quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Vai ganhar. Mas ganha com restos, oportunismo e memória curta!

Seguro: é o candidato que ninguém quis — até precisar
Rejeitado pelo PS, vilipendiado pela esquerda e agora abraçado por oportunistas — uma vitória que nos pode sair cara.
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António José Seguro não regressou por redenção. Regressou por necessidade.
Foi rejeitado por António Costa, desvalorizado por Augusto Santos Silva, empurrado para fora pelo núcleo duro do PS e vilipendiado pela esquerda durante mais de 10 anos. Hoje, os mesmos ressuscitam-no porque precisam dele para travar a queda.
Entretanto, os ratos da direita abandonam à pressa os candidatos que apoiaram para jurar fidelidade a Seguro. Não por convicção — por medo.
Vai ganhar. Mas ganha com restos, oportunismo e memória curta.
E cada manobra destas empurra mais jovens para Ventura. Depois do tabu quebrado, não há regresso.
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[dedicado aos mais novos porque os velhos lhes vão branquear a história!]
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Para onde vais, António José Seguro?
O candidato que ninguém quis... até precisarem!
uma falsificação em curso que convém desmontar sem rodeios: a ideia de que António José Seguro representa uma continuidade natural do Partido Socialista ou uma espécie de reserva moral injustamente esquecida. Não representa. Seguro foi politicamente rejeitado, afastado e neutralizado pelo seu próprio partido, com método, nomes e intenções claras.
Não foi um acidente. Foi uma decisão.
A execução política de Seguro em 2014
Em 2014, quando António Costa desafia a liderança de Seguro, fá-lo com um argumento simples e devastador dentro do aparelho socialista: Seguro não ganhava eleições. Não tinha “pulso”, não tinha agressividade, não tinha capacidade de impor hegemonia à esquerda. Costa não disputou apenas uma liderança — disputou a legitimidade de Seguro como líder político.
O golpe foi total. Seguro não foi tratado como adversário interno respeitável, mas como um erro a corrigir. O partido alinhou rapidamente. O aparelho fechou-se. E o veredicto foi aplicado sem piedade: Seguro tornou-se politicamente dispensável.
os abraços de hoje
Entre os que contribuíram activamente para esse isolamento está Augusto Santos Silva, ideólogo maior do costa-centrismo. Nunca escondeu o seu desprezo político por Seguro, considerado insuficiente, mole, incapaz de impor respeito à direita e à esquerda. Santos Silva é hoje um dos rostos que surgem a legitimar Seguro — com a mesma convicção com que ontem o descartou.
Pedro Nuno Santos, então estrela em ascensão, representava já a ala que via Seguro como um obstáculo ao “novo PS”: mais ideológico, mais conflituante, mais disponível para entendimentos estruturais com a extrema-esquerda. Para esse sector, Seguro era um resíduo de um PS demasiado institucional.
No mesmo campo alinharam Mariana Vieira da Silva e Alexandra Leitão, figuras centrais do consulado Costa, que nunca esconderam preferência por um PS mais musculado, menos preso a equilíbrios e mais confortável com o radicalismo retórico. Seguro não encaixava. Foi politicamente asfixiado.
O resultado fala por si: António José Seguro afastou-se do Partido Socialista durante mais de dez anos. Não por escolha estratégica, não por pausa reflexiva, mas porque não lhe deixaram espaço político. Foi empurrado para fora com luvas de veludo e eficácia cirúrgica.
                                                                           O vilipendia-lo sistemático da esquerda
Durante essa década, a esquerda e a extrema-esquerda não se limitaram a ignorar Seguro. Vilipendiaram-no.
  • Para o Bloco, era um social-liberal frouxo.
  • Para o PCP, irrelevante.
  • Para o Livre, um passado ultrapassado.
Seguro foi apresentado como o exemplo do PS que não serve. Hoje, ironicamente, é o instrumento que permite à esquerda e à extrema-esquerda recuperar fôlego eleitoral, depois de uma sequência de perdas e irrelevâncias. O PS ganha oxigénio. O Bloco evita o colapso. O PCP adia a extinção simbólica. Tudo isto graças a um homem que foi desprezado por esse mesmo campo político.
Não há aqui reconciliação ideológica. Há utilização táctica.
Os ratos do centro-direita
Ao mesmo tempo, assiste-se a um espectáculo particularmente indecoroso: personalidades do centro-direita que até à véspera apoiavam Luís Marques Mendes ou João Cotrim de Figueiredo surgem agora a jurar fidelidade republicana a António José Seguro.
Não mudaram ideias. Mudaram de medo.
  • Medo do isolamento mediático.
  • Medo de não pertencer ao “lado certo”.
  • Medo de assumir escolhas fora do consenso imposto.
São ratos políticos, que abandonam o navio ao primeiro cálculo desfavorável. Mas o eleitor perceberá isso com uma clareza que os comentadores insistem em subestimar.
O efeito colateral: Ventura
Enquanto o sistema se fecha sobre si próprio, uma parte significativa do eleitorado jovem observa e conclui o óbvio: não há alternativa dentro do perímetro permitido. É nesse vazio que André Ventura cresce.
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Para uma geração que nunca viveu um PS moderado, que só conhece Sócrates e Costa, a narrativa do “regresso ao centro-esquerda responsável” soa a ficção tardia. O impulso dado a Seguro pode garantir a vitória imediata. Mas normaliza eleitoralmente o Chega no médio prazo. E depois do tabu quebrado, o voto repete-se com facilidade.

,,,mas Seguro vai ganhar!
Mas ganhará com os restos do sistema, com os que o rejeitaram ontem e com os que fogem hoje. E isso tem custos políticos que não desaparecem com discursos sobre estabilidade ou fantasmas do passado.