sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

A sociologia do eleitorado: entre clivagens clássicas, recomposição contemporânea e a variável esquecida da diáspora

1. Das velhas clivagens à recomposição pós-industrial
Lipset e Rokkan defenderam, em 1967, que os sistemas partidários europeus reflectiam ainda as clivagens sociais formadas nas primeiras décadas do século XX: classe, religião, centro-periferia, urbano-rural.[1]
Hoje, tal fórmula dificilmente resiste ao teste empírico. A volatilidade eleitoral aumentou, os partidos tradicionais fragmentaram-se, e o mapa social tornou-se mais complexo. Contudo, daí não decorre que o voto seja acaso, capricho ou mero reflexo de estados de alma: o que mudou foi a natureza dos condicionamentos sociais do voto, não a sua existência.

A análise de Mafalda Pratas (na linha da literatura recente) convoca com acerto uma intuição decisiva: rendimento e escolaridade devem ser cruzados, não isolados. O rendimento permanece ligado ao interesse material; a educação superior, além de marcador socioeconómico, tornou-se também marcador cultural — e é aqui que a política contemporânea se complica, porque as duas forças nem sempre apontam na mesma direcção.[2]
2. O equívoco da “esquerda Brahmin”
Piketty popularizou a tese da transformação da esquerda numa “esquerda Brahmin”: dominada por uma elite escolarizada e desligada das classes populares.[3] Há dois factos reais: a esquerda cresceu entre os mais escolarizados e perdeu hegemonia relativa entre os menos escolarizados e de baixo rendimento. Mas a interpretação exige prudência.
A massificação do ensino superior alterou a composição do grupo “licenciado”. Uma enfermeira, uma assistente social ou uma educadora de infância não pertencem, por definição, a uma elite cultural ou económica: muitas integram o grupo de alta escolaridade e baixo rendimento, hoje com peso estrutural no eleitorado.
O erro adicional consiste em confundir perda de monopólio com desaparecimento de presença. As classes populares não “abandonaram” a esquerda como bloco homogéneo: repartem-se hoje com maior equilíbrio entre esquerda e direita. A grande mutação não é a substituição de uma classe por outra; é a fragmentação interna das antigas bases sociais — e a disputa permanente por um eleitorado com preferências cruzadas.
3. Não há “maioria sociológica” automática
Outra ideia repetida — a existência de uma maioria sociológica de direita — exige uma distinção conceptual: pode haver maioria parlamentar; não decorre daí, automaticamente, a existência de maioria social coerente. O que a aritmética soma, a sociologia nem sempre compõe.
Os eleitorados da AD, IL e Chega são heterogéneos em educação, rendimento e preferências culturais e económicas. O Chega agrega baixa escolaridade e insegurança económica com agenda cultural conservadora; a AD integra sectores mais confortáveis financeiramente; a IL concentra maior proporção de eleitores com ensino superior. A “soma” pode existir; a síntese, não.
Em linguagem nua: não existe um bloco reformista homogéneo. Há soma aritmética; não há unidade social e programática. A governação, se quiser durar, dependerá de compatibilizações difíceis — salvo se alguém decidir trair o seu próprio eleitorado.
4. O mapa em quatro quadrantes
O modelo de Kitschelt e Rehm permite distinguir quatro grupos, cruzando rendimento e educação superior:[2]
(i) Baixa escolaridade / baixo rendimento: trabalhadores de serviços pouco qualificados (logística, restauração, limpeza, cuidados, comércio). Tendem a preferir redistribuição e protecção social, mas inclinam-se culturalmente para posições mais conservadoras. Resultado: eleitorado disputado e instável.
(ii) Baixa escolaridade / alto rendimento: pequenos empresários e ofícios rentáveis sem credenciais universitárias. Combinam conservadorismo cultural com visão económica pró-mercado; em média, inclinam-se mais para partidos de direita.
(iii) Alta escolaridade / baixo rendimento: profissionais qualificados com rendimentos modestos (saúde, educação, sector público, terceiro sector). Tendem a ser progressistas na cultura e redistributivos na economia; constituem um núcleo relativamente estável da esquerda contemporânea.
(iv) Alta escolaridade / alto rendimento: quadros superiores e profissões altamente qualificadas. Culturalmente cosmopolitas, economicamente liberais. O voto depende do peso relativo que cada eleitor dá à dimensão económica versus cultural e da forma como os partidos combinam essas dimensões no discurso.
5. A variável esquecida: a diáspora portuguesa
Há, porém, um ponto decisivo que falta com frequência quando se fala do “eleitorado português”: a diáspora. Existem círculos eleitorais próprios para a emigração e um universo numeroso de portugueses no estrangeiro com experiências sociais distintas — e, portanto, com predisposições políticas próprias.[4]
Não se trata de detalhe técnico, mas de substância sociológica: inserção em mercados de trabalho diferentes, contacto com regimes fiscais distintos, exposição a realidades migratórias mais intensas, comparação quotidiana entre serviços públicos, segurança e mobilidade social. Tudo isto molda atitudes e prioridades. Ignorar a diáspora é amputar o retrato: o eleitorado português não termina na fronteira territorial do Estado.
6. Portugal entre atraso estrutural e convergência europeia
Portugal teve durante décadas duas especificidades: baixa escolarização média e fraca ancoragem classista da divisão esquerda/direita. Mas, à medida que o ensino superior se expandiu e a economia se terciarizou, as tendências transnacionais começaram a aparecer: fragmentação do voto popular, crescente peso da clivagem cultural e polarização em torno de imigração, identidade e redistribuição.
A política material não desapareceu; deixou, isso sim, de ser exclusiva — e passou a competir com uma política cultural que reorganiza lealdades, medos e expectativas.
7. Concluindo-me
A política contemporânea não pode ser compreendida por caricaturas: “elite contra povo”, “Brahmins contra trabalhadores”, “maioria sociológica” como fatalidade automática. A recomposição é real, mas não linear.
Rendimento continua a importar. Educação importa de forma cultural. A diáspora acrescenta complexidade adicional. Quem quiser governar terá de compreender esta geometria variável; quem insistir em mitologias sociológicas continuará a falar para fantasmas — ora o operário fabril dos anos 1950, ora a elite universitária de um país que já não existe.
E talvez fosse prudente — antes de proclamar maiorias imaginárias — começar por ler os dados.

Notas
  • S. M. Lipset & S. Rokkan, “Cleavage Structures, Party Systems, and Voter Alignments”, em Party Systems and Voter Alignments, 1967.
  • H. P. Kitschelt & P. Rehm, trabalhos sobre realinhamentos em sociedades pós-industriais e o cruzamento “educação/rendimento” como chave analítica do voto contemporâneo.
  • T. Piketty, “Political Cleavages and Social Inequalities” (tese da “esquerda Brahmin” e recomposição do eleitorado).
  • Enquadramento institucional dos círculos eleitorais da emigração e representação parlamentar da diáspora portuguesa (legislação eleitoral e prática constitucional).