A citação como ornamento e a prudência sem coragem
Uma das características mais intrigantes da actual direita dita conservadora em Portugal é a dissociação entre discurso e substância. Invocam-se autores, citam-se tradições, repetem-se fórmulas sobre prudência e estabilidade; porém, raramente se observa a tradução prática dessas referências em estratégia política coerente.
O conservadorismo clássico nunca foi mera estética de moderação. Foi, antes, uma teoria da responsabilidade histórica: preservar o que merece ser preservado, reformar o que ameaça desagregar a ordem social, reconhecer tensões reais antes que se convertam em ruptura. Edmund Burke não defendia a inércia; defendia a reforma prudente para evitar a explosão1.
I. A prudência como álibi
No discurso contemporâneo, a prudência tornou-se frequentemente álibi para a inacção. Em nome da estabilidade, evita-se enfrentar problemas que corroem silenciosamente a confiança institucional. Em nome da moderação, ignora-se a transformação demográfica, a fragmentação cultural e a erosão da autoridade simbólica do Estado.
Esta atitude não é conservadora; é conservatória. Não protege a ordem; preserva posições. O medo de perturbar equilíbrios imediatos sobrepõe-se à necessidade de garantir equilíbrios futuros.
II. A citação como substituto de pensamento
Outra marca desta tendência é a proliferação de referências intelectuais desprovidas de consequência. Tocqueville, Burke, Arendt surgem como escudos retóricos, não como guias analíticos. A citação converte-se em ornamento de respeitabilidade.
Mas o pensamento conservador exige coerência entre diagnóstico e proposta. Se se reconhece que a confiança nas instituições está fragilizada, impõe-se actuar sobre as causas. Se se admite que há sectores sociais descontentes, cumpre integrá-los politicamente, não desqualificá-los moralmente.
III. O medo da ruptura controlada
Paradoxalmente, o verdadeiro conservadorismo admite a necessidade de ruptura controlada para preservar continuidade estrutural. Burke compreendeu que ignorar as queixas coloniais na América conduziria à independência2. A recusa sistemática de ajustar políticas pode produzir a ruptura que se pretendia evitar.
O conservadorismo sem coragem transforma-se, assim, em reacção defensiva. Não propõe alternativa robusta; limita-se a censurar a alternativa incómoda. Em vez de liderar o espaço não socialista, vigia-o.
IV. A aristocracia psicológica
Existe ainda um elemento psicológico: a convicção de que a respeitabilidade social equivale a legitimidade política. Esta atitude aproxima-se mais de uma sensibilidade aristocrática do que democrática. A liderança é concebida como distinção, não como representação.
Ora, a democracia de massas assenta na mediação entre elites e eleitorado. Quando essa mediação se rompe, a desconfiança instala-se. E uma direita que se limita a defender a sua superioridade cultural arrisca perder relevância política.
Concluindo-me
Ser conservador implica aceitar a complexidade do tempo histórico e agir com prudência activa. Não implica refugiar-se na elegância discursiva nem transformar a moderação em dogma.
Conservadores sem conservadorismo existem quando a tradição é evocada mas não aplicada; quando a prudência é proclamada mas não exercida; quando a estabilidade é desejada mas não sustentada por reforma.
Nessas circunstâncias, o que se conserva não é a ordem política — é apenas a imagem de quem se julga guardião dela.
Notas de fim de página
1 Edmund Burke, Reflections on the Revolution in France, 1790.
2 Edmund Burke, Speech on Conciliation with America, 1775.
