domingo, 31 de maio de 2026

Inteligência Artificial: Do “ inverno ” à “primavera”

Há ideias que parecem nascer de repente apenas porque a maioria das pessoas só repara nelas quando elas começam a incomodar. A Inteligência Artificial é uma dessas ideias. Para o público, para o jornalistado, para o comentariado e para a multidão sempre disponível para descobrir “novidades” com cinquenta ou setenta anos de atraso, a IA parece ter irrompido no mundo há meia dúzia de anos, como se tivesse caído das nuvens digitais, talvez entre uma aplicação de telemóvel e uma manchete alarmista sobre o fim do trabalho humano.
Mas não foi assim. A Inteligência Artificial não nasceu ontem. Não nasceu com o ChatGPT, nem com a IA generativa, nem com as imagens fabricadas por máquinas, nem com os textos que hoje deixam alguns escribas aflitos por descobrirem que a sua profissão afinal também podia ser parcialmente automatizada. A IA nasceu muito antes de a tecnologia ter força material para a realizar. Durante décadas, a ideia esteve à frente da máquina. O pensamento existia; faltava-lhe o músculo. A ambição era grande; o hardware era pequeno.
É por isso que, para compreender a Inteligência Artificial, é necessário começar por desfazer uma ilusão: a IA não é apenas um acontecimento tecnológico recente. É uma história longa de matemática, lógica, neurociência, engenharia, filosofia da mente e, sobretudo, limitação material. Durante muitos anos, o grande impedimento para o seu avanço não foi apenas conceptual. Foi físico. Foi electrónico. Foi computacional. Foi, em linguagem simples, falta de máquina.

1. Antes da IA: a inteligência como problema matemático
A ideia de que o pensamento humano poderia, ao menos em parte, ser representado por operações formais é anterior aos computadores modernos. A lógica matemática, a teoria da computação e os primeiros modelos formais do sistema nervoso abriram caminho para uma pergunta que parecia, à época, quase herética: será possível fazer uma máquina raciocinar?
Alan Turing foi uma figura central nesta deslocação do problema. Em 1936, ao propor a noção de máquina universal, Turing não criou apenas uma abstracção matemática; criou o fundamento teórico do computador moderno. Mais tarde, em 1950, no célebre artigo “Computing Machinery and Intelligence”, deslocou a pergunta “podem as máquinas pensar?” para um terreno mais operacional: poderá uma máquina comportar-se de tal modo que o seu desempenho linguístico se confunda com o de um ser humano?
Era o famoso “teste de Turing”. Não resolvia o problema filosófico da consciência, nem pretendia demonstrar que uma máquina possuía alma, intenção, interioridade ou vida subjectiva. Mas estabelecia uma coisa decisiva: a inteligência podia ser observada funcionalmente, isto é, pelos seus efeitos. Uma máquina que respondesse, argumentasse, traduzisse, jogasse, calculasse, aprendesse ou imitasse padrões humanos de resposta deixava de ser apenas uma máquina de cálculo. Passava a ser uma provocação filosófica.
Antes disso, em 1943, Warren McCulloch e Walter Pitts tinham apresentado um modelo lógico-matemático do neurónio artificial. A ideia era ainda rudimentar, mas decisiva: certos aspectos do funcionamento neuronal podiam ser formalizados. O cérebro, ou pelo menos algumas das suas operações elementares, podia ser pensado em termos de circuitos, estados, entradas e saídas.
Ainda mais recuadamente, Leonardo Torres y Quevedo demonstrara, em 1914, uma máquina capaz de jogar xadrez em situações simplificadas. Não era inteligência no sentido pleno. Mas era já uma forma de automatização de decisão. E essa possibilidade bastava para abrir caminho a tudo o que viria depois.
A Inteligência Artificial, portanto, não nasce de uma fantasia recente. Nasce de uma longa tradição de tentativa de matematização do pensamento. A novidade não estava em imaginar que uma máquina pudesse “raciocinar”. A novidade estava em começar a construir máquinas capazes de executar procedimentos que antes pertenciam apenas ao domínio humano.

2. Dartmouth, 1956: a fundação oficial
A Inteligência Artificial enquanto disciplina científica nasce oficialmente em 1956, no Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence, organizado por John McCarthy, Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon. Foi aí que a expressão “Artificial Intelligence” entrou formalmente no vocabulário científico.
O ponto essencial é este: em Dartmouth, a IA nasceu com uma confiança quase prometeica. Os seus fundadores acreditavam que muitos aspectos da aprendizagem, da linguagem, da criatividade e da inteligência poderiam ser descritos com precisão suficiente para serem simulados por máquinas. A formulação era ousada. Talvez excessivamente ousada. Mas era intelectualmente fecunda.
A ambição inicial era simples na forma e imensa no conteúdo: se todos os aspectos da inteligência pudessem ser descritos em termos formais, então uma máquina poderia ser programada para os reproduzir. A inteligência deixaria de ser apenas um mistério da mente e passaria a ser também um problema de representação, cálculo e execução.
É neste contexto que surgem os primeiros programas de resolução de problemas, os primeiros sistemas de jogo, os primeiros ensaios de tradução automática, os primeiros esforços em processamento de linguagem natural e a linguagem LISP, criada por John McCarthy, que se tornaria uma das linguagens clássicas da investigação em IA.
Durante as primeiras décadas, a Inteligência Artificial foi dominada por uma visão simbólica: raciocinar era manipular símbolos de acordo com regras. A máquina inteligente seria, antes de mais, uma máquina lógica. Receberia premissas, aplicaria regras, produziria conclusões. O mundo seria representado em bases de conhecimento; a inteligência consistiria em operar sobre essas representações.
O problema é que o mundo resistiu. Como geralmente acontece.

3. O primeiro entusiasmo e a primeira desilusão
A IA inicial prometia mais do que podia cumprir. A tradução automática parecia estar próxima. O xadrez parecia ser uma questão de tempo. A compreensão da linguagem parecia uma dificuldade técnica, não uma montanha filosófica. Os investigadores, muitos deles brilhantes, subestimaram a complexidade da inteligência humana e sobrestimaram a capacidade dos computadores disponíveis.
A dificuldade não estava apenas nos algoritmos. Estava também na matéria. Os computadores eram lentos, caros, volumosos e limitadíssimos em memória. A ideia de simular processos complexos de raciocínio esbarrava em máquinas que, vistas a partir do presente, parecem quase brinquedos de laboratório.
É aqui que entra um ponto muitas vezes esquecido: o grande impedimento histórico da Inteligência Artificial foi o hardware. Havia ideias, havia teorias, havia ambição científica, havia até algum excesso de optimismo. O que não havia era capacidade computacional suficiente.
Em 1971, um computador considerado de “elevada capacidade” podia trabalhar com valores de memória que hoje nos parecem ridículos. Falar em dezenas de kilobytes de memória era falar de grandeza respeitável. Para muitos sistemas, 30 K bytes de memória e 32 K bytes disponíveis para programação eram números sérios. Hoje, uma fotografia banal tirada por um telemóvel ocupa muitíssimo mais. Um documento mal formatado por um burocrata digital moderno pode pesar mais do que aquilo que então se julgava espaço computacional relevante.
Esta desproporção é essencial. A IA queria representar linguagem, raciocínio, jogos, inferência, aprendizagem, tradução e decisão. Mas estava condenada a fazê-lo dentro de gaiolas de memória minúsculas. A inteligência artificial era, nesse tempo, uma ambição de catedral construída com tijolos de casota.
Não admira, portanto, que o entusiasmo tenha dado lugar ao chamado primeiro “inverno da IA”, nos anos 70. As promessas eram grandes, os resultados eram limitados, os financiadores perderam paciência e a realidade impôs-se. A máquina ainda não estava à altura da ideia.

4. A Lei de Moore: quando a máquina começou a alcançar a ideia
A história da IA não pode ser separada da história dos semicondutores. Sem microprocessadores, sem memória, sem miniaturização, sem aumento exponencial da capacidade de cálculo, a Inteligência Artificial teria permanecido uma bela hipótese académica, respeitável em seminários e impotente no mundo real.
Em 1965, Gordon Moore observou que o número de componentes integráveis num circuito tendia a duplicar regularmente. A chamada Lei de Moore viria a ser simplificada como a ideia de que a capacidade dos microprocessadores duplicaria aproximadamente a cada dois anos, com redução relativa de custos e dimensões. Em termos práticos, ano após ano, década após década, as máquinas tornaram-se mais pequenas, mais rápidas, mais baratas e mais poderosas.
É certo que a formulação popular — “no ano seguinte têm o dobro da capacidade e metade do tamanho” — é uma simplificação. Mas é uma simplificação útil, porque transmite a essência da revolução: a computação passou a crescer a um ritmo cumulativo e quase civilizacional. O que parecia difícil hoje devido à falta de habilidade e pode ser acessível amanhã tornou-se comum. Em 1971, o microprocessador Intel 4004 tinha cerca de 2.300 transistores. Hoje já existem bilhões em processadores. A diferença não é apenas quantitativa; é civilizacional. Entre o computador limitado dos anos 70 e as infra-estruturas actuais de IA há uma mudança de escala tão profunda que quase falamos de espécies tecnológicas diferentes.
A Inteligência Artificial, portanto, não “acordou” por milagre. Foi acordada pela acumulação de capacidade computacional. A ideia esperou pela máquina. E quando a máquina começou finalmente a chegar, a IA saiu da hibernação.

5. Sistemas especialistas: o segundo entusiasmo
Nos anos 80, a IA voltou a ganhar prestígio com os chamados sistemas especialistas. A ideia era construir programas capazes de reproduzir o conhecimento de peritos humanos em domínios específicos: medicina, engenharia, diagnóstico técnico, apoio à decisão empresarial.
Estes sistemas baseavam-se em regras. Se isto, então aquilo. Se determinados sintomas, então determinada hipótese. Se determinado problema técnico, então determinada solução provável. Era uma inteligência menos ambiciosa do que a inteligência geral sonhada em Dartmouth, mas mais aplicável. Não prometia uma mente universal; prometia competência especializada.
Durante algum tempo, funcionou. Os sistemas especialistas tornaram-se uma indústria relevante. O Japão lançou, em 1982, o projecto das máquinas de quinta geração, apostando em computação lógica, processamento de linguagem e novas arquitecturas. A IA voltou a ser vista como uma fronteira estratégica.
Mas o problema regressou. Os sistemas especialistas eram rígidos, difíceis de manter, dependentes de bases de regras laboriosamente construídas, frágeis perante contextos novos e pouco capazes de aprender autonomamente. O entusiasmo voltou a exceder os resultados. Nos anos 90, chegou o segundo “inverno da IA”.
A lição era clara: programar inteligência regra a regra era possível em domínios estreitos, mas insuficiente para enfrentar a complexidade do mundo. Faltava uma máquina que não se limitasse a obedecer a regras introduzidas por humanos, mas que pudesse extrair padrões a partir de dados.

6. A viragem estatística: da regra ao padrão
A grande revolução moderna da IA não consistiu apenas em computadores mais rápidos. Consistiu também numa mudança de paradigma. A inteligência artificial deixou progressivamente de se basear sobretudo em regras explícitas e passou a apoiar-se cada vez mais em aprendizagem automática.
Em vez de dizer à máquina todas as regras, passou-se a alimentá-la com grandes volumes de dados para que ela identificasse padrões. Em vez de programar cada inferência, passou-se a treinar modelos. Em vez de uma inteligência dedutiva artesanal, surgiu uma inteligência estatística, probabilística, aproximativa, mas extraordinariamente eficaz em certos domínios.
Esta viragem foi possível por três factores conjugados: maior poder computacional, maior disponibilidade de dados e avanços matemáticos nos algoritmos. Nenhum destes elementos isoladamente bastaria. A IA moderna nasceu da convergência entre máquina, dados e modelos.
A aprendizagem profunda — deep learning — levou esta lógica mais longe. Redes neuronais artificiais com muitas camadas começaram a obter resultados impressionantes em reconhecimento de imagem, voz, tradução, classificação, previsão e, mais tarde, geração de linguagem.
O velho sonho regressava por outro caminho. A máquina já não precisava de compreender como um humano para produzir resultados que pareciam inteligentes. E aqui começa uma das grandes confusões contemporâneas: confundir desempenho com consciência, cálculo estatístico com pensamento, linguagem produzida com intenção interior.
A IA moderna não obriga a acreditar que a máquina “pensa” como nós. Obriga, isso sim, a reconhecer que muitas tarefas que julgávamos depender de pensamento humano podem ser executadas por sistemas que não possuem pensamento humano. Para muitos narcisismos profissionais, esta descoberta é desagradável. Para a civilização, é decisiva.

7. O Transformer e a explosão da IA generativa
Em 2017, o artigo “Attention Is All You Need” introduziu a arquitectura Transformer, baseada em mecanismos de atenção. Sabemos que esta última inovação é a força mais crítica na evolução dos grandes modelos de linguagem. Em muitas áreas, o Transformer abriu caminho para uma nova era da Inteligência Artificial que permite o processamento de dados muito mais rápido e também o processamento paralelo.
A partir daí, os modelos de linguagem começaram a crescer em escala, capacidade e versatilidade. Em 2020, o GPT-3, com 175 mil milhões de parâmetros, mostrou que o aumento de escala podia produzir capacidades surpreendentes: geração de texto, tradução, resposta a perguntas, resumo, programação, simulação de estilos, análise de dados e execução de tarefas a partir de instruções em linguagem natural.
A partir de 2020, entrou-se na era da IA generativa. A máquina deixou de ser vista apenas como instrumento de cálculo, classificação ou diagnóstico. Passou a produzir texto, imagem, som, código e síntese conceptual. Deixou de ser apenas uma ferramenta escondida nos bastidores da tecnologia e passou a aparecer directamente diante do cidadão comum.
É aqui que a opinião pública acordou. Como sempre, tarde e mal.
Durante décadas, a IA trabalhou em laboratórios, universidades, empresas, centros militares, bancos, hospitais, motores de busca, sistemas de recomendação e plataformas digitais. Mas só quando a máquina começou a escrever, conversar, desenhar e programar é que muitos descobriram que havia ali qualquer coisa de politicamente, culturalmente e profissionalmente explosivo.

8. A falsa surpresa contemporânea
A reacção contemporânea à IA oscila entre o entusiasmo ingénuo e o pânico teatral. Uns anunciam a salvação universal. Outros anunciam o fim da humanidade. Uns falam como vendedores de feira tecnológica. Como profetas do apocalipse e uma conta no LinkedIn. Talvez também fosse mais sensato voltar à sobriedade. A IA é de facto uma ferramenta poderosa e avançada, mas não é mágica. Trata-se de modelos matemáticos, dados, capacidades computacionais e engenharia. Ela não só entrega resultados bonitos; também tem seus erros, alucinações e preconceitos, simplificações e dependências. Pode ampliar a inteligência humana, mas também pode automatizar a mediocridade, acelerar a propaganda, multiplicar a fraude e uniformizar o pensamento.
O problema político e cultural da IA não é apenas saber se ela substituirá empregos. É saber quem a controla, com que dados é treinada, com que critérios responde, que valores incorpora, que censuras executa, que dependências cria e que poderes concentra.
A pergunta decisiva não é apenas: “A máquina pensa?” A pergunta decisiva é: “Quem pensa através da máquina?” Ou, mais exactamente: “Quem programou, treinou, filtrou, condicionou e autorizou aquilo que a máquina nos devolve como resposta?”
Numa época em que tantos pretendem regular a palavra, domesticar a opinião, classificar dissidências e transformar divergência em patologia, a IA tanto pode ser instrumento de liberdade intelectual como instrumento de administração invisível do pensamento. Não é um detalhe. É talvez o centro do problema.

9. A IA e a velha soberba das elites
Há ainda uma ironia saborosa. Durante anos, muitas elites culturais e mediáticas olharam para a automação como problema dos outros. Máquinas substituíam operários, caixas, empregados administrativos, técnicos repetitivos. Isso era apresentado como progresso inevitável. Quando a máquina começou a ameaçar escrever textos, resumir relatórios, traduzir línguas, programar, desenhar, produzir guiões, preparar aulas, analisar documentos e até imitar o tom professoral dos que vivem de explicar o mundo aos outros, instalou-se subitamente uma inquietação moral.
A automação era moderna enquanto tocava no trabalho manual. Tornou-se perigosa quando entrou no território vaidoso das profissões discursivas.
Isto diz muito sobre a nossa época. A IA não ameaça apenas tarefas. Ameaça hierarquias simbólicas. Mostra que parte daquilo que muitos julgavam ser inteligência superior era, afinal, rotina verbal, padrão retórico, recombinação de lugares-comuns e gestão de linguagem. Naturalmente, a máquina ainda não substitui o verdadeiro pensamento crítico, a experiência vivida, a prudência, o juízo moral, a cultura profunda ou a responsabilidade pessoal. Mas substitui, com facilidade crescente, a produção automática de banalidades com aparência de inteligência.
E isso explica talvez algum nervosismo.

10. A máquina chegou atrasada à ideia
A história da Inteligência Artificial é, no fundo, a história de uma ideia que esperou décadas pela sua máquina. Desde Turing, McCulloch, Pitts, Torres y Quevedo e Dartmouth, a pergunta estava lançada: poderia a inteligência ser formalizada, simulada, executada, aproximada ou imitada por sistemas artificiais?
Durante muito tempo, a resposta foi travada pela insuficiência do hardware. A inteligência artificial queria correr, mas a máquina ainda gatinhava. A lógica existia, os programas existiam, a ambição existia, mas faltavam memória, velocidade, dados e escala. O que mudou não foi apenas a teoria. Mudou a matéria. O silício acumulou poder. Os processadores multiplicaram transístores. A memória deixou de ser uma cela apertada. Os dados tornaram-se oceânicos. E os modelos aprenderam a navegar.
A IA não surgiu subitamente. Subitamente foi apenas a nossa percepção. Como tantas vezes acontece, a realidade trabalhou em silêncio durante décadas e só se tornou “novidade” quando começou a perturbar a comodidade dos distraídos.
A questão agora não é saber se a Inteligência Artificial veio para ficar. Veio. A questão é saber se ficaremos nós suficientemente inteligentes para não a transformar apenas em mais uma máquina de propaganda, censura, preguiça mental e uniformização civilizacional.
Porque o verdadeiro perigo talvez não esteja em a máquina vir a pensar como os homens. O verdadeiro perigo está em tantos homens aceitarem pensar como máquinas: sem memória, sem consciência histórica, sem responsabilidade moral e sem liberdade interior.
E, nesse caso, a tragédia não será a Inteligência Artificial tornar-se demasiado humana. Será a inteligência humana tornar-se demasiado artificial.

Notas e referências
John McCarthy, Marvin L. Minsky, Nathaniel Rochester e Claude E. Shannon, “A Proposal for the Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence”, 1955/1956.
Alan M. Turing, “Computing Machinery and Intelligence”, Mind, vol. 59, n.º 236, 1950.
Warren S. McCulloch e Walter Pitts, “A Logical Calculus of the Ideas Immanent in Nervous Activity”, Bulletin of Mathematical Biophysics, 1943.
Sobre Leonardo Torres y Quevedo e as primeiras máquinas de xadrez, veja-se a literatura histórica sobre autómatos electromecânicos e computação pré-digital.
Gordon E. Moore, “Cramming More Components onto Integrated Circuits”, Electronics, 1965; posteriormente popularizado como Lei de Moore.
Intel, documentação histórica sobre o microprocessador Intel 4004, lançado em 1971.
Sobre os “invernos da IA”, ver sínteses históricas da IBM e da literatura especializada em história da Inteligência Artificial.
Ashish Vaswani et al., “Attention Is All You Need”, 2017.
Tom B. Brown et al., “Language Models are Few-Shot Learners”, 2020.
IBM, “The History of Artificial Intelligence”; Wikipédia, “História da inteligência artificial”; Tecnoblog, “História da inteligência artificial: quem criou e como surgiu a tecnologia revolucionária”.

sábado, 30 de maio de 2026

Et si les Templiers au Portugal détenaient la clé de leur survie après 1312 ?

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sábado, 23 de maio de 2026

O que é que o PS nos quer esconder?

 

José Diogo «O homicídio que acabou num tribunal popular em plena revolução»

"José Diogo" ou José Diogo Luís (Castro Verde, 14 de Julho de 1938 – Castro Verde a 12 de Agosto de 2015) foi um trabalhador agrícola, tratorista, responsável pelo assassinato de Columbano Líbano Monteiro em consequência de ferimentos de um ataque à navalha, a 30 de Setembro de 1974, em Casével, Castro Verde.

O julgamento de José Diogo tornou-se um caso mediático e político muito alimentado por sectores da extrema-esquerda radical nomeadamente, pela
UDP
. Neste julgamento popular, que em nada tinha a ver com os órgãos judiciais, realizado em Tomar, a 25 de Julho de 1975, resultou na condenação da vítima Columbano Líbano Monteiro e ilibou José Diogo de todos os crimes.

O assassinato de Columbano Líbano Monteiro
Columbano Líbano Monteiro, nascido em Mangualde em 1896, veterinário de profissão e ex-presidente da Câmara Municipal de Castro Verde entre 1944 e 1959.
Jose Diogo era um trabalhador rural, de 36 anos desempenhando a função de tratorista trabalhando na herdade de Líbano Monteiro
A mudança de regime, ocorrida a 25 de Abril e a penetração do PCP no Alentejo deram maior força às reivindicações dos trabalhadores agrícolas (o salário mínimo rural só seria aprovado mais tarde) que reclamavam melhores salários e pagamento de horas extraordinárias.
Por se ter recusado a fazer horas extraordinárias, ainda por cima não pagas, José Diogo foi despedido. A 30 de Setembro, ao final de uma semana, voltou a casa de Líbano Monteiro para lhe pedir novamente emprego.[1]
Rapidamente se envolvem os dois numa discussão. José Diogo espeta uma faca no peito do seu antigo patrão, atingindo-lhe os intestinos. Transportado para o centro de saúde de Castro Verde, onde não se encontrava nenhum médico, foi levado de imediato para o hospital de Beja. A 2 de Outubro acabaria transferido para a Casa de Saúde das Amoreiras, em Lisboa, onde morreria, a 12 daquele mês. Causa de morte: “Peritonite, ferida por arma branca e insuficiência cardíaca esquerda”. [2]
Nessa altura já José Diogo tinha sido preso, a 30 de Setembro e entregue ao Tribunal de Ourique que decretaria pena de prisão preventiva até ao julgamento. O juiz de instrução, acusou José Diogo de ter tido a intenção de matar Columbano Líbano Monteiro tendo lhe desferido uma facada que que causou a morte, através de “a lesão traumática do intestino, a que sobreveio como complicação uma peritonite, resultou na morte do ofendido”.[3]

O julgamento popular
Em Maio de 1975, no auge do PREC, José Diogo se encontrava em prisão preventiva quando a UDP partilha uma carta de José Diogo dirigida à Associação de Ex-Presos Políticos Anti-Fascistas (AEPPA). O PCP, de que Zé Diogo era militante, não quis tomar posição em cima de um crime de sangue e deixou campo aberto. A AEPPA, o GAC – Grupo de Acção Cultural e outros sectores da extrema-esquerda começaram a fabricar um mártir. O GAC, grupo cançonetista de que fez parte José Mário Branco, chegou mesmo a dedicar-lhe um tema, enaltecendo a virtude da acção de Zé Diogo contra a opressão do fascista Columbano Monteiro [4]
Nesta carta, José Diogo declara-se marxista-leninista, critica a justiça burguesa e condena a vítima Líbano Monteiro como um fascista opressor. O julgamento inicialmente previsto para Ourique, foi transferido para Lisboa e posteriormente para Tomar, o que não chegou a acontecer devido à falta de comparência de réu Zé Diogo, entretanto transferido, por razões de segurança para a Cadeia de Leiria e do advogado de acusação Daniel Proença de Carvalho. O réu era defendido por Amadeu Lopes Sabino, José Augusto Rocha e Luís Filipe Sabino. José Diogo conseguiria, no Tribunal Criminal, apenas a liberdade condicional mediante o pagamento de fiança de 50 mil escudos, que lhe tinha sido recusada inicialmente, uma vez que o tipo de crime em causa não a previa.[5]
Foi então que a
UDP organizou o julgamento popular de José Diogo se constitui nas escadarias do tribunal, a pedido do juiz, para que não houvesse perigo de destruição das instalações pela assistência,[1] um júri composto por 20 elementos: oito representando comissões de trabalhadores da Setenave, Sorefame, Mocar, Fábrica de Fiação e Tecidos de Torres Novas, Termoeléctrica, Metalúrgica Duarte Ferreira e Hospital de Cascais), dez representantes do povo de Castro Verde e dois membros da AEPPA. Na assistência vários militantes do PCP e UDP e ainda muitos populares. Ao fim de algumas horas, a deliberação do júri do tribunal popular: José Diogo foi absolvido do crime, enquanto a vítima mortal da facada, Columbano Líbano Monteiro era condenada, a título póstumo, por ter explorado os trabalhadores durante tantos anos a fio. "...José Diogo não cometeu nenhum crime, embora seja seu juízo que o acto de José Diogo foi um acto individual......." [2]
A absolvição pelo tribunal popular não chegou para libertar José Diogo – que acabou, mais tarde, por ser julgado no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa. Os juízes condenaram-no a seis anos de cadeia, apesar da moldura pena ser de 10 a 15 anos. José Diogo, contado o tempo de esteve preso à espera de julgamento, saiu em liberdade condicional meses depois.[2]
José Diogo viria a falecer a 15 de Agosto de 2013, em Caséve, Castro Verde.[6] O caso do seu julgamento viria a ser retratado num documentário realizado por Luis Galvão Teles[7] e um livro ambos com o titulo “Liberdade Para José Diogo", com assinatura da Associação de Ex-Presos Políticos Anti-Fascistas (AEPPA)” de Fernando Ribeiro de Mello e editado pelas edições Afrodite.[8]

Referências
Poças, Nuno Gonçalo (24 de julho de 2022). «O homicídio que acabou num tribunal popular em plena revolução». Observador
«"Liberdade para José Diogo" | Memórias da Revolução | RTP». Memórias da Revolução. Consultado em 23 de julho de 2022
Grupo de Acção Cultural, GAC. «Zé Diogo». GAC - Vozes da Luta
«Julgamento popular de José Diogo». www.cmjornal.pt. 24 de julho de 2022
«Morreu o José Diogo, o tratorista de Columbano Monteiro». alvitrando.blogs.sapo.pt. 13 de agosto de 2015. Consultado em 23 de julho de 2022
«Liberdade para José Diogo». ICA. Consultado em 23 de julho de 2022
«Memórias da Revolução - 28 de Julho | "Liberdade para José Diogo"». memoriasdarevolucao.pt. Consultado em 23 de julho de 2022

sábado, 16 de maio de 2026

o Jornal de Noticias e o alegado jornalista Delfim Machado

Na edição de 29 de março de 2026, o “Jornal de Notícias” (JN) publicou um conjunto de notícias falsas, manipuladas para lesar o bom nome do CDS e a honra dos seus militantes, dirigentes e eleitores, debaixo de um título ofensivo e mentiroso, em letras garrafais na primeira página: “Mercenários ligados ao CDS contratados para matar padre Max”.
O CDS, como é bem sabido, não tem nada a ver, nem de perto, nem de longe, nem direta, nem indiretamente, com o assassinato à bomba, em 2 de abril de 1976, do Padre Max – candidato pela UDP às eleições de três semanas depois – e da estudante Maria de Lurdes. Condenámos este crime intolerável. Reafirmo, hoje, a mesma condenação.

Para qualificarmos a calúnia da manchete e da “notícia” do JN teríamos de ultrapassar os limites do vocabulário. O CDS nunca teve mercenários ao seu serviço. O CDS nunca dispôs de armas, nem usou de violência na ação política. O CDS nunca ordenou assaltos, cercos ou atentados, sequestros ou prisões, a quem quer que fosse, nem alguma vez pactuou com eles. O CDS foi sempre um partido pacífico, moderado e democrático, firme nas convicções, usando como única arma a palavra, escrita ou falada. Quem conhece o Partido do Centro Democrático Social (CDS) da vida pública portuguesa sabe que é assim. Não escondemos nada. Não temos nada a esconder.

A peça do JN viola várias vezes o Código Deontológico dos Jornalistas, atropelando-o estrondosamente nas duas primeiras normas. (1) O Código diz: “O jornalista deve relatar os factos com rigor e exatidão.” O JN faz o contrário: não relata os factos com rigor, nem com exatidão. (2) O Código determina: “O jornalista deve (…) interpretar [os factos] com honestidade.” O JN faz o oposto: não os interpreta com honestidade. (3) O Código prescreve: “Os factos devem ser comprovados, ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso.” O JN troca as mãos: não comprova os factos, nem ouviu as partes com interesses atendíveis. (4) O Código fixa: “A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.” O JN troca os pés: não separa notícia de opinião. (5) O Código ordena: “O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo.” O JN segue o caminho inverso: em vez de combater o sensacionalismo, promove-o. (6) O Código afirma: “O jornalista deve (…) considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.” O JN faz-se de cego e surdo: desfere acusação sem provas, grave falta profissional. Em suma, um festival de infrações em questões básicas do ofício, que se estende do jornalista à Direcção do JN. É claríssimo que a Direcção não devia ter publicado uma peça com tão graves faltas deontológicas, de enorme potencial ofensivo e sem suporte digno desse nome. E menos ainda alçá-la às parangonas – caluniadoras – da primeira página.

Ao longo dos últimos 50 anos, no noticiário relativo ao atentado contra o Padre Max, a peça do JN tem um único dado novo: a inclusão do CDS no pacote dos “autores” – uma velhacaria reles e absolutamente ignóbil. Não há direito!
O jornalista do JN dá crédito abundante a indivíduos do perfil de José Esteves, indo ao cúmulo de lhe dar mais crédito do que a Diogo Freitas do Amaral. O critério do jornalista é o seu, assim Se qualificando suficientemente: tem como guia um bombista confesso. O pior é esse critério ser assumido também pela Direcção do JN, manchando a reputação de um jornal histórico do Porto, mais que centenário, assim como a credibilidade e o prestígio legados por Diretores como Manuel Pacheco de Miranda, António Freitas Cruz e Frederico Martins Mendes, entre outros. O jornal comunista “O Diário”, arma de combate do PCP, era natural que o fizesse. Já o JN baixar ao mesmo nível, 45 anos depois, é demasiado deplorável.

A Direcção do JN e o jornalista Delfim Machado ofenderam gratuitamente pessoas como Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa, Francisco Oliveira Dias, Maria Laura Pinheiro, Rui Pena, Vítor Sá Machado, Luís Azevedo Coutinho, João Porto, Ruy Oliveira, Mário Gaioso, Emídio Pinheiro, Pedro de Vasconcelos – todos já falecidos –, Basílio Horta, Maria José Sampaio e os irmãos Eugénio e Miguel Anacoreta Correia. A mim também. Estavam na Direção do CDS em 1976, à data dos factos. Alguém consegue imaginá-los a recrutar mercenários? Alguém concebe que fossem capazes de mandar matar alguém? Alguém crê que fossem autores, cúmplices ou parte de algum crime e, mais ainda, de terrorismo?! Tenham paciência… Tenham vergonha! Peçam desculpa.

Se o jornalista e a Direcção do JN, em vez de manipularem fontes viciadas e de muito baixo crédito, tivessem consultado os seus próprios arquivos, poderiam talvez ter encontrado registo das posições públicas do CDS. Ter-se-iam poupado ao opróbrio desta ofensa inominável e à vergonha que escolheram.


Fiz por exercer o direito de resposta que me cabe, como militante do CDS desses tempos, dirigente em 1976, seu porta-voz na altura e até 1983, bom conhecedor desse período e do que éramos. A Direcção do JN recusou publicar a minha resposta. E também nada quis fazer, como a lei indica, para reparar o enorme dano moral feito. A meu ver, fez muito mal: não só não tem razão sob o ponto de vista legal, como sobretudo desperdiçou a oportunidade da decência. O direito de resposta não existe tanto porque a lei o impõe, mas existe porque corresponde a um dever básico de decência: quem se engana ao publicar algo errado ou ofensivo, tem o dever de publicar a correção ou a reparação. É uma regra de lisura elementar, que enobrece o ofício jornalístico.

Deixo a quem se interesse os elementos para avaliar os factos: a “notícia” completa do JN, em 29.3.2026, que gerou este caso; o texto do meu direito de resposta, que exerci, em 27.4.2026; a recusa de publicação pelo JN, em 29.4.2026.

Isto forçou-me, nos termos da lei, recorrer à ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social, o que fiz em 2.5.2026, passam, hoje, duas semanas. A atitude do “regulador” tem sido ainda pior: nem ai, nem ui. Nada recebi da excelentíssima entidade, fosse inicialmente, fosse após insistência em 13.5.2026. Deixo também os documentos pertinentes quanto à ERC, para conhecimento e avaliação de quem queira ver e ler.

Em resumo: em 29.3.2026, o “Jornal de Notícias”, alçando-se à disputa do título de campeão mundial das “fake news”, publica uma montagem carregada de falsidades para o efeito de caluniar o CDS, envolvendo-o no assassinato do Padre Max há 50 anos. Confrontado com o desmentido e a desmontagem das falsidades, o JN, em lugar de publicar o direito de resposta ou de outro modo corrigir o erro e reparar a ofensa feita, prefere e escolhe nada publicar, entrincheirando-se na infâmia. Por seu turno, a ERC, chamada a agir, mostra aquilo de que muitas vezes se suspeita: não é deste mundo. A verdade, porém, é lamentável: a ERC atua como conivente com as “fake news” e as calúnias do JN.

Recomendo a leitura dos anexos para que remeto. É edificante sobre o estado da arte. O direito de resposta já teve melhores dias em Portugal. A liberdade de imprensa também.

Tenho pena pelo “Jornal de Notícias”. Muita pena. Já foi um grande jornal. Viverá com esta ignomínia colada à pele, enquanto não a reparar e corrigir. Não há direito! Não há direito.

a cartilha que... já não lê o povo que a lê!

Há uma forma muito portuguesa e muito jornalística de não compreender um fenómeno político: 
- primeiro reduz-se o fenómeno a uma caricatura; 
- depois combate-se a caricatura como se fosse a realidade; 
- finalmente, quando a realidade desmente a caricatura, acusa-se a realidade de estar errada.

É neste ponto que parece situar-se parte do comentariado quando olha para André Ventura, para o CHEGA e, em particular, para a proposta de redução da idade da reforma. Miguel Pinheiro, director executivo do Observador, no artigo em que fala da “nova cartilha” de André Ventura, percebe uma coisa importante: há uma inflexão discursiva. Mas, ao mesmo tempo, parece não perceber a natureza profunda dessa inflexão. Vê a manobra; não vê o mundo que a tornou possível.
E esse mundo é simples de descrever, ainda que difícil de aceitar pelo jornalistado e pelo comentariado, tanto o alinhado à esquerda como o enfileirado pela "direita caviar", que ainda imagina que o país cabe todo entre uma folha de Excel, uma citação de Hayek e um jantar no Four Seasons.

A proposta de baixar a idade da reforma deixou o PSD, o CDS e a IL perplexos. o jornalista Miguel Pinheiro, Director Executivo do Observador, reconhece o choque e o espanto: a redução da idade da reforma não era uma exigência da esquerda mais radical? 
Não era suposto o CHEGA ser de direita?
A resposta, escreve ele, seria “sim” e “sim”, escreve Pinheiro.
Pois! O problema começa precisamente aí:
É a velha Direita fiscalista contra a nova Direita social!

Durante demasiados anos, uma certa direita portuguesa aceitou ser definida pela esquerda. À esquerda caberia a justiça social, os trabalhadores, a protecção dos frágeis, os salários, as pensões e a dignidade do trabalho. À direita caberia a contenção orçamental, a redução da despesa, a baixa de impostos, o mercado, a competitividade e a disciplina financeira.
Este arranjo era cómodo. A esquerda ficava com a alma. A direita ficava com a calculadora.
Mas a história política europeia nunca foi assim tão simples. Como recordei em texto anterior, a proposta de antecipação da idade da reforma não é necessariamente “de esquerda” nem uma cedência à esquerda. 
Há uma tradição social, reformista, nacional e conservadora que nunca aceitou reduzir a política à contabilidade. Uma Direita digna desse nome não é obrigada a ajoelhar perante o dogma segundo o qual qualquer preocupação com o trabalhador pertence ao socialismo.
Contudo questão séria não é saber se a proposta de Ventura é “de esquerda”. A questão séria é saber se ela é viável, justa, financiável, diferenciada e adequada à realidade portuguesa.
Mas isso já exigiria debate. E o debate é sempre mais cansativo do que a etiqueta.

as Máquinas, o Trabalho e a pergunta que o comentariado evita
A grande pergunta que uma boa parte do comentariado não enfrenta é esta: 
se as novas tecnologias reduzem cada vez mais o esforço humano (físico e intelectual) por que razão se exige ao homem comum que trabalhe cada vez mais anos?
Ora bem, esta pergunta não é demagógica. É civilizacional.
Durante décadas prometeram-nos que a tecnologia libertaria tempo para a família e lazer. Que a mecanização, a automação, a digitalização, a inteligência artificial e a robotização aumentariam a produtividade e aliviariam a carga do trabalho humano. Mas a conclusão política que nos apresentam é paradoxal: as máquinas fazem mais, os algoritmos aceleram tudo, a produtividade potencial aumenta e o trabalhador deve reformar-se mais tarde!
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A resposta tecnocrática invoca a demografia, a esperança média de vida, a sustentabilidade da Segurança Social e o rácio entre activos e pensionistas. Sim! Tudo isso é real. Em Portugal, em 2026, a idade de acesso à pensão de velhice está fixada em 66 anos e 9 meses, o que confirma a tendência de prolongamento da vida activa. Trata-se da resposta tecnocrática que não chega. 
Se as tecnologias produzem ganhos, a questão política é saber quem fica com esses ganhos. Se ficam apenas nas empresas, nos accionistas, nas plataformas, nos monopólios digitais, nos governos cobradores e nas elites gestoras, então a tecnologia não liberta o homem: substitui-o, disciplina-o e cobra-lhe a factura.
E se a tecnologia não distribui justiça, a política deveria fazê-lo.

O erro de chamar “socialista” ao que é socialmente nacional
A caracterização do programa do CHEGA como “socialista” é uma conveniência retórica do jornalistado que serve à Esquerda rasca e a Direita caviar, porque lhes permite acusar Ventura de oportunismo. Serve, à Direita Liberal, porque lhe permite acusá-lo de traição. Serve também, ao comentariado, porque lhe permite arrumar a realidade numa gaveta conhecida.

O CHEGA não se tornou socialista por falar de Pensões, Reforma ou protecção dos Trabalhadores. O socialismo não é uma preocupação vaga com a questão social. O socialismo é uma tradição doutrinária, económica e política, com categorias próprias: luta de classes, socialização, estatismo igualitário, internacionalismo, hostilidade à propriedade burguesa, suspeição perante a ordem nacional tradicional. A direita do Chega opera noutro campo. 
A sua lógica não é a substituição da nação pela classe, mas a recuperação da nação como comunidade de protecção. Pode ser discutível. Pode ser contraditória. Pode ser economicamente insuficiente. Pode até ser, em certos pontos, programaticamente confusa. Mas não é socialismo.
É outra coisa: soberania social, nacionalismo económico, protecção dos trabalhadores nacionais, crítica da globalização desregulada, recuperação do eleitorado popular que a esquerda abandonou.
Chamar a isso “esquerda” é revelar mais sobre os preconceitos do observador do que sobre o objecto observado.

Reform UK e a Red Wall: 
uma lição que o artigo do Observador cita mas não absorve
Certos jornalistas tentam perceber que há alguma possível comparação do CHEGA com o Reform UK. Mas parecem não retirar dela a consequência essencial.
Isto é, o Reform UK não cresceu apenas porque repetiu slogans de direita. Cresceu porque percebeu que as antigas fronteiras sociológicas do voto estavam a ruir. Nas eleições locais britânicas deste Maio de 2026, o partido de Nigel Farage obteve ganhos muito expressivos em zonas tradicionalmente trabalhistas, enquanto o socialista Labour Party sofreu pesadas perdas em regiões que tradicionalmente votavam "trabalhista" . O essencial é claro: o Reform entrou em território social e eleitoral que durante décadas parecia propriedade Trabalhista.

A chamada "Red Wall" - os Midlands e o norte da Inglaterra da Grã Bretanha - que corresponde à nossa "Cintura Vermelha" que o PREC rodeavam Lisboa, a Norte desde a Amadora até Vila Franca de Xira e na Margem Sul do Tejo (Almada e Seixal) - não caiu apenas porque os eleitores enlouqueceram, mas porque foram enganados pelas redes sociais e pela imprensa que os hipnotizou com uma "flauta populista". A "Red Wall" caiu porque o Labour Party deixou de falar a "mesma lingua" de parte dos seus antigos eleitores. Trocou o trabalhador pela tribo identitária, o bairro industrial pelo seminário universitário, a segurança material pela liturgia multicultural, a fronteira pela abstracção globalista, a comunidade real pela comunidade imaginária dos activistas.
Quando Nigel Farage diz, em termos aproximados, que a divisão entre esquerda e direita foi “deitada pela janela fora”, não está a fazer filosofia política. Está a constatar um facto eleitoral: muitos eleitores populares já não reconhecem a esquerda como sua casa natural.
E isto é também o que comentariado português não quer ver em André Ventura.

Lembro que O povo não é propriedade registada da esquerda
Durante anos, a esquerda portuguesa tratou o eleitorado popular como se este lhe pertencesse por escritura ideológica. Trabalhadores, reformados, funcionários, pequenos comerciantes, moradores das periferias, pobres envergonhados e remediados aflitos eram supostos votar à esquerda por tradição, gratidão ou medo.
Mas o povo não é propriedade registada.

Por tal, quando a esquerda troca a questão social pela engenharia identitária, quando fala mais de minorias simbólicas do que de maiorias cansadas, quando se preocupa mais com linguagem inclusiva do que com salários, quando trata a imigração como dogma moral e não como fenómeno económico, social, urbano e laboral, abre espaço para que outros ocupem esse terreno.
Foi isso que aconteceu em vários países europeus. Foi isso que aconteceu em parte da América do Norte. Foi isso que o Reform UK explorou. É isso que o CHEGA tenta agora explorar em Portugal.
Pode correr bem ou mal. Pode ser consistente ou contraditório. Pode ser uma estratégia duradoura ou uma táctica conjuntural. Mas não é incompreensível. 
O que é incompreensível é que tantos profissionais da análise política continuem a fingir que isto é apenas uma “cartilha”.

O dilema real: 
baixar impostos, proteger trabalhadores e não rebentar o Estado
Há, evidentemente, uma pergunta legítima que no artigo em questão Pinheiro coloca ou sugere: 
como pode André Ventura defender uma redução da idade da reforma, não aumentar ciclopicamente a despesa do Estado e, ao mesmo tempo, propor redução de impostos?
Esta é a pergunta de resposta difícil. E aqui o CHEGA tem obrigação de responder melhor.
Não basta dizer que as máquinas trabalham por nós. Não basta invocar justiça social. Não basta proclamar que se cortará na corrupção, nos abusos, nas gorduras do Estado ou nos subsídios indevidos. Tudo isso pode existir, mas não substitui as finanças. 
Um outro problema é que o jornalistado raramente quer esta discussão séria. Prefere o rótulo: “é socialista”. 
E a direita caviar prefere o susto: “é irresponsável” dizem. 
Já a esquerda prefere o sarcasmo: “afinal também são dos nossos”. E a máquina de propaganda da geringonça prefere a confusão, porque a confusão impede que se veja o essencial. Ou seja: Ventura abriu uma frente que o PSD, o CDS e a IL tinham deixado abandonada: a Frente Social da Direita.

Uma direita que não entende isto ficará velha antes de chegar à reforma
A reacção perplexa do PSD, do CDS e da IL revela um problema maior do que André Ventura. Revela que parte da direita portuguesa continua presa a uma concepção estreita de si própria. Uma direita fiscalista, urbana, sociologicamente confortável, mais preocupada com respeitabilidade mediática do que com representação popular.
Uma Direita que aceita falar de impostos, empresas, défice, Estado, despesa e regulação. mas que sente embaraço quando tem de falar de quem trabalhou quatro ou mais décadas, que fala de produtividade, mas raramente pergunta quem beneficia dela.

Ventura percebeu ou intuiu que há aquí um espaço político. Um espaço onde a esquerda deixou de morar e onde a direita liberal nunca quis entrar.
É esse espaço que assusta o comentariado que não percebe que.
a "cartilha" mudou porque o país mudou
Perceba-se uma coisa: há uma nova cartilha! Mas talvez não seja apenas a cartilha do CHEGA e de André Ventura. É a cartilha de um tempo político em que as antigas etiquetas já não explicam os novos alinhamentos.

A esquerda já não representa automaticamente o trabalhador. A direita já não é apenas mercado. O eleitorado popular já não vota por obediência histórica. As classes trabalhadoras já não aceitam ser figurantes de uma esquerda que as trocou por causas mais elegantes. E a direita nacional e/ou popular percebeu que a questão social não é propriedade de ninguém.
André Ventura pode falhar a explicação financeira da proposta. Pode exagerar, simplificar ou precipitar-se. Mas os seus críticos falham quando confundem justiça social com socialismo, protecção dos trabalhadores com radicalismo de esquerda e voto popular com anomalia democrática.
O Reform UK mostrou, lá fora, que a velha "Red Wall" podia ser tomada de assalto por quem falasse aos eleitores que o socialismo dos Trabalhista julgava garantidos. 
O CHEGA percebeu a lição. 
O Director Executivo de um jornal dito de "direita" viu o paralelismo, mas talvez ainda não tenha percebido a profundidade da ruptura.

A pergunta já não é se o CHEGA se deslocou para a esquerda.
A pergunta é se a Esquerda abandonou tanto o povo que até a Direita aprendeu o caminho para lá chegar.
E, a julgar pelo pânico do jornalistado, do comentariado e da direita caviar, parece que chegou.

Notas
1 Miguel Pinheiro, “A nova cartilha de André Ventura já resultou lá fora”, Observador.
2 A presente reflexão retoma e desenvolve a tese anteriormente trabalhada em “A reforma, as máquinas e o monopólio fraudulento da questão social”, sobretudo na ideia de que a automatização, a digitalização e a inteligência artificial obrigam a repensar a distribuição social dos ganhos de produtividade, e não apenas a idade contabilística da reforma.
3 Sobre a idade normal de acesso à pensão de velhice em Portugal, veja-se a informação oficial disponível no portal da Segurança Social e no portal gov.pt, que fixa para 2026 a idade normal de acesso à pensão em 66 anos e 9 meses.
4 A comparação com o Reform UK e com a chamada “Muralha Vermelha” britânica - ou "cintura vermelha" do PREC- é politicamente relevante porque mostra a deslocação de sectores do eleitorado popular, antes fortemente ligados ao Labour, para formações nacional-populares que passaram a disputar temas como imigração, segurança, trabalho, salários, identidade e protecção social.
5 A expressão de Nigel Farage sobre o fim da velha divisão entre esquerda e direita deve ser lida menos como doutrina política e mais como diagnóstico eleitoral: os alinhamentos sociológicos que durante décadas estruturaram o voto popular europeu estão em transformação acelerada.
6 A crítica aqui feita não implica a aceitação acrítica da proposta de André Ventura. Pelo contrário: uma proposta séria de redução da idade da reforma exige demonstração financeira, critérios diferenciados, consideração das carreiras longas, da penosidade laboral, da produtividade e da sustentabilidade da Segurança Social.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

A Grã-Bretanha depois do bipartidarismo

Ou como o velho sistema descobriu que o povo também vota fora do guião

Há noites eleitorais que mudam governos. E há noites eleitorais que mudam regimes de leitura. A de Maio de 2026, no Reino Unido, parece pertencer à segunda categoria. Não porque Westminster tenha caído, nem porque a monarquia parlamentar britânica tenha deixado de existir, nem sequer porque o sistema político se tenha formalmente transformado. Mas porque o velho teatro bipartidário — Trabalhistas contra Conservadores, esquerda de governo contra direita de governo, alternância respeitável contra alternância respeitável — sofreu uma daquelas humilhações que não se resolvem com uma conferência de imprensa e duas frases sobre “ouvir melhor os eleitores”.

O que aconteceu na Grã-Bretanha foi, antes de tudo, uma recusa. Uma recusa do Partido Trabalhista, uma recusa dos Conservadores, uma recusa da liturgia política que durante décadas vendeu ao povo britânico a ilusão de que havia escolha porque se podia alternar entre duas máquinas que, no essencial, se habituaram a governar o mesmo cansaço.

Em Inglaterra, o Labour foi castigado nos seus próprios redutos. Perdeu vereadores, perdeu câmaras, perdeu terreno simbólico e viu o Reform UK entrar em zonas onde, durante décadas, a esquerda trabalhista julgava possuir uma espécie de direito feudal sobre o voto popular. Hartlepool, Tameside, Sunderland, Gateshead, Redditch, Birmingham: nomes que já não são apenas pontos no mapa eleitoral. São sinais. São avisos. São pequenas placas funerárias do velho Partido Trabalhista industrial, operário e comunitário que ainda existe na mitologia partidária, mas cada vez menos na urna.
Os Conservadores, por sua vez, também não escaparam. Levaram igualmente a sua dose de pancada, embora alguns tenham tentado vender a derrota como se fosse uma convalescença promissora. O problema é simples: quando um partido que governou o Reino Unido durante tantos anos começa a celebrar porque perdeu menos do que o adversário, já não está propriamente a fazer política; está a fazer cuidados paliativos.
O Reform UK tornou-se, em Inglaterra, a grande expressão eleitoral desta revolta. Ganhou vereadores, conquistou câmaras, entrou em velhos bastiões trabalhistas e ultrapassou os Conservadores em zonas onde estes ainda se julgavam a casa natural da direita. O velho eleitorado popular, que o Labour tratava como clientela histórica, e o eleitorado conservador cansado de uma direita sem nervo, encontraram no Reform UK uma forma de dizer não. Não apenas a Starmer. Não apenas aos Tories. Não ao sistema que os dois administraram.
No País de Gales, a pancada teve outra dimensão: foi histórica. O Plaid Cymru tornou-se o maior partido no Senedd, com 43 lugares em 96, enquanto o Reform UK surgiu como segunda força, com 34. O Labour, durante décadas dono político do País de Gales, ficou reduzido a uma posição humilhante. Eluned Morgan perdeu o lugar e anunciou a saída da liderança trabalhista galesa. Há derrotas que são conjunturais. Esta parece mais funda: é o fim da ideia de que o Labour tinha o País de Gales por herança.
Na Escócia, o SNP voltou a ser o maior partido e conquistou a maioria dos círculos eleitorais, mas sem maioria absoluta. O detalhe interessante está na ironia política: o Reform UK, sendo unionista, ajudou a baralhar o tabuleiro da direita unionista, retirando espaço aos Conservadores e perturbando a velha leitura segundo a qual a política escocesa se organizava apenas em torno de SNP contra Labour ou SNP contra Tories. Até a defesa da União se fragmentou.

É aqui que a velha leitura britânica deixa de funcionar. Durante décadas, o Reino Unido foi apresentado como a grande escola da estabilidade parlamentar: dois grandes partidos, uma oposição institucional, um governo alternativo e o povo a escolher ordeiramente entre as duas prateleiras autorizadas. Agora, há uma Inglaterra onde o Reform UK, os Verdes e os Liberais Democratas mordem o eleitorado tradicional; há uma Escócia com SNP, Labour, Reform, Verdes, Conservadores e Liberais Democratas num xadrez próprio; há um País de Gales onde Plaid Cymru e Reform UK ocupam os dois primeiros lugares, deixando o Labour reduzido a escombros.

Chamar a isto “fragmentação” é pouco. Isto é a continentalização da política britânica. 
O Reino Unido, que gostava de olhar para a Europa continental como quem observa uma feira ideológica demasiado barulhenta, descobriu finalmente que também pode ter múltiplos partidos relevantes, eleitores móveis, identidades nacionais concorrentes, partidos anti-sistema e centros políticos incapazes de segurar a casa.
O bipartidarismo não acabou por decreto. Acabou por erosão. Acabou porque os Trabalhistas deixaram de ser a voz natural das classes trabalhadoras. Acabou porque os Conservadores deixaram de ser a garantia natural da ordem, da competência e da nação. Acabou porque as periferias sociais, territoriais e culturais deixaram de aceitar que Westminster lhes explicasse, de quatro em quatro anos, que tinham de escolher entre o vermelho gasto e o azul cansado.

O Reform UK é o grande beneficiário desta ruptura, mas não é a única expressão dela. Em Inglaterra, canaliza o voto da revolta contra a imigração descontrolada, o custo de vida, o abandono regional, as elites administrativas e o desprezo cultural. No País de Gales, cresce como partido unionista de protesto e torna-se a segunda força parlamentar. Na Escócia, instala-se como nova força da direita unionista, obrigando os Conservadores a olharem para o espelho e a perceberem que talvez já não sejam a casa natural de ninguém.

Mas há outro vencedor menos evidente: o nacionalismo periférico. O SNP mantém a Escócia como problema político permanente. O Plaid Cymru conquista o País de Gales. E quando os dois partidos tradicionais britânicos entram em colapso simultâneo, a própria União começa a parecer menos uma evidência histórica e mais uma conveniência administrativa com fissuras à vista.

Não quer isto dizer que a independência escocesa ou galesa esteja ao virar da esquina. Seria uma conclusão apressada. Mas a política raramente muda primeiro nos programas. Muda primeiro no imaginário. E o imaginário britânico de 2026 já não é o de 1997, nem o de 2010, nem sequer o de 2016. A União deixou de ser uma certeza tranquila para passar a ser uma construção que tem de se defender politicamente.

A pergunta decisiva é esta: quem representa hoje o país real?
O Labour? Difícil. Keir Starmer chegou ao poder prometendo mudança e rapidamente parece ter conseguido alienar a esquerda, o operariado, os eleitores periféricos, os jovens desiludidos e parte do seu próprio aparelho. Quando o Partido Trabalhista perde em zonas onde antes parecia sociologicamente imbatível, não se trata apenas de uma má campanha. Trata-se de divórcio político.
Os Conservadores? Ainda mais difícil. Depois de anos de governo, crises internas, Brexit mal digerido, promessas nacionais por cumprir e erosão social, aparecem agora como um partido entre duas inutilidades: demasiado responsável pelo passado para ser alternativa credível, demasiado fraco no presente para ser oposição eficaz.
Os Liberais Democratas? Crescem aqui e ali, como partido confortável de quem gosta de protestar sem sujar muito as mãos. Os Verdes? Avançam sobretudo onde o Labour perde à esquerda. Mas o grande movimento estrutural é outro: de um lado, partidos nacionais ou identitários; do outro, partidos de revolta contra a ordem instalada. No meio, os velhos partidos do regime tentam perceber porque é que o povo se fartou de os ouvir.

A hipótese, cada vez menos absurda, de uma futura recomposição em blocos: 
Reform UK e Conservadores de um lado; Labour, Liberais Democratas e Verdes do outro; SNP e Plaid Cymru a condicionarem, cada um à sua maneira, a arquitectura territorial do Estado. A política britânica poderá continuar a ter Westminster, a Coroa, a pompa e o cerimonial. Mas já não terá a antiga simplicidade.
E talvez seja isso que mais incomoda as elites: o povo complicou-lhes o esquema.
Durante anos, a pedagogia oficial britânica explicou que o populismo era uma doença continental, que a instabilidade partidária era coisa de franceses, italianos, espanhóis ou portugueses, que o Reino Unido possuía uma maturidade institucional superior. Pois bem: a maturidade institucional não impede a fadiga social. A tradição parlamentar não substitui a representação política. E nenhum sistema eleitoral consegue eternamente esconder o divórcio entre governantes e governados.

A lição britânica é vasta
Quando os partidos tradicionais deixam de ouvir, os eleitores deixam de obedecer. Quando as elites confundem estabilidade com resignação, o voto transforma-se em vingança. Quando a imprensa e o comentariado tratam a revolta social como ignorância, acabam surpreendidos pela matemática da urna.
A Grã-Bretanha não virou simplesmente à direita. Nem virou simplesmente à esquerda nacionalista. Virou contra o monopólio político dos partidos instalados. Virou contra a arrogância do centro. Virou contra a ilusão de que o povo deve votar eternamente dentro das fronteiras mentais desenhadas pelos mesmos de sempre.
O bipartidarismo britânico talvez não esteja apenas ferido. Talvez esteja já no estado em que tantos sistemas políticos ficam antes de admitirem a própria morte: ainda fala, ainda gesticula, ainda dá entrevistas, ainda promete “ouvir os eleitores”.
Mas os eleitores, pelos vistos, já começaram a ouvir outros.
E, como sempre acontece quando o povo vota fora do guião, a primeira reacção dos derrotados não será perguntar o que fizeram de errado. Será perguntar o que se passa de errado com o povo.
A velha doença democrática das elites: quando perdem, nunca é por falta de razão. É sempre por excesso de eleitores.

Notas de referência
The Guardian, “2026 elections mapped: how Labour lost ground in different directions”, 8 de Maio de 2026.
The Guardian, “Labour losses pile up in England local elections as Reform UK makes gains”, 8 de Maio de 2026.
The Guardian, “Plaid Cymru leader plans minority Welsh government built on cooperation”, 10 de Maio de 2026.
ITV News Wales, “Plaid Cymru secures historic first as largest party in Senedd Election with 43 seats”, 8 de Maio de 2026.
STV News, cobertura dos resultados das eleições escocesas de 2026.
Le Monde, “Reform UK records historic breakthrough in local elections that mark Labour's collapse and the end of two-party politics”, 8 de Maio de 2026.