Há momentos históricos em que uma crise aparentemente regional se transforma num espelho civilizacional. A tensão crescente entre o Irão e o Ocidente pode ser um desses momentos. Não porque esteja em causa apenas um conflito geopolítico, mas porque nele se cruzam três questões decisivas para o século XXI: a sobrevivência do modelo civilizacional ocidental, a natureza real do regime iraniano e a capacidade do Ocidente para defender os seus próprios valores.
A discussão pública sobre o Irão tem sido frequentemente dominada por dois equívocos simétricos.
O primeiro é o de tratar o regime iraniano como uma simples teocracia medieval, dominada por fanáticos religiosos.
O segundo é o de considerar que o conflito com esse regime é apenas uma disputa estratégica entre potências, sem qualquer dimensão civilizacional.
Ambos os equívocos empobrecem a compreensão do problema.
O mito da teocracia
Definir o regime iraniano como uma teocracia pura é uma simplificação que obscurece a sua verdadeira natureza. A República Islâmica nascida da revolução de 1979 não é apenas um sistema religioso; é, antes de tudo, um regime revolucionário que instrumentalizou a religião para construir um Estado autoritário de segurança.
A génese intelectual desse regime passa por figuras como Ali Shariati, que reinterpretou o Islão xiita através de categorias inspiradas no pensamento revolucionário do século XX. A sua leitura transformou a tradição religiosa numa ideologia de mobilização política centrada na luta entre os oprimidos (mostazafin) e os opressores (mostakberin).
Quando Ruhollah Khomeini apropriou essa retórica, fê-lo para consolidar um projecto de poder. Depois da revolução, os antigos aliados marxistas foram rapidamente eliminados, e o regime consolidou-se através da chamada velayat-e faqih, a tutela política dos juristas islâmicos.
Mas o sistema que emergiu não foi propriamente uma teocracia clássica. Foi algo mais próximo de um Estado revolucionário securitário, onde a linguagem religiosa funciona como instrumento de legitimação política.
A figura de Ali Khamenei ilustra bem esta realidade. Longe de ser um líder espiritual comparável a um Papa ou a um grande teólogo do Islão, ele desempenhou sobretudo o papel de estratega político e comandante de um aparelho de segurança vasto e implacável.
O regime iraniano não construiu uma “Cidade de Deus”. Construiu um totalitarismo moderno que usa a religião como linguagem institucional de poder.
A dimensão civilizacional do conflito
Contudo, compreender a natureza do regime iraniano não significa ignorar a dimensão civilizacional do conflito.
Ao longo da história, as civilizações raramente entram em declínio apenas por derrota militar. O declínio começa geralmente por uma perda de confiança na legitimidade dos próprios valores.
Nos últimos anos, parte significativa do debate público no Ocidente passou a encarar a defesa da sua própria tradição civilizacional com crescente hesitação. Conceitos como identidade cultural, liberdade de expressão ou assimilação passaram a ser tratados com suspeita em muitos círculos intelectuais e políticos.
O caso britânico é particularmente revelador. A tentativa de criminalizar críticas ao Islão sob o rótulo de “islamofobia” representa algo mais do que uma disputa legislativa. Representa a possibilidade de reintroduzir, no coração de uma democracia liberal, uma forma indirecta de proibição da blasfémia.
Se tal princípio se consolidar, tratar-se-á de uma derrota simbólica de uma das conquistas centrais da modernidade ocidental: a liberdade de criticar ideias religiosas.
Nesse sentido, não é exagero afirmar que Voltaire perdeu uma batalha no Reino Unido.
Civilizações e duração histórica
É verdade que nenhuma civilização é eterna. A história humana é, em larga medida, uma sucessão de ascensões e declínios. Mas reconhecer essa realidade não implica aceitar passivamente o declínio.
A civilização ocidental produziu alguns dos mais notáveis avanços institucionais da história humana: o Estado de direito, a liberdade individual, a ciência moderna e o pluralismo político.
Notas
Ali Shariati, ideólogo da revolução iraniana, procurou fundir o xiismo com categorias revolucionárias inspiradas no marxismo. Ruhollah Khomeini estabeleceu após 1979 o princípio da velayat-e faqih, que legitima a tutela política dos juristas islâmicos.
Vali Nasr, Iran's Grand Strategy: A Political History, Princeton University Press.
Sobre a tensão entre liberdade de expressão e acusações de blasfémia no debate europeu contemporâneo, ver também a tradição filosófica de Voltaire e do Iluminismo.








