segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Chamam-lhes extrema-direita enquanto o "seu" mundo desaparece...

Durante anos discutiu-se como chamar-lhes. Talvez esteja na altura de perguntar porque é que os eleitores lhes chamam.

Podemos continuar a chamar-lhes populistas, radicais, extremistas, fascistas, extrema-direita ou escolher qualquer outra palavra suficientemente assustadora para evitar a pergunta desagradável.

Quer à esquerda, quer à direita, estarão os velhos partidos - e, sobretudo, as ideologias políticas do pós-guerra que os sustentaram - a começar a desaparecer?

Talvez o fenómeno político europeu mais importante deste nosso tempo já não seja o crescimento dos chamados partidos “populistas”. Talvez seja a progressiva retirada do consentimento popular às respostas que os partidos tradicionais deram, durante décadas, às grandes questões europeias.

A Alemanha deixou ontem um aviso difícil de ignorar

Na Saxónia-Anhalt, a AfD venceu as eleições regionais de 6 de Setembro com 43,8% dos votos. Mais do dobro do resultado obtido em 2021. A CDU ficou reduzida a 17,2%.

Não estamos perante 8%, 12% ou mesmo 20% de voto de protesto. Estamos perante uma força política que se tornou, naquele Estado alemão, claramente maioritária em relação a qualquer dos partidos tradicionais.

E a evolução programática da AfD é igualmente instrutiva. A sua corrente na Saxónia-Anhalt já não se limita a exigir a expulsão de quem permanece ilegalmente no país. Questiona a dependência estrutural da Alemanha de trabalhadores estrangeiros, contesta a imigração como resposta permanente ao declínio demográfico e pretende reverter parte da liberalização das regras de nacionalidade.

O que está em causa já não é apenas controlar fronteiras. É discutir que sociedade deverá existir dentro delas.

França: já não se fala apenas de “controlar”

Em França, o Rassemblement National de Marine Le Pen e Jordan Bardella há muito ultrapassou a velha fórmula da simples “regulação” dos fluxos migratórios.

Defende o fim do reagrupamento familiar enquanto mecanismo automático, a supressão do direito do solo, o tratamento de pedidos de asilo fora do território francês e uma redução muito profunda da imigração legal. Marine Le Pen chegou a defender um saldo anual de imigração de apenas 10 mil pessoas.

Pode concordar-se ou discordar-se. O que já não parece sério é fingir que estas propostas constituem apenas uma excentricidade marginal de alguns eleitores zangados.

Áustria: a palavra que deixou de poder ser pronunciada

Na Áustria, o FPÖ de Herbert Kickl foi ainda mais longe e transformou a palavra remigração em conceito político assumido.

O partido defende uma inversão profunda da política migratória, mais expulsões, fortes limitações ao reagrupamento familiar, redução dos incentivos económicos associados ao acolhimento e uma política que deixe de considerar a imigração crescente como inevitabilidade histórica.

Há poucos anos, pronunciar algumas destas ideias bastaria para colocar imediatamente alguém fora do perímetro do debate aceitável.

Hoje dão votos. Muitos votos.

E depois há a Dinamarca (o caso que lhes estraga a narrativa...)

A Alemanha, França e Áustria ainda permitem ao nosso jornalistado e comentariado resolver o problema recorrendo ao vocabulário habitual: “extrema-direita” mas Mette Frederiksen não é de extrema-direita. 

É social-democrata.

E foram os Social-Democratas dinamarqueses que endureceram fortemente a política de asilo, reduziram entradas e reagrupamentos familiares, intensificaram os retornos de requerentes recusados e defenderam centros de recepção e processamento fora da Europa.

Em 2026, o próprio partido pergunta publicamente se a Dinamarca não estará a repetir os “erros dos anos 70” ao receber continuamente grandes contingentes de trabalhadores provenientes de países terceiros.

E aqui começa o verdadeiro problema para a classificação tradicional.

Quando uma política que ontem era denunciada como exclusiva da “extrema-direita” passa a ser praticada por um dos mais antigos partidos social-democratas da Europa, talvez não estejamos apenas perante uma deslocação da direita.

Talvez estejamos perante uma deslocação do próprio centro político.

A imigração é apenas o sintoma mais visível 

Seria um erro reduzir esta transformação à imigração.

A mesma ruptura começa a aparecer na discussão sobre soberania nacional, globalização, política industrial, proteccionismo, natalidade, família, prioridade dos nacionais no Estado social, segurança, identidade cultural e relação entre os Estados e a União Europeia.

Até a velha separação económica entre direita liberal e esquerda social começa a desfazer-se. Algumas das chamadas novas direitas recuperam temas laborais, sociais e proteccionistas que a velha direita abandonara e que uma esquerda progressivamente cultural e identitária deixou de monopolizar.

O mapa político está, portanto, a ser redesenhado diante dos nossos olhos.

Os partidos podem sobreviver. O mundo que representavam é que pode não sobreviver com eles.

A CDU continuará a chamar-se CDU. Os Socialistas franceses continuarão a existir. Os partidos Social-Democratas europeus conservarão sedes, símbolos e aparelhos. Os partidos Liberais e Democrata-Cristãos também.

Mas isso não significa que sobreviva o consenso político em que todos eles viveram durante décadas.

É esse, provavelmente, o verdadeiro significado do que está a acontecer.

Podemos continuar a discutir se a AfD é radical, se o RN é populista, se Kickl é extremista ou se determinados conceitos são aceitáveis no salão respeitável do comentário televisivo.

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Enquanto discutimos os rótulos, os eleitores estão a mudar o conteúdo.

E talvez, daqui a alguns anos, percebamos que o fenómeno decisivo não foi a chegada dos chamados “extremos”.

Foi o desaparecimento do mundo político que lhes abriu a porta.

O vazio que a AfD pode ocupar!

A AfD partiu para as eleições de 6 de Setembro na Saxónia-Anhalt com valores entre 40% e 43% nas sondagens, contra 22% e 23% da União Democrata-Cristã (CDU), o partido do chanceler alemão, Friedrich Merz.
Após várias eleições a direita radical poderá conseguir pôr pela primeira vez um dos seus — no caso, o cabeça de lista Ulrich Siegmund — a governar um estado.
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Nestas eleições, segundo o comentariado, os "vencedores" podem muito bem ser os pequenos partidos a decidir. se os Verdes a subirem para 6% e o Partido Social-Democrata (SPD) para 8% entrarem no Parlamento estadual, mas se não conseguirem transpor a fasquia dos 5% ficam de fora e o cenário inverte-se com a AfD a atingir a maioria absoluta,

domingo, 6 de setembro de 2026

O CHEGA veio depois...

Mil vezes repetido, um spin passa a verdade?

Há uma velha técnica de propaganda que nunca envelhece: repetir suficientemente uma versão dos acontecimentos até que a cronologia real desapareça.

É precisamente o que começa a acontecer no chamado caso Luís Neves.

A acreditar em certo jornalistado e comentariado, tudo teria começado quando o CHEGA resolveu, por capricho, apresentar uma moção de censura. André Ventura teria descoberto mais uma oportunidade para aparecer nas televisões, provocar o Governo e fabricar uma crise política onde nada de substancial existiria.

Só há um pequeno problema: os factos vieram antes do CHEGA.

Vieram das notícias. Vieram de jornalistas que fizeram aquilo que o jornalismo deve fazer: investigar, perguntar, contrariar versões oficiais e não pedir licença ao politicamente correcto.

E chegaram depois à própria Procuradoria-Geral da República.

Amadeu Guerra, o PGR, confirmou a existência de três inquéritos criminais relacionados com Luís Neves, aos quais acrescem processos de outra natureza. Dois dos inquéritos foram considerados suficientemente relevantes para continuarem a ser tramitados com urgência durante as férias judiciais.

Portanto, talvez seja conveniente acertar os relógios: não foi o CHEGA que inventou os inquéritos; foram os inquéritos e as notícias que criaram o problema político.

Quando a imprensa faz jornalismo

É por isso justo reconhecer o trabalho daquela parte da imprensa que recusou o silêncio confortável.

Sem essas notícias, provavelmente continuaríamos entre explicações administrativas, coincidências, informalidades, equívocos, atrelados, automóveis apreendidos, obras particulares e sucessivas versões tranquilizadoras.

Uma imprensa livre não existe para proteger governos. Nem ministros. Nem oposições.

Existe precisamente para incomodar todos eles.

E talvez seja essa imprensa divergente — tantas vezes desprezada porque não acompanha o consenso do comentariado televisivo — que ainda impede que determinados assuntos sejam enterrados debaixo da conveniente designação de “polémica política”.

O CHEGA não inventou o caso. Politizou as consequências

Pode discutir-se a proporcionalidade de uma moção de censura ao Governo por causa da permanência de um ministro. Isso é legítimo.

O que não é intelectualmente sério é fingir que a moção criou o problema.

O CHEGA confrontou-se com uma limitação institucional: o Parlamento português não dispõe de um instrumento equivalente a um “impeachment” parlamentar de um ministro, capaz de obrigar autonomamente à sua demissão.

Um ministro responde politicamente perante o primeiro-ministro. Se Luís Montenegro decide mantê-lo, é inevitavelmente a responsabilidade política do chefe do Governo que passa a estar em causa.

Daí a moção de censura.

Pode considerar-se excessiva. Pode votar-se contra. Mas não se pode simultaneamente proclamar que o caso Luís Neves é grave, exigir esclarecimentos, admitir comissões de inquérito — e depois tratar como extravagante o partido que resolveu levar essa responsabilidade política até às últimas consequências.

A estranha cegueira dos outros

André Ventura chamou-lhe uma espécie de “esquizofrenia de coragem”. A expressão é brutal, mas identifica uma contradição evidente.

Vários partidos reconhecem a gravidade do problema. Criticam Luís Neves. Querem explicações. Alguns admitem investigação parlamentar.

Mas quando chega o momento de assumir consequências políticas, recuam.

E então o problema passa subtilmente a ser… o CHEGA.

É um mecanismo já conhecido: primeiro ignoram-se as notícias; depois minimizam-se os factos; finalmente, quando já não é possível ignorá-los, transfere-se o centro da discussão para quem teve a ousadia de os transformar numa questão política.

Há que branquear as notícias e voltar a nomear os culpados do costume.

Desta vez, porém, existe um obstáculo difícil de apagar: os jornalistas investigaram, o Ministério Público abriu inquéritos e o Procurador-Geral confirmou-os publicamente.

O CHEGA veio depois.

E mil repetições de um spin não conseguem alterar essa cronologia.

Porque, em democracia, antes da conveniência partidária deveria existir uma coisa muito mais simples: 

DECÊNCIA senhores: O CHEGA veio depois.

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

a nossa extrema-esquerda rasca!

"O Bloco de Esquerda revelou que é contra os data centers em Portugal. Também já eram contra a exploração de lítio. São contra o turismo. São contra a construção de empreendimentos imobiliários. São contra a exploração de petróleo e gás. São contra as grandes empresas, sejam elas quais foram. São contra a Sonae ou a Jerónimo Martins. São contra os eucaliptos e são contra a Altri e a Navigator, duas das empresas que melhor pagam aos trabalhadores e que mais amigas do ambiente são. São contra a exploração de urânio. São contra a agricultura intensiva que literalmente tirou milhões de pessoas da pobreza. São contra a agropecuária. O Bloco de Esquerda é contra a indústria militar. O Bloco de Esquerda é contra a exploração mineira.

Cristiano Santos

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Alain de Benoist por Rui Albuquerque

 O último número de "Éléments" (221), a revista da nova direita francesa, movimento lançado e dirigido há décadas por Alain de Benoist, abre com um seu editorial com o título "Le libéralisme autoritaire", que é mais um violento ataque ao liberalismo.


A filosofia política de Benoist e da "Nouvelle droite" sempre foi profundamente antiliberal. Em quase todas as suas obras, contando-se várias dezenas delas desde a passada década de 50, o pensador francês manifesta o seu antiliberalismo, considerando-o como a filosofia das Luzes que foi responsável pela decadência do Ocidente, uma ideia cara a muitos filósofos desde que o Iluminismo se tem vindo a impor desde o século XVIII. Benoist tem uma concepção intencionalmente reducionista da filosofia liberal, considerando que esta se esgota numa única ideia de "mercado", entendido como um simples local de trocas mercantis e não o espaço societário de relacionamento humano que permite o desenvolvimento de uma ordem social cooperativa e cataláctica. Aquilo que é, para os liberais, a livre cooperação entre os indivíduos e as suas instituições, em vista da ordenação das suas pretensões sem a necessidade de um intermediário autoritário permanente, para a nova direita francesa é um mercadejar interesseiro e primário, que retira dimensão e espessura existencial ao Homem.


O ponto central desta crítica está na condenação daquilo a que chamam (indevidamente) o " homo economicus liberal": um ser individual, frio, atomizado, racional e egoísta, exclusivamente preocupado com o lucro que poderá alcançar das transações em que se envolve. Este cliché redutor ridiculariza uma filosofia política que tem a sua base no Humanismo e na teoria sobre a liberdade, o indivíduo, a sociedade e o Estado, que longe está de se esgotar neste pensamento simplificado, que nem sequer é económico, com que costuma ser atacado pelos seus detratores. De resto, nunca o Liberalismo Clássico - que foi sempre uma filosofia sobre o homem na sua relação com o poder soberano – aceitou o paradigma do "homo economicus" como bom, menos ainda como um postulado teórico seu.

Mas o que, por ora, interessa aqui é reter o facto desta «nova direita» não aceitar o mundo ocidental que nasceu das Luzes, de que, melhor ou pior, são herdeiros as democracias e o Mundo em que vivemos. No mesmo número da revista sucedem-se dois interessantes artigos sobre o chamado “conservadorismo nacional-revolucionário”, com expressão muito intensa na Alemanha do início do século XX e do período entre as duas grandes guerras. Intelectuais como Arthur Moeller, Werner Sombart, Oswald Spengler, Carl Schmitt ou Ernst Junger contribuíram, com responsabilidades desiguais, para uma ideologia que paradoxalmente se diz simultaneamente conservadora e revolucionária, porque é, por um lado, contra o mundo moderno em que se vivia (e vive), decorrente do Iluminismo, e conservadora, por outro, porque quer recuperar os valores, princípios e formas de vida que lhe eram anteriores. Essencialmente, trata-se de um reacionarismo contra o mundo moderno, de que hoje Benoist, Duguin e certos movimentos da direita e da esquerda populista e extremada são defensores. O mundo que exite é mau, é péssimo, foi uma corrupção de um outro quase idílico que o liberalismo, o parlamentarismo e a democracia destruíram. É isto que sumariamente pensam.

Esta leitura enviesada e perversa da realidade tem, hoje, uma enorme influência cultural, política e partidária, muitas vezes não intuída, refletindo-se na crítica da posição ocidental de defesa da Ucrânia contra a Rússia (Putin até restaurou a religião e a Igreja no seu país, tal como outrora Napoleão o fez, outrora, em França...), na condenação das democracias liberais, no ataque à União Europeia (que se põe frequentemente a jeito...), que, segundo eles, deveria regredir para algo que nunca foi, uma mera união aduaneira e não um espaço de integração de soberanias, etc. Em 2027 a vitória previsível de Le Pen em França, que sempre contou com o aporte cultural e ideológico de Benoist, esclarecerá até onde este reacionarismo será capaz de chegar.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Quando a Direita recupera a Questão Social — e rompe o monopólio da Esquerda

A esquerda europeia nasceu para representar trabalhadores. Falava de salário, renda da casa, serviços públicos, emprego, estabilidade e dignidade material. Hoje fala sobretudo de identidades, linguagem, representação simbólica e minorias.

…hoje as Novas Direitas falam de

- Lei Laboral / idade da reforma Critica reformas que prolongam a vida activa; defende reforma aos 65 anos ou com 40 anos de descontos, apresentando‑se como defensor dos trabalhadores.

- Pensões e subvenções políticas Propõe fim de subvenções vitalícias e acesso à pensão em moldes mais favoráveis ao trabalhador; retórica anti elite política.

- Luta de classes Assume papel de “partido de protesto” contra “sistema” e “casta”; usando linguagem próxima da luta de classes, embora articulada com nacionalismo e securitarismo.

- Direitos sociais e Estado Combinação de defesa de políticas sociais (pensões, energia, trabalho) com um discurso de ordem, e controlo; aceitando intervenção estatal selectiva.

- Globalização e proteccionismo Discurso crítico da globalização e das elites tecnocráticas; apelo ao operariado “abandonado pela esquerda”. 

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É aqui que regressamos a Antonio Gramsci.

Uma força política não conquista hegemonia apenas quando vence eleições. Conquista-a quando consegue retirar ao adversário as palavras com que este legitimava o seu poder.

Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» e «privilégio».

A velha direita liberal-conservadora aceitou essa divisão do trabalho político.

Depois admirou-se por ter perdido culturalmente os sectores popular (in Revisões)

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É neste ponto que a experiência do CHEGA e das Novas Direitas se torna particularmente interessante.

O partido procura reunir sectores que a análise política tradicional considerava incompatíveis: trabalhadores oriundos da esquerda, pequenos empresários sufocados por impostos e burocracias, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e eleitores culturalmente conservadores.

O cimento desta coligação não é a consciência de classe.

É a percepção de abandono.

Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, pelas elites económicas, pelas instituições europeias, pelos grandes meios de comunicação e por uma classe dirigente que parece viver protegida das consequências das decisões que toma.

A mensagem é simples: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade está a ser sacrificado por quem governa, especula, parasita ou beneficia de privilégios.

Esta mensagem pode ser excessivamente simplificadora. Pode ser usada demagogicamente. Mas possui uma força emocional que o discurso tecnocrático da velha direita e o moralismo identitário da nova esquerda deixaram de ter. (in ReVisões)

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A Direita não está a tornar-se de esquerda porque o fenómeno que estamos a observar não corresponde necessariamente a uma esquerdização do CHEGA e das Novas Direitas e pode corresponder ao regresso da Direita à questão social.

A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os trabalhadores à Esquerda, a cultura aos progressistas; os sindicatos aos comunistas e a solidariedade ao Estado burocrático e contentou-se em “defender o mercado”, esquecendo-se de “defender a comunidade”.

As Novas Direitas terão de compreender que a Nação não é apenas território, bandeira, fronteira e memória. É também protecção entre gerações, dignidade do trabalho, justiça nas contribuições, segurança económica e reconhecimento daqueles que sustentam a comunidade.

Gramsci ajuda a compreender como se disputa a hegemonia. Leão XIII recorda que a sociedade não pode ser reduzida nem à luta de classes nem à luta de todos contra todos e Benedikt Kaiser e Duarte Branquinho mostram que uma direita nacional que abandone a questão social acabará por abandonar o próprio povo. (in ReVisões)

 

Uma coisa já parece evidente: a Esquerda deixou de possuir o monopólio da linguagem da justiça social porque confundiu durante demasiado tempo “uma conquista cultural” com um “direito de propriedade”.

E agora começa a perder aquilo que julgava possuir por herança.

A tese central fica, assim, mais forte do que no texto inicial: não se trata apenas de o CHEGA e as Novas Direitas reciclarem temas da Esquerda para capturar eleitores; trata-se de retirar esses temas à interpretação marxista e integrá-los numa visão nacional, social e comunitária da Direita.

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

a vichyssoise para 2026

ou a Marcelice de 2025:


Vou fazer aquilo que me apetece.” Foi assim que Marcelo Rebelo de Sousa sintetizou, ontem, na Universidade de Verão do PSD, a sua vida pós-Belém.
 
O agora ex-Presidente até vai voltar a ser militante, no que chama a “plenitude”, assim que cessar funções em Belém, mas ficará completamente hibernada qualquer participação ativa. E antecipou esse fim de ciclo: “Esta vinda cá é a última, porque eu tenciono depois afastar-me da política totalmente.” 
Deixou recados a Montenegro e a Cavaco, prometeu não ir a mais nenhum congresso do PSD e fez questão de enumerar os eventos a que irá na condição de antigo Presidente da República.


domingo, 23 de agosto de 2026

Quando uma Nova Direita rompe o monopólio moral da Esquerda

Num artigo anterior — A Direita precisa de aprender com Gramsci, sem se tornar gramsciana — procurei mostrar que a grande lição do pensador comunista italiano Antonio Gramsci não reside na adopção do marxismo, mas na compreensão dos mecanismos da hegemonia cultural.

Antes de conquistar o Governo, uma corrente política precisa de conquistar palavras, conceitos, valores e representações. Precisa de transformar a sua visão do mundo em senso comum. Precisa, sobretudo, de impedir que o adversário conserve o monopólio moral das causas socialmente respeitáveis.

A evolução do CHEGA permite observar este processo no terreno.

Uma direita nacional e social

Talvez estejamos perante uma tentativa, ainda incompleta, por vezes improvisada e doutrinariamente pouco consolidada, de construir uma nova direita nacional e social.

A presença do CHEGA no sistema político português tem revelado uma realidade que o jornalistado e o comentariado raramente analisam com rigor: a coexistência de um discurso nacional, conservador e securitário com propostas sociais e laborais que, durante décadas, foram identificadas quase exclusivamente com a Esquerda.

A comunicação social chama-lhe «contradição», «oportunismo» ou «populismo». Mas talvez essas classificações revelem mais sobre os preconceitos de quem observa do que sobre o fenómeno observado.

Veja-se a questão laboral. O CHEGA critica reformas que prolonguem a vida activa e defende que quem tenha 40 anos de descontos possa reformar-se aos 65 anos sem penalizações. Apresenta-se, assim, como defensor do trabalhador perante um sistema que lhe exige cada vez mais anos de trabalho para receber, muitas vezes, uma pensão insuficiente. A posição foi expressamente reafirmada pelo partido durante a discussão da reforma laboral de 2026.[1]

No domínio energético, propôs a aplicação da taxa reduzida de IVA à electricidade e ao gás, tratando a energia como bem essencial e o seu preço como uma questão de justiça social.[2]

Nas pensões, nos salários e nas condições laborais, combina a denúncia dos privilégios políticos com a defesa de uma intervenção selectiva do Estado. E, perante a globalização, apresenta-se como voz dos trabalhadores, das classes médias empobrecidas e das comunidades abandonadas pelas elites económicas e tecnocráticas.

É verdade que esta orientação representa uma evolução assinalável relativamente ao programa liberalizante de 2019. Mas é precisamente essa evolução que interessa compreender. Um partido não está condenado a permanecer eternamente encerrado no documento da sua fundação. Pode aprender, adaptar-se e reconstruir a sua base social.

As classificações do passado

Talvez, portanto, a palavra correcta não seja «tensão». E muito menos «contradição».

O que existe é uma força política que deixou de caber nas classificações confortáveis do século passado.

A análise convencional continua a presumir que a defesa dos trabalhadores pertence à Esquerda; que a defesa da ordem pertence à Direita; que a intervenção estatal é socialista; e que uma política nacional só pode ser economicamente liberal.

Mas a Nova Direita começa precisamente onde essas divisões terminam.

Ela pode defender simultaneamente autoridade e protecção social, soberania e dignidade laboral, controlo das fronteiras e intervenção económica, propriedade privada e limites ao capitalismo globalizado.

As coisas são o que são. E surpreende que os partidos tradicionais ainda não tenham percebido quanto o país mudou desde 2019, quando muitos portugueses tinham vergonha — ou receio — de dizer que votavam no CHEGA.

Hoje, começa a haver mais vergonha em confessar que ainda se vota no PS.

Há um certo desprezo na forma como os partidos tradicionais lidam com o CHEGA e com André Ventura. No caso do PS, a situação é particularmente gritante. Permanece ali uma aura de superioridade moral, como se o partido ainda pudesse distribuir certificados de respeitabilidade democrática e decidir quem tem autorização para representar os portugueses.

O problema é que os eleitores deixaram de pedir licença.

Gramsci e a disputa das palavras

É aqui que regressamos a Gramsci.

Uma força política não conquista hegemonia apenas quando vence eleições. Conquista-a quando consegue retirar ao adversário as palavras com que este legitimava o seu poder.

Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» e «privilégio».

A velha direita liberal-conservadora aceitou essa divisão do trabalho político.

A Esquerda falava de justiça. A Direita falava do défice.

A Esquerda falava dos trabalhadores. A Direita falava dos mercados.

A Esquerda organizava sindicatos, associações, movimentos culturais e redes de solidariedade. A Direita organizava conferências sobre competitividade, almoços empresariais e privatizações.

Depois, admirou-se por ter perdido cultural e eleitoralmente os sectores populares.


O CHEGA percebeu — talvez por intuição mais do que por elaboração doutrinária — que uma direita condenada a falar apenas de impostos, empresas e crescimento económico nunca conseguiria constituir uma maioria social duradoura.

Por isso, começou a disputar as palavras abandonadas pela velha direita.

Trabalho. Protecção. Reforma. Salário. Descanso. Justiça. Privilégio. Abandono. Povo.

Isto é metapolítica aplicada.

Não se trata apenas de apresentar propostas. Trata-se de alterar o significado político dessas propostas e de retirar à Esquerda o monopólio da indignação social.

Um novo bloco social

A Nova Direita não pode limitar-se à guerra cultural, ao combate à imigração descontrolada ou à denúncia das ideologias progressistas. Precisa de recuperar a questão social, criticar os efeitos desagregadores do capitalismo globalizado e construir uma aliança entre trabalhadores, famílias, pequenos empresários, classes médias empobrecidas e comunidades locais.

Precisa, utilizando uma expressão de origem gramsciana, de formar um novo bloco social.

É neste ponto que a experiência do CHEGA se torna particularmente interessante. O partido procura reunir sectores que a análise política tradicional considerava incompatíveis: antigos eleitores da esquerda, pequenos empresários sufocados por impostos e burocracias, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e cidadãos culturalmente conservadores.

O cimento desta coligação não é a consciência de classe.

É a percepção de abandono.

Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, pelas elites económicas, pelas instituições europeias, pelos grandes meios de comunicação e por uma classe dirigente protegida das consequências das decisões que toma.

A mensagem é simples: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade sente-se sacrificado perante quem governa, especula, parasita ou beneficia de privilégios.

Pode ser uma mensagem simplificadora. Pode ser explorada demagogicamente. Mas possui uma força emocional e política que o discurso tecnocrático da velha direita e o moralismo identitário da nova esquerda já perderam.

Eis o verdadeiro perigo que o comentariado pressente, embora raramente consiga explicá-lo: o CHEGA não está apenas a disputar votos à Esquerda.

Está a disputar-lhe as palavras, as causas, os trabalhadores e o direito de falar em nome dos abandonados.

Quando uma Nova Direita consegue fazer isso, não rompe apenas um cordão sanitário eleitoral.

Rompe o monopólio moral da Esquerda.

Notas:

[1] CHEGA, «Declaração Política sobre a Reforma Laboral na Assembleia da República», 3 de Junho de 2026.

[2] CHEGA, projecto de lei para aplicação da taxa reduzida de IVA ao gás e à electricidade, 4 de Setembro de 2022.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

As três gerações do pós-25 de Abril...

(Os avós fizeram Abril, os filhos herdaram o catecismo e os netos reclamam a liberdade)
Se aceitarmos, apenas como instrumento de análise, que uma geração corresponde aproximadamente a um ciclo de 25 anos, Portugal atravessou desde 1974 três gerações politicamente muito diferentes.
Não se trata de dividir portugueses pelo bilhete de identidade. Trata-se de perceber como cada geração se relacionou com o 25 de Abril, com a Democracia que dele resultou e, sobretudo, com a interpretação ideológica que posteriormente foi construída em seu nome.
E aqui importa começar por desfazer um equívoco: a actual geração jovem não está contra o 25 de Abril.
Os poucos portugueses que poderiam ter sentido verdadeira nostalgia pelo Estado Novo encontravam-se, naturalmente, na geração que o viveu: Na Zero.
Os jovens de hoje não têm saudades de um regime em que nunca viveram. O seu conflito é outro.

A Geração Zero — os que viveram os dois regimes
Chamemos Geração Zero àquela que viveu simultaneamente o Estado Novo e a ruptura de 1974.
É nela que encontramos tudo: democratas, revolucionários, comunistas, socialistas, conservadores, liberais e, naturalmente, também alguns saudosistas do regime anterior.
Foi uma geração marcada por uma extraordinária violência ideológica.
Revolução, PREC, nacionalizações, saneamentos, prisões políticas, ocupações, 11 de Março, Verão Quente, 25 de Novembro: tudo isto aconteceu num espaço de pouco mais de ano e meio.
Mas uma parte dessa geração conseguiu algo politicamente muito mais duradouro do que vencer uma eleição: construiu a interpretação dominante do próprio 25 de Abril e progressivamente estabeleceu uma ideia curiosa a que chamou de “pluralismo” onde não cabia “a Direita”.
À esquerda podia existir quase tudo: comunistas, marxistas, socialistas revolucionários, trotskistas, maoistas, social-democratas ou socialistas moderados.
À direita, porém, a respeitabilidade democrática passou durante décadas por uma espécie de exame permanente: Era necessário demonstrar moderação, pedir licença cultural e, sobretudo, provar repetidamente que se estava suficientemente afastado do passado.
Criou-se assim uma poderosa hegemoniana político-cultural, reproduzida no Ensino básico, na Universidade, na Administração Publica, na Produção Cultural e em larga parte da Comunicação Social.
  • Não chamaria a isso simplesmente “social-fascismo”, porque seria historicamente impreciso, mas existiu, em sectores desse universo, uma curiosa matriz social-estatista e culturalmente autoritária: 
  • - o Estado como grande organizador social e, simultaneamente, uma progressiva dificuldade em reconhecer legitimidade cultural às ideias que ultrapassassem determinado limite à direita - criaram-se as Linhas Vermelhas que tendem a persistir em especial na imprensa televisiva.
E então o problema começou quando essa Geração Zero confundiu duas coisas muito diferentes:
  • a defesa da Democracia e
  • a defesa da sua própria interpretação da Democracia.
A Segunda Geração — os filhos do catecismo
A geração seguinte nasceu já no pós-Abril. Não conheceu verdadeiramente o Estado Novo. Aprendeu-o na imprensa, nas escolas, nas universidades e através da visão, às vezes pouco correcta, daqueles que tinham participado na construção do novo regime.
Também recebeu uma promessa:
Portugal seria progressivamente mais desenvolvido, mais rico, socialmente mais justo, quiçá, mais europeu, oferecendo aos filhos melhores condições de vida do que aos pais.
A Segunda Geração durante muito tempo acreditou e reproduziu, em grande medida, o quadro mental que recebera.
Foi desta geração que saiu uma parte substancial dos políticos, professores, jornalistas, magistrados, altos funcionários, académicos e comentadores que chegaram depois aos lugares de influência.
Só que aconteceu algo que nenhuma hegemonia cultural consegue impedir:
  • O tempo passou e chegou o momento de comparar promessas com resultados.
  • Os salários continuaram baixos.
  • A habitação tornou-se inacessível para muitos.
  • Os serviços públicos revelaram fragilidades.
  • A mobilidade social prometida deixou demasiadas pessoas para trás.
…e sucessivas vagas de portugueses qualificados emigraram.

Esta emigração teve uma consequência política que raramente é suficientemente valorizada: permitiu comparar Portugal com outras democracias e foi assim que muitos portugueses descobriram no estrangeiro que era possível ser-se democrata e conservador; patriota e pluralista e defender a soberania, a autoridade, a identidade nacional e os limites à imigração sem desejar restaurar qualquer ditadura.

Os “antolhos” e “tapa-olhos” que a propaganda, via sistema de educação, lhe tinham instilado começou a cair. Mas, não foi desta, que a Segunda Geração se tornou de Direita. Fez algo mais perigoso para o velho sistema:
  • -começou a duvidar do catecismo.
A Terceira Geração — os netos que já não pedem licença
Chegámos agora à geração próxima dos vinte anos de idade.
È uma geração é profundamente diferente das duas anteriores.
  • O Estado Novo para ela é História.
  • O PREC é História.
  • O 25 de Novembro é História.
  • Eanes, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Sá Carneiro ou Freitas do Amaral são História.
E isto tem uma consequência política gigantesca:
  • a Terceira Geração não sente qualquer obrigação de continuar as guerras dos avós e
  • muito menos aceita que lhe sejam impostos os respectivos limites ideológicos.
Não está contra “Abril”.
Pelo contrário: nasceu em liberdade e considera essa liberdade tão natural que pretende utilizá-la inteiramente.
  • Inclusive para pensar aquilo que durante décadas lhe disseram que não deveria pensar.
Os sinais eleitorais dessa ruptura existem. Na análise aos votantes das legislativas de 2025, o Iniciativa Liberal e o CHEGA foram a força mais votada nos grupos dos 25-34 e 35-44 anos e a segunda entre os 18-24. Estes dado não demonstram que os jovens se tenham tornado colectivamente “de direita”. Demonstram algo mais importante: 
  • o velho domínio dos partidos tradicionais deixou de ser automático nas gerações mais novas.
Esta geração dispõe de uma arma que as anteriores não possuíam.
  • A Internet destruiu o monopólio dos intermediários culturais.
Um jovem já não depende do professor, do editorialista, do telejornal ou do comentador televisivo para descobrir uma ideia.
Pode chegar directamente a autores, movimentos e debates existentes em França, Itália, Alemanha, Espanha ou Estados Unidos.
E descobriu, entre muitas outras coisas, que também existe pensamento político à direita.
Também descobriu Gramsci e aqui aparece uma das maiores ironias políticas do nosso tempo: Antonio Gramsci era comunista.
Mas algumas das suas intuições sobre hegemonia cultural foram estudadas e apropriadas, à actualidade, por sectores intelectuais da Nova Direita europeia.
Também começaram a adoptar a estratégia metapolítica associada à Nouvelle Droite francesa — particularmente em torno de Alain de Benoist — que atribui enorme importância à disputa das ideias, da linguagem, dos valores e da cultura antes da própria conquista eleitoral. Essa influência e a circulação do chamado “gramscismo de direita” encontram-se amplamente documentadas na literatura sobre a Nova Direita francesa e italiana.
Isto é, existe um território cultural comum onde reaparecem conceitos durante décadas desprezados pela velha direita parlamentar:
Nação. Soberania. Identidade. Comunidade. Tradição. Autoridade. Questão Social. Hegemonia cultural.
O que se torna mais difícil é sustentar que a simples existência de uma nova direita parlamentar representa, por definição, uma rejeição do 25 de Abril.
Mas afinal, quem está a ser fiel a Abril?
E chegamos ao paradoxo.
A Terceira Geração não quer regressar ao antes de Abril.
Quer ultrapassar o monopólio ideológico construído depois de Abril.


Talvez estejamos perante a derradeira ironia destes cinquenta anos.

A Geração Zero fez uma revolução em nome da liberdade.

Uma parte dela transformou depois a sua própria leitura dessa revolução numa espécie de ortodoxia.

A Segunda Geração recebeu-a, acreditou nela e começou lentamente a duvidar.

E a Terceira Geração resolveu simplesmente exercer a liberdade recebida.

Não quer destruir Abril. Quer libertar Abril dos seus proprietários.

Porque a Democracia só estará verdadeiramente consolidada quando ser de esquerda, de centro ou de direita deixar de determinar a qualidade democrática de um cidadão.

Os avós fizeram Abril. Os filhos aprenderam o catecismo de Abril .E os netos decidiram finalmente usar a liberdade de Abril para pensar pela própria cabeça.

E talvez seja precisamente isso — e não a perpetuação de uma determinada ideologia — a mais completa vitória do 25 de Abril.