“Vou fazer aquilo que me apetece.” Foi assim que Marcelo Rebelo de Sousa sintetizou, ontem, na Universidade de Verão do PSD, a sua vida pós-Belém.
reVISÕES
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
a vichyssoise para 2026
“Vou fazer aquilo que me apetece.” Foi assim que Marcelo Rebelo de Sousa sintetizou, ontem, na Universidade de Verão do PSD, a sua vida pós-Belém.
domingo, 23 de agosto de 2026
Quando uma Nova Direita rompe o monopólio moral da Esquerda
Num artigo anterior — A Direita precisa de aprender com Gramsci, sem se tornar gramsciana — procurei mostrar que a grande lição do pensador comunista italiano Antonio Gramsci não reside na adopção do marxismo, mas na compreensão dos mecanismos da hegemonia cultural.
A evolução do CHEGA permite observar este processo no terreno.
Uma direita nacional e social
Talvez estejamos perante uma tentativa, ainda incompleta, por vezes improvisada e doutrinariamente pouco consolidada, de construir uma nova direita nacional e social.
A presença do CHEGA no sistema político português tem revelado uma realidade que o jornalistado e o comentariado raramente analisam com rigor: a coexistência de um discurso nacional, conservador e securitário com propostas sociais e laborais que, durante décadas, foram identificadas quase exclusivamente com a Esquerda.
A comunicação social chama-lhe «contradição», «oportunismo» ou «populismo». Mas talvez essas classificações revelem mais sobre os preconceitos de quem observa do que sobre o fenómeno observado.
Veja-se a questão laboral. O CHEGA critica reformas que prolonguem a vida activa e defende que quem tenha 40 anos de descontos possa reformar-se aos 65 anos sem penalizações. Apresenta-se, assim, como defensor do trabalhador perante um sistema que lhe exige cada vez mais anos de trabalho para receber, muitas vezes, uma pensão insuficiente. A posição foi expressamente reafirmada pelo partido durante a discussão da reforma laboral de 2026.[1]
No domínio energético, propôs a aplicação da taxa reduzida de IVA à electricidade e ao gás, tratando a energia como bem essencial e o seu preço como uma questão de justiça social.[2]
Nas pensões, nos salários e nas condições laborais, combina a denúncia dos privilégios políticos com a defesa de uma intervenção selectiva do Estado. E, perante a globalização, apresenta-se como voz dos trabalhadores, das classes médias empobrecidas e das comunidades abandonadas pelas elites económicas e tecnocráticas.
É verdade que esta orientação representa uma evolução assinalável relativamente ao programa liberalizante de 2019. Mas é precisamente essa evolução que interessa compreender. Um partido não está condenado a permanecer eternamente encerrado no documento da sua fundação. Pode aprender, adaptar-se e reconstruir a sua base social.
As classificações do passado
Talvez, portanto, a palavra correcta não seja «tensão». E muito menos «contradição».
O que existe é uma força política que deixou de caber nas classificações confortáveis do século passado.
A análise convencional continua a presumir que a defesa dos trabalhadores pertence à Esquerda; que a defesa da ordem pertence à Direita; que a intervenção estatal é socialista; e que uma política nacional só pode ser economicamente liberal.
Mas a Nova Direita começa precisamente onde essas divisões terminam.
Ela pode defender simultaneamente autoridade e protecção social, soberania e dignidade laboral, controlo das fronteiras e intervenção económica, propriedade privada e limites ao capitalismo globalizado.
As coisas são o que são. E surpreende que os partidos tradicionais ainda não tenham percebido quanto o país mudou desde 2019, quando muitos portugueses tinham vergonha — ou receio — de dizer que votavam no CHEGA.
Hoje, começa a haver mais vergonha em confessar que ainda se vota no PS.
Há um certo desprezo na forma como os partidos tradicionais lidam com o CHEGA e com André Ventura. No caso do PS, a situação é particularmente gritante. Permanece ali uma aura de superioridade moral, como se o partido ainda pudesse distribuir certificados de respeitabilidade democrática e decidir quem tem autorização para representar os portugueses.
O problema é que os eleitores deixaram de pedir licença.
Gramsci e a disputa das palavras
É aqui que regressamos a Gramsci.
Uma força política não conquista hegemonia apenas quando vence eleições. Conquista-a quando consegue retirar ao adversário as palavras com que este legitimava o seu poder.
Durante décadas, a Esquerda possuiu quase em exclusivo palavras como «trabalhador», «justiça social», «desigualdade», «exploração», «precariedade», «pobreza» e «privilégio».
A velha direita liberal-conservadora aceitou essa divisão do trabalho político.
A Esquerda falava de justiça. A Direita falava do défice.
A Esquerda falava dos trabalhadores. A Direita falava dos mercados.
A Esquerda organizava sindicatos, associações, movimentos culturais e redes de solidariedade. A Direita organizava conferências sobre competitividade, almoços empresariais e privatizações.
Depois, admirou-se por ter perdido cultural e eleitoralmente os sectores populares.
Por isso, começou a disputar as palavras abandonadas pela velha direita.
Trabalho. Protecção. Reforma. Salário. Descanso. Justiça. Privilégio. Abandono. Povo.
Isto é metapolítica aplicada.
Não se trata apenas de apresentar propostas. Trata-se de alterar o significado político dessas propostas e de retirar à Esquerda o monopólio da indignação social.
Um novo bloco social
A Nova Direita não pode limitar-se à guerra cultural, ao combate à imigração descontrolada ou à denúncia das ideologias progressistas. Precisa de recuperar a questão social, criticar os efeitos desagregadores do capitalismo globalizado e construir uma aliança entre trabalhadores, famílias, pequenos empresários, classes médias empobrecidas e comunidades locais.
Precisa, utilizando uma expressão de origem gramsciana, de formar um novo bloco social.
É neste ponto que a experiência do CHEGA se torna particularmente interessante. O partido procura reunir sectores que a análise política tradicional considerava incompatíveis: antigos eleitores da esquerda, pequenos empresários sufocados por impostos e burocracias, reformados, agentes das forças de segurança, populações das periferias urbanas e cidadãos culturalmente conservadores.
O cimento desta coligação não é a consciência de classe.
É a percepção de abandono.
Abandono pelo Estado, pelos partidos tradicionais, pelas elites económicas, pelas instituições europeias, pelos grandes meios de comunicação e por uma classe dirigente protegida das consequências das decisões que toma.
A mensagem é simples: quem trabalha, desconta, cumpre a lei e sustenta a comunidade sente-se sacrificado perante quem governa, especula, parasita ou beneficia de privilégios.
Pode ser uma mensagem simplificadora. Pode ser explorada demagogicamente. Mas possui uma força emocional e política que o discurso tecnocrático da velha direita e o moralismo identitário da nova esquerda já perderam.
Eis o verdadeiro perigo que o comentariado pressente, embora raramente consiga explicá-lo: o CHEGA não está apenas a disputar votos à Esquerda.
Está a disputar-lhe as palavras, as causas, os trabalhadores e o direito de falar em nome dos abandonados.
Quando uma Nova Direita consegue fazer isso, não rompe apenas um cordão sanitário eleitoral.
Rompe o monopólio moral da Esquerda.
Notas:
[1] CHEGA, «Declaração Política sobre a Reforma Laboral na Assembleia da República», 3 de Junho de 2026.
[2] CHEGA, projecto de lei para aplicação da taxa reduzida de IVA ao gás e à electricidade, 4 de Setembro de 2022.
quarta-feira, 19 de agosto de 2026
As três gerações do pós-25 de Abril...
- Não chamaria a isso simplesmente “social-fascismo”, porque seria historicamente impreciso, mas existiu, em sectores desse universo, uma curiosa matriz social-estatista e culturalmente autoritária:
- - o Estado como grande organizador social e, simultaneamente, uma progressiva dificuldade em reconhecer legitimidade cultural às ideias que ultrapassassem determinado limite à direita - criaram-se as Linhas Vermelhas que tendem a persistir em especial na imprensa televisiva.
- a defesa da Democracia e
- a defesa da sua própria interpretação da Democracia.
- O tempo passou e chegou o momento de comparar promessas com resultados.
- Os salários continuaram baixos.
- A habitação tornou-se inacessível para muitos.
- Os serviços públicos revelaram fragilidades.
- A mobilidade social prometida deixou demasiadas pessoas para trás.
- -começou a duvidar do catecismo.
- O Estado Novo para ela é História.
- O PREC é História.
- O 25 de Novembro é História.
- Eanes, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Sá Carneiro ou Freitas do Amaral são História.
- a Terceira Geração não sente qualquer obrigação de continuar as guerras dos avós e
- muito menos aceita que lhe sejam impostos os respectivos limites ideológicos.
- Inclusive para pensar aquilo que durante décadas lhe disseram que não deveria pensar.
- o velho domínio dos partidos tradicionais deixou de ser automático nas gerações mais novas.
- A Internet destruiu o monopólio dos intermediários culturais.
Talvez estejamos perante a
derradeira ironia destes cinquenta anos.
A Geração Zero fez uma revolução em nome
da liberdade.
Uma parte dela transformou depois a sua
própria leitura dessa revolução numa espécie de ortodoxia.
A Segunda Geração recebeu-a, acreditou
nela e começou lentamente a duvidar.
E a Terceira Geração resolveu
simplesmente exercer a liberdade recebida.
Não quer destruir Abril. Quer libertar
Abril dos seus proprietários.
Porque a Democracia só estará
verdadeiramente consolidada quando ser de esquerda, de centro ou de direita
deixar de determinar a qualidade democrática de um cidadão.
Os avós fizeram Abril. Os filhos
aprenderam o catecismo de Abril .E os netos decidiram finalmente usar a
liberdade de Abril para pensar pela própria cabeça.
E talvez seja precisamente isso — e não
a perpetuação de uma determinada ideologia — a mais completa vitória do 25 de
Abril.
domingo, 16 de agosto de 2026
Ao fim de décadas, a máscara caiu...
Seguro e a Presidência das fronteiras inseguras
Há textos que devem ser lidos pelo que dizem. E há textos que precisam de ser lidos pelo que revelam.
O requerimento que António José Seguro enviou ao Tribunal Constitucional sobre a chamada Lei do Retorno pertence claramente à segunda categoria.
O Presidente da República exerceu uma competência que a Constituição lhe confere. Ninguém de boa-fé pode contestá-lo. Mas exercer legitimamente um poder constitucional não torna politicamente neutras nem as razões invocadas, nem as dúvidas seleccionadas, nem a visão do Estado que delas emerge.
E é precisamente aí que Miguel Morgado acerta no alvo no seu excelente artigo Seguro quer fronteiras inseguras.
O requerimento presidencial não é uma pequena cautela jurídica. Questiona um conjunto amplo de normas relativas à expulsão de estrangeiros, menores, procedimentos nas fronteiras, recursos judiciais e execução de decisões de afastamento.
O primeiro truque: transformar a fronteira num problema moral
Belém começa por proclamar que é necessário combater a imigração ilegal, controlar a imigração legal e defender as fronteiras. Logo depois acrescenta que a segurança das fronteiras não é incompatível com a dignidade humana.
Mas quem disse que era?
É aqui que começa a armadilha retórica.
A alternativa sugerida passa a ser entre um Estado humanitário e um Estado que controla efectivamente quem entra, quem permanece e quem deve sair.
Ora, uma fronteira que não distingue, não selecciona e não executa decisões deixa simplesmente de ser uma fronteira.
A dignidade humana não exige a impotência do Estado. O direito de asilo não exige fronteiras abertas. A protecção de refugiados não exige que qualquer decisão administrativa de afastamento fique praticamente neutralizada pela sucessão de recursos.
Aliás, a própria União Europeia caminha no sentido de conciliar protecção humanitária com fronteiras externas fortes, procedimentos mais eficientes e mecanismos efectivos de retorno.
Querer que uma decisão de saída produza consequências não é, portanto, nenhuma extravagância autoritária portuguesa. É uma necessidade elementar de qualquer política migratória que pretenda ser levada a sério.
Requerer asilo não é ser refugiado
Há depois uma confusão particularmente perigosa no discurso presidencial.
A narrativa de Belém tende a apresentar os homens, mulheres e crianças que pedem asilo como pessoas que fogem necessariamente de guerras, conflitos armados ou perseguições.
Mas um requerente de asilo é precisamente alguém cujo direito à protecção ainda está a ser apreciado.
Se todos os requerentes fossem, por definição, refugiados, para que serviriam os processos de apreciação, as recusas, os recursos ou os conceitos de país de origem seguro?
Esta distinção é essencial porque existe uma perversão possível do sistema: transformar o simples acto de apresentar um pedido na garantia prática de permanência durante todo o tempo necessário para esgotar procedimentos administrativos e judiciais.
Nesse modelo, já não é o Estado que decide quem pode ficar.
É o calendário processual que decide que ninguém consegue sair.
Os filhos não podem transformar-se num salvo-conduto migratório
A protecção das crianças merece toda a cautela. E compete ao Tribunal Constitucional decidir se alguma das soluções aprovadas viola efectivamente a Constituição.
Mas há uma diferença gigantesca entre proteger o interesse superior de uma criança e transformar a existência de filhos num impedimento absoluto ao afastamento de um adulto estrangeiro.
Se esse princípio for levado às últimas consequências, cria-se um mecanismo extraordinariamente simples: determinadas situações familiares passam a produzir, na prática, uma espécie de imunidade migratória.
E é precisamente nestes assuntos que o sentimentalismo legislativo pode produzir incentivos perversos.
O Estado deve ponderar a família. Deve proteger a criança. Deve respeitar os seus compromissos internacionais.
Mas também tem o direito — e o dever — de impedir que determinadas situações familiares se convertam automaticamente numa licença de residência contra uma decisão legal de afastamento.
O recurso judicial não pode tornar o Estado fictício
Outra das grandes objecções presidenciais dirige-se aos efeitos dos recursos judiciais e à possibilidade de execução de decisões de afastamento antes da decisão judicial definitiva.
A preocupação jurídica é compreensível.
A consequência política também tem de ser dita.
Se qualquer recurso suspender necessariamente qualquer decisão até ao último grau possível de litigância, cria-se uma extraordinária assimetria: o estrangeiro dispõe de todos os instrumentos para impedir a execução; o Estado dispõe apenas do direito teórico de decidir.
Uma política de retorno que nunca retorna ninguém não é política de retorno.
É papel timbrado.
Miguel Morgado percebeu o essencial
É aqui que o artigo de Miguel Morgado merece um aplauso sem reservas.
Porque Morgado não ficou prisioneiro da discussão microscópica sobre esta alínea ou aquele número de artigo. Percebeu o problema político que está por detrás do juridiquês.
Durante anos, Portugal construiu uma política migratória assente na ideia de que controlar era suspeito, restringir era moralmente duvidoso, expulsar era quase desumano e exigir o cumprimento das regras precisava sempre de uma justificação suplementar.
Quando finalmente se tenta reconstruir capacidade efectiva de controlo, aparece de novo o velho reflexo: o Estado é colocado no banco dos réus por querer voltar a comportar-se como Estado.
É precisamente por isso que as proclamações iniciais de Seguro em defesa das fronteiras soam tão pouco convincentes.
Porque não basta declarar que se defendem fronteiras.
É necessário aceitar as consequências práticas de elas existirem.
Fronteira significa entrada autorizada e entrada recusada.
Residência significa permanência legal e permanência ilegal.
Asilo significa protecção para quem satisfaz os respectivos requisitos — e recusa para quem não os satisfaz.
Retorno significa que, esgotadas as garantias que a lei efectivamente concede, quem não tem direito a permanecer sai.
Tudo o resto é semântica.
A velha superioridade moral regressou a Belém
O problema de fundo é ainda outro.
Existe em parte das elites europeias uma curiosa concepção de superioridade moral: preocupam-se infinitamente com as consequências individuais de fazer cumprir uma decisão, mas raramente demonstram igual preocupação pelas consequências colectivas de não fazer cumprir milhares delas.
Quem responde pela pressão sobre os serviços públicos?
Quem responde pela sobrecarga administrativa?
Quem responde pela incapacidade de alojamento?
Quem responde pelos efeitos sobre salários, habitação, escolas, segurança ou integração?
Quem responde pela perda de confiança dos cidadãos num Estado que proclama regras mas parece embaraçado quando chega a hora de as executar?
A compaixão paga com recursos alheios é muito fácil.
A responsabilidade política começa quando alguém pergunta quem suporta a factura.
Seguro tem todo o direito constitucional de pedir a fiscalização. Nós temos todo o direito democrático de julgar politicamente o pedido.
E o julgamento é severo.
O requerimento de Belém parece partir de uma desconfiança permanente perante o Estado que expulsa e de uma confiança quase ilimitada nas razões de quem pretende permanecer.
Pode o Tribunal Constitucional dar razão a algumas das dúvidas presidenciais? Naturalmente.
Pode até considerar algumas normas inconstitucionais.
Mas isso não eliminará a questão política fundamental que Miguel Morgado colocou sobre a mesa:
queremos finalmente um Estado capaz de controlar as suas fronteiras ou continuaremos a construir um sistema em que todos proclamam o direito de as controlar desde que, na prática, quase ninguém possa ser mandado embora?
Porque uma fronteira que só existe quando ninguém tenta atravessá-la irregularmente não é uma fronteira.
É uma linha num mapa.
E um Estado que precisa de pedir desculpa cada vez que pretende fazer cumprir as suas regras está já a caminho de deixar de ser soberano.
Miguel Morgado chamou-lhe “fronteiras inseguras”.
Talvez seja ainda pior: é a transformação da impotência do Estado numa virtude moral.
sábado, 1 de agosto de 2026
quarta-feira, 29 de julho de 2026
Uma Análise ao Partido CHEGA: esquerda social e direita populista?
domingo, 26 de julho de 2026
Quando a Direita recupera a Questão Social
- A velha direita aceitou essa divisão política.
- A Esquerda falava de justiça; a Direita falava de défice.
- A Esquerda falava dos trabalhadores; a Direita falava dos mercados.
- A Esquerda organizava sindicatos, associações e redes culturais; a Direita organizava conferências sobre competitividade e privatizações.
- Contra o crime e contra a precariedade.
- Contra a desordem e contra os privilégios.
- Contra a globalização sem fronteiras e contra o abandono dos territórios.



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