Notas sobre o desprezo mediático pelo eleitorado do CHEGA
Há uma forma muito antiga de fugir à realidade democrática: quando o povo vota de modo inconveniente, declara-se que o povo foi enganado, que votou com raiva, que votou por ignorância, que votou por ressentimento, que votou por falta de instrução, que votou porque não compreendeu a elevada ciência política dos que sabem, ou julgam saber, que o povo deveria querer.
A conclusão, embora raramente assumida com esta crueza, é simples: se o povo não vota como queremos, então o problema não está em nós, nem nas nossas análises, nem nos nossos preconceitos, nem na bolha social, cultural e mediática em que respiramos. O problema está no povo. Mude-se, pois, o povo.
É essa, no essencial, a impressão que fica de uma parte significativa do jornalistado e do comentariado que, nas últimas semanas, voltou a tratar André Ventura, o CHEGA e, por arrasto, os seus eleitores, não como actores legítimos de uma democracia representativa, mas como uma anomalia estatística, moral e civilizacional.
Convém começar pelos factos. Nas Legislativas de 2025, o CHEGA consolidou-se como segunda força política nacional. Na segunda volta das Presidenciais de 2026, André Ventura obteve 1.737.950 votos, isto é, 33,16% dos votos validamente expressos. Não ganhou, evidentemente. Mas quase 1,74 milhões de votos não são uma seita, não são uma claque, não são um acidente, não são uma febre passageira. São uma parte real, numerosa e politicamente decisiva do país. O Tribunal Constitucional proclamou António José Seguro vencedor com 3.502.613 votos, mas a existência eleitoral de Ventura ficou igualmente demonstrada pela escala do resultado.1
É aqui que começa o problema. Para certa opinião publicada, o voto em Ventura não é propriamente um voto; é um sintoma. Não é uma escolha; é uma patologia. Não é uma preferência política; é uma deficiência de formação, de cultura, de rendimento, de discernimento ou de higiene democrática.
Esta é a velha arrogância oligárquica mascarada de preocupação republicana.
I. A democracia condicional
A democracia liberal moderna assenta num princípio elementar: o povo pode votar mal, no sentido em que pode votar contra aquilo que eu, que o analista, que o editorialista, que o professor, que o jornalista ou que os comentadores julgam ser melhor. Mas o povo não vota ilegitimamente por votar contra nós. A democracia não é um regime em que o povo confirma a superior sabedoria das elites; é um regime em que as elites são obrigadas a conviver com a possibilidade de serem desmentidas pelo povo.
Ora, o tratamento mediático do CHEGA tem vindo, há muito, a deslocar-se da crítica política , legítima, necessária, por vezes até indispensável , para a desqualificação sociológica dos seus eleitores. Não se discute apenas a estratégia do partido; discute-se a sanidade moral de quem nele vota. Não se avalia apenas a consistência das propostas; insinua-se que o eleitorado é pouco instruído, manipulável, emocionalmente primário ou economicamente dependente. A crítica deixa de ser dirigida ao dirigente político e passa a incidir sobre a massa eleitoral que o acompanha.
E aqui reside a questão essencial: quando se atinge repetidamente o partido, o líder e a sua base eleitoral com categorias de desprezo, a fronteira entre crítica democrática e insulto social torna-se perigosamente fina.
O eleitor pode estar errado. O partido pode ser incoerente. O líder pode ser contraditório. A proposta pode ser má. Tudo isso é matéria legítima de debate. Mas quando a explicação dominante passa a ser que aquele eleitorado é “menos instruído”, “mais pobre”, “mais manipulável” ou “vindo da esquerda ressentida”, então o objecto da crítica já não é uma ideia política; é uma classe de cidadãos.
E, nesse momento, a opinião começa a cheirar demasiado a casta.
II. Rui Ramos e a excepção interpretativa
É por isso que o texto de Rui Ramos se distingue dos restantes. Ao perguntar se “é o povo que não quer reformas”, Rui Ramos desloca o problema do suposto atraso moral do eleitor para a arquitectura política do regime. A sua tese, no excerto indicado, é que num sistema onde “o poder político” se tornou a grande indústria nacional, os primeiros interessados em que nada mude são precisamente os que beneficiam da organização existente do poder.
A diferença é decisiva. Rui Ramos não precisa de infantilizar o povo para explicar a resistência às reformas. Não precisa de transformar o eleitorado em massa ignorante. Não precisa de sugerir que os portugueses são incapazes de compreender a racionalidade económica. A sua crítica incide sobre o sistema de incentivos que molda os partidos, o Estado, as corporações, os interesses instalados e a própria vida política.
É uma análise dura, mas não é uma análise socialmente insultuosa. Não faz do eleitor um menor de idade. Não transforma o voto num erro clínico. Não converte a opinião pública numa patologia.
É por isso que, sendo crítico, o texto de Rui Ramos é intelectualmente mais interessante: porque reconhece que a resistência à mudança pode nascer do próprio sistema político e não apenas da estupidez atribuída aos que votam fora da cartilha esperada.
III. José Manuel Fernandes e o Rubicão de Ventura
Fernandes, pelo contrário, vê na posição de André Ventura sobre a lei laboral uma travessia do Rubicão. A expressão é forte e, em si mesma, admissível. Em política, os símbolos contam. Quando se diz que alguém atravessou o Rubicão, diz-se que passou um ponto sem retorno, que deixou de poder fingir uma ambiguidade anterior, que revelou uma natureza até então disfarçada.
O problema não está apenas aí. Está no modo como se constrói a interpretação.
Segundo o excerto indicado, André Ventura estaria a “sabotar” qualquer hipótese de revisão da lei laboral, guiando-se não por uma linha política coerente, mas por “barómetros de popularidade”. A crítica é legítima enquanto crítica estratégica: pode dizer-se que Ventura joga tacticamente, que procura maximizar ganhos eleitorais, que não quer ficar prisioneiro de uma agenda liberal ou que pretende disputar eleitorado socialmente vulnerável. Tudo isso pertence ao combate político.
Mas a análise torna-se mais reveladora quando, na newsletter do Observador, se explicita que o CHEGA tem uma base “com menos poder de compra, menos instruída” e parcialmente proveniente de partidos “bem à esquerda”, nomeadamente antigos eleitores do PCP.
Aqui chegamos ao ponto nevrálgico.
A descrição sociológica não é, por si só, insultuosa. É legítimo estudar a composição social de um eleitorado. É legítimo notar transferências de voto. É legítimo comparar o CHEGA à Reunião Nacional francesa, ou estudar a passagem de eleitores de partidos comunistas para partidos nacional-populares. A ciência política vive disso.
Mas uma coisa é descrever sociologicamente; outra é insinuar normativamente. Uma coisa é dizer: “há indícios de que o eleitorado X tem estes traços sociais”. Outra coisa é usar esses traços como explicação depreciativa da suposta falta de fiabilidade, coerência ou racionalidade do partido e, por extensão, dos seus votantes.
Quando “menos instruído” aparece no meio de uma crítica política, não funciona apenas como variável estatística. Funciona como senha de distinção social. Quer dizer: nós, os instruídos, percebemos; eles, os outros, votam assim porque são aquilo que são.
É a democracia filtrada pelo diploma.
E a democracia filtrada pelo diploma deixa de ser democracia plena para se transformar em governo moral dos habilitados sobre os restantes.
IV. Paulo Ferreira e a sovietização caricatural
Mais grave, pelo tom, é o artigo de Paulo Ferreira, a começar pelo expediente retórico de transformar André Ventura em “Andrei Venturov”. A caricatura é evidente: não se pretende apenas dizer que Ventura assumiu uma posição económica estatista ou socialmente intervencionista. Pretende-se colá-lo, simbolicamente, ao imaginário soviético.
O autor chega, segundo os excertos indicados, a afirmar que o “camarada Andrei Venturov é comunista”, e “dos antigos”, “da velha escola soviética”. Noutra publicação associada ao mesmo artigo, Paulo Ferreira resume a ideia dizendo que Ventura “quer ultrapassar o socialismo pela esquerda”.2
Como sátira, é admissível. Como argumento, é curto. Como jornalismo de opinião, é uma manobra retórica eficaz, mas grosseira. Como análise política, é uma simplificação quase escolar.
A questão da idade da reforma, por exemplo, pode ser discutida de múltiplas formas. Pode discutir-se a sustentabilidade financeira. Pode discutir-se a esperança média de vida. Pode discutir-se a produtividade. Pode discutir-se a automação, a inteligência artificial, a distribuição dos ganhos tecnológicos, a justiça intergeracional e a desigualdade entre profissões de desgaste rápido e profissões de secretária climatizada. Pode discutir-se se uma direita popular deve ou não defender medidas sociais que não caibam no catecismo liberal.
Mas chamar “comunista soviético” a quem condiciona apoio parlamentar a uma baixa da idade da reforma é uma forma de evitar a discussão difícil. É substituir a análise por uma etiqueta. É dispensar o argumento pela caricatura.
Além disso, a acusação de “comunismo” vinda de sectores que, durante anos, aceitaram sem grande perturbação a conservação de estruturas profundamente estatistas no regime português tem um curioso sabor tardio. Portugal conviveu com sectores públicos hipertrofiados, empresas protegidas, rendas reguladas, corporações profissionais fechadas, constitucionalismo programático de matriz pós-PREC, planeamento democrático, economia mista, serviços capturados e oligarquias subsidiadas. Mas eis que o comunismo renasce, subitamente, quando Ventura fala na idade da reforma.
Curioso país este, onde a sombra soviética só aparece quando incomoda a direita instalada.
V. O eleitor do CHEGA como objecto de suspeita
O que une estes textos não é apenas a crítica a André Ventura. Essa crítica é normal. Une-os uma espécie de mal-estar perante o facto de tantos portugueses terem escolhido Ventura e o CHEGA como veículo de representação política.
Esse mal-estar é mais profundo do que a discordância. É uma incomodidade com a existência social daquele voto.
O eleitor do CHEGA raramente é tratado como cidadão que ponderou, escolheu, hierarquizou prioridades e votou. É tratado como alguém que reage, não como alguém que decide. Reage à imigração. Reage à insegurança. Reage à pobreza. Reage ao ressentimento. Reage à televisão. Reage às redes sociais. Reage ao populismo. Reage ao medo. Reage, enfim, a tudo , menos à possibilidade de ter pensado.
É aqui que a linguagem do comentariado revela o seu fundo aristocrático.
O eleitor do partido “certo” vota por consciência cívica. O eleitor do partido “errado” vota por pulsão.
O eleitor moderado é ponderado. O eleitor do CHEGA é zangado.
O eleitor liberal é informado. O eleitor do CHEGA é simplista.
O eleitor socialista é socialmente sensível. O eleitor do CHEGA é ressentido.
O eleitor conservador respeitável é institucional. O eleitor do CHEGA é perigoso.
E assim se constrói uma geografia moral do voto: uns votam com a cabeça; outros votam com o fígado. Uns exercem cidadania; outros exprimem patologia. Uns têm convicções; outros têm frustrações.
É uma forma elegante de desprezar milhões de pessoas sem dizer explicitamente que se desprezam milhões de pessoas.
VI. A velha tentação: dissolver o povo
A frase atribuída a Bertolt Brecht, tantas vezes citada, segundo a qual seria talvez conveniente ao governo dissolver o povo e eleger outro, é aqui irresistível. Não tanto pela autoria exacta ou pela fidelidade textual, mas pela força da imagem política.
A cada eleição em que o CHEGA cresce, parte do comentariado reage como se tivesse havido uma avaria no mecanismo democrático. Não pergunta primeiro: o que falhou no sistema? Que inseguranças cresceram? Que comunidades se sentiram abandonadas? Que promessas foram quebradas? Que políticas públicas falharam? Que sectores sociais deixaram de se rever no PS, no PSD, no PCP ou na direita tradicional?
Pergunta antes: como é possível que ainda votem neles?
A diferença é enorme.
A primeira pergunta é democrática. A segunda é inquisitorial.
A primeira pergunta procura compreender. A segunda procura diagnosticar.
A primeira pergunta reconhece o eleitor como sujeito. A segunda transforma-o em objecto.
É precisamente isto que torna certas análises tão pobres. Não por serem contra o CHEGA, mas por serem incapazes de perceber que o CHEGA não nasceu do nada. Nasceu da falência de equilíbrios antigos. Nasceu da incapacidade do regime em responder a inquietações populares. Nasceu da crise de confiança nas instituições. Nasceu da erosão do voto comunista em certas zonas, da crise do PS em sectores populares, da incapacidade do PSD em representar uma direita socialmente enraizada, da transformação da comunicação política e do ressentimento acumulado contra uma elite que parece sempre disposta a explicar ao povo porque é que o povo está enganado.
O CHEGA pode explorar tudo isto. Pode exagerar tudo isto. Pode instrumentalizar tudo isto. Mas não inventou tudo isto.
E quem não percebe esta diferença continuará a insultar o sintoma para não discutir a doença.
VII. O curioso caso da direita que só gosta do povo quando ele vota como deve
Há ainda uma ironia particular nesta polémica: parte da crítica mais feroz a Ventura surge de sectores que se consideram de direita, reformistas, liberais ou conservadores. Ora, uma direita que não compreende a dimensão popular da política está condenada a ser uma associação recreativa de gestores, fiscalistas e comentadores.
A direita portuguesa instalada nunca soube muito bem o que fazer com o povo que não cabe nos seus salões. Gosta do contribuinte, mas desconfia do trabalhador. Gosta do empresário, mas não sabe falar com o precário. Gosta da liberdade económica, mas esquece que há muitos portugueses para quem “liberdade económica” significa apenas pagar mais por serviços piores. Gosta da reforma do Estado, mas raramente explica quem protege quando o Estado falha. Gosta do mérito, mas muitas vezes confunde mérito com herança social embrulhada em PowerPoint.
Quando Ventura aparece a disputar a idade da reforma, a reacção é de pânico doutrinário. Como se uma direita popular não pudesse ter uma agenda social. Como se a única direita admissível fosse a direita tecnocrática, europeísta, bem-comportada, fiscalmente virtuosa, socialmente distante e eleitoralmente limitada.
Mas a política real é mais complexa. Muitos eleitores do CHEGA não votam em Ventura porque leram Hayek, Burke, Maurras, Friedman ou Carl Schmitt. Votam porque sentem que alguém fala de temas que os outros evitam. Votam porque desconfiam de uma justiça lenta, de um Estado caro, de uma imigração mal gerida, de serviços públicos degradados, de bairros abandonados, de reformas baixas, de salários comprimidos, de polícias desautorizadas, de impostos elevados e de uma comunicação social que os trata como suspeitos.
Pode discordar-se da resposta. Mas fingir que a pergunta é ilegítima é politicamente suicida.
VIII. A crítica legítima e a crítica insultuosa
Importa deixar claro: nada disto significa que André Ventura deva ser poupado à crítica. Pelo contrário. Um partido que ambiciona governar deve ser escrutinado com dureza. Deve explicar a sua política económica. Deve esclarecer se quer uma direita popular ou apenas uma máquina de protesto. Deve demonstrar se sabe negociar sem se contradizer. Deve mostrar se é capaz de transformar força eleitoral em responsabilidade institucional.
Também é legítimo perguntar se Ventura é fiável. É legítimo perguntar se o CHEGA tem coerência programática. É legítimo perguntar se a sua estratégia é apenas maximização táctica. É legítimo perguntar se uma direita que defende baixa da idade da reforma tem uma explicação financeira séria. É legítimo perguntar se o partido quer reformar o Estado ou apenas capturar o descontentamento contra ele.
Tudo isto é legítimo.
O que não é legítimo , ou, pelo menos, o que é intelectualmente pobre e democraticamente perigoso , é transformar essas perguntas numa desqualificação moral dos seus eleitores.
A crítica política diz: “a proposta é errada”.
A crítica insultuosa diz: “só gente pouco instruída vota nisto”.
A crítica política diz: “o líder é incoerente”.
A crítica insultuosa sugere: “os seus eleitores são demasiado primários para perceberem a incoerência”.
A crítica política diz: “há uma contradição entre conservadorismo cultural e estatismo económico”.
A crítica insultuosa diz: “isto é uma mistura populista para apanhar pobres, ex-comunistas e descontentes”.
A primeira discute ideias. A segunda classifica pessoas.
E classificar pessoas é sempre a tentação favorita de quem tem medo de discutir com elas.
IX. O Observador e o estatuto editorial do desconforto
A newsletter de Carlos Maria Bobone tem ainda o mérito involuntário de tornar explícito o ambiente editorial: A posição de Ventura foi “bastante mal recebida” entre os colunistas do Observador.
Paulo Ferreira surge como exemplo da crítica mais sarcástica;
Rui Ramos como contraponto moderador;
José Manuel Fernandes como crítico da alegada pouca fiabilidade de Ventura.
Nada há de ilegítimo nisto. Um jornal tem linha editorial, mesmo quando não a proclama. Uma redacção tem cultura. Um espaço de opinião tem afinidades, alergias, preferências e fantasmas. O problema não é o Observador ter opinião. O problema é parte da opinião publicada confundir a sua irritação com superioridade analítica.
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Há, no caso do CHEGA, um curioso fenómeno: quanto mais o eleitorado do partido cresce, mais uma parte do comentariado parece sentir necessidade de explicar que esse eleitorado não devia contar muito. Ou conta numericamente, mas não conta moralmente. Conta nas urnas, mas não conta na legitimidade simbólica. Serve para assustar, mas não para ser ouvido. Serve para explicar a crise, mas não para participar na solução.
É o voto tolerado como problema, nunca reconhecido como mensagem.
Ora, em democracia, quando quase dois milhões de cidadãos se aproximam de uma candidatura presidencial , usando a expressão em sentido político, apesar de o número final ter ficado em 1,737 milhões , o mínimo que se exige aos analistas é que perguntem o que essa votação significa. Não apenas o que ela ameaça. Não apenas o que ela revela de “baixo”. Não apenas o que ela perturba nos salões. O que significa.
Porque um voto pode ser desagradável. Mas continua a ser um voto.
X. O povo não é figurante
Há nesta polémica uma questão mais vasta: a relação entre elites de comentário e soberania popular.
Durante décadas, o sistema político português viveu confortavelmente instalado numa alternância previsível. PS e PSD organizavam o essencial do regime. O CDS orbitava. O PCP resistia como reserva histórica. O Bloco ocupava a indignação moral da esquerda urbana. A comunicação social enquadrava, comentava, moralizava e distribuía certificados de respeitabilidade.
Depois, o mapa mudou.
O CHEGA não é apenas um partido. É um acontecimento sociológico. É o sinal de que uma parte do país deixou de aceitar o papel de figurante. Pode-se gostar ou não. Pode-se temer ou aplaudir. Pode-se combater ou integrar. Mas não se pode fingir que 1,4 milhões de votos legislativos e 1,7 milhões de votos presidenciais são uma alucinação colectiva.
O povo não é uma plateia convidada a aplaudir o guião das elites. O povo é o autor incómodo da peça.
E quando o autor muda o enredo, os críticos podem não gostar. Mas não têm o direito de chamar analfabetos dramáticos aos espectadores que compraram bilhete.
XI. uma conclusão possível
A crítica a Ventura pode ser dura. Deve ser dura. A crítica ao CHEGA pode ser severa. Deve ser severa. Mas a crítica aos seus eleitores deve ser cautelosa, porque aí já não se está apenas a discutir um partido. Está-se a discutir a própria matéria humana da democracia.
Quando se olha para quase dois milhões de votos e se vê apenas ignorância, ressentimento, falta de instrução ou manipulação, talvez o problema não esteja nos eleitores. Talvez esteja no observador.
É possível que muitos portugueses tenham votado CHEGA por protesto. É possível que alguns tenham votado por raiva. É possível que outros tenham votado por medo. É possível que muitos tenham votado por cálculo. É possível que alguns tenham votado por convicção. É possível que outros tenham votado porque já não acreditam em quem lhes passou décadas a explicar que tudo ia melhorar, desde que esperassem mais um bocadinho.
Mas isto também acontece com todos os partidos. Há votos socialistas por medo. Há votos sociais-democratas por interesse. Há votos liberais por moda. Há votos comunistas por memória. Há votos bloquistas por ressentimento moral. Há votos centristas por cálculo. Só que, nesses casos, o comentariado costuma chamar-lhes “sensibilidade social”, “moderação”, “responsabilidade”, “consciência democrática” ou “tradição”.
Quando se trata do CHEGA, o vocabulário muda. E a mudança do vocabulário revela a mudança do respeito.
No fundo, o que incomoda não é apenas André Ventura. O que incomoda é que tanta gente já não peça licença para votar fora do perímetro autorizado.
E talvez seja esse o verdadeiro Rubicão: não o que Ventura atravessou, mas o que o povo atravessou quando deixou de aceitar que a democracia fosse apenas a confirmação periódica da superioridade moral dos mesmos de sempre.
A partir daí, o jornalistado e o comentariado podem continuar a suspirar: “o povo não vota como queremos”.
Pois não.
Chama-se a isso democracia.
E, se ela ainda serve para alguma coisa, é precisamente para lembrar às elites que o povo não existe para obedecer aos editoriais.
Notas de referência
1. Segundo os resultados finais proclamados pelo Tribunal Constitucional e noticiados pela RTP/Lusa, António José Seguro obteve 3.502.613 votos e André Ventura 1.737.950 votos na segunda volta das Presidenciais de 2026. Ver: RTP/Lusa, “TC confirma vitória de Seguro com mais de 3,5 milhões de votos”, disponível em: https://www.rtp.pt/noticias/politica/tc-confirma-vitoria-de-seguro-com-mais-de-35-milhoes-de-votos_n1719596. Ver também os resultados das Legislativas de 2025 apresentados pela RTP, disponíveis em: https://www.rtp.pt/eleicoes/legislativas-resultados/2025.
2. Paulo Ferreira, “A honrosa missão do camarada Andrei Venturov”, Observador. Referência complementar à publicação do próprio autor no LinkedIn, onde resume a tese dizendo que Ventura “quer ultrapassar o socialismo pela esquerda”, disponível em: https://pt.linkedin.com/posts/paulo-ferreira-35218a18_a-honrosa-miss%C3%A3o-do-camarada-andrei-venturov-activity-7458432071846457346-pVTz.
3. José Manuel Fernandes, “O Chega, e André Ventura, atravessaram o seu Rubicão”, Observador, artigo referido pelo utilizador e analisado a partir dos excertos transcritos. Link indicado: https://observador.pt/opiniao/o-chega-e-andre-ventura-atravessaram-o-seu-rubicao/.
4. Rui Ramos, “É o povo que não quer reformas?”, Observador, artigo referido pelo utilizador. Link indicado: https://observador.pt/opiniao/e-o-povo-que-nao-quer-reformas/.
5. Carlos Maria Bobone, “Ventura e Costa: os nossos colunistas esclarecem”, newsletter Pontos de Vista, Observador, artigo referido pelo utilizador. Link indicado: https://observador.pt/newsletters/pontos-de-vista/ventura-e-costa-os-nossos-colunistas-esclarecem/.
6. A fórmula “mude-se o povo” remete para a conhecida imagem satírica associada a Bertolt Brecht, frequentemente evocada para criticar a tentação das elites de responsabilizar o povo quando este não confirma as expectativas do poder ou da opinião dominante.
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