domingo, 26 de julho de 2026

Quando a Direita recupera a Questão Social

Num artigo anterior — A Direita precisa de aprender com Gramsci, sem se tornar gramsciana - defendi que a principal lição do pensador comunista italiano não está no marxismo, mas na compreensão dos mecanismos da hegemonia cultural.
Uma corrente política não conquista verdadeiramente o poder apenas quando vence eleições. Conquista-o quando consegue definir as palavras, os valores e as causas consideradas legítimas. Quando a sua visão deixa de parecer excêntrica e passa a integrar o senso comum.
A evolução do CHEGA deve ser analisada à luz desta disputa.
O partido combina um discurso nacional, conservador e securitário com propostas sociais e laborais que, durante décadas, foram identificadas quase exclusivamente com a Esquerda. O comentariado vê nisso contradição, oportunismo ou simples caça ao voto.
Pode, porém, estar a nascer outra coisa: uma direita nacional e social, ainda incompleta, mas já diferente da velha direita liberal-conservadora. .
A Esquerda não inventou o "trabalhador"
Quando o CHEGA defende a reforma aos 65 anos ou depois de 40 anos de descontos, aproxima-se objectivamente de posições do PCP e do Bloco de Esquerda.
Mas uma medida semelhante não tem necessariamente a mesma origem ideológica.
A defesa do trabalhador, do descanso, da reforma digna e da protecção das famílias não pertence por direito hereditário à Esquerda. Muito antes de o marxismo reclamar o monopólio da questão social, a doutrina social católica discutia o salário justo, a dignidade do trabalho, os deveres da propriedade e os limites morais do poder económico.
Leão XIII não defendia a luta de classes. A Rerum Novarum rejeitava tanto o colectivismo socialista como a exploração do trabalhador por um mercado sem freios morais.
É, portanto, intelectualmente errado concluir que qualquer proposta favorável aos trabalhadores é necessariamente de esquerda.
A Esquerda apropriou-se culturalmente da questão social. Não a inventou.
Coincidência não significa identidade .
O CHEGA tem defendido a redução da idade da reforma, o regresso dos 25 dias de férias, a valorização do trabalho por turnos e uma maior protecção da maternidade e da vida familiar.
Estas posições coincidem parcialmente com reivindicações tradicionais da esquerda partidária e sindical. O enquadramento, porém, é diferente.
O PCP interpreta o trabalhador através do conflito entre capital e trabalho. O Bloco acrescenta-lhe uma leitura identitária e cultural. O CHEGA procura integrar trabalhadores, pequenos empresários, reformados, forças de segurança e classes médias empobrecidas numa comunidade nacional.
Onde a Esquerda vê uma classe, esta Nova Direita procura ver um povo.
Onde a Esquerda propõe a solidariedade internacional dos trabalhadores, o CHEGA apresenta uma solidariedade nacional entre quem trabalha, produz, desconta e sustenta a comunidade.
Onde a Esquerda acusa o capitalismo, o CHEGA denuncia o conluio entre Estado, interesses económicos protegidos, burocracias partidárias e elites transnacionais.
Pode discutir-se a coerência desta formulação. Não se deve, contudo, confundir semelhança de propostas com identidade de projecto político.
A energia e a justiça económica
A questão da energia oferece outro exemplo.
Ao defender a redução drástica do IVA sobre o gás e a electricidade, o CHEGA parte do princípio de que a energia é um bem essencial e de que a carga fiscal penaliza injustamente famílias e empresas.
Também aqui existe convergência material com propostas da Esquerda.
Para o PCP e para o BE, a pobreza energética demonstra o fracasso das privatizações e da lógica capitalista aplicada aos sectores estratégicos.
Para o CHEGA, a factura energética representa sobretudo um mecanismo de extracção fiscal, uma penalização da produção nacional e mais uma consequência de decisões tomadas por elites afastadas da realidade quotidiana.
A Esquerda afirma que o capital explora o trabalhador.
O CHEGA responde que o sistema político, fiscal e económico explora quem trabalha, produz e cumpre.
A diferença está na deslocação do conflito social.
Gramsci e a disputa da linguagem .
É aqui que regressamos a Gramsci.
Uma força política conquista hegemonia quando retira ao adversário as palavras com que este legitimava o seu poder.
Durante décadas, a Esquerda possuiu quase exclusivamente conceitos como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «precariedade», «pobreza» e «privilégio».
  • A velha direita aceitou essa divisão política.
  • A Esquerda falava de justiça; a Direita falava de défice.
  • A Esquerda falava dos trabalhadores; a Direita falava dos mercados.
  • A Esquerda organizava sindicatos, associações e redes culturais; a Direita organizava conferências sobre competitividade e privatizações.
Depois admirou-se por ter perdido os sectores populares.
O CHEGA percebeu, talvez mais por intuição do que por elaboração doutrinária, que uma direita limitada aos impostos, às empresas e ao crescimento económico nunca constituiria uma maioria social duradoura.
Por isso começou a disputar as palavras abandonadas pela velha direita: .
Trabalho; Protecção; Reforma; Salário; Descanso; Justiça; Privilégio; Povo.
Isto é metapolítica aplicada.
Não se trata apenas de apresentar propostas. Trata-se de retirar à Esquerda o monopólio da indignação social.
Benedikt Kaiser e o novo bloco social
Benedikt Kaiser sustenta que a Nova Direita não pode limitar-se à imigração, à segurança ou ao combate contra o progressismo cultural.
Precisa de recuperar a questão social, criticar os efeitos desagregadores da globalização e criar uma aliança entre trabalhadores, famílias, pequenos empresários, classes médias empobrecidas e comunidades locais.
Precisa, numa expressão de origem gramsciana, de formar um novo bloco social.
É isso que torna a experiência do CHEGA politicamente interessante.
O partido procura reunir sectores tradicionalmente considerados incompatíveis: antigos eleitores da Esquerda, pequenos empresários sufocados por impostos, reformados, forças de segurança, populações das periferias e eleitores culturalmente conservadores.
O cimento desta coligação não é a consciência de classe.
É a percepção de abandono.
Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, pelas elites económicas, pelas instituições europeias e por uma classe dirigente protegida das consequências das decisões que toma.
A mensagem é simples: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta o País está a ser sacrificado por quem governa, especula ou beneficia de privilégios.
Pode ser uma mensagem simplificadora e até demagógica. Mas possui uma força emocional que a tecnocracia da velha direita e o moralismo da nova esquerda deixaram de ter.
O ponto cego do comentariado 
O comentariado continua a analisar o CHEGA através das categorias políticas do século passado.
Classifica-o como «extrema-direita» e considera o trabalho concluído.
A etiqueta substitui a análise.
Pouco se investiga a deslocação do voto operário, a perda de influência da Esquerda nas periferias, a apropriação da questão laboral ou a combinação entre protecção social, autoridade, soberania e identidade nacional.
Reconhecer a dimensão social do CHEGA obrigaria muitos comentadores a admitir que a Direita já não está confinada ao liberalismo económico e que a Esquerda perdeu a representação exclusiva dos desfavorecidos.
Obrigá-los-ia também a aceitar que os eleitores populares podem votar no CHEGA não por ignorância ou manipulação, mas porque deixaram de se sentir representados por uma Esquerda mais interessada em minorias sociológicas e causas identitárias do que nas condições materiais e culturais dos trabalhadores.
É mais confortável chamar-lhes «ressentidos».
Evita perguntar por que razão se ressentem.
Um partido de protesto total 
Ao combinar segurança, combate à corrupção, crítica à imigração descontrolada, defesa dos trabalhadores e ataque aos privilégios políticos, o CHEGA apresenta-se como partido de protesto total.
  • Contra o crime e contra a precariedade.
  • Contra a desordem e contra os privilégios.
  • Contra a globalização sem fronteiras e contra o abandono dos territórios.
Esta amplitude contém riscos.
Sem doutrina, pode transformar-se numa acumulação oportunista de descontentamentos. Sem sustentabilidade financeira, as promessas sociais podem reduzir-se a proclamações eleitorais. Sem formação de quadros e instituições culturais, tudo poderá continuar excessivamente dependente de André Ventura.
Romper a hegemonia alheia não é o mesmo que construir uma hegemonia própria.
O CHEGA terá, por isso, de responder a uma pergunta que nenhuma intervenção parlamentar consegue evitar para sempre:

Que sociedade pretende construir?
.
A Direita não está a tornar-se de esquerda 
O que estamos a observar pode não corresponder a uma esquerdização do CHEGA.
Pode corresponder ao regresso da Direita à questão social.
A velha direita portuguesa abandonou durante demasiado tempo os trabalhadores à Esquerda, a cultura aos progressistas, os sindicatos aos comunistas e a solidariedade ao Estado burocrático.
Defendeu o mercado, mas esqueceu-se da comunidade.

Uma Nova Direita terá de compreender que a Nação não é apenas território, bandeira, fronteira e memória. É também dignidade do trabalho, protecção entre gerações, segurança económica e reconhecimento de quem sustenta a comunidade.
Gramsci ajuda a compreender a disputa pela hegemonia.
Leão XIII recorda que a sociedade não pode ser reduzida nem à luta de classes nem à lei do mais forte.
Benedikt Kaiser mostra que uma direita nacional que abandone a questão social acabará por abandonar o próprio povo.

O CHEGA parece ter intuído esta convergência. Ainda não sabemos se conseguirá transformá-la numa doutrina coerente e numa verdadeira alternativa de poder.
Mas uma coisa começa a tornar-se evidente: a Esquerda deixou de possuir o monopólio da linguagem da justiça social.
Não porque o CHEGA se tenha tornado de esquerda.
Mas porque a Esquerda confundiu durante demasiado tempo uma conquista cultural com um direito de propriedade.
.

"Serão afastados": a frase que devia ter acordado toda a gente

Há frases que, ditas por um ministro, deviam soar como sirenes. "Todos os que sejam um estorvo ou contracorrente de uma decisão benéfica para o país serão afastados." Foi Luís Neves quem a proferiu, em Viana do Castelo, a propósito da substituição de polícias por civis em tarefas administrativas. E o mais grave não foi o anúncio da medida — foi o tom. Um ministro da Administração Interna, que tutela forças de segurança armadas, a avisar que "isso vai deixar de ser assim" e que quem resistir "não tem lugar neste Ministério, nem neste Governo" não está a gerir uma reforma. Está a ensaiar uma linguagem de comando que não pertence a uma democracia liberal, pertence a quem confunde autoridade do Estado com autoridade pessoal.

E, no entanto, essa frase foi recebida com um encolher de ombros. As mesmas vozes que vasculham cada adjetivo de outros governantes bocejaram perante um ministro a prometer, à letra, purgas contra quem lhe "faça contracorrente". Porquê? Porque Luís Neves não é um ministro qualquer: é o antigo diretor da Polícia Judiciária, nomeado por António Costa, elogiado durante anos pela esquerda, e hoje colocado no Governo por Luís Montenegro. É precisamente essa promiscuidade — entre quem já dirigiu a polícia que investiga o poder e quem hoje ocupa o poder — que devia inquietar toda a gente, de direita a esquerda.

O caso não é apenas retórico. Luís Neves está sob suspeita: obras na sua casa em Odemira e um atrelado apreendido numa investigação de tráfico de droga, encontrado junto a um camião da empresa que fez essas obras. A Polícia Judiciária abriu inquérito. A Procuradoria-Geral da República confirmou-o, ligado à "Operação Pacoba". O próprio ministro prometeu esclarecimentos — e continua a adiá-los, semana após semana, enquanto pede "ainda bem" que se investigue... para ganhar tempo.

É neste contexto que ganha sentido a comissão parlamentar de inquérito aos mandatos de Luís Neves à frente da PJ. E é aqui que a posição do PS, pela voz de José Luís Carneiro, se torna reveladora. Carneiro diz que o PS não acompanha a CPI "por necessidade de proteger as instituições". Ora isto inverte o próprio sentido do controlo parlamentar. As comissões de inquérito não existem para confirmar o óbvio sobre instituições já desacreditadas — existem precisamente para escrutinar instituições que ainda têm crédito, antes que o percam. Se só se pode investigar quem já não tem reputação a perder, então a fiscalização democrática deixa de ser prevenção e passa a ser necrológio. Como resumiu bem um comentador nas redes sociais, esta é "uma novidade" incómoda vinda de quem devia ser o primeiro a exigir transparência.

Há ainda uma contradição que salta à vista: o mesmo PS que atacou ferozmente o ministro da Educação, Fernando Alexandre, e Ana Paula Martins por causa dos exames nacionais, trata com "paninhos quentes" um caso que, do ponto de vista ético, é objetivamente mais grave — envolve obras numa casa privada, bens apreendidos numa investigação de droga e o antigo chefe máximo da polícia criminal do país. Rui Rio, ex-líder do PSD, não hesitou: disse que o caso "abala profundamente" a credibilidade não só do Governo e do PSD, mas também do PS, e que este imobilismo está a servir de "filet mignon" ao Chega.

Não se trata de fazer justiça sumária a Luís Neves nas redes sociais ou nas páginas de opinião. A presunção de inocência aplica-se a ele como a qualquer cidadão. Mas a presunção de inocência não é incompatível com a fiscalização parlamentar — são, aliás, complementares: uma comissão de inquérito apura responsabilidade política, não culpa criminal. E há uma pergunta que só o Parlamento pode responder com autoridade: pode alguém que dirigiu a Polícia Judiciária, hoje sob suspeita e sob investigação, continuar a tutelar a segurança interna do país sem que se esclareçam, publicamente e sob juramento, os seus anos à frente da PJ?

Como escreveu Passos Coelho, "não se pode passar de diretor de Polícia Judiciária a ministro da Administração Interna" sem que essa transição seja escrutinada com o rigor que a função exige. Manter Luís Neves no Governo, sem esclarecimentos e sem CPI, não é proteger instituições. É protegê-lo a ele. E é isso — mais do que qualquer medida administrativa sobre civis nas esquadras — que hoje "abala profundamente" a confiança dos portugueses no Estado.

 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

A Ruptura que o Comentariado Ainda Não Compreendeu

A direita liberal portuguesa morreu. O jornalistado e o comentariado é que ainda não receberam a certidão de óbito. 

Continuam a analisar a política portuguesa como se o espaço à direita permanecesse dividido entre uma direita liberal “respeitável”, europeísta e economicamente ortodoxa, e uma direita mais exaltada, populista ou radical, que teria nascido de uma simples degeneração da primeira.
É um erro de diagnóstico.
A emergência da Nova Direita não representa a radicalização da velha direita liberal-conservadora. Representa a sua substituição.
Benedikt Kaiser, Duarte Branquinho e, no plano editorial português, José Costa-Deitado convergem numa interpretação que devolve à direita três dimensões que o liberalismo foi progressivamente abandonando: a cultura, a soberania e a Questão Social.
Não se trata de tornar o PSD ou o CDS mais duros, mais patrióticos ou mais agressivos na linguagem. Trata-se de construir outra direita, com outras prioridades, outras referências e outra compreensão da política.

A política começa antes das eleições 
A Nova Direita parte de uma premissa que a direita liberal portuguesa nunca compreendeu: nenhuma vitória eleitoral é duradoura sem uma vitória cultural anterior.
Antes de conquistar governos, é necessário disputar a linguagem, os valores, os conceitos, a memória histórica e o imaginário colectivo. É necessário fazer com que certas ideias deixem de parecer marginais e passem a integrar o senso comum.
Kaiser formula esta estratégia através da recuperação, à direita, da metapolítica de inspiração gramsciana. Duarte Branquinho procura traduzi-la para a realidade portuguesa. Costa-Deitado aplica-a no plano editorial, identificando temas, rupturas e linguagens que a velha direita nunca soube — ou nunca quis — assumir.
A direita liberal acreditava que bastava apresentar melhores gestores, baixar alguns impostos, equilibrar contas e aguardar que a alternância democrática lhe entregasse periodicamente o Governo.
Enquanto administrava, a esquerda transformava a cultura.
Quando a velha direita finalmente percebeu o que tinha perdido, já falava a língua dos adversários, aceitava os seus conceitos e pedia autorização para existir.

Identidade, comunidade e soberania 
A Nova Direita organiza-se em torno de três pilares fundamentais a que a velha direita tecnocrática, liberal e europeísta deixou de conseguir responder.
O primeiro é a identidade, entendida como continuidade histórica, cultural e civilizacional. Uma nação não é um território administrativo ocupado ocasionalmente por indivíduos sem memória comum. É uma comunidade histórica construída através das gerações.
O segundo é a comunidade, entendida não como uma soma de consumidores ou contribuintes, mas como uma unidade política e cultural assente em deveres, pertenças, solidariedades e destinos partilhados.
O terceiro é a soberania, não apenas jurídica ou territorial, mas também económica, cultural, energética, alimentar e estratégica.
Sem soberania, a democracia transforma-se numa representação teatral: os cidadãos votam, mas as decisões fundamentais são tomadas por estruturas que não elegeram e que não conseguem responsabilizar. 

A Questão Social regressa à direita
Durante décadas, a direita liberal abandonou os trabalhadores nacionais, os pequenos empresários, os agricultores, os reformados e as classes médias empobrecidas.
Convenceu-se de que falar de salários, precariedade, habitação, protecção social, produção nacional ou dignidade laboral era fazer concessões à esquerda.
Foi um dos seus maiores erros históricos.
Ao abandonar a Questão Social, a direita entregou milhões de portugueses à propaganda socialista e comunista — mesmo quando essa mesma esquerda já pouco tinha para lhes oferecer além de impostos, dependência, burocracia e imigração utilizada como reserva de mão-de-obra barata.
A Nova Direita recupera a ideia de que não existe Nação politicamente estável sem coesão social.
Defender o trabalhador nacional, a família, o salário digno, a produção interna e a economia real não é imitar a esquerda. É recuperar uma tradição social da direita que o liberalismo económico procurou apagar.
Uma direita que fala apenas de empresas, mercados e contas públicas pode administrar um Estado. Mas dificilmente representa um povo. 

A metapolítica como método
A Nova Direita não é apenas um conjunto de propostas eleitorais. É também um método de combate cultural.
Kaiser ajuda a defini-lo. Branquinho procura adaptá-lo. Costa-Deitado aplica-o editorialmente, através da crítica das categorias impostas pelo jornalismo dominante e da reconstrução de uma linguagem política própria.
É precisamente esta dimensão que o comentariado não consegue compreender.
Habituado a analisar sondagens, congressos partidários, tácticas parlamentares e declarações televisivas, não percebe que a transformação mais profunda está a ocorrer fora das sedes partidárias.
Acontece nas redes sociais, nos livros, nos jornais alternativos, nos blogues, nas associações, nas comunidades locais, nos debates históricos e na recuperação de conceitos que haviam sido proibidos, ridicularizados ou abandonados.
A batalha política decisiva já não se trava apenas no Parlamento. Trava-se na definição do que pode ser dito, pensado e defendido. 

A velha direita já não existe
O jornalistado e o comentariado continuam a analisar a direita portuguesa através de categorias mortas.
Procuram “moderados” e “radicais”, “responsáveis” e “populistas”, “europeístas” e “extremistas”, como se o conflito actual fosse apenas uma disputa de intensidade dentro da mesma família política.
Não é.
A velha direita liberal dissolveu-se culturalmente, perdeu a sua base social, aceitou quase todas as premissas progressistas e reduziu-se a uma versão contabilisticamente mais prudente da esquerda.
A Nova Direita ocupa agora esse espaço vazio com uma proposta diferente: soberanista, comunitária, social, identitária e metapolítica.
Pode ainda estar incompleta. Pode conter contradições, improvisações e insuficiências doutrinárias. Mas a ruptura já aconteceu. 


“Eles” ainda não deram por isso...
Continuam a discutir se a velha direita deve deslocar-se um pouco mais para o centro ou um pouco mais para a direita.
Não perceberam que já não existe velha direita para deslocar.
Dela resta apenas o cadáver político (...e um comentariado aplicado em entrevistá-lo.)

domingo, 19 de julho de 2026

Luís Neves, o atrelado, os bidões e o jornalismo de joelhos

Há casos em que o escândalo não está apenas no facto. Está no silêncio que o antecede. Ou, pior ainda, no modo como certas redacções, certos comentadores e certos sacerdotes do regime escolhem o momento exacto em que deixam de fingir que não viram.

O caso de Luís Neves é exemplar. Não apenas pelo que revela sobre um ministro. Mas, sobretudo, pelo que expõe sobre o jornalistado e comentariado que o protegeu, embalou, desculpou ou simplesmente deixou passar entre os pingos da chuva.
Para Luís Montenegro, Luís Neves tinha uma utilidade política evidente. Era um ministro da Administração Interna com uma aura de “homem forte”, mas suficientemente confortável para sectores da oposição socialista. Um ministro que, por percurso, contactos e cumplicidades institucionais, podia ser visto por parte do sistema como “um dos seus”. E num Governo frágil, qualquer figura com aparência de autoridade vale ouro. Mesmo quando essa autoridade começa a cheirar a dissolução.
O problema é que havia sinais. Havia episódios. Havia matéria política. Havia perguntas que qualquer jornalismo digno desse nome deveria ter feito.
Mas não fez.
Quando surgiram referências às ameaças que Luís Neves terá dirigido, no Parlamento, a André Ventura — ameaças sobre as quais o líder do CHEGA disse ter sido alertado por elementos do Governo e por deputados próximos do próprio ministro — o país jornalístico entrou naquela modalidade olímpica em que é campeão absoluto: a indiferença selectiva.

Se o protagonista fosse outro, teríamos tido escândalo nacional. Teríamos fact-checks em série. Teríamos especialistas em comunicação não-verbal. Teríamos comentadores de cenho franzido, juristas de serviço, psicólogos políticos, painéis de emergência, sondagens sobre “a degradação da democracia” e talvez até especialistas em leitura de lábios a analisarem o vídeo frame a frame.
Mas era Luís Neves.
E quando é alguém do circuito certo, com as relações certas, com o odor certo a Estado profundo, tudo muda. O que noutros seria ameaça, nele passou a “contexto”. O que noutros seria abuso, nele tornou-se ruído. O que noutros seria escândalo, nele foi tratado como uma nota de rodapé que nem sequer merecia rodapé.
Depois vieram as irregularidades da chamada construção do tanque-piscina. Também aí, o jornalismo que gosta tanto de farejar barracões alheios, licenças antigas e fotografias de satélite quando convém ao combate político, descobriu subitamente uma prudência franciscana. As palavras foram usadas com pinça. A indignação ficou em quarentena. O zelo investigativo meteu baixa médica.
Havia qualquer coisa de quase comovente naquele cuidado. Comovente, se não fosse obsceno.
Porque o mesmo jornalistado e comentariado que não hesita em carregar no adjectivo quando fala da Nova Direita parlamentar, que não se cansa de moralizar quando o alvo é André Ventura, que vê “ameaças à democracia” em cada frase que não cabe na catequese progressista, revelou, perante Luís Neves, uma contenção de relojoeiro suíço.
Conta, peso e medida para os amigos do sistema. Martelo, labéu e pelourinho para os adversários do sistema.
Até que apareceu o atrelado.
E depois os bidões.
Foi preciso que a narrativa se tornasse demasiado material, demasiado visual, demasiado ridícula, demasiado impossível de varrer para debaixo do tapete. Um atrelado apreendido pela justiça na Operação Pacoba e a notícia de que os bidões teriam estado dentro dele fizeram aquilo que meses de sinais políticos, irregularidades urbanísticas e episódios parlamentares não conseguiram fazer: obrigaram a máquina mediática a mexer-se.
Não porque tivesse acordado a consciência jornalística. Não exageremos. Apenas porque o cadáver narrativo começou a cheirar demasiado.
O caso Luís Neves mostra, mais uma vez, que em Portugal não há apenas jornalismo. Há administração política da percepção pública. Há temas que sobem porque convém. Há temas que descem porque incomodam. Há protagonistas que são abatidos à primeira suspeita. E há outros que são acompanhados com luvas brancas até ao ponto em que as luvas já não escondem a nódoa.

O jornalistado português não falhou por falta de informação. Falhou por excesso de alinhamento. Não falhou por prudência. Falhou por servilismo. Não falhou por respeito pelo contraditório. Falhou porque sabe perfeitamente onde deve ser feroz e onde deve ser doméstico.
Durante demasiado tempo, Luís Neves beneficiou dessa domesticidade. O ministro “forte” de um Governo frágil foi tratado como peça útil de um equilíbrio de regime. E, enquanto assim foi, as perguntas ficaram mansas, as suspeitas ficaram discretas, as ameaças ficaram invisíveis, e as irregularidades ficaram numa espécie de limbo moral onde só entram os protegidos da casa.
Depois, o atrelado e os bidões estragaram o arranjo.
Não foram os jornalistas que descobriram a gravidade política do caso. Foi a gravidade política do caso que se tornou impossível de ocultar. E isso faz toda a diferença.
Porque um jornalismo que só acorda quando já não pode dormir não é jornalismo. É encobrimento com atraso. É comentário de joelhos. É servidão com carteira profissional.
E no fim fica a pergunta que verdadeiramente interessa: quantos outros casos, quantas outras cumplicidades, quantas outras “personalidades fortes” continuam a ser protegidas não pela inexistência de factos, mas pela disciplina cobarde de quem decide o que o país pode saber - e, sobretudo, quando pode saber?


O atrelado trouxe os bidões.
Mas trouxe também outra coisa: a confirmação de que há muito lixo político que só aparece quando a tampa já não fecha.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Metapolítica como Nova Frente de Combate Cultural na Europa

A Metapolítica ( o conjunto de bases teóricas, culturais e filosóficas) como Nova Frente de Combate Cultural na Europa
  • · Domínio Cultural: Focada na conquista da hegemonia cultural (popularizada por pensadores como Antonio Gramsci), busca moldar a linguagem, a moral e o imaginário coletivo.
  • · Dimensão Filosófica: Dedicada ao estudo dos fundamentos atemporais e das grandes categorias que condicionam o agir humano.
  • · Correntes Radicais: A actuação que visa superar as próprias bases da política institucional tradicional.
A política europeia está a atravessar uma transformação silenciosa, mas profunda. Não se trata apenas da ascensão de novos partidos, da erosão das velhas famílias políticas ou da crescente polarização social. O que está verdadeiramente em causa é uma mudança no terreno onde a política se decide. A disputa central deixou de ser apenas eleitoral e passou a ser cultural, simbólica, identitária. É neste contexto que importa compreender o papel metapolítico desempenhado por actores tão distintos como Alain de Benoist, Marco Tarchi, Guillaume Faye, Giorgia Meloni, Santiago Abascal e André Ventura. 
Apesar das diferenças evidentes entre eles - uns teóricos, outros dirigentes partidários - todos participam, de forma directa ou indirecta, num combate que antecede a política formal: a luta pela definição do sentido da cultura, da identidade e da legitimidade. A metapolítica, conceito popularizado pela Nouvelle Droite francesa, tornou-se a gramática subterrânea que estrutura grande parte da disputa política contemporânea.
A matriz intelectual: Benoist, Tarchi e Faye
Alain de Benoist, fundador da Nouvelle Droite, foi quem primeiro sistematizou a ideia de que a política se vence na cultura. Para Benoist, a hegemonia não se conquista apenas com votos, mas com a capacidade de moldar imaginários, narrativas e valores. A sua crítica ao universalismo liberal, ao individualismo e ao igualitarismo tornou-se a base conceptual para uma direita que procura redefinir o espaço cultural europeu.
Marco Tarchi, em Itália, desempenhou um papel complementar. Mais analista do que militante, Tarchi estudou o populismo como fenómeno cultural e não apenas eleitoral. A sua leitura da identidade, da representação e da crise das elites ajudou a traduzir a metapolítica francesa para o contexto italiano, influenciando sectores que viriam a convergir com o actual campo conservador.
Guillaume Faye representa a ruptura e a radicalização. Se Benoist privilegia a construção cultural lenta, Faye defende uma metapolítica de mobilização, conflito e urgência civilizacional. A sua ideia de “choque das civilizações internas”, a crítica ao “etnomasoquismo” e a defesa de uma identidade europeia combativa anteciparam a linguagem que hoje domina sectores identitários e movimentos digitais. Faye é, em muitos aspectos, o elo entre a teoria e a prática política contemporânea.
Da teoria à política
Giorgia Meloni, Santiago Abascal e André Ventura não são teóricos da metapolítica, mas são herdeiros práticos dessa cultura política. Nenhum deles cita Benoist ou Faye, mas todos utilizam enquadramentos que derivam dessa matriz: a defesa das raízes, a crítica ao globalismo, a centralidade da identidade nacional, a denúncia das elites cosmopolitas, a ideia de crise civilizacional. 
Meloni construiu uma narrativa de continuidade histórica italiana, onde tradição, família e soberania formam um tripé cultural que legitima a sua acção governativa.
Abascal, em Espanha, adoptou uma estratégia de guerra cultural explícita, com forte presença digital e uma retórica de confronto simbólico. 
Ventura, em Portugal, combina populismo penal com uma narrativa identitária que procura redefinir o “povo” e o “sistema”, usando os media como palco privilegiado. Todos estes actores compreendem que a política contemporânea é, antes de tudo, uma disputa pela definição do “nós”. A batalha não é apenas sobre políticas públicas, mas sobre quem tem autoridade para definir o sentido da comunidade política.

A grande inovação dos últimos anos é a transição da metapolítica clássica - centrada em revistas, think tanks e produção intelectual - para uma metapolítica digital, acelerada e emociona de que Faye é o precursor. A sua visão de mobilização identitária antecipou a lógica das redes sociais, onde símbolos, narrativas curtas e conflitos morais substituem longas elaborações teóricas. Meloni, Abascal e Ventura operam neste novo ecossistema. A guerra cultural é travada diariamente através de vídeos curtos, slogans, polémicas e enquadramentos morais. A metapolítica tornou-se performativa: não basta ter ideias, é preciso dramatizá-las. O que realmente os une:
Apesar das diferenças, há cinco elementos comuns:
  • - A política é cultural antes de ser eleitoral.
  • - A identidade é o eixo central da mobilização.
  • - O universalismo liberal é visto como ideologia dominante a contestar.
  • - A guerra cultural é método e não apenas retórica.
  • - A influência da Nouvelle Droite é directa ou indirecta.
A metapolítica tornou-se, assim, a nova frente de combate da política europeia. Não é um fenómeno marginal, mas o terreno onde se decide o futuro das democracias ocidentais. Ignorá-la é não compreender o mundo político que está a emergir

segunda-feira, 13 de julho de 2026

A Direita precisa de aprender com Gramsci — sem se tornar gramsciana

Há nomes que certas direitas pronunciam com devoção. Burke. Maistre, Tocqueville, Scruton, Hayek, quando se entra no departamento comercial e Leão XIII, quando alguém se recorda que à direita também existem trabalhadores.

...e há nomes que a velha direita portuguesa prefere não tocar, receando talvez uma contaminação ideológica por contacto. Antonio Gramsci é um deles.

É compreensível para a velha direita Gramsci foi marxista, dirigente e secretário-geral do Partido Comunista Italiano. Não escreveu para salvar a Civilização Europeia, defender a Nação ou restaurar as comunidades históricas. Escreveu para compreender por que razão a revolução comunista não triunfara nas sociedades ocidentais e para descobrir como poderia vir a triunfar.
" Mas uma teoria não deixa de explicar correctamente determinados mecanismos sociais apenas porque o seu autor pretendia utilizá-la contra nós "
Foi isto que Alain de Benoist e a Nouvelle Droite francesa compreenderam há várias décadas. Foi isto que Marco Tarchi procurou adaptar à Nuova Destra italiana. É isto que Benedikt Kaiser vem aprofundando na Alemanha. E é também isto que Duarte Branquinho tem procurado introduzir no ainda modesto debate intelectual português: não uma conversão da Direita ao marxismo, mas uma apropriação crítica dos instrumentos de análise de Gramsci.
Duarte Branquinho publicou, em Junho de 2026, um texto intitulado «Para um gramscismo de direita», recordando que a proposta central do GRECE consistia num combate cultural necessariamente anterior à vitória política.[1]

A questão é simples: pode uma Direita aprender com Gramsci sem adoptar o gramscismo? Pode. E deve.

O poder não começa no Parlamento
A velha direita imaginou durante demasiado tempo que a política se resumia a ganhar eleições, administrar ministérios, equilibrar orçamentos e comparecer em inaugurações. Quando conseguia governar, julgava ter conquistado o poder. Depois descobria, geralmente tarde, que apenas ocupara temporariamente alguns gabinetes.
As universidades continuavam dominadas pelos adversários.
A produção cultural continuava dominada pelos adversários.
O vocabulário aceitável continuava definido pelos adversários.
Os jornalistas, os comentadores, os artistas, os editores, os sindicatos, as associações profissionais e grande parte da burocracia continuavam a reproduzir a visão do mundo dos adversários.

A Direita ganhava o Governo, mas a Esquerda conservava a sociedade.
Gramsci percebeu que o domínio político duradouro não depende somente da polícia, das leis ou dos votos. Depende da capacidade de uma classe ou de uma corrente histórica apresentar os seus interesses particulares como se fossem o interesse geral — e transformar as suas opiniões em evidências, os seus preconceitos em virtudes e a sua linguagem em senso comum.
É a isso que se chama hegemonia cultural.
Quando a hegemonia está consolidada, já não é necessário proibir o pensamento adversário. Basta torná-lo socialmente indecoroso. Já não é preciso prender quem discorda. Basta fazê-lo parecer ignorante, atrasado, perigoso ou moralmente impuro.
...e até a censura deixa de usar lápis azul. Passa a usar adjectivos.

A vitória da Esquerda começou antes das urnas
A Esquerda europeia não conquistou a sua influência apenas através dos partidos comunistas, socialistas ou sociais-democratas. Conquistou-a através de professores, jornalistas, cineastas, escritores, sociólogos, sindicalistas, funcionários, associações, fundações e movimentos culturais.
- Antes de ocupar Governos, ocupou o imaginário.
Antes de escrever leis, definiu as palavras com que as leis seriam discutidas.
Antes de conquistar votos, ensinou várias gerações a considerar naturais as suas próprias premissas.
   - Família passou a ser suspeita de repressão. 
   - Nação passou a ser suspeita de nacionalismo.
   - Autoridade passou a ser suspeita de autoritarismo.
   - Fronteira passou a ser suspeita de xenofobia.
   - Tradição passou a ser sinónimo de atraso.
A Direita, entretanto, entretinha-se a discutir taxas de imposto, concessões de auto-estradas e lugares nos conselhos de administração. Imaginava que bastava gerir melhor aquilo que a Esquerda tinha culturalmente definido.
Foi por isso que durante décadas existiu uma direita económica governando ocasionalmente dentro de uma sociedade culturalmente de esquerda.

De Benoist, Tarchi, Faye e o combate metapolítico
Alain de Benoist foi o nome central da Nouvelle Droite francesa e do GRECE. A partir dos anos 70, aquela corrente procurou reconstruir uma visão europeia alternativa simultaneamente ao marxismo, ao liberalismo económico e às direitas nostálgicas do passado.
Em 1981, o GRECE promoveu um colóquio programático dedicado a um possível «gramscismo de direita», cujos trabalhos seriam publicados no ano seguinte. A ideia era retirar a Gramsci a finalidade marxista, conservando a percepção de que o poder cultural prepara e condiciona o poder político.[2]
Guillaume Faye levaria esta concepção numa direcção mais militante, procurando ligar a produção intelectual à mobilização política. Daniel Friberg retomaria posteriormente a metapolítica como construção de uma infra-estrutura cultural própria: livros, revistas, redes, conferências, meios digitais, formação de quadros e circulação internacional de ideias.[3]
Jean-Yves Le Gallou acrescentou a noção de reinformação
não basta protestar contra o jornalistado; é necessário criar meios capazes de investigar, seleccionar, enquadrar e difundir factos que os grandes aparelhos mediáticos ignoram ou apresentam segundo uma grelha ideológica predefinida.
A sua actividade combinou intervenção cultural, criação de redes, disputa da linguagem e tentativa de quebrar o cordão sanitário que separava determinadas ideias do espaço público legítimo.[4]
Em Itália, Marco Tarchi foi o principal representante da Nuova Destra. A corrente desenvolveu uma intensa actividade editorial, culturalmente ecléctica, procurando substituir a velha subcultura partidária por uma verdadeira estratégia metapolítica e por um «gramscismo de direita».[5]
Mais recentemente, Francesco Giubilei tem defendido que a Direita não pode limitar-se a denunciar a hegemonia cultural da Esquerda. Tem de construir uma política cultural, novas instituições, novos editores, novos intelectuais e novas elites.[6]
Frank Furedi, vindo originalmente da esquerda marxista, descreveu a sua intervenção actual como uma espécie de «Gramsci ao contrário»: uma tentativa de desafiar as normas culturais promovidas pelas instituições europeias e transformadas em ortodoxia continental.[7]

Benedikt Kaiser: da cultura à questão social
Benedikt Kaiser acrescenta a este debate uma dimensão especialmente importante: a Direita não pode limitar-se à guerra cultural, nem reduzir a metapolítica a uma fábrica de frases provocatórias para as redes sociais.
Kaiser procura recuperar conceitos como hegemonia, bloco histórico, crise de autoridade e formação de uma vontade colectiva, relacionando-os com a fragmentação social provocada pelo capitalismo globalizado.
Na obra Der Hegemonie entgegen — Gramsci, Metapolitik und Neue Rechte, analisa precisamente os conceitos gramscianos de hegemonia e bloco histórico e a sua possível utilização pela Nova Direita.[8]
Aqui encontramos uma diferença fundamental entre Kaiser e uma parte da direita liberal-conservadora.
Para esta última, a sociedade é frequentemente reduzida ao indivíduo consumidor, ao mercado e à soma das escolhas privadas. Para Kaiser, uma direita nacional precisa de reconstruir solidariedades, proteger o trabalho, recuperar a questão social e ligar trabalhadores, famílias, pequenas empresas, classes médias empobrecidas e comunidades locais.
Ou seja: precisa de formar um novo bloco social.
É precisamente neste ponto que o pensamento de Kaiser pode encontrar-se com a doutrina social de Leão XIII.
  • Gramsci oferece instrumentos para compreender a hegemonia.
  • Leão XIII oferece princípios para orientar a sociedade.
Um explica como o poder cultural se organiza. O outro recorda para que deve servir a ordem social: dignidade do trabalhador, justiça, propriedade, família, associações profissionais, cooperação entre classes e bem comum.
A Direita pode aprender com o diagnóstico de Gramsci sem aceitar a luta de classes. Pode compreender o conceito de bloco histórico sem adoptar o materialismo. Pode disputar a hegemonia sem desejar instaurar um novo totalitarismo cultural.

E Portugal?
Em Portugal, Duarte Branquinho é provavelmente o publicista que mais explicitamente tem procurado desenvolver esta discussão no interior da Direita. O seu trabalho sobre o chamado «gramscismo de direita», a Nouvelle Droite e figuras como Jean-Yves Le Gallou coloca-o numa posição ainda pouco comum entre nós.[9]
Há outros autores portugueses que participam, em graus diferentes, da crítica à hegemonia cultural da Esquerda. Jaime Nogueira Pinto há muito insiste na importância das ideias, da memória histórica e da formação de elites. Miguel Morgado tem sublinhado a necessidade de uma Direita intelectualmente articulada. Outros publicistas, revistas, editoras, blogues e círculos culturais trabalham hoje na reconstrução de uma linguagem política não subordinada à Esquerda.
Mas seria excessivo chamar-lhes, sem mais, «gramscianos de direita».
A afinidade está sobretudo no diagnóstico: a Direita portuguesa perdeu durante décadas o combate cultural porque nem sequer percebeu que ele estava a decorrer.
Enquanto a Esquerda ocupava departamentos universitários, redacções, sindicatos, fundações, associações culturais e aparelhos do Estado, a velha direita celebrava privatizações, escrevia editoriais sobre moderação e pedia licença para existir.
Quando alguém à sua direita aparecia sem pedir autorização, a direita respeitável corria a explicar à Esquerda que também estava muito preocupada.

O CHEGA e a intuição metapolítica
É neste contexto que o CHEGA deve ser observado.
Não creio que o partido possua já uma doutrina metapolítica perfeitamente organizada. Há demasiada improvisação, personalização, contradições internas e dependência do ciclo mediático para afirmá-lo.
Mas há uma intuição.
André Ventura percebeu que a política não se ganha apenas apresentando programas tecnicamente competentes. Ganha-se também contestando as categorias, recusando as palavras impostas e quebrando interditos culturais.
Ao recusar que a Direita aceite antecipadamente a linguagem do adversário, o CHEGA alterou o campo do possível.
Tem, porém, um problema: romper a hegemonia alheia não é o mesmo que construir uma hegemonia própria.
Uma força política não cria uma nova cultura apenas através de intervenções parlamentares, indignações televisivas ou publicações virais. Precisa de intelectuais, revistas, editoras, escolas de formação, associações, sindicatos, autarcas, empresários, trabalhadores, professores, juristas, artistas e produtores culturais.
- Precisa de pensamento que sobreviva ao noticiário do dia.
- Precisa de uma concepção do Homem, da sociedade, da economia, da Nação e da Europa.
- Precisa, enfim, de passar do protesto à construção.
Não basta ganhar eleições
Uma Nova Direita portuguesa não poderá limitar-se a substituir ministros, directores-gerais ou comentadores. Terá de alterar a forma como os portugueses compreendem a Nação, o trabalho, a família, a autoridade, a soberania, a justiça e o bem comum.
Isso não se faz por decreto.
Faz-se publicando livros. Criando jornais. Formando professores. Disputando sindicatos. Apoiando associações. Produzindo cinema, música e literatura. Criando redes de solidariedade. Prestigiando intelectuais próprios. Levando ideias às periferias e aos grupos sociais concretos.
Transformando em senso comum aquilo que hoje ainda é apresentado como pensamento marginal.

A lição de Gramsci não é que a Direita deva tornar-se comunista. É que nenhuma corrente política governa duradouramente uma sociedade que continua a pensar segundo as categorias dos seus adversários.
A velha direita portuguesa queria ganhar eleições sem travar batalhas culturais.
A Nova Direita terá de compreender que as eleições são apenas uma parte da batalha.
- Antes do voto vem a palavra.
- Antes da lei vem a ideia.
- Antes do Governo vem a cultura e 
- Antes da vitória política vem a coragem de deixar de pedir à Esquerda autorização para pensar.
...

Notas

[1] Duarte Branquinho, «Para um gramscismo de direita», Breviário, Junho de 2026: breviario.substack.com.

[2] Sobre a circulação do conceito de «gramscismo de direita» entre a Itália e a França e a recepção de Gramsci pelo GRECE, ver Le Monde, «Entre l’Italie et la France, itinéraire du “gramscisme de droite”».

[3] Karl Ekeman, análise sobre o «gramscianismo de direita», metapolítica e estratégia cultural, Columbia Center for Contemporary Critical Thought.

[4] Estudos sobre Jean-Yves Le Gallou enquanto mediador de ideias, promotor da reinformação e organizador de redes metapolíticas francesas.

[5] Estudos académicos sobre Marco Tarchi e a Nuova Destra italiana, incluindo a sua actividade editorial, metapolítica e apropriação crítica de conceitos gramscianos.

[6] Francesco Giubilei, «Cultural Hegemony and the Need for Conservatives to Build a Cultural Policy», Deliberatio.

[7] Frank Furedi, intervenções sobre hegemonia cultural, liberdade de expressão e contestação das ortodoxias institucionais europeias.

[8] Benedikt Kaiser, Der Hegemonie entgegen — Gramsci, Metapolitik und Neue Rechte, Jungeuropa Verlag.

[9] Duarte Branquinho tem desenvolvido, em textos, intervenções e publicações digitais, temas relacionados com a Nouvelle Droite, a metapolítica, Jean-Yves Le Gallou e a recepção não marxista de Gramsci.

domingo, 12 de julho de 2026

Da Velha à Nova Direita: uma mudança de paradigma na política europeia

A Nova Direita não é apenas uma vaga de novos partidos. É, antes disso, uma renovação intelectual que coloca a cultura, a identidade, a soberania e a continuidade histórica no centro da política europeia.
De Alain de Benoist a Gramsci, de Julien Freund a Benedikt Kaiser, de Dominique Venner a Leão XIII, há uma pergunta que atravessa todo este debate: pode a Direita continuar a ser apenas gestão, moderação e medo de existir?
No ReVisões, procuro distinguir a Nova Direita como escola de pensamento da Nova Direita como família política contemporânea, passando pela leitura de Duarte Branquinho e pelo fim da velha direita conservadora tradicional.
Porque antes das urnas há cultura.
E antes dos governos há uma visão do mundo.

A Nova Direita não se reduz a novos partidos: é, antes de tudo, uma renovação intelectual que pretende reconquistar a cultura, a identidade e a soberania das nações europeias.

Durante décadas, a direita europeia habituou-se a definir-se sobretudo por oposição à esquerda. Defendia a economia de mercado, a propriedade privada, a autoridade do Estado e a estabilidade institucional, mas raramente produzia uma reflexão própria sobre a cultura, a identidade ou a formação das ideias dominantes. Limitava-se, muitas vezes, a gerir a realidade construída pelos seus adversários.

É precisamente contra esta insuficiência intelectual que surge aquilo a que hoje chamamos Nova Direita. Importa, porém, distinguir dois significados frequentemente confundidos.

O primeiro refere-se à Nouvelle Droite francesa, nascida no final da década de 1960 em torno do GRECE e de autores como Alain de Benoist, Dominique Venner ou, em sentido mais amplo, Julien Freund. Não se trata de um partido político, mas de uma escola de pensamento que pretende reconstruir a cultura política europeia através da filosofia, da história, da antropologia e da reflexão sobre a civilização.

O segundo significado diz respeito ao conjunto de partidos nacional-conservadores, soberanistas e identitários que cresceram em praticamente toda a Europa nas últimas duas décadas. Embora muitos deles revelem afinidades intelectuais com algumas ideias da Nouvelle Droite, não constituem uma tradução automática desse pensamento nem possuem entre si a mesma coerência doutrinária.

É precisamente esta distinção que Duarte Branquinho tem procurado estabelecer. Nos seus textos, a Nova Direita aparece antes de tudo como uma renovação intelectual da direita europeia e não apenas como uma sucessão de partidos eleitorais.

Essa renovação parte de uma crítica comum às grandes ideologias do século XX. Recusa o marxismo por reduzir a sociedade à luta de classes e ao igualitarismo abstracto. Recusa igualmente o liberalismo absoluto quando este dissolve todas as comunidades históricas em nome do indivíduo isolado e do mercado global.

A questão central deixa então de ser exclusivamente económica para se tornar essencialmente civilizacional.

É neste ponto que Alain de Benoist desempenha um papel decisivo. Em Vu de droite — publicado em Portugal sob o título Nova Direita, Nova Cultura — defende que a verdadeira batalha política é, antes de tudo, uma batalha cultural. As sociedades vivem de valores, símbolos, memórias e identidades antes de viverem de programas eleitorais.

Curiosamente, esta ideia aproxima-se de uma das maiores intuições de Antonio Gramsci. Embora separados por universos ideológicos completamente distintos, ambos reconhecem que quem conquista a hegemonia cultural prepara inevitavelmente a hegemonia política.

Gramsci via essa hegemonia como instrumento da transformação socialista. A Nova Direita procura utilizar o mesmo método para fins diferentes: recuperar a continuidade histórica das nações, reforçar a identidade europeia e reconstruir o espaço cultural perdido pela direita tradicional.

É precisamente esta recuperação da leitura gramsciana que Benedikt Kaiser desenvolveu de forma particularmente sistemática. Kaiser considera que a direita deixou durante demasiado tempo a cultura, a universidade, a comunicação social e as organizações intermédias entregues à esquerda. Daí defender uma verdadeira metapolítica, entendida não como propaganda, mas como construção paciente de um novo consenso cultural capaz de anteceder qualquer vitória eleitoral.

Nesta perspectiva, a política começa muito antes das eleições. Começa nas escolas, nas universidades, nas associações, nos sindicatos, nas redes sociais, nas editoras, nos jornais, nas famílias e nas comunidades concretas.

A influência de Julien Freund introduz uma dimensão complementar. Freund recorda que o político possui autonomia própria e que nenhuma sociedade pode eliminar definitivamente o conflito. A distinção entre amigo e adversário, a necessidade da autoridade e a permanência das comunidades políticas pertencem à própria condição humana. A política não desaparece através da moralização do discurso público nem mediante a simples gestão técnica dos problemas.

Dominique Venner acrescenta outra preocupação: a continuidade histórica da civilização europeia. A identidade não resulta apenas da cidadania jurídica; constrói-se através da memória, da tradição, da cultura e da transmissão entre gerações.

Neste aspecto, a Nova Direita distancia-se simultaneamente do nacionalismo puramente estatista e do cosmopolitismo globalista. A comunidade nacional deixa de ser apenas uma realidade administrativa para voltar a ser entendida como uma comunidade histórica.

Mas talvez exista um elemento frequentemente esquecido neste debate. Muito antes da Nouvelle Droite, Leão XIII havia procurado responder à questão social através da encíclica Rerum Novarum.

Contra o socialismo revolucionário, defendeu a propriedade privada, a família e a liberdade. Contra o capitalismo desumanizado, defendeu o salário justo, a dignidade do trabalho, o descanso, a associação profissional e a responsabilidade social dos empregadores.

A Doutrina Social da Igreja ofereceu, assim, uma terceira via que recusava tanto o collectivismo como o individualismo económico absoluto.

Sob este prisma, não deixa de ser significativo que alguns sectores da direita europeia contemporânea tenham voltado a colocar a questão social no centro do seu discurso. A defesa do trabalho, da família, da natalidade, da subsidiariedade e da coesão nacional aproxima-se, em diversos aspectos, da tradição inaugurada por Leão XIII, ainda que cada partido a interprete de forma distinta.

É neste enquadramento que Duarte Branquinho situa o fenómeno português. Na sua leitura, Portugal deixou de constituir a antiga “excepção portuguesa”, caracterizada durante décadas pela ausência de uma direita nacional-popular comparável à existente em França, Itália, Áustria ou Países Baixos.

Todavia, Branquinho distingue cuidadosamente entre uma família intelectual e um partido concreto. Reconhece que o CHEGA participa de várias das preocupações presentes na Nova Direita europeia — soberania, identidade, imigração, crítica do multiculturalismo ou da burocracia europeia — mas considera igualmente que determinadas opções tácticas e eleitorais podem comprometer a coerência doutrinária de um projecto político.

A sua crítica ao chamado “chegalismo” deve ser entendida precisamente nesse contexto: como advertência contra o risco de substituir uma arquitectura intelectual consistente por uma sucessão de respostas conjunturais às expectativas eleitorais.

Esta distinção merece ser preservada. Nenhuma escola de pensamento se esgota num partido. Nenhum partido representa integralmente uma tradição intelectual. As ideias possuem normalmente um tempo muito mais longo do que os ciclos eleitorais.

Talvez seja precisamente aqui que resida a principal novidade da Nova Direita. Ela procura deixar de ser apenas uma direita parlamentar para voltar a ser uma direita cultural.

Pretende disputar universidades, editoras, centros de investigação, meios de comunicação, fundações, associações cívicas e espaços de produção simbólica. Noutras palavras, procura construir aquilo que Gramsci chamaria uma nova hegemonia cultural, mas colocando essa hegemonia ao serviço de valores radicalmente diferentes.

A velha direita acreditava que bastava ganhar eleições. A Nova Direita parte de um pressuposto distinto: antes das urnas existe a cultura; antes dos governos existe a visão do mundo; antes das maiorias existe aquilo que uma sociedade considera naturalmente verdadeiro.

É por isso que a verdadeira mudança talvez não consista apenas no aparecimento de novos partidos, mas no reaparecimento de uma tradição intelectual que durante décadas permaneceu dispersa, marginalizada ou esquecida.

Se esse processo conduzirá a uma verdadeira renovação da direita europeia permanece uma questão em aberto. Mas uma coisa parece hoje evidente: a discussão deixou de ser apenas sobre governos.

Passou a ser, sobretudo, sobre civilização.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O CHEGA entre Gramsci, Benedikt Kaiser e Leão XIII

O jornalismo (num país livre e democrático) não existe para confirmar convicções; existe para investigar factos, contextualizá-los e permitir que os cidadãos formem a sua própria opinião.

1. Introdução — A crise das categorias políticas em Portugal
A política portuguesa atravessa uma fase de transformação conceptual. As categorias que dominaram o debate público desde os anos 1990 tornaram-se insuficientes para explicar fenómenos híbridos que combinam crítica social, retórica nacional, combate cultural e contestação institucional. O CHEGA é o caso mais evidente desta mutação.
Este texto procura investigar factos, contextualizar discursos e situar o fenómeno numa genealogia intelectual mais ampla, sem confirmar convicções prévias.
2. O CHEGA, Gramsci e a despesa “de esquerda”
A teoria gramsciana da hegemonia cultural oferece uma chave de leitura útil: disputar o senso comum implica disputar os temas que estruturam a vida quotidiana. O CHEGA tem vindo a ocupar um espaço discursivo tradicionalmente associado à esquerda — despesa social, protecção dos vulneráveis, crítica à desigualdade — mas reinterpretando-o através de uma gramática moral, nacional e securitária.
Esta inversão estratégica procura construir um “povo” politicamente mobilizado através da questão social, sem adoptar o enquadramento igualitário da esquerda clássica.
3. Gramsci, Benedikt Kaiser e Leão XIII na questão social
A leitura gramsciana, porém, é insuficiente para explicar a totalidade do fenómeno. Surge aqui Benedikt Kaiser, publicista político da Nova Direita alemã, que defende uma crítica de direita ao capitalismo como parte de uma estratégia transversal. Kaiser argumenta que a direita deve disputar a questão social, não abandoná-la às forças progressistas.
A isto soma-se Leão XIII e a doutrina social da Igreja, que articulam justiça social, dignidade humana e preocupação com os trabalhadores dentro de uma visão moral e comunitária.
O CHEGA opera, assim, num cruzamento inesperado: crítica cultural (Gramsci), crítica de direita ao capitalismo (Kaiser) e intuições de justiça social (Leão XIII).
4. A hipótese:
“o CHEGA ficou mais social”
Há evidências que sustentam esta hipótese:
  • . reforço da linguagem sobre salários, habitação, pobreza e serviços públicos;
  • . disputa do eleitorado popular urbano e periurbano;
  • . centralidade crescente da questão social nos discursos parlamentares.
Contudo, permanece uma ambiguidade entre retórica social e propostas concretas. 
5. Uma direita metapolítica, social, nacional e pró-europeia?
Esta hipótese é mais exigente, mas também mais explicativa:
  • .Metapolítica: deslocar o combate para o plano cultural e civilizacional;
  • .Social: apropriação da questão social como instrumento de disputa hegemónica;
  • .Nacional: reforço da identidade, soberania e comunidade moral;
  • .Pró-europeia (civilizacional): defesa da Europa como espaço histórico e cultural, acompanhada de crítica às instituições europeias enquanto estruturas tecnocráticas.
Se esta síntese estiver a emergir, Portugal poderá estar a assistir ao nascimento de uma direita inédita no seu sistema político. 
6. Concluindo: Interpretar politicamente sem confirmar convicções
A epígrafe que abre este texto é metodológica: a análise política séria exige investigação, não militância; exige contexto, não slogans; exige categorias novas, não reciclagem das antigas.
Este   ReVisões   continuará a trabalhar neste sentido!