segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Budapeste 4 de Outubro de 1956! Estaremos agora com um problema de memória?

A 4 de outubro de 1956, mais de 2 mil tanques soviéticos romperam as frágeis defesas húngaras e entraram em Budapeste, determinados a esmagar o movimento popular que eclodira duas semanas antes e que obrigara o regime comunista a recuar e a aceitar as reivindicações dos estudantes e depois da população que encheu ruas e praças às centenas de milhar. Doze anos antes de Praga, Budapeste conheceu a madrugada sangrenta e a Hungria foi obrigada a submeter-se de novo à vontade de Moscovo. Von der Leyen esteve recentemente no Parlamento magiar, onde num discurso honrou os heróis daqueles dias, mas aparentemente a memória do que representou o comunismo parece ter se apagado de muitas mentes. Nas acampadas de Lisboa e do Porto, não têm sido poucos os que têm apelado diretamente à revolução comunista, até os que têm defendido abertamente a necessidade de violência para derrubar a democracia, a que chamam democracia burguesa. (Carla Jorge Carvalho)

Talvez valha, por isso, a pena recordar o que significou o comunismo e por que se morreu nas ruas de Budapeste a combatê-lo:
Há responsabilidade do nosso sistema cultural e do nosso sistema de ensino, que parece que esquece o que foi a verdadeira tragédia da experiência comunista no século XX e aquilo que ainda hoje resta dessa mesma experiência, porque ainda temos países pra ver como é que as coisas funcionam. Ainda temos a Coreia do Norte, ainda temos Cuba, ainda temos o autoritarismo chinês, temos essas coisas todas. Mas aparentemente, para pelo menos alguns dos manifestantes, e são manifestantes que não estão ali a ser corridos da manifestação, como foi referido, aquele manifestante do partido Reconquista que não teve o direito a manifestar, digamos assim. Eles podem lá estar e dizer: "Dê-nos o microfone", e até controlam aquelas manifestações. Uma das coordenadoras, por exemplo, da manifestação em Lisboa, Priscila Valadão, uma brasileira, basta ir ao Instagram dela e ela não é apenas como comunista, é como marxista-leninista e tem uma foice e um martelo tatuado no ombro, pelo menos é aquilo que aparece nas imagens. Dito isto, vale a pena recordar o que foi esta tragédia, porque teve muitos milhões de mortos e momentos de enorme dramatismo, como precisamente esse que aconteceu há 70 anos na Hungria. Muito rapidamente, depois falemos um pouco disso mais em detalhe. A revolta da Hungria foi uma revolta muito importante. Foi um dos primeiros momentos em que se percebeu com clareza o que aqueles regimes eram capazes de fazer. Quer dizer, antes havia as purgas, havia os julgamentos espetáculo, que eram todos ficcionados, havia as execuções, havia a fome, mas havia sempre alguém que dizia que era exagero, que não era verdade, que não era assim, que isso não tinha acontecido dessa forma. Inclusivamente, os que contavam o que se tinha passado, por exemplo, durante o Holodomor na Ucrânia, durante as purgas estalinistas na Rússia, os campos de concentração, o Gulag, muitas vezes eram ostracizados e nem sequer podiam escrever nos jornais, eram postos de parte, eram verdadeiramente transformados em párias. No caso da Hungria, aquilo aconteceu à frente dos olhos de toda a gente. Aquilo primeiro é uma revolução daquelas que acontecem muito poucas vezes, no sentido de ser absolutamente espontânea. As organizações todas da oposição tinham sido desmanteladas. Quer dizer, o dia a dia dos operários, dos trabalhadores na Hungria, viviam em casas miseráveis, muito pequenininhas, às vezes em partes de casa, porque era assim que as coisas funcionavam. Levantavam-se às 4h30 da manhã, iam pras fábricas. Nas fábricas, o dia começava com a leitura do jornal oficial do partido e depois tinham que trabalhar em fábricas que a maior parte delas não tinham utilidade nenhuma, não produziam bens de consumo, era a replicação da ideia da industrialização estalinista. E depois tinham ainda sessões de doutrinamento que podiam durar até às 22h. Portanto, praticamente não dormiam, não tinham o que comer ou tinham pouquíssimo que comer, não havia bens de consumo e a repressão era brutal. E nesse dia, no final de outubro, a 23 de outubro, os estudantes marcaram uma manifestação, porque havia alguns sinais de abertura. Já tinha morrido o Stalin, já tinha havido o 20º congresso, já tinha havido a denúncia do Stalin. O Rákosi, que era o grande stalinista húngaro, já tinha passado para uma espécie de segundo plano. Inclusivamente, eles já tinham reabilitado um outro dirigente comunista chamado László Rajk, que tinha sido executado precisamente. Quer dizer, era o chefe da polícia secreta e o Rákosi, como desconfiava dele e desconfiava de toda a gente, tinha o enforcado. Uma manifestação convocada, o regime começa por proibir, mas depois acha que talvez não faça mal. E são duas manifestações, há duas universidades de dois lados do rio em Budapeste, o Danúbio. Elas começam a andar, começam a crescer e quando é o final do dia, acontecem duas coisas extraordinárias. Primeiro, estão mais de 200 mil pessoas ou mais de meio milhão, os números não são totalmente claros, em frente ao Parlamento, uma praça muito grande. E de repente, sem ninguém saber vindo de onde, parece que pela primeira vez apareceu uma janela, alguém se lembrou de pegar na bandeira húngara, que é verde, branca e vermelha, e tirar do meio o selo comunista que lá estava nessa época. E, portanto, as bandeiras começam todas a ter um buraco assim no meio, na faixa branca, aparecem com um buraco e começa a ser a bandeira deste movimento. O dia depois acaba mal, porque há uma tentativa de ir à rádio para que a rádio retransmita as reivindicações dos estudantes. Isso acaba com tiros, acaba com mortes e a partir daí isto vai crescendo, o governo é substituído e há uma tentativa do novo governo, que é um senhor chamado Imre Nagy, de fazer uma espécie de glasnost ou uma primavera de Praga antes do tempo. E naturalmente, quando ele dá o passo de dizer: "Não queremos cá os russos". Ele era comunista, atenção, ele continuou tal como, por exemplo, Dubček mais tarde em Praga. "Nós não queremos é cá os russos, queremos o nosso modelo de socialismo." Os russos vêm por aí adentro com 150 mil homens e 2500 tanques, entram em Budapeste e há dezenas de milhares de mortos e 200 mil húngaros que fogem pela fronteira, sobretudo para a Áustria. Portanto, isto acontece porque o regime não oferecia nada às pessoas, era muito repressivo e era o modelo típico da ideia de que se pode controlar, através de uma máquina totalitária, toda a gente. A revolta acabou em sangue. Isto coincide, em termos internacionais, com uma outra grande crise internacional, que é a Crise do Suez. As duas aconteceram ao mesmo tempo e ninguém vai em apoio à Hungria e aos húngaros. E os húngaros, naturalmente, são esmagados. E segue-se um regime dirigido por alguém que tem um papel equívoco ao longo destes anos todos, um senhor chamado János Kádár, que depois se torna o grande dirigente húngaro, praticamente até à queda do Muro de Berlim e à queda daqueles regimes, mas a Hungria ainda começou a cair antes da Alemanha. Vamos falar disso tudo, vamos sobretudo tentar perceber por que tudo o que se passou nestes países, e não foi assim há tanto tempo, e não são assim tão longe de nós, parece ter se apagado da memória de pessoas que andam a dizer coisas como: "É preciso que a classe trabalhadora faça uma revolução para acabar com o regime, para tudo isso." Nós, inclusivamente, temos alguns sons e o interessante nos sons é que não é apenas o que as pessoas dizem, são as palmas que se ouvem em background. Vamos tentar perceber como é que se pode haver esta espécie de amnésia coletiva. (José Manuel Fernandes)

foi assim em 2022



domingo, 1 de novembro de 2026

Será mesmo possível que o povo espanhol lhes dê mais quatro anos em Moncloa?

Acredito que a depravação moral seja o conceito que melhor se encaixa na conferência de imprensa do Ministro dos Transportes. Vilência, mesquinhez, pequenez ou indignidade também se aplicam bem, especialmente a última. Mas a depravação moral engloba dois conceitos contraditórios no Sr. Puente. Um ele possui em abundância: depravação. E outro lhe falta completamente: moralidade.

Segundo o Sr. Puente, não era sua obrigação "estar no comando na terça-feira". Ignoremos o fato de o acidente ter ocorrido na quarta-feira, mas, em virtude de sua posição, o Ministro dos Transportes é o responsável final por tudo o que está sob sua alçada. Ele já fez algo semelhante em Adamuz com aquele comentário "Eu não soldei o trilho" , o que só aumenta a indignidade — agora faz todo o sentido — com que ele trata seu cargo.

Segundo o Sr. Puente, ele não está renunciando por obrigação de "estar no comando agora ", pois quando ofereceu sua renúncia ao governo, Pedro I, o Belo, disse-lhe que não deveria fazê-lo, pois seria "injusto", e também porque "isso não prejudica seu projeto para o país". De fato, ele afirma categoricamente que "não tem tempo nem vontade de pensar na campanha eleitoral", mas tem tempo — e também rancor, o que se encaixa melhor aqui — para atacar Ana Pastor pelo acidente ferroviário de Angrois em 2013, no qual 80 pessoas morreram e onde o PSOE permaneceu em silêncio para absolver Pepiño Blanco, hoje um importante lobista, de qualquer responsabilidade.

Segundo o Sr. Puente, os Centros de Regulação e Controle do Tráfego Ferroviário aumentaram de 1.008 para 1.772 funcionários e também implementaram uma ampla gama de "melhorias tecnológicas". Especificamente, o centro de Atocha aumentou de 70 para 133 funcionários. Além disso, ele argumenta que a Espanha possui a maior extensão de trilhos de alta velocidade na Europa com o sistema de segurança ERTMS ativo — embora insista que o sistema LZB, que apresentou falhas, é igualmente confiável. Ademais, somos um dos poucos países na Europa que utiliza o ASFA como sistema de segurança secundário. E, caso tudo isso falhe, "a humanidade não está sozinha. Eles têm sistemas de posicionamento de trens que verificamos que funcionam ". É preciso ser uma pessoa verdadeiramente desprezível — o que se encaixa perfeitamente aqui — para proferir tais absurdos com 115 mortes na consciência.

Segundo o Sr. Puente, ele nunca falou em "erro humano ", mas disse que o acidente se deveu a "decisões errôneas", e acredito que, até hoje, decisões ainda são tomadas por pessoas. Ele também disse que não iria "usar nenhum trabalhador como escudo ou pré-julgar responsabilidades ", mas seu maior ato de depravação — que lhe cai como uma luva — foi dizer sem dizer: "Não sou juiz, mas não posso ignorar os fatos" ou "Isso foi um erro? O que você quer que eu diga?".

Neste ponto, já me faltam adjetivos, e ainda assim, surpreendentemente, aqueles por quem sinto pena não são as famílias dos 69 mortos em Urda ou dos 46 em Adamuz. Nem mesmo as famílias que ainda não encontraram seus entes queridos e não sabem se estão vivos ou mortos. Muito menos, é claro, aqueles que ficarão incapacitados para o resto da vida. O único por quem realmente sinto pena é ele.

Imagino que você se lembre da coletiva de imprensa de Sánchez — "Vamos encerrar por aqui, são cinco horas e eu ainda não comi" — mas isso é muito pior. "Não desejaria a ninguém o que estou prestes a passar. Sei o que vão me fazer passar e, além disso, é durante uma campanha eleitoral. O mais fácil para mim seria ir embora, mas não foi isso que o presidente me pediu." Além disso, apesar da visita de Adamuz ter ocorrido no início do ano, o Sr. Puente afirma que eles — o ministério — só podem "aprimorar os protocolos" ou "implementar novos sistemas para verificar a tomada de decisões" neste momento.

Além disso, hoje, hoje!, nove meses depois de Adamuz e com 69 corpos ainda quentes em Urda, eles têm a audácia de "não descartar uma auditoria completa" do sistema ferroviário de alta velocidade espanhol e até ameaçam fechar a linha Madrid-Barcelona por "24 meses" para realizar as obras de reforma.

É simplesmente inacreditável!!!

Mas onde recrutamos essas pessoas? Como permitimos que se agarrassem ao poder dessa maneira? Com ​​tudo isso, será mesmo possível que o povo espanhol lhes dê mais quatro anos em Moncloa? Sério?





Mario Díaz. Diretor Adjunto.(

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Tarrafal 1975

 

As Elites e a Crise da Nação (Uma reflexão a partir de António Marques Bessa 1949-2022)

Num tempo em que a palavra «elite» surge quase sempre associada à crítica política, vale a pena recuperar o pensamento de António Marques Bessa, um dos relevantes estudiosos portugueses das minorias dirigentes. A tradição teórica a que dedicou parte importante da sua obra recorda-nos uma verdade frequentemente esquecida: as elites não são um acidente da História nem uma perversão exclusiva dos regimes democráticos. São uma constante das sociedades organizadas. A questão fundamental nunca foi, portanto, a sua existência. A verdadeira questão é outra: quem as selecciona, como se renovam e ao serviço de que interesses exercem o poder.

Esta reflexão assume hoje particular importância em Portugal. Não se trata de transformar Marques Bessa em comentador póstumo da nossa conjuntura, mas de partir das questões que estudou para interrogar a qualidade das lideranças actuais. O seu trabalho sobre o poder, a classe dirigente e a circulação das elites oferece instrumentos de análise; a leitura do presente e os juízos que dela decorrem são da responsabilidade de quem escreve.


Da escolha dos melhores à carreira no aparelho

Durante décadas, alimentou-se a ilusão de que a democracia resolveria automaticamente os problemas da selecção das lideranças, como se o sufrágio universal bastasse para garantir a ascensão dos mais capazes. Porém, a realidade revelou-se bastante mais complexa. Em vez de uma renovação assente no mérito, na competência e na experiência, assistimos demasiadas vezes à consolidação de uma classe política profissional cuja principal qualificação parece residir na capacidade de navegar os aparelhos partidários. O voto escolhe entre as alternativas apresentadas; não assegura, por si só, a qualidade dos mecanismos internos que as produziram.

A política transformou-se numa carreira que pode começar nas juventudes partidárias e prosseguir por gabinetes, assessorias, administrações, empresas participadas pelo Estado e organismos internacionais. Não é a passagem por uma juventude partidária que desqualifica alguém; é a possibilidade de um percurso inteiro se cumprir dentro de circuitos protegidos, sem suficiente confronto com responsabilidades profissionais exteriores ao aparelho. Quando a fidelidade interna vale mais do que a competência demonstrada, o partido deixa de seleccionar dirigentes para o País e passa a distribuir lugares pelos seus profissionais.


De Abril e Novembro à pobreza do presente

Sem idealizar o passado nem absolver os seus erros, importa reconhecer que a geração que atravessou o 25 de Abril e o 25 de Novembro deu expressão pública a figuras de elevada preparação intelectual, cultura histórica, experiência profissional e densidade política. Homens que podiam combater-se duramente dispunham, em muitos casos, de pensamento próprio e de uma ideia de Portugal. A comparação com a pobreza intelectual de tantas das actuais «elites» partidárias é penosa: onde havia projectos discutem-se posicionamentos; onde havia argumentos ensaiam-se frases; onde havia convicções calcula-se a reacção do aparelho.

Não se exige aos dirigentes que sejam todos professores ou escritores. Exige-se que saibam mais do que o argumentário da semana, conheçam o País para além dos mapas eleitorais e consigam pensar para além da próxima promoção. A inteligência política não se mede pela desenvoltura televisiva, nem a preparação para governar pelo número de anos passados nos corredores do poder.


Falar pelo povo sem conhecer o País

Formou-se, assim, uma camada dirigente que fala constantemente em nome do povo, mas parece conhecer cada vez menos os seus problemas concretos. A saída de jovens qualificados, a fragilidade demográfica, o esvaziamento de territórios do interior, as dificuldades de acesso à habitação e os problemas persistentes dos serviços públicos deveriam impor prioridades claras. Contudo, uma parte considerável do debate político perde-se entre disputas de aparelho, operações de comunicação e agendas importadas, cuja relevância para a vida quotidiana dos portugueses fica frequentemente por demonstrar.

É neste ponto que a reflexão sobre as elites se torna decisiva. Uma minoria dirigente compromete a sua legitimidade quando deixa de interpretar os interesses profundos da comunidade que governa. Deter poder formal não dispensa autoridade moral, visão estratégica e responsabilidade perante a colectividade nacional. O cargo confere competências legais; não concede automaticamente a capacidade de as exercer bem.


Decidir longe, responder pouco

A este afastamento soma-se a transferência de decisões para estruturas supranacionais. Políticas económicas, monetárias, energéticas e regulatórias são hoje enquadradas, em diferentes graus, por instituições europeias e por compromissos que limitam a margem de decisão exclusivamente nacional. Reconhecer esta realidade não implica negar as vantagens da integração europeia. Implica exigir que os dirigentes expliquem o que negoceiam, quais as escolhas disponíveis e por que razão as soluções defendidas servem Portugal.

As instituições europeias dispõem de mecanismos de representação e de controlo, mas isso não elimina a distância sentida pelos cidadãos perante decisões complexas e responsabilidades dispersas. Quando os governantes apresentam as opções difíceis como imposições exteriores e reservam para si o mérito dos benefícios, enfraquecem a prestação de contas. Essa sensação de impotência pode alimentar o descontentamento, o afastamento eleitoral e a procura de forças que prometam romper com o consenso dominante.


Mudar os nomes não garante mudar a qualidade

A História ensina, contudo, que a simples substituição de uma elite por outra não resolve automaticamente os problemas de uma sociedade. A circulação das elites, tema central da tradição estudada por Marques Bessa, não constitui um certificado de qualidade dos que chegam. Também os partidos que se apresentam como alternativa têm de responder à mesma exigência: como escolhem os seus dirigentes, que competências valorizam e que capacidade demonstram para servir a comunidade nacional?

Nenhum país dispensa minorias dirigentes competentes, e nenhuma democracia pode desvalorizar indefinidamente os mecanismos que deveriam premiar o mérito, a inteligência, a experiência e a responsabilidade. A renovação exige abertura a pessoas com provas dadas, liberdade de pensamento e disponibilidade para responder pelos resultados. Trocar uma clientela por outra, conservando os mesmos métodos de promoção, seria apenas mudar os ocupantes dos lugares.


Renovar as elites para servir a Nação

Portugal não necessita de uma guerra demagógica contra as elites. Necessita de uma profunda renovação da sua qualidade: dirigentes capazes de pensar para além do próximo ciclo eleitoral; empresários inovadores que não façam da proximidade ao Estado a condição do seu êxito; intelectuais que não confundam pensamento crítico com conformismo ideológico; lideranças enraizadas na realidade nacional, com experiência que ultrapasse os circuitos fechados da política profissional.

A erosão da qualidade das lideranças é um dos factores que podem precipitar a decadência de uma nação, mesmo quando esta dispõe de recursos, talento e oportunidades. É essa a interrogação que a leitura de Marques Bessa nos ajuda a formular: uma sociedade não se mede pela ausência de elites, mas pela capacidade de formar e seleccionar elites que sirvam a Nação em vez de se servirem dela.


A questão que se coloca aos portugueses não é saber se querem elites. A História demonstra que elas existirão sempre. A questão verdadeiramente decisiva é outra: continuarão os portugueses a aceitar elites que já não parecem dispostas a assumir as responsabilidades inerentes ao exercício do poder?


Referências bibliográficas e leitura complementar

BESSA, António Marques, Quem Governa? Uma Análise Histórico-Política do Tema da Elite, Lisboa, ISCSP, 1993. Registo bibliográfico.

BESSA, António Marques, Elites e Movimentos Sociais, Lisboa, Universidade Aberta, 2002. Repositório da Universidade Aberta.

BESSA, António Marques, A Arte de Governar: Ensaios sobre Classe Dirigente e Fórmula Política, Lisboa, ISCSP, 1996.

MOSCA, Gaetano, The Ruling Class, Nova Iorque, McGraw-Hill, 1939.

PARETO, Vilfredo, The Mind and Society, Nova Iorque, Dover Publications, 1963.

MICHELS, Robert, Political Parties: A Sociological Study of the Oligarchical Tendencies of Modern Democracy, Nova Iorque, Free Press, 1962.

PINTO, Jaime Nogueira, «Um homem livre: António Marques Bessa (1949–2022)», Observador, 27 de Agosto de 2022.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Há que lhes voltar a ensinar que "O povo não se autoproclama"|

História para os mais novos, memória para os mais velhos: 

das assembleias do PREC às praças de hoje, o problema começa quando uma parte se apresenta como o todo.


Henrique Monteiro escreveu, no Expresso, um artigo cujo título merece ser levado a sério: «Isto não é uma república popular». Concordo no essencial com a advertência. A expressão «assembleia popular», repetida nos noticiários como se dispensasse explicação, contém uma pergunta política que demasiados jornalistas parecem ter esquecido: quem conferiu àqueles participantes o direito de falar em nome do povo? A questão é especialmente necessária num país onde a memória do PREC tantas vezes chega às novas gerações embrulhada em romantismo revolucionário.

O artigo oferece uma ocasião para ensinar História aos mais novos e combater a iliteracia histórica dos mais velhos. Uns não viveram aqueles acontecimentos; outros viveram-nos, mas parecem ter substituído a memória pelo conforto das versões convenientes. Entre ambos circula uma narrativa em que a revolução foi sempre generosa, a autoridade foi sempre suspeita e os que gritavam mais alto representavam necessariamente os que permaneciam calados. Foi precisamente essa equivalência que a experiência portuguesa desmentiu.


A palavra «povo» não passa uma procuração

Uma assembleia de moradores, trabalhadores ou manifestantes pode discutir problemas, aprovar reivindicações e organizar acções colectivas. Tudo isso faz parte de uma sociedade livre. O abuso começa quando a decisão dos presentes é apresentada como expressão da comunidade inteira e reclama, nessa qualidade, uma autoridade superior à das instituições eleitas.

Quem não compareceu também pertence ao povo. Pertence-lhe o trabalhador que não pode abandonar o emprego, o reformado que discorda dos métodos, o jovem que procura casa sem aderir à organização e o cidadão que rejeita aquela agenda. Nenhum deles perde direitos políticos por não estar numa praça à hora do directo televisivo. Uma reunião pode ser numerosa, participada e convicta; continua a precisar de explicar os limites da representação que reclama.

É este o ponto que tenho procurado desenvolver no ReVisões: a visibilidade mediática permite conquistar atenção, mas não constitui um mandato. Quando a televisão adopta sem distância a linguagem dos organizadores, ajuda a converter a parte em todo. O público vê activistas identificados como intérpretes de uma população que nunca os escolheu para essa função.

O que 1975 obriga a recordar

Nas eleições de 25 de Abril de 1975 para a Assembleia Constituinte, a participação ultrapassou os 91% dos recenseados. Milhões de portugueses exprimiram uma escolha por voto secreto, num acontecimento decisivo para a construção democrática. A existência dessa representação eleitoral não impediu que continuasse a disputar-se a fonte da legitimidade política: o sufrágio ou a invocação de uma autoridade revolucionária. [1]

O confronto teve consequências concretas. Em Novembro, uma manifestação de trabalhadores da construção civil cercou o Palácio de São Bento e impediu os deputados de sair durante cerca de 36 horas. A reivindicação laboral não apagava o significado político do acto: os representantes eleitos estavam retidos pela pressão exercida sobre a instituição em que trabalhavam. Basta recordar este episódio para perceber quanto pode custar a confusão entre mobilização e soberania. [2]

Conheci aquele tempo e não aceito que a sua violência política seja dissolvida numa colecção de canções, cartazes e boas intenções. A memória dos saneamentos, das intimidações e das prisões políticas também pertence à história da liberdade portuguesa. Quem pretende ensinar democracia deve explicar como foi possível invocar a emancipação do povo enquanto se restringiam os direitos de portugueses concretos.

O 25 de Novembro foi decisivo para derrotar a via revolucionária que ameaçava o pluralismo e para reconduzir os partidos ao centro da vida política. É nesse sentido que o tenho interpretado como o nosso Thermidor: o travão à dinâmica revolucionária e a abertura de condições para consolidar uma democracia pluralista. A institucionalização dessa democracia prosseguiu em 1976; não nasceu acabada numa única madrugada. [3]

O braço levantado e a liberdade de discordar

Não existe mal democrático em votar de braço no ar numa associação ou numa reunião. O método, por si só, não transforma ninguém em inimigo da liberdade. Mas também não confere a um grupo autoridade para decidir pelos ausentes, impor obrigações a terceiros ou substituir os procedimentos de decisão da comunidade política.

O voto secreto protege uma liberdade que a exposição pública pode constranger: a de discordar sem ter de enfrentar o julgamento imediato do grupo. Numa reunião muito mobilizada, a pressão dos presentes, o domínio da palavra e a condução da ordem de trabalhos podem favorecer os mais organizados. Cabe perguntar quem participa, quem estabelece as regras e quem fica excluído. A palavra «horizontal» não responde a nenhuma destas perguntas.

Henrique Monteiro recorda a distância entre os nomes de certas repúblicas e a realidade dos respectivos regimes. A lição merece ser aplicada com precisão: uma designação virtuosa não comprova uma prática democrática. Chamar «popular» a uma estrutura exige que se examine a sua representatividade com o mesmo cuidado que se dedicaria a qualquer outra organização.

Quando o jornalismo adopta a linguagem da praça

Uma frase tão simples como «a assembleia popular decidiu» pode ser informação suficiente sobre a organização interna de um protesto. Torna-se equívoca quando omite quem decidiu, sobre quem pretende decidir e com que autoridade. O rigor exige estas distinções, sobretudo quando estão em causa decisões que afectam cidadãos alheios à reunião.

É aqui que a minha crítica ao jornalismo-activista encontra o argumento de Monteiro. Quando a reportagem adopta a legitimidade proclamada pelos protagonistas como pressuposto, deixa por fazer a pergunta principal. A simpatia por uma causa não dispensa o escrutínio dos seus intérpretes. E o dever de investigar eventuais excessos policiais deve acompanhar o dever de examinar as declarações, os métodos e as responsabilidades dos organizadores.

A comparação com o PREC serve para reconhecer um problema político, não para presumir intenções idênticas em todos os manifestantes de hoje. Os contextos são diferentes e essa diferença deve ser respeitada. Mas há uma pretensão que continua a merecer oposição: a de uma minoria organizada se apresentar como depositária de uma vontade popular superior à escolha eleitoral.

A questão social exige mais do que uma praça

A habitação é um problema grave. Uma direita social e nacional tem de o enfrentar com propostas, resultados e protecção dos mais vulneráveis. Abandonar o assunto à extrema-esquerda seria entregar-lhe, além de uma causa, a oportunidade de se proclamar sua representante exclusiva.

O meu princípio da flutuabilidade política ajuda a formular uma hipótese: a perda de influência institucional pode aumentar o valor estratégico da mobilização de rua. A hipótese exige análise de cada situação; não demonstra que toda a manifestação seja uma manobra partidária. Permite, porém, perguntar se a intensidade mediática de uma mobilização está a simular uma representatividade que as urnas não confirmam.

A democracia permite protestar, contestar governos e organizar movimentos. A sua liberdade depende igualmente de impedir que qualquer desses movimentos se aproprie da voz de todos. Esta é a História que importa ensinar aos mais novos e recordar aos mais velhos, sobretudo aos que informam: o povo inclui os que discordam, os que ficam em casa e os que nunca levantaram o braço naquela assembleia.

O povo não se autoproclama numa praça. E uma câmara de televisão não lhe pode passar uma procuração.

José Costa-Deitado | ReVisões | Opinião

Notas e referências

Henrique Monteiro, «Isto não é uma república popular», Expresso, 22 de Outubro de 2026.

[1] Assembleia da República, «Estado democrático», sobre as eleições de 1975.

[2] Assembleia da República, «O cerco à Assembleia Constituinte», e registo do cerco e da sua duração.

[3] Assembleia da República, «A construção da Democracia (1974–1976)».

Continuidade editorial: «O povo não cabe numa tenda — e a democracia não se decide de braço no ar» e «Jornalismo de braçadeira: quando o microfone entra na acampada», textos anteriores do ReVisões.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

quando o microfone entra na acampada...

A crise da habitação exige respostas. A crise do jornalismo exige que se volte a fazer perguntas — também àqueles que uma parte das redacções parece ter escolhido como seus representantes na rua. 

Há momentos em que o microfone parece ter deixado de servir para fazer perguntas e passado a funcionar como credencial de pertença. Nas acampadas pela habitação, a fronteira entre relatar um protesto e participar na sua justificação tornou-se o verdadeiro assunto. Quando a reportagem adopta o vocabulário de uma das partes, dispensa os seus protagonistas de explicações e reserva a indignação para a polícia, o espectador recebe uma causa já embrulhada em papel de notícia.

O artigo de Dinis de Abreu, «A crise mediática e a crise da habitação», publicado no Observador em 28 de Outubro, reforça uma crítica que tenho vindo a desenvolver no ReVisões: o jornalismo perde a sua função quando troca o escrutínio pela identificação com os protagonistas que acompanha. Abreu denuncia a amplificação acrítica dos protestos e a insuficiência das perguntas. É nesse diagnóstico que encontro o ponto decisivo. [1]

A minha leitura é esta: parte deste jornalistado parece considerar que uma causa politicamente simpática traz consigo a dispensa de contraditório. O manifestante chega ao directo moralmente certificado; o polícia entra sob suspeita. Entre ambos, o repórter corre o risco de abandonar o lugar de quem investiga para ocupar o de quem distribui razão.
Quando o jornalista entra numa acampada, deve levar perguntas. Se leva apenas aplausos, já escolheu outra profissão.
Uma causa justa não é um salvo-conduto
A crise da habitação existe. A dificuldade de pagar uma renda, comprar casa ou constituir família merece respostas sérias, fiscalização das políticas públicas e persistência jornalística. Precisamente por isso, indigna-me que um problema desta dimensão possa ficar reduzido à dramaturgia de uma praça, à repetição de palavras de ordem e ao calendário das assembleias dos acampados.
Um protesto merece cobertura pela sua relevância. A sua relevância não torna verdadeiras todas as declarações dos participantes, sensatas todas as suas propostas ou legítimos todos os seus métodos. O sofrimento social exige investigação; não oferece imunidade política a quem se apresenta como seu porta-voz.
Quem organiza? Quem decide? Que propostas concretas apresenta? Que efeitos teriam? Quem fica de fora daquela representação? Que relação existe entre os organizadores e estruturas partidárias? São perguntas elementares. Apurá-las não constitui hostilidade à habitação: constitui respeito pelos cidadãos que precisam de soluções e não apenas de imagens comoventes.~

A liberdade de informar à porta da tenda
Há um episódio particularmente esclarecedor. Numa reportagem de 20 de Outubro, o Observador descreveu limitações à circulação de jornalistas e à captação de imagens na acampada de Lisboa, aprovadas em assembleia. Relatou também que uma fotojornalista foi impedida de fotografar numa zona das tendas. A organização invocou privacidade e protecção de pessoas vulneráveis. [2]
Essa justificação pode e deve ser examinada. A protecção de pessoas vulneráveis merece cuidado; uma deliberação de manifestantes não deve, porém, ser aceite como título bastante para administrar a liberdade de informação numa praça pública. A contradição merece destaque: reclamar visibilidade enquanto se pretende escolher o perímetro do olhar jornalístico.
Que reacção mereceria uma restrição semelhante se viesse de um movimento de Direita? A pergunta é um teste à coerência editorial. O direito de informar exige o mesmo empenho perante qualquer organizador. Uma redacção que se deixe domesticar pela simpatia perde autoridade para denunciar as tentativas de domesticação dos outros.
O próprio facto de este episódio ter sido investigado e publicado mostra que existe jornalismo a cumprir a sua função. É esse padrão de independência que deve ser exigido às restantes coberturas, incluindo às televisões.

A polícia não pode ser o culpado de serviço
No comunicado sobre a operação de 25 de Outubro, a PSP apresentou a sua fundamentação: remoção de estruturas de acampamento, tentativas de obter cumprimento voluntário e intervenção após o não acatamento das orientações. Reconheceu igualmente feridos, incluindo agentes. Trata-se da versão policial, que exige confronto com imagens, testemunhos e outros elementos. [3]
Mas exige também ser efectivamente ouvida. Uma reportagem que começa no instante do uso da força e omite a sequência anterior pode mostrar imagens verdadeiras e produzir uma compreensão incompleta. Importa saber o que aconteceu antes, que ordens foram transmitidas, como foram recebidas e se a força empregue foi necessária e proporcionada.
Defendo as forças da ordem no cumprimento da lei. Cabe-lhes garantir direitos, proteger pessoas e preservar o espaço comum. A sua intervenção não se transforma em repressão só porque desagrada aos manifestantes; qualquer eventual excesso deve, por sua vez, ser apurado com seriedade.
A Provedora de Justiça pediu esclarecimentos urgentes sobre as operações de 25 de Outubro, para analisar a sua compatibilidade com o direito de reunião e manifestação. Esse pedido é um acto de fiscalização institucional, não uma condenação antecipada da PSP. O mesmo cuidado deve reger o tratamento das denúncias dos manifestantes: investigar antes de sentenciar. [4]
É aqui que me parece falhar o jornalismo que toma partido: exige presunção de legitimidade para o protesto e parece recusá-la, à partida, à autoridade. O resultado aproxima a reportagem de um libelo político.

Novas gerações, velhas cartilhas
Não atribuo este problema a uma idade. Há jovens jornalistas rigorosos e veteranos rendidos à militância. Critico uma aprendizagem profissional em que a adesão às causas consideradas certas parece, por vezes, valer mais do que a capacidade de fazer perguntas incómodas aos respectivos promotores.
Quando essa cultura prevalece, a linguagem denuncia o alinhamento: a autoqualificação dos organizadores passa para a notícia sem distância; a acusação torna-se enquadramento; o contraditório surge como incómodo. O jornalista deixa de testar a narrativa e começa a protegê-la. É nesse comportamento que reconheço o jornalista-activista, independentemente da idade ou de qualquer filiação formal.
Ao lado dele instala-se o comentador que confunde convicção com conhecimento e familiaridade televisiva com autoridade. Comentar é legítimo. O público deve, contudo, conseguir distinguir a interpretação assumida da reportagem que reclama rigor factual. A mistura beneficia quem quer persuadir sem assumir inteiramente essa responsabilidade.
O Código Deontológico exige verificação, audição das partes e distinção clara entre notícia e opinião. Exige também resistência às limitações ao direito de informar. São critérios da própria profissão, anteriores às simpatias de cada redacção. Aplicá-los aos acampados é uma obrigação profissional. [5]

A praça não recebe um mandato da televisão
Uma assembleia pode decidir o rumo de um protesto entre os seus participantes. Não recebe, por isso, mandato para falar em nome de todos os jovens, de todos os inquilinos ou do país inteiro. A designação «popular» não resolve o problema da representatividade.
As câmaras podem ampliar uma mobilização; não multiplicam os cidadãos que nela participam nem substituem os mecanismos da democracia representativa. Quando o discurso de activistas da extrema-esquerda é apresentado como tradução evidente da vontade popular, o jornalismo ajuda uma facção a reclamar uma legitimidade que deveria interrogar.
É essa promoção que contesto: o salto entre dar voz e conferir mandato, entre acompanhar uma reivindicação e adoptar os seus intérpretes. Quem discorda também faz parte do povo, mesmo quando está a trabalhar, permanece em casa ou não leva uma bandeira para o directo.

Quem escrutina tem de aceitar escrutínio
A responsabilidade pertence igualmente às direcções editoriais. São elas que escolhem a duração dos directos, os títulos, os convidados e as perguntas que ficam por fazer. Se premiam a excitação e toleram a confusão entre informação e militância, ajudam a produzir a crise de confiança de que depois se queixam.
Quero um jornalismo capaz de incomodar o Governo, a polícia, os partidos e os organizadores de protestos com a mesma independência. Um jornalismo que investigue a habitação para além das tendas e examine as tendas para além da propaganda.
Quem quer militar tem toda a liberdade para o fazer. Aos cidadãos assiste o direito de saber quando estão perante militância. A carteira profissional exige mais do que transportar um microfone para dentro de uma causa.

Fontes



terça-feira, 27 de outubro de 2026

o que é que ele sabe deles?

 irredutíveis na defesa de Luís Neves

O POVO NÃO CABE NUMA TENDA E A DEMOCRACIA NÃO SE DECIDE DE BRAÇO NO AR

Habitação, activismo e comunicação social: quando a representação mediática procura substituir a representação democrática

Uma crise social verdadeira pode ser politicamente instrumentalizada. Esta afirmação devia ser uma evidência; em Portugal, porém, parece exigir uma coragem que falta a uma parte considerável do jornalistado e do comentariado. A dificuldade de acesso à habitação é real, grave e atinge trabalhadores, jovens, reformados e famílias. Por isso, não deve ser entregue a organizações que transformam necessidades legítimas em oportunidades de agitação.

Não contesto o direito de manifestação, nem a dignidade de quem protesta por não conseguir pagar uma renda. Contesto que activistas, amplificados por câmaras e microfones, sejam apresentados como «o povo», enquanto as instituições eleitas surgem como obstáculo à vontade popular. Entre o cidadão que precisa de uma casa e o militante que ambiciona uma revolução existe uma diferença que o jornalismo tem obrigação de investigar.

A CRISE EXISTE; O MONOPÓLIO DA SUA REPRESENTAÇÃO NÃO

O problema habitacional não nasceu com as tendas, nem desaparecerá com a sua remoção. Resulta da insuficiência da oferta, dos obstáculos à construção, dos custos, dos baixos rendimentos e da pressão sobre a procura. Uma direita que represente o país real tem de apresentar respostas para a construção, o arrendamento e a protecção dos vulneráveis.

Abandonar estas questões à esquerda radical seria um erro político e uma falha moral. Mas reconhecer a legitimidade de uma causa não obriga a aceitar a neutralidade dos seus organizadores. Quem convoca uma manifestação tem o direito de defender uma ideologia; quem a acompanha tem o direito de conhecer essa ideologia; e quem informa tem o dever de não a apagar.

QUEM FALA, EM NOME DE QUEM?

Uma investigação do Observador identificou ligações de dirigentes de movimentos pela habitação ao PCP e ao Bloco de Esquerda, registando igualmente a garantia dos próprios de que actuam com autonomia face aos partidos. Essas ligações são matéria de interesse público; não provam uma cadeia de comando partidária ou financiamento clandestino. Exigem escrutínio, não inocência associativa automática.[1]

Há ainda militantes de organizações declaradamente revolucionárias que intervêm neste universo. Renata Cambra, antiga dirigente do MAS, é porta-voz do Trabalhadores Unidos, formação que se apresenta como socialista e revolucionária. Uma publicação política internacional entrevistou-a sobre a luta pela habitação, identificando-a como uma das protagonistas das mobilizações. Isto não retira legitimidade ao que diz; permite, isso sim, compreender de onde fala.[2]

Em Lisboa, Priscila Valadão tem moderado assembleias; no Porto, João Silveira afirmou que as decisões são tomadas em assembleia, rejeitando uma hierarquia. A reportagem do Observador descreve estas funções e dá voz às suas explicações. Outros percursos políticos devem ser investigados individualmente, sem transformar nacionalidade ou simpatia ideológica em prova de comando ou crime. O problema é apresentar uma intervenção política organizada como voz espontânea de todo o país.[3]

Pergunte-se: como são escolhidos os porta-vozes? Que organizações participam? De onde vêm os recursos? E quantas pessoas representam aqueles que aparecem como intérpretes de todos os que têm dificuldades com a habitação?

A MÁQUINA QUE FABRICA REPRESENTANTES

Aqui reside a responsabilidade do jornalistado. Uma câmara pode mostrar uma acampada; não pode transformar a acampada numa amostra representativa do país. A presença diante das objectivas não prova legitimidade para falar em nome de milhões.

O mecanismo é conhecido: uma acção reúne algumas dezenas ou centenas; a ocupação assegura imagens; a possibilidade de intervenção policial acrescenta tensão; e a televisão encontra personagens e confronto. Para uma organização que domina a linguagem da agitação, a atenção conseguida pode ser muito superior à sua expressão eleitoral. O que as urnas não lhe deram, a repetição mediática ajuda a simular.

Os mesmos repertórios de mobilização podem circular entre causas diferentes — habitação, clima ou Palestina. Essa convergência merece investigação; não demonstra, por si só, que exista uma direcção comum.

Daqui não decorre que cada ferimento seja deliberadamente procurado ou que cada polícia tenha actuado bem. Seria grave afirmá-lo sem prova. Mas é legítimo discutir o incentivo político e mediático criado por confrontos: uma imagem de violência pode dominar sucessivos noticiários, enquanto a pergunta sobre a legalidade da ocupação, os objectivos dos organizadores ou as propostas para construir casas fica relegada para rodapé. Quando a cabeça partida vale mais, em tempo de antena, do que anos de fracasso habitacional, a distorção está instalada.

GRAMSCI, BRANQUINHO E A BATALHA PELA LINGUAGEM

Antonio Gramsci compreendeu que o poder político não se sustenta apenas na força do Estado: depende também da capacidade de formar consensos na sociedade, através de instituições, ideias, linguagem e cultura. Não é necessário subscrever o seu comunismo para reconhecer a utilidade deste instrumento de análise. Quem define o que parece natural, moral ou aceitável entra na disputa política antes de se contarem os votos.

Duarte Branquinho, em «Para um gramscismo de direita», retoma essa discussão a partir das Novas Direitas e insiste em que o combate cultural não pode ficar entregue a intelectuais afastados do povo e das instituições. A sua proposta articula o trabalho político e metapolítico com o conhecimento das necessidades concretas da população. É uma leitura possível, não uma fórmula infalível nem uma obrigação de militância partidária.[4]

Aplicada à habitação, a lição é dupla. Por um lado, importa identificar a operação cultural que transforma o activista em «povo» e a autoridade em «repressão», antes mesmo de os factos serem apurados. Por outro, a direita só disputará essa hegemonia se ouvir quem trabalha, paga impostos e não consegue encontrar casa. Não basta denunciar os fabricantes de palavras de ordem; é necessário retirar-lhes o monopólio das respostas sociais.

A RUA, AS ASSEMBLEIAS E AS URNAS

As chamadas assembleias populares são formas de reunião e deliberação entre participantes. Podem organizar um protesto, formular exigências e escolher representantes do próprio movimento. Não são, por isso, automaticamente ilegais, nem pertencem exclusivamente ao trotskismo. A questão política surge quando as decisões de quem ocupa uma praça são apresentadas como expressão superior da vontade colectiva e utilizadas para pressionar o poder eleito a abdicar das suas responsabilidades.

É essa pretensão que rejeito visceralmente. Uma assembleia de braço no ar não substitui eleições livres, pluralismo, Parlamento e tribunais. O braço levantado conta uma presença; não conta os cidadãos ausentes. Uma praça cheia não é a nação inteira.

Quem viveu o PREC conhece a sedução das legitimidades paralelas: comissões, plenários e vanguardas falavam em nome de um povo cuja diversidade nem sempre queriam ouvir. Não afirmo que o Portugal de hoje seja o de 1975, nem que os presentes nas tendas partilhem todos um projecto revolucionário. A memória histórica serve para reconhecer uma tentação, não para declarar idênticas situações diferentes.

A LEI DE VASCO GONÇALVES

Há uma ironia que os defensores da ocupação permanente das praças fariam bem em estudar. O Decreto-Lei n.º 406/74, de 29 de Agosto, foi aprovado pelo II Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves, e promulgado pelo Presidente António de Spínola. Era um governo do período revolucionário, com composição politicamente diversa; reduzi-lo, na sua totalidade, a um governo de extrema-esquerda seria historicamente impreciso.[5]

O diploma garantiu o direito de reunião pacífica sem autorização prévia e estabeleceu regras para o seu exercício. Na versão consolidada prevê, entre outras disposições, aviso prévio às autoridades municipais e condições para a intervenção quando ocorram perturbações graves e efectivas ou actos contrários à lei. A Constituição protege igualmente o direito de reunião e manifestação. Não se pode retirar de um artigo isolado a conclusão automática de que toda a acampada é ilegal: a avaliação depende dos factos, das normas aplicáveis e das decisões competentes.

Mas a conclusão política permanece: o direito de protestar não concede um direito ilimitado de apropriação do espaço público. A polícia tem o dever de cumprir ordens legais, respeitando a necessidade e a proporcionalidade; eventuais excessos devem ser investigados. Defender os agentes quando actuam legitimamente e exigir responsabilidade quando não o façam são duas exigências do mesmo Estado de direito.

UMA DIREITA QUE NÃO ABANDONE A QUESTÃO SOCIAL

No meu «princípio da flutuabilidade política» propus uma hipótese: quando uma força perde influência institucional, a mobilização extra-institucional pode tornar-se mais valiosa para recuperar visibilidade e pressão. Não é uma lei matemática nem uma explicação para todas as manifestações; os movimentos pela habitação existiam antes da actual conjuntura. É uma pergunta a testar, não uma conspiração a presumir.

A democracia precisa de jornalismo que faça perguntas incómodas a todos, de uma polícia respeitada e fiscalizada e de governantes que resolvam problemas. Precisa também de uma direita social e nacional capaz de falar das rendas e dos salários sem pedir licença à esquerda radical.

Os activistas têm direito à sua voz. Não têm é o direito a ser promovidos, por decreto televisivo, a representantes do povo. E os portugueses que não montam tendas, não levantam o braço numa assembleia e não aparecem no telejornal continuam a ser cidadãos de pleno direito: são eles, juntamente com todos os outros, que decidem nas urnas quem governa o país.

José Costa-Deitado

Notas e referências

[1] Rui Pedro Antunes, «Comunistas e bloquistas lideram movimentos de luta pela habitação», Observador, 16 de Outubro de 2026.

[2] Combate, publicação do Trabalhadores Unidos; entrevista a Renata Cambra sobre a habitação, El Socialista.

[3] «Por dentro das assembleias populares das acampadas», Observador.

[4] Duarte Branquinho, «Para um gramscismo de direita», Breviário, 10 de Junho de 2026.

[5] Decreto-Lei n.º 406/74, versão consolidada, Diário da República; composição do II Governo Provisório, Assembleia da República; artigo 45.º da Constituição.