da oposição à expectativa de governo.

Portugal não acaba no Cabo da Roca
É precisamente aqui que Miguel Pinheiro desmonta uma das grandes ilusões portuguesas.
A nossa classe político-mediática continua convencida de que Portugal constitui uma extraordinária excepção histórica.
Le Pen pode crescer em França. A AfD pode crescer na Alemanha.
Outros partidos semelhantes podem transformar os sistemas partidários europeus.

Mas em Portugal, asseguram-nos, nunca acontecerá.
Porquê? Porque não.

É este, aproximadamente, o profundíssimo argumento.
O mesmo comentariado que não previu a entrada do CHEGA no Parlamento, que não previu a sua passagem para dezenas de deputados e que sucessivamente anunciou o seu tecto eleitoral continua agora a garantir-nos que encontrou finalmente o verdadeiro tecto.
Um dia acertará.
Nem que seja aos 50%.
O cordão sanitário pode estar a fabricar aquilo que pretende impedir

Existe ainda outra ironia.
Quanto mais o sistema transforma o CHEGA num partido proscrito, mais contribui para consolidar a identidade entre o partido e os seus eleitores.
O mecanismo francês está estudado: muitos eleitores do RN reconhecem no desprezo dirigido aos dirigentes do partido o mesmo desprezo social, cultural ou intelectual que sentem ser-lhes dirigido a eles próprios.
É por isso que o permanente ritual de excomunhão pode produzir o resultado contrário ao pretendido.
Cada insulto. Cada “cordão sanitário”. Cada tentativa de excluir. Cada campanha explicando aos eleitores que são ignorantes, ressentidos, racistas, fascistas ou simplesmente pessoas que ainda não compreenderam o que deveriam pensar.
Tudo isso reforça uma comunidade política.
O eleitor deixa de sentir que estão a atacar apenas Ventura. Sente que o estão a atacar a ele.
Mas há uma diferença portuguesa
É aqui que acrescentaria algo à excelente análise de Miguel Pinheiro.
O CHEGA dificilmente chegará ao poder apenas através da indignação.
Para completar a transformação necessita de fazer precisamente aquilo que as Novas Direitas europeias começam a perceber: transformar revolta em doutrina, protesto em projecto e eleitorado em bloco social duradouro.
É por isso que a Questão Social é tão importante.
Pensões. Idade da reforma. Salários. Habitação. Fiscalidade. Segurança. Imigração. Serviços públicos. Soberania.
São estas matérias, e não apenas os temas identitários, que permitirão saber se o CHEGA será simplesmente um grande partido de protesto ou um futuro partido de Governo.
É também aqui que se manifesta a ruptura com a velha direita liberal.
Durante demasiado tempo, PSD e CDS aceitaram a hegemonia cultural da esquerda e limitaram-se, demasiadas vezes, a discutir taxas, défices e velocidade das privatizações.
A Nova Direita terá de disputar também cultura, comunidade, identidade nacional e protecção socia.
Não basta conquistar votos. É necessário conquistar legitimidade para governar.
O adversário também conta

Miguel Pinheiro chama ainda a atenção para outro factor frequentemente esquecido.
Uma eleição nunca depende apenas de um candidato.
Depende do adversário.
Nas presidenciais, André Ventura enfrentou António José Seguro, um candidato especialmente adequado à agregação de voto contra o líder do CHEGA.
Noutra circunstância, com outro adversário, o comportamento eleitoral poderá ser muito diferente.
Basta que um dia a esquerda portuguesa, convencida da sua superioridade moral e embriagada pela própria propaganda, decida responder à chamada “radicalização da direita” escolhendo a sua própria versão radical.
Nesse momento a eleição deixará de ser:
“Ventura ou um moderado?”
E poderá passar a ser:
“Ventura ou isto?”
É nesses momentos que sistemas políticos aparentemente imóveis mudam muito depressa.
A velha direita ainda não percebeu o que está em causa
O PSD deveria talvez preocupar-se menos em saber se consegue domesticar o CHEGA e preocupar-se mais em saber se o CHEGA o está a substituir.
Porque essa é a verdadeira questão.
A emergência de uma Nova Direita não significa necessariamente a radicalização da velha direita. Pode significar a sua substituição.
Foi isso que durante anos as elites francesas se recusaram a compreender relativamente ao RN.
É isso que os democratas-cristãos alemães terão agora de compreender perante a AfD.
E é isso que a direita liberal portuguesa continua aparentemente convencida de que nunca acontecerá consigo.

O tempo trabalha
Nada disto significa que a chegada do CHEGA ao Governo seja inevitável.
Política não é profecia.
O partido pode cometer erros, fragmentar-se, perder credibilidade ou revelar-se incapaz de transformar protesto em competência governativa.
Mas afirmar que não pode chegar ao poder é hoje intelectualmente muito mais difícil do que explicar como poderá chegar lá.
Miguel Pinheiro percebeu essa diferença.
André Ventura escolheu um caminho mais comprido.
Primeiro entrou no sistema.
Depois rompeu com a direita do sistema.
A seguir conquistou o eleitorado de protesto.
Agora terá de transformar uma parte crescente desse eleitorado em eleitorado de adesão.
E finalmente terá de convencer portugueses suficientes de que não serve apenas para denunciar quem governa.
Serve para governar.
O jornalistado e o comentariado podem continuar a dormir tranquilamente, embalados pela certeza de que isso nunca acontecerá.
Também em França e na Alemanha dormiram muito bem durante anos.
O problema é que os eleitores, entretanto, acordaram.
O CHEGA não está apenas a protestar. Está a preparar-se para governar

10 anos depois podemos contabilizar as consequência da “geringonça”!

"Quando se diz que António Costa pôs termo ao consenso e, consequentemente, ao regime constitucional de 1976, não queremos com isso dizer que o regime democrático chegou ao fim e que se aproxima uma tenebrosa ditadura ou uma revolução sanguinária. Escusam de ficar inquietos e em sobressalto, e perder o fim-de-semana por causa disto. O que a afirmação significa é que António Costa pôs termo ao sistema de governo pensado na Constituição de 1976, e que isso comportará - já está a comportar há algum tempo - consequências muito complicadas, a meu ver, profundamente nefastas.
Os regimes democráticos ocidentais provenientes do Iluminismo desenvolveram três matrizes principais de organização do poder político: o Parlamentarismo, a partir de Inglaterra e da Revolução Gloriosa; o Presidencialismo, com a Revolução da Independência dos EUA; e o Semipresidencialismo, com a Quinta República Francesa do General de Gaulle.
Cada um destes sistemas democráticos de governo tem modos diferentes de funcionamento, que correspondem a legitimidades também elas distintas.
O sistema parlamentar, que é o mais antigo, confia a soberania ao Parlamento, de quem depende a escolha, manutenção em funções e demissão do governo. O chefe de Estado, frequentemente um rei, não tem poder de soberania e, consequentemente, não pode deitar abaixo o governo ou dissolver o parlamento.
No sistema presidencial (EUA), não há propriamente governo, enquanto órgão colegial e autónomo. O chefe de Estado é também chefe do governo e é ele quem escolhe os ministros, que não podem ser destituídos senão por ele. Ele próprio não está sujeito a censura política parlamentar que o possa destituir, e o célebre "impeachment" não é um processo político por fraca governação, mas um processo criminal por eventuais crimes cometidos no exercício das funções presidenciais.
Por fim, o semipresidencialismo combina elementos dos dois anteriores sistemas, pelo que o governo tem uma dupla legitimidade e uma tutela bicéfala: do parlamento, onde é aprovado, controlado e eventualmente destituído, e do chefe de Estado, que o pode demitir quase livremente. Qual a razão de ser deste sistema? A natureza eletiva-universal do presidente. Este sistema teve verdadeiramente início em 1962, quando de Gaulle referendou a Constituição para passar a prever um presidente da República eleito desse modo e com mais poderes.
O semipresidencialismo foi o modelo de governo escolhido na Constituição Portuguesa de 1976. Apesar de muito mais suave do que o seu homólogo francês e de uma revisão constitucional (1982) que ainda o amansou mais, mantém algumas características que fazem com que o governo careça dessa dupla legitimidade para se manter em funções. Nomeadamente, a possibilidade de dissolução da Assembleia da República e, consequentemente, do governo pelo presidente, mesmo que haja uma maioria parlamentar absoluta que o apoie. Vejam-se os casos do governo de Santana Lopes e do último de António Costa. E um efetivo acompanhamento da governação, sendo que lhe poderá pôr fim quando considerar que está em causa "o regular funcionamento das instituições", fórmula constitucional suficientemente ambígua para permitir uma decisão subjetiva quanto à subsistência de um governo.
Ora foi exatamente António Costa que pôs fim a este sistema de equilíbrio entre presidente e parlamento, ao desconsiderar totalmente o presidente da República Aníbal Cavaco Silva, não levando em conta a sua intenção de não dar posse a um governo de coligação com o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda. Na altura isto divertiu imenso alguma esquerda mais básica - era, finalmente, a grande humilhação de Cavaco com que sempre tinha sonhado - mas teve consequências. A mais grave de todas foi - é - a absoluta instabilidade do regime, onde só com maiorias parlamentares absolutas se poderá ambicionar alguma estabilidade e, mesmo assim, nem sempre... A outra foi transformar o presidente da República num terrorista constitucional, que praticamente só dispõe do poder de dissolução parlamentar e de demissão do governo para se fazer ouvir. Dito de outro modo, um sistema que funcionava baseado na cooperação entre as duas instituições mais importantes do regime - chefe de Estado e Parlamento - passou a ser de conflito e competição, em que o governo fica dependente de um parlamento que dificilmente tem maiorias absolutas, e de um presidente que só pode demiti-lo se quiser corrigir a sua trajetória política, pouco, ou nada, contando para além disso. Com a fragmentação do sistema partidário, muito causada também pela insatisfação dos cidadãos com a instabilidade e falta de orientação política (que governos de minoria não conseguem alcançar) fez-se o resto.
As consequências disto são que nunca mais este regime constitucional de governo democrático funcionará decentemente. O que virá depois é, por enquanto, uma incógnita. Mas esqueçam o presidencialismo - nunca o tivemos por cá (nem durante a 1ª República) e também não me parece que tenhamos civilidade política para o parlamentarismo (Rui Albuquerque)




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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Chamam-lhes extrema-direita enquanto o "seu" mundo desaparece...

Durante anos discutiu-se como chamar-lhes. Talvez esteja na altura de perguntar porque é que os eleitores lhes chamam.

Podemos continuar a chamar-lhes populistas, radicais, extremistas, fascistas, extrema-direita ou escolher qualquer outra palavra suficientemente assustadora para evitar a pergunta desagradável.

Quer à esquerda, quer à direita, estarão os velhos partidos - e, sobretudo, as ideologias políticas do pós-guerra que os sustentaram - a começar a desaparecer?

Talvez o fenómeno político europeu mais importante deste nosso tempo já não seja o crescimento dos chamados partidos “populistas”. Talvez seja a progressiva retirada do consentimento popular às respostas que os partidos tradicionais deram, durante décadas, às grandes questões europeias.

A Alemanha deixou ontem um aviso difícil de ignorar

Na Saxónia-Anhalt, a AfD venceu as eleições regionais de 6 de Setembro com 43,8% dos votos. Mais do dobro do resultado obtido em 2021. A CDU ficou reduzida a 17,2%.

Não estamos perante 8%, 12% ou mesmo 20% de voto de protesto. Estamos perante uma força política que se tornou, naquele Estado alemão, claramente maioritária em relação a qualquer dos partidos tradicionais.

E a evolução programática da AfD é igualmente instrutiva. A sua corrente na Saxónia-Anhalt já não se limita a exigir a expulsão de quem permanece ilegalmente no país. Questiona a dependência estrutural da Alemanha de trabalhadores estrangeiros, contesta a imigração como resposta permanente ao declínio demográfico e pretende reverter parte da liberalização das regras de nacionalidade.

O que está em causa já não é apenas controlar fronteiras. É discutir que sociedade deverá existir dentro delas.

França: já não se fala apenas de “controlar”

Em França, o Rassemblement National de Marine Le Pen e Jordan Bardella há muito ultrapassou a velha fórmula da simples “regulação” dos fluxos migratórios.

Defende o fim do reagrupamento familiar enquanto mecanismo automático, a supressão do direito do solo, o tratamento de pedidos de asilo fora do território francês e uma redução muito profunda da imigração legal. Marine Le Pen chegou a defender um saldo anual de imigração de apenas 10 mil pessoas.

Pode concordar-se ou discordar-se. O que já não parece sério é fingir que estas propostas constituem apenas uma excentricidade marginal de alguns eleitores zangados.

Áustria: a palavra que deixou de poder ser pronunciada

Na Áustria, o FPÖ de Herbert Kickl foi ainda mais longe e transformou a palavra remigração em conceito político assumido.

O partido defende uma inversão profunda da política migratória, mais expulsões, fortes limitações ao reagrupamento familiar, redução dos incentivos económicos associados ao acolhimento e uma política que deixe de considerar a imigração crescente como inevitabilidade histórica.

Há poucos anos, pronunciar algumas destas ideias bastaria para colocar imediatamente alguém fora do perímetro do debate aceitável.

Hoje dão votos. Muitos votos.

E depois há a Dinamarca (o caso que lhes estraga a narrativa...)

A Alemanha, França e Áustria ainda permitem ao nosso jornalistado e comentariado resolver o problema recorrendo ao vocabulário habitual: “extrema-direita” mas Mette Frederiksen não é de extrema-direita. 

É social-democrata.

E foram os Social-Democratas dinamarqueses que endureceram fortemente a política de asilo, reduziram entradas e reagrupamentos familiares, intensificaram os retornos de requerentes recusados e defenderam centros de recepção e processamento fora da Europa.

Em 2026, o próprio partido pergunta publicamente se a Dinamarca não estará a repetir os “erros dos anos 70” ao receber continuamente grandes contingentes de trabalhadores provenientes de países terceiros.

E aqui começa o verdadeiro problema para a classificação tradicional.

Quando uma política que ontem era denunciada como exclusiva da “extrema-direita” passa a ser praticada por um dos mais antigos partidos social-democratas da Europa, talvez não estejamos apenas perante uma deslocação da direita.

Talvez estejamos perante uma deslocação do próprio centro político.

A imigração é apenas o sintoma mais visível 

Seria um erro reduzir esta transformação à imigração.

A mesma ruptura começa a aparecer na discussão sobre soberania nacional, globalização, política industrial, proteccionismo, natalidade, família, prioridade dos nacionais no Estado social, segurança, identidade cultural e relação entre os Estados e a União Europeia.

Até a velha separação económica entre direita liberal e esquerda social começa a desfazer-se. Algumas das chamadas novas direitas recuperam temas laborais, sociais e proteccionistas que a velha direita abandonara e que uma esquerda progressivamente cultural e identitária deixou de monopolizar.

O mapa político está, portanto, a ser redesenhado diante dos nossos olhos.

Os partidos podem sobreviver. O mundo que representavam é que pode não sobreviver com eles.

A CDU continuará a chamar-se CDU. Os Socialistas franceses continuarão a existir. Os partidos Social-Democratas europeus conservarão sedes, símbolos e aparelhos. Os partidos Liberais e Democrata-Cristãos também.

Mas isso não significa que sobreviva o consenso político em que todos eles viveram durante décadas.

É esse, provavelmente, o verdadeiro significado do que está a acontecer.

Podemos continuar a discutir se a AfD é radical, se o RN é populista, se Kickl é extremista ou se determinados conceitos são aceitáveis no salão respeitável do comentário televisivo.

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Enquanto discutimos os rótulos, os eleitores estão a mudar o conteúdo.

E talvez, daqui a alguns anos, percebamos que o fenómeno decisivo não foi a chegada dos chamados “extremos”.

Foi o desaparecimento do mundo político que lhes abriu a porta.

O vazio que a AfD pode ocupar!

A AfD partiu para as eleições de 6 de Setembro na Saxónia-Anhalt com valores entre 40% e 43% nas sondagens, contra 22% e 23% da União Democrata-Cristã (CDU), o partido do chanceler alemão, Friedrich Merz.
Após várias eleições a direita radical poderá conseguir pôr pela primeira vez um dos seus — no caso, o cabeça de lista Ulrich Siegmund — a governar um estado.
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Nestas eleições, segundo o comentariado, os "vencedores" podem muito bem ser os pequenos partidos a decidir. se os Verdes a subirem para 6% e o Partido Social-Democrata (SPD) para 8% entrarem no Parlamento estadual, mas se não conseguirem transpor a fasquia dos 5% ficam de fora e o cenário inverte-se com a AfD a atingir a maioria absoluta,

domingo, 6 de setembro de 2026

O CHEGA veio depois...

Mil vezes repetido, um spin passa a verdade?

Há uma velha técnica de propaganda que nunca envelhece: repetir suficientemente uma versão dos acontecimentos até que a cronologia real desapareça.

É precisamente o que começa a acontecer no chamado caso Luís Neves.

A acreditar em certo jornalistado e comentariado, tudo teria começado quando o CHEGA resolveu, por capricho, apresentar uma moção de censura. André Ventura teria descoberto mais uma oportunidade para aparecer nas televisões, provocar o Governo e fabricar uma crise política onde nada de substancial existiria.

Só há um pequeno problema: os factos vieram antes do CHEGA.

Vieram das notícias. Vieram de jornalistas que fizeram aquilo que o jornalismo deve fazer: investigar, perguntar, contrariar versões oficiais e não pedir licença ao politicamente correcto.

E chegaram depois à própria Procuradoria-Geral da República.

Amadeu Guerra, o PGR, confirmou a existência de três inquéritos criminais relacionados com Luís Neves, aos quais acrescem processos de outra natureza. Dois dos inquéritos foram considerados suficientemente relevantes para continuarem a ser tramitados com urgência durante as férias judiciais.

Portanto, talvez seja conveniente acertar os relógios: não foi o CHEGA que inventou os inquéritos; foram os inquéritos e as notícias que criaram o problema político.

Quando a imprensa faz jornalismo

É por isso justo reconhecer o trabalho daquela parte da imprensa que recusou o silêncio confortável.

Sem essas notícias, provavelmente continuaríamos entre explicações administrativas, coincidências, informalidades, equívocos, atrelados, automóveis apreendidos, obras particulares e sucessivas versões tranquilizadoras.

Uma imprensa livre não existe para proteger governos. Nem ministros. Nem oposições.

Existe precisamente para incomodar todos eles.

E talvez seja essa imprensa divergente — tantas vezes desprezada porque não acompanha o consenso do comentariado televisivo — que ainda impede que determinados assuntos sejam enterrados debaixo da conveniente designação de “polémica política”.

O CHEGA não inventou o caso. Politizou as consequências

Pode discutir-se a proporcionalidade de uma moção de censura ao Governo por causa da permanência de um ministro. Isso é legítimo.

O que não é intelectualmente sério é fingir que a moção criou o problema.

O CHEGA confrontou-se com uma limitação institucional: o Parlamento português não dispõe de um instrumento equivalente a um “impeachment” parlamentar de um ministro, capaz de obrigar autonomamente à sua demissão.

Um ministro responde politicamente perante o primeiro-ministro. Se Luís Montenegro decide mantê-lo, é inevitavelmente a responsabilidade política do chefe do Governo que passa a estar em causa.

Daí a moção de censura.

Pode considerar-se excessiva. Pode votar-se contra. Mas não se pode simultaneamente proclamar que o caso Luís Neves é grave, exigir esclarecimentos, admitir comissões de inquérito — e depois tratar como extravagante o partido que resolveu levar essa responsabilidade política até às últimas consequências.

A estranha cegueira dos outros

André Ventura chamou-lhe uma espécie de “esquizofrenia de coragem”. A expressão é brutal, mas identifica uma contradição evidente.

Vários partidos reconhecem a gravidade do problema. Criticam Luís Neves. Querem explicações. Alguns admitem investigação parlamentar.

Mas quando chega o momento de assumir consequências políticas, recuam.

E então o problema passa subtilmente a ser… o CHEGA.

É um mecanismo já conhecido: primeiro ignoram-se as notícias; depois minimizam-se os factos; finalmente, quando já não é possível ignorá-los, transfere-se o centro da discussão para quem teve a ousadia de os transformar numa questão política.

Há que branquear as notícias e voltar a nomear os culpados do costume.

Desta vez, porém, existe um obstáculo difícil de apagar: os jornalistas investigaram, o Ministério Público abriu inquéritos e o Procurador-Geral confirmou-os publicamente.

O CHEGA veio depois.

E mil repetições de um spin não conseguem alterar essa cronologia.

Porque, em democracia, antes da conveniência partidária deveria existir uma coisa muito mais simples: 

DECÊNCIA senhores: O CHEGA veio depois.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

a nossa extrema-esquerda rasca!

"O Bloco de Esquerda revelou que é contra os data centers em Portugal. Também já eram contra a exploração de lítio. São contra o turismo. São contra a construção de empreendimentos imobiliários. São contra a exploração de petróleo e gás. São contra as grandes empresas, sejam elas quais foram. São contra a Sonae ou a Jerónimo Martins. São contra os eucaliptos e são contra a Altri e a Navigator, duas das empresas que melhor pagam aos trabalhadores e que mais amigas do ambiente são. São contra a exploração de urânio. São contra a agricultura intensiva que literalmente tirou milhões de pessoas da pobreza. São contra a agropecuária. O Bloco de Esquerda é contra a indústria militar. O Bloco de Esquerda é contra a exploração mineira.

Cristiano Santos

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Alain de Benoist por Rui Albuquerque

 O último número de "Éléments" (221), a revista da nova direita francesa, movimento lançado e dirigido há décadas por Alain de Benoist, abre com um seu editorial com o título "Le libéralisme autoritaire", que é mais um violento ataque ao liberalismo.


A filosofia política de Benoist e da "Nouvelle droite" sempre foi profundamente antiliberal. Em quase todas as suas obras, contando-se várias dezenas delas desde a passada década de 50, o pensador francês manifesta o seu antiliberalismo, considerando-o como a filosofia das Luzes que foi responsável pela decadência do Ocidente, uma ideia cara a muitos filósofos desde que o Iluminismo se tem vindo a impor desde o século XVIII. Benoist tem uma concepção intencionalmente reducionista da filosofia liberal, considerando que esta se esgota numa única ideia de "mercado", entendido como um simples local de trocas mercantis e não o espaço societário de relacionamento humano que permite o desenvolvimento de uma ordem social cooperativa e cataláctica. Aquilo que é, para os liberais, a livre cooperação entre os indivíduos e as suas instituições, em vista da ordenação das suas pretensões sem a necessidade de um intermediário autoritário permanente, para a nova direita francesa é um mercadejar interesseiro e primário, que retira dimensão e espessura existencial ao Homem.


O ponto central desta crítica está na condenação daquilo a que chamam (indevidamente) o " homo economicus liberal": um ser individual, frio, atomizado, racional e egoísta, exclusivamente preocupado com o lucro que poderá alcançar das transações em que se envolve. Este cliché redutor ridiculariza uma filosofia política que tem a sua base no Humanismo e na teoria sobre a liberdade, o indivíduo, a sociedade e o Estado, que longe está de se esgotar neste pensamento simplificado, que nem sequer é económico, com que costuma ser atacado pelos seus detratores. De resto, nunca o Liberalismo Clássico - que foi sempre uma filosofia sobre o homem na sua relação com o poder soberano – aceitou o paradigma do "homo economicus" como bom, menos ainda como um postulado teórico seu.

Mas o que, por ora, interessa aqui é reter o facto desta «nova direita» não aceitar o mundo ocidental que nasceu das Luzes, de que, melhor ou pior, são herdeiros as democracias e o Mundo em que vivemos. No mesmo número da revista sucedem-se dois interessantes artigos sobre o chamado “conservadorismo nacional-revolucionário”, com expressão muito intensa na Alemanha do início do século XX e do período entre as duas grandes guerras. Intelectuais como Arthur Moeller, Werner Sombart, Oswald Spengler, Carl Schmitt ou Ernst Junger contribuíram, com responsabilidades desiguais, para uma ideologia que paradoxalmente se diz simultaneamente conservadora e revolucionária, porque é, por um lado, contra o mundo moderno em que se vivia (e vive), decorrente do Iluminismo, e conservadora, por outro, porque quer recuperar os valores, princípios e formas de vida que lhe eram anteriores. Essencialmente, trata-se de um reacionarismo contra o mundo moderno, de que hoje Benoist, Duguin e certos movimentos da direita e da esquerda populista e extremada são defensores. O mundo que exite é mau, é péssimo, foi uma corrupção de um outro quase idílico que o liberalismo, o parlamentarismo e a democracia destruíram. É isto que sumariamente pensam.

Esta leitura enviesada e perversa da realidade tem, hoje, uma enorme influência cultural, política e partidária, muitas vezes não intuída, refletindo-se na crítica da posição ocidental de defesa da Ucrânia contra a Rússia (Putin até restaurou a religião e a Igreja no seu país, tal como outrora Napoleão o fez, outrora, em França...), na condenação das democracias liberais, no ataque à União Europeia (que se põe frequentemente a jeito...), que, segundo eles, deveria regredir para algo que nunca foi, uma mera união aduaneira e não um espaço de integração de soberanias, etc. Em 2027 a vitória previsível de Le Pen em França, que sempre contou com o aporte cultural e ideológico de Benoist, esclarecerá até onde este reacionarismo será capaz de chegar.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Quando a Direita recupera a Questão Social — e rompe o monopólio da Esquerda

A esquerda europeia nasceu para representar trabalhadores. Falava de salário, renda da casa, serviços públicos, emprego, estabilidade e dignidade material. Hoje fala sobretudo de identidades, linguagem, representação simbólica e minorias.

…hoje as Novas Direitas falam de

- Lei Laboral / idade da reforma Critica reformas que prolongam a vida activa; defende reforma aos 65 anos ou com 40 anos de descontos, apresentando‑se como defensor dos trabalhadores.

- Pensões e subvenções políticas Propõe fim de subvenções vitalícias e acesso à pensão em moldes mais favoráveis ao trabalhador; retórica anti elite política.

- Luta de classes Assume papel de “partido de protesto” contra “sistema” e “casta”; usando linguagem próxima da luta de classes, embora articulada com nacionalismo e securitarismo.

- Direitos sociais e Estado Combinação de defesa de políticas sociais (pensões, energia, trabalho) com um discurso de ordem, e controlo; aceitando intervenção estatal selectiva.

- Globalização e proteccionismo Discurso crítico da globalização e das elites tecnocráticas; apelo ao operariado “abandonado pela esquerda”. 

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É aqui que regressamos a Antonio Gramsci.

Uma força política não conquista hegemonia apenas quando vence eleições. Conquista-a quando consegue retirar ao adversário as palavras com que este legitimava o seu poder.

Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» e «privilégio».

A velha direita liberal-conservadora aceitou essa divisão do trabalho político.

Depois admirou-se por ter perdido culturalmente os sectores popular (in Revisões)

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É neste ponto que a experiência do CHEGA e das Novas Direitas se torna particularmente interessante.

O partido procura reunir sectores que a análise política tradicional considerava incompatíveis: trabalhadores oriundos da esquerda, pequenos empresários sufocados por impostos e burocracias, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e eleitores culturalmente conservadores.

O cimento desta coligação não é a consciência de classe.

É a percepção de abandono.

Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, pelas elites económicas, pelas instituições europeias, pelos grandes meios de comunicação e por uma classe dirigente que parece viver protegida das consequências das decisões que toma.

A mensagem é simples: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade está a ser sacrificado por quem governa, especula, parasita ou beneficia de privilégios.

Esta mensagem pode ser excessivamente simplificadora. Pode ser usada demagogicamente. Mas possui uma força emocional que o discurso tecnocrático da velha direita e o moralismo identitário da nova esquerda deixaram de ter. (in ReVisões)

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A Direita não está a tornar-se de esquerda porque o fenómeno que estamos a observar não corresponde necessariamente a uma esquerdização do CHEGA e das Novas Direitas e pode corresponder ao regresso da Direita à questão social.

A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os trabalhadores à Esquerda, a cultura aos progressistas; os sindicatos aos comunistas e a solidariedade ao Estado burocrático e contentou-se em “defender o mercado”, esquecendo-se de “defender a comunidade”.

As Novas Direitas terão de compreender que a Nação não é apenas território, bandeira, fronteira e memória. É também protecção entre gerações, dignidade do trabalho, justiça nas contribuições, segurança económica e reconhecimento daqueles que sustentam a comunidade.

Gramsci ajuda a compreender como se disputa a hegemonia. Leão XIII recorda que a sociedade não pode ser reduzida nem à luta de classes nem à luta de todos contra todos e Benedikt Kaiser e Duarte Branquinho mostram que uma direita nacional que abandone a questão social acabará por abandonar o próprio povo. (in ReVisões)

 

Uma coisa já parece evidente: a Esquerda deixou de possuir o monopólio da linguagem da justiça social porque confundiu durante demasiado tempo “uma conquista cultural” com um “direito de propriedade”.

E agora começa a perder aquilo que julgava possuir por herança.

A tese central fica, assim, mais forte do que no texto inicial: não se trata apenas de o CHEGA e as Novas Direitas reciclarem temas da Esquerda para capturar eleitores; trata-se de retirar esses temas à interpretação marxista e integrá-los numa visão nacional, social e comunitária da Direita.