Há violências que, no espaço público contemporâneo, entram logo pela porta principal da condenação moral, com fanfarra cívica, editorial indignado, painel de comentadores e pedagogia republicana. E há outras que entram pela porta das traseiras, embrulhadas em eufemismos, reduções semânticas e atenuantes de contexto. Umas são imediatamente promovidas a sintoma de “ameaça sistémica”; outras são rebaixadas a “incidente”, “perturbação”, “confronto”, “objecto incendiário”, quase como se a natureza tivesse decidido improvisar um fenómeno atmosférico à porta do Parlamento. O problema, evidentemente, não é apenas policial ou judicial. É civilizacional. E começa na linguagem. (LUSA)
No dia 21 de Março de 2026, a Marcha pela Vida, em Lisboa, terminou com o arremesso de um cocktail Molotov na direcção dos participantes, entre os quais se encontravam famílias, crianças e bebés. Segundo a PSP, o engenho improvisado continha gasolina, embateu no solo e não deflagrou; ainda assim, algumas pessoas foram atingidas pelo líquido inflamável e o episódio gerou “alarme e perturbação no local”. Mais: a própria informação policial referiu a presença de elementos integrados num grupo de alegada conotação anarquista. Não estamos, pois, perante um ruído de rua, um empurrão mais exaltado, ou uma zanga de militantes. Estamos perante um acto de violência política com potencial letal, cometido contra uma manifestação pacífica, junto ao centro simbólico do regime. (Renascença)
E, contudo, uma parte significativa do tratamento noticioso inicial procurou dissolver a gravidade do facto na banalidade da fórmula. A Lusa falou num “incidente, sem feridos, em que uma pessoa atirou um objecto incendiário”. A escolha lexical não é irrelevante. A linguagem não é um acessório da realidade: é um mecanismo de hierarquização moral da realidade. Quem reduz um cocktail Molotov a “objecto incendiário”, ou um ataque a uma manifestação a “incidente”, não está simplesmente a descrever; está a administrar a percepção pública do acto. Está a enquadrá-lo de forma a que o leitor, o telespectador e o cidadão o recebam já domesticado, sem a carga moral e política que, noutras circunstâncias, seria automaticamente convocada. (LUSA)
Faça-se, pois, o exercício elementar que a honestidade intelectual exige: invertam-se os protagonistas. Imaginemos uma marcha feminista, ou uma concentração em favor do aborto, ou uma manifestação LGBT, ou qualquer ajuntamento baptizado de “progressista”, alvo de um cocktail Molotov arremessado por um indivíduo ligado, segundo a polícia, a meios nacionalistas ou conservadores. Alguém acredita seriamente que os títulos seriam “incidente” e “objecto incendiário”? Alguém imagina que os telejornais não abririam com a ameaça da “extrema-direita”, os editoriais não evocariam “terror ideológico”, e os especialistas do costume não traçariam imediatamente genealogias entre o agressor, o “clima de ódio”, os partidos da direita, os pregadores morais e o alegado colapso da democracia liberal? Não se trata de mera especulação. Trata-se de observar um padrão recorrente de assimetria interpretativa. (LUSA)
É justamente esse padrão que importa estudar. Porque o essencial do problema não reside apenas no acto material de violência, por mais grave que ele seja. Reside no regime semântico que o protege depois. A esquerda radical, a extrema-esquerda militante, o anarquismo de rua, e até certas franjas islamistas, beneficiam na Europa de uma espécie de amortecedor cultural: nunca são lidos, à partida, como portadores de um mal intrínseco; são quase sempre interpretados como “reacção”, “resposta”, “marginalidade”, “desespero”, “contexto”, “antifascismo”, “activismo”, “justiça social”, ou qualquer outra fórmula destinada a impedir a atribuição plena de responsabilidade moral. Já a Direita, mesmo quando não faz nada, vive permanentemente em liberdade condicional hermenêutica: tudo nela é potencialmente perigoso, tudo é prenúncio, tudo é ameaça latente. (Renascença)
É aqui que o episódio de Lisboa deixa de ser apenas português. A violência político-ideológica da esquerda e da extrema-esquerda não é uma excepção extravagante num continente pacificado; é parte de um quadro mais vasto de radicalização que os sistemas mediáticos tendem a subavaliar quando a autoria não encaixa no vilão preferido. O relatório EU TE-SAT 2025 da Europol, relativo a 2024, registou 58 ataques terroristas na União Europeia, dos quais 24 atribuídos ao jihadismo, 21 à esquerda e ao anarquismo, 8 a formas “outras ou não especificadas”, 4 ao separatismo e apenas 1 à direita. No mesmo relatório, a Europol assinala 28 detenções por terrorismo de esquerda e anarquista em 2024, contra 47 detenções por terrorismo de direita; mas o próprio documento adverte que as estatísticas reflectem tipificações nacionais diferentes e que o relatório inclui ainda, para contextualização, vários episódios de extremismo violento fora da contabilidade estrita dos ataques terroristas. O que os números não autorizam, de modo nenhum, é a caricatura de uma Europa sitiada quase exclusivamente pela Direita, enquanto a violência esquerdista ou anarquista seria residual ou folclórica.
Aliás, o dado mais interessante não é apenas quantitativo: é qualitativo. O problema europeu actual não é a inexistência de violência à esquerda; é a sua sub-teorização. Em linguagem simples: quando o jihadismo actua, reconhece-se a gravidade do fenómeno, ainda que com todos os rodeios multiculturais habituais; quando a extrema-direita actua, mobiliza-se instantaneamente o aparelho moral do regime; quando a esquerda radical ou o anarquismo recorrem à violência, o sistema hesita, relativiza, circunscreve, desculpa, ou dissolve o caso na neblina do “activismo”. Essa desigualdade não é inocente. Ela cria incentivos. E um incentivo cultural à desculpabilização da violência é sempre um factor de reprodução da violência.
A França forneceu, ainda há semanas, um exemplo eloquente da deterioração do ambiente político. Em Fevereiro de 2026, o activista Quentin Deranque morreu em Lyon após uma agressão cometida num contexto de confronto com militantes da extrema-esquerda; a Reuters deu conta de detenções e de investigações formais envolvendo indivíduos ligados ao meio da esquerda radical, incluindo pessoas próximas de um deputado da LFI. Em reacção, o Governo francês anunciou a intenção de dissolver vários grupos, entre os quais um da extrema-esquerda, precisamente após o homicídio. O ponto importante, para o nosso raciocínio, não é absolver a direita francesa de nada, nem embranquecer os seus próprios radicalismos; é notar que a violência da esquerda radical existe, mata, mobiliza redes, e só muito tardiamente é reconhecida como problema autónomo, em vez de mero apêndice reactivo do “antifascismo”. (Reuters)
Nos Estados Unidos, o assassinato de Charlie Kirk, em Setembro de 2025, foi tratado desde o primeiro momento como um caso maior de violência política, com reacções transversais e condenação pública alargada. A Reuters descreveu-o como um “assassinato político”, sublinhando o receio de uma espiral de violência num ambiente já muito polarizado. Convém, porém, ser rigoroso: nas peças da Reuters consultadas, o móbil do suspeito não estava ainda claramente estabelecido. Esse ponto importa, porque a seriedade analítica exige não substituir uma cegueira partidária por outra. Mas o contraste de escala mediática continua instrutivo: quando a vítima pertence ao campo conservador e o acto atinge um patamar de indiscutível visibilidade, o sistema é obrigado a reconhecer o fenómeno. Já em Lisboa, onde um engenho incendiário foi lançado contra famílias numa manifestação ordeira, a tentação dominante foi miniaturizar o facto. (Reuters)
É precisamente aqui que o argumento de fundo se torna mais perturbador. O que se normaliza não é apenas a violência da esquerda: é a sua elegibilidade moral. Há no Ocidente contemporâneo uma forma muito peculiar de superstição ideológica segundo a qual a esquerda, mesmo quando agride, ameaça, incendia ou mata, continua a beneficiar da presunção metafísica de estar do lado “certo” da História. O seu excesso aparece como erro táctico; o excesso do adversário aparece como revelação essencial. A esquerda seria, por natureza, movida por compaixão, igualdade, emancipação, amor, solidariedade. Logo, se dela irrompe violência, essa violência só pode ser acidental, compreensível, ou provocada. A Direita, pelo contrário, estaria ontologicamente predisposta ao autoritarismo, ao ódio, ao fanatismo, à opressão. Logo, qualquer gesto seu, por mínimo que seja, recebe imediatamente uma interpretação maximalista. É este maniqueísmo antropológico que corrompe o jornalismo, contamina a magistratura, e produz decisões públicas incapazes de tratar igualmente o que é igualmente grave. (Renascença)
Veja-se, no caso português, o desfasamento entre a materialidade do acto e a resposta institucional inicial. O arguido ficou indiciado pelo crime de detenção de arma proibida e saiu em liberdade, sujeito a apresentações periódicas e proibição de frequentar o local. Entretanto, o actual ministro da Administração Interna, Luís Neves, admitiu publicamente que poderemos estar perante um crime “de natureza terrorista”, atendendo ao contexto e ao tipo de acto cometido; e Fernando Negrão afirmou que, mesmo que juridicamente não venha a ser qualificado como terrorismo, o é “do ponto de vista da cidadania”. Isto é muito significativo: a prudência semântica dos grandes mediadores iniciais contrastou com a percepção substantiva de quem, por experiência profissional, sabe reconhecer a gravidade típica deste género de acções. (Renascença)
Convém, de resto, evitar duas simplificações. A primeira consiste em chamar “terrorismo” a tudo, esvaziando o conceito. A segunda consiste em recusar a palavra sempre que a autoria ou o alvo perturbam os automatismos ideológicos habituais. Nem todo o acto violento de motivação política é juridicamente terrorismo; mas um engenho incendiário lançado contra manifestantes, com intuito de intimidar, ferir ou pior, não cabe seguramente na categoria pueril de “incidente”. O uso de palavras fracas para factos fortes não é moderação; é cumplicidade narrativa. E uma democracia que começa por mentir a si própria sobre a natureza da violência que tolera está já a meio caminho de perder a capacidade de a combater.
Em Portugal, há ainda um factor histórico que a intelligentsia dominante finge esquecer. A violência da esquerda não é uma fantasia reaccionária. Está inscrita na nossa memória recente, do PREC às FP-25. Francisco José Teixeira não morreu às mãos de um mito; e as FP-25 não foram um clube de leitura marxista. Houve mortos, houve terrorismo, houve redes de cumplicidade, houve posterior reciclagem cívica de figuras que o regime tratou de reabsorver ou relativizar. O país aprendeu, com a pedagogia oficial, a lembrar-se muito de umas violências e a esquecer-se utilmente de outras. Ora, essa amnésia selectiva tornou-se hoje um dispositivo activo: serve para garantir que a esquerda permanece simbolicamente inocente mesmo quando factualmente não o é.
Essa inocência simbólica é um luxo perigoso. Porque corrói duas bases elementares da ordem liberal séria: a igualdade perante a lei e a igualdade moral perante o juízo público. Sem essas duas igualdades, o Estado de Direito transforma-se numa dramaturgia selectiva, em que a qualificação dos factos depende mais da identidade presumida do agressor e da vítima do que da natureza do acto. Um cocktail Molotov não muda de estatuto consoante acerte em católicos, pró-vida, conservadores, activistas LGBT ou sindicalistas. Ou é um acto gravíssimo de violência política, ou então a própria linguagem jurídica e jornalística perdeu qualquer relação minimamente estável com a realidade.
Importa também dizer que este não é um apelo à censura nem à histeria securitária. Uma sociedade livre deve permitir a manifestação de opiniões contrárias, por mais ásperas que sejam. A Marcha pela Vida, concorde-se ou não com ela, faz parte da normalidade democrática. O que não faz parte da normalidade democrática é admitir que certos grupos podem responder a opiniões legais com fogo, gasolina e intimidação física, e depois ainda receberem, como primeira camada de protecção, o branqueamento semântico do aparelho informativo. O problema não começa no agressor. Começa no ecossistema que, antes mesmo de o tribunal falar, já tratou de diminuir a estatura moral da agressão.
É por isso que o episódio de 21 de Março merece ser pensado com mais seriedade do que a espuma partidária permite. Não apenas por ter sido dirigido contra católicos ou pró-vida, nem apenas por envolver um grupo de conotação anarquista, nem sequer só porque ocorreu junto à Assembleia da República. Merece ser pensado porque mostra, numa miniatura quase laboratorial, o mecanismo íntimo de degradação das democracias cansadas: um acto objectivamente grave é filtrado por um jornalismo ideologicamente assimétrico; essa filtragem baixa o custo reputacional da violência; a justiça responde com parcimónia classificatória; e a sociedade recebe a mensagem de que há violências menos violentas do que outras, desde que devidamente alinhadas com a ortodoxia moral do tempo.
A este respeito, o problema maior talvez nem seja a violência em si. A violência existirá sempre, à esquerda, à direita, no jihadismo, no separatismo, no nihilismo puro, e até na loucura individual. O problema maior é a civilização da desculpa. Uma civilização que desculpa selectivamente a violência não a contém: educa-a. Ensina-lhe que há um campo político em que a brutalidade vem sempre acompanhada de advogado cultural, legenda benevolente e enquadramento indulgente. O passo seguinte é previsível: aquilo que ontem parecia excessivo torna-se amanhã normal, e depois de amanhã torna-se banal.
No fundo, é disto que falavam, cada um à sua maneira, Jaime Nogueira Pinto e Alberto Gonçalves: não apenas de um ataque, mas de um sistema de legitimação por omissão; não apenas de um agressor, mas de um coro de amnésias; não apenas de uma notícia mal titulada, mas de um regime narrativo em que a esquerda radical continua a beneficiar de uma espécie de indulgência plenária. E essa indulgência, mais do que o próprio cocktail Molotov, é o sinal verdadeiramente alarmante.
O fogo falhou. Mas a mentira pegou.












