sábado, 7 de fevereiro de 2026

De Belém como árbitro a Belém como porteiro...

Quem quer travar a democracia quando o voto não convém?
( o veto preventivo apresentado como “virtude republicana” )

Há perguntas que, quando feitas, revelam mais sobre quem responde do que sobre o tema em discussão. “Quem quer travar o PSD, o CHEGA e a IL no Governo?” é uma delas.
As respostas surgem com uma franqueza perturbadora — e com um à-vontade constitucional ainda mais inquietante. Pela primeira vez, figuras centrais do sistema admitem, sem pudor, que pretendem impedir soluções governativas antes mesmo de estas existirem, apenas porque não gostam dos protagonistas.
Comecemos por António José Seguro. Ex-líder do PS, hoje candidato presidencial, Seguro não se limita a manifestar preferências políticas. Vai mais longe: anuncia que usará os poderes de Belém para bloquear, preventivamente, qualquer maioria de direita que inclua PSD, CHEGA ou Iniciativa Liberal. Não é reacção a uma crise institucional concreta. É um programa: declarado, reiterado, exibido como prova de “responsabilidade”.
Ou seja: antes de haver Governo, já há veto. Antes de haver actos, já há punição. Antes do voto produzir efeitos, já há interdição. Isto não é moderação: é tutela política preventiva. É a democracia com rodinhas — para não fugir para onde o comentariado não quer.
O segundo caso, José Luís Carneiro, afina a mesma música noutro tom. Declarou que “não será por mim que o Chega chega ao poder” e admitiu viabilizar um Governo minoritário do PSD não por convicção, mas por contenção. Não para governar melhor — mas para impedir que outros governem. O PS a funcionar como tampão: não perde, “administra” a derrota.

O padrão é evidente. Quando o voto produz maiorias aceitáveis, chama-se “estabilidade democrática”. Quando produz maiorias incómodas, chama-se “perigo”, “ameaça” ou “excepção”. E assim se instala uma doutrina não escrita, mas já praticada: há votos legítimos e votos a neutralizar.
Convém dizê-lo sem eufemismos: um Presidente da República não é um comissário político do regime, nem um guarda de fronteira ideológica. A Constituição não lhe dá mandato para corrigir o eleitorado quando este vota “mal”. A ideia de Belém como última barreira contra certas escolhas democráticas é tudo menos democrática: é um reflexo saneador, agora embrulhado em linguagem institucional e boas maneiras.
Hoje trava-se o CHEGA. Amanhã será outro. O critério não é a legalidade — é a conveniência. E quando a conveniência passa a mandar no voto, o regime deixa de ser democracia e passa a ser um clube: entra quem o porteiro deixar.

Agulhadas finais 
1. Quando se promete bloquear Governos antes das eleições, já não se respeita a democracia — terceiriza-se o voto para Belém.
2. “Moderação” não é veto preventivo: é apenas o nome polido de uma velha pulsão — proibir, sanear e prender… agora com gravata e Constituição na mão.
3. O problema nunca foi “o populismo”. O problema é o sistema achar que o eleitor é um menor: vota, mas depois os adultos tratam do assunto.
4. Se a democracia só é “democracia” quando dá o resultado certo, então não é democracia: é um referendo permanente ao gosto do comentariado.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Verdadeira Ameaça à Democracia Não São os Eleitores — É o Jornalistado Militante

Somos diariamente avisados de que a polarização está a destruir a democracia portuguesa. O problema, dizem-nos, são os eleitores “radicalizados”, os populistas, as redes sociais, os “discursos perigosos”. Raramente se olha para o espelho. No entanto, a força mais corrosiva da política contemporânea não está no voto — está na comunicação social que trocou o cepticismo pela militância e o escrutínio pela cartilha.
O enviesamento mediático já não é um acidente ocasional. É um modelo de negócio, uma identidade editorial e, em demasiados casos, uma posição moral auto-atribuída.

Em Portugal, uma parte significativa do jornalistado e do comentariado deixou de tratar a política como matéria de interesse público para a tratar como missão cívica. Não informam: orientam. Não contextualizam: enquadram. Não descrevem a realidade: corrigem-na. O objectivo não é que o leitor compreenda — é que concorde.
A fronteira entre notícia e opinião esbateu-se ao ponto de desaparecer. Manchetes insinuam, textos “explicativos” instruem, editoriais disfarçam-se de reportagens. O leitor é conduzido pela mão como uma criança a quem se repete o que é aceitável pensar e o que deve ser repudiado.

Isto não é exclusivo de um título, mas há casos paradigmáticos. Em órgãos como o Observador, por exemplo, a diversidade de colunistas convive com uma curiosa homogeneidade moral: a mesma indignação selectiva, os mesmos alarmes democráticos, as mesmas personagens elevadas a ameaça existencial. A pluralidade é formal; o enquadramento é fechado.
O mesmo acontecimento, conforme o protagonista, muda de natureza. Uns merecem compreensão psicológica, contexto histórico e leitura benévola. Outros recebem rótulos, suspeições e alarmismo. Os factos até podem ser os mesmos — a narrativa nunca é.
Esta prática tem consequências graves. A confiança é a moeda da democracia. Quando os cidadãos percebem que estão a ser educados em vez de informados, afastam-se. Primeiro com cepticismo, depois com cinismo, finalmente com desprezo. E esse vazio é rapidamente ocupado por quem promete “dizer a verdade” — ainda que o faça de forma grosseira ou simplista.

Os defensores deste jornalismo militante respondem, com ar doutoral, que “a objectividade é um mito”. É uma meia-verdade usada como escudo. Nenhum jornalista é neutro, mas isso não dispensa a honestidade intelectual, a proporcionalidade, a dúvida metódica e a boa-fé. O problema não é a ausência de neutralidade — é a ausência de escrúpulos.
Perdeu-se, acima de tudo, a humildade. Uma imprensa saudável interroga-se a si própria. A actual recompensa a certeza, a pressa e o teatro moral. As correcções são discretas, a nuance é suspeita, a dissidência interna é punida. Quem sai do guião arrisca o rótulo, o silêncio ou o exílio profissional.

O ciclo fecha-se de forma perfeita: o público recompensa indignação, os media entregam indignação, os políticos aprendem a representar para as câmaras em vez de governar. A política transforma-se numa sucessão de reacções encenadas para consumo mediático.
E, no entanto, o público vê. Nota a cobertura selectiva. Nota as histórias que desaparecem quando se tornam incómodas. Nota a diferença de tom, de adjectivação, de severidade. Cada truque narrativo corrói mais um pouco a credibilidade. E a credibilidade, uma vez perdida, raramente regressa.
Uma imprensa livre é indispensável à democracia. Uma imprensa que confunde activismo com escrutínio é apenas mais um actor político — sem votos, mas com megafone.
A solução não está numa fantasia de neutralidade absoluta. Está num regresso à decência profissional: separar notícia de opinião, tratar adversários como cidadãos e não como hereges, e recordar que o papel do jornalismo não é ganhar batalhas morais, mas iluminar a realidade — mesmo quando ela contraria as convicções da redacção.

Agulhadas finais:
Quando todos os jornais parecem moralmente de acordo, desconfie: não é consenso, é conformismo.
Uma imprensa que escolhe inimigos em vez de factos acaba sempre a fabricar monstros — e a precisar deles.
O maior perigo para a democracia não é o eleitor que vota “mal”; é o jornalista que acha que deve votar por ele.

“Baste a quem basta o que lhe basta” ou "o mínimo elevado a virtude"

Fernando Pessoa escreveu-o em Mensagem, no poema "O das Quinas", o verso severo: “Baste a quem basta o que lhe basta.

É um aviso, não um elogio. Um diagnóstico de decadência moral e política: quando o mínimo passa a bastar, o máximo deixa de ser exigido e o País encolhe.
É exactamente aqui que estamos. Uma parte influente da Direita Caviar e da Esquerda Rasca decidiu que, para a Presidência da República, basta não ser Ventura. Não importa quem é o candidato, o que pensa, o que fez, o que fará. Basta-lhe não ser o outro. Não deveria bastar.
A campanha em torno de António José Seguro foi reduzida a isto: um exercício negativo, um anti-programa, um busto da República para pôr em Belém. Não se vota num homem real, com passado político, escolhas, responsabilidades; vota-se numa abstracção piedosa chamada “democracia”, “humanismo”, “decência”. É o vazio apresentado como virtude.

O artigo “Basta não ser Ventura” acerta no nervo do problema ao perguntar: o que significa votar num candidato presidencial? 
Dizem-nos que é possível votar em Seguro sem ser socialista, sem o apreciar, sem aderir ao partido que o sustenta, um voto “asséptico”, “higiénico”, sem consequências.
Mas, dizem os mesmos, não é possível votar em André Ventura sem “ingressar” no Chega, sem prestar culto à personalidade, sem assinar por baixo do estilo. Porquê? 
Porque razão o voto em Seguro é um voto “neutro”, enquanto o voto em Ventura é uma conversão ideológica?
A resposta é simples e cínica: porque convém aos oligarcas do comentariado e do jornalistado. Porque assim se bloqueia qualquer voto instrumental, qualquer voto de sinalização política, qualquer voto que queira marcar temas que só Ventura levou à campanha do caos migratório ao risco para a coesão social, do imobilismo sistémico ao perigo de uma restauração do domínio do PS.
O voto deixa de ser um instrumento do eleitor e passa a ser um teste moral imposto pelos mediadores do regime.

Histeria selectiva, memória curta
Os mesmos que hoje anunciam o apocalipse democrático se Ventura vencer, nunca se mostraram especialmente perturbados com o que o PS - e José Sócrates - fizeram efectivamente ao regime entre 2005 e 2011. A subversão, o endividamento, a captura institucional, o desprezo pelas regras: tudo isso passou. O escândalo, agora, são cartazes. A comoção, agora, é imaginária.
Esta histeria anti-fascista não protege a democracia: empobrece-a. Dispensa o escrutínio, desvaloriza o debate, sacraliza um candidato e demoniza o outro. O País é infantilizado; o eleitor, tratado como suspeito.

O precedente que assusta — e que se normaliza
Quando a lógica é “salvar a democracia suspendendo a democracia”, o fim aproxima-se rapidamente. No Reino Unido, o governo trabalhista já ensaiou a supressão de eleições locais onde o partido de Nigel Farage pode vencer. Eis a última estação da campanha virtuosa: cancelar eleições para defender eleições.
Quem acha isto exagero devia ler melhor os sinais. A pedagogia do medo prepara sempre a legitimação do interdito.

o mínimo que não basta
“Baste a quem basta o que lhe basta.” Pessoa escreveu-o como epitáfio de uma vontade cansada. Não como programa político. Eleger um Presidente porque não é outro é aceitar o mínimo como critério supremo. É desistir de perguntar quem é, o que pensa, o que representa. É transformar Belém num altar de boas intenções vagas.
A democracia não se defende com bustos. Defende-se com escolhas reais, com escrutínio duro, com eleitores livres — inclusive livres para votar sem pedir licença moral aos oligarcas do dia.
Se isto é demasiado para a Direita Caviar e para a Esquerda Rasca, o problema não é do eleitor. É do regime que se habituou a viver do mínimo — e a chamar-lhe virtude.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

a lição de Gramsci: A direita ajoelhada e o medo de existir

Há textos 
https://observador.pt/opiniao/a-submissao-da-direita-e-a-hegemonia-cultural-da-esquerda/ que não pedem resposta; pedem confirmação. O ensaio de Jérémy Silvares Jerónimo sobre a submissão da direita portuguesa e a hegemonia cultural da esquerda é um desses casos. Não por ser excessivo, mas por ser rigoroso. Não por exagerar, mas por nomear aquilo que muitos preferem continuar a fingir que não vêem: a direita portuguesa, nas suas versões moderada e institucional, não perdeu eleições — perdeu a coragem de existir fora do guião moral imposto pela esquerda.
Convém começar pelo óbvio, raramente dito com frontalidade. As figuras de direita têm todo o direito de não apoiar André Ventura. Podem discordar do seu estilo, das suas propostas, da sua linguagem, da sua estratégia. Podem criticar o Chega, apontar fragilidades programáticas, lacunas ideológicas ou insuficiências de quadros. Nada disso está em causa. O problema começa noutro ponto — mais fundo, mais grave e mais revelador.
A questão não é não apoiar Ventura. A questão é: por que razão sentiram tantos a necessidade de apoiar publicamente José Seguro? E, mais ainda, por que razão essa escolha foi exibida com um fervor quase litúrgico, como se se tratasse de um acto de purificação moral?
Aqui entra o primeiro traço da submissão: o medo. O medo ancestral, herdado e cultivado, de ser rotulado. O medo do epíteto fácil — “fascista”, “nazi”, “reaccionário”, “populista”. O medo de ser colocado fora do círculo dos “aceitáveis”. Não se trata de cálculo político; trata-se de reflexo condicionado. O chamado “circo antifascista” não funciona porque convence — funciona porque intimida.

Este mecanismo não é novo, nem português. É uma técnica política testada, afinada e reciclada ao longo do século XX. A acusação de fascismo foi usada sistematicamente para silenciar adversários, desviar atenções e impedir convergências à direita. Não para defender a democracia, mas para preservar hegemonias. A esquerda aprendeu cedo que não precisava ganhar o debate — bastava interditá-lo moralmente.
E foi aqui que a direita falhou de forma estrutural. Não perdeu a batalha das ideias por inferioridade intelectual; perdeu-a por deserção. Desde o pós-guerra — e em Portugal desde 1974 — a direita decidiu concentrar-se na gestão, na economia, na técnica, no “funcionamento do sistema”, abandonando à esquerda tudo o resto: a cultura, a educação, o vocabulário moral, o imaginário colectivo.
Intelectuais como Mathieu Bock-Côté têm insistido neste ponto com clareza implacável: a direita governou mercados enquanto a esquerda formava consciências. Uma cuidou de índices; a outra moldou almas. O resultado está à vista: quem controla o léxico controla o juízo moral; quem controla o juízo moral decide quem é legítimo e quem é indecente.
A ironia suprema — e talvez a mais trágica — é que esta direita ajoelhada acredita sinceramente que está a defender a democracia quando se submete. Não percebe que, ao aceitar a gramática moral da esquerda, já perdeu antes de começar. Não percebe que, ao alinhar no discurso da “estabilidade” contra o “extremismo”, apenas reforça a narrativa de que qualquer alternativa fora do centrão é patológica por definição.


É aqui que a lição de Gramsci se torna incontornável — e embaraçosa para a direita. O poder político é sempre precedido pelo poder cultural. Quem define o senso comum, os valores aceitáveis e os limites do discurso acaba, mais cedo ou mais tarde, por definir também os resultados eleitorais. A esquerda aprendeu essa lição. A direita, não.
O caso português é exemplar. A esquerda dita os temas, os tons e os interditos. Decide o que é virtude e o que é pecado cívico. E a direita, em vez de contestar esse monopólio moral, apressa-se a provar que também ela é “do bem”. O apoio público a um candidato socialista não foi um gesto estratégico; foi um gesto de submissão simbólica. Uma genuflexão preventiva.
Resta, então, a pergunta final, aquela que nunca obtém resposta honesta: 
quando falam de “estabilidade”, de que estabilidade falam? 
Da estabilidade do país real ou da estabilidade do sistema que se protege a si próprio? Da estabilidade das famílias, dos jovens, dos trabalhadores, ou da estabilidade das redes partidárias, dos aparelhos, dos comentadores e dos profissionais da política?
Enquanto esta pergunta não puder ser feita sem insulto, a hegemonia cultural da esquerda permanecerá intacta. E enquanto a direita continuar a pedir licença moral para existir, continuará condenada a perder — mesmo quando vence.

Agulhadas finais
— A direita portuguesa não é derrotada nas urnas: é derrotada no espelho.
— Quem aceita a gramática moral do adversário já assinou a sua rendição.
— O antifascismo ritual não protege a democracia — protege o sistema que vive dela.

Porque não racismo? Porque não xenofobia?

O único restaurante israelita existente em Lisboa fechou. Ameaças, insultos, graffitis… levaram os seus proprietários a fechar a porta. 


No pouco espaço mediático dedicado ao assunto fala-se de anti-sionismo e anti-semitismo para explicar o sucedido. Porque não racismo? Porque não xenofobia? Porque se falarmos de racismo o ónus recai sobre o racista e não sobre aquele que o sofre. Já quando dizemos anti-sionista o problema está no sionista e não tanto naquele que se lhe opõe. Um dia a poeira assentará e tudo isto parecerá que nunca aconteceu. Sobretudo aqueles que agora gritam Free Palestine olharão para outro lado como se nunca tivessem alinhado nestas campanhas. ( Helena Matos )


Regicídio. Começámos mal!

Em 1 de fevereiro de 1908 aconteceu o assassinato do Rei Dom Carlos I de Portugal e seu herdeiro Dom Luís Filipe. Perpetrado por Alfredo Luís da Costa e Manuel Buíça, dois ativistas republicanos e integrantes da Carbonária Portuguesa. O trágico evento aconteceu quando a Família Real estava retornando a Lisboa do Paço Ducal de Vila Viçosa, no Alentejo, onde foram caçar durante o inverno. O Rei Dom Carlos I e Dom Luís Filipe foram atingidos por tiros na carruagem aberta onde também se encontravam a Rainha Dona Amélia e o então Infante Dom Manuel. Enquanto o rei morreu imediatamente, seu herdeiro foi mortalmente ferido, vindo a falecer cerca de vinte minutos depois. Por sua vez, Dona Amélia saiu milagrosamente ilesa, pois tentou defender com um buquê de flores o Infante Dom Manuel que acabaria atingido no braço, mas conseguiria sobreviver. Após todo o caos que se instalou no local, a carruagem real entrou no Arsenal da Marinha que se encontrava nas proximidades. Mas já era tarde demais, Dom Carlos I morreu imediatamente após ser atingido no pescoço. Se a lei da ascensão automática ao trono tivesse sido prevista na lei, o Príncipe Luís Filipe teria tido um dos reinados mais curtos de Portugal, pois, após a morte de seu pai, ele ainda viveu durante vinte minutos.


sábado, 31 de janeiro de 2026

Da luta existencial ao manual de boas maneiras

Quando o argumento morre, sobra a etiqueta. 
E quando o medo manda, o regime pede “boa educação”.

Durante anos venderam-nos a novela apocalíptica: a “democracia” estava a cair, o “regime” tremia, a História regressava de botas cardadas. André Ventura era tudo — fascista, nazi, racista, antidemocrata — o bingo completo do pânico moral. Era suposto o povo entrar em modo de pavor permanente, com a imprensa a tocar sirenes e o comentariado a fazer de bombeiro-pirómano.

Nada pegou como queriam. E, quando a chantagem começou a perder gás, o guião mudou: já não é Hitler — é um malcriado. Já não é ameaça ao Estado de Direito — é ameaça ao bom-tom. A tragédia ideológica virou queixume de salão: Ventura não tem “gravitas”, não tem “maneiras”, não tem “perfil”. Em suma: pode deixar o país “mal na fotografia” lá fora.
E eis a solução milagrosa do regime: ~
António José Seguro, o “bem-educado”. Manso, previsível, polido, cordato. Um candidato que não incomoda, não agita, não ameaça o conforto institucional de ninguém. O homem certo para tranquilizar a tribo dos instalados e para embalar a consciência dos que confundem civilidade com virtude política.
Repare-se no truque: reduzir a escolha presidencial a um concurso de etiqueta. Como se a nação estivesse a eleger um mestre-de-cerimónias para jantares diplomáticos — e não um Presidente. Como se o país precisasse de um candidato “fofinho” para a fotografia do protocolo, em vez de um juízo político sobre rumo, poder e responsabilidade.

É aqui que a operação fica obscena: esta súbita cruzada pelas “boas maneiras” aparece precisamente quando se consolida um candidato alternativo junto dos deixados para trás — os que o sistema despreza, mas de quem precisa para fingir que representa “o povo”. E então o regime, impotente para rebater ideias, recorre ao insulto social em modo educadinho: “baixa escolaridade”, “equivocados”, “deploráveis”, “gente sem maneiras”. A mesma condescendência de sempre, agora perfumada com colónia institucional.

O mais cómico — e ao mesmo tempo o mais revelador — é ver os revolucionários de ontem e os activistas de hoje, herdeiros de uma tradição que sempre desprezou a “civilidade burguesa”, fingirem uma súbita paixão pelo decoro. Ontem a rua era “legítima”; hoje o problema é o tom. Ontem era a luta; hoje é a etiqueta. O antifascismo virou manual de boas maneiras para consumo de elites.
Convém dizer o óbvio: não vamos escolher um simpático. Vamos fazer uma escolha política. E o candidato que “não grita” continua a ser socialista. O “bem-educado” continua a representar uma máquina, uma cultura e uma rede — a mesma velha engenharia de poder que vive do regime e para o regime, e que agora convoca a direita domesticada para um abraço temporário e interesseiro.
A frase “é bem-educado” não é elogio político: é senha de reconhecimento. É o carimbo do sistema. É a forma polida de dizer: este é dos nossos, não estraga a festa.

Agulhadas finais
– Quando o argumento morre, o regime refugia-se no decoro: a etiqueta é o último reduto de quem já não tem razão.
– A “boa educação” virou arma política: não para elevar o debate, mas para domesticar o voto.
– Quando todos os bem-educados se juntam numa unanimidade tão civilizada, é porque alguém saiu do guião — e isso mete medo. ```

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Ventura: um teste psicológico, mais do que político

Quando um sistema inteiro entra em pânico por causa de um homem, fingir que ele é secundário é mentira consciente

Há políticos que dividem opiniões. E há políticos que desorganizam sistemas.
André Ventura pertence claramente à segunda categoria. E é precisamente por isso que quase ninguém consegue falar dele com seriedade. A esmagadora maioria dos que dizem “saber quem Ventura é” não sabe coisa nenhuma. Limita-se a projectar nele as suas pulsões — entusiasmo ou repulsa — e a chamar a isso análise política.
Não é. É psicologia barata embrulhada em retórica cívica.

O que se pode fazer com honestidade intelectual não é dissecar a “pessoa”, nem as suas intenções íntimas, nem a sua vida privada. Isso é território de tablóide, café e comentador militante. O que se pode fazer é observar padrões públicos repetidos, ao longo do tempo, sob pressão e sem ela, em debate, em conflito, em vitória e em derrota — e perceber o que esses padrões revelam sobre o fenómeno político.

E o fenómeno é este: Ventura é o único actor político deste ciclo que obriga o sistema inteiro a reagir.
Ele não responde à agenda. Ele impõe-a.
Tudo o resto — candidatos, comentadores, editoriais, manifestos de “salvação da democracia”, apelos à moderação e súbitos acessos de virtude republicana — surge depois, como reflexo condicionado. Ventura é a causa. Os outros são a resposta. Fingir o contrário é uma encenação pobre.

A reacção que provoca diz tudo. Raramente se discute o que ele propõe. Discute-se o que ele “é”. Em vez de argumentos, rótulos. Em vez de discordância, patologização. Em vez de confronto político, alarmismo moral.
Não se diz “está errado”. Diz-se “é perigoso”.
Isto não é debate democrático. É mecanismo defensivo. Serve para proteger um ecossistema confortável, habituado à alternância sem ruptura, à mudança cosmética vendida como progresso e à ausência total de fricção real. Uma classe política e mediática que vive bem dentro da moldura e entra em pânico quando alguém a desloca um centímetro.
O mais revelador é que esta reacção vem sempre travestida de superioridade ética. Mas não há ali ética nenhuma. Há autopreservação. Há medo de perder o controlo do discurso, das regras implícitas, do consenso artificial que permite governar sem pensar demasiado.
Convém sublinhar — antes que os devotos do antifascismo automático entrem em convulsão — que isto não santifica Ventura. Não o torna estadista, nem garante competência governativa, nem absolve excessos, contradições ou oportunismos. Identifica algo muito mais incómodo para o sistema: Ventura funciona como detonador de posicionamento.

Num país treinado para confundir estabilidade com virtude, alguém que introduz conflito real não é tratado como concorrente. É tratado como ameaça existencial. E ameaças existenciais não se enfrentam com ideias. Tentam-se neutralizar, isolar, deslegitimar.
É por isso que esta eleição — especialmente na segunda volta — é sobre Ventura, quer se queira quer não.
A figura que lhe faz frente poderia chamar-se outra coisa qualquer. O seu papel manter-se-ia intacto: oferecer uma saída emocionalmente confortável, uma promessa de anestesia política, um regresso ao ruído branco institucional onde nada muda de facto, mas tudo parece muito responsável.
Ventura faz o contrário. Obriga a escolher tensão em vez de conforto. Conflito em vez de consenso encenado. Verdade incómoda em vez de linguagem higienizada.
Quem vota em Ventura prefere disrupção à anestesia. Quem vota contra Ventura, muitas vezes, não escolhe o outro por convicção — escolhe-o para não ter de pensar no que Ventura obriga a enfrentar.

Por isso não há debate sério. Por isso os media aceitam, sem protesto, a recusa de discutir ideias. Por isso a moral substitui o argumento. 
Esta eleição não mede programas. Mede a capacidade colectiva de suportar fricção.
É um teste psicológico, não político.
E quando um sistema inteiro se organiza em função de um homem, fingir que ele é secundário já não é ingenuidade. É má-fé.

Notas
1. Fenómeno vs. pessoa: este texto analisa padrões públicos e reacções sistémicas; não pretende inferir intenções íntimas nem vida privada.
2. Fricção: uso aqui “fricção” como o choque que obriga actores e instituições a explicitarem posições, interesses e limites — algo raro na alternância cosmética.


conferir e xomentar