reVISÕES
terça-feira, 7 de julho de 2026
A Máquina Mediática e a Imigração: O Caso Observador (2014–2026) como exemplo
Uma história MALcontada…
Há uma regra não escrita na vida pública portuguesa: a violência política só começa a existir quando pode ser atribuída à direita. Antes disso é contexto, excesso, precipitação, juventude, radicalismo generoso, antifascismo exaltado, ou simples nota de rodapé. Depois, quando aparece um caso à direita, real ou alegado, grave ou grotesco, perigoso ou caricatural, o país mediático acorda em sobressalto moral e descobre, enfim, que há extremismo.
Não se trata, evidentemente, de branquear o MAL. Se houve recolha de dados sobre alvos, se houve armamento, se houve planos, se houve preparação de atentados, se houve delírio neonazi, se houve vontade de subverter a ordem democrática, então investigue-se, acuse-se, julgue-se e condene-se. Sem hesitações. Uma democracia que se respeita não deve tratar a violência política como folclore, nem a conspiração armada como brincadeira de miúdos crescidos a brincar aos soldados.
Mas uma democracia que se respeita também não deve ter uma memória selectiva. E é aqui que começa a história MALcontada.
Porque em Portugal há uma violência que parece nascer com cadastro moral perpétuo e outra que nasce logo absolvida pela intenção. A primeira é a violência atribuída à direita. Nunca é caso isolado. Nunca é desvio. Nunca é patologia de meia dúzia. É sempre sintoma de uma família inteira, prova de uma conspiração vasta, confirmação de uma maldade hereditária. A segunda é a violência de esquerda. Essa quase nunca tem genealogia, quase nunca tem cúmplices intelectuais, quase nunca tem ambiente político. Surge, acontece, desaparece e, se possível, é arquivada com uma nota sentimental: eram tempos difíceis.
A Primeira República é um bom começo para esta pedagogia do esquecimento. A narrativa escolar e jornalística apresenta-a, quase sempre, como uma aurora progressista interrompida pela reacção. Mas a aurora, convém recordá-lo, nasceu com pólvora, perseguição e sectarismo. O regicídio de 1908 não foi um acidente meteorológico. Foi violência política. Teve executores, teve ambiente, teve cumplicidades e teve consequências. João Franco, que tentara organizar uma direita nacional moderna, foi neutralizado pelo tiro que matou o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. A Monarquia ficou mortalmente ferida. A República aproximou-se.
Depois veio a República propriamente dita, esse regime que muitos ainda tratam como se tivesse sido uma associação de professores primários, poetas cívicos e liberais de cartola. Na realidade, a Primeira República perseguiu católicos, monárquicos, conservadores e também sindicalistas quando estes se tornaram incómodos. Afonso Costa, grande santo laico do republicanismo radical, representou como poucos essa mistura portuguesa de iluminismo de café, anticlericalismo de seita e pulsão persecutória.
A Lei da Separação do Estado das Igrejas, de 1911, não foi apenas a afirmação institucional da laicidade. Foi também, na prática, um instrumento de agressão política contra a Igreja num país profundamente católico. Ordens religiosas expulsas, bens confiscados, culto fiscalizado, bispos pressionados, jornais católicos atacados, padres humilhados, religiosos proibidos de usar em público as vestes da sua condição. A República que se dizia libertadora começou por libertar os portugueses da sua própria tradição, à força de decreto, polícia e jacobinismo.Quando Pio X denunciou, na encíclica Iamdudum, a ofensiva contra a Igreja em Portugal, não estava a comentar uma pequena fricção administrativa entre o Estado e o altar. Estava a responder a um regime que confundira separação com hostilidade, neutralidade com perseguição e liberdade com vingança ideológica.
Mas disto não se fala muito. Ou fala-se com o sorriso superior de quem acha que os católicos da época, os monárquicos perseguidos e os conservadores esmagados eram apenas restos de um país velho que a História tinha o dever de varrer. Na memória oficial, a violência republicana aparece muitas vezes como preço do progresso. Já a violência da direita, mesmo quando apenas imaginada ou planeada, aparece sempre como prova de barbárie.
Sidónio Pais, com todos os seus equívocos e ambiguidades, tentou pacificar parte do país real, reabrindo pontes com a Igreja e suspendendo a fúria persecutória. Foi assassinado. Também aqui a explicação costuma vir adoçada: um fanático, um perturbado, um acto isolado. Como se os perturbados políticos nascessem no vazio e não fossem frequentemente cultivados por ambientes de ódio, propaganda e demonização.
Em 1921, na Noite Sangrenta, a própria República devorou republicanos. Machado Santos, fundador do regime, foi assassinado. Outros homens ligados ao sidonismo foram abatidos. A rua armada, a guarda republicana indisciplinada, os marinheiros sem comando e a violência política entraram em cena. Mas a esquerda revolucionária tem sempre esta vantagem: quando mata os seus adversários, a culpa é da História; quando se mata a si própria, a culpa é da instabilidade.
O 28 de Maio de 1926 não caiu do céu. Nasceu também do cansaço de um país farto de governos de quatro meses, desordem crónica, violência facciosa e incapacidade de Estado. Isto não desculpa tudo o que veio depois. Mas ajuda a compreender por que razão tantos portugueses aceitaram, apoiaram ou toleraram a solução militar. A História não começa no ponto em que convém à propaganda.
Depois veio o Estado Novo, com a sua própria repressão, censura e polícia política. E também aí houve tentativas de assassinar Salazar, como houve resistência, conspiração, oposição legítima e oposição revolucionária. A violência política atravessou regimes, cores e mitologias. Só não atravessa, pelos vistos, a memória selectiva dos que hoje distribuem certificados de virtude democrática.
Abril de 1974 trouxe liberdade, mas também trouxe o PREC, prisões arbitrárias, saneamentos, cercos, ameaças, sequestros morais, fuzilamentos simulados e uma atmosfera em que chamar “fascista” a alguém podia ser o primeiro passo para lhe retirar emprego, honra, segurança e direitos. A extrema-esquerda revolucionária não era uma metáfora. Tinha sedes, jornais, milícias, armas, linguagem de guerra civil e uma concepção totalitária do futuro.
Mais tarde, já longe do calor inicial da revolução, vieram as FP-25. Não foram um clube de leitura marxista. Não foram uma tertúlia de antifascistas melancólicos. Foram uma organização armada de extrema-esquerda, responsável por atentados, assaltos, execuções e mortes. Morreram agentes de autoridade, adversários políticos, civis e até uma criança. Porém, a memória pública tratou tudo isso com uma indulgência que nunca seria concedida a qualquer violência vinda da direita. No fim, houve amnistias, relativizações, reabilitações sentimentais e até tratamento cultural com direito a fita e nostalgia.
Aí está o ponto essencial: em Portugal, a violência de extrema-esquerda é quase sempre explicada; a de extrema-direita é sempre explorada. A primeira é contextualizada até desaparecer. A segunda é amplificada até engolir tudo à sua volta. A primeira tem “razões históricas”. A segunda tem “raízes profundas”. A primeira erra por excesso de generosidade. A segunda revela a alma negra de toda a Direita.O jornalistado e o comentariado vivem confortavelmente instalados nesta assimetria. Quando surge um grupo neonazi, e deve ser investigado sem complacência, todos descobrem a urgência da democracia. Quando a extrema-esquerda ameaça, intimida, agride, incendeia, boicota ou legitima a violência como método político, surgem logo os tradutores oficiais da indulgência: foi um protesto, foi tensão social, foi provocação, foi juventude, foi antifascismo, foi uma resposta à opressão, foi qualquer coisa menos aquilo que foi.
A extrema-esquerda portuguesa beneficia há décadas de uma espécie de licença poética revolucionária. Pode falar em “combate”, “resistência”, “antifascismo”, “rua”, “acção directa”, “ruptura”, “ocupação” e “luta”, que a intelligentsia mediática logo lhe arranja uma moldura romântica. Se a direita usar um décimo desse vocabulário, temos editoriais sobre o regresso dos anos trinta.
Não é a existência do MAL que deve ser minimizada. Pelo contrário. O que deve ser denunciado é o uso do MAL como absolvição retrospectiva de toda a violência que não convém recordar. Sim, há extrema-direita violenta. Sim, há delírios neonazis. Sim, há grupos perigosos. Sim, o Estado deve agir antes que o disparate armado se transforme em tragédia. Mas também há extrema-esquerda violenta, houve terrorismo de extrema-esquerda, houve crimes cometidos em nome da revolução, houve perseguição anticatólica, houve assassinatos políticos republicanos, houve intimidação revolucionária, houve e há uma cultura de desculpabilização da violência quando ela vem embrulhada na bandeira do antifascismo.
A democracia não se defende com amnésia selectiva. Defende-se com memória inteira. E a memória inteira obriga a dizer que Portugal não tem apenas uma tradição de violência política à direita. Tem também, e de forma longa, persistente e sangrenta, uma tradição de violência política à esquerda. Da Carbonária ao jacobinismo republicano, da Noite Sangrenta às tentações revolucionárias do PREC, das FP-25 aos actuais pequenos profissionais da intimidação antifascista, há uma linha que o comentariado prefere não ver. Não por falta de olhos. Por falta de vontade.
O MAL, se for provado em tribunal tudo o que lhe é imputado, merece condenação sem adjectivos atenuantes. Mas o mal português é outro e mais antigo: é a mentira confortável segundo a qual a violência só se torna ameaça à democracia quando vem da direita. Tudo o resto, por cá, acaba sempre convertido em nota histórica, explicação sociológica ou rebeldia juvenil.E assim se escreve a história oficial: a direita tem crimes; a esquerda tem contextos. A direita tem ódio; a esquerda tem causas. A direita conspira; a esquerda resiste. A direita mata; a esquerda, quando mata, estava enganada, cansada ou historicamente impaciente.
É uma história MALcontada. E, como quase tudo o que é MALcontado em Portugal, serve menos para compreender o passado do que para manipular o presente.
o CHEGA entre Gramsci, Kaiser e a questão social. Faltava Leão XIII!
domingo, 5 de julho de 2026
O Código Laboral foi apenas o episódio...
sexta-feira, 3 de julho de 2026
o dia em que a velha direita percebeu que já não manda sozinha ...na direita!
Durante muito tempo, a direita instalada habituou-se a tratar o CHEGA como um instrumento útil, embora desagradável. Serviria para pressionar o PS, para assustar a esquerda, para engrossar maiorias ocasionais, para votar aquilo que fosse conveniente ao Governo, e depois regressaria obedientemente ao seu lugar no canto da sala, com a etiqueta pronta: populista, radical, inconveniente, mas parlamentarmente aproveitável.
O problema é que André Ventura percebeu uma coisa que muitos no PPD/PSD ainda não perceberam: quem tem 60 deputados não está na Assembleia da República para fazer de figurante. E quem representa mais de um milhão e quatrocentos mil votos não tem obrigação política, moral ou estratégica de se ajoelhar diante de uma direita antiga, cansada, liberal na economia, tímida na cultura, assustada na imigração e dependente de agências de comunicação para fabricar frases ocas.
A ambiguidade estratégica de Luís Montenegro — ora com o PS, ora com o CHEGA, conforme a conveniência do dia — podia talvez funcionar enquanto o CHEGA aceitasse o papel de força auxiliar. O episódio do Código Laboral mostrou que esse tempo acabou. Ventura recusou ser transformado em bengala parlamentar de uma reforma que, na sua leitura, falhava precisamente onde uma direita popular não pode falhar: no trabalho, na família, na segurança económica e na dignidade de quem vive do salário.
E aqui está a novidade que muitos comentadores ainda fingem não ver. O CHEGA não se limitou a votar contra uma proposta do Governo. Fez algo mais profundo: recusou a redução da direita portuguesa ao liberalismo económico de gabinete. Recusou a ideia de que ser de direita significa necessariamente aceitar qualquer reforma laboral em nome da competitividade, da flexibilidade e da bela música tecnocrática que geralmente termina sempre no mesmo sítio: mais insegurança para quem trabalha e mais conforto para quem manda.
É aqui que a leitura de José Costa-Deitado [ Universidade de Santiago de Compostela Prof Emérito FCT/ UNL Nova SBE - https://cdeitado.blogspot.com/2026/06/benedikt-kaiser-uma-aula-sobre.html ] sobre a Nova Direita se torna especialmente pertinente. A Nova Direita europeia — francesa, alemã, italiana — não é apenas uma direita mais barulhenta, nem uma direita com bandeiras maiores, nem uma direita com slogans mais duros sobre imigração. É, no seu melhor, uma tentativa de reconstruir a direita em torno de três eixos que a velha direita abandonou: soberania, identidade e justiça social.Benedikt Kaiser [Deutscher Autor und Publizist der Neuen Rechten.] é importante precisamente por isso. A sua reflexão sobre metapolítica, hegemonia e patriotismo solidário aponta para uma direita que compreende que a batalha política não se ganha apenas no Parlamento, nem apenas nas eleições, nem apenas nos soundbites televisivos. Ganha-se antes no vocabulário, nas ideias, nas instituições, na cultura, nas redes sociais, nos temas que se impõem e nos conceitos que deixam de pertencer automaticamente à esquerda.
Durante décadas, a esquerda apropriou-se da palavra “social”. A direita liberal deixou. Pior: colaborou. Aceitou que falar de salários, trabalho, protecção familiar, abandono das periferias, insegurança económica ou dignidade dos pequenos fosse matéria da esquerda. A velha direita ficou com a gestão, os défices, os impostos, as empresas, os mercados e os congressos onde se anunciam “novos ciclos” sem que nada realmente comece.
Ora, a Nova Direita começa precisamente quando a direita deixa de pedir licença para falar do social. E é isso que o CHEGA, com todas as suas imperfeições, excessos, simplificações e teatralidades, parece ter compreendido melhor do que o PPD/PSD. A direita que quer disputar o povo não pode apresentar-se apenas como contabilista da ordem liberal. Tem de falar de pertença, de segurança, de trabalho, de fronteiras, de família, de soberania, de comunidade e de justiça.
Não se trata de converter o CHEGA num partido operário clássico, nem de fingir que André Ventura é uma versão portuguesa de Benedikt Kaiser. Seria absurdo. Kaiser pensa em termos metapolíticos, doutrinários, culturais e estratégicos; Ventura age no terreno parlamentar, mediático e eleitoral. Kaiser escreve para formar quadros e construir hegemonia; Ventura fala para ocupar o espaço público e transformar ressentimento social em força política. Mas a convergência é clara: ambos perceberam que a direita do século XXI não pode limitar-se a administrar o neoliberalismo com bandeiras nacionais à porta.
O episódio do Código Laboral foi, por isso, mais do que um chumbo. Foi uma declaração de independência. Ventura disse ao PPD/PSD que a sua maioria, quando existe, não é propriedade de Montenegro. Disse à direita liberal que a palavra “reforma” não é sagrada. Disse ao país que o CHEGA não aceita ser útil apenas quando vota a favor. E disse ao seu próprio eleitorado que não está no Parlamento para servir de muleta a uma direita que gosta muito de invocar o povo em campanha, mas que rapidamente o esquece quando chegam as propostas redigidas no idioma dos consultores.Claro que isto incomoda. Incomoda o PPD/PSD, porque lhe retira o monopólio simbólico da direita. Incomoda a Iniciativa Liberal, porque mostra que há uma direita para além da fantasia do mercado perfeito. Incomoda o PS, porque percebe que a oposição social já não lhe pertence por direito hereditário. E incomoda o comentariado, porque o obriga a rever as suas gavetas mentais: afinal, o CHEGA não cabe apenas no rótulo preguiçoso de “extrema-direita”. Há ali outra coisa. Uma coisa mais incómoda: uma direita popular, nacional, social e culturalmente contra-hegemónica.
Jorge Fernandes viu bem a vitória de Ventura. Mas talvez a vitória seja ainda maior do que parece. Ventura não ganhou apenas uma votação. Ganhou centralidade. Ganhou autonomia. Ganhou o direito de dizer ao PPD/PSD: vocês já não decidem sozinhos o que é a direita em Portugal.
E isto muda tudo.
A velha direita portuguesa sempre viveu convencida de que havia apenas duas hipóteses: ou a direita respeitável, isto é, ela própria; ou a direita irresponsável, isto é, todos os que não aceitassem a sua tutela. O CHEGA veio baralhar esta geometria. Não quer apenas sentar-se à mesa. Quer mudar a mesa. Quer mudar a ementa. Quer mudar a linguagem do jantar. E, pior ainda para os donos antigos da casa, trouxe convidados que nunca tinham sido admitidos na sala principal.
Pode discutir-se se o fará bem ou mal. Pode criticar-se Ventura, e deve criticar-se quando for necessário. Pode reconhecer-se que há no CHEGA impulsos contraditórios, improvisações, tentações demagógicas e excessos de comunicação. Mas o essencial é outro: a direita portuguesa entrou numa fase pós-PPD. E o PPD/PSD ainda não percebeu que já não está perante uma dissidência; está perante uma concorrência histórica.
O Código Laboral foi apenas o episódio. A recomposição da direita é o acontecimento.
A vitória de André Ventura não foi ter chumbado uma reforma. Foi ter obrigado toda a gente a perceber que a Nova Direita portuguesa já não pede autorização para existir.


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