sexta-feira, 3 de julho de 2026

o dia em que a velha direita percebeu que já não manda sozinha ...na direita!

Jorge Fernandes [Investigador no Ramón y Cajal no Conselho Superior de Investigação Científica, Madrid .
https://observador.pt/opiniao/uma-enorme-vitoria-de-andre-ventura/ ] tem razão no essencial: o episódio do Código Laboral marcou um antes e um depois na relação entre o PPD/PSD e o CHEGA. Onde talvez eu me afaste ligeiramente da sua leitura é na natureza dessa vitória. Não foi apenas uma vitória parlamentar de André Ventura, nem apenas uma demonstração de força negocial. Foi, acima de tudo, uma revelação política: o CHEGA deixou de se comportar como simples partido de protesto e apresentou-se como aquilo que, na verdade, já vinha sendo — a expressão portuguesa da Nova Direita.

Durante muito tempo, a direita instalada habituou-se a tratar o CHEGA como um instrumento útil, embora desagradável. Serviria para pressionar o PS, para assustar a esquerda, para engrossar maiorias ocasionais, para votar aquilo que fosse conveniente ao Governo, e depois regressaria obedientemente ao seu lugar no canto da sala, com a etiqueta pronta: populista, radical, inconveniente, mas parlamentarmente aproveitável.

O problema é que André Ventura percebeu uma coisa que muitos no PPD/PSD ainda não perceberam: quem tem 60 deputados não está na Assembleia da República para fazer de figurante. E quem representa mais de um milhão e quatrocentos mil votos não tem obrigação política, moral ou estratégica de se ajoelhar diante de uma direita antiga, cansada, liberal na economia, tímida na cultura, assustada na imigração e dependente de agências de comunicação para fabricar frases ocas.

A ambiguidade estratégica de Luís Montenegro — ora com o PS, ora com o CHEGA, conforme a conveniência do dia — podia talvez funcionar enquanto o CHEGA aceitasse o papel de força auxiliar. O episódio do Código Laboral mostrou que esse tempo acabou. Ventura recusou ser transformado em bengala parlamentar de uma reforma que, na sua leitura, falhava precisamente onde uma direita popular não pode falhar: no trabalho, na família, na segurança económica e na dignidade de quem vive do salário.

E aqui está a novidade que muitos comentadores ainda fingem não ver. O CHEGA não se limitou a votar contra uma proposta do Governo. Fez algo mais profundo: recusou a redução da direita portuguesa ao liberalismo económico de gabinete. Recusou a ideia de que ser de direita significa necessariamente aceitar qualquer reforma laboral em nome da competitividade, da flexibilidade e da bela música tecnocrática que geralmente termina sempre no mesmo sítio: mais insegurança para quem trabalha e mais conforto para quem manda.

É aqui que a leitura de José Costa-Deitado [ Universidade de Santiago de Compostela Prof Emérito FCT/ UNL Nova SBE - https://cdeitado.blogspot.com/2026/06/benedikt-kaiser-uma-aula-sobre.html  sobre a Nova Direita se torna especialmente pertinente. A Nova Direita europeia — francesa, alemã, italiana — não é apenas uma direita mais barulhenta, nem uma direita com bandeiras maiores, nem uma direita com slogans mais duros sobre imigração. É, no seu melhor, uma tentativa de reconstruir a direita em torno de três eixos que a velha direita abandonou: soberania, identidade e justiça social.

Benedikt Kaiser [Deutscher Autor und Publizist der Neuen Rechten. é importante precisamente por isso. A sua reflexão sobre metapolítica, hegemonia e patriotismo solidário aponta para uma direita que compreende que a batalha política não se ganha apenas no Parlamento, nem apenas nas eleições, nem apenas nos soundbites televisivos. Ganha-se antes no vocabulário, nas ideias, nas instituições, na cultura, nas redes sociais, nos temas que se impõem e nos conceitos que deixam de pertencer automaticamente à esquerda.

Durante décadas, a esquerda apropriou-se da palavra “social”. A direita liberal deixou. Pior: colaborou. Aceitou que falar de salários, trabalho, protecção familiar, abandono das periferias, insegurança económica ou dignidade dos pequenos fosse matéria da esquerda. A velha direita ficou com a gestão, os défices, os impostos, as empresas, os mercados e os congressos onde se anunciam “novos ciclos” sem que nada realmente comece.

Ora, a Nova Direita começa precisamente quando a direita deixa de pedir licença para falar do social. E é isso que o CHEGA, com todas as suas imperfeições, excessos, simplificações e teatralidades, parece ter compreendido melhor do que o PPD/PSD. A direita que quer disputar o povo não pode apresentar-se apenas como contabilista da ordem liberal. Tem de falar de pertença, de segurança, de trabalho, de fronteiras, de família, de soberania, de comunidade e de justiça.

Não se trata de converter o CHEGA num partido operário clássico, nem de fingir que André Ventura é uma versão portuguesa de Benedikt Kaiser. Seria absurdo. Kaiser pensa em termos metapolíticos, doutrinários, culturais e estratégicos; Ventura age no terreno parlamentar, mediático e eleitoral. Kaiser escreve para formar quadros e construir hegemonia; Ventura fala para ocupar o espaço público e transformar ressentimento social em força política. Mas a convergência é clara: ambos perceberam que a direita do século XXI não pode limitar-se a administrar o neoliberalismo com bandeiras nacionais à porta.

O episódio do Código Laboral foi, por isso, mais do que um chumbo. Foi uma declaração de independência. Ventura disse ao PPD/PSD que a sua maioria, quando existe, não é propriedade de Montenegro. Disse à direita liberal que a palavra “reforma” não é sagrada. Disse ao país que o CHEGA não aceita ser útil apenas quando vota a favor. E disse ao seu próprio eleitorado que não está no Parlamento para servir de muleta a uma direita que gosta muito de invocar o povo em campanha, mas que rapidamente o esquece quando chegam as propostas redigidas no idioma dos consultores.

Claro que isto incomoda. Incomoda o PPD/PSD, porque lhe retira o monopólio simbólico da direita. Incomoda a Iniciativa Liberal, porque mostra que há uma direita para além da fantasia do mercado perfeito. Incomoda o PS, porque percebe que a oposição social já não lhe pertence por direito hereditário. E incomoda o comentariado, porque o obriga a rever as suas gavetas mentais: afinal, o CHEGA não cabe apenas no rótulo preguiçoso de “extrema-direita”. Há ali outra coisa. Uma coisa mais incómoda: uma direita popular, nacional, social e culturalmente contra-hegemónica.

Jorge Fernandes viu bem a vitória de Ventura. Mas talvez a vitória seja ainda maior do que parece. Ventura não ganhou apenas uma votação. Ganhou centralidade. Ganhou autonomia. Ganhou o direito de dizer ao PPD/PSD: vocês já não decidem sozinhos o que é a direita em Portugal.

E isto muda tudo.

A velha direita portuguesa sempre viveu convencida de que havia apenas duas hipóteses: ou a direita respeitável, isto é, ela própria; ou a direita irresponsável, isto é, todos os que não aceitassem a sua tutela. O CHEGA veio baralhar esta geometria. Não quer apenas sentar-se à mesa. Quer mudar a mesa. Quer mudar a ementa. Quer mudar a linguagem do jantar. E, pior ainda para os donos antigos da casa, trouxe convidados que nunca tinham sido admitidos na sala principal.

Pode discutir-se se o fará bem ou mal. Pode criticar-se Ventura, e deve criticar-se quando for necessário. Pode reconhecer-se que há no CHEGA impulsos contraditórios, improvisações, tentações demagógicas e excessos de comunicação. Mas o essencial é outro: a direita portuguesa entrou numa fase pós-PPD. E o PPD/PSD ainda não percebeu que já não está perante uma dissidência; está perante uma concorrência histórica.

O Código Laboral foi apenas o episódio. A recomposição da direita é o acontecimento.

A vitória de André Ventura não foi ter chumbado uma reforma. Foi ter obrigado toda a gente a perceber que a Nova Direita portuguesa já não pede autorização para existir.


Agulhada final 
A velha direita ainda pensa que o CHEGA é uma indisciplina parlamentar. O problema dela é complexo: continua a confundir o nascimento de uma Nova Direita com uma birra de bancada. 
O episódio do Código Laboral não foi só uma vitória táctica de Ventura; foi o momento em que o CHEGA se apresentou como Nova Direita portuguesa, social, nacional e não apenas liberal-conservadora. Como base factual, usei os dados oficiais da XVII Legislatura, onde o CHEGA surge com 60 deputados e 1.437.881 votos; a notícia do chumbo do pacote laboral em 19 de Junho de 2026; a justificação de Ventura sobre os “erros” da proposta para quem trabalha; e a matriz Kaiseriana da metapolítica, hegemonia e “patriotismo solidário”

quarta-feira, 1 de julho de 2026

o enorme equívoco do PPD/PSD

Há dias em que a política deixa de ser gestão de expediente e passa a ser revelação. O chumbo do pacote laboral do Governo foi um desses dias. Jorge Fernandes [
https://observador.pt/opiniao/uma-enorme-vitoria-de-andre-ventura/ ]tem razão quando vê nesse episódio uma enorme vitória de André Ventura. Mas talvez a vitória seja ainda maior do que parece. Não foi apenas uma vitória parlamentar. Não foi apenas uma humilhação infligida ao PPD/PSD em pleno hemiciclo. Foi, sobretudo, a demonstração de que o CHEGA já não aceita ser tratado como reserva táctica da maioria, bengala ocasional do Governo ou simples instrumento de chantagem sobre o PS.
A ambiguidade estratégica de Luís Montenegro — primeiro para ser eleito - "não é não!" ao CHEGA - depois para navegar entre acordos pontuais com o PS e entendimentos ocasionais com o CHEGA — atingiu ali o seu limite. Durante demasiado tempo, o PPD/PSD imaginou que podia governar à direita quando precisava de votos e regressar ao centro quando precisava de alegada respeitabilidade mediática. Queria os votos do CHEGA sem pagar o preço político de reconhecer o CHEGA como parceiro. Queria a maioria sociológica de direita sem admitir a maioria política de direita. Queria usar André Ventura como porta dos fundos e, ao mesmo tempo, continuar a jantar à mesa do centro imobilista com o PS.
Ventura percebeu o jogo. E, mais importante ainda, percebeu que o jogo deixara de lhe interessar.

É aqui que Jorge Fernandes acerta em cheio: o episódio do Código Laboral marca um antes e um depois na relação entre o PPD/PSD e o CHEGA. A bancada do CHEGA, surpreendida em parte pela própria decisão, acabou por encenar involuntariamente a dimensão do golpe. Aqueles segundos de hesitação parlamentar foram, paradoxalmente, a melhor imagem do momento: o partido deixou de ser apenas soma de deputados e passou a ser instrumento de uma estratégia centralizada. Pode gostar-se ou não do método. Mas ninguém sério poderá dizer que não houve método.
A partir daí, é difícil imaginar que a liderança social-democrata volte a confiar tranquilamente em André Ventura para aprovar um Orçamento do Estado. Mas aqui começa a minha pequena discordância com Jorge Fernandes: também é difícil imaginar que André Ventura e o CHEGA voltem a confiar em Luís Montenegro e, sobretudo, no negociador Hugo Soares, depois de verem o PPD/PSD correr, na semana seguinte, para o PS a propósito da Prestação Social Única.

A rapidez com que o acordo com os socialistas se fez mostra que a famosa “centralidade” do PPD/PSD tem uma tradução simples: quando a direita incomoda, chama-se o PS. Quando o CHEGA exige contrapartidas, descobre-se o sentido de Estado socialista. Quando há risco de ruptura à direita, regressa-se ao Bloco Central, essa velha mobília política portuguesa, desenhada por Mário Soares, que muda de sala mas nunca sai de casa.
Por isso, a vitória de Ventura não está apenas em ter chumbado a Reforma Laboral. Está em ter obrigado o PPD/PSD a mostrar a sua verdadeira preferência estratégica. Entre uma negociação dura com o CHEGA e um acordo confortável com o PS, Montenegro escolheu o PS. Não por acidente. Por natureza política.
E é precisamente aqui que o assunto deixa de ser uma questão de táctica parlamentar e passa a ser uma questão de recomposição da direita portuguesa.
O CHEGA não está apenas a disputar votos ao PPD/PSD. Está a disputar a redefinição, quiçá, a reformulação da direita. É isto que muito jornalistado e comentariado ainda não percebeu, ou finge não perceber. O CHEGA não é somente um partido de protesto, nem apenas um veículo da indignação popular, nem apenas uma força anti-sistema alimentada pela irritação contra a corrupção, a imigração descontrolada, a insegurança ou a degradação dos serviços públicos. Tudo isso existe. Tudo isso conta. Mas já não chega para explicar o fenómeno.
O CHEGA é, cada vez mais, a expressão portuguesa da Nova Direita europeia.

E a Nova Direita europeia não é apenas uma direita mais zangada, mais ruidosa ou mais desagradável para as boas almas do comentariado. É uma direita que quer substituir a velha direita liberal, gestionária, economicista e complexada. Uma direita que percebe que a política não se resume ao défice, ao Excel, às agências de rating e às frases ocas de um consultor de comunicação. Uma Direita que entende que sem povo, sem fronteiras, sem identidade, sem segurança e sem questão social, não há nação governável — há apenas administração do declínio.
É aqui que Benedikt Kaiser se torna útil para compreender o que se passa. A Nova Direita não quer apenas ganhar eleições. Quer disputar hegemonia. Quer alterar a linguagem. Quer reconstruir o vínculo entre povo, nação e protecção social. Quer romper com a direita que fala de soberania em discursos patrióticos, mas aceita a dissolução da soberania pela globalização económica, pela imigração de substituição salarial, pelo capitalismo financeiro e pela fragmentação comunitária.
Durante décadas, a Direita submissa e moderada portuguesa abandonou a Questão Social à Esquerda. Ficou com os empresários, comentadores liberais, gestores de carreira, advogados de negócios, eurocratas de ocasião e os moralistas de redacção. Deixou trabalhadores, reformados, periferias, subúrbios urbanos, pequenos funcionários, polícias, militares, pequenos comerciantes e classes médias empobrecidas entregues ao ressentimento ou ao silêncio.
O CHEGA percebeu que esse silêncio podia ser politicamente organizado.

Por isso, o chumbo do "pacote laboral" não deve ser lido apenas como manobra oportunista. É também uma declaração ideológica: o CHEGA não quer ficar preso ao papel de muleta da Direita Liberal. Ventura percebeu que, para ultrapassar o PPD/PSD, tem de impedir que o partido de Montenegro se apresente como único representante da mudança. E percebeu outra coisa ainda mais importante:
- numa direita em recomposição, quem abandona a questão social perde o povo real.
Claro que há riscos. E aqui convém não transformar a inteligência táctica em catecismo. Uma política feita de golpes sucessivos pode criar desconfiança. Uma estratégia excessivamente centrada no chefe pode fragilizar o partido. Uma direita que queira ser poder não pode viver apenas da surpresa, do plenário inflamado e da humilhação do adversário. Tem de formar quadros, construir doutrina, preparar governação, criar uma direita-mosaico: partido, intelectuais, imprensa alternativa, associações, autarcas, técnicos, juventude, cultura e pensamento.
Mas esses riscos não anulam o facto essencial: Ventura percebeu antes de Montenegro que o sistema partidário mudou.

Portugal já não vive no velho bipartidarismo de alternância mansa entre PS e PPD/PSD. Vive num sistema tripartido, centrífugo, instável, onde a marca dos 30 por cento pode bastar para ficar em primeiro lugar. E se assim é, a distância entre o CHEGA e a vitória deixou de ser uma fantasia de militantes exaltados. Passou a ser uma hipótese política concreta.
Essa hipótese depende agora de uma pergunta simples:
quantos eleitores deram ao PPD/PSD uma última oportunidade e ficaram convencidos, depois deste episódio, de que Montenegro desperdiçou uma ocasião histórica para mudar o país à direita?
O PPD/PSD de Montenegro e Soares julga que se salvou ao negociar com o PS. Talvez se tenha apenas denunciado. Julga talvez que isolou o CHEGA. Talvez tenha apenas confirmado a tese de Ventura: a de que o PPD/PSD pertence ao mesmo centro imobilista que há décadas administra Portugal em regime de alternância sem alternativa.

A vitória do CHEGA foi obrigar Luís Montenegro a escolher (terá sido Hugo Soares?). E  Soares (terá sido Montenegro?) escolheu. Escolheu o PS.
O resto é apenas o barulho habitual dos que ainda não perceberam que a direita portuguesa deixou de caber dentro do PPD/PSD.
A Nova Direita não está à porta. Já entrou. E, como quase sempre acontece nestas coisas, os donos da casa foram os últimos a reparar.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Benedikt Kaiser: uma aula sobre metapolítica, hegemonia e patriotismo solidário

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Benedikt Kaiser não deve ser lido como simples agitador político, nem como autor de programa eleitoral. É antes um publicista, estratego ideológico e teórico da organização cultural da direita. O seu interesse está precisamente aí: Kaiser não pensa a direita apenas como partido, nem apenas como reacção indignada contra a esquerda. Pensa-a como projecto de longa duração, assente em livros, revistas, editoras, militantes, quadros, linguagem, formação, associações, círculos culturais e, só depois, tradução eleitoral.
A pergunta de fundo é simples: 
como pode uma direita deixar de ser apenas oposição indignada e tornar-se força dirigente?
É aqui que entram Gramsci, a metapolítica, a questão social e a chamada Mosaik-Rechte, ou direita-mosaico.
1. Antes do poder político vem o poder cultural
Kaiser parte de uma intuição gramsciana: quem domina uma sociedade não domina apenas por leis, governos ou polícias. Domina também porque conseguiu fazer passar certas ideias por naturais, modernas, inevitáveis ou moralmente superiores. É isso que se chama hegemonia.
Em Der Hegemonie entgegen, e na sua versão francesa Vers l’Hégémonie, Kaiser trabalha precisamente esta relação entre Gramsci, metapolítica e Nova Direita. A ideia central é clara: a direita perde quando acredita que basta ganhar eleições. A esquerda ganhou durante décadas porque ocupou escolas, universidades, linguagem pública, cultura mediática, moral social e senso comum.
Para Kaiser, a política eleitoral é apenas a parte visível do combate. A parte decisiva acontece antes: nos livros, nos conceitos, nos jornais, nos blogues, nos intelectuais, nas redes, nas editoras, nos espaços de formação e no modo como certas palavras passam a ser usadas.
Quem define o que é “extremismo”, “democracia”, “direitos”, “exclusão”, “solidariedade”, “ódio”, “progresso” ou “reacção” já ganhou metade da batalha.
2. Metapolítica não é propaganda simples
A metapolítica, em Kaiser, não é apenas propaganda partidária sofisticada. É a tentativa de preparar o terreno mental e moral em que depois a política se move.
A propaganda diz: “votem em nós”. A metapolítica diz: “pensem o mundo com as nossas categorias”.
Esta diferença é essencial. Um partido quer votos. Um projecto metapolítico quer formar uma visão do mundo. Um partido vive de campanhas. Um projecto metapolítico vive de continuidade. Um partido pode ganhar uma eleição e perder a sociedade. Um projecto metapolítico procura ganhar a sociedade para depois tornar a vitória eleitoral menos acidental.
A batalha principal não é apenas pelo governo; é pela definição do que uma sociedade considera normal.
3. A direita não pode abandonar a questão social
Este é talvez o ponto mais interessante de Kaiser para o debate português. Em Solidarischer Patriotismus — Die soziale Frage von rechts, Kaiser procura responder à chamada questão social a partir da direita.
Isto significa que rejeita uma direita puramente liberal, economicista, patronal ou apenas fiscalista. Para ele, uma direita que fale apenas de impostos, mercado e crescimento deixa a classe trabalhadora, os pequenos funcionários, os reformados, os precários e as periferias sociais entregues à esquerda — ou ao ressentimento sem doutrina.
O raciocínio é aproximadamente este: não há verdadeira comunidade nacional se o povo real for abandonado à precariedade, à desindustrialização, à imigração desregulada, ao capitalismo global e à destruição dos vínculos sociais.
Daqui nasce a expressão patriotismo solidário. Não é socialismo internacionalista. Não é liberalismo individualista. Não é conservadorismo de salão. É uma tentativa de dizer que a solidariedade deve existir, mas deve ter uma moldura nacional, cultural e comunitária.
Em linguagem mais simples: Kaiser tenta construir uma direita que fale simultaneamente de nação, trabalho, protecção social, fronteiras, identidade e justiça económica.
4. O adversário não é apenas a esquerda: é também o liberalismo global
Kaiser não dirige a sua crítica apenas à esquerda clássica. Grande parte da sua crítica dirige-se ao neoliberalismo, à globalização económica, à fragmentação comunitária, ao capitalismo financeiro e à dissolução dos vínculos sociais.
Isto separa-o da direita liberal comum. A direita liberal diz muitas vezes: menos Estado, mais mercado. Kaiser responderia que, se o mercado dissolve a comunidade, destrói a família, precariza o trabalho, favorece a imigração de substituição salarial e transforma tudo em mercadoria, então o mercado também pode ser inimigo da direita.
A direita não pode defender a nação no plano cultural e aceitar a dissolução da nação no plano económico.
É por isso que Kaiser interessa a sectores da direita pós-liberal, soberanista, nacional-conservadora ou identitária. Ele percebe que a globalização não é apenas económica. É também cultural, demográfica e antropológica.
5. A direita-mosaico
Em Die Partei und ihr Vorfeld, Kaiser desenvolve a ideia de uma direita organizada como mosaico. O partido não deve estar sozinho. À volta do partido deve existir um ecossistema.
Esse ecossistema pode incluir revistas, editoras, jornais, blogues, canais digitais, associações, fundações, intelectuais, movimentos de juventude, influenciadores, núcleos locais, círculos de formação e quadros técnicos.
O partido entra no Parlamento. O campo pré-político prepara ideias. Os intelectuais dão coerência. Os activistas criam energia. Os meios alternativos quebram o monopólio narrativo. As editoras dão profundidade. As redes dão difusão.
É isto a direita-mosaico: não uma máquina única, mas várias peças com funções diferentes.
6. Aprender com a esquerda
Um traço curioso de Kaiser é que ele observa a esquerda com atenção. Não apenas para a atacar, mas para aprender com ela.
A esquerda compreendeu durante décadas a importância da cultura, da escola, da universidade, do teatro, da canção, do jornalismo, do sindicato, da rua, da linguagem e da moral pública. Kaiser parece dizer à direita: deixem de se rir da esquerda; estudem-na. Ela conquistou posições porque trabalhou durante décadas fora dos Parlamentos.
Daí o interesse pela ideia de frente cultural, pela formação de quadros e pela construção de hegemonia. É uma espécie de gramscismo de direita: usar métodos de leitura cultural e disputa de hegemonia que nasceram na esquerda, mas colocá-los ao serviço de uma visão nacional-conservadora, identitária e social.
7. A crise como oportunidade
Outro tema recorrente em Kaiser é a convergência das crises. A tese geral é que as crises modernas não aparecem isoladas. Há crise económica, crise migratória, crise demográfica, crise cultural, crise de representação, crise educativa, crise energética, crise da família, crise do Estado social e crise da soberania.
Para Kaiser, estas crises não são apenas problemas administrativos. São sintomas de esgotamento civilizacional.
A direita só cresce quando consegue transformar mal-estar disperso em interpretação coerente.
As pessoas sentem que algo está errado. Mas sentir não basta. É preciso dar nome, explicação e direcção política a esse mal-estar. É aí que entra o trabalho metapolítico.
8. O ponto forte de Kaiser
O ponto forte de Kaiser é perceber que uma direita sem doutrina se torna apenas uma máquina de slogans.
Pode ganhar votos, mas não forma elites. Pode protestar, mas não governa a cultura. Pode ocupar lugares, mas não muda o senso comum. Pode ter deputados, mas não tem escola.
A sua grande contribuição é esta: a direita precisa de espessura intelectual, continuidade organizativa e consciência social.
Não basta dizer “imigração”, “corrupção”, “segurança”, “pátria” ou “anti-wokismo”. É preciso ligar tudo isso numa visão do mundo.
9. O ponto fraco de Kaiser
O risco de Kaiser está no mesmo lugar da sua força. Ao pensar tudo em termos de hegemonia, corre o risco de transformar a política numa guerra total de ocupação cultural.
A democracia liberal vive de pluralismo, alternância e conflito limitado. A lógica hegemónica, seja de esquerda ou de direita, pode facilmente deslizar para a vontade de substituir uma ortodoxia por outra.
Além disso, a tentativa de ligar “social” e “nacional” é poderosa, mas perigosa: pode defender trabalhadores nacionais esquecidos, mas também pode cair numa visão fechada, orgânica e excessivamente identitária da comunidade política.
Dito de outro modo: Kaiser é útil para compreender a reorganização estratégica da direita europeia; mas deve ser lido com atenção crítica, não como catecismo.
as quatro camadas
Primeira: a camada cultural — ganhar conceitos, linguagem e senso comum.
Segunda: a camada social — reconquistar trabalhadores, precários, classes médias baixas e periferias abandonadas.
Terceira: a camada nacional — ligar protecção social, soberania, identidade e fronteiras.
Quarta: a camada organizativa — construir uma direita-mosaico, onde partido, intelectuais, imprensa, movimentos e editoras trabalham em funções diferentes.
a fórmula final: 
uma direita que queira governar de forma duradoura não pode limitar-se a ganhar eleições. Tem de formar quadros, disputar a cultura, recuperar a questão social, romper com o liberalismo globalista e construir uma rede orgânica entre partido, povo e pensamento.
Ou, numa frase mais curta e mais ao gosto do ReVisões:
Benedikt Kaiser ensina à direita que não há vitória política duradoura sem retaguarda cultural, sem povo social e sem paciência histórica.

Nota bibliográfica
Entre as obras mais relevantes para esta leitura contam-se Der Hegemonie entgegen, Vers l’Hégémonie, Sol idarischer Patriotismus, Die Partei und ihr Vorfeld, Blick nach links, Querfront e Die Konvergenz der Krisen.

sábado, 27 de junho de 2026

Benedikt Kaiser e André Ventura: a montante das ideias e a jusante da política

Metapolítica, soberania e a recomposição da direita europeia

O problema de grande parte do comentariado português é continuar a tentar explicar fenómenos novos com manuais velhos, categorias gastas e reflexos pavlovianos. Onde existem deslocações sociais profundas, vê apenas “populismo”. Onde há recomposição ideológica, vê apenas “extrema-direita”. Onde se manifesta uma crise séria de representação, vê apenas ressentimento, manipulação ou ignorância eleitoral.
Ora, talvez a questão seja simultaneamente mais simples e mais incómoda: uma parte crescente dos eleitores europeus deixou de acreditar que a direita existe apenas para gerir mercados, baixar impostos e repetir o catecismo económico do liberalismo, tal como deixou de aceitar que a esquerda exista apenas para distribuir direitos sem deveres, identidades sem pertença e solidariedades sem reciprocidade.
É neste contexto que se torna intelectualmente interessante aproximar Benedikt Kaiser, autor alemão associado à chamada Nova Direita e ao pensamento metapolítico, de André Ventura e do CHEGA. A comparação deve ser feita com prudência. Não se trata de apresentar Ventura como discípulo português de Kaiser, nem de transformar o CHEGA numa tradução partidária directa das suas teses. Trata-se, antes, de perceber a circulação das ideias, a transformação dos vocabulários políticos e o modo como certas intuições doutrinárias passam do plano cultural para o terreno eleitoral.

Há comparações que servem apenas para colar rótulos. Esta, se for feita com seriedade, serve para compreender uma deslocação mais ampla no espaço da direita europeia.
Kaiser pertence ao universo das ideias, da metapolítica e da disputa cultural a montante da política institucional. 
Ventura pertence ao universo da acção política directa, da mobilização eleitoral, da intervenção parlamentar e da disputa imediata pelo poder. Um trabalha sobre as condições culturais da hegemonia; o outro trabalha sobre a correlação de forças dentro do sistema político. Um formula conceitos; o outro transforma conflitos em linguagem pública, palavra de ordem e combate parlamentar.
A distinção é decisiva. Kaiser é, antes de mais, um arquitecto de ideias. Ventura é, antes de mais, um actor político.

O primeiro ponto de convergência está na crítica ao neoliberalismo globalizado. Tanto Kaiser como Ventura identificam nesse modelo um factor de erosão da soberania, de fragilização das economias nacionais e de desagregação comunitária. Ambos rejeitam a ideia de que o mercado deva ser o árbitro supremo da vida social. A economia, nesta perspectiva, não pode ser concebida como uma máquina abstracta, indiferente à nação, à cultura, ao território, à memória histórica e à coesão social.
Mas a coincidência do diagnóstico não implica identidade de fundamentos. A crítica de Kaiser é essencialmente teórica. Move-se no terreno da metapolítica, dialoga com leituras de Gramsci, com a crítica do desenraizamento económico, com autores como Polanyi e com tradições intelectuais ligadas à Revolução Conservadora alemã. O que está em causa, para Kaiser, é a crítica sistémica ao capitalismo financeiro, à globalização desenraizada e à submissão das comunidades nacionais a uma ordem económica que dissolve fronteiras, pertenças e solidariedades.
A crítica de André Ventura é mais pragmática e mais situada. Nasce menos de uma construção doutrinária sistemática e mais da percepção política de uma fragilidade portuguesa concreta: dependência externa, perda de controlo sobre sectores estratégicos, empobrecimento relativo, pressão migratória, desigualdade no acesso aos apoios públicos, degradação dos serviços do Estado e sensação de abandono das classes médias e populares nacionais.
Kaiser pensa o problema a partir de uma matriz metapolítica. Ventura transforma-o em proposta, conflito e mobilização política.

O segundo ponto de aproximação encontra-se nas políticas sociais orientadas para a comunidade nacional. Ambos partem da ideia de que a solidariedade não é um mecanismo abstracto, ilimitado e indiferenciado. A solidariedade pressupõe pertença. Pressupõe reciprocidade. Pressupõe uma comunidade histórica, cultural e política capaz de reconhecer quem contribui, quem pertence, quem partilha deveres e quem pode legitimamente reclamar direitos.
É neste ponto que surge uma das noções mais interessantes de Kaiser: o chamado “patriotismo solidário”. A expressão procura conciliar identidade nacional, coesão social, protecção económica e solidariedade interna. Representa uma tentativa de ultrapassar a velha divisão entre uma direita culturalmente conservadora mas economicamente liberal, e uma esquerda socialmente intervencionista mas culturalmente universalista.

O “patriotismo solidário” pretende unir direita cultural e sensibilidade social, recusando simultaneamente o cosmopolitismo progressista e o neoliberalismo sem raízes. A sua ideia central é clara: não há verdadeira solidariedade sem comunidade; e não há comunidade sem continuidade cultural, memória histórica e fronteiras políticas reconhecíveis.

André Ventura não utiliza, em regra, esta terminologia. Mas a estrutura conceptual aparece em várias das suas propostas e formulações políticas: prioridade nacional nas prestações sociais, defesa dos “portugueses primeiro”, crítica à distribuição universalista de recursos públicos, exigência de maior controlo da imigração, protecção de sectores estratégicos e recusa de uma economia entregue apenas às forças impessoais do mercado global.
A diferença está no registo. Kaiser formula isto como doutrina. Ventura formula isto como combate político.

O terceiro ponto de convergência está na ideia de economia enraizada. Ambos valorizam a soberania energética, a relocalização produtiva, a protecção de infra-estruturas críticas e a necessidade de impedir que sectores decisivos da vida nacional fiquem dependentes de centros de decisão externos. Em Kaiser, esta questão inscreve-se numa crítica mais ampla ao capitalismo financeiro e ao desenraizamento económico. Em Ventura, surge sobretudo como crítica à fragilidade portuguesa, à dependência externa e à incapacidade do regime para defender interesses nacionais elementares.

Também aqui a diferença é reveladora. Kaiser quer desmontar a lógica cultural e económica do globalismo. Ventura quer disputar, dentro das instituições existentes, políticas concretas que devolvam margem de decisão ao Estado nacional.
Há ainda uma dimensão estratégica que merece atenção: a possibilidade de alianças temáticas transversais, por vezes designadas, no vocabulário alemão, por Querfront. A ideia não é necessariamente a criação de uma frente política orgânica entre direita e esquerda, mas a constatação de que certas críticas ao sistema liberal-globalista podem atravessar fronteiras ideológicas convencionais. Defesa da soberania, crítica ao capital financeiro, protecção do trabalho nacional, combate ao desenraizamento e oposição à imigração massiva podem surgir em espaços políticos distintos, ainda que por razões diferentes.

Kaiser pensa esta transversalidade como instrumento metapolítico. Ventura pratica-a, quando lhe convém, como táctica política. Pode aproximar-se de reivindicações sociais que a direita tradicional abandonou, sem por isso deixar de manter uma gramática política nacional, securitária e identitária.
É isso que confunde a direita liberal clássica e irrita a esquerda. A direita liberal gostaria que Ventura falasse apenas de autoridade, segurança, impostos e criminalidade. A esquerda gostaria que qualquer discurso social vindo da direita fosse imediatamente declarado suspeito, ilegítimo ou “populista”. O problema é que a política real tem o desagradável hábito de escapar às gavetas ideológicas dos comentadores.

Por isso, a aproximação entre Kaiser e Ventura deve ser feita com cuidado. Existem paralelos reais, mas as equivalências são perigosas. Kaiser é um intelectual metapolítico, preocupado com a construção de uma hegemonia cultural alternativa. Ventura é um político institucional, preocupado com resultados eleitorais, disputa parlamentar, visibilidade mediática e capacidade de influência no sistema político português.

K
aiser trabalha a montante. Ventura trabalha a jusante.
Kaiser pergunta: que ideias devem preparar o futuro?
Ventura pergunta: que conflitos podem alterar o presente?
Kaiser quer transformar o clima cultural. Ventura quer transformar a correlação de forças políticas.
Esta distinção impede duas leituras simplistas. 
A primeira seria afirmar que Ventura apenas aplica Kaiser em Portugal. Não parece correcto. Ventura move-se num contexto político, mediático e social muito específico, marcado pela crise do regime português, pela degradação dos serviços públicos, pela pressão migratória, pela insegurança, pela desconfiança nas instituições e pelo esgotamento da alternância entre PS e PSD. O seu discurso nasce desse terreno concreto.
A segunda leitura simplista seria negar qualquer parentesco intelectual ou temático. Também não parece sério. O CHEGA, mesmo sem se apresentar como partido doutrinário no sentido clássico, participa claramente de uma tendência europeia mais vasta: a reconstrução de uma direita nacional, socialmente sensível, culturalmente identitária e crítica do neoliberalismo globalizado.

É nessa tendência que a comparação com Kaiser ganha interesse. Não para reduzir Ventura a Kaiser, nem para transformar Kaiser em ideólogo secreto do CHEGA, mas para perceber que há uma deslocação em curso no espaço da direita europeia. A velha direita liberal, economicista, urbana, tecnocrática e obediente à linguagem dos mercados já não esgota o campo da direita. Está a nascer, ou a regressar, uma direita que quer falar de nação, fronteiras, trabalho, pertença, soberania e solidariedade.
A expressão “patriotismo solidário” ajuda a compreender essa deslocação. Ela mostra que a questão social deixou de pertencer exclusivamente à esquerda e que a questão nacional deixou de poder ser tratada como sobrevivência folclórica. Numa época de globalização desregulada, migrações massivas, desindustrialização, precariedade, dissolução cultural e fragilidade do Estado social, a pergunta decisiva volta a ser a mais antiga de todas: quem somos nós, e que deveres temos uns para com os outros?

Kaiser responde a partir da metapolítica. Ventura responde a partir da política.
Um escreve para preparar um horizonte. O outro fala para disputar o poder.
A convergência existe. A equivalência, não.
E talvez seja precisamente isso que torna a comparação interessante. Porque mostra que o CHEGA não é apenas um fenómeno de protesto, como repetem preguiçosamente os seus adversários. É também a expressão portuguesa, tumultuosa, imperfeita e eleitoralmente eficaz, de uma reorganização ideológica mais vasta da direita europeia.
Pode gostar-se ou não. Pode temer-se ou saudar-se. Mas convém percebê-la antes de a insultar.

O problema do comentariado português é que prefere quase sempre o insulto à análise. Chama “populismo” àquilo que não compreende, “extrema-direita” àquilo que não quer discutir e “ressentimento” àquilo que não sabe explicar. Mas uma sociedade política não muda apenas porque alguém grita mais alto. Muda quando antigas categorias deixam de organizar a experiência colectiva e quando novas perguntas começam a impor-se.
A pergunta que hoje atravessa a direita europeia é esta: pode haver soberania sem protecção económica? Pode haver solidariedade sem comunidade? Pode haver Estado social sem fronteiras? Pode haver democracia nacional se as grandes decisões forem transferidas para mercados, tribunais, burocracias internacionais, organizações supranacionais e elites mediáticas sem mandato popular?

Kaiser procura responder a estas perguntas no plano das ideias.
Ventura responde-lhes no plano do conflito político português.
Entre ambos haverá, portanto, menos uma relação de mestre e discípulo do que uma afinidade de época. Um dá linguagem teórica a uma inquietação europeia. O outro dá tradução política portuguesa a parte dessa inquietação.
E isso, para quem ainda pensa, é muito mais interessante do que mais uma etiqueta pronta a colar.

Afinal isto verificou-se?


 

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A letargia como método de fazer politica!

O problema do actual PPD/PSD já não é ter renegado a ideologia dos seus fundadores. Esse seria, pelo menos, um problema doutrinário. O problema é mais pobre e, por isso mesmo, mais grave: o partido parece ser cada vez menos uma organização de ideias, propostas e visão nacional, e cada vez mais uma máquina de ocupação do poder.

José Manuel Fernandes tocou no ponto essencial: o drama do PSD não está em ter abandonado esta ou aquela formulação ideológica originária; está em ter perdido densidade política, capacidade reformista e sentido de missão. Um partido que nasceu para disputar o rumo do país não pode reduzir-se à gestão prudente do aparelho, à conservação dos lugares e à esperança de que o adversário tropece antes de chegar à meta.

Miguel Morgado foi ainda mais cirúrgico ao escrever que «o actual PPD ficou dependente de divisas ocas, e às vezes apalermadas, cunhadas por agências de comunicação». A frase é dura, mas justa. O slogan substituiu a doutrina; o soundbite substituiu a proposta; a pose substituiu o pensamento. E quando um partido confunde comunicação com política, acaba fatalmente por confundir prudência com cobardia e centralidade com vazio.

André Azevedo Alves tem, por isso, razão quando vê na letargia do PSD uma ameaça não apenas para o partido, mas para o próprio país. Um PSD sem imaginação política, sem identidade reconhecível e sem coragem reformista não lidera coisa nenhuma. Administra intervalos. Gere calendários. Aguarda que o CHEGA se engane. E, quando o CHEGA não se engana, acusa-o simplesmente de existir.

É aqui que a recente discussão sobre negociações se torna reveladora. Negociar não é proclamar vencedores e vencidos no fim de cada reunião, como se a política fosse uma espécie de campeonato de frases para telejornal. Negociar é ouvir, argumentar, ceder no acessório para preservar o essencial e construir um acordo satisfatório entre partes que podem ter interesses diferentes, mas não têm de ser inimigas. Quem transforma cada negociação numa humilhação ou numa capitulação revela não firmeza, mas infantilidade política.

Entretanto, Portugal continua atrasado. Teve fundos europeus, turismo, imigração em massa, conjunturas favoráveis e promessas sucessivas de modernização. Mas não convergiu. O país foi ficando relativamente mais pobre, mais dependente e mais resignado.

A letargia do PSD é, neste sentido, parte da letargia nacional: muita gestão, pouca reforma; muita comunicação, pouca política; muita pose, pouca ideia. O drama do PSD não está em negociar com o CHEGA. Está em já não saber negociar consigo próprio: com a sua história, com a sua direita, com o seu país e com a realidade.


Referências: André Azevedo Alves, «A  letargia do PSD e o atraso do país»; Miguel Morgado, «Uma derrota e um impasse»; José Manuel Fernandes, «O chumbo de Ventura animou mas não salvou o Congresso do PSD».

segunda-feira, 22 de junho de 2026

A propósito do chumbo da Lei Laboral

Óh tótós: "numa negociação não há vencedores nem vencidos"
A frase é conhecida, repetida em cursos de gestão, em manuais de diplomacia e em conversas de café com pretensões de sabedoria: numa negociação séria não há vencedores nem vencidos. Há partes que entram com interesses diferentes, ouvem, argumentam, cedem no acessório e tentam salvar o essencial. Quando tudo corre bem, ninguém sai com tudo; mas todos saem com alguma coisa.
Ora, se isto é assim, talvez valha a pena fazer a pergunta que quase ninguém quer fazer:
Se PPD/PSD e CHEGA estiveram realmente a negociar, como justificam ambos que não tenha havido acordo?

O PPD/PSD diz que não podia ceder na descida da idade da reforma, porque as pensões são sagradas, a Segurança Social não é um brinquedo eleitoral e uma reforma laboral não podia transformar-se numa feira de promessas previdênciais. É um argumento respeitável. O problema é que, sendo respeitável, não chega. Porque quem governa sem maioria absoluta não pode descobrir, na véspera da votação, que precisa de uma maioria parlamentar. Muito menos pode confundir negociação com pedido de obediência. O PPD/PSD queria aprovar uma reforma sem ter construído antes uma maioria política, social e comunicacional para a defender. Chamou negociação ao que parece ter sido uma tentativa tardia de evitar o desastre.
O CHEGA, por seu lado, afirma que não foi eleito para ser muleta gratuita do Governo. Dirá que, se o Governo queria votos, tinha de aceitar contrapartidas substantivas. E dirá ainda que a baixa da idade da reforma, sobretudo para carreiras contributivas longas, não era um capricho, mas uma condição política ligada à vida concreta de muitos trabalhadores. Também aqui há um argumento atendível. O problema é que uma negociação não é uma proclamação de comício. É a arte de distinguir o que se exige, o que se obtém, o que se adia e o que se transforma em compromisso verificável.
Daqui resulta a comédia. O PPD/PSD acusa o CHEGA de irresponsabilidade. O CHEGA acusa o PPD/PSD de arrogância. Ambos podem ter alguma razão. Mas ambos revelam a mesma incapacidade: negociar sem transformar o processo numa encenação destinada ao consumo das respectivas claques.

O actual PPD ficou dependente de divisas ocas, e às vezes apalermadas, cunhadas por agências de comunicação. (Miguel Morgado)
Miguel Morgado tem razão quando vê nesta derrota mais do que uma votação perdida: vê um impasse estratégico. Um partido que vive de divisas ocas, fabricadas por agências de comunicação, acaba por descobrir que slogans não substituem rumo. “Governar para as pessoas” serve para cartaz; não serve para aprovar reformas difíceis.

O problema com o PSD não é ter renegado a ideologia dos seus fundadores – o problema mesmo é ser cada vez menos um partido de ideias e propostas e mais um partido de simples ocupação do poder. (José Manuel Fernandes)
José Manuel Fernandes também toca no nervo quando identifica no PPD/PSD o vício do partido de ocupação do poder: muito aparelho, muita táctica, muita frase gongórica, mas pouco propósito. Uma agenda reformista não nasce de São Bento nem de uma moção de congresso inchada de palavras. Nasce de uma ideia de país, de uma pedagogia política e de uma maioria que se constrói antes do dia fatal da votação.

A questão sobre o posicionamento do PPD/PSD face à viragem do país à direita e à existência de uma maioria parlamentar tem marcado o debate político recente. (Passos Coelho)
E
 Passos Coelho, goste-se ou não dele, disse o óbvio que o actual PPD/PSD fingiu não ouvir: se o país virou à direita e se há uma maioria parlamentar à direita, então era dentro da direita parlamentar que devia ter sido tentado um acordo de legislatura, com CHEGA e IL. Difícil? Evidentemente. Impossível? Só se saberia tentando. Mas o actual PPD/PSD preferiu continuar a brincar ao centro virtuoso entre dois “extremismos”, enquanto precisava dos votos de um deles para governar.

No fim, não houve vencedores nem vencidos. Houve apenas vencidos.
O Governo perdeu a reforma. O PPD/PSD perdeu autoridade. O CHEGA perdeu a oportunidade de mostrar que sabe transformar força parlamentar em resultado concreto. A IL ficou com razão sem consequência. A esquerda celebrou uma vitória que não lhe custou nada. E o país ficou exactamente onde estava: com reformas adiadas, partidos em pose e comentadores a explicar, muito solenemente, que a culpa é sempre dos outros.

Óh tótós: negociar não é exigir que o outro assine a nossa acta. Também não é entrar na sala para sair de lá com uma manchete. Negociar é perceber o preço das coisas antes de entrar no bazar.
Desta vez, entraram todos. Mas parece que ninguém sabia o preço de nada.

domingo, 21 de junho de 2026

Primeiro foi o "não é não"

o que agora é imputado ao CHEGA pelo PPD/PSD nos anos 90 era atribuído ao CDS.

Uma comparação das "relações" do PPD/PSD com o CDS (sem PP) nos anos 90 do século XX com o CHEGA de 26 do século XXI. Tenho pena porque só os mais letrados e atentos vão perceber que a imaginação dos "sociais democratas" de então era tão curta quanto a iliteracia dos de agora. E que dizer da imprensa portuguesa dos anos 80 e 90 — sobretudo O Independente — que registou tensões frequentes entre CDS e PSD, incluindo críticas públicas quando o CDS se afastava da linha governativa do PSD e dos seus jornalistas que agora dirigem muitos dos actuais OCS's. Uma fonte mais clara, encontrada nos títulos dos jornais de 90, descreve precisamente o papel do CDS como força de oposição à direita do PSD, gerando polémicas e reacções políticas. Cada título dos jornais estava formulado de modo a reflectir exactamente o tipo de crítica que agora é idêntica à de então: "O PSD censura o CDS por votar contra ou divergir, acusando-o implicitamente de “estar com a esquerda”. 
Títulos por jornal de então começavam e todos os de agora  irão começar com o mesmo padrão: dirigentes do PSD acusam o CDS de facilitar a esquerda 
Exemplos: 
Expresso “Dirigentes do PSD acusam CDS de facilitar a esquerda em votação decisiva”
“PSD irritado com posição do CDS que ‘abre caminho ao PS’” 
Diário de Notícias "PSD critica CDS por ‘dar argumentos à esquerda’ no Parlamento”
“Dirigentes sociais‑democratas acusam CDS de convergência com o PS 
Público “PSD acusa CDS de facilitar agenda da esquerda em matéria social” 
“Direita dividida: PSD aponta ao CDS ‘proximidade ao PS’ 
O Independente “PSD ataca CDS por ‘fazer o jogo da esquerda’”
“Tempestade na direita: PSD acusa CDS de alinhamento táctico com o PS” 
🟦  varios títulos (anos 90) 
- Dirigentes do PSD acusam o CDS de facilitar a esquerda  
 - PSD critica CDS por ‘dar argumentos à esquerda’ no Parlamento  
 - Social‑democratas acusam CDS de convergência com o PS  
 - PSD alerta que posição do CDS reforça a esquerda  
 - Voto do CDS leva PSD a falar em aproximação à esquerda  
🟦 Expresso - Dirigentes do PSD acusam o CDS de facilitar a esquerda em votação decisiva  - PSD irritado com posição do CDS que ‘abre caminho ao PS’ 
🟦 Diário de Notícias - PSD critica CDS por ‘dar argumentos à esquerda’ no Parlamento  - Dirigentes sociais‑democratas acusam CDS de convergência com o PS  
🟦 Público - PSD acusa CDS de facilitar agenda da esquerda em matéria social  - Direita dividida: PSD aponta ao CDS ‘proximidade ao PS’  
🟦 O Independente - PSD ataca CDS por ‘fazer o jogo da esquerda’  - Tempestade na direita: PSD acusa CDS de alinhamento táctico com o PS

domingo, 14 de junho de 2026

O Martim Moniz, a procissão e o chão que a Igreja parece ter esquecido

opinião

Há decisões que podem ser administrativamente explicáveis, pastoralmente bem-intencionadas e simbolicamente desastrosas. A alteração do percurso da procissão do Corpo de Deus em Lisboa pertence, infelizmente, a essa categoria. O Patriarcado de Lisboa poderá ter tido a mais inocente das intenções: levar a procissão a outras zonas da cidade, alargar a presença pública da fé, incluir espaços urbanos que habitualmente não recebiam aquele testemunho religioso. Admito-o. Mas a política dos símbolos raramente se mede apenas pela intenção de quem decide. Mede-se, sobretudo, pelo modo como essa decisão é percebida por uma comunidade que já se sente, demasiadas vezes, estrangeira dentro da sua própria cidade.

Helena Matos, por exemplo, tem razão quando chama a atenção para aquilo que muitos preferem não ver: há lugares que deixaram de ser simples lugares. O Martim Moniz já não é apenas uma praça de Lisboa. Tornou-se um sinal. Um sintoma. Uma espécie de laboratório urbano onde se condensam tensões que a nossa conversa pública tem medo de nomear. Não porque Lisboa esteja transformada em Belfast ou em Paris, mas porque há já, no olhar de muitos portugueses, uma sensação crescente de estranheza. Olha-se à volta e reconhece-se cada vez menos o chão que se pisa.

E quando um povo começa a não se reconhecer no seu próprio espaço público, alguma coisa se partiu.

A procissão do Corpo de Deus não é uma caminhada turística, nem uma coreografia devocional adaptável ao calendário municipal. É uma afirmação pública de fé. E, sendo pública, passa pela cidade real, não pela cidade abstracta que existe nos comunicados, nos gabinetes e nas boas intenções. A procissão pisa chão. E quem pisa chão tem de saber que chão pisa. Por isso, que o Patriarcado de Lisboa não tenha percebido que retirar o Martim Moniz de um percurso antigo poderia ser lido como cedência, prudência excessiva, recuo simbólico ou simples desistência pastoral, é um mistério que Deus talvez entenda, mas que muitos portugueses não entendem. A Igreja, que durante séculos soube ler os sinais dos tempos, parece agora ter dificuldade em ler os sinais das ruas.

O problema não está apenas na mudança de percurso. Está na ingenuidade com que se supõe que tudo pode ser explicado como uma alteração técnica. Como se o espaço público fosse neutro. Como se Lisboa fosse a mesma em todos os seus largos, em todas as suas praças e em todas as suas ruas. Como se o Martim Moniz não carregasse hoje uma densidade social, cultural e política que nenhum comunicado consegue apagar. No ano passado, radicais de direita quiseram assar ali um porco. Este ano, a Igreja Católica escolheu outras ruas para a procissão do Corpo de Deus. Em ambos os casos, o Martim Moniz deixou de ser apenas praça e passou a ser território. Território no sentido mais antigo, mais bruto e mais inquietante da palavra: espaço disputado, marcado, simbolicamente ocupado, politicamente interpretado.

É aqui que começa o perigo. Porque quando as praças deixam de ser lugares comuns e passam a ser territórios identitários, a cidade deixa de ser plenamente cidade. Passa a ser mosaico de pertenças, de medos, de cautelas, de códigos paralelos. E uma sociedade que aceita isto sem pensar já começou a perder a sua própria unidade. Portugal tem, felizmente, uma tradição de convivência mais pacífica do que muitos países europeus. Não somos Belfast. Não somos os subúrbios incendiados de Paris. Não somos, ainda, uma sociedade tribalizada ao ponto de cada bairro exigir a sua liturgia, a sua lei e a sua prudência especial. Mas seria uma imprudência suicida concluir que, por ainda não sermos isso, nada disso nos pode acontecer. A história ensina precisamente o contrário. As fracturas começam muitas vezes por pequenas acomodações, por cedências discretas, por prudências que ninguém quer chamar medo, por adaptações que todos preferem chamar sensatez. Depois, quando se percebe que a linha foi atravessada, já deixou de haver linha.

O Martim Moniz, como Helena Matos bem percebeu, é hoje um lugar onde se deve olhar com especial atenção. Não para alimentar hostilidade contra quem ali vive, trabalha ou passa. Não para transformar imigrantes, comerciantes ou comunidades religiosas em culpados colectivos. Isso seria moralmente errado, politicamente estúpido e historicamente perigoso. Mas também não para fingir que nada mudou, que tudo é cosmopolitismo feliz, diversidade decorativa e multiculturalismo de postal.

A realidade é mais séria e por isso mesmo, exige menos propaganda e mais lucidez.

Há uma diferença essencial entre convivência e substituição simbólica do espaço comum. A convivência supõe que todos entram no mesmo espaço cívico, aceitando regras comuns, memórias comuns e símbolos comuns. A substituição começa quando determinados espaços passam a ser tratados como zonas sensíveis, zonas impróprias, zonas onde a tradição maioritária deve medir os passos, baixar a voz ou escolher outro caminho. É por isso que a decisão do Patriarcado inquieta. Não porque tenha havido, necessariamente, cobardia. Não porque se deva concluir que a Igreja cedeu a esta ou àquela pressão concreta. Mas porque a decisão se inscreve num ambiente em que demasiadas instituições já se habituaram a antecipar conflitos, contornando-os. E quem contorna sempre acaba por entregar o centro.


A Igreja Católica portuguesa deveria ser a primeira a compreender isto. A procissão não é agressão. A cruz não é provocação. A fé pública não é ocupação hostil. Uma procissão do Corpo de Deus no Martim Moniz não é uma afronta a ninguém. É, ou deveria ser, a expressão normal de uma tradição religiosa que faz parte da história de Lisboa, da história de Portugal e da própria configuração cultural da cidade. Se há quem se sinta ofendido pela simples passagem de uma procissão católica numa praça de Lisboa, então o problema não está na procissão. Está numa concepção do espaço público que já não reconhece a continuidade histórica do país em que se encontra.

Mas também convém dizer o inverso, porque a memória portuguesa obriga a isso: a defesa da identidade cristã de Portugal não pode converter-se em licença para hostilizar minorias, para humilhar comunidades ou para ressuscitar fantasmas de perseguição religiosa. E aqui o 19 de Abril de 1506 deve ser lembrado. Não como arma contra os portugueses de hoje, nem como chantagem moral contra a fé católica, mas como advertência histórica. Lisboa já conheceu o delírio das multidões, a fabricação de bodes expiatórios e a transformação da diferença religiosa em pretexto para a violência.

Nós já vimos isto. E sabemos que não acabou bem.

A lição de 1506 não é a de que Portugal deve apagar os seus símbolos cristãos para provar tolerância. Essa seria a leitura cobarde, auto-culpabilizadora e historicamente analfabeta. A lição é outra: uma comunidade política só se mantém civilizada quando consegue defender a sua identidade sem transformar o outro em inimigo absoluto; e quando consegue acolher o outro sem abdicar de si própria.

É precisamente esse equilíbrio que está hoje em risco.

A Igreja portuguesa, se quiser ser fiel à sua missão, não pode transformar a prudência pastoral em invisibilidade pública. E o Estado português, se quiser continuar a ser Estado, não pode permitir que certas zonas da capital sejam percepcionadas como culturalmente interditas à tradição histórica do país. Porque, quando uma procissão deixa de passar por uma praça por razões que todos fingem não discutir, a questão já não é apenas religiosa. É nacional. O Patriarcado talvez tenha querido apenas alargar o percurso. Talvez tenha querido incluir outras zonas da cidade. Talvez tenha querido evitar leituras políticas. Mas há ingenuidades que, em certos momentos, se tornam politicamente perigosas. E há explicações piedosas que, por mais sinceras que sejam, não chegam para sossegar quem percebe que Lisboa está a mudar mais depressa do que as suas instituições conseguem compreender.

O Martim Moniz não deve ser entregue à provocação dos radicais, nem à cobardia dos prudentes, nem à fantasia dos multiculturalistas de salão. Deve continuar a ser Lisboa. E Lisboa, para continuar a ser Lisboa, não pode ter zonas onde a sua memória passe a pedir licença.

A procissão do Corpo de Deus não precisava de desafiar ninguém. Bastava-lhe passar. Mas, nestes tempos estranhos, talvez seja precisamente isso que alguns já consideram demasiado: que Portugal continue simplesmente a passar pelas suas próprias ruas.

Notas:

[1] Helena Matos, “Nós já vimos isto e sabemos que não acabou bem”, Observador, artigo de opinião.

[2] A alteração do percurso da procissão do Corpo de Deus em Lisboa foi apresentada como forma de permitir que outras zonas da cidade recebessem a passagem da procissão.

[3] Sobre o massacre de Lisboa de 19 de Abril de 1506, ver a documentação histórica relativa à matança de cristãos-novos iniciada na zona de São Domingos, em Lisboa.


quarta-feira, 10 de junho de 2026

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São Miguel Arcanjo



“São Miguel Arcanjo. Foi sempre conhecido dos Portugueses por Anjo Custódio deste Reino, depois que o invicto Rei D. Afonso Henriques venceu com o seu patrocínio a Albaraque nos campos de Santarém; e por isso lhe erigiu copiosas Capelas, assim na Igreja de Alcáçova da dita Vila, como nos Mosteiros de Santa Cruz de Coimbra e Santa Maria de Alcobaça, onde as suas santas Imagens são veneradas, e milagrosas.” 
Jorge Cardoso, Agiológio Lusitano dos Santos e Varões ilustres em virtude do Reino de Portugal, e suas conquistas, Tomo III, p. 126. Lisboa, 1666.

é um deserto que não vimos florir

domingo, 31 de maio de 2026

Inteligência Artificial: Do “ inverno ” à “primavera”

Há ideias que parecem nascer de repente apenas porque a maioria das pessoas só repara nelas quando elas começam a incomodar. A Inteligência Artificial é uma dessas ideias. Para o público, para o jornalistado, para o comentariado e para a multidão sempre disponível para descobrir “novidades” com cinquenta ou setenta anos de atraso, a IA parece ter irrompido no mundo há meia dúzia de anos, como se tivesse caído das nuvens digitais, talvez entre uma aplicação de telemóvel e uma manchete alarmista sobre o fim do trabalho humano.
Mas não foi assim. A Inteligência Artificial não nasceu ontem. Não nasceu com o ChatGPT, nem com a IA generativa, nem com as imagens fabricadas por máquinas, nem com os textos que hoje deixam alguns escribas aflitos por descobrirem que a sua profissão afinal também podia ser parcialmente automatizada. A IA nasceu muito antes de a tecnologia ter força material para a realizar. Durante décadas, a ideia esteve à frente da máquina. O pensamento existia; faltava-lhe o músculo. A ambição era grande; o hardware era pequeno.
É por isso que, para compreender a Inteligência Artificial, é necessário começar por desfazer uma ilusão: a IA não é apenas um acontecimento tecnológico recente. É uma história longa de matemática, lógica, neurociência, engenharia, filosofia da mente e, sobretudo, limitação material. Durante muitos anos, o grande impedimento para o seu avanço não foi apenas conceptual. Foi físico. Foi electrónico. Foi computacional. Foi, em linguagem simples, falta de máquina.

1. Antes da IA: a inteligência como problema matemático
A ideia de que o pensamento humano poderia, ao menos em parte, ser representado por operações formais é anterior aos computadores modernos. A lógica matemática, a teoria da computação e os primeiros modelos formais do sistema nervoso abriram caminho para uma pergunta que parecia, à época, quase herética: será possível fazer uma máquina raciocinar?
Alan Turing foi uma figura central nesta deslocação do problema. Em 1936, ao propor a noção de máquina universal, Turing não criou apenas uma abstracção matemática; criou o fundamento teórico do computador moderno. Mais tarde, em 1950, no célebre artigo “Computing Machinery and Intelligence”, deslocou a pergunta “podem as máquinas pensar?” para um terreno mais operacional: poderá uma máquina comportar-se de tal modo que o seu desempenho linguístico se confunda com o de um ser humano?
Era o famoso “teste de Turing”. Não resolvia o problema filosófico da consciência, nem pretendia demonstrar que uma máquina possuía alma, intenção, interioridade ou vida subjectiva. Mas estabelecia uma coisa decisiva: a inteligência podia ser observada funcionalmente, isto é, pelos seus efeitos. Uma máquina que respondesse, argumentasse, traduzisse, jogasse, calculasse, aprendesse ou imitasse padrões humanos de resposta deixava de ser apenas uma máquina de cálculo. Passava a ser uma provocação filosófica.
Antes disso, em 1943, Warren McCulloch e Walter Pitts tinham apresentado um modelo lógico-matemático do neurónio artificial. A ideia era ainda rudimentar, mas decisiva: certos aspectos do funcionamento neuronal podiam ser formalizados. O cérebro, ou pelo menos algumas das suas operações elementares, podia ser pensado em termos de circuitos, estados, entradas e saídas.
Ainda mais recuadamente, Leonardo Torres y Quevedo demonstrara, em 1914, uma máquina capaz de jogar xadrez em situações simplificadas. Não era inteligência no sentido pleno. Mas era já uma forma de automatização de decisão. E essa possibilidade bastava para abrir caminho a tudo o que viria depois.
A Inteligência Artificial, portanto, não nasce de uma fantasia recente. Nasce de uma longa tradição de tentativa de matematização do pensamento. A novidade não estava em imaginar que uma máquina pudesse “raciocinar”. A novidade estava em começar a construir máquinas capazes de executar procedimentos que antes pertenciam apenas ao domínio humano.

2. Dartmouth, 1956: a fundação oficial
A Inteligência Artificial enquanto disciplina científica nasce oficialmente em 1956, no Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence, organizado por John McCarthy, Marvin Minsky, Nathaniel Rochester e Claude Shannon. Foi aí que a expressão “Artificial Intelligence” entrou formalmente no vocabulário científico.
O ponto essencial é este: em Dartmouth, a IA nasceu com uma confiança quase prometeica. Os seus fundadores acreditavam que muitos aspectos da aprendizagem, da linguagem, da criatividade e da inteligência poderiam ser descritos com precisão suficiente para serem simulados por máquinas. A formulação era ousada. Talvez excessivamente ousada. Mas era intelectualmente fecunda.
A ambição inicial era simples na forma e imensa no conteúdo: se todos os aspectos da inteligência pudessem ser descritos em termos formais, então uma máquina poderia ser programada para os reproduzir. A inteligência deixaria de ser apenas um mistério da mente e passaria a ser também um problema de representação, cálculo e execução.
É neste contexto que surgem os primeiros programas de resolução de problemas, os primeiros sistemas de jogo, os primeiros ensaios de tradução automática, os primeiros esforços em processamento de linguagem natural e a linguagem LISP, criada por John McCarthy, que se tornaria uma das linguagens clássicas da investigação em IA.
Durante as primeiras décadas, a Inteligência Artificial foi dominada por uma visão simbólica: raciocinar era manipular símbolos de acordo com regras. A máquina inteligente seria, antes de mais, uma máquina lógica. Receberia premissas, aplicaria regras, produziria conclusões. O mundo seria representado em bases de conhecimento; a inteligência consistiria em operar sobre essas representações.
O problema é que o mundo resistiu. Como geralmente acontece.

3. O primeiro entusiasmo e a primeira desilusão
A IA inicial prometia mais do que podia cumprir. A tradução automática parecia estar próxima. O xadrez parecia ser uma questão de tempo. A compreensão da linguagem parecia uma dificuldade técnica, não uma montanha filosófica. Os investigadores, muitos deles brilhantes, subestimaram a complexidade da inteligência humana e sobrestimaram a capacidade dos computadores disponíveis.
A dificuldade não estava apenas nos algoritmos. Estava também na matéria. Os computadores eram lentos, caros, volumosos e limitadíssimos em memória. A ideia de simular processos complexos de raciocínio esbarrava em máquinas que, vistas a partir do presente, parecem quase brinquedos de laboratório.
É aqui que entra um ponto muitas vezes esquecido: o grande impedimento histórico da Inteligência Artificial foi o hardware. Havia ideias, havia teorias, havia ambição científica, havia até algum excesso de optimismo. O que não havia era capacidade computacional suficiente.
Em 1971, um computador considerado de “elevada capacidade” podia trabalhar com valores de memória que hoje nos parecem ridículos. Falar em dezenas de kilobytes de memória era falar de grandeza respeitável. Para muitos sistemas, 30 K bytes de memória e 32 K bytes disponíveis para programação eram números sérios. Hoje, uma fotografia banal tirada por um telemóvel ocupa muitíssimo mais. Um documento mal formatado por um burocrata digital moderno pode pesar mais do que aquilo que então se julgava espaço computacional relevante.
Esta desproporção é essencial. A IA queria representar linguagem, raciocínio, jogos, inferência, aprendizagem, tradução e decisão. Mas estava condenada a fazê-lo dentro de gaiolas de memória minúsculas. A inteligência artificial era, nesse tempo, uma ambição de catedral construída com tijolos de casota.
Não admira, portanto, que o entusiasmo tenha dado lugar ao chamado primeiro “inverno da IA”, nos anos 70. As promessas eram grandes, os resultados eram limitados, os financiadores perderam paciência e a realidade impôs-se. A máquina ainda não estava à altura da ideia.

4. A Lei de Moore: quando a máquina começou a alcançar a ideia
A história da IA não pode ser separada da história dos semicondutores. Sem microprocessadores, sem memória, sem miniaturização, sem aumento exponencial da capacidade de cálculo, a Inteligência Artificial teria permanecido uma bela hipótese académica, respeitável em seminários e impotente no mundo real.
Em 1965, Gordon Moore observou que o número de componentes integráveis num circuito tendia a duplicar regularmente. A chamada Lei de Moore viria a ser simplificada como a ideia de que a capacidade dos microprocessadores duplicaria aproximadamente a cada dois anos, com redução relativa de custos e dimensões. Em termos práticos, ano após ano, década após década, as máquinas tornaram-se mais pequenas, mais rápidas, mais baratas e mais poderosas.
É certo que a formulação popular — “no ano seguinte têm o dobro da capacidade e metade do tamanho” — é uma simplificação. Mas é uma simplificação útil, porque transmite a essência da revolução: a computação passou a crescer a um ritmo cumulativo e quase civilizacional. O que parecia difícil hoje devido à falta de habilidade e pode ser acessível amanhã tornou-se comum. Em 1971, o microprocessador Intel 4004 tinha cerca de 2.300 transistores. Hoje já existem bilhões em processadores. A diferença não é apenas quantitativa; é civilizacional. Entre o computador limitado dos anos 70 e as infra-estruturas actuais de IA há uma mudança de escala tão profunda que quase falamos de espécies tecnológicas diferentes.
A Inteligência Artificial, portanto, não “acordou” por milagre. Foi acordada pela acumulação de capacidade computacional. A ideia esperou pela máquina. E quando a máquina começou finalmente a chegar, a IA saiu da hibernação.

5. Sistemas especialistas: o segundo entusiasmo
Nos anos 80, a IA voltou a ganhar prestígio com os chamados sistemas especialistas. A ideia era construir programas capazes de reproduzir o conhecimento de peritos humanos em domínios específicos: medicina, engenharia, diagnóstico técnico, apoio à decisão empresarial.
Estes sistemas baseavam-se em regras. Se isto, então aquilo. Se determinados sintomas, então determinada hipótese. Se determinado problema técnico, então determinada solução provável. Era uma inteligência menos ambiciosa do que a inteligência geral sonhada em Dartmouth, mas mais aplicável. Não prometia uma mente universal; prometia competência especializada.
Durante algum tempo, funcionou. Os sistemas especialistas tornaram-se uma indústria relevante. O Japão lançou, em 1982, o projecto das máquinas de quinta geração, apostando em computação lógica, processamento de linguagem e novas arquitecturas. A IA voltou a ser vista como uma fronteira estratégica.
Mas o problema regressou. Os sistemas especialistas eram rígidos, difíceis de manter, dependentes de bases de regras laboriosamente construídas, frágeis perante contextos novos e pouco capazes de aprender autonomamente. O entusiasmo voltou a exceder os resultados. Nos anos 90, chegou o segundo “inverno da IA”.
A lição era clara: programar inteligência regra a regra era possível em domínios estreitos, mas insuficiente para enfrentar a complexidade do mundo. Faltava uma máquina que não se limitasse a obedecer a regras introduzidas por humanos, mas que pudesse extrair padrões a partir de dados.

6. A viragem estatística: da regra ao padrão
A grande revolução moderna da IA não consistiu apenas em computadores mais rápidos. Consistiu também numa mudança de paradigma. A inteligência artificial deixou progressivamente de se basear sobretudo em regras explícitas e passou a apoiar-se cada vez mais em aprendizagem automática.
Em vez de dizer à máquina todas as regras, passou-se a alimentá-la com grandes volumes de dados para que ela identificasse padrões. Em vez de programar cada inferência, passou-se a treinar modelos. Em vez de uma inteligência dedutiva artesanal, surgiu uma inteligência estatística, probabilística, aproximativa, mas extraordinariamente eficaz em certos domínios.
Esta viragem foi possível por três factores conjugados: maior poder computacional, maior disponibilidade de dados e avanços matemáticos nos algoritmos. Nenhum destes elementos isoladamente bastaria. A IA moderna nasceu da convergência entre máquina, dados e modelos.
A aprendizagem profunda — deep learning — levou esta lógica mais longe. Redes neuronais artificiais com muitas camadas começaram a obter resultados impressionantes em reconhecimento de imagem, voz, tradução, classificação, previsão e, mais tarde, geração de linguagem.
O velho sonho regressava por outro caminho. A máquina já não precisava de compreender como um humano para produzir resultados que pareciam inteligentes. E aqui começa uma das grandes confusões contemporâneas: confundir desempenho com consciência, cálculo estatístico com pensamento, linguagem produzida com intenção interior.
A IA moderna não obriga a acreditar que a máquina “pensa” como nós. Obriga, isso sim, a reconhecer que muitas tarefas que julgávamos depender de pensamento humano podem ser executadas por sistemas que não possuem pensamento humano. Para muitos narcisismos profissionais, esta descoberta é desagradável. Para a civilização, é decisiva.

7. O Transformer e a explosão da IA generativa
Em 2017, o artigo “Attention Is All You Need” introduziu a arquitectura Transformer, baseada em mecanismos de atenção. Sabemos que esta última inovação é a força mais crítica na evolução dos grandes modelos de linguagem. Em muitas áreas, o Transformer abriu caminho para uma nova era da Inteligência Artificial que permite o processamento de dados muito mais rápido e também o processamento paralelo.
A partir daí, os modelos de linguagem começaram a crescer em escala, capacidade e versatilidade. Em 2020, o GPT-3, com 175 mil milhões de parâmetros, mostrou que o aumento de escala podia produzir capacidades surpreendentes: geração de texto, tradução, resposta a perguntas, resumo, programação, simulação de estilos, análise de dados e execução de tarefas a partir de instruções em linguagem natural.
A partir de 2020, entrou-se na era da IA generativa. A máquina deixou de ser vista apenas como instrumento de cálculo, classificação ou diagnóstico. Passou a produzir texto, imagem, som, código e síntese conceptual. Deixou de ser apenas uma ferramenta escondida nos bastidores da tecnologia e passou a aparecer directamente diante do cidadão comum.
É aqui que a opinião pública acordou. Como sempre, tarde e mal.
Durante décadas, a IA trabalhou em laboratórios, universidades, empresas, centros militares, bancos, hospitais, motores de busca, sistemas de recomendação e plataformas digitais. Mas só quando a máquina começou a escrever, conversar, desenhar e programar é que muitos descobriram que havia ali qualquer coisa de politicamente, culturalmente e profissionalmente explosivo.

8. A falsa surpresa contemporânea
A reacção contemporânea à IA oscila entre o entusiasmo ingénuo e o pânico teatral. Uns anunciam a salvação universal. Outros anunciam o fim da humanidade. Uns falam como vendedores de feira tecnológica. Como profetas do apocalipse e uma conta no LinkedIn. Talvez também fosse mais sensato voltar à sobriedade. A IA é de facto uma ferramenta poderosa e avançada, mas não é mágica. Trata-se de modelos matemáticos, dados, capacidades computacionais e engenharia. Ela não só entrega resultados bonitos; também tem seus erros, alucinações e preconceitos, simplificações e dependências. Pode ampliar a inteligência humana, mas também pode automatizar a mediocridade, acelerar a propaganda, multiplicar a fraude e uniformizar o pensamento.
O problema político e cultural da IA não é apenas saber se ela substituirá empregos. É saber quem a controla, com que dados é treinada, com que critérios responde, que valores incorpora, que censuras executa, que dependências cria e que poderes concentra.
A pergunta decisiva não é apenas: “A máquina pensa?” A pergunta decisiva é: “Quem pensa através da máquina?” Ou, mais exactamente: “Quem programou, treinou, filtrou, condicionou e autorizou aquilo que a máquina nos devolve como resposta?”
Numa época em que tantos pretendem regular a palavra, domesticar a opinião, classificar dissidências e transformar divergência em patologia, a IA tanto pode ser instrumento de liberdade intelectual como instrumento de administração invisível do pensamento. Não é um detalhe. É talvez o centro do problema.

9. A IA e a velha soberba das elites
Há ainda uma ironia saborosa. Durante anos, muitas elites culturais e mediáticas olharam para a automação como problema dos outros. Máquinas substituíam operários, caixas, empregados administrativos, técnicos repetitivos. Isso era apresentado como progresso inevitável. Quando a máquina começou a ameaçar escrever textos, resumir relatórios, traduzir línguas, programar, desenhar, produzir guiões, preparar aulas, analisar documentos e até imitar o tom professoral dos que vivem de explicar o mundo aos outros, instalou-se subitamente uma inquietação moral.
A automação era moderna enquanto tocava no trabalho manual. Tornou-se perigosa quando entrou no território vaidoso das profissões discursivas.
Isto diz muito sobre a nossa época. A IA não ameaça apenas tarefas. Ameaça hierarquias simbólicas. Mostra que parte daquilo que muitos julgavam ser inteligência superior era, afinal, rotina verbal, padrão retórico, recombinação de lugares-comuns e gestão de linguagem. Naturalmente, a máquina ainda não substitui o verdadeiro pensamento crítico, a experiência vivida, a prudência, o juízo moral, a cultura profunda ou a responsabilidade pessoal. Mas substitui, com facilidade crescente, a produção automática de banalidades com aparência de inteligência.
E isso explica talvez algum nervosismo.

10. A máquina chegou atrasada à ideia
A história da Inteligência Artificial é, no fundo, a história de uma ideia que esperou décadas pela sua máquina. Desde Turing, McCulloch, Pitts, Torres y Quevedo e Dartmouth, a pergunta estava lançada: poderia a inteligência ser formalizada, simulada, executada, aproximada ou imitada por sistemas artificiais?
Durante muito tempo, a resposta foi travada pela insuficiência do hardware. A inteligência artificial queria correr, mas a máquina ainda gatinhava. A lógica existia, os programas existiam, a ambição existia, mas faltavam memória, velocidade, dados e escala. O que mudou não foi apenas a teoria. Mudou a matéria. O silício acumulou poder. Os processadores multiplicaram transístores. A memória deixou de ser uma cela apertada. Os dados tornaram-se oceânicos. E os modelos aprenderam a navegar.
A IA não surgiu subitamente. Subitamente foi apenas a nossa percepção. Como tantas vezes acontece, a realidade trabalhou em silêncio durante décadas e só se tornou “novidade” quando começou a perturbar a comodidade dos distraídos.
A questão agora não é saber se a Inteligência Artificial veio para ficar. Veio. A questão é saber se ficaremos nós suficientemente inteligentes para não a transformar apenas em mais uma máquina de propaganda, censura, preguiça mental e uniformização civilizacional.
Porque o verdadeiro perigo talvez não esteja em a máquina vir a pensar como os homens. O verdadeiro perigo está em tantos homens aceitarem pensar como máquinas: sem memória, sem consciência histórica, sem responsabilidade moral e sem liberdade interior.
E, nesse caso, a tragédia não será a Inteligência Artificial tornar-se demasiado humana. Será a inteligência humana tornar-se demasiado artificial.

Notas e referências
John McCarthy, Marvin L. Minsky, Nathaniel Rochester e Claude E. Shannon, “A Proposal for the Dartmouth Summer Research Project on Artificial Intelligence”, 1955/1956.
Alan M. Turing, “Computing Machinery and Intelligence”, Mind, vol. 59, n.º 236, 1950.
Warren S. McCulloch e Walter Pitts, “A Logical Calculus of the Ideas Immanent in Nervous Activity”, Bulletin of Mathematical Biophysics, 1943.
Sobre Leonardo Torres y Quevedo e as primeiras máquinas de xadrez, veja-se a literatura histórica sobre autómatos electromecânicos e computação pré-digital.
Gordon E. Moore, “Cramming More Components onto Integrated Circuits”, Electronics, 1965; posteriormente popularizado como Lei de Moore.
Intel, documentação histórica sobre o microprocessador Intel 4004, lançado em 1971.
Sobre os “invernos da IA”, ver sínteses históricas da IBM e da literatura especializada em história da Inteligência Artificial.
Ashish Vaswani et al., “Attention Is All You Need”, 2017.
Tom B. Brown et al., “Language Models are Few-Shot Learners”, 2020.
IBM, “The History of Artificial Intelligence”; Wikipédia, “História da inteligência artificial”; Tecnoblog, “História da inteligência artificial: quem criou e como surgiu a tecnologia revolucionária”.