quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Populismo e Estratégias Políticas em Portugal e França: um Ensaio Comparativo

Dois países, duas arquitecturas institucionais, dois mercados mediáticos — e uma mesma tentação: transformar “o povo” num instrumento retórico contra “as elites”.
Introdução: quando “o povo” vira arma política
O populismo, mais do que um rótulo preguiçoso, é um método. Um estilo. Uma gramática de combate. Em vez de se organizar em torno de um programa denso (como o socialismo, o liberalismo ou o conservadorismo clássicos), organiza-se em torno de uma oposição moral simples: de um lado, “o povo”; do outro, “as elites”. Esta simplificação tem a vantagem da eficácia: reduz o custo cognitivo da política e oferece um guião emocional pronto a consumir. Não exige que o eleitor compreenda a complexidade da economia ou do Estado; basta que identifique culpados e reconheça um porta-voz.

Portugal e França oferecem um contraste instrutivo: a França possui uma tradição longa de mobilizações populistas — tanto à direita como à esquerda — e uma arquitectura institucional (semi-presidencial, com eleição presidencial em duas voltas) que favorece a personalização e a dramaturgia política. Portugal, pelo contrário, viveu décadas de estabilidade partidária relativa, com um centro político robusto e uma memória histórica (a ditadura e a transição democrática) que funcionou, durante muito tempo, como travão cultural à normalização de certos discursos. Porém, a última década alterou o cenário: erosão da confiança, escândalos, estagnação salarial, crise da habitação, sensação de impunidade e um ecossistema mediático cada vez mais orientado para o conflito e para a moralização.

Este ensaio propõe uma comparação de estratégias populistas em Portugal e França, focando: (1) a definição e tipologia do populismo, (2) os contextos institucionais que o amplificam ou atenuam, (3) as tácticas centrais — anti-elitismo, personalização, identidade, imigração, securitização, e relação com a União Europeia — e (4) as consequências para a competição democrática. 
A tese é simples: em França, o populismo tornou-se uma dimensão estrutural da competição política; em Portugal, emergiu mais tarde e permanece mais dependente de um eixo personalista, mas cresce precisamente porque o sistema e o comentário mediático tendem a negar-lhe legitimidade plena — e a negação, paradoxalmente, alimenta a narrativa populista de exclusão.
O que é o populismo: ideologia “fina”, estratégia “grossa”
Uma forma útil de tratar o populismo é encará-lo como uma “ideologia fina”: uma ideologia com poucos conteúdos próprios, capaz de se colar a outras mais “espessas”. Pode vestir-se de nacionalismo, de socialismo, de liberalismo económico ou de estatismo; o seu núcleo não é o programa, é o antagonismo moral. A política deixa de ser um conflito entre interesses legítimos e passa a ser um conflito entre virtude e corrupção. Em termos de linguagem, isto traduz-se numa insistência em expressões como “o sistema”, “a casta”, “os de sempre”, “os privilegiados”, “os vendidos”, “os globalistas”, “os burocratas”, e outras variações locais do mesmo motivo.
Este mecanismo tem três efeitos estratégicos muito concretos. Primeiro, desloca o debate do campo da política pública (compromissos, custos, trade-offs) para o campo moral (traição, vergonha, decência). Segundo, concentra o poder simbólico num porta-voz: alguém que diz “eu” como se dissesse “nós”. Terceiro, cria um terreno fértil para a política do ressentimento: a ideia de que o cidadão comum é permanentemente humilhado por um conjunto de instituições que já não o representam.
Também convém distinguir tipos de populismo. Há o populismo nacionalista (tipicamente à direita), que tende a centrar-se em fronteiras, identidade, imigração, segurança e soberania; e há o populismo socio-económico (frequentemente à esquerda), que privilegia a denúncia da desigualdade, da “financeirização” e do poder das grandes empresas. Há ainda populismos híbridos, que misturam proteccionismo social com conservadorismo cultural, ou liberalismo económico com moralismo anticorrupção. França é particularmente rica nesta pluralidade; Portugal, até há pouco, era mais pobre — e talvez por isso o populismo português tenha crescido colando-se, com maior rapidez, a um eixo de indignação moral e anticorrupção.
Contexto institucional: por que razão a França “puxa” e Portugal “amassa”
        
França: semi-presidencialismo, duas voltas e o teatro do “duelo”
  • A eleição presidencial francesa, com duas voltas, cria uma dinâmica própria: empurra os actores para a polarização e para a construção de identidades fortes. A primeira volta funciona como mercado de nichos ideológicos; a segunda volta como plebiscito. Esta estrutura favorece candidatos que consigam: (a) monopolizar um campo emocional (medo, raiva, esperança), (b) simplificar o adversário num símbolo negativo, e (c) transformar o voto num acto de identidade. É um sistema que recompensa a performance. E o populismo, sendo uma gramática de performance moral, adapta-se como uma luva.
  • Além disso, a tradição política francesa admite, com mais naturalidade do que a portuguesa, a ideia de “grandes narrativas” de soberania e de conflito civilizacional — quer na linguagem republicana clássica, quer em versões contemporâneas (secularismo militante, identidade nacional, crítica da globalização, denúncia da tecnocracia europeia). O populismo em França não surge como um acidente; surge como uma continuação agressiva de temas já presentes na cultura política
  • Portugal: parlamentarismo, proporcionalidade e a cultura do “centrão”
  • Portugal, com um sistema parlamentar e representação proporcional, tende a diluir extremos e a favorecer compromissos. Durante décadas, a competição esteve concentrada num eixo PS–PSD, com partidos mais pequenos a servir de “satélites” ou de parceiros ocasionais. A lógica era a da governabilidade e da gestão. Mesmo quando houve radicalidade (à esquerda), ela foi frequentemente enquadrada por uma cultura institucional que valorizava o acordo, a estabilidade e a linguagem tecnocrática.
  • O populismo entra, neste quadro, como um corpo estranho: exige conflito moral onde o sistema prefere “moderação”; exige dramatização onde o sistema prefere “processo”. Porém, precisamente por isso, tem um trunfo: pode apresentar-se como a voz de quem foi excluído desse consenso. Em contextos de desconfiança, o “centrão” deixa de ser estabilidade e passa a ser conluio. E a política, em vez de ser vista como gestão, passa a ser vista como cartel.
Estratégias populistas: o que fazem, como fazem, e por que funciona
1) Anti-elitismo: construir o inimigo certo
O anti-elitismo é o motor. Mas não basta dizer “as elites”. É preciso definir quais elites, em que linguagem, e com que símbolos. Em França, o inimigo pode ser a classe política parisiense, a União Europeia, as “metrópoles” contra a “França periférica”, os tecnocratas, os jornalistas, as ONG, os juízes, ou “o sistema” em bloco. O populismo francês tem uma paleta ampla, porque o país tem conflitos sociais e territoriais historicamente marcados.
Em Portugal, o anti-elitismo cresceu sobretudo em torno de três temas: (a) corrupção e impunidade, (b) privilégio e distanciamento das elites políticas, e (c) incapacidade do Estado em garantir serviços básicos (saúde, justiça, segurança, habitação). O inimigo é muitas vezes descrito como um “bloco” de interesses: partidos, comentariado, administração pública superior e redes de influência. O populismo prospera quando estas acusações encontram exemplos mediáticos — e a última década foi generosa nesse combustível.
Uma diferença central: em França, o anti-elitismo é frequentemente articulado com uma visão de soberania nacional e conflito cultural; em Portugal, é mais frequentemente articulado com uma visão moral de limpeza e punição. Isto não é uma lei, mas uma tendência. E as tendências importam, porque definem que tipo de eleitor é mais mobilizável: o eleitor identitário ou o eleitor punitivo. Em França, os dois aparecem com força; em Portugal, o punitivo foi o primeiro a ganhar massa.
2) Personalização: o líder como atalho cognitivo
O populismo tende a concentrar-se em líderes, porque o seu discurso exige uma voz que fale “pelo povo”. A França institucionaliza este mecanismo: a presidência é, por natureza, uma figura de concentração simbólica. Não é por acaso que movimentos populistas franceses — à direita e à esquerda — investem na construção de personagens políticas: figuras com estilo retórico reconhecível, capacidade de polarização e domínio mediático. O líder não é apenas o porta-voz; é a marca.
Em Portugal, a personalização cresceu num terreno diferente: o parlamentarismo não exige um “rei eleito”, mas a comunicação contemporânea favorece a mesma lógica. A televisão, as redes sociais e o comentário permanente recompensam quem cria conflito e mantém presença. O populismo, aqui, usa o líder como mecanismo de ruptura: a pessoa torna-se o símbolo de uma recusa do consenso, e a rejeição que sofre torna-se prova de que “o sistema” se defende.
Este ponto é crucial: em sociedades mediáticas, a legitimidade passa a ser produzida tanto por instituições como por visibilidade. O líder populista, quando atacado em bloco, ganha um recurso precioso: pode dizer que está a ser combatido porque ameaça interesses instalados. E a narrativa fecha-se. A crítica, se for indiscriminada, funciona como propaganda involuntária.
3) Identidade e imigração: a agenda que desloca o centro
Em França, a imigração é um tema estruturante há décadas. Está associada a debates sobre identidade nacional, secularismo, integração, segurança, terrorismo, e transformação cultural. A direita populista capitaliza estes medos e traduz-os em propostas de controlo, restrição e soberania. A esquerda populista, por seu lado, pode deslocar o foco para desigualdade, precariedade e crítica das elites económicas, mas não consegue ignorar o tema — porque o tema organiza a agenda mediática e define clivagens eleitorais.
Portugal teve, durante muito tempo, uma relação diferente com a imigração: menos massiva, menos politizada, e frequentemente enquadrada num discurso de necessidade demográfica e económica. Porém, com mudanças recentes — pressões na habitação, sensação de concorrência em serviços públicos, percepções de insegurança (reais ou amplificadas) e circulação de imagens globais — o tema ganhou centralidade. Aqui, a estratégia populista é dupla: (1) transformar casos concretos em símbolos gerais, e (2) colocar os adversários numa posição defensiva, obrigando-os a escolher entre negar o problema (parecendo cegos) ou reconhecer o problema (legitimando a agenda).
Em ambos os países, a questão identitária funciona como um acelerador: reduz a política a pertença e ameaça. É um terreno propício ao populismo porque permite uma simplificação imediata: “nós” contra “eles”. Mas importa notar: a intensidade e os enquadramentos variam. Em França, o enquadramento é civilizacional e republicano; em Portugal, tende a ser mais pragmático e securitário, ainda que se observe uma crescente importação de narrativas externas.
4) A relação com a União Europeia: soberania como instrumento variável
A França tem uma tradição de debates fortes sobre soberania. A União Europeia surge, para muitos actores populistas, como símbolo de tecnocracia distante, imposição económica e erosão de identidade política. Porém, há uma evolução estratégica: certos populismos franceses moderaram o discurso de saída ou ruptura frontal e passaram a adoptar a linguagem da “reforma por dentro”, mantendo a soberania como tema, mas evitando assustar eleitorados moderados. Isto revela uma maturidade táctica: a radicalidade máxima mobiliza uma base, mas pode bloquear o acesso ao poder.
Portugal, em contraste, manteve um consenso europeu mais estável. A adesão e os fundos europeus foram associados a modernização e pertença. Mesmo durante crises, a crítica tende a focar-se mais nos governos nacionais do que na ideia europeia em si. Por isso, o populismo português tem menos incentivo para construir a União Europeia como inimigo principal; a energia estratégica é gasta noutras frentes: corrupção, justiça, segurança, e crítica do “sistema” interno.
A consequência é interessante: em França, o populismo pode estruturar-se como projecto de soberania; em Portugal, estrutura-se mais facilmente como projecto de moralização e punição. Não é que não haja soberania em Portugal; é que ela não é, ainda, o grande combustível eleitoral comparável ao caso francês.
5) O ecossistema mediático: conflito permanente e moralização
O populismo não vive apenas de instituições; vive de media. Em França, o debate televisivo e radiofónico é historicamente combativo, e a polarização encontra espaço. Em Portugal, houve durante muito tempo um certo ritual de comentário político com ar de “moderação” — mas essa moderação era, muitas vezes, apenas uma forma elegante de delimitar quem podia ou não podia entrar no campo da legitimidade.
Quando o comentário mediático passa a funcionar como tribunal moral — definindo, com insistência, quem é “decente”, “aceitável”, “presidenciável”, “republicano”, “perigoso” — cria-se um ambiente perfeito para a narrativa populista: “não nos combatem por ideias; combatem-nos porque não nos querem lá”. Se a crítica for selectiva, incoerente, ou claramente alinhada com interesses, então a máquina populista recebe munições diárias.
Em suma: o populismo cresce com exposição, mas cresce ainda mais com exclusão ostensiva. A linha entre “crítica democrática” e “cordão sanitário moralista” é delicada; e quando se ultrapassa essa linha, o resultado costuma ser o contrário do pretendido.
Resultados eleitorais e impacto institucional: normalização versus emergência
1) França: populismo como eixo estrutural de competição
Em França, o populismo deixou de ser periferia. A direita populista conseguiu, ao longo do tempo, normalizar-se em segmentos relevantes do eleitorado, beneficiando de (a) desindustrialização e ressentimento territorial, (b) crises migratórias e securitárias, (c) colapso ou enfraquecimento de partidos tradicionais, e (d) uma cultura política que aceita confrontos ideológicos fortes. A esquerda populista, por seu lado, ocupa o espaço do protesto social, mobilizando precariedade, indignação económica e rejeição do “neoliberalismo”. O efeito combinado é um sistema em que o centro é continuamente pressionado por narrativas antagonistas.
Este contexto conduz a uma “normalização do extremo” em termos de agenda: temas outrora marginais tornam-se centrais; a linguagem endurece; e os actores tradicionais, por vezes, imitam retóricas populistas para recuperar terreno. A política passa a ser um campeonato de enquadramentos morais e identitários, com menos espaço para a linguagem da administração.
2) Portugal: populismo como ruptura e como sintoma
Em Portugal, a ascensão populista é mais recente e mais dependente de um conjunto de factores cumulativos: desgaste do bipartidarismo informal, escândalos recorrentes, sensação de que a justiça é lenta e selectiva, incapacidade de resposta do Estado em sectores-chave, e um discurso mediático frequentemente paternalista. O populismo aparece, assim, como ruptura — mas também como sintoma: uma parte do eleitorado não acredita que o sistema se corrija a si próprio.
A sua influência é dupla. Por um lado, força o sistema a falar de temas que preferia adiar (corrupção, imigração, segurança, eficiência do Estado). Por outro, altera a geometria da direita e do centro, criando dilemas de coligação, legitimidade e estratégia eleitoral. O paradoxo é que, quanto mais o sistema tenta excluir o populismo por via moral, mais o populismo reforça a sua narrativa de exclusão. É um circuito fechado que só se quebra com debate substantivo e coerência institucional — duas coisas raras num ambiente de indignação permanente.
Por que diferem Portugal e França: quatro hipóteses explicativas
1) Memória histórica e cultura política
Portugal vive com a memória de uma ditadura recente e de uma transição que ainda organiza símbolos. Isso criou, durante muito tempo, um reflexo anti-extremos. França, pelo contrário, possui uma cultura republicana combativa em que o conflito ideológico não é, por si só, sinal de risco autoritário. Resultado: certas linguagens e temas circulam com mais facilidade em França do que em Portugal.
2) Arquitectura eleitoral e incentivos à polarização
O sistema francês (presidencial em duas voltas) recompensa a polarização e a personificação. O sistema português recompensa a construção de bases parlamentares e a negociação. Isto não impede populismos em Portugal, mas condiciona a forma: favorece o crescimento em torno de uma liderança forte e de temas moralmente mobilizadores, com menor capacidade de se traduzir, de imediato, em governação.
3) Estrutura territorial e “França periférica” versus “Portugal concentrado”
A França tem clivagens territoriais profundas entre metrópoles e regiões periféricas, alimentadas por décadas de reestruturação económica. Portugal, embora tenha desigualdades regionais, é mais pequeno e mais concentrado, com uma administração mais centralizada e uma escala mediática diferente. Isso altera o modo como o ressentimento territorial se organiza e se expressa politicamente.
4) Agenda mediática e legitimação do conflito
Em França, o conflito é parte do espectáculo político institucionalizado; em Portugal, o conflito foi, durante muito tempo, tratado como “má educação” — mas, paradoxalmente, essa moralização favorece a narrativa populista de que “o sistema” exige submissão e silêncio. Quando o comentário mediático pretende definir fronteiras morais em vez de discutir políticas, ajuda a construir mártires. E o populismo adora mártires.
Final: 
Populismo não é meteorologia — é engenharia
O populismo não cai do céu como chuva; é construído. É produzido por incentivos institucionais, por falhas de representação, por crises de confiança e por ecossistemas mediáticos que transformam a política num julgamento moral contínuo. França mostra como o populismo pode tornar-se estrutura — uma dimensão permanente da competição, tanto à direita como à esquerda. Portugal mostra como o populismo pode emergir como ruptura tardia, alimentada por uma mistura explosiva de impunidade percebida, ineficácia do Estado e exclusão simbólica.
A lição comparativa é desconfortável: combater o populismo apenas com insultos morais, cordões sanitários e catecismos de “decência” é, frequentemente, o método mais rápido de o fortalecer. A alternativa não é a complacência; é a substância. É discutir políticas com rigor, aplicar regras com coerência, punir corrupção com eficácia, e aceitar que pluralismo significa coexistência de discursos desagradáveis — desde que dentro da lei. França e Portugal diferem em história e instituições, mas partilham um problema comum: quando as elites confundem legitimidade com conformidade, e debate com catequese, abrem a porta ao político que promete, simplesmente, partir a porta.

Notas finais (para reflexão): Se o populismo é um estilo, então não desaparece com proibições; desloca-se, adapta-se e recruta. 
Se é um sintoma, então não se cura com indignação; cura-se com instituições que funcionam e com uma cultura pública que substitua moralismo por responsabilidade. 
E, sobretudo, se o populismo é uma técnica, então os seus adversários deviam parar de lhe oferecer, todos os dias, o melhor argumento: a prova viva de que há um “sistema” com medo de discutir a sério..