domingo, 18 de janeiro de 2026

Jornalismo, activismo e a tentação de substituir o leitor

O artigo de Miguel Morgado que serve de base a esta reflexão acerta num ponto essencial que muitos fingem não ver: a crise do jornalismo contemporâneo não é, antes de mais, tecnológica, nem resulta de um qualquer “algoritmo maligno”. É uma crise moral, epistemológica e, sobretudo, uma crise de missão. O problema não é o excesso de redes sociais; é a demissão de uma parte significativa do jornalismo da função que justificou, historicamente, a sua autoridade.
Durante décadas — séculos, mesmo — a imprensa foi uma das colunas mestras do regime das liberdades. Não porque “defendesse a democracia”, mas porque informava. Não porque educasse moralmente o cidadão, mas porque lhe fornecia matéria-prima factual suficiente para que pudesse formar o seu próprio juízo. O texto recorda bem que a imprensa não sobreviveu à erosão das restantes sedes de autoridade por acaso: sobreviveu porque se impôs como autoridade factual, e não como consciência política substituta.
É aqui que se dá a ruptura contemporânea. Quando o jornalista deixa de se ver como mediador da realidade e passa a encarar-se como “guardião da democracia”, o seu trabalho deixa de ser regido por critérios de verdade factual e passa a ser orientado por juízos normativos. O resultado é inevitável: selecção de temas, enquadramentos enviesados, silêncios estratégicos, amplificações artificiais. Tudo isto não em nome da verdade, mas em nome de uma causa — ainda que apresentada como nobre.
O artigo desmonta com clareza essa confusão fatal. Defender a democracia é um objectivo político legítimo, mas não é um critério jornalístico universal. O que um jornalista considera “defesa da democracia” será sempre discutível, contingente e ideologicamente marcado. Ao assumir esse papel, o jornalista abdica da única coisa que o distingue do activista: a suspensão do juízo político em favor da exposição rigorosa dos factos.

A consequência não é apenas teórica; é prática e visível. A perda acelerada de credibilidade dos media tradicionais não resulta de campanhas externas, nem de populismos digitais, mas da percepção crescente de que a informação deixou de ser apresentada como realidade a conhecer e passou a ser apresentada como realidade a interpretar “correctamente”. Quando isso acontece, o leitor deixa de confiar, não porque discorda das conclusões, mas porque percebe que alguém decidiu pensar por ele.
O exemplo de instituições outrora reputadas, como a BBC, ilustra bem este fenómeno. Ao assumirem explicitamente a missão de “defender a democracia”, acabaram por comprometer a sua própria autoridade factual. Não por conspirarem, mas por confundirem funções: trocaram a exigência da verdade pela pedagogia política.
Miguel Morgado lembra algo fundamental e hoje quase subversivo: a guarda da democracia
não pertence ao jornalista, mas ao cidadão. A imprensa serve a democracia quando informa; trai-a quando tutela. Nenhuma sociedade livre precisa de jornalistas-pastores a conduzir consciências; precisa de jornalistas rigorosos que aceitem a modéstia da sua função.
Num tempo exigente, em que a tentação de “fazer o bem” pela via da manipulação informativa parece irresistível, este texto cumpre uma função saudável e rara: recentra o debate onde ele sempre deveria ter estado. Não na moral do jornalista, mas na sua missão. Não na causa que defende, mas na verdade que relata.
A democracia não se protege infantilizando o público. Protege-se tratando-o como adulto. E isso começa, inevitavelmente, por um jornalismo que volte a saber o que é - e, sobretudo, o que não é.