Fernando Pessoa escreveu-o em Mensagem, no poema "O das Quinas", o verso severo: “Baste a quem basta o que lhe basta.”
É um aviso, não um elogio. Um diagnóstico de decadência moral e política: quando o mínimo passa a bastar, o máximo deixa de ser exigido e o País encolhe.
É exactamente aqui que estamos. Uma parte influente da Direita Caviar e da Esquerda Rasca decidiu que, para a Presidência da República, basta não ser Ventura. Não importa quem é o candidato, o que pensa, o que fez, o que fará. Basta-lhe não ser o outro. Não deveria bastar.
A campanha em torno de António José Seguro foi reduzida a isto: um exercício negativo, um anti-programa, um busto da República para pôr em Belém. Não se vota num homem real, com passado político, escolhas, responsabilidades; vota-se numa abstracção piedosa chamada “democracia”, “humanismo”, “decência”. É o vazio apresentado como virtude.
O artigo “Basta não ser Ventura” acerta no nervo do problema ao perguntar: o que significa votar num candidato presidencial?
Dizem-nos que é possível votar em Seguro sem ser socialista, sem o apreciar, sem aderir ao partido que o sustenta, um voto “asséptico”, “higiénico”, sem consequências.
Mas, dizem os mesmos, não é possível votar em André Ventura sem “ingressar” no Chega, sem prestar culto à personalidade, sem assinar por baixo do estilo. Porquê?
Porque razão o voto em Seguro é um voto “neutro”, enquanto o voto em Ventura é uma conversão ideológica?
A resposta é simples e cínica: porque convém aos oligarcas do comentariado e do jornalistado. Porque assim se bloqueia qualquer voto instrumental, qualquer voto de sinalização política, qualquer voto que queira marcar temas que só Ventura levou à campanha do caos migratório ao risco para a coesão social, do imobilismo sistémico ao perigo de uma restauração do domínio do PS.
O voto deixa de ser um instrumento do eleitor e passa a ser um teste moral imposto pelos mediadores do regime.
Histeria selectiva, memória curta
Os mesmos que hoje anunciam o apocalipse democrático se Ventura vencer, nunca se mostraram especialmente perturbados com o que o PS - e José Sócrates - fizeram efectivamente ao regime entre 2005 e 2011. A subversão, o endividamento, a captura institucional, o desprezo pelas regras: tudo isso passou. O escândalo, agora, são cartazes. A comoção, agora, é imaginária.
Esta histeria anti-fascista não protege a democracia: empobrece-a. Dispensa o escrutínio, desvaloriza o debate, sacraliza um candidato e demoniza o outro. O País é infantilizado; o eleitor, tratado como suspeito.
O precedente que assusta — e que se normaliza
Quando a lógica é “salvar a democracia suspendendo a democracia”, o fim aproxima-se rapidamente. No Reino Unido, o governo trabalhista já ensaiou a supressão de eleições locais onde o partido de Nigel Farage pode vencer. Eis a última estação da campanha virtuosa: cancelar eleições para defender eleições.
Quem acha isto exagero devia ler melhor os sinais. A pedagogia do medo prepara sempre a legitimação do interdito.
o mínimo que não basta
“Baste a quem basta o que lhe basta.” Pessoa escreveu-o como epitáfio de uma vontade cansada. Não como programa político. Eleger um Presidente porque não é outro é aceitar o mínimo como critério supremo. É desistir de perguntar quem é, o que pensa, o que representa. É transformar Belém num altar de boas intenções vagas.
A democracia não se defende com bustos. Defende-se com escolhas reais, com escrutínio duro, com eleitores livres — inclusive livres para votar sem pedir licença moral aos oligarcas do dia.
Se isto é demasiado para a Direita Caviar e para a Esquerda Rasca, o problema não é do eleitor. É do regime que se habituou a viver do mínimo — e a chamar-lhe virtude.
