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domingo, 16 de agosto de 2026

Seguro e a Presidência das fronteiras inseguras

Há textos que devem ser lidos pelo que dizem. E há textos que precisam de ser lidos pelo que revelam.

O requerimento que António José Seguro enviou ao Tribunal Constitucional sobre a chamada Lei do Retorno pertence claramente à segunda categoria.

O Presidente da República exerceu uma competência que a Constituição lhe confere. Ninguém de boa-fé pode contestá-lo. Mas exercer legitimamente um poder constitucional não torna politicamente neutras nem as razões invocadas, nem as dúvidas seleccionadas, nem a visão do Estado que delas emerge.

E é precisamente aí que Miguel Morgado acerta no alvo no seu excelente artigo Seguro quer fronteiras inseguras.

O requerimento presidencial não é uma pequena cautela jurídica. Questiona um conjunto amplo de normas relativas à expulsão de estrangeiros, menores, procedimentos nas fronteiras, recursos judiciais e execução de decisões de afastamento.

O primeiro truque: transformar a fronteira num problema moral

Belém começa por proclamar que é necessário combater a imigração ilegal, controlar a imigração legal e defender as fronteiras. Logo depois acrescenta que a segurança das fronteiras não é incompatível com a dignidade humana.

Mas quem disse que era?

É aqui que começa a armadilha retórica.

A alternativa sugerida passa a ser entre um Estado humanitário e um Estado que controla efectivamente quem entra, quem permanece e quem deve sair.

Ora, uma fronteira que não distingue, não selecciona e não executa decisões deixa simplesmente de ser uma fronteira.

A dignidade humana não exige a impotência do Estado. O direito de asilo não exige fronteiras abertas. A protecção de refugiados não exige que qualquer decisão administrativa de afastamento fique praticamente neutralizada pela sucessão de recursos.

Aliás, a própria União Europeia caminha no sentido de conciliar protecção humanitária com fronteiras externas fortes, procedimentos mais eficientes e mecanismos efectivos de retorno.

Querer que uma decisão de saída produza consequências não é, portanto, nenhuma extravagância autoritária portuguesa. É uma necessidade elementar de qualquer política migratória que pretenda ser levada a sério.

Requerer asilo não é ser refugiado

Há depois uma confusão particularmente perigosa no discurso presidencial.

A narrativa de Belém tende a apresentar os homens, mulheres e crianças que pedem asilo como pessoas que fogem necessariamente de guerras, conflitos armados ou perseguições.

Mas um requerente de asilo é precisamente alguém cujo direito à protecção ainda está a ser apreciado.

Se todos os requerentes fossem, por definição, refugiados, para que serviriam os processos de apreciação, as recusas, os recursos ou os conceitos de país de origem seguro?

Esta distinção é essencial porque existe uma perversão possível do sistema: transformar o simples acto de apresentar um pedido na garantia prática de permanência durante todo o tempo necessário para esgotar procedimentos administrativos e judiciais.

Nesse modelo, já não é o Estado que decide quem pode ficar.

É o calendário processual que decide que ninguém consegue sair.

Os filhos não podem transformar-se num salvo-conduto migratório

A protecção das crianças merece toda a cautela. E compete ao Tribunal Constitucional decidir se alguma das soluções aprovadas viola efectivamente a Constituição.

Mas há uma diferença gigantesca entre proteger o interesse superior de uma criança e transformar a existência de filhos num impedimento absoluto ao afastamento de um adulto estrangeiro.

Se esse princípio for levado às últimas consequências, cria-se um mecanismo extraordinariamente simples: determinadas situações familiares passam a produzir, na prática, uma espécie de imunidade migratória.

E é precisamente nestes assuntos que o sentimentalismo legislativo pode produzir incentivos perversos.

O Estado deve ponderar a família. Deve proteger a criança. Deve respeitar os seus compromissos internacionais.

Mas também tem o direito — e o dever — de impedir que determinadas situações familiares se convertam automaticamente numa licença de residência contra uma decisão legal de afastamento.

O recurso judicial não pode tornar o Estado fictício

Outra das grandes objecções presidenciais dirige-se aos efeitos dos recursos judiciais e à possibilidade de execução de decisões de afastamento antes da decisão judicial definitiva.

A preocupação jurídica é compreensível.

A consequência política também tem de ser dita.

Se qualquer recurso suspender necessariamente qualquer decisão até ao último grau possível de litigância, cria-se uma extraordinária assimetria: o estrangeiro dispõe de todos os instrumentos para impedir a execução; o Estado dispõe apenas do direito teórico de decidir.

Uma política de retorno que nunca retorna ninguém não é política de retorno.

É papel timbrado.

Miguel Morgado percebeu o essencial

É aqui que o artigo de Miguel Morgado merece um aplauso sem reservas.

Porque Morgado não ficou prisioneiro da discussão microscópica sobre esta alínea ou aquele número de artigo. Percebeu o problema político que está por detrás do juridiquês.

Durante anos, Portugal construiu uma política migratória assente na ideia de que controlar era suspeito, restringir era moralmente duvidoso, expulsar era quase desumano e exigir o cumprimento das regras precisava sempre de uma justificação suplementar.

Quando finalmente se tenta reconstruir capacidade efectiva de controlo, aparece de novo o velho reflexo: o Estado é colocado no banco dos réus por querer voltar a comportar-se como Estado.

É precisamente por isso que as proclamações iniciais de Seguro em defesa das fronteiras soam tão pouco convincentes.

Porque não basta declarar que se defendem fronteiras.

É necessário aceitar as consequências práticas de elas existirem.

Fronteira significa entrada autorizada e entrada recusada.

Residência significa permanência legal e permanência ilegal.

Asilo significa protecção para quem satisfaz os respectivos requisitos — e recusa para quem não os satisfaz.

Retorno significa que, esgotadas as garantias que a lei efectivamente concede, quem não tem direito a permanecer sai.

Tudo o resto é semântica.

A velha superioridade moral regressou a Belém

O problema de fundo é ainda outro.

Existe em parte das elites europeias uma curiosa concepção de superioridade moral: preocupam-se infinitamente com as consequências individuais de fazer cumprir uma decisão, mas raramente demonstram igual preocupação pelas consequências colectivas de não fazer cumprir milhares delas.

Quem responde pela pressão sobre os serviços públicos?

Quem responde pela sobrecarga administrativa?

Quem responde pela incapacidade de alojamento?

Quem responde pelos efeitos sobre salários, habitação, escolas, segurança ou integração?

Quem responde pela perda de confiança dos cidadãos num Estado que proclama regras mas parece embaraçado quando chega a hora de as executar?

A compaixão paga com recursos alheios é muito fácil.

A responsabilidade política começa quando alguém pergunta quem suporta a factura.

Seguro tem todo o direito constitucional de pedir a fiscalização. Nós temos todo o direito democrático de julgar politicamente o pedido.

E o julgamento é severo.

O requerimento de Belém parece partir de uma desconfiança permanente perante o Estado que expulsa e de uma confiança quase ilimitada nas razões de quem pretende permanecer.

Pode o Tribunal Constitucional dar razão a algumas das dúvidas presidenciais? Naturalmente.

Pode até considerar algumas normas inconstitucionais.

Mas isso não eliminará a questão política fundamental que Miguel Morgado colocou sobre a mesa:

queremos finalmente um Estado capaz de controlar as suas fronteiras ou continuaremos a construir um sistema em que todos proclamam o direito de as controlar desde que, na prática, quase ninguém possa ser mandado embora?

Porque uma fronteira que só existe quando ninguém tenta atravessá-la irregularmente não é uma fronteira.

É uma linha num mapa.

E um Estado que precisa de pedir desculpa cada vez que pretende fazer cumprir as suas regras está já a caminho de deixar de ser soberano.

Miguel Morgado chamou-lhe “fronteiras inseguras”.

Talvez seja ainda pior: é a transformação da impotência do Estado numa virtude moral.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Lei laboral: a culpa é só do CHEGA?

Há narrativas políticas que nascem com a naturalidade das ervas daninhas. Um facto complexo, com vários protagonistas, vários bloqueios e várias responsabilidades, é subitamente reduzido a uma frase simples, pronta a circular nos noticiários e nas mesas redondas do comentariado:
Ventura enterrou a reforma laboral.
É uma frase eficaz. Tem culpado, tem verbo forte, tem drama parlamentar. E tem, sobretudo, a vantagem de esconder quase tudo o resto.
Lendo com alguma atenção os próprios textos publicados no Observador, percebe-se que a reforma laboral não está apenas dependente da posição do CHEGA. Está presa num triângulo político muito mais interessante: o Governo, que quer aprovar a reforma; o CHEGA, sem cujos votos ela dificilmente passará no Parlamento; e António José Seguro, Presidente da República, que se prepara para a vetar se não houver acordo na concertação social.
Mas, como sempre, há bloqueios que fazem escândalo e bloqueios que vêm vestidos de Estado.
O CHEGA como culpado útil
Miguel Carrapatoso escreve que, sem o acordo da UGT, tudo muda. E muda mesmo. Sem o carimbo sindical, o PS fica de mãos livres para chumbar a reforma. Sem o PS, o Governo fica entregue ao CHEGA. E sem o CHEGA, a reforma pode morrer no Parlamento.
Até aqui, nada de especialmente misterioso.
O problema começa quando esta cadeia política é transformada numa sentença moral: o CHEGA, por não salvar uma reforma do Governo, passa a ser acusado de a enterrar. Ora, convém recordar o óbvio: o CHEGA é o maior partido da oposição. Não é membro do Governo. Não assinou programa governativo. Não tem obrigação de fornecer muletas parlamentares ao PSD sempre que o PSD descobre que afinal precisa dos votos que antes fingia dispensar.
A direita moderada portuguesa tem esta curiosa ginástica: recusa governar com o CHEGA por princípio, mas irrita-se quando o CHEGA não governa por procuração. Exclui-o da responsabilidade governativa, mas exige-lhe responsabilidade governativa quando a aritmética parlamentar se torna desagradável.
É um prodígio de coerência.
André Ventura, ao acrescentar a exigência da descida da idade da reforma, tornou a negociação mais difícil, talvez mesmo impossível. Isso pode ser lido como táctica, populismo, cálculo eleitoral ou simples aproveitamento de uma bandeira popular. Mas uma coisa é dizer que Ventura dificultou a aprovação parlamentar da reforma; outra, bem diferente, é fingir que ele é o único responsável pelo seu naufrágio.
O Governo apresentou uma reforma difícil. A UGT não lhe deu a cobertura política indispensável. O PS ficou livre para chumbar. Seguro ficou encostado à promessa de veto. E só depois entra o CHEGA como voto indispensável.
Ventura pode ser o último prego no caixão. Mas não foi ele quem mandou fazer o caixão.
Seguro, o veto e a solenidade do bloqueio
Depois há António José Seguro.
E aqui a conversa muda de tom. Já não se fala em enterrar. Fala-se em cumprir a palavra dada. Já não se fala em bloqueio. Fala-se em mandato. Já não se fala em travão político. Fala-se em poder presidencial.
António Galamba, próximo de Seguro, veio defender que o Presidente tem legitimidade para vetar a lei laboral se ela avançar sem acordo na concertação social. O argumento é claro: a concertação social não é figura decorativa; o Presidente não é notário do Parlamento; o veto existe para permitir uma segunda leitura democrática.
Tudo muito solene. Tudo muito constitucional. Tudo muito respeitável.
Mas o resultado político é exactamente este: mesmo que a reforma sobrevivesse no Parlamento, poderia morrer em Belém.
Ou seja, se Ventura a trava antes, é acusado de enterrar a lei. Se Seguro a trava depois, é elogiado por respeitar o seu compromisso eleitoral. O acto é semelhante no efeito; a diferença está no tratamento.
Um bloqueio parlamentar do CHEGA é tratado como perturbação. Um veto presidencial de Seguro é tratado como ponderação.
É uma velha arte portuguesa: a mesma coisa muda de nome consoante a pessoa que a pratica.
A cómoda utilidade de culpar Ventura
A pergunta essencial não é se Ventura tem responsabilidades. Tem. A pergunta é porque é que se fala tanto da responsabilidade de Ventura e tão pouco da responsabilidade de Seguro.
A resposta é simples: porque culpar o CHEGA é confortável. Confirma a liturgia habitual do sistema. Permite ao Governo queixar-se do aliado que não tem. Permite ao PS respirar melhor. Permite ao Presidente surgir como árbitro prudente. E permite ao jornalistado manter o seu teatro moral: de um lado, a irresponsabilidade populista; do outro, a seriedade institucional.
Mas a realidade é menos limpa.
Se o Governo não consegue acordo social, se o PS chumba, se o Presidente veta e se o CHEGA se recusa a salvar o diploma, então a reforma laboral não cai por culpa de um só actor. Cai porque o sistema inteiro se organizou para que ninguém assumisse sozinho o ónus da morte.
O Governo quer a reforma, mas não tem força bastante. O PS não quer ficar preso a ela. Seguro não quer trair a promessa feita. O CHEGA não quer dar ao Governo uma vitória política em matéria potencialmente impopular.
Cada um joga o seu jogo. Só que, no fim, o cartaz mediático já traz o culpado impresso.
O líder da oposição ou o bombeiro do Governo?
Há ainda uma pergunta incómoda: desde quando é que o líder da oposição tem obrigação de salvar reformas do Governo?
Se André Ventura apoiasse a reforma laboral, seria acusado de muleta da direita governamental. Se não a apoiar, é acusado de irresponsável. Se negoceia, normaliza-se. Se recusa, bloqueia. Se apresenta condições, faz chantagem. Se não apresenta, foge ao debate.
O CHEGA está, neste caso, colocado numa armadilha política perfeita: qualquer decisão pode ser convertida em acusação.
Mas essa armadilha só funciona porque se parte de uma premissa falsa: a de que cabe ao CHEGA garantir a estabilidade legislativa de um Governo que não o quis como parceiro e que passa a vida a tratá-lo como anomalia democrática.
Não cabe.
O Governo governa. A oposição opõe-se. O Presidente veta ou promulga. O Parlamento aprova ou rejeita. Parece simples. Só deixa de o ser quando o sistema precisa de fingir que a culpa de todos é, afinal, culpa de um.
A cova e a solenidade
A reforma laboral pode morrer no Parlamento. Pode morrer em Belém. Pode morrer por falta de acordo social. Pode morrer pela resistência do PS. Pode morrer pela táctica do CHEGA. Pode morrer pela prudência — ou cálculo — de Seguro.
Mas não morre apenas porque Ventura assim decidiu.
O que está em curso é uma operação de enquadramento: transformar o CHEGA no coveiro visível de uma lei que muitos outros já tinham ajudado a enfraquecer.
Ventura é acusado de não emprestar a pá ao Governo. Seguro prepara-se para fechar a cova em nome da Constituição, da concertação social e da palavra dada. A diferença é que a primeira pá faz barulho. A segunda vem embrulhada em solenidade republicana.
E o jornalistado, que raramente perde uma oportunidade de confundir análise com catequese, já escolheu onde pôr a legenda.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

De Belém como árbitro a Belém como porteiro...

Quem quer travar a democracia quando o voto não convém?
( o veto preventivo apresentado como “virtude republicana” )

Há perguntas que, quando feitas, revelam mais sobre quem responde do que sobre o tema em discussão. “Quem quer travar o PSD, o CHEGA e a IL no Governo?” é uma delas.
As respostas surgem com uma franqueza perturbadora — e com um à-vontade constitucional ainda mais inquietante. Pela primeira vez, figuras centrais do sistema admitem, sem pudor, que pretendem impedir soluções governativas antes mesmo de estas existirem, apenas porque não gostam dos protagonistas.
Comecemos por António José Seguro. Ex-líder do PS, hoje candidato presidencial, Seguro não se limita a manifestar preferências políticas. Vai mais longe: anuncia que usará os poderes de Belém para bloquear, preventivamente, qualquer maioria de direita que inclua PSD, CHEGA ou Iniciativa Liberal. Não é reacção a uma crise institucional concreta. É um programa: declarado, reiterado, exibido como prova de “responsabilidade”.
Ou seja: antes de haver Governo, já há veto. Antes de haver actos, já há punição. Antes do voto produzir efeitos, já há interdição. Isto não é moderação: é tutela política preventiva. É a democracia com rodinhas — para não fugir para onde o comentariado não quer.
O segundo caso, José Luís Carneiro, afina a mesma música noutro tom. Declarou que “não será por mim que o Chega chega ao poder” e admitiu viabilizar um Governo minoritário do PSD não por convicção, mas por contenção. Não para governar melhor — mas para impedir que outros governem. O PS a funcionar como tampão: não perde, “administra” a derrota.

O padrão é evidente. Quando o voto produz maiorias aceitáveis, chama-se “estabilidade democrática”. Quando produz maiorias incómodas, chama-se “perigo”, “ameaça” ou “excepção”. E assim se instala uma doutrina não escrita, mas já praticada: há votos legítimos e votos a neutralizar.
Convém dizê-lo sem eufemismos: um Presidente da República não é um comissário político do regime, nem um guarda de fronteira ideológica. A Constituição não lhe dá mandato para corrigir o eleitorado quando este vota “mal”. A ideia de Belém como última barreira contra certas escolhas democráticas é tudo menos democrática: é um reflexo saneador, agora embrulhado em linguagem institucional e boas maneiras.
Hoje trava-se o CHEGA. Amanhã será outro. O critério não é a legalidade — é a conveniência. E quando a conveniência passa a mandar no voto, o regime deixa de ser democracia e passa a ser um clube: entra quem o porteiro deixar.

Agulhadas finais 
1. Quando se promete bloquear Governos antes das eleições, já não se respeita a democracia — terceiriza-se o voto para Belém.
2. “Moderação” não é veto preventivo: é apenas o nome polido de uma velha pulsão — proibir, sanear e prender… agora com gravata e Constituição na mão.
3. O problema nunca foi “o populismo”. O problema é o sistema achar que o eleitor é um menor: vota, mas depois os adultos tratam do assunto.
4. Se a democracia só é “democracia” quando dá o resultado certo, então não é democracia: é um referendo permanente ao gosto do comentariado.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Vai ganhar. Mas ganha com restos, oportunismo e memória curta!

Seguro: é o candidato que ninguém quis — até precisar
Rejeitado pelo PS, vilipendiado pela esquerda e agora abraçado por oportunistas — uma vitória que nos pode sair cara.
.
António José Seguro não regressou por redenção. Regressou por necessidade.
Foi rejeitado por António Costa, desvalorizado por Augusto Santos Silva, empurrado para fora pelo núcleo duro do PS e vilipendiado pela esquerda durante mais de 10 anos. Hoje, os mesmos ressuscitam-no porque precisam dele para travar a queda.
Entretanto, os ratos da direita abandonam à pressa os candidatos que apoiaram para jurar fidelidade a Seguro. Não por convicção — por medo.
Vai ganhar. Mas ganha com restos, oportunismo e memória curta.
E cada manobra destas empurra mais jovens para Ventura. Depois do tabu quebrado, não há regresso.
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[dedicado aos mais novos porque os velhos lhes vão branquear a história!]
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Para onde vais, António José Seguro?
O candidato que ninguém quis... até precisarem!
Há uma falsificação em curso que convém desmontar sem rodeios: a ideia de que António José Seguro representa uma continuidade natural do Partido Socialista ou uma espécie de reserva moral injustamente esquecida. Não representa. Seguro foi politicamente rejeitado, afastado e neutralizado pelo seu próprio partido, com método, nomes e intenções claras.
Não foi um acidente. Foi uma decisão.
A execução política de Seguro em 2014
Em 2014, quando António Costa desafia a liderança de Seguro, fá-lo com um argumento simples e devastador dentro do aparelho socialista: Seguro não ganhava eleições. Não tinha “pulso”, não tinha agressividade, não tinha capacidade de impor hegemonia à esquerda. Costa não disputou apenas uma liderança — disputou a legitimidade de Seguro como líder político.
O golpe foi total. Seguro não foi tratado como adversário interno respeitável, mas como um erro a corrigir. O partido alinhou rapidamente. O aparelho fechou-se. E o veredicto foi aplicado sem piedade: Seguro tornou-se politicamente dispensável.
…os abraços de hoje
Entre os que contribuíram activamente para esse isolamento está Augusto Santos Silva, ideólogo maior do costa-centrismo. Nunca escondeu o seu desprezo político por Seguro, considerado insuficiente, mole, incapaz de impor respeito à direita e à esquerda. Santos Silva é hoje um dos rostos que surgem a legitimar Seguro — com a mesma convicção com que ontem o descartou.
Pedro Nuno Santos, então estrela em ascensão, representava já a ala que via Seguro como um obstáculo ao “novo PS”: mais ideológico, mais conflituante, mais disponível para entendimentos estruturais com a extrema-esquerda. Para esse sector, Seguro era um resíduo de um PS demasiado institucional.
No mesmo campo alinharam Mariana Vieira da Silva e Alexandra Leitão, figuras centrais do consulado Costa, que nunca esconderam preferência por um PS mais musculado, menos preso a equilíbrios e mais confortável com o radicalismo retórico. Seguro não encaixava. Foi politicamente asfixiado.
O resultado fala por si: António José Seguro afastou-se do Partido Socialista durante mais de dez anos. Não por escolha estratégica, não por pausa reflexiva, mas porque não lhe deixaram espaço político. Foi empurrado para fora com luvas de veludo e eficácia cirúrgica.
                                                                           O vilipendia-lo sistemático da esquerda
Durante essa década, a esquerda e a extrema-esquerda não se limitaram a ignorar Seguro. Vilipendiaram-no.
  • Para o Bloco, era um social-liberal frouxo.
  • Para o PCP, irrelevante.
  • Para o Livre, um passado ultrapassado.
Seguro foi apresentado como o exemplo do PS que não serve. Hoje, ironicamente, é o instrumento que permite à esquerda e à extrema-esquerda recuperar fôlego eleitoral, depois de uma sequência de perdas e irrelevâncias. O PS ganha oxigénio. O Bloco evita o colapso. O PCP adia a extinção simbólica. Tudo isto graças a um homem que foi desprezado por esse mesmo campo político.
Não há aqui reconciliação ideológica. Há utilização táctica.
Os ratos do centro-direita
Ao mesmo tempo, assiste-se a um espectáculo particularmente indecoroso: personalidades do centro-direita que até à véspera apoiavam Luís Marques Mendes ou João Cotrim de Figueiredo surgem agora a jurar fidelidade republicana a António José Seguro.
Não mudaram ideias. Mudaram de medo.
  • Medo do isolamento mediático.
  • Medo de não pertencer ao “lado certo”.
  • Medo de assumir escolhas fora do consenso imposto.
São ratos políticos, que abandonam o navio ao primeiro cálculo desfavorável. Mas o eleitor perceberá isso com uma clareza que os comentadores insistem em subestimar.
O efeito colateral: Ventura
Enquanto o sistema se fecha sobre si próprio, uma parte significativa do eleitorado jovem observa e conclui o óbvio: não há alternativa dentro do perímetro permitido. É nesse vazio que André Ventura cresce.
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Para uma geração que nunca viveu um PS moderado, que só conhece Sócrates e Costa, a narrativa do “regresso ao centro-esquerda responsável” soa a ficção tardia. O impulso dado a Seguro pode garantir a vitória imediata. Mas normaliza eleitoralmente o Chega no médio prazo. E depois do tabu quebrado, o voto repete-se com facilidade.

,,,mas Seguro vai ganhar!
Mas ganhará com os restos do sistema, com os que o rejeitaram ontem e com os que fogem hoje. E isso tem custos políticos que não desaparecem com discursos sobre estabilidade ou fantasmas do passado.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

sábado, 17 de janeiro de 2026

os candidatos para o Pinheiro do Observador...

Luís Marques Mendes reagiu com inesperado amadorismo à polémica sobre a sua vida profissional e as suas ligações políticas. Qualquer pessoa dotada da capacidade para antecipar o óbvio deveria ter percebido há muitos meses que, depois do caso Spinumviva, um candidato com uma empresa familiar que tem como sócios a mulher e os filhos iria ser alvo do mais implacável escrutínio. Além de ter dissolvido a sociedade, Marques Mendes deveria ter tomado a iniciativa de revelar a lista completa dos clientes e de explicar detalhadamente o que fez para cada um deles. Em vez disso, ficou à espera que surgissem as perguntas e as suspeições, como se estivesse a fazer figas para que ninguém se lembrasse de falar sobre o assunto. Podia ter controlado e arrumado o tema, mas ficou a servir de saco de pancada dos adversários.
António José Seguro também teve dificuldades em ver o óbvio. Com o espaço da direita hiperlotado, evidentemente ele devia ter-se apresentado desde o início como o único candidato viável da esquerda. Há aquela frase célebre: “Se anda como um pato, se nada como um pato e se fala como um pato, então é porque é um pato”. Se Seguro foi líder da JS, se foi líder do PS e se fez toda a vida no PS, então é porque é socialista e, por definição, de esquerda. Mas, até chegar a essa conclusão incontestável e começar a apelar ao voto útil de toda a esquerda, António José Seguro embrulhou-se em conversas sobre “gavetas” e sobre a sua irreprimível vontade de agradar à direita desiludida com Marques Mendes.
Henrique Gouveia e Melo também tentou, absurdamente, agradar a toda a gente: aos que odeiam o sistema e aos que idolatram o sistema; aos que adoram Mário Soares e aos que desconfiam de Mário Soares; aos que já votaram no PS, aos que já votaram no PSD, aos que já votaram na IL e aos que já votaram no Chega. O almirante conseguiu o extraordinário feito de fazer com que os eleitores tenham hoje mais dúvidas sobre o que lhe anda na cabeça do que tinham no tempo em que ainda não tinha aberto a boca para falar sobre nada. Ninguém verdadeiramente sabe se um voto em Gouveia e Melo é útil ou pernicioso. Nas presidenciais, queria ser o novo general Ramalho Eanes, mas corre o risco de ser o novo almirante Pinheiro de Azevedo.

André Ventura comportou-se na primeira parte da campanha como a atual líder do Partido Conservador inglês. As pessoas mais próximas de Kemi Badenoch dizem que ela tem a capacidade autodestrutiva de começar uma rixa mesmo numa sala vazia. Como se sabe, o combustível político de André Ventura são os inimigos. Esses inimigos podem ser internos ou externos, mas convém, apesar de tudo, que não sejam totalmente imaginários, para que o líder do Chega não pareça um fantasista ou um charlatão. A dada altura, acalmou-se e disciplinou-se. O seu grande objetivo nesta campanha era convencer os fiéis do Chega de que o voto útil nesta eleição era nele e não no almirante — e tudo indica que conseguiu.

João Cotrim de Figueiredo apostou nos jovens, que, em tese, sentem a liberdade de votar sem se deixarem condicionar por cálculos e contas.
Catarina Martins tentou apresentar-se como a legítima herdeira de Mário Soares e de Jorge Sampaio, ignorando que não é possível passar uma vida inteira a habitar o radicalismo para depois se reclamar como a representante confiável da esquerda moderada e bem comportada.
António Filipe refugiou-se na mais empedernida ortodoxia, tentando assim persuadir os simpatizantes do PCP de que o voto em qualquer outro candidato será uma rendição ao desprezível “consenso neoliberal”.
Jorge Pinto apareceu como o último recurso de um partido que preferia a unidade da esquerda e só apresentou um candidato próprio porque tinha mesmo de ser.
[https://observador.pt/opiniao/estas-presidenciais-vao-ser-as-eleicoes-do-voto-util/]