sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A Verdadeira Ameaça à Democracia Não São os Eleitores — É o Jornalistado Militante

Somos diariamente avisados de que a polarização está a destruir a democracia portuguesa. O problema, dizem-nos, são os eleitores “radicalizados”, os populistas, as redes sociais, os “discursos perigosos”. Raramente se olha para o espelho. No entanto, a força mais corrosiva da política contemporânea não está no voto — está na comunicação social que trocou o cepticismo pela militância e o escrutínio pela cartilha.
O enviesamento mediático já não é um acidente ocasional. É um modelo de negócio, uma identidade editorial e, em demasiados casos, uma posição moral auto-atribuída.

Em Portugal, uma parte significativa do jornalistado e do comentariado deixou de tratar a política como matéria de interesse público para a tratar como missão cívica. Não informam: orientam. Não contextualizam: enquadram. Não descrevem a realidade: corrigem-na. O objectivo não é que o leitor compreenda — é que concorde.
A fronteira entre notícia e opinião esbateu-se ao ponto de desaparecer. Manchetes insinuam, textos “explicativos” instruem, editoriais disfarçam-se de reportagens. O leitor é conduzido pela mão como uma criança a quem se repete o que é aceitável pensar e o que deve ser repudiado.

Isto não é exclusivo de um título, mas há casos paradigmáticos. Em órgãos como o Observador, por exemplo, a diversidade de colunistas convive com uma curiosa homogeneidade moral: a mesma indignação selectiva, os mesmos alarmes democráticos, as mesmas personagens elevadas a ameaça existencial. A pluralidade é formal; o enquadramento é fechado.
O mesmo acontecimento, conforme o protagonista, muda de natureza. Uns merecem compreensão psicológica, contexto histórico e leitura benévola. Outros recebem rótulos, suspeições e alarmismo. Os factos até podem ser os mesmos — a narrativa nunca é.
Esta prática tem consequências graves. A confiança é a moeda da democracia. Quando os cidadãos percebem que estão a ser educados em vez de informados, afastam-se. Primeiro com cepticismo, depois com cinismo, finalmente com desprezo. E esse vazio é rapidamente ocupado por quem promete “dizer a verdade” — ainda que o faça de forma grosseira ou simplista.

Os defensores deste jornalismo militante respondem, com ar doutoral, que “a objectividade é um mito”. É uma meia-verdade usada como escudo. Nenhum jornalista é neutro, mas isso não dispensa a honestidade intelectual, a proporcionalidade, a dúvida metódica e a boa-fé. O problema não é a ausência de neutralidade — é a ausência de escrúpulos.
Perdeu-se, acima de tudo, a humildade. Uma imprensa saudável interroga-se a si própria. A actual recompensa a certeza, a pressa e o teatro moral. As correcções são discretas, a nuance é suspeita, a dissidência interna é punida. Quem sai do guião arrisca o rótulo, o silêncio ou o exílio profissional.

O ciclo fecha-se de forma perfeita: o público recompensa indignação, os media entregam indignação, os políticos aprendem a representar para as câmaras em vez de governar. A política transforma-se numa sucessão de reacções encenadas para consumo mediático.
E, no entanto, o público vê. Nota a cobertura selectiva. Nota as histórias que desaparecem quando se tornam incómodas. Nota a diferença de tom, de adjectivação, de severidade. Cada truque narrativo corrói mais um pouco a credibilidade. E a credibilidade, uma vez perdida, raramente regressa.
Uma imprensa livre é indispensável à democracia. Uma imprensa que confunde activismo com escrutínio é apenas mais um actor político — sem votos, mas com megafone.
A solução não está numa fantasia de neutralidade absoluta. Está num regresso à decência profissional: separar notícia de opinião, tratar adversários como cidadãos e não como hereges, e recordar que o papel do jornalismo não é ganhar batalhas morais, mas iluminar a realidade — mesmo quando ela contraria as convicções da redacção.

Agulhadas finais:
Quando todos os jornais parecem moralmente de acordo, desconfie: não é consenso, é conformismo.
Uma imprensa que escolhe inimigos em vez de factos acaba sempre a fabricar monstros — e a precisar deles.
O maior perigo para a democracia não é o eleitor que vota “mal”; é o jornalista que acha que deve votar por ele.