Quando o conservadorismo deixa de ser prudência e passa a ser reacção defensiva contra quem lhe recorda a realidade
Há uma direita em Portugal que se reclama conservadora mas que, examinada com atenção, revela traços profundamente reaccionários. Não no sentido clássico do termo — o de quem deseja restaurar um regime caído — mas no sentido psicológico e político de quem reage, com sobressalto e ressentimento, a qualquer perturbação do seu conforto moral e institucional.
É a direita que se indigna com o tom antes de discutir o conteúdo. Que cita Arendt e Burke, mas apenas para ornamentar a recusa de enfrentar os problemas concretos que mobilizam centenas de milhares de eleitores. Que fala de “decência” como categoria política suprema, como se a virtude performativa substituísse a coragem estratégica.
Esta direita não combate o socialismo; convive com ele. Não enfrenta o progressismo cultural; adapta-se a ele. Não desafia o consenso mediático; aspira a ser aceite por ele. E, sobretudo, não suporta que alguém rompa o pacto tácito de respeitabilidade que mantém intacta a sua posição no espaço público.
O traço mais revelador desta direita é o medo. Medo de perder a aprovação dos comentadores. Medo de ser confundida com o “populismo”. Medo de romper o cordão sanitário simbólico que lhe permite frequentar os salões do poder sem embaraço.
Por isso reage com particular violência retórica quando surge alguém que mobiliza eleitorado fora do circuito tradicional. Não porque discorde apenas do estilo — o estilo é o pretexto. O que verdadeiramente a inquieta é a deslocação do centro de gravidade político.
Quando centenas de milhares de portugueses votam fora do guião estabelecido, essa direita não pergunta “porque o fazem?”. Pergunta antes “como ousam?”.
E então recorre ao léxico da moralização: indecência, falta de pensamento, ausência de preparação. Não é uma crítica programática; é um julgamento de carácter. Substitui-se a análise pelo diagnóstico psicológico. É mais confortável.
Conservadorismo ou conservação?
O conservadorismo clássico — de Burke a Tocqueville — assentava numa prudência activa: preservar o que merece ser preservado, reformar o que precisa de ser reformado, evitar rupturas destrutivas sem ignorar tensões reais.
O que hoje se apresenta como conservadorismo, em certos sectores, é mera conservação de estatuto. Não há reflexão sobre imigração descontrolada, crise de representação, esgotamento institucional. Há apenas a defesa da imagem de respeitabilidade.
Quando essa direita afirma que “os votos voltam atrás”, revela mais desejo do que análise. Parte do princípio de que o eleitor que ousou sair do redil regressará, contrito, à casa comum da moderação. É um paternalismo político disfarçado de ciência eleitoral.
Mas a história recente europeia mostra precisamente o contrário: votos que emergem de frustração acumulada não desaparecem porque são desqualificados em artigos de opinião.
A obsessão com a “decência”
Nada revela melhor o carácter reaccionário desta direita do que a obsessão com a “decência”. A política transforma-se num concurso de boas maneiras. A Presidência num exame de etiqueta.
A democracia, porém, não é uma escola de diplomacia. É um campo de confronto legítimo entre projectos. Reduzi-la a critérios estéticos é esvaziá-la.
Curiosamente, esta mesma direita não aplica o mesmo rigor moral quando o desrespeito institucional provém de sectores progressistas. A indignação é selectiva. A exigência de “decência” varia conforme a conveniência.
O resultado é uma direita que se diz alternativa, mas que age como garante do statu quo.
...reagindo ao espelho
Talvez o que mais incomode esta direita seja o espelho. Quando alguém lhe recorda que uma parte significativa do eleitorado não se sente representada pela moderação consensual, isso obriga a uma pergunta incómoda: que falhámos nós?
Mas é mais simples declarar que esses votos são “negativos”, “emocionais” ou “temporários”. Assim evita-se a autocrítica.
Há aqui uma ironia profunda: acusa-se o “populismo” de simplificação, mas responde-se com simplificações sociológicas ainda mais pobres. O eleitor é ora sábio, ora ignorante, conforme o sentido do voto.
Se vota na solução respeitável, é expressão da maturidade democrática.
Se vota na disrupção, é vítima de ressentimento ou manipulação.
Esta oscilação revela não convicção, mas conveniência.
A direita cafona que prefere perder desalinhada
No fundo, esta direita parece preferir perder com incúria a ganhar com ruptura. A vitória é aceitável desde que não comprometa a imagem. A derrota é tolerável desde que preserve a respeitabilidade.
É uma lógica aristocrática num regime democrático.
Mas a democracia não vive de salões; vive de votos. E votos não se conquistam com sermões morais.
Quem se limita a atacar o mensageiro, ignorando a mensagem que mobiliza uma parte significativa do país, está a abdicar da liderança. E depois surpreende-se quando o eleitorado procura alternativas.
Concluindo-me
Chamar reaccionária a esta direita não é insulto; é descrição. Reage a cada abalo com retraimento moral. Reage ao descontentamento popular com pedagogia condescendente. Reage à mudança com apelos à normalidade.
Mas a normalidade que defende é precisamente aquela que produziu o desconforto que agora condena.
Os votos não “voltam atrás” por decreto opinativo. Voltam — ou não — conforme a realidade política responda às causas que os geraram.
Ignorar isso pode ser elegante.
Mas não é inteligente.
E muito menos é conservador.

