quarta-feira, 1 de abril de 2026

A Constituição de 1976 começa — e termina — no seu Artigo 2.º ?

Há textos legais que são meramente normativos. E há textos constitucionais que são, antes de mais, políticos — no sentido mais profundo e, por vezes, mais inquietante do termo. A Constituição da República Portuguesa de 1976 pertence, sem dúvida, a esta segunda categoria.
E é por isso que a pergunta se impõe: começa — e acaba — no seu Artigo 2.º?

1. O Artigo 2.º como “porta de entrada”… e como programa
O Artigo 2.º define Portugal como um “Estado de direito democrático”, assente na soberania popular, no pluralismo político, nos direitos fundamentais e na separação e interdependência de poderes.
À primeira vista, nada de particularmente original. Trata-se de uma fórmula comum às democracias europeias do pós-guerra.
Mas essa leitura é, no mínimo, ingénua.
Porque o problema não está nas palavras — está no contexto em que foram escritas e na arquitectura ideológica que as sustenta.
Ao contrário de constituições como a alemã (Lei Fundamental de Bona, 1949) ou a espanhola (1978), a Constituição portuguesa não nasce de um compromisso estabilizador pós-autoritário. Nasce de um processo revolucionário ainda em curso — e, mais do que isso, ainda em disputa.
E isso muda tudo.
2. 1975–1976: uma Constituição sob pressão revolucionária
Entre o 11 de Março de 1975 e a aprovação da Constituição, Portugal viveu um período que não pode ser descrito apenas como “transição democrática”. Foi, de facto, uma tentativa — ainda que falhada — de transformação estrutural do regime económico, social e político.
Nacionalizações em massa. Reforma agrária. Controlo operário. Tutela militar do processo político. E, sobretudo, uma disputa aberta entre diferentes projectos de regime.
O Partido Comunista Português e sectores da esquerda socialista e da extrema-esquerda não escondiam o objectivo: não uma democracia liberal clássica, mas uma “democracia avançada”, de matriz estruturalmente distinta.
É neste contexto que a Constituição é redigida.
E é por isso que o seu texto — incluindo o Artigo 2.º — não pode ser lido como uma simples declaração de princípios neutros.
3. A ambiguidade estruturante: entre Estado de direito e projecto transformador
O Artigo 2.º funciona como uma síntese — mas também como uma tensão.
Por um lado, consagra os elementos clássicos do Estado de direito democrático.
Por outro, abre a porta a uma leitura dinâmica e programática desses mesmos princípios, compatível com uma visão transformadora da sociedade.
E é aqui que reside a sua especificidade.
Enquanto noutras constituições europeias o Estado de direito é um ponto de chegada — um quadro de estabilidade —, na Constituição portuguesa ele surge, desde a origem, como parte de um processo em construção.
Não é apenas um limite ao poder político. É também um instrumento de orientação histórica.

4. Comparação europeia: o caso português não é neutro
Compare-se, por exemplo, com a Lei Fundamental alemã.
Na Alemanha, o conceito de “Estado de direito” (Rechtsstaat) surge associado a uma lógica de contenção do poder — uma resposta ao trauma totalitário. A Constituição é, acima de tudo, uma barreira.
Em Espanha, a Constituição de 1978 também nasce de um compromisso — imperfeito, mas deliberadamente moderador — entre forças políticas distintas.
Em Portugal, pelo contrário, a Constituição de 1976 incorpora, na sua génese, uma ambição transformadora que não encontra paralelo directo.
E essa diferença não é apenas histórica. É estrutural.
5. O “espírito” que permanece
Cinco décadas depois, muitas das disposições mais marcadamente ideológicas foram revistas ou atenuadas. O texto constitucional sofreu sucessivas revisões, aproximando-se, formalmente, dos modelos europeus.
Mas o “espírito” original não desapareceu por completo.
Permanece na linguagem. Permanece na interpretação. E, sobretudo, permanece na forma como certos princípios — incluindo os do Artigo 2.º — são mobilizados no debate político e jurídico.
O Artigo 2.º continua a ser invocado não apenas como norma, mas como legitimação.
E é aqui que regressamos à pergunta inicial.

6. Começa — e acaba — no Artigo 2.º?
Sim — mas não da forma simplista que muitos imaginam.
O Artigo 2.º não esgota a Constituição. Mas contém, em forma condensada, a tensão fundadora que atravessa todo o texto: entre o Estado de direito e o impulso transformador que marcou a sua origem.
É, simultaneamente, ponto de partida e chave interpretativa.
Não porque seja explicitamente “marxista-leninista” — isso seria uma caricatura —, mas porque está inscrito numa arquitectura constitucional que nasceu sob essa influência.
Ignorar esse facto é ler a Constituição como se fosse um texto neutro.
E a Constituição de 1976 nunca foi neutra.
7. O problema não é o texto — é a leitura...
O verdadeiro debate não está em reescrever o Artigo 2.º.
Está em reconhecer o que ele representa.
Uma Constituição não é apenas um conjunto de normas. É também a cristalização de um momento histórico, de um equilíbrio de forças e de uma visão do mundo.
E a Constituição portuguesa — ao contrário do que por vezes se pretende — não nasceu de um consenso liberal clássico.
Nasceu de um conflito.
E talvez seja por isso que, cinquenta anos depois, continua a ser discutida como se ainda estivesse por resolver.
No fundo, a questão não é se a Constituição começa e acaba no Artigo 2.º.
É se estamos dispostos a reconhecer que, em Portugal, o Estado de direito nunca foi apenas um ponto de chegada — foi, desde o início, um campo de disputa.
E continua a sê-lo.

terça-feira, 31 de março de 2026

“O dono da Constituição e o medo do voto”

Quando o constitucionalismo deixa de ser regra comum e passa a ser propriedade privada de um regime em fim de ciclo.

Há momentos em que uma entrevista vale mais do que um tratado. Não pelo que explica, mas pelo que revela. A recente entrevista de Jorge Miranda ao Observador é um desses casos raros: um exercício involuntário de sinceridade política.
O "constitucionalista" que ficou preso ao regime que ajudou a fundar
Jorge Miranda fala como quem ainda habita o país de 1982 — esse momento em que o Tribunal Constitucional foi desenhado como sucessor funcional da Comissão Constitucional e, em larga medida, herdeiro indirecto do Conselho da Revolução.
Não é uma metáfora. É uma continuidade institucional.
E é precisamente essa continuidade que a entrevista expõe: a ideia de que o Tribunal Constitucional não é um órgão do Estado ao serviço da Constituição, mas um espaço de equilíbrio político reservado aos dois partidos que dominaram o regime durante décadas.
PS e PSD.
O resto — tolerado. Nunca integrado.
A frase que desmonta tudo
A frase central da entrevista não deixa margem para ambiguidades:
“O Chega deve participar no debate e na votação, mas não deve intervir no acordo para a escolha dos juízes.”
Tradução simples: pode votar, mas não pode contar.
Pode existir, mas não pode influenciar.
Pode representar mais de 20% dos eleitores, mas não pode participar no mecanismo central de legitimação institucional.
Isto não é teoria constitucional.
Isto é delimitação de poder.
Democracia representativa… até certo ponto
Há aqui uma inversão perigosa — e profundamente reveladora.
Durante décadas, o argumento foi sempre o mesmo: os partidos representam os eleitores, logo devem reflectir-se nas instituições.
Mas quando surge um partido fora do eixo tradicional, com expressão eleitoral significativa, o princípio altera-se subitamente:
  • já não importa quantos votaram
  • importa quem é “aceitável”
E quem define o aceitável?
Os mesmos de sempre.
O que Jorge Miranda propõe, no fundo, é uma democracia condicionada: uma democracia em que o voto é válido, desde que não produza consequências institucionais indesejáveis.
O argumento moral como substituto do argumento jurídico
Para justificar a exclusão, invoca-se o argumento habitual:
  • o CHEGA põe em causa a Constituição
  • defende medidas incompatíveis com os limites constitucionais
Mas este argumento tem um problema fundamental: é circular.
Se um partido defende propostas inconstitucionais, o sistema tem mecanismos para as travar - tribunais, fiscalização sucessiva, revisão constitucional.
Não é necessário excluí-lo a priori dos órgãos.
Aliás, fazê-lo é admitir algo muito mais grave: que a Constituição não se defende pelas suas regras, mas pela exclusão de actores políticos.
Ou seja, deixa de ser uma Constituição para passar a ser um filtro ideológico.
O regime que não percebeu que mudou
Há uma frase particularmente reveladora na entrevista:
“No essencial, o país continua a ser o mesmo.”
Não. Não continua.
Os eleitores mudaram. As clivagens mudaram. O sistema partidário mudou.
O que não mudou — e isso sim é o problema — foi a percepção de uma parte das elites que continua a olhar para o país como se nada tivesse acontecido.
Como se os resultados eleitorais fossem um ruído passageiro.
Como se o pluralismo fosse uma excepção.
O verdadeiro significado da exclusão
Recusar a participação de um partido com mais de 20% dos votos na escolha de juízes do Tribunal Constitucional não é um detalhe técnico.
É uma escolha política.
E essa escolha diz o seguinte:
  • há votos de primeira e votos de segunda
  • há partidos que contam e partidos que apenas existem
É aqui que o discurso de Jorge Miranda deixa de ser académico e passa a ser sintoma.
Sintoma de um regime que ainda não percebeu que perdeu o monopólio da legitimidade.
O fim do “dono disto tudo”
Durante décadas, houve uma espécie de constitucionalismo tácito em Portugal: uma Constituição formal e uma Constituição real.
A formal estava no texto.
A real estava no entendimento entre PS e PSD.
Esse entendimento funcionou enquanto o país aceitou.
Hoje já não aceita.
E é precisamente isso que incomoda.
O problema não é o CHEGA.
O problema é o fim de um sistema em que dois partidos decidiam, entre si, quem podia ou não participar no poder.
...quando o medo se disfarça de doutrina
A entrevista de Jorge Miranda não é apenas um exercício de opinião.
É um documento político.
Mostra, com rara clareza, a dificuldade de uma parte do regime em aceitar o pluralismo real -   aquele que resulta do voto e não da tradição.
E revela algo ainda mais profundo:
quando um sistema precisa de excluir para se proteger, já não está a defender a Constituição.
Está a defender-se a si próprio.

segunda-feira, 30 de março de 2026

O que o PS ainda não percebeu — e talvez já não consiga perceber!

O artigo de José Manuel Fernandes que junto tem o mérito raro de enunciar, com clareza desarmante, aquilo que grande parte do sistema político português continua a recusar admitir: o regime mudou — não por vontade das elites, mas por imposição dos eleitores.
Durante décadas, o sistema assentou num equilíbrio confortável entre dois partidos centrais que, alternando no poder, garantiam não apenas a governação, mas também o controlo efectivo do regime. Esse modelo, herdeiro do consenso pós-1982, permitia ao PS oscilar entre a ambição de hegemonia e a função de charneira, sempre com a convicção implícita de que nada de estrutural poderia acontecer fora do seu perímetro de influência.
Esse mundo acabou.
O ponto de ruptura não é apenas eleitoral — é estrutural. 
A partir de 2015, com a opção do PS de António Costa por uma governação sustentada à esquerda, rompeu-se um conjunto de convenções não escritas que haviam garantido estabilidade ao sistema. Ao fazê-lo, o PS abriu a porta a uma lógica de polarização e de desgaste que, inevitavelmente, viria a produzir reacções fora do eixo tradicional.
O surgimento de um terceiro pólo político relevante — consolidado nas eleições de 2024 e 2025 — não é um acidente, mas o resultado previsível de um conjunto de factores acumulados: degradação dos serviços públicos, bloqueios estruturais à mobilidade social, afastamento crescente entre elites e cidadãos, perda de soberania efectiva em áreas críticas e pressão migratória sem precedentes recentes.
Portugal, afinal, não era excepção.
O que se observa é a tradução nacional de uma tendência europeia mais vasta: a fragmentação dos sistemas partidários tradicionais e a emergência de forças que capitalizam o descontentamento dos sectores que se sentem excluídos do progresso prometido. A ilusão de que o país estava imune a essa dinâmica revelou-se, como tantas outras, uma construção confortável — mas falsa.
Perante esta realidade, seria expectável um mínimo de adaptação estratégica.
Mas é precisamente aí que o PS falha.
O congresso socialista, longe de representar um momento de reflexão, confirmou antes a persistência de uma leitura desfasada do país. Insiste-se na narrativa de uma bipolarização artificial, tenta-se reduzir o novo quadro político a uma anomalia passageira e, sobretudo, evita-se qualquer confronto sério com os erros acumulados ao longo de anos de governação.
Mais grave ainda: mantém-se a tentação de preservar o controlo do aparelho de Estado — seja através de acordos tácitos, seja pela gestão das chamadas “quotas de regime” — como se essa arquitectura institucional pudesse sobreviver intacta a uma transformação tão profunda do eleitorado.

No fundo, o PS continua a comportar-se como partido dominante de um sistema que já não existe.
O episódio em torno do Tribunal Constitucional é, neste sentido, exemplar. 
A contradição entre o discurso de exclusão política e a prática de acomodação institucional revela não apenas oportunismo, mas uma incompreensão fundamental do momento político.

A incapacidade de fazer o luto
E talvez o problema maior resida precisamente aí. No luto pelas políticas falhadas, pelos erros de governação, pelas rupturas que ajudou a provocar e cujas consequências agora recusa assumir. Sem esse exercício de reconhecimento, não há aprendizagem — apenas repetição.
Ora, a história política raramente perdoa a quem insiste em interpretar um tempo novo com categorias antigas.
Porque quando um partido deixa de compreender a sociedade que pretende governar, não é apenas a sua estratégia que falha — é a sua própria razão de existir que começa a dissolver-se.
E, como tantas vezes acontece, o regime só percebe que mudou… quando já não manda nele.

domingo, 29 de março de 2026

Chama-se Helena Palhota Simões e é autarca

Há episódios que, pela sua aparente banalidade, acabam por revelar mais sobre o estado de um regime do que muitas páginas de teoria política. Este é um desses casos.
Na Assembleia Municipal de Albufeira, um munícipe fez aquilo que durante décadas se considerou normal numa democracia: descreveu um problema concreto, vivido, localizado. Falou de habitação social, de rendas simbólicas, de incumprimento, de desigualdade percebida. Disse em voz alta aquilo que muitos dizem em voz baixa — e que outros fingem não ouvir.
O resto seguiu o guião já conhecido.
Um autarca respondeu, com maior ou menor prudência — isso é discutível. Mas respondeu politicamente. E foi aí que a política terminou e começou outra coisa.
Entrou em cena o mecanismo de substituição: em vez de se discutir o problema, discute-se quem o nomeia. Em vez de se analisar a gestão da habitação social, analisa-se a moralidade de quem ousa descrevê-la. Em vez de se confrontarem números, confrontam-se intenções. E, no fim, como tantas vezes acontece, entra a Magistratura, a Polícia e segue-se a Judicatura .
Convém fixar este ponto: a passagem do plano político para o plano policial não é um detalhe. É uma mutação.
Chama-se Helena Palhota Simões e é autarca. E decidiu que a resposta a palavras — por duras, erradas ou injustas que possam ser — não se faz com política, mas com suspeita criminal. Antigamente eram chamados de “bufos”, quiçá “rachados”, e os "agentes" eram de outra organização. Hoje, a designação é mais elegante, mais institucional, mais higienizada. Mas a lógica permanece desconfortavelmente próxima: transformar discurso em matéria de vigilância.
Dir-se-á que os tempos mudaram. Que há enquadramentos legais, categorias como “discurso de ódio”, preocupações legítimas com a coesão social. Tudo isso é verdade. Mas também é verdade que essas categorias têm vindo a ser utilizadas com uma elasticidade preocupante, ao ponto de abrangerem não apenas o insulto ou a incitação, mas a própria descrição de fenómenos incómodos.
E é aqui que o artigo de Helena Matos se torna relevante.
Há textos que fazem aquilo que o “jornalistado” já não faz: olhar para o problema em vez de o policiar. Este é um deles.
Helena Matos desmonta com clareza o teatro habitual: transforma-se um munícipe em suspeito, um autarca em arguido moral e a realidade em “discurso de ódio”. Tudo para evitar o essencial — a gestão ruinosa da habitação social, paga por quem trabalha e cumpre.
Porque o problema existe. E não é novo.
Existe uma percepção — e as percepções, em política, contam — de desigualdade no acesso à habitação social. Existe um histórico de programas específicos, de atribuições direccionadas, de critérios nem sempre transparentes. Existe, sobretudo, um problema estrutural de gestão.
Os números estão lá. A despesa também. O silêncio selectivo idem.
Milhões de euros em rendas em atraso. Taxas elevadas de incumprimento. Rendas simbólicas que, mesmo assim, não são pagas. Edifícios que entram em ciclos de degradação e reabilitação contínua. Um sistema que, em vez de resolver problemas sociais, frequentemente os perpetua — sempre com factura para o mesmo destinatário: o contribuinte.
Mas nada disto parece suficientemente mobilizador para justificar manchetes indignadas ou intervenções judiciais. O que mobiliza, o que activa o reflexo condicionado do comentário e da denúncia, é a linguagem. A palavra errada. A formulação imperfeita. O desvio ao vocabulário aprovado.
E assim se constrói uma inversão perversa: o problema deixa de ser a realidade e passa a ser a forma como ela é descrita.
No fundo, o que está em causa não é apenas um caso local, nem sequer uma polémica circunstancial. É um padrão.
Um padrão em que a política abdica da sua função — resolver conflitos, gerir recursos, estabelecer prioridades — para se refugiar numa espécie de moralismo performativo. Um padrão em que o “comentariado” e o “jornalistado” substituem análise por vigilância semântica. Um padrão em que as instituições são convocadas não para garantir direitos, mas para sancionar discursos.
E tudo isto acontece sob uma aparência de virtude.
Fala-se de inclusão, de respeito, de combate ao ódio. Palavras grandes, intenções nobres. Mas, por baixo dessa superfície, vai-se instalando um mecanismo que não resolve um único problema concreto — e que, pelo contrário, dificulta cada vez mais a sua discussão.
Porque quem observa percebe rapidamente a consequência: há temas que deixaram de poder ser abordados sem risco. Há perguntas que passaram a ser suspeitas. Há diagnósticos que se tornaram, em si mesmos, objecto de reprovação.
E quando isso acontece, a política perde o contacto com a realidade.
A habitação social, em particular, é um bom exemplo dessa deriva. Transformada em símbolo de virtude pública, raramente é analisada como aquilo que realmente é: um sistema complexo, oneroso, sujeito a abusos, dependente de gestão rigorosa e de critérios exigentes.
Anunciar construção é fácil. Gerir é difícil. E exigir responsabilidade — isso tornou-se quase indecoroso.
Daí que seja mais confortável deslocar o debate. Em vez de discutir critérios de atribuição, discute-se linguagem. Em vez de avaliar resultados, avaliam-se intenções. Em vez de corrigir falhas, procuram-se culpados discursivos.
No fim, sobra o mais revelador: discutir factos tornou-se mais perigoso do que perpetuar abusos.
E este é, talvez, o ponto mais inquietante.
Porque uma democracia saudável vive da possibilidade de nomear problemas, de os discutir abertamente, de confrontar dados e percepções. Quando esse espaço se fecha — não por censura formal, mas por intimidação difusa — o sistema não se torna mais justo. Torna-se mais frágil.

A intervenção da Magistratura, neste contexto, não é apenas um episódio. É um sinal.
Um sinal de que a fronteira entre o político e o penal se está a deslocar. De que há uma tentação crescente de resolver conflitos sociais através de instrumentos de coerção simbólica ou institucional. De que, em nome de causas legítimas, se podem estar a legitimar práticas perigosas.
Chama-se Helena Palhota Simões e é autarca. Mas, neste episódio, representa mais do que uma pessoa ou uma decisão isolada. Representa uma tendência.
A tendência para substituir o debate pela denúncia. A política pela suspeita. A gestão pela encenação moral.
E, sobretudo, representa um risco: o de habituar uma sociedade a aceitar que certas verdades — ou certas percepções — não devem ser ditas, não porque sejam falsas, mas porque são incómodas.
Quando isso acontece, a realidade não desaparece. Apenas deixa de poder ser discutida.
...e quando um país prefere investigar palavras em vez de corrigir problemas, já não estamos perante política — estamos perante evasão.

sábado, 28 de março de 2026

A violência útil e a amnésia selectiva

Há violências que, no espaço público contemporâneo, entram logo pela porta principal da condenação moral, com fanfarra cívica, editorial indignado, painel de comentadores e pedagogia republicana. E há outras que entram pela porta das traseiras, embrulhadas em eufemismos, reduções semânticas e atenuantes de contexto. Umas são imediatamente promovidas a sintoma de “ameaça sistémica”; outras são rebaixadas a “incidente”, “perturbação”, “confronto”, “objecto incendiário”, quase como se a natureza tivesse decidido improvisar um fenómeno atmosférico à porta do Parlamento. O problema, evidentemente, não é apenas policial ou judicial. É civilizacional. E começa na linguagem. (
LUSA)

No dia 21 de Março de 2026, a Marcha pela Vida, em Lisboa, terminou com o arremesso de um cocktail Molotov na direcção dos participantes, entre os quais se encontravam famílias, crianças e bebés. Segundo a PSP, o engenho improvisado continha gasolina, embateu no solo e não deflagrou; ainda assim, algumas pessoas foram atingidas pelo líquido inflamável e o episódio gerou “alarme e perturbação no local”. Mais: a própria informação policial referiu a presença de elementos integrados num grupo de alegada conotação anarquista. Não estamos, pois, perante um ruído de rua, um empurrão mais exaltado, ou uma zanga de militantes. Estamos perante um acto de violência política com potencial letal, cometido contra uma manifestação pacífica, junto ao centro simbólico do regime. (Renascença)
E, contudo, uma parte significativa do tratamento noticioso inicial procurou dissolver a gravidade do facto na banalidade da fórmula. A Lusa falou num “incidente, sem feridos, em que uma pessoa atirou um objecto incendiário”. A escolha lexical não é irrelevante. A linguagem não é um acessório da realidade: é um mecanismo de hierarquização moral da realidade. Quem reduz um cocktail Molotov a “objecto incendiário”, ou um ataque a uma manifestação a “incidente”, não está simplesmente a descrever; está a administrar a percepção pública do acto. Está a enquadrá-lo de forma a que o leitor, o telespectador e o cidadão o recebam já domesticado, sem a carga moral e política que, noutras circunstâncias, seria automaticamente convocada. (LUSA)
Faça-se, pois, o exercício elementar que a honestidade intelectual exige: invertam-se os protagonistas. Imaginemos uma marcha feminista, ou uma concentração em favor do aborto, ou uma manifestação LGBT, ou qualquer ajuntamento baptizado de “progressista”, alvo de um cocktail Molotov arremessado por um indivíduo ligado, segundo a polícia, a meios nacionalistas ou conservadores. Alguém acredita seriamente que os títulos seriam “incidente” e “objecto incendiário”? Alguém imagina que os telejornais não abririam com a ameaça da “extrema-direita”, os editoriais não evocariam “terror ideológico”, e os especialistas do costume não traçariam imediatamente genealogias entre o agressor, o “clima de ódio”, os partidos da direita, os pregadores morais e o alegado colapso da democracia liberal? Não se trata de mera especulação. Trata-se de observar um padrão recorrente de assimetria interpretativa. (LUSA)
É justamente esse padrão que importa estudar. Porque o essencial do problema não reside apenas no acto material de violência, por mais grave que ele seja. Reside no regime semântico que o protege depois. A esquerda radical, a extrema-esquerda militante, o anarquismo de rua, e até certas franjas islamistas, beneficiam na Europa de uma espécie de amortecedor cultural: nunca são lidos, à partida, como portadores de um mal intrínseco; são quase sempre interpretados como “reacção”, “resposta”, “marginalidade”, “desespero”, “contexto”, “antifascismo”, “activismo”, “justiça social”, ou qualquer outra fórmula destinada a impedir a atribuição plena de responsabilidade moral. Já a Direita, mesmo quando não faz nada, vive permanentemente em liberdade condicional hermenêutica: tudo nela é potencialmente perigoso, tudo é prenúncio, tudo é ameaça latente. (Renascença)
É aqui que o episódio de Lisboa deixa de ser apenas português. A violência político-ideológica da esquerda e da extrema-esquerda não é uma excepção extravagante num continente pacificado; é parte de um quadro mais vasto de radicalização que os sistemas mediáticos tendem a subavaliar quando a autoria não encaixa no vilão preferido. O relatório EU TE-SAT 2025 da Europol, relativo a 2024, registou 58 ataques terroristas na União Europeia, dos quais 24 atribuídos ao jihadismo, 21 à esquerda e ao anarquismo, 8 a formas “outras ou não especificadas”, 4 ao separatismo e apenas 1 à direita. No mesmo relatório, a Europol assinala 28 detenções por terrorismo de esquerda e anarquista em 2024, contra 47 detenções por terrorismo de direita; mas o próprio documento adverte que as estatísticas reflectem tipificações nacionais diferentes e que o relatório inclui ainda, para contextualização, vários episódios de extremismo violento fora da contabilidade estrita dos ataques terroristas. O que os números não autorizam, de modo nenhum, é a caricatura de uma Europa sitiada quase exclusivamente pela Direita, enquanto a violência esquerdista ou anarquista seria residual ou folclórica.

Aliás, o dado mais interessante não é apenas quantitativo: é qualitativo. O problema europeu actual não é a inexistência de violência à esquerda; é a sua sub-teorização. Em linguagem simples: quando o jihadismo actua, reconhece-se a gravidade do fenómeno, ainda que com todos os rodeios multiculturais habituais; quando a extrema-direita actua, mobiliza-se instantaneamente o aparelho moral do regime; quando a esquerda radical ou o anarquismo recorrem à violência, o sistema hesita, relativiza, circunscreve, desculpa, ou dissolve o caso na neblina do “activismo”. Essa desigualdade não é inocente. Ela cria incentivos. E um incentivo cultural à desculpabilização da violência é sempre um factor de reprodução da violência.

A França forneceu, ainda há semanas, um exemplo eloquente da deterioração do ambiente político. Em Fevereiro de 2026, o activista Quentin Deranque morreu em Lyon após uma agressão cometida num contexto de confronto com militantes da extrema-esquerda; a Reuters deu conta de detenções e de investigações formais envolvendo indivíduos ligados ao meio da esquerda radical, incluindo pessoas próximas de um deputado da LFI. Em reacção, o Governo francês anunciou a intenção de dissolver vários grupos, entre os quais um da extrema-esquerda, precisamente após o homicídio. O ponto importante, para o nosso raciocínio, não é absolver a direita francesa de nada, nem embranquecer os seus próprios radicalismos; é notar que a violência da esquerda radical existe, mata, mobiliza redes, e só muito tardiamente é reconhecida como problema autónomo, em vez de mero apêndice reactivo do “antifascismo”. (Reuters)
Nos Estados Unidos, o assassinato de Charlie Kirk, em Setembro de 2025, foi tratado desde o primeiro momento como um caso maior de violência política, com reacções transversais e condenação pública alargada. A Reuters descreveu-o como um “assassinato político”, sublinhando o receio de uma espiral de violência num ambiente já muito polarizado. Convém, porém, ser rigoroso: nas peças da Reuters consultadas, o móbil do suspeito não estava ainda claramente estabelecido. Esse ponto importa, porque a seriedade analítica exige não substituir uma cegueira partidária por outra. Mas o contraste de escala mediática continua instrutivo: quando a vítima pertence ao campo conservador e o acto atinge um patamar de indiscutível visibilidade, o sistema é obrigado a reconhecer o fenómeno. Já em Lisboa, onde um engenho incendiário foi lançado contra famílias numa manifestação ordeira, a tentação dominante foi miniaturizar o facto. (Reuters)

É precisamente aqui que o argumento de fundo se torna mais perturbador. O que se normaliza não é apenas a violência da esquerda: é a sua elegibilidade moral. Há no Ocidente contemporâneo uma forma muito peculiar de superstição ideológica segundo a qual a esquerda, mesmo quando agride, ameaça, incendia ou mata, continua a beneficiar da presunção metafísica de estar do lado “certo” da História. O seu excesso aparece como erro táctico; o excesso do adversário aparece como revelação essencial. A esquerda seria, por natureza, movida por compaixão, igualdade, emancipação, amor, solidariedade. Logo, se dela irrompe violência, essa violência só pode ser acidental, compreensível, ou provocada. A Direita, pelo contrário, estaria ontologicamente predisposta ao autoritarismo, ao ódio, ao fanatismo, à opressão. Logo, qualquer gesto seu, por mínimo que seja, recebe imediatamente uma interpretação maximalista. É este maniqueísmo antropológico que corrompe o jornalismo, contamina a magistratura, e produz decisões públicas incapazes de tratar igualmente o que é igualmente grave. (Renascença)
Veja-se, no caso português, o desfasamento entre a materialidade do acto e a resposta institucional inicial. O arguido ficou indiciado pelo crime de detenção de arma proibida e saiu em liberdade, sujeito a apresentações periódicas e proibição de frequentar o local. Entretanto, o actual ministro da Administração Interna, Luís Neves, admitiu publicamente que poderemos estar perante um crime “de natureza terrorista”, atendendo ao contexto e ao tipo de acto cometido; e Fernando Negrão afirmou que, mesmo que juridicamente não venha a ser qualificado como terrorismo, o é “do ponto de vista da cidadania”. Isto é muito significativo: a prudência semântica dos grandes mediadores iniciais contrastou com a percepção substantiva de quem, por experiência profissional, sabe reconhecer a gravidade típica deste género de acções. (Renascença)

Convém, de resto, evitar duas simplificações. A primeira consiste em chamar “terrorismo” a tudo, esvaziando o conceito. A segunda consiste em recusar a palavra sempre que a autoria ou o alvo perturbam os automatismos ideológicos habituais. Nem todo o acto violento de motivação política é juridicamente terrorismo; mas um engenho incendiário lançado contra manifestantes, com intuito de intimidar, ferir ou pior, não cabe seguramente na categoria pueril de “incidente”. O uso de palavras fracas para factos fortes não é moderação; é cumplicidade narrativa. E uma democracia que começa por mentir a si própria sobre a natureza da violência que tolera está já a meio caminho de perder a capacidade de a combater.

Em Portugal, há ainda um factor histórico que a intelligentsia dominante finge esquecer. A violência da esquerda não é uma fantasia reaccionária. Está inscrita na nossa memória recente, do PREC às FP-25. Francisco José Teixeira não morreu às mãos de um mito; e as FP-25 não foram um clube de leitura marxista. Houve mortos, houve terrorismo, houve redes de cumplicidade, houve posterior reciclagem cívica de figuras que o regime tratou de reabsorver ou relativizar. O país aprendeu, com a pedagogia oficial, a lembrar-se muito de umas violências e a esquecer-se utilmente de outras. Ora, essa amnésia selectiva tornou-se hoje um dispositivo activo: serve para garantir que a esquerda permanece simbolicamente inocente mesmo quando factualmente não o é.
Essa inocência simbólica é um luxo perigoso. Porque corrói duas bases elementares da ordem liberal séria: a igualdade perante a lei e a igualdade moral perante o juízo público. Sem essas duas igualdades, o Estado de Direito transforma-se numa dramaturgia selectiva, em que a qualificação dos factos depende mais da identidade presumida do agressor e da vítima do que da natureza do acto. Um cocktail Molotov não muda de estatuto consoante acerte em católicos, pró-vida, conservadores, activistas LGBT ou sindicalistas. Ou é um acto gravíssimo de violência política, ou então a própria linguagem jurídica e jornalística perdeu qualquer relação minimamente estável com a realidade.
Importa também dizer que este não é um apelo à censura nem à histeria securitária. Uma sociedade livre deve permitir a manifestação de opiniões contrárias, por mais ásperas que sejam. A Marcha pela Vida, concorde-se ou não com ela, faz parte da normalidade democrática. O que não faz parte da normalidade democrática é admitir que certos grupos podem responder a opiniões legais com fogo, gasolina e intimidação física, e depois ainda receberem, como primeira camada de protecção, o branqueamento semântico do aparelho informativo. O problema não começa no agressor. Começa no ecossistema que, antes mesmo de o tribunal falar, já tratou de diminuir a estatura moral da agressão.

É por isso que o episódio de 21 de Março merece ser pensado com mais seriedade do que a espuma partidária permite. Não apenas por ter sido dirigido contra católicos ou pró-vida, nem apenas por envolver um grupo de conotação anarquista, nem sequer só porque ocorreu junto à Assembleia da República. Merece ser pensado porque mostra, numa miniatura quase laboratorial, o mecanismo íntimo de degradação das democracias cansadas: um acto objectivamente grave é filtrado por um jornalismo ideologicamente assimétrico; essa filtragem baixa o custo reputacional da violência; a justiça responde com parcimónia classificatória; e a sociedade recebe a mensagem de que há violências menos violentas do que outras, desde que devidamente alinhadas com a ortodoxia moral do tempo.

A este respeito, o problema maior talvez nem seja a violência em si. A violência existirá sempre, à esquerda, à direita, no jihadismo, no separatismo, no nihilismo puro, e até na loucura individual. O problema maior é a civilização da desculpa. Uma civilização que desculpa selectivamente a violência não a contém: educa-a. Ensina-lhe que há um campo político em que a brutalidade vem sempre acompanhada de advogado cultural, legenda benevolente e enquadramento indulgente. O passo seguinte é previsível: aquilo que ontem parecia excessivo torna-se amanhã normal, e depois de amanhã torna-se banal.

No fundo, é disto que falavam, cada um à sua maneira, Jaime Nogueira Pinto e Alberto Gonçalves: não apenas de um ataque, mas de um sistema de legitimação por omissão; não apenas de um agressor, mas de um coro de amnésias; não apenas de uma notícia mal titulada, mas de um regime narrativo em que a esquerda radical continua a beneficiar de uma espécie de indulgência plenária. E essa indulgência, mais do que o próprio cocktail Molotov, é o sinal verdadeiramente alarmante.
O fogo falhou. Mas a mentira pegou.

quarta-feira, 25 de março de 2026

a municipalização do islamismo político em França:

Depois das autárquicas, em França, 
o que inquieta não é apenas o mapa partidário — é o mapa da influência
As eleições municipais francesas de 2026 deixaram um ensinamento que a leitura meramente partidária não basta para apreender. É verdade que o
Rassemblement National cresceu sem conquistar a avalanche urbana que desejava, que La France Insoumise falhou a sua ambição de hegemonia municipal e que o velho eixo socialista-moderado voltou a mostrar utilidade. Mas por baixo desta aritmética partidária move-se outra realidade, menos espectacular e mais perigosa: a consolidação da escala local como terreno de influência de um islamismo político de tipo associativo, comunitário e municipal.
O relatório "Frères musulmans et islamisme politique en France", tornado público pelo Ministério do Interior francês em Maio de 2025, sustenta que, se o risco "frériste” deve ser medido com prudência à escala nacional, o perigo de um islamismo municipal aparece como bem real no plano local, com efeitos crescentes no espaço público e no jogo político municipal. O próprio relatório descreve a formação de “ecossistemas locais” organizados em torno de mesquitas, associações, actividades educativas, caritativas e redes de influência, capazes de enquadrar a vida social e de entrar numa relação clientelar com autarquias em bairros fragilizados.
O ponto decisivo está aqui: não se trata necessariamente de listas islamistas explícitas, nem de uma tomada formal de câmaras municipais, mas de algo mais insidioso e mais compatível com as formas contemporâneas de subversão social. O relatório fala de activismo militante ancorado no plano municipal, reforçado por uma nova geração de pregadores e por estruturas satélite que operam no cultural, no educativo e no social. Em linguagem menos administrativa: trata-se de ocupar o terreno antes de ocupar a instituição, de moldar comportamentos antes de conquistar mandatos, de fabricar dependências comunitárias antes de reclamar legitimidade política.

A imprensa francesa séria tem sido mais prudente na formulação, mas não desmente o essencial. Le Parisien escreveu, já em Janeiro de 2026, que o Estado francês seguia com atenção o fenómeno do chamado “islam municipal” e das listas comunitárias, acrescentando, no entanto, que o fenómeno permanecia muito minoritário. Meses antes, o mesmo jornal registara o alerta de responsáveis do Estado para redes islamistas que procurariam aproveitar a proximidade das autárquicas para acelerar formas de "entrismo", muitas vezes através de relações triangulares entre município, culto e tecido associativo.
Esta prudência jornalística deve ser preservada. Não é sério transformar qualquer voto de bairro popular num voto islamista. Não é sério confundir população muçulmana com activismo islamista. Não é sério ler cartografia eleitoral como se fosse cartografia religiosa. Mas também já não é sério fingir que nada disto existe. O que os documentos oficiais, a discussão parlamentar e parte crescente da imprensa francesa indicam é que a questão deixou de ser marginal.

A palavra-chave é, precisamente, " entrismo ". Não já o modelo grosseiro da agitação revolucionária, mas a infiltração molecular da vida local: associações, clubes, acções caritativas, educação paralela, influência moral, pressão identitária, vitimização discursiva e negociação clientelar com executivos municipais frágeis, oportunistas ou eleitoralmente carentes. O relatório oficial francês fala de estratégias de dissimulação, de procura de legitimação e de vitimização, e assinala a persistência do investimento nos campos cultual, educativo e social. É uma táctica adaptada ao Ocidente: menos bandeira, mais rede; menos ruptura frontal, mais captura gradual.
É aqui que o pós-eleitoral francês se torna inquietante. Porque as autárquicas não criaram este fenómeno, mas podem ampliá-lo indirectamente de três maneiras.
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A primeira é a fragmentação da representação local. Quando o sistema partidário se fragmenta, os executivos municipais tornam-se mais vulneráveis a micro-clientelas organizadas e a minorias intensamente mobilizadas. Quem dispõe de sociabilidade densa, disciplina comunitária e capacidade de pressão local vale, então, mais do que a sua força demográfica bruta. Uma minoria coerente pesa mais do que uma maioria dispersa.
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A segunda é a covardia táctica da esquerda radical e de certos segmentos da esquerda municipal. Em França, uma parte da esquerda habituou-se a tratar o islamismo político não como problema civilizacional, mas como aliado objectivo na guerra cultural contra a República clássica, o universalismo francês, a polícia, a laicidade exigente e, claro, Israel e o chamado “Ocidente colonial”. Nem sempre esta convergência é orgânica; muitas vezes é oportunista, retórica ou eleitoral. Mas existe enquanto convergência de causas, de inimigos e de linguagem. E essa convergência torna-se particularmente visível no plano local, onde a política se faz menos por grandes doutrinas e mais por cumplicidades tácticas, silêncios úteis e trocas de legitimidade.
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A terceira é a reacção simétrica. Quanto mais o espaço local parece ceder a enclaves identitários, mais o Rassemblement National encontra matéria emocional para a sua narrativa de reconquista. O RN não cresce apenas por razões económicas ou securitárias; cresce também porque dá tradução política a um sentimento difuso de desapossamento territorial e cultural. Cada sinal de comunitarização, cada hesitação do poder republicano, cada concessão cobarde de uma autarquia, funciona como combustível simbólico para a direita nacionalista.
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Importa, porém, não cair no simplismo inverso. Parte da crítica feita ao relatório oficial foi precisamente a de que o Governo poderia estar a sobredramatizar o tema ou a usar uma categoria demasiado lata de “entrismo” para fins políticos. Essa objecção não deve ser descartada levianamente. Um Estado sério não combate uma estratégia de infiltração dissolvendo a inteligência conceptual. Se tudo é islamismo, nada é islamismo.

Mas reconhecer este risco de exagero não obriga a regressar à cegueira voluntária. Pelo contrário: exige precisão. O problema não é o Islão enquanto religião, nem os cidadãos franceses de confissão muçulmana enquanto corpo homogéneo; o problema é a utilização da escala local por redes ideológicas que pretendem substituir a cidadania por pertenças, a laicidade por excepções, a integração por separação e a deliberação democrática por pressão identitária organizada.
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Visto deste modo, o que preocupa em França não é ainda um mapa deáreas controladas”, expressão excessiva para o estado actual da evidência. O que preocupa é um mapa de áreas vulneráveis, de ecossistemas influenciados, de autarquias expostas à chantagem comunitária, de bairros onde a República recua antes de ser formalmente derrotada. E é precisamente por isto que o fenómeno é mais grave do que uma simples vitória eleitoral de um partido radical: porque corrói o solo cívico antes de se tornar plenamente visível no boletim de voto.

A França continua, portanto, a oferecer ao resto da Europa uma advertência severa. Quando o poder central enfraquece, quando os partidos se desagregam, quando a laicidade se torna tímida e quando o local é abandonado à soma de clientelas, o municipal deixa de ser apenas administrativo. Passa a ser civilizacional. A câmara municipal já não decide apenas transportes, urbanismo ou limpeza; decide, muitas vezes sem o admitir, quem ocupa o espaço simbólico, quem fixa as normas informais e quem ensaia, rua a rua, a substituição da comunidade política pela comunidade identitária.
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Resumindo: 
as municipais francesas de 2026 não provaram uma conquista islamista do território. Provaram algo talvez mais inquietante: que a França reconhece, ao mais alto nível do Estado, a existência de uma pressão local organizada de islamismo político e comunitarista; que a imprensa francesa já trata esse tema como questão municipal concreta, ainda que minoritária; e que o vazio criado pela fragmentação partidária pode acelerar a transformação de influências difusas em poder real. O que hoje são redes, amanhã poderão ser normas. O que hoje é clientelismo, amanhã poderá ser tutela. E o que hoje ainda parece episódico poderá tornar-se, com a cobardia suficiente, o modo ordinário de decomposição da República.

terça-feira, 24 de março de 2026

França municipal, França nacional

As autárquicas de 2026 e a decomposição do centro político francês

As eleições municipais francesas de Março de 2026 merecem ser lidas para além da sua superfície local. Não foram apenas um somatório de disputas camarárias, nem um simples mosaico de equilíbrios regionais. Foram, antes de mais, um teste nacional em escala municipal: um ensaio geral da presidencial de 2027, uma radiografia da recomposição partidária francesa e um sinal claro de que a França continua politicamente fragmentada, socialmente crispada e civilizacionalmente inquieta
A primeira conclusão é de natureza estratégica. Nem o Rassemblement National conseguiu a grande vaga urbana que pretendia, nem a France Insoumise confirmou a fantasia de hegemonia à esquerda. O RN ampliou de forma muito expressiva o número de municípios sob sua administração, mas essa progressão ficou largamente concentrada nos seus bastiões tradicionais, designadamente os Hauts-de-France e o arco mediterrânico. Em contrapartida, falhou objectivos politicamente decisivos nas grandes cidades, como Marselha e Toulon, ainda que a vitória em Nice lhe tenha dado um troféu de grande visibilidade..
Isto significa que o RN continua a crescer, mas cresce com limites. A sua força nacional já não pode ser negada; a sua capacidade de territorialização fina continua, porém, desigual. A municipalização do voto nacionalista avança, mas não se universaliza. E esta distinção é decisiva, porque a eleição presidencial francesa não se vence apenas com intensidade sociológica ou com raiva plebeia: exige, no segundo turno, amplitude geográfica, respeitabilidade táctica e capacidade de transbordo eleitoral.
Do lado da extrema-esquerda, o quadro é ainda mais revelador. A France Insoumise teve alguns ganhos localizados e preservou utilidade táctica em certas coligações, mas não conquistou nenhuma grande cidade emblemática; mais importante ainda, as alianças com a esquerda não-melenchonista revelaram-se, em regra, eleitoralmente penalizadoras. Paris e Marselha tornaram-se, por isso, politicamente eloquentes: os socialistas ganharam ou resistiram melhor quando recusaram a tutela da esquerda radical do que quando se deixaram absorver por ela.

É aqui que aparece a verdadeira novidade política do escrutínio: a esquerda moderada ganhou mais quando recusou a intoxicação melenchonista do que quando se deixou contaminar por ela. O “lado radioactivo” de Mélenchon tornou-se um passivo mais do que um activo para a esquerda que ainda aspira a governar. O eleitorado urbano, onde a esquerda precisava de parecer ampla, séria e administrativamente competente, revelou pouca disposição para premiar a agitação ideológica travestida de coligação eleitoral.
Também os ecologistas saem politicamente diminuídos. Depois da vaga verde de 2020, perderam cidades relevantes e confirmaram a erosão do seu momento de ascensão. O ecologismo municipal francês, que em tempos se quis força de substituição, aparece agora mais como força de complemento ou de arbitragem, incapaz de impor sozinho um eixo político nacional.
Entretanto, o que muitos julgavam moribundo regressa à cena: o velho eixo socialista, moderado e centrista. O Partido Socialista conservou a condição de principal força local da esquerda, apesar das suas lutas internas em torno das alianças com a LFI.
O campo macronista, embora enfraquecido nacionalmente, conseguiu vitórias e reposicionamentos urbanos relevantes. E Édouard Philippe, reeleito no Havre, volta a surgir como uma peça importante da arquitectura presidencial de 2027. O que estas municipais mostram é que, perante a dupla pressão do populismo de direita e do radicalismo de esquerda, muitos eleitorados urbanos e intermédios ainda preferem a moderação organizada ao extremismo ruidoso.

Mas seria um erro concluir daqui que a França se recompôs. O que se recompôs foi apenas o mecanismo defensivo do sistema. A sociedade francesa permanece profundamente fraccionada. A abstenção no segundo turno atingiu 42,18%, o que significa que apenas 57,82% dos inscritos votaram. Não se trata apenas de cansaço democrático; trata-se de distância cívica, de desconfiança perante a representação e de erosão do vínculo entre território, instituições e pertença política.
É neste ponto que a leitura deve tornar-se mais funda. As autárquicas não confirmam apenas uma recomposição partidária; sugerem também a continuação de uma recomposição antropológica da França. Não é metodologicamente sério transformar cada mapa eleitoral num mapa religioso ou étnico. Mas também não é sério fingir que a questão civilizacional desapareceu do campo político francês. A escala local tornou-se, cada vez mais, o ponto onde se cruzam imigração, identidade, segurança, fragmentação comunitária e disputa ideológica.
Daqui não decorre, automaticamente, que as municipais de 2026 tenham sido determinadas pelo islamismo político. Essa extrapolação seria abusiva. Mas decorre, sim, que a política local francesa está cada vez mais exposta a clivagens identitárias, comunitárias e civilizacionais que o velho republicanismo universalista já não consegue absorver com facilidade. E é precisamente nesse vazio que prosperam, de um lado, a retórica de insurreição cultural da esquerda radical, e do outro, a narrativa de reconquista nacional do RN.
Por isso, a principal lição destas eleições não é que a França tenha evitado o abismo. É que o abismo continua lá, apenas temporariamente contido por estruturas locais mais sólidas do que as narrativas mediáticas supunham. O RN não venceu como queria; a LFI não impôs a sua linha; os socialistas e os moderados respiraram. Mas nada disto resolve o problema essencial: a França já não discute apenas programas, impostos ou transportes urbanos. Discute pertença, autoridade, assimilação, ordem pública, memória nacional e fidelidade civilizacional.

Em suma: estas municipais travaram dois triunfalismos — o do RN urbano inevitável e o da esquerda radical indispensável —, mas não travaram a dinâmica de fundo que mina a V República.

A França continua a mover-se entre enclaves ideológicos, ressentimentos territoriais e fidelidades políticas cada vez menos compatíveis entre si. O sistema ganhou tempo. A nação não ganhou paz.

segunda-feira, 23 de março de 2026

Natividade M'Boole


Natividade da Glória Bule.
27 de Fevereiro de 1953
https://biografia.co.mz/?p=1972

domingo, 22 de março de 2026

Ormuz: memória do Império, geoestratégia e cegueira contemporânea

Preste João e Camões
Há temas que regressam à actualidade como se fossem novidade, quando na verdade apenas regressam ao lugar onde a história nunca deixou de os conservar: o lugar das permanências. O Estreito de Ormuz é um deles. A espuma mediática trata-o como ponto de crise conjuntural, mera nervura energética do presente, cenário de ameaças, bloqueios e demonstrações de força. Mas Ormuz é mais do que um estreito, mais do que uma linha de passagem marítima, mais do que um nome repetido por analistas apressados. Ormuz é uma chave. E Portugal, muito antes de os tecnocratas da geopolítica descobrirem os “chokepoints”, já percebera o que significava controlar as KPls (chaves indicadoras de desempenho), as "Gates" e os "gargalos do mundo".[1]

Convém, por isso, começar pela história — sobretudo para os mais novos, isto é, para os que foram educados a confundir a história nacional com um catálogo de culpas, simplificações e prudências retroactivas. D. Manuel I herdou de D. João II não apenas um trono, mas uma visão. Essa visão consistia em projectar Portugal no Índico através do domínio das suas chaves fundamentais: Ormuz, Ádem, Goa e Malaca.[2] Não se tratava de capricho aventureirista, nem de mera avidez mercantil. Tratava-se de compreender que o poder marítimo só existe verdadeiramente quando sabe onde apertar a circulação do comércio, das peregrinações, das alianças e das guerras. Foi essa a lógica da expedição de 1506, da conquista de Ormuz por Afonso de Albuquerque em 1507, da posterior tomada de Goa em 1510 e de Malaca em 1511, numa sequência que daria a Portugal posições terrestres a partir das quais o império marítimo passaria a ser mais do que um sonho náutico: passaria a ser uma arquitectura de poder.[2]

É aqui que a história deixa de ser apenas evocação e passa a ser geoestratégia. Robert D. Kaplan insiste em que o século XXI obrigará os Estados Unidos — e, por arrastamento, o Ocidente — a deslocarem o olhar do Atlântico para o Índico, para essa “Ásia das Monções” onde se cruzam energia, demografia, radicalismo, comércio marítimo e disputa entre grandes potências.[3] A região que vai do Corno de África ao arquipélago indonésio, passando por Omã, Índia, Paquistão, Bangladesh, Sri Lanka e Sudeste Asiático, não é uma periferia exótica: é um centro em formação. O que impressiona, visto a partir de Portugal, é que este diagnóstico, hoje apresentado como renovação analítica, reencontra uma intuição antiga da nossa experiência imperial.
Afonso de Albuquerque percebeu, com a dureza prática dos homens de acção, aquilo que muitos estrategas contemporâneos esquecem no conforto dos mapas digitais: o mar não se controla apenas no mar. Controla-se a partir de bases em terra, preferencialmente em ilhas, promontórios, penínsulas e fortalezas que permitam vigiar, abastecer, intimidar e negociar. A grande estratégia portuguesa no Índico entre 1507 e 1515 assentou precisamente nisso: não numa fantasia de omnipotência oceânica, mas na articulação entre mobilidade naval e fixação terrestre. O império das feitorias só sobrevivia se fosse, também, um império de fortalezas.[4]

Foi isso, aliás, que Portugal tentou fazer quando procurou entender-se com a Pérsia Safávida contra o inimigo otomano, separando o tabuleiro naval do tabuleiro continental.[4] A lição é de uma actualidade desconfortável. Uma potência marítima pode dispor de marinhas poderosas, tecnologia superior e capacidade de projecção; mas sem rede política em terra, sem acordos sólidos, sem inteligência cultural e sem prudência estratégica, o domínio do mar degrada-se em exibição temporária. Ormuz, ontem como hoje, não se segura apenas com navios; segura-se com arquitectura de influência.
Mas a história do Império portuguesa não se esgota no cálculo estratégico. Seria empobrecê-la, e talvez não a compreender de todo, separá-la da dimensão imaginária que a alimentava. É aqui que surge o mito do Preste João, figura lendária e persistentemente mobilizadora no imaginário europeu. Durante séculos, a Europa projectou nessa figura a esperança de encontrar, algures em África ou no Oriente, um rei cristão poderoso que permitisse cercar o Islão, restaurar equilíbrios perdidos e reconectar a Cristandade a uma dimensão universal que julgava sua por direito providencial.[5] O Preste João não foi apenas uma fantasia piedosa. Foi um instrumento mental de orientação geopolítica. A sua força residia justamente no facto de combinar escatologia, diplomacia e estratégia numa só imagem.
Essa força simbólica ajuda a compreender melhor a expansão portuguesa. A busca do Preste João não funcionava apenas como curiosidade medieval ou impulso evangelizador. Funcionava também como legitimidade narrativa para a presença portuguesa em África e no Oriente. O mito oferecia uma moldura espiritual àquilo que era, simultaneamente, um projecto de comércio, guerra, reconhecimento geográfico e afirmação civilizacional.[5] E, como sucede com todos os mitos geopolíticos, a realidade acabaria por resistir à fantasia. A Etiópia cristã existia, sim, mas não correspondia ao molde idealizado pelo imaginário europeu. O desfasamento entre mito e realidade não anulou, porém, a utilidade política do mito. Mostrou apenas que as civilizações actuam não só pelo que sabem, mas também pelo que esperam encontrar.

Chegados aqui, Camões impõe-se. Não como ornamento literário, mas como intérprete maior de uma ambição histórica. Em Os Lusíadas, Camões regista e glorifica a empresa oriental portuguesa, incluindo os feitos de Albuquerque em Ormuz, mas fá-lo com uma espessura moral e política que a leitura escolar frequentemente banaliza.[1][6] Camões aparece aqui como profeta sisudo: alguém que canta a grandeza, mas não abdica da advertência; que celebra a expansão, mas recusa reduzir o império à simples embriaguez de vitória; que oferece a visão da “máquina do mundo” não como licença para a megalomania, mas como imposição de responsabilidade.
Talvez seja precisamente esse o ponto onde mais falha o nosso presente. Perdemos a linguagem da responsabilidade estratégica e conservámos apenas o reflexo moralista, burocrático ou sentimental. Falamos de rotas energéticas sem cultura histórica; falamos de alianças sem memória civilizacional; falamos de guerra e paz como se o mundo fosse administrável a partir de relatórios, comunicados e conferências multilaterais. O contraste com o século XVI não serve para alimentar nostalgias infantis nem projectos de reconstituição impossível. Serve para recordar que um pequeno reino periférico foi capaz de pensar o mundo em termos globais, de identificar centros de gravidade, de transformar geografia em poder e de ligar mito, fé, comércio e força numa só visão operativa.[1][2]

Ormuz, por isso, não deve ser lido apenas como problema petrolífero, ponto de tensão entre o Irão e o Ocidente, ou mera artéria do comércio mundial. Deve ser lido como símbolo. Símbolo daquilo que a Europa foi capaz de compreender quando ainda se sabia civilizacionalmente viva. Símbolo de uma política externa que não se confundia com gestão de danos. Símbolo, também, da diferença entre povos que entram na história para a moldar e povos que se limitam a comentá-la depois de feita por outros.
Revisitar Ormuz é, portanto, mais do que revisitar um episódio imperial. É testar a nossa própria indigência contemporânea. E talvez a pergunta mais incómoda não seja se Portugal poderia hoje voltar a pensar estrategicamente o mundo. A pergunta verdadeiramente incómoda é outra: quererá sequer voltar a pensar-se a si mesmo como alguma coisa que mereça ser situada no mundo?

Fontes
[1] José Costa-Deitado, O Estreito de Ormuz: Revisitar Impérios, Rever Abril, Cdeitado, Março de 2026.
[2] Jaime Nogueira Pinto, O estreito de Ormuz: dos capitães da Índia aos capitães de Abril, Observador.
[3] Robert D. Kaplan, Monsoon: The Indian Ocean and the Future of American Power, Random House, 2010.
[4] Bruno Cardoso Reis, Regressar a Ormuz e outras lições aprendidas da guerra com o Irão, Observador.
[5] Roger Crowley, referências ao mito do Preste João no quadro do imaginário europeu da expansão portuguesa e da procura de alianças cristãs no Oriente e no Nordeste de África.
[6] Luís de Camões, Os Lusíadas, em especial a tradição épica relativa à expansão portuguesa no Oriente e à figura de Afonso de Albuquerque.