Há textos https://observador.pt/opiniao/a-submissao-da-direita-e-a-hegemonia-cultural-da-esquerda/ que não pedem resposta; pedem confirmação. O ensaio de Jérémy Silvares Jerónimo sobre a submissão da direita portuguesa e a hegemonia cultural da esquerda é um desses casos. Não por ser excessivo, mas por ser rigoroso. Não por exagerar, mas por nomear aquilo que muitos preferem continuar a fingir que não vêem: a direita portuguesa, nas suas versões moderada e institucional, não perdeu eleições — perdeu a coragem de existir fora do guião moral imposto pela esquerda.
Convém começar pelo óbvio, raramente dito com frontalidade. As figuras de direita têm todo o direito de não apoiar André Ventura. Podem discordar do seu estilo, das suas propostas, da sua linguagem, da sua estratégia. Podem criticar o Chega, apontar fragilidades programáticas, lacunas ideológicas ou insuficiências de quadros. Nada disso está em causa. O problema começa noutro ponto — mais fundo, mais grave e mais revelador.
A questão não é não apoiar Ventura. A questão é: por que razão sentiram tantos a necessidade de apoiar publicamente José Seguro? E, mais ainda, por que razão essa escolha foi exibida com um fervor quase litúrgico, como se se tratasse de um acto de purificação moral?
Aqui entra o primeiro traço da submissão: o medo. O medo ancestral, herdado e cultivado, de ser rotulado. O medo do epíteto fácil — “fascista”, “nazi”, “reaccionário”, “populista”. O medo de ser colocado fora do círculo dos “aceitáveis”. Não se trata de cálculo político; trata-se de reflexo condicionado. O chamado “circo antifascista” não funciona porque convence — funciona porque intimida.
Este mecanismo não é novo, nem português. É uma técnica política testada, afinada e reciclada ao longo do século XX. A acusação de fascismo foi usada sistematicamente para silenciar adversários, desviar atenções e impedir convergências à direita. Não para defender a democracia, mas para preservar hegemonias. A esquerda aprendeu cedo que não precisava ganhar o debate — bastava interditá-lo moralmente.
E foi aqui que a direita falhou de forma estrutural. Não perdeu a batalha das ideias por inferioridade intelectual; perdeu-a por deserção. Desde o pós-guerra — e em Portugal desde 1974 — a direita decidiu concentrar-se na gestão, na economia, na técnica, no “funcionamento do sistema”, abandonando à esquerda tudo o resto: a cultura, a educação, o vocabulário moral, o imaginário colectivo.
Intelectuais como Mathieu Bock-Côté têm insistido neste ponto com clareza implacável: a direita governou mercados enquanto a esquerda formava consciências. Uma cuidou de índices; a outra moldou almas. O resultado está à vista: quem controla o léxico controla o juízo moral; quem controla o juízo moral decide quem é legítimo e quem é indecente.
A ironia suprema — e talvez a mais trágica — é que esta direita ajoelhada acredita sinceramente que está a defender a democracia quando se submete. Não percebe que, ao aceitar a gramática moral da esquerda, já perdeu antes de começar. Não percebe que, ao alinhar no discurso da “estabilidade” contra o “extremismo”, apenas reforça a narrativa de que qualquer alternativa fora do centrão é patológica por definição.
O caso português é exemplar. A esquerda dita os temas, os tons e os interditos. Decide o que é virtude e o que é pecado cívico. E a direita, em vez de contestar esse monopólio moral, apressa-se a provar que também ela é “do bem”. O apoio público a um candidato socialista não foi um gesto estratégico; foi um gesto de submissão simbólica. Uma genuflexão preventiva.
Resta, então, a pergunta final, aquela que nunca obtém resposta honesta:
quando falam de “estabilidade”, de que estabilidade falam?
Da estabilidade do país real ou da estabilidade do sistema que se protege a si próprio? Da estabilidade das famílias, dos jovens, dos trabalhadores, ou da estabilidade das redes partidárias, dos aparelhos, dos comentadores e dos profissionais da política?
Enquanto esta pergunta não puder ser feita sem insulto, a hegemonia cultural da esquerda permanecerá intacta. E enquanto a direita continuar a pedir licença moral para existir, continuará condenada a perder — mesmo quando vence.
Agulhadas finais
— A direita portuguesa não é derrotada nas urnas: é derrotada no espelho.
— Quem aceita a gramática moral do adversário já assinou a sua rendição.
— O antifascismo ritual não protege a democracia — protege o sistema que vive dela.

