da virtude revolucionária ao linchamento de Lyon..
.
O homicídio de um jovem estudante identificado com a direita política, Quentin, em Lyon, na sequência de agressões perpetradas por militantes de extrema-esquerda, não pode ser lido como um mero episódio de desordem urbana. O contexto — à margem de uma conferência de Rima Hassan, eurodeputada de extrema-esquerda da La France Insoumise (LFI), e com a presença entre os agressores de um assessor parlamentar ligado a estruturas ditas “anti-fascistas” — obriga a uma interrogação mais funda: estaremos perante um desvio ou perante uma consequência lógica de uma tradição política que concebe a violência como virtude?
O berço revolucionário: terror e virtude
Na Revolução Francesa, o Comité de Salut Public, sob a égide de Robespierre, estabeleceu a fusão entre “terror” e “virtude”. A violência não era um mal necessário, mas uma condição de possibilidade da nova ordem. “On ne peut point régner innocemment” — não se pode governar inocentemente. O axioma é devastador: a pureza política exige sangue.
Aqui nasce uma mutação conceptual decisiva. Na tradição liberal, a violência é vício a conter; no paradigma revolucionário, é instrumento moralmente legitimado. A política deixa de ser arte da mediação para se tornar liturgia da expiação. O adversário não é opositor; é obstáculo ontológico à redenção histórica.
Marx e Engels: a literalidade da luta
Com Marx e Engels, a violência adquire formulação teórica sistemática. No Manifesto do Partido Comunista, a declaração final é inequívoca: os fins comunistas só podem ser alcançados pelo derrube violento da ordem social existente. A “luta” não é metáfora espiritual; é confronto material.
Importa sublinhar: o marxismo não introduz a violência como excepção táctica; inscreve-a na própria dinâmica histórica. A luta de classes é motor da História, e o seu desfecho supõe ruptura violenta. A conquista da democracia é conquista pela força.
Trotsky: a nudez moral do terror
Com Trotsky, no Terrorismo e Comunismo, a argumentação abandona qualquer disfarce humanista. O terror não é lamentável necessidade; é instrumento legítimo e indispensável. Sem terror, não há socialismo. O título não contrapõe termos; identifica-os.
A consequência é cristalina: fuzilamentos, campos de concentração, censura e ditadura não são traições ao ideal — são meios virtuosos para o realizar. A moral revolucionária emancipa-se da moral comum.
Estaline: a realização integral
Com Estaline, o princípio atinge a sua forma estatal acabada. O terror deixa de ser momento transitório e torna-se sistema permanente. O Estado converte-se em máquina de purificação.
A sociedade transforma-se num laboratório de suspeita.
A imagem — regimes que começam em gritos e terminam em sussurros — sintetiza o percurso. O totalitarismo não surge como degeneração; emerge como coerência interna. Quando a violência é axioma, o desfecho é previsível.
A herança contemporânea
Que relação pode estabelecer-se entre esta genealogia e o linchamento de Lyon? Evidentemente, não se trata de equiparar mecanicamente um partido contemporâneo às experiências totalitárias do século XX. A análise deve ser mais fina.
Contudo, há um fio condutor: a persistência de uma cultura política que relativiza a violência quando exercida em nome de uma causa tida por moralmente superior. A retórica “anti-fascista” constrói um universo moral binário: quem discorda é ameaça existencial. Se o adversário é encarnação do mal, a agressão adquire tonalidade expiatória.
É neste ponto que o silogismo ganha força:
(1) todos os adversários são obstáculos intoleráveis;
(2) X é adversário;
(3) logo, X deve ser eliminado.
A violência deixa de ser excesso; torna-se consequência lógica.
Democracia e contenção
A democracia liberal funda-se na distinção radical entre adversário e inimigo. O pluralismo implica reconhecer legitimidade ao outro. Quando esta distinção se dissolve, abre-se a porta à legitimação da força.
O caso de Lyon revela algo inquietante: a naturalização do linchamento como extensão de militância ideológica. Não é irrelevante que tal acto ocorra à margem de um evento político; a atmosfera simbólica importa. A violência brota de um caldo cultural onde o adversário é desumanizado.
Entre o mito e a responsabilidade
Importa evitar dois erros simétricos: o da generalização indiscriminada e o da negação complacente. Nem toda a esquerda é revolucionária no sentido jacobino; mas tampouco se pode ignorar que uma parte da sua tradição intelectual legitimou explicitamente a violência como virtude histórica.
A maturidade democrática exige ruptura clara com essa herança. Não basta proclamar antifascismo; é preciso afirmar inequivocamente que a violência política é sempre derrota moral.
Agulhadas finais
Há quem insista em tratar cada episódio de violência política à esquerda como uma excepção, um “desvio”, uma infiltração inoportuna. É sempre o mesmo expediente: quando a violência serve a causa, é compreensível; quando a compromete, é “lamentável”. Mas a História não é ingénua. Quando uma tradição intelectual ensina que o adversário é obstáculo ontológico à redenção, o passo seguinte não é o debate — é a eliminação.
A esquerda revolucionária gosta de citar as vítimas do fascismo; raramente enumera as suas próprias. E, todavia, o século XX está repleto de cadáveres produzidos em nome da virtude histórica. O problema não é apenas o punho que agride; é a doutrina que o absolve.
Quem hoje se escandaliza com o “clima de ódio” deveria começar por perguntar se não ajudou a criar um ambiente onde a agressão ao dissidente é vista como acto moralmente meritório. Porque quando o “anti” se torna identidade absoluta, tudo o que não se conforma passa a ser inimigo a abater.
Concluindo
O homicídio de Quentin, em Lyon, não deve ser instrumentalizado, mas também não pode ser relativizado. Ele convoca uma reflexão sobre a persistência de matrizes ideológicas que, desde Robespierre a Estaline, conceberam a violência como condição redentora.
Se a política é concebida como guerra moral absoluta, o linchamento deixa de ser anomalia e passa a epifenómeno. A democracia, porém, não sobrevive a axiomas sangrentos. Sobrevive à contenção, ao debate e ao reconhecimento da legitimidade do adversário.
Quando a virtude se confunde com o terror, a História já ensinou o desfecho. E a lição permanece actual.











