domingo, 14 de junho de 2026

O Martim Moniz, a procissão e o chão que a Igreja parece ter esquecido

opinião

Há decisões que podem ser administrativamente explicáveis, pastoralmente bem-intencionadas e simbolicamente desastrosas. A alteração do percurso da procissão do Corpo de Deus em Lisboa pertence, infelizmente, a essa categoria. O Patriarcado de Lisboa poderá ter tido a mais inocente das intenções: levar a procissão a outras zonas da cidade, alargar a presença pública da fé, incluir espaços urbanos que habitualmente não recebiam aquele testemunho religioso. Admito-o. Mas a política dos símbolos raramente se mede apenas pela intenção de quem decide. Mede-se, sobretudo, pelo modo como essa decisão é percebida por uma comunidade que já se sente, demasiadas vezes, estrangeira dentro da sua própria cidade.

Helena Matos, por exemplo, tem razão quando chama a atenção para aquilo que muitos preferem não ver: há lugares que deixaram de ser simples lugares. O Martim Moniz já não é apenas uma praça de Lisboa. Tornou-se um sinal. Um sintoma. Uma espécie de laboratório urbano onde se condensam tensões que a nossa conversa pública tem medo de nomear. Não porque Lisboa esteja transformada em Belfast ou em Paris, mas porque há já, no olhar de muitos portugueses, uma sensação crescente de estranheza. Olha-se à volta e reconhece-se cada vez menos o chão que se pisa.

E quando um povo começa a não se reconhecer no seu próprio espaço público, alguma coisa se partiu.

A procissão do Corpo de Deus não é uma caminhada turística, nem uma coreografia devocional adaptável ao calendário municipal. É uma afirmação pública de fé. E, sendo pública, passa pela cidade real, não pela cidade abstracta que existe nos comunicados, nos gabinetes e nas boas intenções. A procissão pisa chão. E quem pisa chão tem de saber que chão pisa. Por isso, que o Patriarcado de Lisboa não tenha percebido que retirar o Martim Moniz de um percurso antigo poderia ser lido como cedência, prudência excessiva, recuo simbólico ou simples desistência pastoral, é um mistério que Deus talvez entenda, mas que muitos portugueses não entendem. A Igreja, que durante séculos soube ler os sinais dos tempos, parece agora ter dificuldade em ler os sinais das ruas.

O problema não está apenas na mudança de percurso. Está na ingenuidade com que se supõe que tudo pode ser explicado como uma alteração técnica. Como se o espaço público fosse neutro. Como se Lisboa fosse a mesma em todos os seus largos, em todas as suas praças e em todas as suas ruas. Como se o Martim Moniz não carregasse hoje uma densidade social, cultural e política que nenhum comunicado consegue apagar. No ano passado, radicais de direita quiseram assar ali um porco. Este ano, a Igreja Católica escolheu outras ruas para a procissão do Corpo de Deus. Em ambos os casos, o Martim Moniz deixou de ser apenas praça e passou a ser território. Território no sentido mais antigo, mais bruto e mais inquietante da palavra: espaço disputado, marcado, simbolicamente ocupado, politicamente interpretado.

É aqui que começa o perigo. Porque quando as praças deixam de ser lugares comuns e passam a ser territórios identitários, a cidade deixa de ser plenamente cidade. Passa a ser mosaico de pertenças, de medos, de cautelas, de códigos paralelos. E uma sociedade que aceita isto sem pensar já começou a perder a sua própria unidade. Portugal tem, felizmente, uma tradição de convivência mais pacífica do que muitos países europeus. Não somos Belfast. Não somos os subúrbios incendiados de Paris. Não somos, ainda, uma sociedade tribalizada ao ponto de cada bairro exigir a sua liturgia, a sua lei e a sua prudência especial. Mas seria uma imprudência suicida concluir que, por ainda não sermos isso, nada disso nos pode acontecer. A história ensina precisamente o contrário. As fracturas começam muitas vezes por pequenas acomodações, por cedências discretas, por prudências que ninguém quer chamar medo, por adaptações que todos preferem chamar sensatez. Depois, quando se percebe que a linha foi atravessada, já deixou de haver linha.

O Martim Moniz, como Helena Matos bem percebeu, é hoje um lugar onde se deve olhar com especial atenção. Não para alimentar hostilidade contra quem ali vive, trabalha ou passa. Não para transformar imigrantes, comerciantes ou comunidades religiosas em culpados colectivos. Isso seria moralmente errado, politicamente estúpido e historicamente perigoso. Mas também não para fingir que nada mudou, que tudo é cosmopolitismo feliz, diversidade decorativa e multiculturalismo de postal.

A realidade é mais séria e por isso mesmo, exige menos propaganda e mais lucidez.

Há uma diferença essencial entre convivência e substituição simbólica do espaço comum. A convivência supõe que todos entram no mesmo espaço cívico, aceitando regras comuns, memórias comuns e símbolos comuns. A substituição começa quando determinados espaços passam a ser tratados como zonas sensíveis, zonas impróprias, zonas onde a tradição maioritária deve medir os passos, baixar a voz ou escolher outro caminho. É por isso que a decisão do Patriarcado inquieta. Não porque tenha havido, necessariamente, cobardia. Não porque se deva concluir que a Igreja cedeu a esta ou àquela pressão concreta. Mas porque a decisão se inscreve num ambiente em que demasiadas instituições já se habituaram a antecipar conflitos, contornando-os. E quem contorna sempre acaba por entregar o centro.


A Igreja Católica portuguesa deveria ser a primeira a compreender isto. A procissão não é agressão. A cruz não é provocação. A fé pública não é ocupação hostil. Uma procissão do Corpo de Deus no Martim Moniz não é uma afronta a ninguém. É, ou deveria ser, a expressão normal de uma tradição religiosa que faz parte da história de Lisboa, da história de Portugal e da própria configuração cultural da cidade. Se há quem se sinta ofendido pela simples passagem de uma procissão católica numa praça de Lisboa, então o problema não está na procissão. Está numa concepção do espaço público que já não reconhece a continuidade histórica do país em que se encontra.

Mas também convém dizer o inverso, porque a memória portuguesa obriga a isso: a defesa da identidade cristã de Portugal não pode converter-se em licença para hostilizar minorias, para humilhar comunidades ou para ressuscitar fantasmas de perseguição religiosa. E aqui o 19 de Abril de 1506 deve ser lembrado. Não como arma contra os portugueses de hoje, nem como chantagem moral contra a fé católica, mas como advertência histórica. Lisboa já conheceu o delírio das multidões, a fabricação de bodes expiatórios e a transformação da diferença religiosa em pretexto para a violência.

Nós já vimos isto. E sabemos que não acabou bem.

A lição de 1506 não é a de que Portugal deve apagar os seus símbolos cristãos para provar tolerância. Essa seria a leitura cobarde, auto-culpabilizadora e historicamente analfabeta. A lição é outra: uma comunidade política só se mantém civilizada quando consegue defender a sua identidade sem transformar o outro em inimigo absoluto; e quando consegue acolher o outro sem abdicar de si própria.

É precisamente esse equilíbrio que está hoje em risco.

A Igreja portuguesa, se quiser ser fiel à sua missão, não pode transformar a prudência pastoral em invisibilidade pública. E o Estado português, se quiser continuar a ser Estado, não pode permitir que certas zonas da capital sejam percepcionadas como culturalmente interditas à tradição histórica do país. Porque, quando uma procissão deixa de passar por uma praça por razões que todos fingem não discutir, a questão já não é apenas religiosa. É nacional. O Patriarcado talvez tenha querido apenas alargar o percurso. Talvez tenha querido incluir outras zonas da cidade. Talvez tenha querido evitar leituras políticas. Mas há ingenuidades que, em certos momentos, se tornam politicamente perigosas. E há explicações piedosas que, por mais sinceras que sejam, não chegam para sossegar quem percebe que Lisboa está a mudar mais depressa do que as suas instituições conseguem compreender.

O Martim Moniz não deve ser entregue à provocação dos radicais, nem à cobardia dos prudentes, nem à fantasia dos multiculturalistas de salão. Deve continuar a ser Lisboa. E Lisboa, para continuar a ser Lisboa, não pode ter zonas onde a sua memória passe a pedir licença.

A procissão do Corpo de Deus não precisava de desafiar ninguém. Bastava-lhe passar. Mas, nestes tempos estranhos, talvez seja precisamente isso que alguns já consideram demasiado: que Portugal continue simplesmente a passar pelas suas próprias ruas.

Notas:

[1] Helena Matos, “Nós já vimos isto e sabemos que não acabou bem”, Observador, artigo de opinião.

[2] A alteração do percurso da procissão do Corpo de Deus em Lisboa foi apresentada como forma de permitir que outras zonas da cidade recebessem a passagem da procissão.

[3] Sobre o massacre de Lisboa de 19 de Abril de 1506, ver a documentação histórica relativa à matança de cristãos-novos iniciada na zona de São Domingos, em Lisboa.