terça-feira, 27 de outubro de 2026

o que é que ele sabe deles?

 irredutíveis na defesa de Luís Neves

O POVO NÃO CABE NUMA TENDA E A DEMOCRACIA NÃO SE DECIDE DE BRAÇO NO AR

Habitação, activismo e comunicação social: quando a representação mediática procura substituir a representação democrática

Uma crise social verdadeira pode ser politicamente instrumentalizada. Esta afirmação devia ser uma evidência; em Portugal, porém, parece exigir uma coragem que falta a uma parte considerável do jornalistado e do comentariado. A dificuldade de acesso à habitação é real, grave e atinge trabalhadores, jovens, reformados e famílias. Por isso, não deve ser entregue a organizações que transformam necessidades legítimas em oportunidades de agitação.

Não contesto o direito de manifestação, nem a dignidade de quem protesta por não conseguir pagar uma renda. Contesto que activistas, amplificados por câmaras e microfones, sejam apresentados como «o povo», enquanto as instituições eleitas surgem como obstáculo à vontade popular. Entre o cidadão que precisa de uma casa e o militante que ambiciona uma revolução existe uma diferença que o jornalismo tem obrigação de investigar.

A CRISE EXISTE; O MONOPÓLIO DA SUA REPRESENTAÇÃO NÃO

O problema habitacional não nasceu com as tendas, nem desaparecerá com a sua remoção. Resulta da insuficiência da oferta, dos obstáculos à construção, dos custos, dos baixos rendimentos e da pressão sobre a procura. Uma direita que represente o país real tem de apresentar respostas para a construção, o arrendamento e a protecção dos vulneráveis.

Abandonar estas questões à esquerda radical seria um erro político e uma falha moral. Mas reconhecer a legitimidade de uma causa não obriga a aceitar a neutralidade dos seus organizadores. Quem convoca uma manifestação tem o direito de defender uma ideologia; quem a acompanha tem o direito de conhecer essa ideologia; e quem informa tem o dever de não a apagar.

QUEM FALA, EM NOME DE QUEM?

Uma investigação do Observador identificou ligações de dirigentes de movimentos pela habitação ao PCP e ao Bloco de Esquerda, registando igualmente a garantia dos próprios de que actuam com autonomia face aos partidos. Essas ligações são matéria de interesse público; não provam uma cadeia de comando partidária ou financiamento clandestino. Exigem escrutínio, não inocência associativa automática.[1]

Há ainda militantes de organizações declaradamente revolucionárias que intervêm neste universo. Renata Cambra, antiga dirigente do MAS, é porta-voz do Trabalhadores Unidos, formação que se apresenta como socialista e revolucionária. Uma publicação política internacional entrevistou-a sobre a luta pela habitação, identificando-a como uma das protagonistas das mobilizações. Isto não retira legitimidade ao que diz; permite, isso sim, compreender de onde fala.[2]

Em Lisboa, Priscila Valadão tem moderado assembleias; no Porto, João Silveira afirmou que as decisões são tomadas em assembleia, rejeitando uma hierarquia. A reportagem do Observador descreve estas funções e dá voz às suas explicações. Outros percursos políticos devem ser investigados individualmente, sem transformar nacionalidade ou simpatia ideológica em prova de comando ou crime. O problema é apresentar uma intervenção política organizada como voz espontânea de todo o país.[3]

Pergunte-se: como são escolhidos os porta-vozes? Que organizações participam? De onde vêm os recursos? E quantas pessoas representam aqueles que aparecem como intérpretes de todos os que têm dificuldades com a habitação?

A MÁQUINA QUE FABRICA REPRESENTANTES

Aqui reside a responsabilidade do jornalistado. Uma câmara pode mostrar uma acampada; não pode transformar a acampada numa amostra representativa do país. A presença diante das objectivas não prova legitimidade para falar em nome de milhões.

O mecanismo é conhecido: uma acção reúne algumas dezenas ou centenas; a ocupação assegura imagens; a possibilidade de intervenção policial acrescenta tensão; e a televisão encontra personagens e confronto. Para uma organização que domina a linguagem da agitação, a atenção conseguida pode ser muito superior à sua expressão eleitoral. O que as urnas não lhe deram, a repetição mediática ajuda a simular.

Os mesmos repertórios de mobilização podem circular entre causas diferentes — habitação, clima ou Palestina. Essa convergência merece investigação; não demonstra, por si só, que exista uma direcção comum.

Daqui não decorre que cada ferimento seja deliberadamente procurado ou que cada polícia tenha actuado bem. Seria grave afirmá-lo sem prova. Mas é legítimo discutir o incentivo político e mediático criado por confrontos: uma imagem de violência pode dominar sucessivos noticiários, enquanto a pergunta sobre a legalidade da ocupação, os objectivos dos organizadores ou as propostas para construir casas fica relegada para rodapé. Quando a cabeça partida vale mais, em tempo de antena, do que anos de fracasso habitacional, a distorção está instalada.

GRAMSCI, BRANQUINHO E A BATALHA PELA LINGUAGEM

Antonio Gramsci compreendeu que o poder político não se sustenta apenas na força do Estado: depende também da capacidade de formar consensos na sociedade, através de instituições, ideias, linguagem e cultura. Não é necessário subscrever o seu comunismo para reconhecer a utilidade deste instrumento de análise. Quem define o que parece natural, moral ou aceitável entra na disputa política antes de se contarem os votos.

Duarte Branquinho, em «Para um gramscismo de direita», retoma essa discussão a partir das Novas Direitas e insiste em que o combate cultural não pode ficar entregue a intelectuais afastados do povo e das instituições. A sua proposta articula o trabalho político e metapolítico com o conhecimento das necessidades concretas da população. É uma leitura possível, não uma fórmula infalível nem uma obrigação de militância partidária.[4]

Aplicada à habitação, a lição é dupla. Por um lado, importa identificar a operação cultural que transforma o activista em «povo» e a autoridade em «repressão», antes mesmo de os factos serem apurados. Por outro, a direita só disputará essa hegemonia se ouvir quem trabalha, paga impostos e não consegue encontrar casa. Não basta denunciar os fabricantes de palavras de ordem; é necessário retirar-lhes o monopólio das respostas sociais.

A RUA, AS ASSEMBLEIAS E AS URNAS

As chamadas assembleias populares são formas de reunião e deliberação entre participantes. Podem organizar um protesto, formular exigências e escolher representantes do próprio movimento. Não são, por isso, automaticamente ilegais, nem pertencem exclusivamente ao trotskismo. A questão política surge quando as decisões de quem ocupa uma praça são apresentadas como expressão superior da vontade colectiva e utilizadas para pressionar o poder eleito a abdicar das suas responsabilidades.

É essa pretensão que rejeito visceralmente. Uma assembleia de braço no ar não substitui eleições livres, pluralismo, Parlamento e tribunais. O braço levantado conta uma presença; não conta os cidadãos ausentes. Uma praça cheia não é a nação inteira.

Quem viveu o PREC conhece a sedução das legitimidades paralelas: comissões, plenários e vanguardas falavam em nome de um povo cuja diversidade nem sempre queriam ouvir. Não afirmo que o Portugal de hoje seja o de 1975, nem que os presentes nas tendas partilhem todos um projecto revolucionário. A memória histórica serve para reconhecer uma tentação, não para declarar idênticas situações diferentes.

A LEI DE VASCO GONÇALVES

Há uma ironia que os defensores da ocupação permanente das praças fariam bem em estudar. O Decreto-Lei n.º 406/74, de 29 de Agosto, foi aprovado pelo II Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, e promulgado pelo Presidente António de Spínola. Era um governo do período revolucionário, com composição politicamente diversa; reduzi-lo, na sua totalidade, a um governo de extrema-esquerda seria historicamente impreciso.[5]

O diploma garantiu o direito de reunião pacífica sem autorização prévia e estabeleceu regras para o seu exercício. Na versão consolidada prevê, entre outras disposições, aviso prévio às autoridades municipais e condições para a intervenção quando ocorram perturbações graves e efectivas ou actos contrários à lei. A Constituição protege igualmente o direito de reunião e manifestação. Não se pode retirar de um artigo isolado a conclusão automática de que toda a acampada é ilegal: a avaliação depende dos factos, das normas aplicáveis e das decisões competentes.

Mas a conclusão política permanece: o direito de protestar não concede um direito ilimitado de apropriação do espaço público. A polícia tem o dever de cumprir ordens legais, respeitando a necessidade e a proporcionalidade; eventuais excessos devem ser investigados. Defender os agentes quando actuam legitimamente e exigir responsabilidade quando não o façam são duas exigências do mesmo Estado de direito.

UMA DIREITA QUE NÃO ABANDONE A QUESTÃO SOCIAL

No meu «princípio da flutuabilidade política» propus uma hipótese: quando uma força perde influência institucional, a mobilização extra-institucional pode tornar-se mais valiosa para recuperar visibilidade e pressão. Não é uma lei matemática nem uma explicação para todas as manifestações; os movimentos pela habitação existiam antes da actual conjuntura. É uma pergunta a testar, não uma conspiração a presumir.

A democracia precisa de jornalismo que faça perguntas incómodas a todos, de uma polícia respeitada e fiscalizada e de governantes que resolvam problemas. Precisa também de uma direita social e nacional capaz de falar das rendas e dos salários sem pedir licença à esquerda radical.

Os activistas têm direito à sua voz. Não têm é o direito a ser promovidos, por decreto televisivo, a representantes do povo. E os portugueses que não montam tendas, não levantam o braço numa assembleia e não aparecem no telejornal continuam a ser cidadãos de pleno direito: são eles, juntamente com todos os outros, que decidem nas urnas quem governa o país.

José Costa-Deitado

Notas e referências

[1] Rui Pedro Antunes, «Comunistas e bloquistas lideram movimentos de luta pela habitação», Observador, 16 de Outubro de 2026.

[2] Combate, publicação do Trabalhadores Unidos; entrevista a Renata Cambra sobre a habitação, El Socialista.

[3] «Por dentro das assembleias populares das acampadas», Observador.

[4] Duarte Branquinho, «Para um gramscismo de direita», Breviário, 10 de Junho de 2026.

[5] Decreto-Lei n.º 406/74, versão consolidada, Diário da República; composição do II Governo Provisório, Assembleia da República; artigo 45.º da Constituição.

sábado, 24 de outubro de 2026

ENQUANTO NÓS DORMÍAMOS, A EXTREMA-ESQUERDA QUE PERDEU NAS URNAS OCUPA AS PRAÇAS

Da França incendiada às tendas de Lisboa e do Porto: a velha tentação de substituir a legitimidade eleitoral pelo poder da rua.

Há uma ironia particularmente cruel na Europa contemporânea: enquanto as Novas Direitas procuram conquistar nas urnas os sectores populares que a esquerda foi abandonando, parte da extrema-esquerda parece decidida a recuperar nas ruas aquilo que já não consegue conservar nas instituições. A França oferece-nos o espectáculo mais violento desta transformação; a Espanha fornece alguns dos seus antecedentes sociais e organizativos; Portugal, sempre aplicado na importação das modas políticas estrangeiras, começou já a experimentar a sua versão doméstica, por enquanto com mais tendas do que barricadas.

Não estamos perante fenómenos rigorosamente idênticos, nem seria intelectualmente sério colocar no mesmo plano uma manifestação pacífica em Madrid, um acampamento ilegal em Lisboa e o incêndio de um edifício público em França. Mas existe uma questão política comum que merece ser discutida: até que ponto a mobilização extra-institucional está a transformar-se, para determinadas correntes da esquerda radical, num instrumento de compensação da perda de influência eleitoral?

É neste contexto que a advertência de Gavin Mortimer, publicada no The Spectator, adquire particular significado: a anarquia de Outubro poderá não passar do aperitivo daquilo que espera a França na Primavera de 2027.

França: quando a contestação social é sequestrada pela violência

Os acontecimentos de 17 de Outubro ultrapassaram largamente os limites de uma jornada de protesto. O que começara por reunir estudantes descontentes com o sistema educativo e cidadãos revoltados contra o agravamento do custo de vida acabou por proporcionar o cenário de uma autêntica batalha urbana, com incêndios, pilhagens, destruição de estabelecimentos comerciais, ataques às forças de segurança e danos em edifícios públicos.

Em Limoges, a histórica Câmara Municipal foi incendiada. Em Paris, Marselha, Lille e noutras cidades registaram-se confrontos e destruição, num movimento que Gavin Mortimer descreve como uma das mais graves manifestações de desordem urbana da França contemporânea. O Governo de Sébastien Lecornu atribuiu parte da violência a grupos organizados da extrema-esquerda, distinguindo-os dos delinquentes que aproveitaram a situação para pilhar e destruir.

Esta distinção merece atenção, porque impede duas simplificações igualmente convenientes: não se pode transformar todos os manifestantes em revolucionários, mas também não se pode absolver os grupos violentos mediante a invocação de causas sociais respeitáveis.

A reivindicação de melhores salários não autoriza o incêndio de uma Câmara Municipal; a exigência de melhores escolas não legitima a sua destruição; e o direito de manifestação não compreende o direito de converter o espaço público num território subtraído à autoridade democrática.

Existe, aliás, uma contradição devastadora neste radicalismo: em nome da justiça social, destrói-se património colectivo, prejudicam-se trabalhadores, arruínam-se comerciantes e exige-se ao Estado, já financeiramente comprometido, que pague a factura da devastação.

É uma curiosa maneira de defender os pobres: aumentar-lhes os impostos para reconstruir aquilo que os seus pretensos defensores incendiaram.

A esquerda perdeu a questão social — e tenta recuperá-la na rua

Durante décadas, a esquerda europeia beneficiou de uma associação quase automática entre progressismo político e defesa das classes trabalhadoras. Entretanto, partes importantes dessa esquerda institucional deslocaram as suas prioridades para a política identitária, as causas culturais, a imigração e as agendas transnacionais, enquanto muitos trabalhadores continuavam confrontados com salários insuficientes, habitação inacessível, insegurança e deterioração dos serviços públicos.

Neste vazio político cresceram as Novas Direitas, que começaram a recuperar temas tradicionalmente associados à esquerda: dignidade do trabalho, protecção social, poder de compra, habitação, segurança e soberania nacional.

Não foi necessariamente a direita que abandonou as suas antigas posições para ocupar as da esquerda; foi uma parte da esquerda que deixou politicamente disponíveis sectores sociais que julgava possuir por direito hereditário.

Em França, a disputa entre a Reunião Nacional e Jean-Luc Mélenchon demonstra como a questão social voltou ao centro da competição política. O problema surge quando sectores radicalizados deixam de encarar a manifestação como instrumento legítimo de pressão e começam a apresentá-la como fonte de legitimidade superior à decisão eleitoral.

A França aproxima-se assim de uma encruzilhada perigosa: uma população que exige mais protecção social, um Estado com menor margem orçamental e movimentos radicais capazes de transformar a frustração colectiva em confrontação política.

Espanha: a questão da habitação e a mobilização permanente

A Espanha apresenta uma realidade menos dramática, mas igualmente reveladora da importância política adquirida pela habitação. Milhares de manifestantes têm saído às ruas de Madrid e de outras cidades, contestando a crise habitacional e reclamando medidas contra a especulação e os despejos.

A existência de uma crise efectiva não deve ser confundida com a legitimidade de todas as respostas que a contestação possa produzir. Há famílias que não conseguem pagar uma renda, jovens que não conseguem sair de casa dos pais e trabalhadores que se vêem expulsos dos centros urbanos. Esses problemas são reais, independentemente de quem os denuncie.

Outra coisa é a instrumentalização política da indignação, sobretudo quando a lógica da negociação dá lugar à ideia de mobilização permanente e de ocupação como forma de impor decisões aos poderes eleitos.

A experiência espanhola interessa a Portugal precisamente porque demonstra a capacidade de determinados movimentos para converter uma necessidade social concreta numa plataforma política de contestação mais ampla. E, neste domínio, a proximidade geográfica nem sequer exige grandes esforços de importação.

Portugal: da crise da habitação à ocupação das praças

Em Portugal, a crise habitacional não nasceu com as manifestações de Outubro. Foi-se agravando durante anos de governação em que se multiplicaram promessas, programas, anúncios e conferências de imprensa, enquanto a oferta de casas continuava insuficiente e a imigração aumentava a pressão sobre um mercado já profundamente desequilibrado.

A responsabilidade dos sucessivos governos não desaparece porque a extrema-esquerda decidiu descobrir, finalmente, que os portugueses precisam de casa para viver.

O problema começa quando uma reivindicação social legítima é apropriada por sectores políticos que parecem mais interessados no confronto com as instituições do que na construção de soluções viáveis.

As ocupações do Rossio, em Lisboa, e da Praça D. João I, no Porto, culminaram, em 20 de Outubro, numa intervenção da PSP. Os organizadores contestaram a actuação policial e anunciaram a continuação dos protestos.

Não há fundamento para equiparar estes acontecimentos à violência francesa. Há, todavia, motivos para analisar a sua dimensão política. A presença e a influência de organizações da esquerda radical nestas mobilizações justificam escrutínio, embora não demonstrem, por si só, uma direcção única nem transformem todos os participantes em militantes extremistas.

A questão central é outra: quem representa os cidadãos que precisam de habitação? Os representantes democraticamente eleitos, sujeitos a fiscalização e responsabilização, ou os dirigentes de movimentos que procuram impor a sua própria agenda mediante a ocupação continuada das praças?

E há uma pergunta ainda mais incómoda: onde esteve esta indignação organizada durante os longos anos em que se acumularam as condições que produziram a actual crise?

Parece que, para determinados sectores da esquerda, a gravidade de uma emergência social depende extraordinariamente da identidade partidária de quem ocupa o Governo.

O Princípio da Flutuabilidade Política

É aqui que recupero uma formulação que tenho vindo a desenvolver e que considero particularmente adequada à interpretação destes acontecimentos: o Princípio da Flutuabilidade Política.

Segundo este princípio, quanto menor for o poder institucional de uma força política, maior tende a ser o valor que atribui à mobilização extra-institucional, desde que disponha de organizações, causas mobilizadoras e capacidade para transformar queixas concretas em injustiças colectivas.

A sua tradução política, em linguagem menos académica, é simples:

«Quando a esquerda, nas urnas, é lançada para a oposição, a pressão que vai exercer nas ruas é proporcional ao peso do poder perdido.»

Não se trata de uma lei universal. Trata-se de uma hipótese interpretativa, cuja utilidade reside precisamente na possibilidade de confrontá-la com os acontecimentos.

Em França, a radicalização de determinados movimentos convive com a ascensão eleitoral das Novas Direitas. Em Espanha, a mobilização em torno da habitação cruza-se com disputas entre partidos, sindicatos e movimentos sociais. Em Portugal, as ocupações surgem num contexto de perda de influência parlamentar da esquerda radical e de recomposição do sistema partidário.

A coincidência não demonstra uma conspiração internacional, mas justifica uma pergunta: estará parte da esquerda radical a procurar reconstruir nas ruas o poder de condicionamento que deixou de possuir no Parlamento?

A memória portuguesa que alguns preferem esquecer

Para quem viveu o PREC, esta questão tem uma ressonância histórica impossível de ignorar.

Em 1974 e 1975, Portugal conheceu os efeitos de uma cultura política que pretendia atribuir às organizações revolucionárias, às comissões e à chamada legitimidade popular um poder frequentemente colocado acima das regras da democracia representativa.

Não afirmo que estejamos perante a repetição do PREC. As circunstâncias históricas, as instituições e os protagonistas são profundamente diferentes. Mas reconheço uma tentação política familiar: a de apresentar a rua como expressão superior da vontade popular, sobretudo quando o resultado das urnas não corresponde aos objectivos dos seus autoproclamados intérpretes.

A democracia não dispensa o protesto; pelo contrário, protege-o. Mas exige igualmente que a liberdade de manifestação não se transforme em privilégio de ocupação, intimidação ou violência.

O voto não dá aos vencedores o monopólio da razão, tal como a manifestação não concede aos vencidos o direito de governar pela desordem.

A Primavera pode trazer a resposta

A advertência de Gavin Mortimer ganha particular importância perante as presidenciais francesas de 2027. A possibilidade de uma vitória das Novas Direitas coloca uma questão que ultrapassa a personalidade de Marine Le Pen ou a estratégia de Jean-Luc Mélenchon: saber se todos os protagonistas aceitarão as consequências políticas de uma decisão eleitoral que lhes seja desfavorável.

A anarquia de Outubro não permite prever inevitavelmente uma explosão revolucionária na Primavera. Mas permite identificar riscos que seria irresponsável desvalorizar.

Na França, a violência destruiu parte da legitimidade moral de manifestações inicialmente sustentadas por reivindicações sociais compreensíveis. Na Espanha, a habitação continua a alimentar uma mobilização de forte intensidade. Em Portugal, a questão permanece em aberto, entre a necessidade urgente de reformas sociais e a tentação de transformar cada praça num palco de confrontação com o Estado.

As Novas Direitas terão de demonstrar que são capazes de responder à questão social através de políticas concretas, sem a abandonar ao radicalismo ou reduzi-la a simples instrumento eleitoral. A esquerda democrática terá, por sua vez, de decidir se pretende recuperar a confiança dos cidadãos ou continuar a tolerar ambiguidades perante aqueles que confundem contestação com coacção.

Porque, no fim de contas, uma democracia pode suportar governos impopulares, maiorias instáveis e manifestações multitudinárias. O que dificilmente poderá suportar é a normalização da ideia de que uma minoria organizada adquire, por ocupar uma praça, um direito de veto sobre a vontade expressa nas urnas.

Enquanto nós dormíamos, alguns dos que perderam influência nos Parlamentos descobriram que ainda podiam ocupar as praças.

O problema não é terem acordado primeiro. É julgarem que, por fazerem mais barulho, passaram a ter o direito de mandar nos restantes.


Fontes e leituras: 

Juan Sanhermelando, Mientras Dormías (excertos fornecidos); 

Gavin Mortimer, «The truth about the anarchy in France», The Spectator. 

As duas imagens são ilustrações editoriais criadas para este artigo, não registos fotográficos dos acontecimentos.

QUANDO A EXTREMA-ESQUERDA PERDE AS URNAS, OCUPA AS PRAÇAS

 Da insurreição francesa às tendas portuguesas: a disputa pela questão social, a flutuabilidade política e o desarmamento intelectual da democracia.

A FRANÇA DITA A MODA. PORTUGAL IMPORTA OS FIGURINOS.

A França, esse inesgotável laboratório das convulsões políticas europeias, parece estar a assistir a uma transformação particularmente reveladora: perante o crescimento das Novas Direitas e a apropriação, por estas, de uma parte considerável das reivindicações sociais tradicionalmente identificadas com a esquerda, determinados sectores da extrema-esquerda descobriram que as emergências climáticas, palestinianas, identitárias e de género, embora úteis à mobilização dos militantes, não bastam para reconquistar os trabalhadores, as classes médias empobrecidas e os cidadãos que vêem desaparecer a segurança económica e social de que anteriormente beneficiavam. A questão social regressou ao centro do conflito político, mas já não constitui propriedade exclusiva das esquerdas, e é precisamente essa perda do monopólio ideológico que ajuda a explicar a crescente importância atribuída à mobilização de rua.

A resposta de algumas organizações radicais francesas parece inspirar-se numa receita bastante antiga: transformar reivindicações concretas em movimentos de contestação global, procurar confrontos com as autoridades, desacreditar as instituições representativas e apresentar a mobilização de minorias organizadas como expressão de uma vontade popular superior àquela que se manifesta nas urnas. Não se pretende, naturalmente, reduzir toda a contestação social francesa a uma estratégia revolucionária, mas seria igualmente ingénuo ignorar que existem organizações para as quais a rua não é apenas um espaço de protesto, mas um instrumento de disputa pelo poder.

Portugal, como habitualmente, não poderia deixar de importar a moda, embora numa versão mais modesta, menos violenta e abundantemente acompanhada por câmaras de televisão. O tema escolhido foi a habitação, aproveitando uma crise verdadeira, socialmente dolorosa e politicamente explosiva, cujas causas, porém, não nasceram há dois anos, nem podem ser atribuídas exclusivamente ao Governo actualmente em funções.

A CRISE DA HABITAÇÃO QUE A GERINGONÇA AJUDOU A DEIXAR CRESCER

A geringonça chegou ao poder em 2015, apoiada pelo PS, PCP e Bloco de Esquerda, e António Costa permaneceu primeiro-ministro até 2024. Foram quase nove anos de governação socialista, primeiro sustentada por acordos parlamentares com aqueles partidos e posteriormente por uma maioria absoluta, durante os quais a habitação se tornou progressivamente mais inacessível, a construção se revelou manifestamente insuficiente e milhares de jovens e famílias foram empurrados para uma situação de crescente dependência económica e insegurança residencial.

Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. Segundo a AIMA, Portugal contabilizava, no final de 2024, 1.543.697 cidadãos estrangeiros residentes, enquanto estimativas divulgadas pelo Banco de Portugal apontavam para uma insuficiência habitacional da ordem das 300 mil casas. Não se trata de estabelecer uma equivalência simplista entre imigrantes e habitações, nem de atribuir exclusivamente à imigração uma crise que também resulta de décadas de deficiências estruturais, mas é impossível analisar seriamente o mercado habitacional ignorando que um aumento expressivo da população residente, quando não acompanhado por crescimento adequado da oferta, contribui para pressionar os preços e as rendas.

O problema não foi, portanto, apenas a imigração, mas a ausência de uma política que articulasse os fluxos migratórios com a capacidade nacional de alojamento, construção, transportes e serviços públicos. Acrescentem-se o peso da burocracia urbanística, os custos da construção, a lentidão dos licenciamentos, a instabilidade legislativa e a insuficiência de habitação pública, e teremos boa parte da explicação para uma crise que não apareceu subitamente com a mudança de Governo.

O extraordinário está em que alguns dos partidos que tiveram influência sobre o poder durante uma parte decisiva deste período tenham descoberto, precisamente depois de perderem essa influência, que a habitação constitui uma emergência social suficientemente grave para justificar a ocupação das praças públicas. É certo que existiam protestos anteriormente, mas a súbita centralidade política desta mobilização merece ser interrogada.

A ironia torna-se ainda mais cruel quando recordamos que muitos dos eleitores que concederam a António Costa uma maioria absoluta em 2022 vêem hoje os filhos e netos confrontados com rendas incomportáveis, salários insuficientes e a perspectiva de continuarem dependentes da casa familiar. O socialismo governou, prometeu, regulamentou e anunciou; a factura chegou, entretanto, às gerações que esperavam encontrar uma habitação onde começar a sua própria vida.

UMA TENDA NÃO É UM VOTO. NEM UMA ASSEMBLEIA IMPROVISADA É UM PARLAMENTO.

Rui Ramos, no seu artigo Uma tenda não é um voto, publicado no Observador, identifica um problema fundamental que ultrapassa largamente as reivindicações habitacionais: a tentativa de atribuir às chamadas «assembleias populares» uma legitimidade política equiparável à dos órgãos democraticamente eleitos, como se a ocupação de uma praça conferisse aos seus participantes poderes de representação que ninguém lhes concedeu através do sufrágio.

Importa não confundir duas realidades perfeitamente distintas. O direito de manifestação é uma garantia essencial da democracia; a pretensão de transformar uma manifestação numa autoridade política paralela não resulta desse direito. Os cidadãos podem protestar, exigir, contestar e organizar-se, mas nenhuma concentração, por mais ruidosa ou mediática que seja, dispõe automaticamente do mandato necessário para substituir as instituições representativas ou reclamar o reconhecimento de uma autoridade equivalente à delas.

É justamente aqui que a experiência histórica portuguesa se torna particularmente esclarecedora. Quem viveu o PREC, conheceu as suas assembleias autoproclamadas, as comissões revolucionárias, as organizações de massas e as intermináveis proclamações em nome de um povo que raramente fora consultado, reconhece neste tipo de linguagem algumas tentações antigas. Em 1974 e 1975, numerosos grupos procuravam fundamentar a sua legitimidade não na escolha livre dos cidadãos, mas na intensidade da sua mobilização, na ocupação de espaços e na proclamação de uma suposta consciência revolucionária superior.

Não estamos, evidentemente, perante uma repetição histórica do PREC, nem as condições portuguesas actuais permitem essa comparação literal. O que persiste é a tentação de transformar minorias especialmente organizadas em intérpretes exclusivos da vontade popular, apresentando a pressão exercida nas ruas como fonte de legitimidade superior àquela que resulta das eleições.

Foi esse o mecanismo que, há cinquenta anos, permitiu que grupos com reduzida expressão eleitoral procurassem impor à sociedade portuguesa projectos políticos que a maioria dos cidadãos não havia escolhido. E é precisamente por conhecer essa experiência que considero indispensável identificar os seus ecos contemporâneos, sem confundir analogia histórica com identidade de circunstâncias.

O PRINCÍPIO DA FLUTUABILIDADE POLÍTICA

Os acontecimentos recentes oferecem uma oportunidade particularmente interessante para recuperar aquilo a que tenho chamado Princípio da Flutuabilidade Política: quanto menor for o poder institucional de uma força política, maior tende a ser o valor que atribui à mobilização extra-institucional, desde que disponha de organizações, causas mobilizadoras e capacidade para transformar queixas concretas em injustiças colectivas.

Na formulação mais directa, que tenho vindo a utilizar:

«Quando a esquerda, nas urnas, é lançada para a oposição, a pressão que vai exercer nas ruas tende a ser proporcional ao peso do poder perdido.»

Não se trata de uma lei universal da ciência política, mas de uma hipótese interpretativa que encontra particular utilidade na análise das organizações revolucionárias que, perante a perda de influência institucional, procuram compensá-la através da contestação permanente.

O mecanismo é relativamente simples. Uma reivindicação social legítima, como a necessidade de habitação acessível, constitui o ponto de partida; a mobilização de cidadãos genuinamente afectados confere-lhe legitimidade moral; a intervenção de organizações politicamente experientes oferece capacidade logística e discursiva; finalmente, a multiplicação de palavras de ordem, símbolos e causas permite transformar um problema sectorial numa contestação generalizada à ordem política existente.

É neste contexto que importa questionar a presença simultânea de reivindicações habitacionais, bandeiras palestinianas, slogans anticapitalistas e apelos à confrontação com as autoridades. Ninguém está impedido de defender todas essas causas, mas a sua convergência revela que, pelo menos para uma parte dos participantes, a habitação constitui também um veículo para objectivos políticos mais vastos.

E aqui reside a distinção que o debate público tantas vezes procura evitar: uma coisa são os cidadãos que reclamam legitimamente uma casa e melhores condições de vida; outra são as organizações que pretendem capitalizar politicamente essa indignação. A existência dos primeiros não absolve automaticamente as estratégias dos segundos.

O JORNALISTADO E A TRANSFORMAÇÃO DOS ACTIVISTAS EM REPRESENTANTES DO POVO

Durante anos, parte considerável do jornalistado e do comentariado português habituou-se a apresentar a chamada «extrema-direita» como o grande perigo para a democracia, reservando à extrema-esquerda um tratamento frequentemente mais indulgente, especialmente quando as suas iniciativas se apresentavam sob a cobertura de causas sociais consideradas moralmente irrepreensíveis.

A linguagem utilizada constitui, por si só, um interessante objecto de estudo. Uma concentração de activistas transforma-se numa «assembleia popular», uma organização militante surge como representante espontânea da sociedade civil e a contestação organizada é frequentemente descrita como expressão directa da vontade popular. Entretanto, a representatividade efectiva dessas estruturas raramente é submetida ao mesmo escrutínio que se exige aos partidos sujeitos a eleições.

Quando a intervenção policial entra em cena, existe ainda o risco de a discussão mediática abandonar a natureza e os objectivos da mobilização para se concentrar exclusivamente na actuação das autoridades. Naturalmente, qualquer denúncia de violência policial injustificada merece investigação independente, tal como qualquer eventual abuso deve ser sancionado. Mas também a instrumentalização política de confrontos, quando demonstrada, merece ser denunciada, e a exigência de proporcionalidade policial não pode converter-se numa presunção automática de ilegitimidade da autoridade.

A liberdade de manifestação não inclui um direito ilimitado de ocupação do espaço público, assim como a autoridade policial não confere licença para agir fora da lei. Esta distinção, elementar num Estado de direito, parece tornar-se incompreensivelmente difícil sempre que a discussão é capturada pela habitual divisão entre «activistas do bem» e «autoridades repressivas».

O jornalismo deveria procurar perceber quem organiza, quem dirige, quem financia, quem representa e quais os objectivos efectivamente prosseguidos pelas diversas organizações. Deveria fazê-lo mediante investigação, não por insinuação, e com critérios idênticos aos aplicados a qualquer outra corrente política. É essa simetria que tantas vezes parece faltar ao tratamento mediático das extremas políticas portuguesas.

A DIREITA E O MEDO DE DEFENDER AS SUAS PRÓPRIAS IDEIAS

Talvez a característica mais preocupante destes acontecimentos não esteja, porém, na actuação da extrema-esquerda, que segue uma lógica política relativamente reconhecível, mas no comportamento de uma parte significativa dos responsáveis institucionais e políticos situados à direita.

Perante concentrações, acampamentos e pressões mediáticas, muitos parecem demasiado preocupados em não serem acusados de insensibilidade social, autoritarismo ou fascismo para afirmarem, com serenidade e firmeza, que a legitimidade de uma causa não coloca os seus defensores acima das regras comuns. Multiplicam-se declarações compreensivas, manifestações de solidariedade e convites ao diálogo, numa espécie de cerimónia permanente de desculpabilização pelo exercício da autoridade democrática.

Mas a resposta não pode ser uma indiferença perante o problema habitacional. Pelo contrário: uma direita moderna e socialmente consciente deve reconhecer que a habitação, tal como o salário justo, a estabilidade do emprego e a protecção das famílias, constitui uma componente fundamental da questão social. Foi esse espaço que as Novas Direitas começaram a recuperar, precisamente quando as esquerdas tradicionais pareciam mais interessadas nas suas disputas identitárias do que nas dificuldades materiais dos trabalhadores.

É por isso que considero politicamente relevante a evolução do CHEGA em direcção a algumas das posições das Novas Direitas europeias, embora essa aproximação ainda apresente ambiguidades e contradições. O episódio da lei das rendas, bem como as dificuldades anteriormente reveladas no debate sobre a reforma laboral, demonstram que recuperar a questão social exige mais do que palavras de ordem: exige uma doutrina coerente, capacidade de distinguir a protecção dos cidadãos vulneráveis da cedência às pressões dos activistas e propostas que conciliem justiça social, responsabilidade económica e autoridade democrática.

A Nova Direita não pode disputar à esquerda a defesa dos trabalhadores e das famílias para, logo a seguir, permitir que a própria esquerda radical determine, através das suas mobilizações, os termos do debate político.

Defender a questão social não significa entregar à extrema-esquerda o monopólio da indignação, nem admitir que uma minoria instalada numa praça possa substituir-se à opinião pública nacional.

A DEMOCRACIA NÃO PODE GOVERNAR-SE DE JOELHOS PERANTE UMA TENDA

A observação final de Rui Ramos merece, por isso, ser recuperada e desenvolvida: o que estes acontecimentos revelam é um preocupante desarmamento intelectual e político de uma parte do regime democrático português, progressivamente habituado a confundir a firmeza institucional com insensibilidade, o exercício legítimo da autoridade com autoritarismo e a defesa da ordem pública com hostilidade à liberdade.

Uma democracia não se esgota nas suas leis, nos seus tribunais, nas suas eleições e nas suas instituições. Precisa também de convicções, de ideias claras e de responsáveis políticos capazes de reconhecer e defender a legitimidade dos mandatos que lhes foram conferidos pelos cidadãos.

Quando os governantes receiam governar, quando os partidos receiam defender as suas posições e quando a comunicação social trata determinadas minorias militantes como intérpretes privilegiadas da vontade popular, instala-se uma perigosa inversão de legitimidades: os eleitos passam a justificar-se perante os autoproclamados representantes do povo, enquanto estes procuram conquistar nas ruas a autoridade que não conseguiram obter nas urnas.

A crise da habitação exige soluções reais: mais construção, recuperação de imóveis, políticas públicas dirigidas aos sectores vulneráveis, estabilidade legislativa, simplificação administrativa e uma articulação responsável entre imigração, crescimento populacional e capacidade habitacional. Nenhum destes problemas se resolve com proclamações revolucionárias, ocupações simbólicas ou intermináveis exercícios de indignação televisiva.

Resta saber se o poder político português terá coragem para enfrentar simultaneamente as causas da crise e a instrumentalização de que ela pode ser objecto, sem cair na tentação igualmente cómoda de desacreditar todas as manifestações ou de confundir cidadãos desesperados com organizações revolucionárias.

Porque, no fim de contas, é precisamente esta a diferença entre uma democracia segura das suas convicções e um regime intelectualmente desarmado: a primeira protege o direito de protestar sem abdicar do direito de governar; o segundo acaba por pedir autorização aos manifestantes para exercer a autoridade que recebeu dos eleitores.

A extrema-esquerda pode ocupar as praças. Pode montar tendas. Pode proclamar assembleias populares e ensaiar todos os figurinos revolucionários que a sua imaginação ainda consiga recuperar do museu ideológico do século passado.

O que não pode é exigir que a democracia se ajoelhe para entrar na tenda.

José Costa-Deitado

ReVisões | 23 de Outubro de 2026

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

da organização de palestras à desobediência civil...

Do peacekeeping nas ações à "desobediência civil repetida" (e o risco de prisão). Os bastidores de uma ação de recrutamento do Climáximo
 
Texto de Adriana Alves

O Observador esteve num evento do Climáximo para recrutar novos membros. Para os interessados, a participação vai da organização de palestras à desobediência civil, mas passa primeiro por formações. 16 out. 2023, 17:32

O bloqueio da Segunda Circular, em Lisboa, no início de Outubro, é um dos lados mais visíveis das ações do colectivo Climáximo. O outro, embora também público, tem passado muito mais despercebido, embora seja importante para garantir a continuidade das ações do grupo: o recrutamento de novos membros. O Observador esteve no evento mais recente — na última segunda-feira à noite, no Goethe-Institut de Lisboa, e o mais participado até àquele momento — para conhecer os bastidores da atuação do Climáximo em que se angariam mais membros para os protestos do grupo, alguns dos quais têm acabado com detenções de manifestantes.

Longe das lentes das câmaras que têm acompanhado os protestos dos últimos dias, na última segunda-feira, Sara Gaspar e Danilo Moreira representaram o Climáximo na klassenraum 1 do instituto alemão, que já tem sido usada pelo grupo para apresentações do movimento. De papéis nas mãos, enquanto reviam as notas que levavam para a apresentação do coletivo, receberam os potenciais novos membros que chegaram a conta-gotas, sentando-se nas cadeiras dispostas na sala em semicírculo, para conhecer mais sobre o grupo.

Cronologia das últimas ações do Climáximo
No último mês, o grupo inetensificou os protestos e os seus membros realizaram mais de uma dezena de ações, sobretudo em Lisboa. Vários membros acabaram por ser detidos pela PSP.

A sessão a que o Observador assistiu, no dia 9, era já a quarta organizada pelo grupo só no mês de outubro. Nos primeiros minutos, a sala ainda não estava sequer a meio da sua capacidade. Mas os lugares haveriam de acabar por ficar todos preenchidos à medida que a discussão avançava, com a chegada de mais participantes. As dúvidas — e até algumas reticências do público — sobre o tipo de ações do Climáximo também não tardariam. Mas no arranque o encontro, Sara Gaspar, 30 anos e formada em biologia, começou por lançar um desafio às sete pessoas que naquele momento tinha à sua frente.

Organizados em grupos de dois ou três (preferencialmente, com alguém que não conhecessem), os participantes deviam responder a duas perguntas: “O que é, afinal, o colapso climático?” e “O que me trouxe aqui hoje?”

Sem grandes reservas, os participantes começaram por partilhar como ali chegaram: alguns já acompanhavam as publicações do Climáximo nas redes sociais e viram o anúncio da apresentação; outros, nunca tinham ouvido falar do coletivo até à semana anterior, precisamente quando Lisboa acordou com uma das suas principais vias de circulação rodoviária bloqueada por manifestantes pendurados por cabos a uma ponte (batizada com o nome da Galp, cuja sede fica mesmo em frente ao local do protesto) e a projeção mediática do grupo voltou a disparar.

Entre aqueles que formavam o grupo reunido no Goethe-Institut houve também quem admitisse que se juntou de forma espontânea às recentes manifestações e acabou por ir ali naquela noite para conhecer melhor o que defende a Climáximo. Foi o caso de um jovem, que contou como, ao percorrer a Avenida de Roma — que alguns manifestantes também bloquearam, no início de outubro —, acabou por se juntar às ações do coletivo.

A discussão ainda durava quando mais participantes iam chegando, acabando por deixar ocupadas todas as cadeiras do semicírculo: 18, no total, entre membros do coletivo e curiosos, a maior parte jovens. Até ao final do encontro, falar-se-ia de “guerra”, do fim dos combustíveis fósseis e citar-se-ia António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas. Pelo meio, não faltaram críticas à cobertura dos meios de comunicação social e um debate sobre a legitimidade dos métodos usados pelo Climáximo para alertar para a crise climática.

Em “estado de guerra”
“O que nós estamos a fazer aqui, o que nós fizemos na última semana [no início de outubro] e a razão de muitos de vocês estarem aqui hoje não é patrocinar governos. Não é um assunto de gestão ou de governança. Não estamos preocupados com isso. Nós sabemos que isso não vai resolver nada. Nós estamos em estado de guerra.” As palavras, de Sara Gaspar, uma dos doze jovens da Climáximo que participaram no bloqueio da Segunda Circular, põem fim ao momento de partilha entre os grupos. Há em curso uma “guerra” declarada pelos governos e instituições, sublinha, defendendo que “toda a sociedade é responsável por resistir” — argumento que não é novo entre os membros do grupo.

Por esta altura, já os presentes estão informados da presença do Observador na sala. A possibilidade de acompanhar o encontro é lançada para todos e o silêncio que se segue é entendido como consentimento para se prosseguir. “Nós estamos em 1937 na Alemanha. Neste momento, estão campos de concentração a ser construídos e já estão pessoas a morrer”, continua Sara Gaspar, numa referência a locais como o campo de Buchenwald, construído nesse ano e que acabou por tornar-se um dos símbolos da perseguição de judeus (e de homossexuais e ciganos e outros) pelo regime nazi nos anos seguintes, e até ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

As palavras de Sara Gaspar, numa retórica que associa os hábitos do quotidiano atual às maiores atrocidades cometidas pelo ser humano contra a sua própria espécie ao longo dos séculos, fazem eco do argumento do Climáximo de que manter as emissões de gases corresponde a uma tentativa de construir novos campos de concentração em pleno século XXI. Enquanto isso, acrescenta, a população continua a fazer a sua vida como se nada fosse. “Continuamos a ir para o trabalho, para os nossos empregos, a fazer a nossa vida, a ficar presos no trânsito, a perder tempo nos transportes públicos e não existe um debate sobre isto, não existe uma consciência nem uma responsabilização sobre o que está a acontecer”, defende, enquanto os participantes ouvem atentamente.

É por isso que querem angariar novos membros e, como sublinharia Danilo Moreira, o mais calado dos dois, não é necessário chegar a todos: “10% já seria suficiente” para alertar para a causa. É para isso que servem as sessões que organizam com alguma regularidade — já estão marcadas mais duas, uma para 27 de outubro e outra para 4 de novembro –, que decorrem em diferentes locais e são orientadas por diferentes membros do grupo.

·    "Estamos em estado de guerra. Eles declararam-nos guerra. E toda a sociedade é responsável por resistir. Estamos em 1937 na Alemanha." Sara Gaspar, membro do coletivo Climáximo

Não é a primeira vez que o coletivo organiza um evento no instituto alemão e outros movimentos de ação ambiental, como o ramo português do Extinction Rebellion, também já o fizeram. “No nosso trabalho a nível mundial na área da sustentabilidade, fomentamos o debate entre pessoas de diversos contextos culturais e sociais, com o objetivo de promover o desenvolvimento sustentável”, começa por justificar o instituto, numa resposta escrita ao Observador depois de ser questionado sobre a realização do evento do Climáximo nas suas instalações. “No âmbito do nosso apoio ao fortalecimento da sociedade civil, cedemos gratuitamente o nosso espaço para organizações da sociedade civil que pretendam debater temas atuais e de interesse para a sociedade”, acrescenta a mesma resposta.

O instituto refere ainda que são muitas as organizações e grupos de áreas da sociedade civil que procuram os seus espaços para trabalhar diversos temas, entre eles a sustentabilidade, pedidos que são aceites — desde que os grupos em questão “tenham interesses legais e pacíficos”, ressalva a instituição. “No caso de qualquer incitação à prática de crimes ou violação da lei, o direito à reunião nas nossas instalações é repensado (…). Apoiamos a participação e a ação cívica desde que não sejam cometidas quaisquer infrações à lei. Quando tal acontece, o direito de reunião nas nossas instalações é revogado, como já foi comunicado ao grupo Climáximo”, aponta o instituto, que parece não ter em conta as ações em que o grupo interrompe o trânsito, pinta fachadas de edifícios, tenta vandalizar obras de arte e invade propriedade privada para danificar equipamentos.

No interior da sala cedida pelo instituto, marcada desde o dia 8 de setembro, não haveria nada disso. Ficaria, contudo, a palavra de que, para lá daquelas quatro paredes, é necessário manter as ações de “disrupção pública”.

De peacekeeping nos protestos à desobediência civil
“Estamos numa autoestrada para o inferno e temos o pé no acelerador.” A frase, proferida pelo secretário-geral das Nações Unidas no seu discurso inaugural da 27.ª Conferência das Partes, no Egito, foi repetida por Sara Gaspar a mais de cinco mil quilómetros de distância e quase um ano depois, no Goethe-Institut. Entre avisos de que o “colapso climático está iminente”, António Guterres ainda viria a ser citado novamente, com alguém na audiência a sugerir mesmo enviar uma carta com um pedido para que se aliasse à causa do grupo.

As intervenções dos participantes foram-se somando ao longo de toda a sessão, com questões e sugestões não contidas, apesar do pedido para que fossem reservadas para o final: “Defendem a mudança de sistema?”, “como é que vocês se organizam”, “se isto já não é uma conversa, se é uma guerra, o que é que se faz e que custos tem?”

A resposta à última pergunta, explicaram os organizadores, depende daquilo que cada um estiver “confortável” a fazer para colaborar nas ações, e também das consequências a que estiver disposto a arriscar-se. Isso mesmo ficou claro no “formulário de participação” que circulou pelos presentes na sala, também disponível no site do Climáximo, e que questiona precisamente até onde os interessados em juntar-se ao grupo estão dispostos a ir.

·       No formulário entregue pelo Climáximo, e partilhado online, os interessados definem o que estão dispostos a fazer. As opções variam desde "estou disponível para desobediência civil repetida (arriscar uma sentença de prisão)", ter um papel de apoio ou "peacekeping" ou "por agora nada".

As opções variam: estar disponível para “desobediência civil repetida (arriscar uma sentença de prisão)”; “um bloqueio de estrada (arriscar detenção)”; “agir em desobediência civil contra a guerra declarada pelo governo e pelas empresas, quando souber que um número suficiente de pessoas vão para a rua comigo”; “ter um papel de apoio nos protestos”, nomeadamente através de captação de imagem ou “peacekeping”. Para os mais reticentes, há ainda duas outras opções: “Ainda não tenho a certeza e preciso de mais informações” ou “por agora nada”.

Além destas formas de intervenção, são também apresentadas a possibilidade de ajudar a organizar palestras no contexto pessoal e social — em associações, escolas, instituições, empresas –, fazer donativos para apoiar o grupo com as despesas e participar numa das equipas internas. Os interessados em juntar-se ao movimento são também questionados sobre as suas competências, conhecimentos e experiência em várias áreas: edição de imagem e de vídeos, gerir redes sociais, pintar faixas, falar em público, análise de dados, organização de eventos, primeiros socorros, angariação de fundos, cozinhar para muitas pessoas.

Preencher o formulário — onde não consta nenhuma pergunta sobre a idade, apesar de ser indicado o risco de uma eventual detenção — e participar na apresentação do grupo é apenas o primeiro passo para aderir ao movimento. Os que se inscreverem são depois contactados e adicionados a um canal de WhatsApp, sendo necessário participar também numa ação de formação sem a qual, explicou Sara Gaspar, não é possível colaborar nas ações do Climáximo. Essa ação tem um carácter “prático”, e é também nesses encontros que são anunciadas algumas das datas de futuras ações, que apenas são divulgadas publicamente pelo Climáximo quando já estão a decorrer ou reivindicadas já depois de terem decorrido.

Entre o entusiasmo e a indecisão
Não faltou quem preenchesse e rapidamente entregasse o formulário, sem a menor hesitação. Mas houve também quem se mostrasse mais indeciso e a precisar de mais esclarecimentos antes de avançar. Joana Bértholo, que já pertence a outras organizações ambientais, como a Lisboa Possível e a Frente Grisalha, foi uma das que pediram mais explicações. “O que acham que vão ganhar com estas disrupções que afetam diretamente a vida das pessoas e que doem a pessoas que já estão saturadíssimas”, questiona. “Quero estar do lado certo da história, mas vejo uma opinião polarizada, uns contra os outros e lá em cima os intocáveis.”

Não é a única a levantar a questão, que, de resto, tem circulado em resposta às publicações do Climáximo nas redes sociais, com alguns utilizadores a elogiar os protestos “espetaculares” e a “luta ativa” e outros a atirar críticas pelos métodos utilizados para chamar atenção para a causa, que consideram “tudo menos democráticos”. No Goethe, as opiniões também se dividem, com sugestões de outras ações que a audiência considera serem mais eficazes, como a ocupação de prédios devolutos para lhes dar nova vida. A todos, o Climáximo responde do mesmo modo: “Já tentámos de tudo.”

·      "O que acham que vão ganhar com estas disrupções que afetam diretamente a vida das pessoas e que doem a pessoas que já estão saturadíssimas?" Joana Bértholo, membro do grupo ambiental Frente Grizalha

“Já fizemos ações em frente à REN, no Ministério do Ambiente e Infraestruturas, paralisações, marchas, já fomos aos jornais e televisões, percorremos 400 quilómetros do país, falamos com grupos parlamentares. Então, o que é preciso fazer?”, lança Sara Gaspar, devolvendo a questão para um último debate entre os grupos antes do final do encontro, que naquele momento já leva duas horas.

Com o instituto prestes a fechar, o grupo ainda se reúne no exterior para uma última palavra de encorajamento e a maior parte parece sair da apresentação interessado em participar em ações do Climáximo, mas nem todos estão convencidos de que encontraram ali um lugar. É o caso de Joana Bértholo, que ao Observador explica que ao longo desta semana ficou sem saber como se posicionar perante as recentes ações do grupo. “Normalmente, para mim, é muito evidente que estou do lado dos jovens, dos ativistas. Acho que fizeram muito bem em bloquear a porta do Conselho de Ministros e toda uma série de ações que fizeram, mas vejo que as ações se têm vindo a radicalizar em crescendo, e claro que isso me preocupa pela integridade física deles e de também saber onde é que isto vai parar.”

“Sempre achei que a luta era contra as instituições e os governos e a sua inação e não contra o cidadão comum que está a tentar chegar ao emprego”, explica. Veio à apresentação, sobretudo, cheia de perguntas e com vontade de ouvir o Climáximo e entender o que estava por detrás da estratégia das últimas semanas. “Agora”, diz, “preciso de alguns dias para perceber se encaixo e se concordo.”

domingo, 18 de outubro de 2026

a inocência dos distraídos e a extrema-esquerda

Quando a agitação se disfarça de virtude,
a complacência começa a ameaçar a democracia.


A extrema-esquerda beneficia, em Portugal, de uma indulgência que faria inveja a qualquer outra família política: pode hostilizar as instituições, desafiar a autoridade e apresentar a desobediência como superioridade moral, encontrando quase sempre quem lhe procure uma intenção generosa. A causa serve de absolvição e o rótulo de «activista» funciona como certificado de inocência. Os acontecimentos dos últimos dias no Porto deveriam, pelo menos, obrigar os mais distraídos a reconsiderar este confortável preconceito: uma ameaça à ordem pública não deixa de o ser porque se apresenta com palavras de ordem socialmente respeitáveis.

As reflexões de Helena Matos, Nuno Gonçalo Poças e André Azevedo Alves, publicadas no Observador, permitem observar três faces do mesmo problema: o protagonismo do activista, a recusa da derrota política e a desorientação de quem governa. O que delas retiro ultrapassa o episódio portuense: enquanto confundirmos a legitimidade de uma reivindicação com a legitimidade de todos os meios usados em seu nome, continuaremos a oferecer à agitação um privilégio que a democracia não pode conceder.

A causa não concede imunidade

A habitação é um problema sério, que merece respostas concretas e torna compreensível a indignação de quem trabalha sem conseguir pagar uma casa. Reconhecê-lo não exige fechar os olhos à instrumentalização dessa indignação. Nem todos os manifestantes são militantes radicais, nem toda a manifestação constitui uma ameaça; precisamente por isso, importa distinguir quem procura uma solução de quem encontra na insatisfação alheia uma oportunidade de confronto. Os cidadãos com dificuldades não devem ser reduzidos a figurantes de uma estratégia política que não escolheram.

É neste ponto que a complacência se torna especialmente nociva. Quando uma causa considerada justa passa a dispensar o cumprimento das regras comuns, deixa de haver igualdade perante a lei: passam a existir cidadãos sujeitos às suas obrigações e protagonistas autorizados a escolher quando as cumprem. O direito de manifestação merece protecção; a pretensão de que basta invocá-lo para legitimar qualquer comportamento merece oposição. Uma democracia que perde esta distinção começa a entregar a autoridade a quem mais eficazmente a desafia.



A câmara das TV's como fonte de autoridade

Helena Matos descreve o activista que encontra na exposição pública a confirmação da sua importância. A caricatura é certeira porque ilumina um problema político: a imagem pode dispensar o trabalho de explicar como se chega da reivindicação ao resultado. Construir casas exige decisões, recursos, licenciamento e compromissos; representar a indignação exige sobretudo um cenário, uma palavra de ordem e alguém disposto a filmar. Quando a visibilidade se torna o principal critério de sucesso, resolver o problema pode interessar menos do que conservar o palco.

É também por isso que o jornalistado e o comentariado deveriam exercer sobre estes protagonistas o escrutínio que tão prontamente reclamam para os outros. Perguntar quem organiza, que propostas apresenta, que consequências teriam essas propostas e que responsabilidade assume não constitui repressão: constitui jornalismo. Dar voz não obriga a entregar o microfone com a absolvição incluída. A dificuldade começa quando a redacção se deixa seduzir pelo papel de assessoria de imprensa da causa.

O princípio da flutuabilidade política

A leitura de Nuno Gonçalo Poças permite recuperar aquilo a que tenho chamado o princípio da flutuabilidade política: quanto menor é o poder institucional de uma força, maior pode tornar-se o valor que atribui à mobilização extra-institucional, desde que disponha das organizações e das causas necessárias para a promover. Não é uma lei universal nem uma condenação do protesto; é uma chave para compreender por que razão uma derrota eleitoral pode ser seguida de um renovado entusiasmo pela rua.

O problema democrático surge quando essa mobilização pretende conferir a uma minoria organizada uma autoridade superior à dos representantes eleitos. Uma manifestação pode interpelar o poder, denunciar uma injustiça e influenciar decisões; não recebe, por isso, um mandato para falar em nome de todo o povo. Quem perdeu nas urnas conserva todos os seus direitos políticos, mas não ganha um direito suplementar de impor aos outros o programa que não conseguiu fazer eleger. A intensidade da convicção não substitui a legitimidade do voto.


A memória que Portugal não pode dispensar

Quem atravessou o PREC tem razões para desconfiar da facilidade com que a linguagem da emancipação pode ser usada para justificar a intimidação. Não é preciso transformar o Porto de hoje numa repetição de 1975 para reconhecer a importância dessa memória: o passado ensina-nos a perguntar quem se arroga o direito de representar o povo, quem decide quais as liberdades aceitáveis e quem pretende colocar uma finalidade política acima das garantias individuais.

Na minha experiência, a distância entre proclamar a liberdade e admitir a perseguição de adversários pode ser perigosamente curta quando uma facção se considera proprietária da virtude. Essa é uma advertência política, não uma acusação colectiva aos manifestantes de hoje. A lição que importa conservar é simples: as garantias democráticas existem também para nos proteger daqueles que se julgam moralmente autorizados a dispensá-las. Esquecer isto, depois do que Portugal viveu, já ultrapassa a distracção.

Um Governo não se governa por reacções

André Azevedo Alves acrescenta a outra metade do problema: a fragilidade governativa. Denunciar o radicalismo não constrói uma única casa, e alternar declarações de firmeza com gestos de embaraço não produz autoridade. Um Governo tem de conseguir fazer duas coisas ao mesmo tempo: responder à crise social e garantir o cumprimento da lei. Se falha na primeira, alimenta o descontentamento; se hesita na segunda, transmite a ideia de que a pressão organizada pode conseguir aquilo que a decisão política não resolveu.

Também a actuação policial deve ser escrutinada, com apuramento de responsabilidades quando existam excessos. Esse escrutínio fortalece a autoridade legítima, desde que não se transforme numa condenação antecipada de quem intervém nem numa amnistia automática de quem desobedece. A proporcionalidade vincula a polícia; a lei vincula todos. O Governo perde credibilidade sempre que parece incapaz de sustentar estes dois princípios na mesma frase.

A questão social não pode ficar entregue à agitação

Uma direita que abandone os problemas concretos das famílias deixa um terreno demasiado fértil a quem vive politicamente da insatisfação. Tenho insistido em que as Novas Direitas precisam de assumir a questão social: trabalho, habitação, segurança e dignidade material pertencem ao centro da vida nacional. Defender a propriedade e a iniciativa privada exige também compreender a frustração de quem, apesar de trabalhar, não encontra condições para constituir família e viver com autonomia.

É precisamente por levar essas dificuldades a sério que recuso a sua transformação em combustível revolucionário. O país precisa de soluções que se possam executar e avaliar, de governantes capazes de decidir e de uma comunicação social capaz de perguntar mais do que sente quem protesta. Precisa igualmente de reconhecer que a ameaça à ordem pública pode vir da extrema-esquerda, sem que a identificação dessa ameaça tenha de esperar pela autorização dos seus simpatizantes.

No meio deste panorama deprimente, resta a esperança de que os acontecimentos recentes ajudem os menos atentos e os politicamente iliteratos a abandonar a ideia de que existe um radicalismo benigno por definição. A cor da bandeira não determina a inocência de quem a transporta, e a bondade proclamada de uma causa não elimina as responsabilidades de quem a invoca. 

A extrema-esquerda tem direito a disputar o poder; não tem direito a receber da complacência dos outros o poder que os eleitores lhe recusam.

Quem continua a confundir agitação com virtude arrisca-se a descobrir demasiado tarde que esteve a aplaudir a intimidação.


Leitura de referência: 

Helena Matos, Nuno Gonçalo Poças e André Azevedo Alves, em 

«Protestos no Porto: três opiniões», no Observador, 17 de Outubro de 2026.