domingo, 12 de julho de 2026

Da Velha à Nova Direita: uma mudança de paradigma na política europeia

A Nova Direita não é apenas uma vaga de novos partidos. É, antes disso, uma renovação intelectual que coloca a cultura, a identidade, a soberania e a continuidade histórica no centro da política europeia.
De Alain de Benoist a Gramsci, de Julien Freund a Benedikt Kaiser, de Dominique Venner a Leão XIII, há uma pergunta que atravessa todo este debate: pode a Direita continuar a ser apenas gestão, moderação e medo de existir?
No ReVisões, procuro distinguir a Nova Direita como escola de pensamento da Nova Direita como família política contemporânea, passando pela leitura de Duarte Branquinho e pelo fim da velha direita conservadora tradicional.
Porque antes das urnas há cultura.
E antes dos governos há uma visão do mundo.

A Nova Direita não se reduz a novos partidos: é, antes de tudo, uma renovação intelectual que pretende reconquistar a cultura, a identidade e a soberania das nações europeias.

Durante décadas, a direita europeia habituou-se a definir-se sobretudo por oposição à esquerda. Defendia a economia de mercado, a propriedade privada, a autoridade do Estado e a estabilidade institucional, mas raramente produzia uma reflexão própria sobre a cultura, a identidade ou a formação das ideias dominantes. Limitava-se, muitas vezes, a gerir a realidade construída pelos seus adversários.

É precisamente contra esta insuficiência intelectual que surge aquilo a que hoje chamamos Nova Direita. Importa, porém, distinguir dois significados frequentemente confundidos.

O primeiro refere-se à Nouvelle Droite francesa, nascida no final da década de 1960 em torno do GRECE e de autores como Alain de Benoist, Dominique Venner ou, em sentido mais amplo, Julien Freund. Não se trata de um partido político, mas de uma escola de pensamento que pretende reconstruir a cultura política europeia através da filosofia, da história, da antropologia e da reflexão sobre a civilização.

O segundo significado diz respeito ao conjunto de partidos nacional-conservadores, soberanistas e identitários que cresceram em praticamente toda a Europa nas últimas duas décadas. Embora muitos deles revelem afinidades intelectuais com algumas ideias da Nouvelle Droite, não constituem uma tradução automática desse pensamento nem possuem entre si a mesma coerência doutrinária.

É precisamente esta distinção que Duarte Branquinho tem procurado estabelecer. Nos seus textos, a Nova Direita aparece antes de tudo como uma renovação intelectual da direita europeia e não apenas como uma sucessão de partidos eleitorais.

Essa renovação parte de uma crítica comum às grandes ideologias do século XX. Recusa o marxismo por reduzir a sociedade à luta de classes e ao igualitarismo abstracto. Recusa igualmente o liberalismo absoluto quando este dissolve todas as comunidades históricas em nome do indivíduo isolado e do mercado global.

A questão central deixa então de ser exclusivamente económica para se tornar essencialmente civilizacional.

É neste ponto que Alain de Benoist desempenha um papel decisivo. Em Vu de droite — publicado em Portugal sob o título Nova Direita, Nova Cultura — defende que a verdadeira batalha política é, antes de tudo, uma batalha cultural. As sociedades vivem de valores, símbolos, memórias e identidades antes de viverem de programas eleitorais.

Curiosamente, esta ideia aproxima-se de uma das maiores intuições de Antonio Gramsci. Embora separados por universos ideológicos completamente distintos, ambos reconhecem que quem conquista a hegemonia cultural prepara inevitavelmente a hegemonia política.

Gramsci via essa hegemonia como instrumento da transformação socialista. A Nova Direita procura utilizar o mesmo método para fins diferentes: recuperar a continuidade histórica das nações, reforçar a identidade europeia e reconstruir o espaço cultural perdido pela direita tradicional.

É precisamente esta recuperação da leitura gramsciana que Benedikt Kaiser desenvolveu de forma particularmente sistemática. Kaiser considera que a direita deixou durante demasiado tempo a cultura, a universidade, a comunicação social e as organizações intermédias entregues à esquerda. Daí defender uma verdadeira metapolítica, entendida não como propaganda, mas como construção paciente de um novo consenso cultural capaz de anteceder qualquer vitória eleitoral.

Nesta perspectiva, a política começa muito antes das eleições. Começa nas escolas, nas universidades, nas associações, nos sindicatos, nas redes sociais, nas editoras, nos jornais, nas famílias e nas comunidades concretas.

A influência de Julien Freund introduz uma dimensão complementar. Freund recorda que o político possui autonomia própria e que nenhuma sociedade pode eliminar definitivamente o conflito. A distinção entre amigo e adversário, a necessidade da autoridade e a permanência das comunidades políticas pertencem à própria condição humana. A política não desaparece através da moralização do discurso público nem mediante a simples gestão técnica dos problemas.

Dominique Venner acrescenta outra preocupação: a continuidade histórica da civilização europeia. A identidade não resulta apenas da cidadania jurídica; constrói-se através da memória, da tradição, da cultura e da transmissão entre gerações.

Neste aspecto, a Nova Direita distancia-se simultaneamente do nacionalismo puramente estatista e do cosmopolitismo globalista. A comunidade nacional deixa de ser apenas uma realidade administrativa para voltar a ser entendida como uma comunidade histórica.

Mas talvez exista um elemento frequentemente esquecido neste debate. Muito antes da Nouvelle Droite, Leão XIII havia procurado responder à questão social através da encíclica Rerum Novarum.

Contra o socialismo revolucionário, defendeu a propriedade privada, a família e a liberdade. Contra o capitalismo desumanizado, defendeu o salário justo, a dignidade do trabalho, o descanso, a associação profissional e a responsabilidade social dos empregadores.

A Doutrina Social da Igreja ofereceu, assim, uma terceira via que recusava tanto o collectivismo como o individualismo económico absoluto.

Sob este prisma, não deixa de ser significativo que alguns sectores da direita europeia contemporânea tenham voltado a colocar a questão social no centro do seu discurso. A defesa do trabalho, da família, da natalidade, da subsidiariedade e da coesão nacional aproxima-se, em diversos aspectos, da tradição inaugurada por Leão XIII, ainda que cada partido a interprete de forma distinta.

É neste enquadramento que Duarte Branquinho situa o fenómeno português. Na sua leitura, Portugal deixou de constituir a antiga “excepção portuguesa”, caracterizada durante décadas pela ausência de uma direita nacional-popular comparável à existente em França, Itália, Áustria ou Países Baixos.

Todavia, Branquinho distingue cuidadosamente entre uma família intelectual e um partido concreto. Reconhece que o CHEGA participa de várias das preocupações presentes na Nova Direita europeia — soberania, identidade, imigração, crítica do multiculturalismo ou da burocracia europeia — mas considera igualmente que determinadas opções tácticas e eleitorais podem comprometer a coerência doutrinária de um projecto político.

A sua crítica ao chamado “chegalismo” deve ser entendida precisamente nesse contexto: como advertência contra o risco de substituir uma arquitectura intelectual consistente por uma sucessão de respostas conjunturais às expectativas eleitorais.

Esta distinção merece ser preservada. Nenhuma escola de pensamento se esgota num partido. Nenhum partido representa integralmente uma tradição intelectual. As ideias possuem normalmente um tempo muito mais longo do que os ciclos eleitorais.

Talvez seja precisamente aqui que resida a principal novidade da Nova Direita. Ela procura deixar de ser apenas uma direita parlamentar para voltar a ser uma direita cultural.

Pretende disputar universidades, editoras, centros de investigação, meios de comunicação, fundações, associações cívicas e espaços de produção simbólica. Noutras palavras, procura construir aquilo que Gramsci chamaria uma nova hegemonia cultural, mas colocando essa hegemonia ao serviço de valores radicalmente diferentes.

A velha direita acreditava que bastava ganhar eleições. A Nova Direita parte de um pressuposto distinto: antes das urnas existe a cultura; antes dos governos existe a visão do mundo; antes das maiorias existe aquilo que uma sociedade considera naturalmente verdadeiro.

É por isso que a verdadeira mudança talvez não consista apenas no aparecimento de novos partidos, mas no reaparecimento de uma tradição intelectual que durante décadas permaneceu dispersa, marginalizada ou esquecida.

Se esse processo conduzirá a uma verdadeira renovação da direita europeia permanece uma questão em aberto. Mas uma coisa parece hoje evidente: a discussão deixou de ser apenas sobre governos.

Passou a ser, sobretudo, sobre civilização.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O CHEGA entre Gramsci, Benedikt Kaiser e Leão XIII

O jornalismo (num país livre e democrático) não existe para confirmar convicções; existe para investigar factos, contextualizá-los e permitir que os cidadãos formem a sua própria opinião.

1. Introdução — A crise das categorias políticas em Portugal
A política portuguesa atravessa uma fase de transformação conceptual. As categorias que dominaram o debate público desde os anos 1990 tornaram-se insuficientes para explicar fenómenos híbridos que combinam crítica social, retórica nacional, combate cultural e contestação institucional. O CHEGA é o caso mais evidente desta mutação.
Este texto procura investigar factos, contextualizar discursos e situar o fenómeno numa genealogia intelectual mais ampla, sem confirmar convicções prévias.
2. O CHEGA, Gramsci e a despesa “de esquerda”
A teoria gramsciana da hegemonia cultural oferece uma chave de leitura útil: disputar o senso comum implica disputar os temas que estruturam a vida quotidiana. O CHEGA tem vindo a ocupar um espaço discursivo tradicionalmente associado à esquerda — despesa social, protecção dos vulneráveis, crítica à desigualdade — mas reinterpretando-o através de uma gramática moral, nacional e securitária.
Esta inversão estratégica procura construir um “povo” politicamente mobilizado através da questão social, sem adoptar o enquadramento igualitário da esquerda clássica.
3. Gramsci, Benedikt Kaiser e Leão XIII na questão social
A leitura gramsciana, porém, é insuficiente para explicar a totalidade do fenómeno. Surge aqui Benedikt Kaiser, publicista político da Nova Direita alemã, que defende uma crítica de direita ao capitalismo como parte de uma estratégia transversal. Kaiser argumenta que a direita deve disputar a questão social, não abandoná-la às forças progressistas.
A isto soma-se Leão XIII e a doutrina social da Igreja, que articulam justiça social, dignidade humana e preocupação com os trabalhadores dentro de uma visão moral e comunitária.
O CHEGA opera, assim, num cruzamento inesperado: crítica cultural (Gramsci), crítica de direita ao capitalismo (Kaiser) e intuições de justiça social (Leão XIII).
4. A hipótese:
“o CHEGA ficou mais social”
Há evidências que sustentam esta hipótese:
  • . reforço da linguagem sobre salários, habitação, pobreza e serviços públicos;
  • . disputa do eleitorado popular urbano e periurbano;
  • . centralidade crescente da questão social nos discursos parlamentares.
Contudo, permanece uma ambiguidade entre retórica social e propostas concretas. 
5. Uma direita metapolítica, social, nacional e pró-europeia?
Esta hipótese é mais exigente, mas também mais explicativa:
  • .Metapolítica: deslocar o combate para o plano cultural e civilizacional;
  • .Social: apropriação da questão social como instrumento de disputa hegemónica;
  • .Nacional: reforço da identidade, soberania e comunidade moral;
  • .Pró-europeia (civilizacional): defesa da Europa como espaço histórico e cultural, acompanhada de crítica às instituições europeias enquanto estruturas tecnocráticas.
Se esta síntese estiver a emergir, Portugal poderá estar a assistir ao nascimento de uma direita inédita no seu sistema político. 
6. Concluindo: Interpretar politicamente sem confirmar convicções
A epígrafe que abre este texto é metodológica: a análise política séria exige investigação, não militância; exige contexto, não slogans; exige categorias novas, não reciclagem das antigas.
Este   ReVisões   continuará a trabalhar neste sentido!

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A Construção Mediática do Chega: Lições de França e o Caso Português

A relação entre os Órgãos de Comunicação Social e os partidos classificados como “anti‑sistema” tornou‑se, na última década, um dos temas centrais da sociologia política europeia. Não se trata apenas de medir simpatias ou antipatias: trata‑se de compreender como se constrói, quotidianamente, a percepção pública de actores políticos que desafiam o consenso dominante. França foi pioneira neste campo ao estudar, com rigor metodológico, o enquadramento mediático do Rassemblement National. O que se descobriu não foi uma conspiração, mas sim um conjunto de incentivos internos, alinhamentos institucionais e pressões culturais que produziam, de forma sistemática, uma narrativa desfavorável.

Portugal encontra‑se hoje num ponto semelhante. O crescimento do Chega e a centralidade mediática de André Ventura tornaram o partido num objecto permanente de escrutínio. A percepção pública — amplificada por redes sociais, comentadores e militâncias adversárias — é a de que existe uma “hostilidade estrutural” dos OCS. Contudo, quando se analisam casos concretos, como os artigos de 2026 da jornalista Inês André Figueiredo, verifica‑se que a percepção não coincide com a realidade factual: as peças são neutras, factuais e sem enquadramento adversarial. Este contraste entre sensação e facto é, por si só, revelador.

A discrepância não deve ser ignorada. Pelo contrário: deve ser estudada. Portugal apresenta características que tornam plausível a existência de fenómenos semelhantes aos franceses — concentração elevada da propriedade dos media, dependência de publicidade estatal, homogeneidade sociológica das redacções e crescente polarização política. Estes factores não produzem, por si, censura formal; produzem algo mais subtil: ambientes editoriais onde certos enquadramentos se tornam mais prováveis do que outros.

O precedente francês ensina que a análise mediática não pode assentar em impressões, indignações momentâneas ou leituras partidárias. Exige método, comparação internacional, análise linguística, estudo institucional e distinção rigorosa entre narrativa e facto. Só assim se poderá determinar se existe, em Portugal, um padrão estrutural de negatividade ou se a percepção pública resulta de outros factores — como a polarização, a amplificação digital ou a própria estratégia comunicacional dos actores políticos.

Num país em transformação, compreender a relação entre OCS e política não é apenas um exercício académico: é uma necessidade democrática. E o primeiro passo é este: separar a percepção da realidade factual. O segundo será estudar, com seriedade, o que ainda ninguém estudou.

 

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Quando o Jornalismo troca as Perguntas pelas Convicções

Uma democracia saudável precisa de uma imprensa livre. Mas precisa, acima de tudo, de uma imprensa curiosa, incómoda e mas intelectualmente honesta. Quando um tema deixa de ser investigado com profundidade e passa a ser tratado sobretudo em função de quem o levanta, o jornalismo perde parte da sua missão.
Durante anos, qualquer referência aos efeitos de uma imigração muito intensa foi frequentemente recebida com suspeição moral. Em vez de se discutir se havia pressão sobre a habitação, sobre o SNS, sobre as escolas, sobre os transportes ou sobre os serviços públicos, discutia-se sobretudo quem fazia as perguntas e quais seriam as suas intenções.
Hoje, muitas das dificuldades que antes eram desvalorizadas ocupam diariamente as manchetes. A escassez de habitação, a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde, os atrasos administrativos e as dificuldades de integração são temas reconhecidos por praticamente todo o espectro político. A realidade acabou por impor perguntas que durante demasiado tempo pareceram inconvenientes.

O que merece reflexão não é que existam jornalistas ou comentadores com opiniões — isso é natural e legítimo. O problema surge quando a opinião substitui a investigação e quando a discordância política parece condicionar a curiosidade jornalística. O papel da imprensa não é proteger governos nem combater partidos; é escrutinar o poder, seja ele qual for.
Também merece reflexão a facilidade com que se desqualifica um dirigente político em vez de se confrontarem os factos que apresenta. Num regime democrático, cada voto tem exatamente o mesmo valor. Um cidadão vale um voto, independentemente da profissão, da notoriedade ou da simpatia que desperta. Ignorar ou caricaturar as preocupações de centenas de milhares — ou mesmo milhões — de eleitores não resolve problema algum; apenas aumenta a distância entre os órgãos de comunicação social e uma parte significativa da sociedade.
Uma imprensa de referência distingue-se pela capacidade de colocar perguntas difíceis, mesmo quando as respostas incomodam. Quando prefere classificar pessoas em vez de examinar factos, deixa de ajudar os cidadãos a compreender a realidade e passa a participar nela como mais um ator político.
O jornalismo não tem a obrigação de concordar com André Ventura, nem com qualquer outro líder político. Tem, isso sim, a obrigação de investigar, contextualizar e informar. Quando faz menos do que isso, perde autoridade. E essa perda não resulta dos discursos dos políticos; resulta das escolhas de quem decidiu trocar as perguntas pelas convicções.


terça-feira, 7 de julho de 2026

A Máquina Mediática e a Imigração: O Caso Observador (2014–2026) como exemplo

Há temas que regressam ciclicamente ao debate público, como ondas que insistem em bater na mesma rocha. A imigração é um deles. Ao longo dos últimos doze anos, observei com atenção como o jornal Observador que muitos consideram o bastião liberal‑conservador da imprensa portuguesa foi moldando a sua narrativa sobre este evento. Não apenas por curiosidade académica apenas, mas porque a forma como os mídia enquadram a realidade condiciona a própria realidade. Aprendi isso da pior maneira, nos meses em que fui preso político, em 1974–75, quando a narrativa oficial valia mais do que os factos.
Hoje, com a distância crítica que o tempo concede, olho para o Observador e vejo uma evolução nos mídia que merece ser registada.

1. O início: a fase tecnocrática (2014–2017)
Quando o Observador nasceu, a sua abordagem à imigração era quase clínica. Falava‑se de números, de demografia, de sustentabilidade da Segurança Social. Portugal envelhecia, e os imigrantes eram apresentados como uma espécie de “injeção de juventude” necessária para manter o país funcional.
Não havia entusiasmo, mas havia pragmatismo.
E, sobretudo, não havia medo.
2. A viragem crítica (2018–2020)
Com o aumento acelerado da imigração, o discurso mudou. O jornal começou a apontar falhas na gestão política do PS: atrasos na regularização, pressão sobre o SNS, falta de planeamento. Era uma crítica à máquina governativa, não aos imigrantes.
Mas, curiosamente, os artigos continuavam a sublinhar que os imigrantes contribuíam mais para a Segurança Social do que recebiam.
Era como se o jornal dissesse: “Precisamos deles, mas não assim.”

3. A ambivalência estruturada (2021–2024)
Este foi o período mais interessante. O Observador passou a ter dois discursos paralelos:
O discurso factual, que reconhecia que o crescimento populacional português dependia quase totalmente da imigração e
discurso crítico, que denunciava a incapacidade do Estado em gerir esse fluxo. 
A máquina mediática funcionava como um espelho partido: cada fragmento mostrava uma parte da verdade, mas nunca o conjunto.
4. A consolidação (2025–2026)
Com a publicação de novos relatórios oficiais, o jornal assumiu uma posição mais clara: Portugal é hoje um país de imigração, quer gostemos quer não. A imigração é estrutural, não conjuntural. E o problema não é a imigração em si, mas a ausência de política migratória coerente.
O Observador tornou‑se, assim, num jornal que reconhece a inevitabilidade da imigração, mas exige controlo, integração e planeamento.
Uma posição que, admito, é mais honesta do que muitas que se ouvem no espaço público.

5. O que isto revela sobre o papel dos media 
A imprensa não cria a realidade, mas molda a forma como a percebemos.
E, no caso da imigração, o Observador fez aquilo que muitos jornais evitam: reconheceu os benefícios económicos, mesmo quando criticava a gestão política.
Para quem viveu num tempo em que a imprensa era instrumento de propaganda - e eu vivi - esta ambivalência é saudável.
Não porque seja perfeita, mas porque é plural.

6. "comptes rendus"
A imigração continuará a ser tema central na política portuguesa. 
E o Observador continuará a ser um dos jornais que mais influencia a forma como o país pensa sobre ela.
O meu papel, aqui no ReVisões, é outro:
é desmontar narrativas
expor contradições, e 
lembrar que a verdade raramente cabe num título de jornal.

O CHEGA, Gramsci e a despesa “de esquerda”

Quando o deputado Rui Afonso do CHEGA  declarou que, “se reduzir a idade de reforma para 65 anos ou para 40 anos de desconto é de esquerda, então vamos assumir que somos de esquerda, mas somos portugueses”, não estava apenas a produzir uma frase parlamentar feliz. Estava a revelar uma mudança estratégica mais profunda: a tentativa do CHEGA de disputar à esquerda o terreno social, sem abandonar a identidade nacional.

A mesma lógica apareceu no voto ao lado do PS no projecto que obriga o Estado a pagar o prémio salarial de devolução de propinas aos recém-formados, acumulável com o IRS Jovem. Para os liberais de cartilha, isto é horror orçamental. Para a direita antiga, é pecado ideológico. Para André Ventura, é simplesmente política: falar aos jovens, aos trabalhadores, aos reformados, aos antigos eleitores socialistas e comunistas, cansados de décadas de promessas, impostos, moralismo e patranhas.

É aqui que entra Benedikt Kaiser. Em Der Hegemonie entgegen, já traduzido em França como Vers l’hégémonie, Kaiser recupera Gramsci para a Nova Direita: a política não se ganha apenas no Parlamento, mas na cultura, nos valores, nas redes sociais, nos compromissos com grupos concretos e na capacidade de criar uma nova ideia de senso comum.

O CHEGA percebeu, talvez antes do PPD/PSD, que uma direita meramente contabilística não chega ao povo. Falar de défice é necessário; falar de vida concreta é indispensável. A Nova Direita não quer ser apenas uma direita de patrões, gestores, comentadores e fiscalistas. Quer disputar o pensionista, o jovem licenciado, o trabalhador descontente, o pequeno contribuinte e o português que já não acredita no socialismo, mas também não se comove com sermões liberais sobre a virtude do sacrifício eterno.

Há aqui risco, evidentemente. A fronteira entre política social e irresponsabilidade orçamental pode ser estreita. Mas há também uma intuição certeira: se a esquerda ocupou durante décadas o monopólio da “justiça social”, a direita ou disputa esse território ou resigna-se a ser a guarda-livros do regime.

No fundo, André Ventura não está a dizer que o CHEGA é de esquerda. Está a dizer coisa mais perigosa para o sistema: que há causas sociais que não pertencem à esquerda. Pertencem aos portugueses.

Uma história MALcontada…

Há uma regra não escrita na vida pública portuguesa: a violência política só começa a existir quando pode ser atribuída à direita. Antes disso é contexto, excesso, precipitação, juventude, radicalismo generoso, antifascismo exaltado, ou simples nota de rodapé. Depois, quando aparece um caso à direita, real ou alegado, grave ou grotesco, perigoso ou caricatural, o país mediático acorda em sobressalto moral e descobre, enfim, que há extremismo.

Foi o que aconteceu com o chamado Movimento Armilar Lusitano, muito sugestivamente abreviado para MAL. A abreviatura é demasiado boa para ser desperdiçada pelo jornalistado. O MAL dá manchete, dá indignação, dá debate televisivo, dá ar grave aos comentadores de serviço e permite repetir a velha ladainha: a ameaça vem da extrema-direita, a conspiração vem da extrema-direita, o ódio vem da extrema-direita, a violência vem da extrema-direita. O resto é paisagem. Ou, pior ainda, é memória incómoda.

Não se trata, evidentemente, de branquear o MAL. Se houve recolha de dados sobre alvos, se houve armamento, se houve planos, se houve preparação de atentados, se houve delírio neonazi, se houve vontade de subverter a ordem democrática, então investigue-se, acuse-se, julgue-se e condene-se. Sem hesitações. Uma democracia que se respeita não deve tratar a violência política como folclore, nem a conspiração armada como brincadeira de miúdos crescidos a brincar aos soldados.

Mas uma democracia que se respeita também não deve ter uma memória selectiva. E é aqui que começa a história MALcontada.

Porque em Portugal há uma violência que parece nascer com cadastro moral perpétuo e outra que nasce logo absolvida pela intenção. A primeira é a violência atribuída à direita. Nunca é caso isolado. Nunca é desvio. Nunca é patologia de meia dúzia. É sempre sintoma de uma família inteira, prova de uma conspiração vasta, confirmação de uma maldade hereditária. A segunda é a violência de esquerda. Essa quase nunca tem genealogia, quase nunca tem cúmplices intelectuais, quase nunca tem ambiente político. Surge, acontece, desaparece e, se possível, é arquivada com uma nota sentimental: eram tempos difíceis.

A Primeira República é um bom começo para esta pedagogia do esquecimento. A narrativa escolar e jornalística apresenta-a, quase sempre, como uma aurora progressista interrompida pela reacção. Mas a aurora, convém recordá-lo, nasceu com pólvora, perseguição e sectarismo. O regicídio de 1908 não foi um acidente meteorológico. Foi violência política. Teve executores, teve ambiente, teve cumplicidades e teve consequências. João Franco, que tentara organizar uma direita nacional moderna, foi neutralizado pelo tiro que matou o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe. A Monarquia ficou mortalmente ferida. A República aproximou-se.

Depois veio a República propriamente dita, esse regime que muitos ainda tratam como se tivesse sido uma associação de professores primários, poetas cívicos e liberais de cartola. Na realidade, a Primeira República perseguiu católicos, monárquicos, conservadores e também sindicalistas quando estes se tornaram incómodos. Afonso Costa, grande santo laico do republicanismo radical, representou como poucos essa mistura portuguesa de iluminismo de café, anticlericalismo de seita e pulsão persecutória.

A Lei da Separação do Estado das Igrejas, de 1911, não foi apenas a afirmação institucional da laicidade. Foi também, na prática, um instrumento de agressão política contra a Igreja num país profundamente católico. Ordens religiosas expulsas, bens confiscados, culto fiscalizado, bispos pressionados, jornais católicos atacados, padres humilhados, religiosos proibidos de usar em público as vestes da sua condição. A República que se dizia libertadora começou por libertar os portugueses da sua própria tradição, à força de decreto, polícia e jacobinismo.

Quando Pio X denunciou, na encíclica Iamdudum, a ofensiva contra a Igreja em Portugal, não estava a comentar uma pequena fricção administrativa entre o Estado e o altar. Estava a responder a um regime que confundira separação com hostilidade, neutralidade com perseguição e liberdade com vingança ideológica.

Mas disto não se fala muito. Ou fala-se com o sorriso superior de quem acha que os católicos da época, os monárquicos perseguidos e os conservadores esmagados eram apenas restos de um país velho que a História tinha o dever de varrer. Na memória oficial, a violência republicana aparece muitas vezes como preço do progresso. Já a violência da direita, mesmo quando apenas imaginada ou planeada, aparece sempre como prova de barbárie.

Sidónio Pais, com todos os seus equívocos e ambiguidades, tentou pacificar parte do país real, reabrindo pontes com a Igreja e suspendendo a fúria persecutória. Foi assassinado. Também aqui a explicação costuma vir adoçada: um fanático, um perturbado, um acto isolado. Como se os perturbados políticos nascessem no vazio e não fossem frequentemente cultivados por ambientes de ódio, propaganda e demonização.

Em 1921, na Noite Sangrenta, a própria República devorou republicanos. Machado Santos, fundador do regime, foi assassinado. Outros homens ligados ao sidonismo foram abatidos. A rua armada, a guarda republicana indisciplinada, os marinheiros sem comando e a violência política entraram em cena. Mas a esquerda revolucionária tem sempre esta vantagem: quando mata os seus adversários, a culpa é da História; quando se mata a si própria, a culpa é da instabilidade.

O 28 de Maio de 1926 não caiu do céu. Nasceu também do cansaço de um país farto de governos de quatro meses, desordem crónica, violência facciosa e incapacidade de Estado. Isto não desculpa tudo o que veio depois. Mas ajuda a compreender por que razão tantos portugueses aceitaram, apoiaram ou toleraram a solução militar. A História não começa no ponto em que convém à propaganda.

Depois veio o Estado Novo, com a sua própria repressão, censura e polícia política. E também aí houve tentativas de assassinar Salazar, como houve resistência, conspiração, oposição legítima e oposição revolucionária. A violência política atravessou regimes, cores e mitologias. Só não atravessa, pelos vistos, a memória selectiva dos que hoje distribuem certificados de virtude democrática.

Abril de 1974 trouxe liberdade, mas também trouxe o PREC, prisões arbitrárias, saneamentos, cercos, ameaças, sequestros morais, fuzilamentos simulados e uma atmosfera em que chamar “fascista” a alguém podia ser o primeiro passo para lhe retirar emprego, honra, segurança e direitos. A extrema-esquerda revolucionária não era uma metáfora. Tinha sedes, jornais, milícias, armas, linguagem de guerra civil e uma concepção totalitária do futuro.

Mais tarde, já longe do calor inicial da revolução, vieram as FP-25. Não foram um clube de leitura marxista. Não foram uma tertúlia de antifascistas melancólicos. Foram uma organização armada de extrema-esquerda, responsável por atentados, assaltos, execuções e mortes. Morreram agentes de autoridade, adversários políticos, civis e até uma criança. Porém, a memória pública tratou tudo isso com uma indulgência que nunca seria concedida a qualquer violência vinda da direita. No fim, houve amnistias, relativizações, reabilitações sentimentais e até tratamento cultural com direito a fita e nostalgia.

Aí está o ponto essencial: em Portugal, a violência de extrema-esquerda é quase sempre explicada; a de extrema-direita é sempre explorada. A primeira é contextualizada até desaparecer. A segunda é amplificada até engolir tudo à sua volta. A primeira tem “razões históricas”. A segunda tem “raízes profundas”. A primeira erra por excesso de generosidade. A segunda revela a alma negra de toda a Direita.

O jornalistado e o comentariado vivem confortavelmente instalados nesta assimetria. Quando surge um grupo neonazi, e deve ser investigado sem complacência, todos descobrem a urgência da democracia. Quando a extrema-esquerda ameaça, intimida, agride, incendeia, boicota ou legitima a violência como método político, surgem logo os tradutores oficiais da indulgência: foi um protesto, foi tensão social, foi provocação, foi juventude, foi antifascismo, foi uma resposta à opressão, foi qualquer coisa menos aquilo que foi.

A extrema-esquerda portuguesa beneficia há décadas de uma espécie de licença poética revolucionária. Pode falar em “combate”, “resistência”, “antifascismo”, “rua”, “acção directa”, “ruptura”, “ocupação” e “luta”, que a intelligentsia mediática logo lhe arranja uma moldura romântica. Se a direita usar um décimo desse vocabulário, temos editoriais sobre o regresso dos anos trinta.

Não é a existência do MAL que deve ser minimizada. Pelo contrário. O que deve ser denunciado é o uso do MAL como absolvição retrospectiva de toda a violência que não convém recordar. Sim, há extrema-direita violenta. Sim, há delírios neonazis. Sim, há grupos perigosos. Sim, o Estado deve agir antes que o disparate armado se transforme em tragédia. Mas também há extrema-esquerda violenta, houve terrorismo de extrema-esquerda, houve crimes cometidos em nome da revolução, houve perseguição anticatólica, houve assassinatos políticos republicanos, houve intimidação revolucionária, houve e há uma cultura de desculpabilização da violência quando ela vem embrulhada na bandeira do antifascismo.

A democracia não se defende com amnésia selectiva. Defende-se com memória inteira. E a memória inteira obriga a dizer que Portugal não tem apenas uma tradição de violência política à direita. Tem também, e de forma longa, persistente e sangrenta, uma tradição de violência política à esquerda. Da Carbonária ao jacobinismo republicano, da Noite Sangrenta às tentações revolucionárias do PREC, das FP-25 aos actuais pequenos profissionais da intimidação antifascista, há uma linha que o comentariado prefere não ver. Não por falta de olhos. Por falta de vontade.

O MAL, se for provado em tribunal tudo o que lhe é imputado, merece condenação sem adjectivos atenuantes. Mas o mal português é outro e mais antigo: é a mentira confortável segundo a qual a violência só se torna ameaça à democracia quando vem da direita. Tudo o resto, por cá, acaba sempre convertido em nota histórica, explicação sociológica ou rebeldia juvenil.

E assim se escreve a história oficial: a direita tem crimes; a esquerda tem contextos. A direita tem ódio; a esquerda tem causas. A direita conspira; a esquerda resiste. A direita mata; a esquerda, quando mata, estava enganada, cansada ou historicamente impaciente.

É uma história MALcontada. E, como quase tudo o que é MALcontado em Portugal, serve menos para compreender o passado do que para manipular o presente.

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o CHEGA entre Gramsci, Kaiser e a questão social. Faltava Leão XIII!

“o CHEGA ficou mais social”, ou 
“o CHEGA pode estar a intuir uma direita metapolítica, social e nacional” ?

O CHEGA ainda se declara “nacional, conservador, liberal e personalista”, mas o seu programa também fala de funções sociais, subsidiariedade, trabalhadores/empresários, sindicatos, reforma e coesão social. Isto permite a leitura que propõe — mas convém formulá-la como “inflexão” ou “intuição estratégica”, não como doutrina plenamente fechada.
Eu (ainda) não diria que o CHEGA já possui uma doutrina orgânica, fechada e consciente de “Nova Direita social” nos moldes alemães, franceses ou italianos. Mas já há sinais suficientes para defender que o partido de André Ventura intuiu uma ruptura com a velha direita portuguesa: menos “gestão liberal-conservadora” e mais direita nacional, social, popular e culturalmente combativa. Faltava-lhe e/ou ainda lhe falta consolidar uma "Ponte"

A Ponte que faltava e que aquele partido está a fazer com Leão XIII é muito pertinente. A Rerum Novarum não é socialismo; é precisamente uma resposta cristã ao conflito entre capital e trabalho, defendendo propriedade, família, salário justo, descanso, protecção dos operários e associações de trabalhadores. Leão XIII escreveu que o Estado deve melhorar a sorte da classe operária e que os pobres são cidadãos “com o mesmo título que os ricos”; também defendeu descanso, limites ao trabalho e sindicatos/corporações como meios legítimos de protecção social.
Mas o Chega ainda se declara “nacional, conservador, liberal e personalista” e o seu programa reconhece funções sociais do Estado em ensino, saúde e segurança social, invoca subsidiariedade, fala de “ancoragem no social”, defende a cooperação entre trabalhadores e empresários, admite sindicatos e ordens profissionais, e reconhece um plano público de pensões como garante de estabilidade e coesão social.
Talvez tenhamos andado a olhar para o fenómeno CHEGA com uma lente demasiado estreita. Vimos André Ventura através do Parlamento, das polémicas, dos soundbites, dos ataques mediáticos, das reacções indignadas do comentariado e dos sermões moralistas da velha direita. Mas talvez o essencial esteja noutro lugar: na lenta formação de uma direita nova, diferente da velha direita do CDS/PP e do PPD/PSD.
A velha direita portuguesa habituou-se a duas funções: gerir o Estado melhor do que o PS e pedir desculpa por existir. Era liberal na economia, conservadora nas ocasiões solenes e social apenas quando precisava de ir a eleições. Falava muito de contas certas, pouco de trabalhadores; muito de défice, pouco de povo; muito de responsabilidade orçamental, pouco de abandono social. Ora, a política mudou. E Ventura percebeu que uma direita sem questão social é apenas uma contabilidade com gravata.
Foi por isso que a frase -“se reduzir a idade de reforma para 65 anos ou para 40 anos de desconto é de esquerda, então vamos assumir que somos de esquerda, mas somos portugueses” - teve mais importância do que parece. Não era apenas uma tirada parlamentar. Era a afirmação de uma direita que já não aceita entregar à esquerda o monopólio do trabalho, da reforma, do salário, da juventude ou da protecção social.

Entrou Gramsci, 
recuperado por Benedikt Kaiser para a Nova Direita: antes do poder político vem o poder cultural. A política não se ganha apenas no Parlamento. Ganha-se nos conceitos, na linguagem, nos valores, nas redes sociais, nas organizações, nas editoras, nos jornais, nas associações, nas periferias, nos grupos concretos. Ganha-se quando uma ideia deixa de parecer excêntrica e passa a parecer senso comum.
mas faltava uma peça: Leão XIII.
A Rerum Novarum não é uma relíquia piedosa para sacristias doutrinárias. É uma das grandes respostas europeias à questão social moderna. Contra o socialismo, defende a propriedade, a família e a liberdade. Contra o capitalismo selvagem, defende o trabalhador, o descanso, o salário justo, a dignidade do operário e a legitimidade das associações laborais. Leão XIII não entregou o trabalhador à luta de classes; também não o entregou ao mercado puro. Colocou-o dentro da Nação, da família, da comunidade, da justiça e do bem comum.
e
aqui que o CHEGA pode estar a intuir algo de decisivo: a direita não pode abandonar a questão social. A protecção dos trabalhadores, dos reformados, dos jovens qualificados, dos pequenos contribuintes e das classes médias baixas não pertence à esquerda. Pertence à comunidade nacional. A esquerda sequestrou a linguagem social durante décadas; a direita, por medo de parecer socialista, deixou-lhe o terreno livre. Resultado: milhões de portugueses passaram a ouvir a direita apenas quando ela falava de cortes, impostos, défices e sacrifícios.

A Nova Direita não pode cometer o erro da Velha Direita
Tem de articular quatro camadas.
A primeira é cultural: disputar conceitos, linguagem e senso comum. A segunda é social: reconquistar trabalhadores, precários, pensionistas, classes médias baixas e periferias abandonadas. A terceira é nacional: ligar protecção social, soberania, identidade, fronteiras e pertença. A quarta é organizativa: construir uma direita-mosaico, onde partido, intelectuais, imprensa, movimentos, juventudes, editoras e associações cumprem funções diferentes, sem fingirem que são todos a mesma coisa.

O adversário, por isso, não é apenas a esquerda. É também o liberalismo global, que vê no homem apenas consumidor, contribuinte, recurso humano ou unidade estatística. A esquerda dissolve o povo em minorias; o liberalismo global dissolve-o em mercado. Uma direita nacional tem de responder aos dois: sem socialismo, mas também sem servilismo perante a economia sem rosto.
Ventura talvez não tenha ainda uma teoria acabada para isto. Mas a política nem sempre começa pela teoria. Muitas vezes começa pela intuição. E a intuição parece clara: a direita portuguesa, se quiser governar de forma duradoura, não pode limitar-se a ganhar eleições. Tem de formar quadros, disputar a cultura, recuperar a questão social, romper com o liberalismo globalista e construir uma ligação orgânica entre partido, povo e pensamento.
Porque não há vitória política duradoura sem retaguarda cultural, sem povo social e sem paciência histórica.
E talvez seja isso que a velha direita ainda não percebeu: o CHEGA não quer apenas ocupar o lugar que o CDS deixou vago. Quer mudar o próprio mapa da direita portuguesa.

domingo, 5 de julho de 2026

O Código Laboral foi apenas o episódio...

A velha direita portuguesa sempre achou que só havia dois tipos de direita: a respeitável (ela própria) e a irresponsável (todos os outros). O CHEGA veio baralhar essa conta.
Não quer apenas sentar-se à mesa — quer mudar a mesa, a ementa, a linguagem do jantar. E trouxe convidados que a casa antiga nunca deixou entrar na sala principal.

Pode criticar-se Ventura. Pode reconhecer-se que o CHEGA tem impulsos contraditórios, improvisos e excessos demagógicos. Mas o essencial é outro: a direita portuguesa entrou numa fase pós-PSD. E o PSD ainda não percebeu que já não está perante uma dissidência — está perante uma concorrência histórica.

Coisas que o jornalistado e o comentariado não percebem...