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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Populismo e Estratégias Políticas em Portugal e França: um Ensaio Comparativo

Dois países, duas arquitecturas institucionais, dois mercados mediáticos — e uma mesma tentação: transformar “o povo” num instrumento retórico contra “as elites”.
Introdução: quando “o povo” vira arma política
O populismo, mais do que um rótulo preguiçoso, é um método. Um estilo. Uma gramática de combate. Em vez de se organizar em torno de um programa denso (como o socialismo, o liberalismo ou o conservadorismo clássicos), organiza-se em torno de uma oposição moral simples: de um lado, “o povo”; do outro, “as elites”. Esta simplificação tem a vantagem da eficácia: reduz o custo cognitivo da política e oferece um guião emocional pronto a consumir. Não exige que o eleitor compreenda a complexidade da economia ou do Estado; basta que identifique culpados e reconheça um porta-voz.

Portugal e França oferecem um contraste instrutivo: a França possui uma tradição longa de mobilizações populistas — tanto à direita como à esquerda — e uma arquitectura institucional (semi-presidencial, com eleição presidencial em duas voltas) que favorece a personalização e a dramaturgia política. Portugal, pelo contrário, viveu décadas de estabilidade partidária relativa, com um centro político robusto e uma memória histórica (a ditadura e a transição democrática) que funcionou, durante muito tempo, como travão cultural à normalização de certos discursos. Porém, a última década alterou o cenário: erosão da confiança, escândalos, estagnação salarial, crise da habitação, sensação de impunidade e um ecossistema mediático cada vez mais orientado para o conflito e para a moralização.

Este ensaio propõe uma comparação de estratégias populistas em Portugal e França, focando: (1) a definição e tipologia do populismo, (2) os contextos institucionais que o amplificam ou atenuam, (3) as tácticas centrais — anti-elitismo, personalização, identidade, imigração, securitização, e relação com a União Europeia — e (4) as consequências para a competição democrática. 
A tese é simples: em França, o populismo tornou-se uma dimensão estrutural da competição política; em Portugal, emergiu mais tarde e permanece mais dependente de um eixo personalista, mas cresce precisamente porque o sistema e o comentário mediático tendem a negar-lhe legitimidade plena — e a negação, paradoxalmente, alimenta a narrativa populista de exclusão.
O que é o populismo: ideologia “fina”, estratégia “grossa”
Uma forma útil de tratar o populismo é encará-lo como uma “ideologia fina”: uma ideologia com poucos conteúdos próprios, capaz de se colar a outras mais “espessas”. Pode vestir-se de nacionalismo, de socialismo, de liberalismo económico ou de estatismo; o seu núcleo não é o programa, é o antagonismo moral. A política deixa de ser um conflito entre interesses legítimos e passa a ser um conflito entre virtude e corrupção. Em termos de linguagem, isto traduz-se numa insistência em expressões como “o sistema”, “a casta”, “os de sempre”, “os privilegiados”, “os vendidos”, “os globalistas”, “os burocratas”, e outras variações locais do mesmo motivo.
Este mecanismo tem três efeitos estratégicos muito concretos. Primeiro, desloca o debate do campo da política pública (compromissos, custos, trade-offs) para o campo moral (traição, vergonha, decência). Segundo, concentra o poder simbólico num porta-voz: alguém que diz “eu” como se dissesse “nós”. Terceiro, cria um terreno fértil para a política do ressentimento: a ideia de que o cidadão comum é permanentemente humilhado por um conjunto de instituições que já não o representam.
Também convém distinguir tipos de populismo. Há o populismo nacionalista (tipicamente à direita), que tende a centrar-se em fronteiras, identidade, imigração, segurança e soberania; e há o populismo socio-económico (frequentemente à esquerda), que privilegia a denúncia da desigualdade, da “financeirização” e do poder das grandes empresas. Há ainda populismos híbridos, que misturam proteccionismo social com conservadorismo cultural, ou liberalismo económico com moralismo anticorrupção. França é particularmente rica nesta pluralidade; Portugal, até há pouco, era mais pobre — e talvez por isso o populismo português tenha crescido colando-se, com maior rapidez, a um eixo de indignação moral e anticorrupção.
Contexto institucional: por que razão a França “puxa” e Portugal “amassa”
        
França: semi-presidencialismo, duas voltas e o teatro do “duelo”
  • A eleição presidencial francesa, com duas voltas, cria uma dinâmica própria: empurra os actores para a polarização e para a construção de identidades fortes. A primeira volta funciona como mercado de nichos ideológicos; a segunda volta como plebiscito. Esta estrutura favorece candidatos que consigam: (a) monopolizar um campo emocional (medo, raiva, esperança), (b) simplificar o adversário num símbolo negativo, e (c) transformar o voto num acto de identidade. É um sistema que recompensa a performance. E o populismo, sendo uma gramática de performance moral, adapta-se como uma luva.
  • Além disso, a tradição política francesa admite, com mais naturalidade do que a portuguesa, a ideia de “grandes narrativas” de soberania e de conflito civilizacional — quer na linguagem republicana clássica, quer em versões contemporâneas (secularismo militante, identidade nacional, crítica da globalização, denúncia da tecnocracia europeia). O populismo em França não surge como um acidente; surge como uma continuação agressiva de temas já presentes na cultura política
  • Portugal: parlamentarismo, proporcionalidade e a cultura do “centrão”
  • Portugal, com um sistema parlamentar e representação proporcional, tende a diluir extremos e a favorecer compromissos. Durante décadas, a competição esteve concentrada num eixo PS–PSD, com partidos mais pequenos a servir de “satélites” ou de parceiros ocasionais. A lógica era a da governabilidade e da gestão. Mesmo quando houve radicalidade (à esquerda), ela foi frequentemente enquadrada por uma cultura institucional que valorizava o acordo, a estabilidade e a linguagem tecnocrática.
  • O populismo entra, neste quadro, como um corpo estranho: exige conflito moral onde o sistema prefere “moderação”; exige dramatização onde o sistema prefere “processo”. Porém, precisamente por isso, tem um trunfo: pode apresentar-se como a voz de quem foi excluído desse consenso. Em contextos de desconfiança, o “centrão” deixa de ser estabilidade e passa a ser conluio. E a política, em vez de ser vista como gestão, passa a ser vista como cartel.
Estratégias populistas: o que fazem, como fazem, e por que funciona
1) Anti-elitismo: construir o inimigo certo
O anti-elitismo é o motor. Mas não basta dizer “as elites”. É preciso definir quais elites, em que linguagem, e com que símbolos. Em França, o inimigo pode ser a classe política parisiense, a União Europeia, as “metrópoles” contra a “França periférica”, os tecnocratas, os jornalistas, as ONG, os juízes, ou “o sistema” em bloco. O populismo francês tem uma paleta ampla, porque o país tem conflitos sociais e territoriais historicamente marcados.
Em Portugal, o anti-elitismo cresceu sobretudo em torno de três temas: (a) corrupção e impunidade, (b) privilégio e distanciamento das elites políticas, e (c) incapacidade do Estado em garantir serviços básicos (saúde, justiça, segurança, habitação). O inimigo é muitas vezes descrito como um “bloco” de interesses: partidos, comentariado, administração pública superior e redes de influência. O populismo prospera quando estas acusações encontram exemplos mediáticos — e a última década foi generosa nesse combustível.
Uma diferença central: em França, o anti-elitismo é frequentemente articulado com uma visão de soberania nacional e conflito cultural; em Portugal, é mais frequentemente articulado com uma visão moral de limpeza e punição. Isto não é uma lei, mas uma tendência. E as tendências importam, porque definem que tipo de eleitor é mais mobilizável: o eleitor identitário ou o eleitor punitivo. Em França, os dois aparecem com força; em Portugal, o punitivo foi o primeiro a ganhar massa.
2) Personalização: o líder como atalho cognitivo
O populismo tende a concentrar-se em líderes, porque o seu discurso exige uma voz que fale “pelo povo”. A França institucionaliza este mecanismo: a presidência é, por natureza, uma figura de concentração simbólica. Não é por acaso que movimentos populistas franceses — à direita e à esquerda — investem na construção de personagens políticas: figuras com estilo retórico reconhecível, capacidade de polarização e domínio mediático. O líder não é apenas o porta-voz; é a marca.
Em Portugal, a personalização cresceu num terreno diferente: o parlamentarismo não exige um “rei eleito”, mas a comunicação contemporânea favorece a mesma lógica. A televisão, as redes sociais e o comentário permanente recompensam quem cria conflito e mantém presença. O populismo, aqui, usa o líder como mecanismo de ruptura: a pessoa torna-se o símbolo de uma recusa do consenso, e a rejeição que sofre torna-se prova de que “o sistema” se defende.
Este ponto é crucial: em sociedades mediáticas, a legitimidade passa a ser produzida tanto por instituições como por visibilidade. O líder populista, quando atacado em bloco, ganha um recurso precioso: pode dizer que está a ser combatido porque ameaça interesses instalados. E a narrativa fecha-se. A crítica, se for indiscriminada, funciona como propaganda involuntária.
3) Identidade e imigração: a agenda que desloca o centro
Em França, a imigração é um tema estruturante há décadas. Está associada a debates sobre identidade nacional, secularismo, integração, segurança, terrorismo, e transformação cultural. A direita populista capitaliza estes medos e traduz-os em propostas de controlo, restrição e soberania. A esquerda populista, por seu lado, pode deslocar o foco para desigualdade, precariedade e crítica das elites económicas, mas não consegue ignorar o tema — porque o tema organiza a agenda mediática e define clivagens eleitorais.
Portugal teve, durante muito tempo, uma relação diferente com a imigração: menos massiva, menos politizada, e frequentemente enquadrada num discurso de necessidade demográfica e económica. Porém, com mudanças recentes — pressões na habitação, sensação de concorrência em serviços públicos, percepções de insegurança (reais ou amplificadas) e circulação de imagens globais — o tema ganhou centralidade. Aqui, a estratégia populista é dupla: (1) transformar casos concretos em símbolos gerais, e (2) colocar os adversários numa posição defensiva, obrigando-os a escolher entre negar o problema (parecendo cegos) ou reconhecer o problema (legitimando a agenda).
Em ambos os países, a questão identitária funciona como um acelerador: reduz a política a pertença e ameaça. É um terreno propício ao populismo porque permite uma simplificação imediata: “nós” contra “eles”. Mas importa notar: a intensidade e os enquadramentos variam. Em França, o enquadramento é civilizacional e republicano; em Portugal, tende a ser mais pragmático e securitário, ainda que se observe uma crescente importação de narrativas externas.
4) A relação com a União Europeia: soberania como instrumento variável
A França tem uma tradição de debates fortes sobre soberania. A União Europeia surge, para muitos actores populistas, como símbolo de tecnocracia distante, imposição económica e erosão de identidade política. Porém, há uma evolução estratégica: certos populismos franceses moderaram o discurso de saída ou ruptura frontal e passaram a adoptar a linguagem da “reforma por dentro”, mantendo a soberania como tema, mas evitando assustar eleitorados moderados. Isto revela uma maturidade táctica: a radicalidade máxima mobiliza uma base, mas pode bloquear o acesso ao poder.
Portugal, em contraste, manteve um consenso europeu mais estável. A adesão e os fundos europeus foram associados a modernização e pertença. Mesmo durante crises, a crítica tende a focar-se mais nos governos nacionais do que na ideia europeia em si. Por isso, o populismo português tem menos incentivo para construir a União Europeia como inimigo principal; a energia estratégica é gasta noutras frentes: corrupção, justiça, segurança, e crítica do “sistema” interno.
A consequência é interessante: em França, o populismo pode estruturar-se como projecto de soberania; em Portugal, estrutura-se mais facilmente como projecto de moralização e punição. Não é que não haja soberania em Portugal; é que ela não é, ainda, o grande combustível eleitoral comparável ao caso francês.
5) O ecossistema mediático: conflito permanente e moralização
O populismo não vive apenas de instituições; vive de media. Em França, o debate televisivo e radiofónico é historicamente combativo, e a polarização encontra espaço. Em Portugal, houve durante muito tempo um certo ritual de comentário político com ar de “moderação” — mas essa moderação era, muitas vezes, apenas uma forma elegante de delimitar quem podia ou não podia entrar no campo da legitimidade.
Quando o comentário mediático passa a funcionar como tribunal moral — definindo, com insistência, quem é “decente”, “aceitável”, “presidenciável”, “republicano”, “perigoso” — cria-se um ambiente perfeito para a narrativa populista: “não nos combatem por ideias; combatem-nos porque não nos querem lá”. Se a crítica for selectiva, incoerente, ou claramente alinhada com interesses, então a máquina populista recebe munições diárias.
Em suma: o populismo cresce com exposição, mas cresce ainda mais com exclusão ostensiva. A linha entre “crítica democrática” e “cordão sanitário moralista” é delicada; e quando se ultrapassa essa linha, o resultado costuma ser o contrário do pretendido.
Resultados eleitorais e impacto institucional: normalização versus emergência
1) França: populismo como eixo estrutural de competição
Em França, o populismo deixou de ser periferia. A direita populista conseguiu, ao longo do tempo, normalizar-se em segmentos relevantes do eleitorado, beneficiando de (a) desindustrialização e ressentimento territorial, (b) crises migratórias e securitárias, (c) colapso ou enfraquecimento de partidos tradicionais, e (d) uma cultura política que aceita confrontos ideológicos fortes. A esquerda populista, por seu lado, ocupa o espaço do protesto social, mobilizando precariedade, indignação económica e rejeição do “neoliberalismo”. O efeito combinado é um sistema em que o centro é continuamente pressionado por narrativas antagonistas.
Este contexto conduz a uma “normalização do extremo” em termos de agenda: temas outrora marginais tornam-se centrais; a linguagem endurece; e os actores tradicionais, por vezes, imitam retóricas populistas para recuperar terreno. A política passa a ser um campeonato de enquadramentos morais e identitários, com menos espaço para a linguagem da administração.
2) Portugal: populismo como ruptura e como sintoma
Em Portugal, a ascensão populista é mais recente e mais dependente de um conjunto de factores cumulativos: desgaste do bipartidarismo informal, escândalos recorrentes, sensação de que a justiça é lenta e selectiva, incapacidade de resposta do Estado em sectores-chave, e um discurso mediático frequentemente paternalista. O populismo aparece, assim, como ruptura — mas também como sintoma: uma parte do eleitorado não acredita que o sistema se corrija a si próprio.
A sua influência é dupla. Por um lado, força o sistema a falar de temas que preferia adiar (corrupção, imigração, segurança, eficiência do Estado). Por outro, altera a geometria da direita e do centro, criando dilemas de coligação, legitimidade e estratégia eleitoral. O paradoxo é que, quanto mais o sistema tenta excluir o populismo por via moral, mais o populismo reforça a sua narrativa de exclusão. É um circuito fechado que só se quebra com debate substantivo e coerência institucional — duas coisas raras num ambiente de indignação permanente.
Por que diferem Portugal e França: quatro hipóteses explicativas
1) Memória histórica e cultura política
Portugal vive com a memória de uma ditadura recente e de uma transição que ainda organiza símbolos. Isso criou, durante muito tempo, um reflexo anti-extremos. França, pelo contrário, possui uma cultura republicana combativa em que o conflito ideológico não é, por si só, sinal de risco autoritário. Resultado: certas linguagens e temas circulam com mais facilidade em França do que em Portugal.
2) Arquitectura eleitoral e incentivos à polarização
O sistema francês (presidencial em duas voltas) recompensa a polarização e a personificação. O sistema português recompensa a construção de bases parlamentares e a negociação. Isto não impede populismos em Portugal, mas condiciona a forma: favorece o crescimento em torno de uma liderança forte e de temas moralmente mobilizadores, com menor capacidade de se traduzir, de imediato, em governação.
3) Estrutura territorial e “França periférica” versus “Portugal concentrado”
A França tem clivagens territoriais profundas entre metrópoles e regiões periféricas, alimentadas por décadas de reestruturação económica. Portugal, embora tenha desigualdades regionais, é mais pequeno e mais concentrado, com uma administração mais centralizada e uma escala mediática diferente. Isso altera o modo como o ressentimento territorial se organiza e se expressa politicamente.
4) Agenda mediática e legitimação do conflito
Em França, o conflito é parte do espectáculo político institucionalizado; em Portugal, o conflito foi, durante muito tempo, tratado como “má educação” — mas, paradoxalmente, essa moralização favorece a narrativa populista de que “o sistema” exige submissão e silêncio. Quando o comentário mediático pretende definir fronteiras morais em vez de discutir políticas, ajuda a construir mártires. E o populismo adora mártires.
Final: 
Populismo não é meteorologia — é engenharia
O populismo não cai do céu como chuva; é construído. É produzido por incentivos institucionais, por falhas de representação, por crises de confiança e por ecossistemas mediáticos que transformam a política num julgamento moral contínuo. França mostra como o populismo pode tornar-se estrutura — uma dimensão permanente da competição, tanto à direita como à esquerda. Portugal mostra como o populismo pode emergir como ruptura tardia, alimentada por uma mistura explosiva de impunidade percebida, ineficácia do Estado e exclusão simbólica.
A lição comparativa é desconfortável: combater o populismo apenas com insultos morais, cordões sanitários e catecismos de “decência” é, frequentemente, o método mais rápido de o fortalecer. A alternativa não é a complacência; é a substância. É discutir políticas com rigor, aplicar regras com coerência, punir corrupção com eficácia, e aceitar que pluralismo significa coexistência de discursos desagradáveis — desde que dentro da lei. França e Portugal diferem em história e instituições, mas partilham um problema comum: quando as elites confundem legitimidade com conformidade, e debate com catequese, abrem a porta ao político que promete, simplesmente, partir a porta.

Notas finais (para reflexão): Se o populismo é um estilo, então não desaparece com proibições; desloca-se, adapta-se e recruta. 
Se é um sintoma, então não se cura com indignação; cura-se com instituições que funcionam e com uma cultura pública que substitua moralismo por responsabilidade. 
E, sobretudo, se o populismo é uma técnica, então os seus adversários deviam parar de lhe oferecer, todos os dias, o melhor argumento: a prova viva de que há um “sistema” com medo de discutir a sério..

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Populismo: O novo bicho-papão

Na sequência das eleições de Donald Trump, de Jair Bolsonaro e do Brexit, bem como o crescimento de vários partidos de direita radical na Europa, assistimos a uma crescente vaga de intelectuais e figuras públicas a anunciar o “fim da democracia liberal”, ou pelo menos a sua deterioração. O populismo tornou-se a palavra do momento. Este termo passou a ser utilizado abundantemente por cronistas e comentadores que pretendem explicar o mundo, pelos actores políticos que tencionam atacar os adversários, e mesmo pelos cidadãos “normais” em conversas sobre política com familiares e amigos. O populismo tornou-se a grande explicação do mundo.

Pessoalmente, seria a favor de uma moratória à utilização do termo “populista”. No entanto, dada a ubiquidade do termo, sinto-me na obrigação de escrever esta crónica sobre populismo e apresentar uma série de estudos cujas conclusões deveriam colocar em causa a confiança que depositamos nesse conceito como explicador de tanta coisa no mundo de hoje.

No discurso público, comentadores, políticos e cidadãos frequentemente utilizam o termo “populismo” como eufemismo para radical ou extremo. Quando querem classificar uma pessoa ou um partido como sendo de direita radical, esquerda radical, extrema-esquerda e extrema-direita dizem que este é “populista”. É menos incomodativo chamar alguém “um populista” do que “um radical”. Mas é perfeitamente possível um partido (ou uma pessoa) ter uma ideologia radical e não ser populista. Da mesma forma, um partido pode perfeitamente ser altamente populista no discurso e ter uma ideologia centrista ou mesmo não ter nenhuma ideologia coerente. O populismo é, portanto, habitualmente tratado na literatura académica como sendo uma “thin ideology” (uma ideologia de espessura muito fina) que poderá ser combinado com uma qualquer ideologia política mais substancial, da esquerda à direita. Estas ideologias mais substanciais costumam denominar-se de “hosting ideologies” (ideologias anfitriãs), porque são o prato principal que é apenas adornado pela camada fina do “populismo”. Ainda assim, a maioria dos cientistas políticos considera que o populismo é uma ideologia, composta por alguns elementos ortogonais à tradicional divisão esquerda-direita: ideias anti-elitistas, anti-pluralistas e centradas num “povo bom” amaldiçoado por elites ou minorias corruptas. Embora esta definição de populismo como “thin ideology” tenha ganho força alguns académicos consideram até que o populismo não chega a ser uma ideologia, mas apenas um estilo discursivo, um modo de falar e fazer política, ortogonal a qualquer pensamento ou posicionamento. Talvez me situe entre as duas posições, porém o mais importante é que, em ambos os casos, é possível separar o grau de populismo de um partido das suas posições substantivas.


Tudo isto pode parecer uma discussão meramente académica e semântica sem qualquer interesse prático e político para a maioria das pessoas. Mas não é. A distinção entre o que é populismo e o que é a ideologia substantiva é absolutamente essencial se queremos perceber o eleitorado, a evolução das várias famílias partidárias, e encontrar potenciais soluções para reduzir o descontentamento da população e a diminuição do peso dos extremos na vida política.

Se as pessoas escolhem determinados partidos por causa da sua dimensão populista, isto significa que não concordam com as ideias e propostas políticas substantivas avançadas por esses partidos. Se for esse o caso, uma fatia considerável do eleitorado vota em determinado partido porque se sente descontente e impotente e utiliza o seu voto num partido anti-establishment para expressar esse descontentamento. No entanto, nesta versão dos factos, o estilo “populista” é uma espécie de feitiço mágico que seduz os eleitores menos instruídos e informados. O feitiço populista poderia, assim, levar os descontentes a votar “contra o seu próprio interesses”, isto é, em partidos com objectivos ideológicos, económicos e sociais diferentes dos objectivos dos descontentes que neles votam. Desta forma, os eleitores são “enganados”: votam em partidos achando que estes poderão resolver a sua má situação ou a má situação do país, mas esse voto não se traduz na melhoria das suas vidas. Frequentemente, os partidos anti-establishment acabam por não resolver nenhum dos problemas dos descontentes.

Uma outra opção é admitir que os eleitores não são parvos. É perfeitamente possível que eleitores que discordam de muitas das propostas políticas substantivas de partidos radicais e anti-establishment tenham a perfeita noção que não concordam totalmente com as propostas avançadas por esses partidos. Ainda assim, escolhem votar neles. Porquê? Porque decidem utilizar o seu voto de forma expressiva. Neste caso, como forma de expressar o seu descontentamento, mesmo que não acreditem que o seu voto terá qualquer consequência positiva ou instrumental. Ainda assim, na maioria destes casos, os eleitores estão geralmente minimamente informados sobre as posições ideológicas do partido no qual estão a votar e, apesar de poderem não concordar totalmente com elas, também não se sentem muito desconfortáveis com as propostas políticas subjacentes.

Claro que há ainda uma terceira opção. Muitos dos eleitores que votam em partidos de extrema-esquerda e extrema-direita podem realmente concordar, total ou parcialmente, com as propostas substantivas que esses partidos defendem. Com toda a conversa sobre o enorme poder do “populismo”, será que afinal de contas os eleitores não votam num partido por causa das suas mensagens populistas? É isso que nos tem dito a investigação mais recente sobre o assunto, realizada nos contextos partidários norte-americano e alemão. Os artigos tentam discernir o efeito da utilização de um estilo e linguagem populista do efeito da “ideologia anfitriã” (hosting ideology), qualquer que esta seja – da esquerda à direita. Os resultados são muito interessantes. Em geral, a investigação, realizada de forma totalmente separada por autores diferentes, encontra os mesmos resultados. Os eleitores não são sistematicamente afectados por mensagens populistas e escolhem o seu partido preferido baseado na ideologia e políticas públicas que esses partidos defendem e não por causa da utilização de uma retórica mais ou menos populista. Note-se que, em geral, os eleitores alemães são menos populistas que os americanos nas suas atitudes, mas ainda assim o efeito de um populismo “soft” é relativamente reduzido. O efeito da ideologia é muito superior ao do “populismo”, suposta causa explicativa de todos os males políticos da actualidade.

Naturalmente, o contexto português é marcadamente diferente dos contextos americano e alemão. Desde logo, enquanto nestes dois países os principais temas dos partidos mais populistas de direita tendem a centrar-se na questão da imigração, em Portugal esse discurso ainda não está consolidado. Apesar de algumas sugestões e tentativas, o Chega não parece ter como tema principal a imigração, mas sim uma mescla de vários temas. Penso que, actualmente, ainda não temos dados para saber por que razão os eleitores escolhem votar no Chega nem quais as suas posições políticas mais populares.

Pessoalmente, creio que a maioria dos eleitores não são estúpidos e não é possível manipular sistematicamente uma porção significativa do eleitorado, contra os seus próprios interesses. Pelo contrário, penso que aqueles que votam em partidos denominados “populistas” se dividem em dois grupos: aqueles que votam neles pela sua proximidade ideológica e aqueles que votam neles como forma expressiva de descontentamento, sem esperar que estes partidos resolvam grande coisa.

terça-feira, 6 de março de 2018

um aviso aos “bem pensantes”


“Antigamente, sempre que o “sistema” na Europa era desafiado, bastava mencionar “fascismo”, para os eleitorados isolarem os intrusos. Foi assim em França, em 2002, contra Jean-Marie Le Pen. 
Desta vez, em Itália, o perigo era o Movimento 5 Estrelas e a Liga (antiga Liga Norte).
Sim, são fãs de Putin, são proteccionistas, e abusam do contraste mitológico entre um povo inocente e uma oligarquia corrupta. Mas quando o regime tirou da gaveta as acusações do costume, o eleitorado não respondeu ao assobio do “fascismo”.
Muitos abstiveram-se, mas muitos mais aproveitaram o segredo das cabines de voto para escolher os candidatos proscritos pelos bem pensantes.” [...]
A Itália é, com Portugal, uma das economias que menos bem se adaptou à chamada “globalização”. Há duas décadas que diverge do resto da Europa. Mas o problema não é só o desemprego. É uma oligarquia que insiste em introduzir, como fez em 2015, centenas de milhares de imigrantes em sociedades envelhecidas, economicamente estagnadas e culturalmente confusas. [...]
Uma sociedade jovem, dinâmica e com valores claros poderia talvez dar oportunidades aos recém-chegados e começar a integrá-los. Foi o que aconteceu nos anos 60 e 70, embora os Estados, nessa época, não proporcionassem aos migrantes a assistência de hoje. Mas as sociedades europeias actuais já não são assim. O resultado é que as populações imigrantes não estão a integrar-se, mas a tornar-se o veículo para a projecção na Europa dos preconceitos e conflitos das sociedades de origem. [...]
Os populistas não são solução. Frequentemente, como agora na Itália, nem sequer é claro que sejam verdadeiras alternativas de governo. Falta-lhes os meios para mudar sociedades que, embora zangadas e aproveitando as eleições para votar neles, não desejam romper com a vida que a integração europeia lhes garante: por isso, na Grécia, o Syriza acabou como simples executante das políticas de Bruxelas, e na Itália, o 5 Estrelas e a Liga já se calaram sobre o euro."
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Agora a “cantiga” dos “bem pensantes” passou de “fascismo” a “extrema-direita”!~
Parece que em breve a teremos...
com a esquerda, bem pensante, a aplaudi-los!

domingo, 12 de novembro de 2017

Escândalo? Indignação? Nada. Não se passa nada !

Bastou ter-se levantado uma onda de indignação pública, com eco nas redes sociais, para o Governo mostrar mais uma vez como é eficaz. O Governo de António Costa reagiu. Culpou o Governo anterior (as usually). Mostrou-se muito indignado em solidariedade com a indignação geral, e zás, proibiu os jantares no Panteão. Tal como já tinha feito no Urban Beach (que se apressou a mandar fechar - by the way, pôs 200 pessoas no desemprego com essa precipitação. Podia ter multado, ter estabelecido regras duras, mas não, a solução foi: desemprego para toda aquela gente) – mas
tal como fez com os incêndios e armas de Tancos roubadas toma decisões muito radicais. Mas sempre, sempre à posteriori [...]
O mundo chama populista a quem governa contra a corrente mediática, mas populismo é precisamente o oposto. Populismo é isto de governar em função da indignação popular.
Esta dupla de populistas que representam e lideram o país, estão a transformar Portugal num cartoon. (in “Populismo é governar pelo guião escrito pelo mediatismo e pelas redes sociais” por Maria Teixeira Alves )
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Escândalo? Indignação? Nada. Não se passa nada.
... o funcionamento do nosso Estado continua a brindar-nos com surpresas nalgumas das suas áreas nucleares, como as da segurança e soberania. [...]
O que nos deveria surpreender é a incapacidade de a direita, agora na oposição, ser oposição efectiva, conseguir reunir a informação que antes nos chegava pelas “comissões de utentes”, não se ficar apenas pelas generalidades sobre as cativações, antes ser capaz de descobrir e denunciar os efeitos concretos dessas cativações.
O que também nos deveria surpreender é a forma como antes boa parte da comunicação social não se incomodava em ser altifalante dos mais minúsculos tentáculos da asa esquerda da geringonça, ao mesmo tempo que hoje passa por cima de casos como alguns dos que relatei atrás sem se deter neles mais do que um segundo. [...]
Tudo domesticado, tudo obediente, tudo disciplinado (como disciplinados eram os companheiros e ministros de Sócrates que nunca viram nada, nunca souberam de nada, nunca estranharam nada, sobretudo nunca falaram sobre nada).

Por tudo isso deixem estar: não se passa nada. (in “Não se incomodem, não se passa nada” por José Manuel Fernandes )

sexta-feira, 31 de março de 2017

populismos….depois queixem-se!

Só um cego é que não vê sentimentos populistas no seio da população, sentimentos, aliás, bastante antigos e com uma longa tradição. A ideia de que “eles” não estão lá para governar, mas para se governarem está bem entranhada na sociedade portuguesa. Este sentimento populista pode estar adormecido, ser apenas latente, mas está lá, disso não tenhamos dúvidas. Para que seja activado, são necessárias duas ou três coisas. Primeira, que apareça a tal oferta, sob a forma de um líder ou partido ou movimento populista. Segunda, que se espalhe e interiorize, por exemplo, a ideia de que existe uma corrupção sistémica e que não há consequências, ou seja, o sentimento de que a justiça é forte com os fracos e fraca com os fortes.
no meio disto tudo
Os partidos tradicionais portugueses à semelhança do que aconteceu por essa Europa fora, andam a brincar com o fogo.
Quando as coisas correm bem, os méritos são do governo;
Quando correm mal ou não podem cumprir certas promessas, a culpa é da União Europeia, que os obriga a fazer coisas contra a sua vontade” …

ou de um qualquer “governo anterior” (in Populismo Oferta E Procura )

quinta-feira, 2 de março de 2017

uma das especialidades do Bloco de Esquerda...

Em Portugal a deriva populista, este discurso do povo contra as elites, dos puros contra os corruptos, tem sido uma das especialidades do Bloco de Esquerda. Nada de demasiado surpreendente se pensarmos que os seus homólogos espanhóis, do Podemos, até teorizam sobre as virtudes do populismo e o seu líder, Pablo Iglésias, foi ao ponto de cunhar um epíteto – “la casta” – para definir todos os seus adversários.
A novidade é a forma despudorada como o PS e o seu líder, por circunstâncias da vida nosso primeiro-ministro, também fizeram seu este tipo de discurso. O partido que, mais do que assistir mudo, cerrou fileiras em torno de alguém como José Sócrates, que defendeu os “negócios de Estado” que ele promoveu a partir de São Bento nas circunstâncias que hoje conhecemos, devia, no mínimo, ter mais cuidado quando atira lama para o ventilador.
Nesta quarta-feira, no Parlamento, depois dos esclarecimentos de Rocha Andrade, só a esquerda radical pode, por ideologia, prosseguir na sua catilinária. Infelizmente o PS também parece querer fazer o mesmo. É talvez altura de alguém mais sereno recordar naquela casa que o populismo “centrista” não está isentos de riscos(in “Populismo? Quem disse que a peste não tinha chegado a Portugal?” por José Manuel Fernandes)